Set 25

“O Mundo é hoje tão complexo e os desafios da economia global são tão grandes que precisamos da ajuda de todos…”

“O Mundo é hoje tão complexo e os desafios da economia global são tão grandes que precisamos da ajuda de todos…”, afirmou o presidente de uma certa petrolífera, elogiando o lóbismo de uma certa fundação, à saída de uma audiência de um certo presidente, que disse não querer ser rainha de Inglaterra, com outro ex-presidente, cada vez mais como a passada rainha-mãe, no mesmo dia em que mais outro presidente, não nacionalizado nem nosso, Ahmadinejad, do Irão, na Universidade de Columbia, proclamava: “Nós não temos isto em nosso país. Não sei quem lhe disse isso”. Por outras palavras, os devotos e puritanos ahmadinejadistas, se não recebem lóbis académico-petrolíferos, fazem lóbi junto de fundacionais universidades da globalização. Todos os loibos uivam, embora os nossos, no perder é ganhar tudo é desporto, nos tenham emocionado, e bem, com a simples restauração de um símbolo nacional, tal como Scolari, de outras eras, pôs milhares e milhares de outro símbolo, em nossas janelas e varandas. Até eu pus a azul e branca em minha casa da Junqueira, para provocar o meu vizinho belenense que tem Pátio dos Bichos.

 

 

 

 

Ao que consta, o iraniano não estava a referir-se aos quase oito mil militantes sociais-democratas dos Açores que não puseram as quotas em dia, mas que ainda as podem regularizar, alterando as regras do jogo, já quase nos últimos minutos da segunda parte, embora, para muitos outros, o princípio da igualdade levasse a que fossem menos iguais no impugnável acto. Porque “em democracia as coisas são assim. As pessoas discutem umas com as outras, têm divergências ou não, mas isso não tem nada a ver com as relações pessoais entre elas”. Talvez por isso é que as futebolistas “nuestras hermanas” do Torrejón, decidiram pedir subsídio às petrolíferas iranianas, pousando em privado olhar patrocinador, como mostra a imagem supra, que hoje ocupa as parangonas dos grandes jornais da globalização, a tal coisa tão complexa como os loibos que hoje vão defrontar a Roménia e que certamente não irão repetir a cena das torrejonetas.

Coisa que engenheirada por um lóbi energético sempre lhes poderia acrescentar o pecúlio de nosso tão complexo mundo, onde o último a rir que feche a porta. Os “cartoonistas” dinamarqueses e suecos que se cuidem. O prometido jogo de futebol para superar a crise do Médio Oriente, conforme proposta de Diogo Freitas do Amaral, já não é a prioridade das prioridades da nossa política externa. Mas um jogo em Teerão entre os lobos, trajados de forcado, e as torrejonetas, como vieram ao mundo, com o patrocínio de Madail, de fato e gravata, bem ajudava que discutíssemos as energias alternativas e as alterações climáticas, sem recurso a escutas da Universidade Independente ou a bagatelas de gémeos e mugawianos…

