Nestes reinos da quotidiana, horária e semi-horária hiperinformação, onde todos somos agentes da Judiciária ou treinadores de sofá, também todos pudemos assistir, em directo, à verdadeira “mentira” do fora de jogo de um esboço de murro que talvez tenha apenas arranhado “um pouquito” quem queria agredir o “menino”. Por outras palavras, o senhor Felipão, talvez em homenagem à visita do Dalai Lama, caiu na esparrela de responder a uma eventual provocação e abandonou a sua posição de autoridade, para entrar nos terrenos movediços do poder do murro, isto é, deixou de ser o “mister”, o “professor”, o “coacher” e encenou uma imagem de agressor que agora ocupa todas as parangonas. A rapidez com que se passa de bestial a besta, ou de engraxado a punido, é facilmente demonstrada pela ligeireza com que agora se analisam as vulutas cerebrais de um qualquer mediático exótico que nos tenha visitado, neste ambiente de “voyeurismo”. Como já escrevi há uns anos, tanto não tenho jeito para Sancho Pança, como também prefiro usar a lança da palavra, não contra moinhos de vento, mas contra as vacas sagradas que nos continuam a poluir. Não quero é abdicar daquele supremo direito da cidadania que é a liberdade de expressão, mesmo que continue a ter razão antes do tempo e que sofra alguns incómodos de vingativos salazarentos reciclados pela mentira. Neste sentido, julgo que seria uma ilusão tirar-se um bode expiatório da cena, mantendo os bastidores que o sustentam e os autores do guião de que ele é mero executante. Não vale a pena tratar as moscas com insecticida se permanecer, no ambiente, a fonte poluidora de que elas se alimentam.
O Estado à Procura do Político. Metodologias da Ciência Política
Começa a fazer-se luz sobre certa coincidência entre o apagão do CEPP e outro acaso. Descobri-o há minutos, com alguns anedóticos recortes. Com efeito, às 14 horas e 59 minutos enviei um SMS ao chefe de secretaria da minha escola, onde enunciava o seguinte: Meu caro. Seria possível avisar-me quando o meu último livro estiver impresso, dadas as actuais circunstâncias em que vivemos? Há alguns minutos, muitas horas depois, o funcionário comunica-me: Mas ele já saiu há duas semanas… E eu dei ordens para que o informassem… Claro que ninguém mo comunicou. Sou persona non grata para tais chefias. Com muito orgulho.
Sorri e compreendi. O editor é o ISCSP. E também há duas semanas deve ter acontecido o apagão. O livro é simples. Trata-se de uma parcela do meu relatório de agregação de há cerca de uma década. Por acaso, deve ser o primeiro relatório do género publicado em cem anos de escola. Repeti o que fiz para o relatório de professor associado, também pioneiro na minha escola. Porque os documentos que firmam provas académicas não devem ser endogamicamente clandestinos.
Também devo ser pioneiro nestes esquecimentos. Deve ter sido a primeira vez em que um meu editor se “esqueceu” de avisar este autor de uma publicação. Os leitores destas “Metodologias da Ciência Política” vão perceber a causa destas azáfamas dos mensageiros do editor. E, por isso mesmo, tentarei fazer um pequeno lançamento significativo. Como espero que o mesmo editor me indique se mantém o compromisso de editar o segundo volume, conforme foi solenemente prometido…
Foi no apagado CEPP que surgiu a primeira edição parcelar da obra.
Quando os antigos lacaios do passado situacionismo se reconvertem, pela calada da sacristia, nos manobradores mentais do novo polvo
Pensava eu que ainda teria mais uns dias longe da rotina das indecisões dos burocratas preenchedores dos longos alçapões dos conceitos indeterminados e das cláusulas gerais, esses portadores de novos sinais de neo-riquismo que ocuparam este vazio de justiça que marca o pronto-a-vestir do nosso querido Estado de Direito pós-autoritário e pós-revolucionário, onde não há autoridade e nem todos comem. Mas, de um momento para o outro, lá tive que aturar as consequências manipuladoras das chamadas reformas estruturais, alinhavadas pelos disponíveis que nos ficaram da falência do planeamentismo, esses que ainda mantêm as sebentas dos frustrados apontamentos de burocracia de ciência, educação e cultura, onde vão semeando crisálidas de colectivismo adocicado pelos oportunismos carreirísticos. Esses que não se apercebem que a principal riqueza de Portugal sempre esteve na autonomia criativa do português à solta, livre das teias do feudalismo, da cavalariça e das sacristias, desse homem revoltado e construtor de novos mundos que ainda não conseguiu que tanto a constituição material como as constituições escritas consagrassem o necessário articulado do direito à felicidade, típico dos sonhadores activos que vão fundando novos reinos na respectiva procura do paraíso. Infelizmente, as agências de recrutamento e de comunicação das classes dominantes, entre filhos de algo, antigos