Jul 27

Boas férias, tudo como dantes, sem que o quartel-general esteja em Abrantes e sem que os loibos uvem em São Bento…

Dei agora um salto à RCP, para comentar a drenagem das charruadas e lá tive que recordar que a qualidade de uma democracia não se mede por sabermos quem manda, mas antes por sabermos como de institucionaliza o controlo do poder. Democracia não é sondajocracia. Aliás, Hitler obteve uma maioria numa democracia, a da República de Weimar, e a Inquisição era bastante popular, com pressões do braço popular em Cortes, quando o rei queria abrandar o terrorismo de Estado, e amplas adesões das massas aos autos de fé. Aliás, em determinados momentos de pânico securitário, mesmo dos nossos dias, se a pena de morte fosse a referendo, logo revogaríamos a respectiva abolição, constante do Acto Adicional à Carta de 1852 e do decreto de 1 de Julho de 1867.
Tem razão Alegre quando fala no medo. E também tinha razão quando falava do mesmo medo durante o cavaquismo e nos congressos do PS dominados pelo aparelhismo. Não tem razão Sócrates quando ironiza com estas lembranças. Depois de séculos de inquisição e de quase meio século de autoritarismo, se eliminámos os aparelhos de repressão, manteve-se o subsistema de medo que os mesmos geraram e não se apostou na revolução cultural educativa que desse autonomia às pessoas, com a consequente meritocracia.
Deixámos subsistir os colectivismos, herdados do beatério catolaico ou comunista, onde qualquer um para se libertar dos pecados adere a uma dessas seitas, dizendo que não recebe lições de democracia dos adevrsários e demonizando-os com um qualquer adjectivo depreciativo.
Acresce que o PS, com poucos dirigentes da ala histórica, ou que tenham estado na Alameda contra o gonçalvismo, como esteve Alegre e não estiveram os “correias de campos”, é a primeira vez que tem uma maioria absoluta, dirigida por um antigo JSD. E o tradicional partido plural, complexo, federativo e liberdadeiro, sentindo-se inquieto, vai-se contorcendo em azias, deixando que as vozes da rebeldia fiquem apenas com dissidentes como Alegre ou José Medeiros Ferreira.
Esquece-se que o poder não é uma coisa que se conquista em “spoil system”, mas antes uma relação, uma relação entre os aparelhos e a comundidade, entre o principado da governança e a república dos cidadãos, onde a sociedade civil não se reduz à CIP e aos loibos que sabem uivar e que não podem institucionalizar-se no parlamento, para não fazerem concorrência aos senhores deputados que pretendem monopolizar a actividade disfarçadamente, num país onde o importante não é ser ministro, é tê-lo sido, para recordar uma conhecida exclamação de António Almeida Santos, como amanhã glosarei na RTP.
Boas férias, tudo como dantes, sem que o quartel-general esteja em Abrantes…

Jul 27

Mare nostrum, mare liberum… viva o princípio da âncora!

A guerra que não é guerra continua a queimar terra e consciências, enquanto passo os olhos pela agenda das efemérides e reparo que neste dia do ano de 1970 morria António de Oliveira Salazar, enquanto em 1953 se firmava o acordo de armistício que punha termo à guerra da Coreia, tal como ontem se assinalou a nacionalização do canal do Suez (1956) e a independência da Libéria (1847). Mas não vou falar de Salazar, nesta semana em que se ficaram a conhecer outros passamentos de alguns dos seus colaboradores, desde o fotógrafo e assassino de serviço, cujo nome não indico, a outros “zombies” que ainda andam por aí. Odeio quem odeia. E respondo ao ódio com o imprevisto da tolerância e o exercício do verbo que não precisa de concessões de verba e de chefia de contínuos. Resistirei sempre ao terrorismo de Estado.

 

Prefiro reflectir sobre o próprio sítio onde estou, numa espécie de exercício geopolítico dos afectos, aqui, à beira da extremidade ocidental do que foi o “mare nostrum” ou mar interior, dito mediterrâneo, onde a curva do mar antigo acaba e começa o mar sem fim, dito atlântico, o tal que apetece sonhar. Aquele que vira as costas à terra de guerra e, de olhos postos no infinito, a caminho do Sul, continua a tentar provar que a terra é circum-navegável, se rodarmos em torno do nosso próprio eixo, para parafrasear Toynbee. Só assim podemos aceder ao tal abraço armilar que é partir para regressar. “Mare nostrum, mare liberum”.