Set 25

Breves notas, mui metafísicas, contra os bacanais do ódio

Ontem, impressionou-me o discurso de Gordon Brown ao “Labour”. Não tanto pelo que disse e mais por aquilo que a cultura política do respectivo ambiente o obrigou a dizer. Disse o que poderia dizer um “tory”, pelas mesmas razões que levam a que as ideologias passem e as culturas fiquem, quando assumem que só é novo aquilo que se esqueceu, porque só é moda aquilo que passa de moda. De facto, não há pensamento sem pátria, sobretudo entre os filhos da primeira das revoluções atlânticas que conseguiu ser eficaz porque, como ensina Hannah Arendt, foi uma revolução que fez o exacto contrário de uma revolução. As revoluções apenas servem para que os escravos prefiram a utopia, dos sítios sem lugar, à subversão da justiça e à eficácia das reformas. Pior ainda são os serôdios revolucionários frustrados que, decretinamente, nos despacham contra a lei e o direito, cumprindo aquela previsão do meu saudoso amigo Mário Sottomayor Cardia, quando falava na subversão a partir do aparelho de poder… Porque os nomes nunca conseguiram fazer a coisa, eis que o hábito de reformador, mesmo que usado por um revolucionário arrependido, não gera, por si mesmo, o monge criador de qualquer “ratio studiorum”, sobretudo quando esta impõe que se faça crescer para cima e para dentro. Há palavras que só podem acontecer, sentidamente, quando se vive como se pensa. E há dias de, assim, viver o segredo de viver. Dias em que voltamos ao prazer da criação. Dias de olhar quem somos, em sinfonia. Neste esvoaçar da metafísica de um som que nos dá sonho. Para colhermos, na emoção da paisagem, uma simples semente de liberdade. Há dias peregrinos, de todo o mundo ser espaço de passeio, neste caminhar por caminhar, sem procurar chegar. Há dias de sorver todo o azul que nos trouxe o tempo de mudança, dias de viver inteiro, sem que os muros nos detenham. Porque hoje não apeteceu sulcar os meandros eruditos, académicos de tantos livros que não li. Preferi recordar Antígona: não nasci para odiar, mas para amar. Há húmidos caminhos do sublime, esse fluido dos deuses onde, vencendo os limites, não varamos as regras eternas e imutáveis que ninguém sabe como surgiram e que, de nenhum decreto, tiveram vigência. É esse o sinal distintivo da criação. Que seria de nós, simples mortais, se não ousássemos, de vez em quando, o mais além? Sem esse prazer de viver, viver não teria sentido… Sou tanta gente antes de mim que, quando por mim dentro me procuro, é em todos os outros que me confundo. E assim, com os outros, em comunhão, sou bem mais do que me penso. O antigo já foi moderno, de que o moderno há-de ser antigo. Só há o verdadeiro no tempo, mas fora do tempo…

Set 23

Quando os moribundos voltam a ser aparições… o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido

Com o bastonário dos nossos advogados a assumir-se como arrazoador de uma das partes do mais mediático e global dos processos de investigação policial da nossa história, onde os respectivos pergaminhos penalistas garantem a natural imparcialidade da pessoa colectiva pública que representa, resta-nos comentar a gestão da carreira de José Mourinho. Apenas reparo como toda esta sucessão de disfuncionalidades já transformou o nosso sistema de gestão da democracia num espaço de cadáveres adiados que procriam os métodos de “killer instinct” dos perfumados abutres que aguardam, por trás do reposteiro, o momento exacto para que, mais uma vez, Talleyrand coloque no trono um qualquer pateta que lhe possa manter o estatuto de traidor perpétuo.

Set 21

Não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las

Depois da tempestade com que trovejou o começo da noite, chega a bonança da madrugada, as ruas lavadas, o ar limpo e o silêncio que precede o bulício da cidade. Já mergulhado em plena “rentrée”, apenas tenho saudade dos passeios que dei no Parque do Castelinho, da mochila, das sapatilhas dos “jeans”, ouvindo as rolas e as gaivotas e o som dos galos de além fronteira. Recordo o lançador de morteiros à beira-rio, na festa de nossa Senhora da Ajuda, a azáfama das zeladoras dos altares de rua e os mordomos e mordomas que desenhavam flores diante da Igreja, usando chá verde, segundo as técnicas das mandalas budistas. Por isso tento esquecer os bacanais de ódio que certa face invisível do poder estabelecido costuma provocar, esquecendo-se que assim se gasta pelo mau uso e se prostitui pelo abuso, quando coloca os instrumentos aparelhísticos disponíveis a nível da cloaca. Apenas noto, como dizia mestre Herculano, ao definir o essencial de um liberal: “Há uma cousa em que supponho que ate os meus mais entranhaveis inimigos me fazem justiça; e é que não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las”….. Repito o que já aqui observei: tudo parece continuar como dantes, entre aqueles resignados cujo destino sempre foi o de comer chicote, calar cenoura e esperar por mais, admitindo a hierarquia dos filhos e enteados, especialmente quando quem manda depende do levantamento mediático que instrumentaliza o pedibola, ou que faz assentar o financiamento partidário na barganha dos resultados e das arbitragens, nesse conúbio mesquinho onde continua a pagar o justo pelo pecador, para gáudio místico dos vendedores da banha da cobra, que tanto comentam a encíclica como o défice, como se Jesus Cristo percebesse alguma coisa de finanças. E quase apetece passar para o estado de activa intolerância face aos hipócritas e falsários que, refugiados no colectivismo moral da seita em que se inscreveram, nos querem condenar às grades da dependência. Os restos da sociedade de Corte provindos do salazarismo têm redobrado de actividade. Sabem que o poder em Portugal não é uma coisa que se conquiste, mas uma teia de relações de cumplicidade, quase todas discretas e algumas delas secretas. Utilizando a linguagem de Michel Foucault, podemos dizer que há uma rede de micropoderes, de poderes centrífugos, locais, familiares e regionais, com uma variedade de conflitos, dotados de articulações horizontais, onde também surge uma articulação vertical, uma integração institucional dos poderes múltiplos tendente para um centro político, para um poder centrípeto. E entre esses vários micropoderes feudais e patriarcais, importa salientar os chamados poderes difusos que actuam pela persuasão e pela sedução, onde, para além dos controlos dos meios de comunicação social, há que salientar os gestores de conversas de salão, gabinete e conferências, desses pretensos “gurus” que, pintando-se de “mahatmas”, não passam de almas policiescas, ávidas do caceteirismo expurgatório. Por mim, resisto. Há sempre o tal poder que, segundo Robert Dahl, é “qualquer meio pelo qual uma pessoa pode influenciar o comportamento de outra”. Em sentido amplo, qualquer meio utilizado por um actor para aumentar as suas possibilidades de atingir o objectivo pretendido. Um meio de que dispõe o sistema político para transformar os “inputs”, das reivindicações aos apoios, em “outputs”, em decisões.