detentores de colonia, sobrinhos de inquisidores e masturbadores de vaidades e invejas, preferem os cinzentões lacaios desta federação de capitaleiros castíferos, à procura de avença e de vitalício posto de vencimento, com muitas prateleiras de fichas estalinistas, para gáudio de espiões desempregados, com “hackerzinhos” de trazer por casa, e imensos sinais de desvio de subsídios e prebendas da mão morta. O culto das pequenas personalizações de poder de cunho bairrístico e endogâmico, ou de falso carisma regionalista, bem como a crescente cedência às caricaturas de pretensos príncipes neomaquiavélicos são directamente proporcionais às sucessivas ilusões populistas. Apenas servem para que se reforce a presente ditadura da incompetência, de um situacionismo que continua a poder manipular os sucessivos inimigos a quem convém dar palco. O que resta desta federação de notáveis, entre o poder banco-burocrático, as mordomias e o caciqueirismo, pode não ser suficiente para fazer aguentar este crepúsculo dos bonzos do Bloco Central que vai enredando o regime. Seria melhor que os últimos bem-pensantes que restam contabilizassem a eventual inutilidade dessas ilusórias procuras do neopopulismo, pretensamente pós-moderno. O vírus madeirense, mesmo com nomes de colonia, acontece sempre quando o caldo de cultura da crise moral nos entorpece. E tanto pode afectar a máquina central, regional ou local do Estado, como alguns dos seus segmentos de micro-autoritarismo pós-totalitário, onde os antigos lacaios do passado deboche se reconvertem, pela calada das benções de sacristia, nos manobradores da nova gamela, recrutando agentes pidescos e estalinistas, para a manutenção das vaidades, onde a servidão voluntária da maioria sociológica dos cobardes vai lavando as mãos como Pilatos, enquanto apenas internam, nos campos de concentração e nos hospitais psiquiátricos, os diferentes, isto é, os que vivem como pensam sem pensarem como vivem. Não serão estes criados e criaturas que assegurarão a continuidade do Portugal à solta… PS: Por mais que me peçam não direi o nome das bestiais bestas…
Quando os antigos lacaios do passado situacionismo se reconvertem, pela calada da sacristia, nos manobradores mentais do novo polvo
Pensava eu que ainda teria mais uns dias longe da rotina das indecisões dos burocratas preenchedores dos longos alçapões dos conceitos indeterminados e das cláusulas gerais, esses portadores de novos sinais de neo-riquismo que ocuparam este vazio de justiça que marca o pronto-a-vestir do nosso querido Estado de Direito pós-autoritário e pós-revolucionário, onde não há autoridade e nem todos comem. Mas, de um momento para o outro, lá tive que aturar as consequências manipuladoras das chamadas reformas estruturais, alinhavadas pelos disponíveis que nos ficaram da falência do planeamentismo, esses que ainda mantêm as sebentas dos frustrados apontamentos de burocracia de ciência, educação e cultura, onde vão semeando crisálidas de colectivismo adocicado pelos oportunismos carreirísticos.
Esses que não se apercebem que a principal riqueza de Portugal sempre esteve na autonomia criativa do português à solta, livre das teias do feudalismo, da cavalariça e das sacristias, desse homem revoltado e construtor de novos mundos que ainda não conseguiu que tanto a constituição material como as constituições escritas consagrassem o necessário articulado do direito à felicidade, típico dos sonhadores activos que vão fundando novos reinos na respectiva procura do paraíso.
Infelizmente, as agências de recrutamento e de comunicação das classes dominantes, entre filhos de algo, antigos detentores de colonia, sobrinhos de inquisidores e masturbadores de vaidades e invejas, preferem os cinzentões lacaios desta federação de capitaleiros castíferos, à procura de avença e de vitalício posto de vencimento, com muitas prateleiras de fichas estalinistas, para gáudio de espiões desempregados, com “hackerzinhos” de trazer por casa, e imensos sinais de desvio de subsídios e prebendas da mão morta.
O culto das pequenas personalizações de poder de cunho bairrístico e endogâmico, ou de falso carisma regionalista, bem como a crescente cedência às caricaturas de pretensos príncipes neomaquiavélicos são directamente proporcionais às sucessivas ilusões populistas. Apenas servem para que se reforce a presente ditadura da incompetência, de um situacionismo que continua a poder manipular os sucessivos inimigos a quem convém dar palco.
O que resta desta federação de notáveis, entre o poder banco-burocrático, as mordomias e o caciqueirismo, pode não ser suficiente para fazer aguentar este crepúsculo dos bonzos do Bloco Central que vai enredando o regime. Seria melhor que os últimos bem-pensantes que restam contabilizassem a eventual inutilidade dessas ilusórias procuras do neopopulismo, pretensamente pós-moderno.