 

Perante a desesperada falta de soluções da racionalidade finalística, importa passear pelo tal lume da profecia, a que Weber chamou racionalidade axiológica. O recurso à violência estadual, mesmo na sua forma de guerra, pela qual os homens continuam a optar é sempre um mau conselho. Não vale a pena optarmos por ainda mais guerra e até sonharmos com esse clímax da violência institucional que é o uso ou a ameaça de uso daquilo a que demos o nome de “absolute weapon”, coisa que acontece quando alguns têm a ilusão da nova forma de solução final.

 

Prefiro continuar a pensar mar, aqui no limite Sudoeste daquilo que foi a “respublica christiana” e a “pax romana”, neste pedaço de terra que teve de ser reconquistado ao Islão, de que fizemos moiras encantadas, tal como em Marrocos ainda se fala nas portuguesas encantadas. Sou da terra de Alcácer Quibir, fui derrotado por eles, ajudados que foram por huguenotes e protestantes ingleses, quando D. Sebastião tentava criar um triângulo estratégico que passava pelo Rio de Janeiro e de Luanda, para assim recriar um novo “mare nostrum”. E é com a memória do derrotado que não me apetece voltar a ser derrotado. Porque também sei que vencer é ser vencido, como me foi ensinado por Fernando Pessoa. Salazar cai sempre de uma cadeira e pobre do verbo que depende da verba, ou da ideia que precisa de bombas para converter.

 

Voltemos à liberdade livre da imaginação como terceira potência da alma, a tal que nos treina para a transgressão criativa da rebeldia e da insolência do sonho. As crises de anarquia criativa podem corresponder a incubações que precedem a chegada das grandes emergências que juntam convergência e divergência, essas mudanças dramáticas que se traduzem pela bela quebra de fronteiras entre territórios até então hostis. Também no Médio Oriente poderemos sonhar como corpos vivos de povos que regressem, para organizações de complexidade crescente.

 

Basta que regressemos a forma intuitivas de ideação. As tais que ainda não se sistematizaram por uma engenharia piramidal de conceitos, as tais formas de libertação que nos permitem voltar a ter organização, mesmo que seja organização inter-estadual. Estou a ler Koestler e aí reparo que uma organização é uma espécie de árvore, onde a hierarquia é feita de ramos superiores e inferiores, onde os superiores aparecem aos inferiores como um todo, dotado de unidade, mas onde os superiores olham para os inferiores como partes vivas e autónomas desse mesmo todo. Onde cada parte, mesmo a superior, é dotada de complexidades, isto é, marcada pelo princípio da autonomia, onde a variedade gera unidade, não pela unidimensionalização da bomba, mas pela subsidiariedade. Onde o controlo do todo pelas partes é levado a cabo pelo fluxo da rede, da unidade na diversidade. Pela tal coisa a que chamamos democracia. E que pode ser universal. Porque as coisas antigas podem não ser antiquadas. Como num barco ultra-sofisticado pelo choque tecnológico que não abandona o princípio da âncora, que sempre foi esperança.

