Ago 09

Neste vazio de pátria e de bem comum, entre o crepúsculo do salazarismo e o estado a que chegámos

Contrariando as minhas boas intenções de férias livres de livros, eis que, depois de ler de um fôlego e em diagonal o “voyeurismo” de Zita sobre os meandros da clandestinidade do PCP e o comando vanguardista do PREC, reli-o anotadamente neste remanso de férias, por empréstimo de alguém da nossa companhia de travessia da ria. Concluí que se trata de mais uma peça de literatura de justificação do situacionismo e dos novos donos do poder, um pouco à imagem e semelhança das quase-memórias de Filomena Mónica, onde Vasco Pulido Valente, o ex-militante do Movimento de Acção Revolucionária, é topos, ou lugar comum de ex-actor feito agora revisor de nihil obstat. Porque nele, no livro, dito de ajuste de contas por Jerónimo, não circula o chamado povo comum ou o valor máximo que nos dá república e pátria e a que, desde sempre, chamámos justiça. Para que possamos cultivar aquela vontade de sermos independentes, aquela comunidade das coisas que se amam e à qual pretendo continuar a dar o nome de Portugal.

Com efeito, o livro de Zita é uma bela demonstração de como ainda somos vítimas dos dois principais déspotas iluminados do século XX português: os irmãos-inimigos Salazar e Cunhal. Aliás, a própria Zita que, para derrubar o fascismo (de Salazar) se assumiu como clandestina guerrilheira do comunismo (de Cunhal), revela que, para se livrar deste duplo universo concentracionário, precisou, mais recentemente, de aliar-se aos refluxos intelectuais de ex-esquerdistas de ex-maoístas e ex-”m-l” que, outrora, erigiram o “social-fascismo” como inimigo principal.

O livro de Zita é, de facto, um excelente revelador deste vazio de pátria e de bem comum, provocado por um pano de fundo de autoritarismo absolutista e de bufaria inquisitorial, onde o desespero da saída revolucionária e violentista acabou por nos conduzir ao mais do mesmo. Com efeito, as metodologias vérmicas da subversão dos aparelhos de Estado, feitas de sucessivos centralismos conspirativos e de facciosismos propagandísticos, com muito discurso eficaz, acabaram por gerar sucessivos césares de multidões, intelectuais orgânicos, correias de transmissão e enormes rebanhos de idiotas úteis.

Consegue, contudo, fazer certo retrato da minha geração, daquela que fez a passagem do crepúsculo do “ancien régime” para esta “pós-revolução” que transitou das RGAs dos saneamentos para os plenários da banca, com o mesmo sentido manipulador. É assim natural que transforme a nostálgica rebeldia de uma burguesinha numa enxertia artificial de revolucionária profissional. Agora, sentada no sofá da sala, ou sob os toldos de praias finas, a mesma geração talvez não repare que não é senão uma massa informe, moldável pela batuta dos gestores de “share” e de “agenda setting”, mesmo quando passou da esquerda dura para a direita ou a esquerda moles, sob a égide de um governo de esquerda com temperamento de direita, ou de um governo de direita com preconceitos de esquerda e fantasmas de direita.

Até porque ambos os dois últimos modelos deste mesmo sistema de Bloco Central, apenas dependem dos apetites daquele utilitarismo que tem como primeiro mandamento a obtenção do máximo de prazer com o mínimo de dor, ao mesmo tempo que subscreve o ditado maquiavélico, segundo o qual tem razão quem vence. E entre as operações de guerrilha de salão e heróis das tias de Cascais e da Foz do Douro, acaba por dominar a clássica aliança dos feitores dos ricos com os moralistas de sacristia.

Foi assim que passámos de um ambiente de PIDE e União Nacional, para novo esquema onde continuam a pontificar os grandes “filhos família” de certa classe social devorista que sempre soube controlar os meandros ocultos da fabricação dos donos do poder, onde o estado a que chegámos é, sobretudo, uma consequência daqueles sobreviventes que, entre o salazarismo, o marcelismo, o PREC e a pós-revolução, passaram do marxismo-cunhalista, ou maoísta, para o socialismo da direita dos interesses, com o pé-atrás das memórias esquerdistas e o bico de pé do beatério possidente, à espera de abichar mais uma prebenda do estadão ou outro qualquer favor decretino.

João Carlos Espada, o conselheiro presidencial de Soares e Cavaco, com intervalos doutrinários na universidade concordatária, é o seu profeta. Manuel Dias Loureiro, o autor de todas as moções, poemas e programas do PSD, é o seu engenheiro do moções. Paulo Teixeira Pinto não passa do filho que as tias gostariam de ter casado com a Paula Teixeira da Cruz. E Vital Moreira, o intelectual capaz de pôr em lei este equilíbrio hipócrita, para que Pina Moura mobilize o José Eduardo Moniz para nova telenovela que nos adormeça.