Nestas terras de Espanha com praias de Portugal, a bela infanta não pode confundir a nuvem com a barcaça que faz comícios no Porto Santo, onde um antigo professor convidado da Universidade Independente, lutando contra o pretenso deboche e a pretensa gamela, apresenta à pátria estival, como herói, um ilustre ex-ministro cavaqueiro que, depois de gerir a transportadora aérea nacional, se transformou no grande gestor da Universidade Moderna, após as reitoríadas golfeiras de João de Deus Pinheiro.
O vírus madeirense, mesmo com nomes de colonia, acontece sempre quando o caldo de cultura da crise moral nos entorpece. E tanto pode afectar a máquina central, regional ou local do Estado, como alguns dos seus segmentos de micro-autoritarismo pós-totalitário, onde os antigos lacaios do passado deboche se reconvertem, pela calada das benções de sacristia, nos manobradores da nova gamela, recrutando agentes pidescos e estalinistas, para a manutenção das vaidades, onde a servidão voluntária da maioria sociológica dos cobardes vai lavando as mãos como Pilatos, enquanto apenas internam, nos campos de concentração e nos hospitais psiquiátricos, os diferentes, isto é, os que vivem como pensam sem pensarem como vivem. Não serão estes criados e criaturas que assegurarão a continuidade do Portugal à solta…
PS: Por mais que me peçam não direi o nome das bestiais bestas…
“Há uma pequena legião de leitores desconhecida que são como antenas ocultas a recolher as vibrações destes eremitas do pensamento”…
Porque vou tentar resistir aos cheiros do esgoto, aqui vai o postal que tentei editar. Pela manhã de sábado, tinha intenção de homenagear Ubirantan Borges de Macedo, um velho amigo do pensamento, brasileiro e liberal, recentemente falecido, utilizando o pretexto de recordar os laços familiares que o ligavam a Fidelino de Figueiredo. Porque não gosto desta sociedade funerária e comemorativa, decidi dar conta de uma colectânea de ensaios que este último mestre editou quando eu nasci, “O Medo da História” e que, graças aos acasos dos alfarrabistas, me veio parar à posse. Por isso, prefiro viver o pensamento e reencontrar algumas das mais herculianas páginas que a cultura lusída produziu na primeira metade do século XX. Lá encontrei uma clássica citação de Chateaubriand sobre a degenerescências das aristocracias que, começando por ser de serviços, passam depois para os privilégios (os fidalgos, os filhos de algo que já são nobreza), acabando por chafurdar na fase crepuscular das vaidades. Daí ter encontrado em Fidelino uma certa distinção que merece ser meditada pelos nossos neoliberais de tradução em calão, alguns dos quais não admitem que o liberalismo nunca se confundiu com o capitalismo, nem com o negocismo, mas antes com “a vida da Europa do século XIX” que se “tornou um ideal para todas as populações da terra” (p. 67). Porque o liberalismo sempre foi a “tolerância cavalheiresca”, fundada “na presunção de relatividade para todas as orientações políticas” (p. 87). Porque é “o melhoramento individual pela libertação” (p. 83), marcado pela ideia de dialéctica, ou de desenvolvimento, expressa por Croce: “que mercê da diversidade e oposição das forças espirituais, amplia e nobilita continuamente a vida e lhe confere seu único e inteiro sentido” (p. 81). Por outras palavras, o liberalismo é “uma concepção metapolítica” que “transcende a teoria formal da política”. É “uma infinita tolerância, portanto a coexistência pacífica de todas as ideias e todas as orientações do espírito” (p. 73). Fidelino reconhece que “há uma pequena legião de leitores desconhecida que são como antenas ocultas a recolher as vibrações destes eremitas do pensamento” (prefácio). Porque “uma verdade nova tem de esperar a sua hora de converter-se em valor de cultura geral, em ideia ou atitude de moda, em técnica industrial e exploração económica” (p. 35). Porque “o pensador quer entender e saber e prever; o político só quer chegar ao poder, conservá-lo e alargá-lo… a mente política procura dominar o relativo e ocasional, como o navegante à vela, perito em ventos e suas surpresas caprichosas, ao passo que a inteligência pura em tudo busca o absoluto” (p. 36). Até sabe que “a imprensa deixou-se dominar por forças menores que a dela, como o gigante Gulliver pelos humúnculos liliputianos” (p. 42). Fidelino, o militante sidonista e do 28 de Maio, exilado pela Ditadura, compreendeu pelo magistério professor as agruras desses navegantes à vela. Preferiu a amizade de Manuel Bandeira e ir para a distância do português à solta, levando, do breve exílio espanhol, as lições pedagógicas da krausista Institución Libre de Enseñanza. Por isso aconselho a leitura do belo artigo de Ricardo Vélez Rodríguez sobre o autor, onde se relata a atribulada entrada de Fidelino na Academia Brasileira de Letras, onde tinha como concorrente um certo professor da entidade que antecedeu a minha escola e que acabou por não vencer, porque foi então recordado que, dois anos antes, tinha sido o autor científico de belas análises racistas, quando se insurgia contra os perigos das “intimidades” da mestiçagem, das quais, “não raro provinham, em famílias ilustres, comprometedoras nódoas pigmentares, estranhos cabelos encrespados, que, em vez de atavismos remotos da raça, denunciavam cruelmente inquinações recentes de respeitáveis estirpes fidalgas”. Porque “o mestiçamento é uma lotaria germinal que tanto pode dar bons como maus resultados” e que seria “intuitivo que, quanto mais intenso e variado for o mestiçamento e mais activa a interferência social e política dos mestiços na vida portuguesa, mais rápida e fortemente se desfigurará a fisionomia tradicional da Pátria e irá desaparecendo o que de mais nobre e próprio existe no valor português. Seria a dissolução do Portugal multissecular, o fim de uma cadeia vital ininterrupta e gloriosa”. Essa pesada herança, que ainda nos polui, pode ainda estar viva se não a denunciarmos, mesmo sem lhe darmos nome. Por acaso, as denúncias que fiz nos postais anteriores surgiram quando, ao ir à Google, procurar o nome Fidelino, deparei com uma ficha da minha autoria, no tal CEPP, a que não consegui ter acesso por causa do limpamento, o tal que aguarda cumprimento da ordem do “big brother”, para ser apagado o apagão. O liberalismo continua a sonhar direito, apesar dos “links” tortos de certas memórias vérmicas que já não são da nobreza nem dos fidalgos, mas das vaidades.