Set 20

O Estado já não somos nós…

Ontem e anteontem, em termos futebolísticos, perdemos quase tudo e não ganhámos em nada. Até José Mourinho foi despedido pelo russo que manda no Chelsea. O reitor dos reitores acusa o governo de estrangular as universidades e uma universitária de Coimbra parece ter sido degolada por ciúmes. Aquilino já repousa no Panteão, enquanto teorias da conspiração de há mais de um século tudo reduzem ao “simplex” maniqueísta de republicanos contra monárquicos, ou do bem contra o mal. O parlamento reabre e tenta fintar o óbvio: grande parte dos portugueses não é situacionista nem oposicionista, mas cada vez mais indiferentista, ainda sem exibir o gesto de revolta do Zé Povinho. É assim o homem comum dos tempos de decadência. Fecha-se sobre si mesmo, faz cálculo utilitário e procura o máximo de prazer com um mínimo de dor. Diz que a política é para os políticos, descrevendo-a como uma guerrazinha dos homenzinhos que andam lá pelas alturas. E assume o abstencionismo activo. O problema é deles, dos que brincam ao chicote acenourado, porque “L’État c’est lui”. O Estado é um inferno dos outros que nos pode queimar. O novo Código do Processo Penal é deles, foram eles que o fizeram, são eles que agora gastam energias em discussões do sexo dos anjos. Eles, a corporação dos políticos instalados, eles a corporação dos operadores judiciários, os magistrados, os advogados, os polícias, os funcionários judiciais, os governantes, os deputados. A administração da justiça em nome do povo já não é do povo, mas das enferrujadas canalizações da nossa representação política, desses filhos de algo que estão instalados lá nas alturas. O Estado já não somos nós. Entretanto, vai decorrendo o processo eleitoral polaco, a preparação do ambiente que pode ou não levar ao Tratado de Lisboa. A Europa também é deles. E o Tratado quase a mesma coisa que o nosso Código do Processo Penal. Ambos podem ser excelentes diplomas, mas estão cheios dos ácaros das negociações de alcatifa. Quando, afinal, o que pode estar em causa são as relações entre antigas superpotências e, sobretudo, o processo de renegociação do novo acordo comercial entre a União Europeia e Moscovo.

Set 19

Haverá actos de violência menos violentos do que certos estados de violência?