Jul 26

Não, não vou por aí…

Tenho conhecido, ao longo da vida, tipos de bom e mau carácter, bem como amigos e adversários, de um ou outro teor. Detesto particularmente os que não têm bom e mau carácter porque, antes dos adjectivos, lhes falta o próprio substantivo, especialmente esses cobardes ambulantes que não têm vida, de tanto se submeterem para sobreviverem.  É por isso que as férias que amanhã iniciarei me farão retomar as energias de querer continuar a viver como penso, sem vocação para “homo partidarius”, candidato a partidocrata, ministro ou deputado, mas com muitas mágoas por sentir que instituições a que dei um pedaço da minha vida entraram em agonia ou em degenerescência, especialmente quando deixaram que os absolutismos as corrompessem por dentro, desde o absolutismo de um só, pretensamente reaccionário ou vaidosamente iluminado, ao absolutismo de uma maioria conjuntural ou de uma oclocracia a ritmo de serôdia RGA, com sabor a plenário das universidades privadas ameaçadas de encerramento ministerial. É por esta e por outras que me calo hoje, sobre aquilo que começou a emergir nos jornais tanto sobre uma agonia de pretenso partido como sobre segmentos universitários, coisas sobre as quais aqui tenho reflectido sem mantos diáfanos de hipocrisia, quase quotidianamente. Se a universidade não é o lugar adequado para se estabelecerem falsos tribunais ou palanques para a vindicta, deve ser um claustro da ciência e um dos redutos da liberdade académica contra a ameaça do pensamento único e, se for necessário, da própria resistência libertadora.  Uma universidade ou um partido só poderão reclamar do Estado autonomia se se assumirem como instituições. Porque, em primeiro lugar, são uma ideia de obra, uma criatura que se liberta dos criadores, até porque os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. Porque, em segundo lugar, têm o dever de gerar manifestações de comunhão entre os respectivos membros. Porque, em terceiro lugar, exigem o leal cumprimento de regras processuais de um Estado de Direito. E o Estado de Direito nunca foi o princípio da legalidade do governo dos espertos, dado que, no seu íntimo, é o exacto contrário do absolutismo e do consequente despotismo pretensamente iluminado. Até quem manda está submetido à própria regra que pode fazer. Porque nem tudo o que quem manda diz é lei. Quem manda tem de obedecer a princípios como os da igualdade e da imparcialidade. Aliás, hoje, quem manda nem sequer existe fora de quem o elege, dado ter que ser o representante de todos.  Pode ter a aparência da legalidade dos senhores da guerra, ou de ditaduras castrenses e regulamentares, acumulando a sacristia com a cavalariça, através do regresso ao processo revolucionário em curso, mas não tem legitimidade. Ai de quem não reconheça que quem detém qualquer parcela de poder pode abusar do poder que lhe foi depositado pela comunidade, exigindo-se a separação de poderes e a cooperação estratégica entre eles. Ai de quem não reconheça que a autoridade, que vem de autor, é superior ao poderio transitório.  Não, não vou por aí! Sei o que são as subversões a partir dos aparelhos de repressão e de distribuição das prebendas e sei que as modas passam de moda e só tem aparência de novo aquilo que se esqueceu. Robespierres em latas de conserva são susceptíveis de apreensão pela ASAE…

Jul 25

Brincando ao revolucionarismo

Alguns segmentos da dona universidade, em vez de aprenderem, investigarem e ensinarem, preferem brincar a certo revolucionarismo frustrado, onde não faltam bibliotecários que semeiam ameaças a torto e a direito, contra as esquerdas que não querem ser assimétricas e contra as direitas que não são compráveis, procurando impedir o urgente gesto do Zé Povinho contra a coligação de fidalgotes, inquisidores e pides não reciclados, a qual ameaça com o terror reverencial e a terra queimada saneadora, nesse explosivo misto dos verões quentes, donde costuma emergir a ditadura da incompetência, quando a assembleia do MFA dá origem ao V Governo Provisório. O cúmulo desta insanidade orgânica pode até levar a que a pretensa legalidade formal do governo dos espertos promova a reunião plenária de uma qualquer direcção-geral do antigamente, dominada pelos habituais administradores de posto, de colonial memória, para assumir por unanimidade medrosa uma nova lei orgânica digna do PRACE, onde se invoque a Constituição de 1933, porque a aprovada Constituição de 1976 ainda está à espera de publicação. Assaltando-se a “vacatio legis”, pode ser que alguns ex-estudantes de teologia interpretem a dita branda como mera vaquinha propícia à cow-boiada, onde não faltam promoções para os chefes de facção, concursos com fotografia para os pretensos chefes da oposição e imensas prebendas para os serviços prestados pelos senhores da guerra que feudalizaram a coisa, tudo à custa da mesa do orçamento e do consequente devorismo. Tudo o que digo coincide com a realidade dos que, degrau em degrau, lá vão descendo a caminho do delírio, com sucessivas bebedeiras contra-revolucionárias e revolucionárias, onde a índole de extremistas da esquerda e da direita rompe o verniz do pseudo-estadão dos cargos assaltados, só porque alguns dizem fazer cesarianas de alienígenas, mas com os métodos típicos da autópsia, dado que outros proclamam não seguir os adequados manuais de medicina forense, de que se assumem como os únicos especialistas, mesmo sem preparação básica. Por mim, quero continuar a pensar pela própria cabeça. E não temo os bufos. Da direita e da esquerda. Incluindo aquele que, fingindo-se meu companheiro de valores, se mostrou portador do habitual neodogmatismo petensamente antidogmático, com os degenerados trejeitos maneiristas do anti-inquisidor realmente inquisidor, sem reparar que, mui avençadamente, entre o “mosca” do Intendente e o “bufo” da PIDE, houve alguns “formigas” que tramaram tanto Afonso Costa como o 25 de Abril. Desta feita, os chefes não foram parvos e sabem que tudo sai dos meus privatíssimos arquivos da memória que adequadamente informatizei e donde não constam fichas nem contrafichas do “Lumpen”.