Dificuldades na visualização deste blogue…
Juro que não acredito em bruxas nem que as haja, mas já admito a existência de “hackers” e, sobretudo, de erros próprios de formatação. Por isso, quando alguns dos meus leitores estranharam o branco que ontem atacou, nalguns computadores, este sítio, fiquei admirado, porque sempre o fui conseguindo abrir, em visualização normal, no meu computador. Julgo que o erro poderá ter sido meu e, para tanto, eliminei parte de um texto de anexos que tinha entrado desmarginalizado. Espero que a preocupação seja apenas essa, embora admita que terei de mudar a senha, até porque as entradas no meu “gmail” podem ser objecto de espionite, quando o faço no computador da universidade. Tudo isto para pedir, a quem não receba em boas condições este blogue, para mo comunicar para o meu “mail” (está na coluna da esquerda). Caso a coisa continue torta, terei de eliminar provisoriamente os últimos postais, mas espero recuperá-los “a posteriori”. O meu habitual consultor destas coisas, o meu filhote, está de férias.
posted by JAM | 8/19/2007 07:54:00 PM
“Há uma pequena legião de leitores desconhecida que são como antenas ocultas a recolher as vibrações destes eremitas do pensamento”…
Porque vou tentar resistir aos cheiros do esgoto, aqui vai o postal que tentei editar. Pela manhã de sábado, tinha intenção de homenagear Ubirantan Borges de Macedo, um velho amigo do pensamento, brasileiro e liberal, recentemente falecido, utilizando o pretexto de recordar os laços familiares que o ligavam a Fidelino de Figueiredo. Porque não gosto desta sociedade funerária e comemorativa, decidi dar conta de uma colectânea de ensaios que este último mestre editou quando eu nasci, “O Medo da História” e que, graças aos acasos dos alfarrabistas, me veio parar à posse. Por isso, prefiro viver o pensamento e reencontrar algumas das mais herculianas páginas que a cultura lusída produziu na primeira metade do século XX.
Lá encontrei uma clássica citação de Chateaubriand sobre a degenerescências das aristocracias que, começando por ser de serviços, passam depois para os privilégios (os fidalgos, os filhos de algo que já são nobreza), acabando por chafurdar na fase crepuscular das vaidades. Daí ter encontrado em Fidelino uma certa distinção que merece ser meditada pelos nossos neoliberais de tradução em calão, alguns dos quais não admitem que o liberalismo nunca se confundiu com o capitalismo, nem com o negocismo, mas antes com “a vida da Europa do século XIX” que se “tornou um ideal para todas as populações da terra” (p. 67).
Porque o liberalismo sempre foi a “tolerância cavalheiresca”, fundada “na presunção de relatividade para todas as orientações políticas” (p. 87). Porque é “o melhoramento individual pela libertação” (p. 83), marcado pela ideia de dialéctica, ou de desenvolvimento, expressa por Croce: “que mercê da diversidade e oposição das forças espirituais, amplia e nobilita continuamente a vida e lhe confere seu único e inteiro sentido” (p. 81).
Por outras palavras, o liberalismo é “uma concepção metapolítica” que “transcende a teoria formal da política”. É “uma infinita tolerância, portanto a coexistência pacífica de todas as ideias e todas as orientações do espírito” (p. 73).
