Ditadores. Negócios Entre Chávez e Hitler, venha o diabo e escolha o fornecedor de gás natural!

Se eu tivesse que dar um conselho aos chefes da república dos portugueses, dir-lhes-ia que um diplomata até deve conversar com o diabo. Logo, acho normalíssimo que eles recebam o semi-índio venezuelano e que encene, com pompa e circunstância, um contrato de fornecimento de produtos petrolíferos, com eventuais garantias de não-perseguição a mais de meio milhão de portugueses e luso-descendentes. Ai da diplomacia de uma democracia pluralista que corte os canais de comunicação e de negócio com bem mais de metade da humanidade que não obedece aos nossos conceitos de poliarquia e de Estado de Direito. Dizer isto não significa que goste de ver um avozinho da democracia transformado em caixeiro viajante de uma companhia petrolífera, mesmo quando subscreve o velho ditado, segundo o qual o que é bom para a Galp é bom para a República Portuguesa. Porque o terei de comparar às incoerências do regime salazarento que tanto decretou luto nacional pela morte de Hitler, o tal que mandou assassinar o salazarista austríaco Dolfuss, como sempre manteve relações diplomáticas com o regime de Fidel de Castro. Não por causa daquilo que Sócrates também fez com Chávez, mas pelo discurso para consumo interno que produzia.  Aliás, não consta que o ministro e primeiro-ministro Mário Soares tenha alguma vez proposto o corte de relações diplomáticas com o regime de Augusto Pinochet. Ou que não tenha continuado a admirar Salvador Allende, ou a ser amigo do seu camarada socialista venezuelano Carlos Andréz Perez. Sempre gostei do Oliveira de Figueira e dos caixeiros viajantes da política, mas prefiro a liberdade de expressão das minorias.  Se eu fosse venezuelano também detestava Chávez. E não o justificava com a chegada ao poder pela via eleitoral, quase nas mesmas circunstâncias em que Hitler conquistou os aparelhos de repressão. Sou mais poliárquico do que democratista, pelo que só quero democracias que não sejam absolutistas, mas antes pluralistas e poliárquicas. Porque tanto pode haver absolutismos monárquicos de um só, como absolutismos democráticos, quando se tira o rei absoluto e se põe, em lugar do dito, o povo absoluto, produtor de terror. Por mim, só sou democrata se a democracia for liberal, conforme as tradições pluralistas que nos foram legados pela revolução inglesa, pela revolução norte-americana e pelas pós-revoluções demoliberais da história europeia e americana, ao Norte e ao Sul. Continuo malhadamente cartista e liberdadeiro. De outra maneira teria que subscrever o conceito de democracia de certos totalitarismos contemporâneos, marcados pelos sovietistas, pelos maoístas ou pela instrumentalização que os nazis fizeram do povo em movimento. Logo teria que admitir a hipótese de uma ditadura de uma vanguarda, de um Estado, de um partido único ou de uma maioria eleitoral conjuntural. Prefiro dizer democracia à Robert Dahl ou à Karl Popper: o problema fundamental das actuais democracias pluralistas e de Estado de Direito não é medir quem manda, mas controlar o poder daqueles que mandam, salvaguardando as minorias, isto é, permitindo que a liberdade as transforme, eventualmente, em futuras maiorias, isto é, admitindo os golpes de Estado sem sangue que resultam das alterações por via eleitoral.

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