Jul 25

Contra o medo de pensar pela própria cabeça, contra o medo de discordar, contra o medo de não ser completamente alinhado

Como não vou pagar quotas ao PSD, espero, ansioso, a pausa de Verão, embora ainda hoje tenha que aturar mais um filme série B de mais uma consequência de prequianos golpes de revolucionários frustrados, sentados nas alcatifas directoriais dos suplementos de vencimento, com que costumam ser prebendados os cabos eleitorais e que não lêem os que têm razão antes do tempo, como o poeta Manuel Alegre que, hoje, traça a causa desta decadência: “medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado”, com a consequente “tradição governamentalista”, que leva um partido, quando está no Governo, a transformar o “seguidismo” “em virtude”.

(é evidente que onde está Governo pode ler-se qualquer outro agente de poder ou de distribuição de subsídios, promoções ou viagens, podendo a coisa ser substituída por “chefe”, chame-se director-geral, presidente, directivo, reitor, delegado ou governador-civil, incluindo os pretensos filiados nos partidos de Sócrates, Salazar, Marques Mendes, Portas ou Jerónimo de Sousa, especialmente quando o chefe tem uma corte de plurais comedores do dinheiro do povo)
Também alguns segmentos da dona universidade, em vez de aprenderem, investigarem e ensinarem, preferem brincar a certo revolucionarismo frustrado, onde não faltam bibliotecários que semeiam ameaças a torto e a direito, contra as esquerdas que não querem ser assimétricas e contra as direitas que não são compráveis, procurando impedir o urgente gesto do Zé Povinho contra a coligação de fidalgotes, inquisidores e pides não reciclados, a qual ameaça com o terror reverencial e a terra queimada saneadora, nesse explosivo misto dos verões quentes, donde costuma emergir a ditadura da incompetência, quando a assembleia do MFA dá origem ao V Governo Provisório.
O cúmulo desta insanidade orgânica pode até levar a que a pretensa legalidade formal do governo dos espertos promova a reunião plenária de uma qualquer direcção-geral do antigamente, dominada pelos habituais administradores de posto, de colonial memória, para assumir por unanimidade medrosa uma nova lei orgânica digna do PRACE, onde se invoque a Constituição de 1933, porque a aprovada Constituição de 1976 ainda está à espera de publicação.
Assaltando-se a “vacatio legis”, pode ser que alguns ex-estudantes de teologia interpretem a dita branda como mera vaquinha propícia à cow-boiada, onde não faltam promoções para os chefes de facção, concursos com fotografia para os pretensos chefes da oposição e imensas prebendas para os serviços prestados pelos senhores da guerra que feudalizaram a coisa, tudo à custa da mesa do orçamento e do consequente devorismo.
Tudo o que digo coincide com a realidade dos que, degrau em degrau, lá vão descendo a caminho do delírio, com sucessivas bebedeiras contra-revolucionárias e revolucionárias, onde a índole de extremistas da esquerda e da direita rompe o verniz do pseudo-estadão dos cargos assaltados, só porque alguns dizem fazer cesarianas de alienígenas, mas com os métodos típicos da autópsia, dado que outros proclamam não seguir os adequados manuais de medicina forense, de que se assumem como os únicos especialistas, mesmo sem preparação básica.
Enquanto isto, na macropolítica politiqueira, com o caso Charrua arquivado e com o caso dos sobreiros em acusação formal, eis que a governança se engasga com a teatrocracia do plano tecnológico, devido à encenação das agências de comunicação que recorreram ao trabalho infantil, para que aquilo que apareceu no telejornal pudesse continuar esta paradoxal conspiração de avós e netos, onde, depois dos velhinhos que vieram de Cabeceiras de Basto fazer o comício a António Costa, tudo se assemelha, cada vez mais, aos figurantes contratados para os sucessivos programas dos “prós e contras”.
Julgo que Sócrates não deve transformar-se em Fátima Campos Ferreira, nem o parlamento que volver-se em auditório da Casa do Artista. Quanto às criancinhas, se aplaudo o golpe oposicionista de Zita Seabra, mais me irrita que o governo tenha servido de campo de promoção para a empresa que forneceu computadores ao Estado, e que utilizou o primeiro-ministro de nós todos como figurante de filme de propaganda comercial.
Por mim, quero continuar a pensar pela própria cabeça. E não temo os bufos. Da direita e da esquerda. Incluindo aquele que, fingindo-se meu companheiro de valores, se mostrou portador do habitual neodogmatismo petensamente antidogmático, com os degenerados trejeitos maneiristas do anti-inquisidor realmente inquisidor, sem reparar que, mui avençadamente, entre o “mosca” do Intendente e o “bufo” da PIDE, houve alguns “formigas” que tramaram tanto Afonso Costa como o 25 de Abril. Desta feita, os chefes não foram parvos e sabem que tudo sai dos meus privatíssimos arquivos da memória que adequadamente informatizei e donde não constam fichas nem contrafichas do “Lumpen”.