Fidelino reconhece que “há uma pequena legião de leitores desconhecida que são como antenas ocultas a recolher as vibrações destes eremitas do pensamento” (prefácio). Porque “uma verdade nova tem de esperar a sua hora de converter-se em valor de cultura geral, em ideia ou atitude de moda, em técnica industrial e exploração económica” (p. 35). Porque “o pensador quer entender e saber e prever; o político só quer chegar ao poder, conservá-lo e alargá-lo… a mente política procura dominar o relativo e ocasional, como o navegante à vela, perito em ventos e suas surpresas caprichosas, ao passo que a inteligência pura em tudo busca o absoluto” (p. 36).
Até sabe que “a imprensa deixou-se dominar por forças menores que a dela, como o gigante Gulliver pelos humúnculos liliputianos” (p. 42).
Fidelino, o militante sidonista e do 28 de Maio, exilado pela Ditadura, compreendeu pelo magistério professor as agruras desses navegantes à vela. Preferiu a amizade de Manuel Bandeira e ir para a distância do português à solta, levando, do breve exílio espanhol, as lições pedagógicas da krausista Institución Libre de Enseñanza.
Por isso aconselho a leitura do belo artigo de Ricardo Vélez Rodríguez sobre o autor, onde se relata a atribulada entrada de Fidelino na Academia Brasileira de Letras, onde tinha como concorrente um certo professor da entidade que antecedeu a minha escola e que acabou por não vencer, porque foi então recordado que, dois anos antes, tinha sido o autor científico de belas análises racistas, quando se insurgia contra os perigos das “intimidades” da mestiçagem, das quais, “não raro provinham, em famílias ilustres, comprometedoras nódoas pigmentares, estranhos cabelos encrespados, que, em vez de atavismos remotos da raça, denunciavam cruelmente inquinações recentes de respeitáveis estirpes fidalgas”.
Porque “o mestiçamento é uma lotaria germinal que tanto pode dar bons como maus resultados” e que seria “intuitivo que, quanto mais intenso e variado for o mestiçamento e mais activa a interferência social e política dos mestiços na vida portuguesa, mais rápida e fortemente se desfigurará a fisionomia tradicional da Pátria e irá desaparecendo o que de mais nobre e próprio existe no valor português. Seria a dissolução do Portugal multissecular, o fim de uma cadeia vital ininterrupta e gloriosa”.
Essa pesada herança, que ainda nos polui, pode ainda estar viva se não a denunciarmos, mesmo sem lhe darmos nome. Por acaso, as denúncias que fiz nos postais anteriores surgiram quando, ao ir à Google, procurar o nome Fidelino, deparei com uma ficha da minha autoria, no tal CEPP, a que não consegui ter acesso por causa do limpamento, o tal que aguarda cumprimento da ordem do “big brother”, para ser apagado o apagão. O liberalismo continua a sonhar direito, apesar dos “links” tortos de certas memórias vérmicas que já não são da nobreza nem dos fidalgos, mas das vaidades.
O “big brother” disse que era a mudança da modernidade e anuncia que foi tudo mera quebra de “links” onde a culpa vai morrer solteira… Toma!
Entre a madrugada de ontem e os começos desta manhã de domingo, o grito de revolta que aqui lancei demonstram como a resistência e a revolta das palavras são necessárias. Agradeço o militante apoio que temos recebido da blogosfera: do João Gonçalves, do Luís Bonifácio, do Miguel Castelo Branco, do Pedro Guedes, de A Origem das Espécies, de Magude, do Anarca Constipado, do Ao Encontro do Tempo, de A Ilha dos Amores, do Macroscópio, para referir os que me chegam apenas pelo registo das primeiras consultas ao “site meter”. Não posso divulgar os “mails” e “sms”, até porque grande parte deles é de quem teme pela carreira, pelo subsídio de viagem científica e pelas prebendas que os burocratas do estadão vigente na universidade distribuem pelos não rebeldes.
Cumpre-me sublinhar que a primeira manifestação de solidariedade veio de um simples aluno que teve o privilégio de poder ir estudar para o estrangeiro e livrar-se do “big brother” concentracionário que nos continua a proibir o “português à solta”. Outros citaram Orwell e propuseram Talião. Colegas sugeriram mera guerra de papéis. Juristas eminentes, o recurso aos meandros da justicite. Apenas apetecia transcrever os apelos que me foram dirigidos pelos dois jovens colaboradores de então, hoje mais amadurecidos pelos exílios internos e externos, mas não gosto de auto-elogios.
Apenas digo que, hoje, o “big brother” emitiu há pouco o seguinte decreto: como já anteriormente dito, muito se agradece todas as contribuições, visando o apuramento do novo site do ISCSP – como a carta infra, cuja parte relevante já foi encaminhada, para se repor o link perdido na mudança. Por outras palavras, o limpamento ordenado foi qualificado como avaria técnica dos pretensos saltos tecnológicos e a defesa dos direitos da memória foi reencaminhada para outro braço anónimo do mesmo “big brother”, uma coisa que tanto pode ser uma oficina de vão de escada que recebe ordens do chefe de repartição, como um qualquer recibo verde que pode deixar de ser pago caso não se obedeça ao adjunto do subchefe do chefe, ao melhor estilo daquilo que Hannah Arendt qualificou como “governo dos espertos”, em aliança com o “domínio perpétuo do acaso” e do senhor “ninguém”.