No dia em que os restos corporais de Aquilino são recolhidos no Panteão Nacional de Santa Engrácia, num gesto simbólico de homenagem a que me associo, sermos pátria seria colocar sob o mesmo manto de comunhão os restos de el-rei D. Carlos, para definitivamente enterrarmos o magnicídio de 1908, porque o ricochete desse acto acabou por matar o Sidónio Pais em 1918, por produzir a Noite Sangrenta de 1921 e o assassinato cobarde de Humberto Delgado em 1965. No século XX, todos matámos e morremos. Já chega! Por isso, prefiro recordar o perfume de palavras de paz que nos trouxe a visita do Dalai Lama. O mesmo que veio dizer que os portugueses não têm que ser budistas, sugerindo que peregrinemos pelas nossas raízes a fim de redescobrirmos as tradições que nos podem dar futuro. Mas acrescentando que todas as religiões, incluindo a dele, se assumem como uma verdade absoluta, pelo que cada uma delas está condenada a respeitar as outras. Por isso não vou falar de fantasmas carbonários ou preconceitos buissidentes, porque teria de fazer uma comparação entre religiões universais e religiões seculares. Porque nisto de confrontarmos absolutismos já tivemos Tárique antes de haver cruzadas, conquistas de mouros antes de haver monarquia da reconquista, donde até se fez Portugal. Tal como houve Inquisição e queima de igrejas, judeus baptizados à força no Palácio dos Estaus e mártires cristãos. Até o Dalai Lama ainda não excomungou a guerrilha tibetana contra o ocupante chinês, falando antes, e justamente, na tortura a que são sujeitos os seus fiéis, quando procuram exercer a liberdade de expressão contra a morte lenta do genocídio cultural, a que a paciência pós-totalitária condenou o Tibete. Claro que aprendo mais com o Dalai Lama do que com o secretário-geral do PCC. Claro que prefiro o budismo ao confucionismo vestido de marxista-lenininista-dengpiaoista. Mata menos. Mas também mata, nem que seja para sobreviver. Porque todas as religiões universais admitiram guerras santas, expressa ou tacitamente. E sempre em nome do que, um dia, proclamou um conhecido teólogo da libertação, bispo católico: há actos de violência menos violentos do que certos estados de violência. E foi em nome deste silogismo escolástico que surgiram as justas resistências aos totalitarismos. É em nome deste absolutismo que se fez a Guerra do Iraque. Não conheço filósofo que tenha resolvido o paradoxo destes passados reais. Todos gravitamos em torno da polarização que vai da ética da convicção à ética da responsabilidade. Porque se estes nos dizem que podemos perder a alma para salvar a cidade da Razão de Estado, outros há que, querendo viver como pensam, vão para o “ashram” dar o exemplo, antes que um qualquer fundamentalista o assassine cobardemente. Por mim, não tenho latim que me permita candidatar àquele Prémio Nobel da Paz que vai ornando o “curriculum” de alguns antigos terroristas.

Set 18

Mais um protesto liberal contra o capitalismo sem alma a que chegámos…

O Dalai Lama, o Papa de Roma, um ilustre rabino ou um teólogo islâmico são vozes daquele passado presente que nos dão semente de futuro para aquilo a que muitos chamam Espírito. Todos reforçam aquela componente de humanismo de que carece a presente sociedade de casino deste capitalismo que, perdendo as suas raízes de ética protestante e de uma concepção liberal do mundo e da vida, deixou de ter alma.

 

 

 

 

O tal capitalismo dominante chama-se, na China, Partido Comunista; na ex-URSS, Putine; por estas bandas, bloco central, entre o, agora, badalado Paulo Teixeira Pinto, e o, agora, silencioso, Pina Moura. Daí que subscreva palavras de Henrique Neto, noutro dia, na televisão, quando dizia que o pior que nos tem acontecido é misturarmos a ignorância com o poder, com Joaquim Aguiar, ao lado, a explicar, mais uma vez, como o actual sistema partidocrático está rigidamente cadavérico, porque o bloqueio existente apenas é o que melhor serve a plural rede de interesses que o sustenta.

 

 

 

 

Claro que tanto não sou situacionista como não alinho nas lamúrias ideológicas da globalização alternativa à Porto Alegre, que tem candidatos e gurus do Bloco de Esquerda como porta-vozes e profetas. Muito menos, quero ficar entalado entre o Engenheiro Ângelo Correia e o banqueiro Manuel Dias Loureiro, cada qual com o seu luizinho, tal como não me iludem as sucessivas novas tecnologias porteiras. Isto é, não me satisfazem as bissectrizes deste paralelograma de forças e até já não tenho idade para comer ideologias, incluindo a que já pensei ser minha. Sobretudo, as que retomam o suicidário dos confrontos maniqueístas entre a direita e a esquerda, sem quererem olhar de frente a complexidade do real, que continua a ser desfocado pelas lentes de um perspectivismo que não consegue assumir a coragem da aventura e do pragmatismo.