Jul 25

Depoimento a Pedro Correia, sobre as direitas

Direita procura novas vias para conseguir sobreviver

PEDRO CORREIA

 

Santana pondera criação de novo partido à direita

Pedro Santana Lopes está a ponderar a criação de uma nova força política que mobilize a direita e o centro- -direita, apurou o DN. O recente resultado em Lisboa, na perspectiva do ex-presidente do PSD, demonstra que o actual ordenamento partidário está à beira do esgotamento. “Não pode ficar tudo na mesma. Concordo com aqueles que dizem que estamos no fim de um ciclo”, declarou ontem Santana aos jornalistas que o interpelaram no Parlamento. Na sua opinião, “o centro-direita vai passar por uma grande reformulação. As candidaturas independentes em Lisboa são prenúncio de mudanças no sistema.”

A nova força política poderá chamar-se Aliança Democrática Portugal (ADP). É essa a sigla já registada por Ricardo Alves Gomes, ex-adjunto de Santana no Governo, que abandonou o PSD em 2005 e mantém uma página “em construção” na internet com o logótipo da ADP – em tons verde, branco e azul.

A palavra mudança será hoje certamente pronunciada nos conselhos nacionais do PSD e do CDS. Mas Santana não irá à reunião social-democrata, alegando motivos pessoais.

A antecipação da eleição directa para a escolha do líder e do congresso nacional do PSD, decidida por Marques Mendes, e a “reflexão” anunciada por Paulo Portas no CDS indiciam que tudo já começou a mexer. Com alguma ironia, José Miguel Júdice recomendava ontem a fusão entre os dois partidos, em declarações ao Diário Económico. Isto numa altura em que Manuel Monteiro prepara a saída da liderança do Partido da Nova Democracia.

Estarão mesmo reunidas as condições para uma reformulação da direita portuguesa? Há quem pense que sim. É o caso de José Adelino Maltez. “Há uma crise grave do sistema partidocrático. A situação está esclerosada”, afirma ao DN este politólogo, apontando o exemplo de Lisboa: “Somados os que se abstiveram aos que preferiram as candidatura dissidentes, há 74% de eleitores indiferentes aos partidos instalados ou que os rejeitam expressamente”.

Este especialista em Ciência Política ironiza: “A direita que convém à esquerda chama-se Marques Mendes e Paulo Portas.” Entre os sociais- -democratas, sublinha, a mudança é difícil. E porquê? “Certos elementos encavacam o PSD. Incluindo Manuela Ferreira Leite, um D. Sebastião de saias que tolhe a criatividade do PPD profundo.” O problema, a curto ou médio prazo, será de todos: “Qualquer dia reparam que não têm povo.”

Rui Ramos admite que a eleição em Lisboa “propicie mudanças no sistema partidário português, “caracterizado por uma certa rigidez”. Ao DN, este historiador reconhece a existência de um “cansaço dos eleitores”, devido à consciência de “existirem conchas partidárias que albergam realidades muito diversas”. Na sua opinião, não existe um só PSD – existem pelo menos três. E não há um só CDS – há dois, bem diferentes.

Rui Ramos lembra que a direita “já foi refundada” em países como Espanha, Itália e França. Também ao DN, o politólogo Rui Oliveira e Costa recorda o mesmo. Mas adverte: “O país profundo, nesta matéria, é conservador. A principal dificuldade ao reordenamento partidário são as autarquias locais. O PSD é o partido do poder local e tem a presidência da Associação Nacional de Municípios. Nele uma mudança profunda só se fará da província para a capital.”