Entretanto, o “big brother” vai dizendo: eu sou Portugal, eu sou a República, eu sou o Estado, eu sou a Universidade, eu sou a Escola, eu sou a mudança e as quebras de “links” são negligência e não dolo, nem sequer eventual. Logo, mesmo que a negligência gere cessantes homicídios culturais, a culpa continua solteira. E nada melhor esperar que a justiça lentamente mate mesmo a liberdade.
Por isso, continuarei a resistir. A liberdade não tem férias nem fins de semana. Obrigado, blogosfera! Viva a república universal das pessoas livres e da consequente sociedade civil internacional, enquanto não eliminarem os “links” e o espaço nos servidores, ao serviço de um pretenso pensamento único. Reparo, contudo, que sou um privilegiado: professor catedrático, subdecano da instituição, com alguma voz. E que conheço os meandros dos pré-totalitarismos, com algumas provas prestadas.
O que está a acontecer não é mera vingança. É meticulosa repetição da velha estratégia do maquiavelismo clássico. Se eles até decapitam quem não se submete à corte, todos os outros se moldarão sem necessidade de repressão, gerando-se uma maioria de cobardes, sobre a qual será mais fácil o exercício do unidimensional rolo compressor. Daí a táctica do salame e das correias de transmissão, para que o rebelde ou o dissidente possa ser qualificado como doidinho pelo pelourinho da paz dos cemitérios.
Um desses aliados dos novos donos do poder, ainda há semanas me confessava, no silêncio do gabinete que não tinha dúvidas em mandar-me fuzilar se a revolução dele triunfasse, apesar de continuar meu amigo. Como eu o conheço desde a adolescência, apenas me lembro que, ainda no tempo dos seus amigos pides, o respectivo directório condenou um puto de dezasseis anos a abandonar um acampamento parapolítico a quinhentos quilómetros de casa e a ver sem dinheiro nem transportes nem dinheiro, à boleia, só porque recusei queimar uma bandeira estrangeira e saudar a nossa com uma certa postura. O puto era eu e ainda sou rebelde. Os novos aliados do dito são aqueles que ele chamava inimigos e que, afinal, não passam de irmãos-inimigos.
Como professor, não é a minha pessoa que está em causa. É o exemplo que devo dar. Aliás, ainda há dois anos, o “big brother” ainda me ofereceu o poder de carregar no botãozinho da campainha com que se liquidam mandarins no exótico ou na vizinhança. Recusei. Não lhe reconheci autoridade para me dar poderes que não são dele. Eu sei resistir. Não sei se as instituições que eles capturaram já o podem fazer sem o exílio dos homens livres.
Onze mil e oitocentas citações objecto de “delete”
Onze mil e oitocentas citações objecto de “delete”
(se alguém quiser aconselhar o responsável burocrático pelo acto, por acaso um ilustre licenciado em teologia e alto dignitário do PS, a repensar o erro, envie um mail para este endereço)
Não quero agora invocar testemunhos da “Revista História” de Fernando Rosas, bem como as centenas de citações científicas que o arquivo agora apagado têm suscitado. Basta um saltinho à Google e a contagem de 11 800 citações. Repito: onze mil e oitocentas citações. Num tempo em que a ciência se mede também quantitativamente pelo serviço público, apenas anoto a histeria da persiganga.
