Reparei que na definição distribuidora de dinheiros públicos para a ciência, na selecção dos melhores artistas, ou na escolha do desporto que a televisão propagandeia, há sempre uma espécie de júri oculto que, ora, aposta no “futsal” ou no “futebol de praia”, ora prefere os comentários de Seara e Dias, ora segue os discípulos deste ou daquele mestre-pensador, para o estabelecimento dos critérios que permitem dizer quais os que, nesta “animal farm”, são mais iguais do que outros. Por isso é que, de repente, surge uma lei de revisão do processo penal, subscrita pelo Bloco Central, a partir da escolha ministerial de um qualquer grupo de missão, apoiada por quase todos os partidos parlamentares que, depois de entrar em vigor, leva a que surja um clamor público de revolta por parte dos principais operadores judiciários. Talvez fosse melhor encomendá-la a um desses escritórios multinacionais de advocacia que, depois, até poderiam fazer propaganda institucional da coisa no respectivo “portefólio”. Quando os seleccionadores do paradigma dominante dependem da decretina escolha de um qualquer vértice burocrático, temos de concluir que mandam aqueles grupos de interesse e aqueles grupos de pressão do nosso neocorporativismo que conseguem conquistar o despacho estadual que estabelece quais os animais desta “animal farm” que passam a ser mais iguais do que os outros, na definição do melhor lugar na mesa do orçamento. Fui depois almoçar com a minha tribo, entre a qual se encontram três filhos, situados na geração que vai dos vinte aos trinta anos, todos em juventude profissional, todos sem qualquer cunha paternal, todos em recibos verdes, entre jovens “webmasters”, jovens cientistas das ciências ditas exactas e jovens clínicos do terreno. E todos foram contando da globalização real onde têm de concorrer, dos “callcenters” de Lisboa, dos varredores de ruas com que se encobrem programas estaduais de apoio científico ao ambiente, das provetas e dos microscópios, também dependentes do subsídio e da engenharia do neofeudalismo dos favores. Estavam gentes de variados países e continentes e estava eu, que, sabendo que nada sei, já concluí que tem razão aquele meu velho mestre, quando um dia disse que, em todas as constituições reais, há sempre uma constituição oculta: a que estabelece o critério oculto com que se mede a igualdade, para que alguns continuem mais iguais do que outros. Infelizmente, desse Hayek, acabei por divergir, quando, na prática, descobri que o capitalismo pode ser inimigo do liberalismo, especialmente se reduzirmos o primeiro ao capitalismo de Estado, gerido por pretensos socialistas e sociais-democratas do Bloco Central de interesses, com porteiros a aprovarem Códigos de Processo Penal, suscitados por um discurso presidencial. Meditando nessas grades de paradigmas que nos dominam, confirmei que, em Portugal, o problema está sempre na abstracta madailização que tem força para escolher os seleccionadores do critério. Nesse real herdeiro do absolutismo Pombalino, pintado de democrata, que, quando manda, mantém o ritmo fidalgote de escolha paroquial e endogâmica, dizendo quem é o “who is who?” da sociedade civil que pode sentar-se na mesa do orçamento. Especialmente neste país onde, raspando o verniz da democracia pluralista, persistem os preconceitos e os fantasmas inquisitoriais, Pombalinos e salazarentos, do colectivismo das seitas, sejam de esquerda ou de direita, mesmo que aliem filhos da extrema-esquerda com sobrinhos da extrema-direita. Por isso é que quando consultei a lista de certo universo de colocados em determinados cursos do chamado ensino superior público, reparei que nem dez por cento o fizeram em primeira escolha, a da vocação. Alguns, infelizmente, irão, sem sonho, continuar o ritmo sebenteiro, onde muitos lentes lhes irão ler chouriçadas de palha, ao ritmo da tradução em calão, medindo-os pelos critérios de determinação do QI, ultrapassados há décadas, sem uma daquelas pintas de criatividade que os permitiram educar para a mudança. O pior é quando o sistema dos sistemas, onde se vão inserir, passa a depender daqueles planeamentistas que nos querem tornar numa qualquer subúrbio indiano, coreano ou chinês, dado que abdicaram da urgente estratégia nacional de formação de uma elite de sonhadores activos, visando a criação de um “software” que não nos reduza à fabricação do proletariado intelectual que tem como principal objectivo a obtenção de um recibo verde dos “callcenters” das multinacionais especialistas em deslocalizações.