 

Jul 23

Quando quatrocentos metros demoram dois meses a percorrer, neste Estado de Direito feito “simplex”

Um governo (regional) diz que não vai cumprir uma lei da República. Um presidente da mesma República aconselha os cidadãos a protestarem junto da morosidade da justiça. Os cidadãos calam e concluem que assim o presidente pode correr o risco de não cumprir a lei constitucional que o erigiu em garante das instituições constitucionais. Porque os nossos primeirinhos, treslendo, podem acumular com as memórias de antecessores e dizer que não cumprem a lei, na sua letra e no seu espírito, incluindo a lei constitucional que determina haver Estado de Direito no próprio circuito burocrático e político da administração directa e indirecta do Estado. Porque uma grávida que legalmente poderia abortar, ao recorrer aos tribunais, pode até ver que a coisa demore três a cinco anos a chegar ao fim, sobretudo se o Tribunal de uma qualquer boa hora demorar dois meses a enviar cinco quilos de processo para o tribunal superior que fica a quatrocentos metros de distância, por falta de transporte. Ainda não foram oferecidos computadores a baixo custo a todos os chefes, até para evitar que eles recorram à blogosfera anti-socrática.

Jul 20

Os tiques absolutistas dos novos pequenos PRECs em curso de afundação

Sua excelência a maioria parlamentar aprovou ontem tudo o que quis. Com toda a legalidade formal, mas com amplos buracões de falta de legitimidade. Imaginemos que o exemplo se propaga.

Imaginemos que, num dos arremedos desta democracia, aparecem uns exemplares prequianos que misturam este modelo com uma mentalidade vanguardista de democratura, usando o figurino da democracia representativa para transformarem efémeras maiorias absolutas em absolutismos listeiros, ao serviço de pequenos césares de multidões de subsidiados e empregados num arremedo de PREC e de União Nacional, onde até se podem comprar os líderes da oposição, através de um processo de assalto ao poder, num delírio de revolucionários frustrados que, misturando os métodos da FRELIMO com os da velha UDP, vão repetir as bebedeiras adolescentes, onde cangalheiros, vestidos de director-geral, serodiamente nos atiram para o abismo do falso centralismo democrático, onde não faltam comités centrais e seus descendentes?
Por mim, apenas gostaria que tudo isto se tratasse de ficção e não coincidisse com sectores da realidade pagos pelo dinheiro do povo. Mas não. É efectivamente verdade e repete o verão quente das assembleias do MFA antes do V Governo Provisório, numa mistura de ritmo madeirense, importações de Samora Machel e brincadeiras de almoçaradas com pides, num triunvirato delirante de um verão quente que, pintado de socialista, não passa de um descarado social-fascismo.
Apenas repito o que há anos denunciei contra os mesmos actores e líderes, quando eles eram criados de servir de um absolutismo salazarento.
“Estamos, neste momento, a viver a crise típica dos estados febris que se sucedem a certos vazios de poder e a sublimação das tendências recalcadas que precedem as movimentações para a conquista ou para a manutenção em certos poderes políticos, universitários ou sociais (tudo com minúscula, assinale-se).
Nem sequer a crise é apenas de uma simples subunidade orgânica do estadão, dado que, sobre nós, confluem, talvez freudianamente, crises de outros círculos maiores da nossa instituição universitária, de outras instituições universitárias, onde coincidimos individualmente, e, sobretudo, de muitas carreiras e correrias pessoais, que provocam um ambiente propício à pequena demagogia dos pretensos césares de multidões, com emanações de terrorzinho de salão, de assembleia, de corredores (na expressão correspondente do inglês), de cartas anónimas e de telefonemas com grunhidos animalescos, onde já funcionam as ameaças e as interferências na própria vida privada de quem não quer ser formatado pela corrente.

Não me parece que os tempos do estado febril da sociedade, sejam eles adolescentes, adultos ou serôdios, se mostrem propícios a decisões de médio e longo prazos, necessariamente harmónicas que reconheçam e dinamizem a poliarquia de paradigmas que, neste momento, conforma a nossa instituição.
Talvez não convenha cedermos aos tempos onde a raposa passa a usar as garras do lobo e a serpente a querer voar como as rapinas. Nem sequer vale a pena a linguagem das pombas a abater ou dos cordeiros a imolar. Não acredito nos animais falantes.