Dou agora razão a José Pacheco Pereira, o primeiro a reparar no que qualificou como o melhor instrumento de trabalho cronológico online sobre o pensamento político contemporâneo existente em Portugal :
O “DEPÓSITO OBRIGATÓRIO” DA INTERNET PORTUGUESA Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Público, Quinta-feira, 17 de Julho de 2003
Uma parte muito significativa do retrato do Portugal contemporâneo perde-se todos os dias sem apelo nem agravo: a Internet portuguesa. Se bem que eu seja suspeito de querer fazer e guardar o mapa com o tamanho do país que representa, ou seja tudo, nem por isso deixo de me preocupar com essa evaporação invisível dos “bits”, assim como de outras formas de “efemera”, onde uma parte muito especial do nosso país devia ficar para a memória colectiva. Guardamos e bem os jornais de paróquia, perdemos e mal as páginas pessoais, os fanzines obscuros, as revistas electrónicas, os blogues apagados, os “sites” de futebol, os locais de raiva e paixão, “hobbies” curiosos, páginas que duram a brevidade de uma campanha eleitoral, elogios e insultos (mais os insultos) nos “newsgroups”, “chats” estudantis com linguagens únicas, grafismos de “pastiche”, mas reveladores de um gosto ou de escolhas de imitação, músicas experimentais, primícias literárias, obsessões, cultos, etc., etc. Deixo de parte outro aspecto, mais de arquivo do que de “biblioteca”, do registo permanente de muita da actividade institucional, governo em particular, e que já se faz usando correio electrónico, que se apaga para sempre, sem o registo mais durável do papel. Nos EUA esta é uma questão controversa, mas para a qual já se avançou com legislação cobrindo o correio electrónico e as mensagens. O Portugal que fala na Internet é apenas uma parte do Portugal contemporâneo, uma parte muito reduzida, com acesso ao computador, socialmente muito definida, em grande parte urbana e juvenil. Mas a sua voz mostra-se na Internet como em nenhum outro lado, numa altura em que cada vez há menos cada uma destas coisas em papel. E, se não se pode conhecer a vida de uma aldeia ou vila pequena sem o jornal local, mesmo que se fique pelas notícias de formaturas (em desuso a não ser nos jornais de emigrantes), casamentos ou necrologias, também será difícil perceber os nossos dias sem a Internet portuguesa. Não me refiro sequer às revistas mais estruturadas como a Zona Non ( http://zonanon.com/ ), o Ciberkiosk ( http://www.ciberkiosk.pt/ ) (já falecido), a Storm ( http://www.storm-magazine.com/ ),ou ao excelente “site” sobre o pensamento político no Portugal contemporâneo que José Adelino Maltez tinha e que também parece já ter morrido. Refiro-me ao mais precário, às páginas que um descendente moderno dos autores de monografias locais mantém sobre a sua aldeia, ou ao álbum do fotografias de uma família, ou a uma página de um pequeno clube de futebol ou xadrez. Veja-se o caso da blogosfera. A blogosfera devia ter um “depósito obrigatório” imediato. Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em 2003. Eles expressam um mundo etário, social, comunicacional, cultural, político que, sendo uma continuação do mundo exterior, tem elementos “sui generis”. Nenhum retrato da direita portuguesa em 2003 pode prescindir dos blogues da UBL ( http://blogues-livres.mirrorz.com/ ), nem um da esquerda do Blog de Esquerda ( http://blog-de-esquerda.blogspot.com/ ); nenhum retrato dos consumos culturais lisboetas de vários blogues “culturais” como O Crítico ( http://criticomusical.blogspot.com/ ), ou a Janela Indiscreta ( http://blog-de-esquerda.blogspot.com/ ); nenhum retrato do jornalismo sem os blogues de jornalistas; nem nenhuma história da obscenidade nacional (uma velha tradição portuguesa de Bocage a Vilhena) pode prescindir de O Meu Pipi ( http://omeupipi.blogspot.com/ ). Mil e um pequenos eventos, concertos de música, sessões literárias, jantares de jovens intelectuais, crónicas sociais de outro tipo de “sociedade”, que nunca chegam aos jornais, encontram aí relatos testemunhais complementares dos do jornalismo tradicional. É um bocado como a correspondência no século XVIII e XIX, uma rara fonte para um reverso da história institucional oficial ou dos seus avatares. Esta é uma tarefa patrimonial importante e é sabido que penso ser o património a essência das tarefas que cabem ao Ministério da Cultura. A lei que obriga ao depósito obrigatório está completamente desactualizada, e uma nova lei está a ser discutida há tempo demais, sem andar para a frente. Algumas tentativas sem continuidade foram feitas na Biblioteca Nacional, incluindo um estudo em colaboração com o ISCTE sobre o “arquivamento” da Internet, já em 2001. Depois disso o que é que se fez? Quem é responsável, quem manda e não está a cumprir com as suas obrigações? Alguém há-de ser. Entretanto, continua a canalizar-se milhares de livros para instituições que não tem hoje qualquer sentido funcionarem com “depósito obrigatório”. O anacronismo da lei aumenta as pilhas de livros e periódicos inúteis porque impossíveis de classificar, catalogar ou disponibilizar, desbaratando esforços que seriam mais úteis noutras actividades. Conheço pelo menos um caso em que vão para o lixo discretamente. Também tenho a certeza de que se lhes quiserem tirar o “depósito obrigatório” vão gritar por todos os lados. O anacronismo mais prejudicial da lei é a sua dominação pelo papel, por guardar tudo o que é de papel e feito numa tipografia – exceptuando cartões de visita, facturas e impressos …- e ignorar ou deixar num limbo perigoso todos os outros suportes de informação, ou mesmo espécies em papel que surgiram nas últimas décadas com a facilitação dos meios de impressão. A lei ainda pensa nas tipografias de chumbo, e não nas impressoras a laser. Eu conheço nalgumas livrarias “alternativas” (e tenho na minha colecção) centenas de espécies que não estão na Biblioteca Nacional. Que tal é a vossa colecção de “O Berro – Arauto da Tertúlia Académica de Direito”, do “Laranjinha”, boletim do PSD de Torres Novas, do “Mais por Sintra – Jornal de Campanha da Candidatura de Edite Estrela” ou da “Voz do Povo -Boletim Informativo dos Grupos de Estudo Che Guevara” ? Pode ser que tenha acertado em algum que exista nos catálogos, mas não me parece. Quem guarda os CD-ROM, quem guarda os discos alternativos, quem guarda os fanzines, quem guarda os panfletos políticos e a parafernália dos objectos de campanha, quem guarda os arquivos digitais, quem guarda a Internet portuguesa? Ninguém, diz o romeiro
Relatório de actividades como professor catedrático
Tendo em vista o estabelecimento das raízes do acto de acaso procurado que, no postal anterior, denunciei, decidi cumprir, a título privado, o que manda a lei para uma instituição pública: a publicitação do meu relatório quinquenal de actividades como professor catedrático de 2001-2006, compreensivelmente não publicado por quem, a tal, é obrigado. Pode ser consultado, graças à disponibilidade da sociedade civil internacional, aqui.