 

 

 

 

Há momentos de encruzilhada em que sentimos que chegou ao fim o ciclo do interregno. Porque, quando os gestores do “agenda setting” ocuparam o lugar dos anteriores “opinion makers”, a opinião pública ficou obrigada a navegar à vista das sucessivas vagas sensacionalistas. Logo, tornou-se inevitável que o presente Estado-Espectáculo ficasse mero teatro de marionetas, com muitos discursos comunicacionais de mera literatura de cordel e outros tantos bobos e fantoches que vão recolhendo os restos das orgias da corte.

 

 

 

 

 

 

De pouco vale que a opinião crítica, dos que pensam de forma racional e justa, tente resistir a este rolo compressor, onde o que parece, e aparece, são aquilo que realmente se oferece ao consumidor de audiências, com os seus figurantes de prós e contras. Ninguém já consegue furar o bloqueio deste poder infra-estrutural que marca a encenação dominante, até porque ela está totalmente dependente daqueles donos do poder que sempre nos condicionaram, desde que fingimos que já não existia o chicote do absolutismo.

 

 

 

 

Ninguém duvida que o “despotismo” do poder económico, medido pelo “ter”, controla o “ser”. Basta notar como o dito condiciona o poder político e meceniza a opinião crítica publicável, incluindo a que se dispõe a dar, aos distribuidores de avenças e subsídios, o iluminista manto diáfano daquela ilusão que lhes disfarça as verdades.

 

 

 

 

Até os antigos refúgios pluralistas do passado se vão extinguindo em regime de morte lenta, como acontece com os espaços universitários, ao serem enredados por uma estadualização que agora está cativa do neofeudalismo e do poder bancoburocrático, os quais, dividindo para reinar, vão asfixiando a revolta dos homens livres, livres da finança e dos partidos, como devia ser uma parcela significativa da chamada autonomia da sociedade civil e dos indivíduos.

 

 

 

 

E lá voltamos à decadente ditadura da incompetência, com muitos bailados de bonzos, endireitas e canhotos, os quais ainda continuam a canalizar a representação dos incautos para um clube de reservado direito de admissão a que o ministro da justiça, ontem, qualificou como “comunidade política”, a que aprovou o vigente Código do Processo Penal, agora em conflito com a chamada “comunidade jurídica”, como se a justiça tivesse que estar dependente de tal contrato de barganhas, só porque houve um pacto feudal de controlo da crise entre o PS e o PSD, com a benção presidencial. Esses venerandos e reverendos cardeais que, em suas sacristias e concílios, não reparam que precisam de um venerandíssima e reverendíssima reforma que os remeta para a categoria dos infuncionais. Obrigado, Dalai Lama!

Set 18

Esta é a história de um lugar mágico que encontrei. Um lugar onde o tempo se vive ao contrário…