Apenas manifesto a minha dor pelos desenvolvimentos recentes do poder infraestrutural. Pelas consequências da conquista e manutenção do poder na rede institucional em que estamos inseridos, todos poderão ver, amanhã, a constelação causal e as acções reversíveis do processo em curso.

Declaro, com toda a frontalidade, em nome da normativista “moral de convicção”, que tanto não aceito o autoritário “quem não está contra mim, está a favor de mim”, como repudio activamente o totalitário “quem não está a favor de mim, está contra mim”. Os fins não justificam os meios…
Concordarmos com algumas reivindicações desta mistura de vanguardismo com situacionismo, não significa concordarmos com os meios usados pelo poder organizado dominante. E só um pensamento binariamente linear pode, em seguida, concluir, que quem assim pensa e actua tem necessariamente de apoiar a intervenção dos aparelhos de repressão em vigor.

Num Estado de Legalidade não me parece educativo que se utilizem tanto a via revolucionária da acção directa, de quem ousa fazer justiça pelas suas próprias mãos, em nome da primordial vindicta privada sem os limites da legítima defesa, como o vanguardismo da lei de ferro da oligarquia partidocrática.
Num Estado de Direito Democrático, onde todas as pequenas instituições estaduais do mesmo se devem integrar, não considero justo que se ceda à pressão da nostalgia revolucionária ou dos candidatos a princeps que mimeticamente confundem o pretérito perfeito com o futuro aventureiro.
As regras da democracia representativa e pluralista não admitem excepções para o corporacionismo universitário, estudantil, burocrático ou professoral. Prefiro o sufrágio universal (do voto secreto), a liberdade livre (dos liberdadeiros) e o respeito pelas minorias (da poliarquia). Repudio a tirania das maiorias, o elitismo de salão, a ditadura da moda, o império do vazio e o ostracismo.

Já pratiquei estes princípios de cidadania quando corriam os crepúsculos autoritaristas e os consequentes ventos da moda da tradução em calão do nosso pensée 68 ou do pretenso PREC do jacobinismo leninista à portuguesa.

Continuarei a praticá-los mesmo que a degenerescência invoque sinais ideológicos contrários em nominalismo, mas iguais na metodologia, nos gestos e às vezes nos próprios figurantes da cena. E muito menos cederei se o processo for marcado pelo niilismo da vindicta. Quem tem razão a curto prazo, pode não tê-la tanto a médio prazo como a longo prazo. E só é moda aquilo que passa de moda.
Não tenho medo de estar de acordo comigo mesmo, ainda que venha a estar em desacordo com todos os outros. Tanto é mau o despotismo de um, ou de poucos, como o despotismo de todos.
Julgo saber analisar laboratorialmente os invocadores da pequena Razão de l’Etat c’est moi bem como os pretensamente “lúcidos” praticantes da “moral de responsabilidade”.
Também percebo a vontade de poder dos que dizem querer salvar a cidade, apenas a pensar na paróquia, no quintal, na casa, na bolsa, na barriguinha, na inveja ou nas vaidades. E entendo o libidinoso de muitas ânsias dominandi, o dogmatismo de acaciana pacotilha e o indisfarçado desejo quanto à imposição de um paradigma único, de um pensamento único e de um politically correct tribalista. Prefiro, neste tempo dos tais homens “lúcidos”, ter “a lucidez de ser ingénuo”.
Já fui julgado pelo tribunal da oclocracia e a sentença foi publicada no dazibao. Só falta o sanbenito e a queima da efígie.

Não tenho tolerância para ser incluído na caderneta das criaturas toleradas! Ninguém me pode “doar” aquilo a que tenho direito, por concursos públicos, provas públicas, escritos públicos, conferências públicas e aulas públicas! E nem sequer peço solidariedade àqueles colegas que se prontificarão a lavar as mãos como Pilatos. Numa instituição da democracia não pode haver pulhítica.