Grande parte do arquivo, agora sujeito a “delete”, está disponível à custa da minha própria bolsa neste lugar. Já previa a hipótese de limpamento de memórias por aquilo que Hannah Arendt qualificava como “o domínio do nínguém”.
O projecto inicial do CEPP data de Abril de 2000. Também pode ser consultado aqui. Para que os arquivos públicos não façam novo “delete”, publicitei também aqui excertos do relatório de execução material do projecto, cuja principal responsabilidade cabe a dois simples alunos das então licenciaturas.
Deixo o registo destas chaves de acesso a quem, hoje ou amanhã, se queira dedicar a viajar pelos kafkianos processos da nossa liberdade académica em tempo de muitos Pilatos.
Não é assim que D. Sebastião vai regressar…
Confesso que enjoei de tudo e que me dava bem mais gozo poder ler as memórias livres dos nossos banqueiros sobre financiamentos partidários e a cunhocracia, nomeadamente pelo emprego que deram a ex-ministros da esquerda e da direita. Porque a iluminação dessas zonas obscuras da nossa sociedade de Corte, entre os grandes clubes da futebolítica e o poder banco-burocrático, seria bem mais fecunda para um repúblico do que saber dos pormenores rituais dos grupos místicos, das clandestinidades dos partidos e movimentos políticos, ou dos processos de autogestão de espiões, que marcaram as antigas pides e enredam os recentes serviços secretos. Seria estimulante podermos navegar na psicologia oculta de outras grandezas e misérias dos protagonistas destas aventuras de serralho, que ensandeceram os últimos tempos da pátria. Sem esses pormenores, não será possível acedermos à íntima biografia colectiva destes restos de Portugal que se vão submetendo para sobreviverem, mas já sem paradigmas mobilizadores que nos levem a querer lutar, para podermos viver com inteligência e com honra. A recente crise hipotecária norte-americana que, ainda ontem, mostrou como na Bolsa de Lisboa se continua a comer gato por lebre, apenas prenuncia a vestimenta com que se irá ornar a nossa próxima crise política. O próximo sobressalto, que nos poderá fazer despertar deste torpor cortesão, não virá de dentro deste deserto moral, mas será importado à força. Não como o Ultimato, a Grande Depressão ou uma guerra internacional, mas pelo simples levantar de asas de uma qualquer borboleta noutro qualquer exótico deserto, que aqui provocará o “tsunami” de um simples exame de consciência. A ideia de Portugal, perdida nas brumas da memória, já não tem heróis que façam, da história, a urgente mestra da vida. O Estado-Espectáculo transformou-se numa encenação de frios cadáveres que vão procriando telenovelas de denúncias anónimas à Procuradoria-Geral da República. Não há o calor dos mitos que espontaneamente nos aqueçam pelos lumes da profecia. Nem suficientes sistemas organizacionais que nos ordenem para a complexidade do lume da razão. Os actores visíveis da política, da economia, da moral e da própria religião passaram a sacristães que perderam o sentido dos gestos. Somos, cada vez mais, um “smog” provocado pela poluição de uma pretensa modernização importada que nos faz crescer em hipermercados e lojas dos trezentos, aumentando o consumo de bugigangas, do recurso ao endividamento bancário e do número de acções de fotocópia em tribunal, mas que não nos fizeram crescer por dentro. Em produtividade, em brio profissional, em moral cívica, em amor patriótico, em autonomia educativa e nessa estrela do norte de qualquer república, a que se deu, desde sempre, o nome de justiça, a verdadeira síntese das virtudes comunitárias. E nunca é deste simulacro de nevoeiro que regressa o necessário D. Sebastião da regeneração colectiva… Todos teremos um pós-moderno monumento de tijolo e caliça a um anónimo naufrágio que apenas poderá, um dia, ser arrumado nesse arquivo de obras em segunda mão que um futuro berardo meterá no próximo mega-armazém da cultura enlatada. Mais de oito séculos e meio de hiper-identidade produziram este vazio de alma onde os falsos sebastiões científicos vão comendo a sopa e dando pancada nas mãezinhas…