Reparei que na definição distribuidora de dinheiros públicos para a ciência, na selecção dos melhores artistas, ou na escolha do desporto que a televisão propagandeia, há sempre uma espécie de júri oculto que, ora, aposta no “futsal” ou no “futebol de praia”, ora prefere os comentários de Seara e Dias, ora segue os discípulos deste ou daquele mestre-pensador, para o estabelecimento dos critérios que permitem dizer quais os que, nesta “animal farm”, são mais iguais do que outros. Por isso é que, de repente, surge uma lei de revisão do processo penal, subscrita pelo Bloco Central, a partir da escolha ministerial de um qualquer grupo de missão, apoiada por quase todos os partidos parlamentares que, depois de entrar em vigor, leva a que surja um clamor público de revolta por parte dos principais operadores judiciários. Talvez fosse melhor encomendá-la a um desses escritórios multinacionais de advocacia que, depois, até poderiam fazer propaganda institucional da coisa no respectivo “portefólio”. Quando os seleccionadores do paradigma dominante dependem da decretina escolha de um qualquer vértice burocrático, temos de concluir que mandam aqueles grupos de interesse e aqueles grupos de pressão do nosso neocorporativismo que conseguem conquistar o despacho estadual que estabelece quais os animais desta “animal farm” que passam a ser mais iguais do que os outros, na definição do melhor lugar na mesa do orçamento. Fui depois almoçar com a minha tribo, entre a qual se encontram três filhos, situados na geração que vai dos vinte aos trinta anos, todos em juventude profissional, todos sem qualquer cunha  paternal, todos em recibos verdes, entre jovens “webmasters”, jovens cientistas das ciências ditas exactas e jovens clínicos do terreno. E todos foram contando da globalização real onde têm de concorrer, dos “callcenters” de Lisboa, dos varredores de ruas com que se encobrem programas estaduais de apoio científico ao ambiente, das provetas e dos microscópios, também dependentes do subsídio e da engenharia do neofeudalismo dos favores. Estavam gentes de variados países e continentes e estava eu, que, sabendo que nada sei, já concluí que tem razão aquele meu velho mestre, quando um dia disse que, em todas as constituições reais, há sempre uma constituição oculta: a que estabelece o critério oculto com que se mede a igualdade, para que alguns continuem mais iguais do que outros. Infelizmente, desse Hayek, acabei por divergir, quando, na prática, descobri que o capitalismo pode ser inimigo do liberalismo, especialmente se reduzirmos o primeiro ao capitalismo de Estado, gerido por pretensos socialistas e sociais-democratas do Bloco Central de interesses, com porteiros a aprovarem Códigos de Processo Penal, suscitados por um discurso presidencial. Meditando nessas grades de paradigmas que nos dominam, confirmei que, em Portugal, o problema está sempre na abstracta madailização que tem força para escolher os seleccionadores do critério. Nesse real herdeiro do absolutismo Pombalino, pintado de democrata, que, quando manda, mantém o ritmo fidalgote de escolha paroquial e endogâmica, dizendo quem é o “who is who?” da sociedade civil que pode sentar-se na mesa do orçamento. Especialmente neste país onde, raspando o verniz da democracia pluralista, persistem os preconceitos e os fantasmas inquisitoriais, Pombalinos e salazarentos, do colectivismo das seitas, sejam de esquerda ou de direita, mesmo que aliem filhos da extrema-esquerda com sobrinhos da extrema-direita. Por isso é que quando consultei a lista de certo universo de colocados em determinados cursos do chamado ensino superior público, reparei que nem dez por cento o fizeram em primeira escolha, a da vocação. Alguns, infelizmente, irão, sem sonho, continuar o ritmo sebenteiro, onde muitos lentes lhes irão ler chouriçadas de palha, ao ritmo da tradução em calão, medindo-os pelos critérios de determinação do QI, ultrapassados há décadas, sem uma daquelas pintas de criatividade que os permitiram educar para a mudança. O pior é quando o sistema dos sistemas, onde se vão inserir, passa a depender daqueles planeamentistas que nos querem tornar numa qualquer subúrbio indiano, coreano ou chinês, dado que abdicaram da urgente estratégia nacional de formação de uma elite de sonhadores activos, visando a criação de um “software” que não nos reduza à fabricação do proletariado intelectual que tem como principal objectivo a obtenção de um recibo verde dos “callcenters” das multinacionais especialistas em deslocalizações.