Vou continuar a viver como penso, sem pensar muito em como viverei aqui. Apenas reclamo o direito de continuar a cumprir o meu dever de professor. Não venho aqui oferecer a minha cabeça na bandeja para a vindicta dos que, por outras razões, me pretendem transformar em bode expiatório. Venho assumir a coragem de ter comigo uma ampla minoria constituída por mim mesmo”.
Aqui e agora, onde, na prática, a teoria é outra, e onde a esmagadora maioria dos cidadãos está adormecida pela indiferença, apenas repito o que ainda há pouco me ensinavam: o bem comum é inércia, o mal do vanguardismo é sempre a dinâmica dos organizadores. E nem a resistência passiva, quando passa a organização política, continua os belos princípios que a geraram. Resta a subversão do pensamento que pode deixar semente e ser exemplo contra aquilo que aqui denuncio e não é metáfora ou futurismo orwelliano da utopia negativa, mas unhas cravadas no dorso e um real asfixiante que faz apelar à procura de exílio se o direito à indignação não se transformar em revolta contra a cobardia. É o meu dever. Não, não vou por aí…

Jul 19

A fala forte apenas disfarça o argumento fraco da habitual esquizofrenia do Portugal dos pequeninos com a mania das grandezas

O ministro da consciência tranquila e da propaganda veio hoje confirmar à Lusa que sempre houve tiranetes na administração pública, isto é, veio hoje reconhecer que, sob o respectivo governo, continuam os tiranetes. Por outras palavras, face ao continuado laxismo do Bloco Central, muitos têm que confundir o exercício do poder com pequenos e grandes tiques autoritários, onde a fala forte apenas disfarça o argumento fraco da habitual esquizofrenia do Portugal dos pequeninos com a mania das grandezas.
Onde o exagero dos sinais exteriores de poderio não consegue disfarçar o vazio de autoridade. Onde o hábito não faz o monge. Até porque os “teres” do que parece e do que aparece acabam por corresponder a um “não ser”. Porque o Estado a que chegámos não passa de um gigante com pés de barro, a que costumo dar o nome de estadão.
Basta notar a entrevista televisiva com que Marques Mendes, outro ex-ministro da propaganda e do alinhamento dos telejornais, tentou responder ao gaiense Menezes, demonstrando como está para o PSD como Ferro Rodrigues esteve para o PS. Onde apenas se espera que o actual supremo revisor de contas acabe por fazer-lhe o vazio com que o antigo notário do regime despediu o actual embaixador na OCDE, na fase não-Pilatos do respectivo mandato belenense.
Já a viagem pelos micro-autoritarismos sub-estatais continua. Ainda ontem ouvia ao vivo, e em directo, um discurso sobre o conceito de Estado de Direito de um ex-alto responsável pela reforma do estadão socialista, para quem a administração pública apenas poderia protestar pelo recurso aos tribunais. Isto é, não reparava que a justiça sempre foi superior ao direito e este, superior à lei. E que mesmo uma ditadura, com tortura, pode obedecer ao princípio da legalidade, como acontecia com os pides no salazarismo.
Julgo que precisamos muito de “glasnot” nesta falta de paredes de vidro de muitos segmentos de uma administração pública, onde a “perestroika” está cheia da velha mentalidade concentracionária. Os cursos rápidos de pluralismo e de Estado de Direito seriam benvindos, para extirparmos a subcultura de estadão caciquista que nos enregela, nesta “second life”, plena de cangalheiros com música celestial.

Jul 19

Parlamento

Lê-se no “Público” que quando os trabalhos foram retomados após o almoço tinham sido feitas 137 votações e aprovados 30 artigos. “Pelas minhas contas, estamos a discutir 462 alterações Ainda faltam mais de 300 votações”, resumia o presidente da comissão. Artigo a artigo, muitas vezes alínea a alínea, os deputados, munidos de muitas garrafas de água, eram chamados a votar ou a explicar o sentido das propostas. Que por vezes ficavam por dar. Questionado pelo CDS-PP sobre o sentido de um dos artigos da proposta do Governo, que ia receber o voto favorável do PS, o deputado socialista Manuel Mota alegou que tal já tinha sido discutido e que não valia a pena “perder tempo”. “Ficamos a saber que há uma norma que vai ser aprovada, mas não sabemos para que serve”, criticou Pedro Duarte.  Por outras palavras, o ilustre parlamento parece ter trabalhado noite dentro no corte e costura da projectada lei da universidade e do restante superior de forma bem inferior, para que Gago possa ser digno sucessor da revolução dos homens sem sono e do reformismo de Veiga Simão, neste filho de pai que agora fica incógnito, sem ter que dar despacho sobre a Universidade Independente, o tal que foi solenemente prometido como rapidamente e em força, que quem diz ter força pode, afinal, não ter doutrina.