Set 18

O Dalai Lama, o Papa de Roma, um ilustre rabino ou um teólogo islâmico

O Dalai Lama, o Papa de Roma, um ilustre rabino ou um teólogo islâmico são vozes daquele passado presente que nos dão semente de futuro para aquilo a que muitos chamam Espírito. Todos reforçam aquela componente de humanismo de que carece a presente sociedade de casino deste capitalismo que, perdendo as suas raízes de ética protestante e de uma concepção liberal do mundo e da vida, deixou de ter alma. O tal capitalismo dominante chama-se, na China, Partido Comunista; na ex-URSS, Putine; por estas bandas, Bloco Central, uma mistura de ignorância e poder, que está rigidamente cadavérico, porque o bloqueio existente apenas é o que melhor serve a plural rede de interesses que o sustenta. Claro que tanto não sou situacionista como não alinho nas lamúrias ideológicas da globalização alternativa à Porto Alegre, que tem candidatos e gurus do Bloco de Esquerda como porta-vozes e profetas. Isto é, não me satisfazem as bissectrizes deste paralelograma de forças e até já não tenho idade para comer ideologias, incluindo a que já pensei ser minha. Sobretudo, as que retomam o suicidário dos confrontos maniqueístas entre a direita e a esquerda, sem quererem olhar de frente a complexidade do real, que continua a ser desfocado pelas lentes de um perspectivismo que não consegue assumir a coragem da aventura e do pragmatismo. Há momentos de encruzilhada em que sentimos que chegou ao fim o ciclo do interregno. Porque, quando os gestores do “agenda setting” ocuparam o lugar dos anteriores “opinion makers”, a opinião pública ficou obrigada a navegar à vista das sucessivas vagas sensacionalistas. Logo, tornou-se inevitável que o presente Estado-Espectáculo ficasse mero teatro de marionetas, com muitos discursos comunicacionais de mera literatura de cordel e outros tantos bobos e fantoches que vão recolhendo os restos das orgias da corte. De pouco vale que a opinião crítica, dos que pensam de forma racional e justa, tente resistir a este rolo compressor, onde o que parece, e aparece, são aquilo que realmente se oferece ao consumidor de audiências, com os seus figurantes de prós e contras. Ninguém já consegue furar o bloqueio deste poder infra-estrutural que marca a encenação dominante, até porque ela está totalmente dependente daqueles donos do poder que sempre nos condicionaram, desde que fingimos que já não existia o chicote do absolutismo. Ninguém duvida que o “despotismo” do poder económico, medido pelo “ter”, controla o “ser”. Basta notar como o dito condiciona o poder político e meceniza a opinião crítica publicável, incluindo a que se dispõe a dar, aos distribuidores de avenças e subsídios, o iluminista manto diáfano daquela ilusão que lhes disfarça as verdades. Até os antigos refúgios pluralistas do passado se vão extinguindo em regime de morte lenta, como acontece com os espaços universitários, ao serem enredados por uma estadualização que agora está cativa do neofeudalismo e do poder banco-burocrático, os quais, dividindo para reinar, vão asfixiando a revolta dos homens livres, livres da finança e dos partidos, como devia ser uma parcela significativa da chamada autonomia da sociedade civil e dos indivíduos. E lá voltamos à decadente ditadura da incompetência, com muitos bailados de bonzos, endireitas e canhotos, os quais ainda continuam a canalizar a representação dos incautos para um clube de reservado direito de admissão a que o ministro da justiça, ontem, qualificou como “comunidade política”, a que aprovou o vigente Código do Processo Penal, agora em conflito com a chamada “comunidade jurídica”, como se a justiça tivesse que estar dependente de tal contrato de barganhas, só porque houve um pacto feudal de controlo da crise entre o PS e o PSD, com a benção presidencial. Esses venerandos e reverendos cardeais que, em suas sacristias e concílios, não reparam que precisam de um venerandíssima e reverendíssima reforma que os remeta para a categoria dos infuncionais. Obrigado, Dalai Lama!

Set 16

O acesso ao ensino superior

Precisando o meu postal anterior sobre as contas do acesso ao ensino superior, numa área disciplinar que conheço por dentro, estive a discriminar as sete universidades públicas que oferecem licenciaturas em tal universo e verifiquei que, dos quase quatrocentos colocados, apenas pouco mais de duas dezenas o fizeram em primeira opção. Qualquer avaliação da floresta, deveria cuidar-se com um pouco bom senso e menos anúncios coloridos sobre as árvores, as ramagens e os floreados da dita. Por mim, se tivesse que dar parecer experimentado e titulado sobre a matéria, concentrava a oferta pública continental em duas ou três unidades e reduzia as vagas a cerca do dobro das vocações manifestadas, criando concorrencialidade e mobilidade de docentes, através de efectivo concurso público nacional, livre de endogamias, carreirismos e clientelismos, neste misto de mercado, proteccionismo e planeamentismo em que vamos vivendo, onde os troncos comuns disfarçam emigrações carreirísticas. O produto público oferecido poderia assim estar de acordo com a dimensão do país e atender à empregabilidade, enquanto o restante poderia ser espaço de competição para o ensino não público, marcado pela exclusividade das dedicações profissionais. Julgo que, por enquanto, uma “revogada” assembleia de representantes, da presente “vacatio legis”, participada por docentes, funcionários e estudantes, mesmo que seja contra a opinião dos conselhos científicos, até pode emitir diplomas que alteram especialidades, incluindo as publicamente concursadas, enquanto também cria novos quadros de grupos de especialidades, numa pedagógica fragmentação, à custa do Orçamento de Estado, que tem funcionado segundo o ritmo da capitação. Julgo que li o tal diploma regulamentar num “Diário da República”, tudo ao abrigo da lei velha, já depois da nova lei ser aprovada. Aliás, ainda ontem consultei um pequeno livro do “Forum Estudante” de 2005, onde, expressamente e com assinatura, emiti esta posição, que também repeti formalmente na comunicação que apresentei no 10º aniversário de uma dessas licenciaturas, na Universidade Nova de Lisboa. Julgo que ainda tenho direito a esta eventualmente incómoda liberdade de expressão.