Por mim, prefiro o eterno retorno a um simples poema da Mensagem de Fernando Pessoa, para tentar compreender o milenarismo, meio malhado, de mestre Agostinho da Silva, quando nos procurou recordar que o grande construtor do quinto império, do poder dos sem poder, foi el-rei D. Dinis, esse plantador de naus a haver para o Portugal poder-ser.

Infelizmente, o nosso conceito de herói anda muito por baixo, especialmente se o perspectivarmos de um lugar que não abarca a floresta, mas apenas as pequenas árvores vizinhas dos amigos de seita, com muito sindicalismo de citação mútua e literaturazinha de cordel, nesse universo politicamente correcto que se auto-configura como correcto e que passa de São Lenine para São Churchill, de acordo com as desavenças burguesóides e o misticismo reaccionário que faz dos principais partidos do Bloco Central a foz de todos os filósofos da traição.

Ago 08

Os bailados da fina flor da plutocracia e dos muitos feitores de ricos…

Bem tento interromper a rotina do dia a dia capitaleiro, entre os deveres de função e a própria análise das nossos politiqueiros. Bem tento guardar no corpo as escamas de sal e os restos de areia. Bem tento que o tempo que me dê tempo, para, perdendo o tempo, ganhar mais tempo. E até há velhotes sentados nos bancos da marginal, vendo cair a noitinha, aproveitando a brisa, aproveitando a vida e até eu vou fazendo meus diários exercícios espirituais, neste pátio interior, bem algarvio, e até me vou escrevendo e rememorando, deixando fluir o tempo que passa e não prende.

Meia dúzia de dias de férias já me fizeram diluir em normalidade, longe dos golpes de estadão e das cobardias que foram escavacando, em oportunismos carreiristas e politiqueirice o que resta de algumas instituições que perderam a alma. É bem grave a nossa crise de povo, especialmente quando os organismos através dos quais o mesmo se expressa se entregam episodicamente às bebedeiras da personalização do poder, com muitos pequenos césares de multidões, com os seus festins de oclocracia.

O paradigma da governabilidade dos Pinto da Costa e dos Alberto João vai intoxicando um corpo dilacerado por epidemias de oportunismo, corrompendo as fundações sistémicas que nos deveriam mobilizar para o bem comum. Resta uma canalhocracia feita desse misto de empregomania e de subsidiodependência, borbulhagem que julgávamos banida pelo bom senso da experiência histórica.

Entretanto, a mais devota e milenária entidade produtora de usura do nosso quotidiano pós-revolucionário, inspirada pelos espirituais cilícios, demonstra como também nas obras divinas pode haver facciosismos por causa da conquista do poder, onde contam mais os lucros do que os metafísicos exercícios espirituais. Talvez porque, no longo prazo dos além do porta-moedas, estejamos todos mortos.

Mesmo o belo dos choques tecnológico-bancários dos “young urbans” capitaleiros acabou desfeito por uma avaria virosa no sistema informático. E o belo plenário que concentrou alfandegariamente um belo naco dos nossos donos do poder, a tal fina flor de uma plutocracia, que se aprimorou para as televisões, apenas permitiu um novo discurso do principal accionista do Benfica, que acabou por fazer belo negócio com aquela PT que impediu de ser anexada pelo Belmiro, bem como novas alegações facturadas dos feitores dos ricos que restam a esta pequena casa lusitana.

Uma assembleia bancária tornou-se assim em mais um evento “jet set”, ornada daqueles trejeitos que fazem sucesso na imprensa cor de rosa, que a pequena burguesia invejosa consome sob os toldos, à procura de um lugar mais ao sol na longa fila dos que ainda acreditam na ideologia do homem de sucesso. Resta o comité central da moção do homem de Fafe, onde brilha outro ex-político, convertido ao negocismo, confirmando como, em Portugal, o importante não é ser ministro, mas tê-lo sido…

Resta concluir que toda a culpa nestes casos vai directa para o povão que continua a preferir ser consumidor e audiência desta publicidade enganosa e a ter a ilusão de ganhar algum com a consequente sociedade de casino, ambas instauradas pelo cacete ilusionista, onde a Maria da Fonte se transformou em hino oficial das visitas ministerais e o monopólio estadual dos jogos de fortuna e azar cabe a uma coisa, também estadual, mas que ainda conserva o nome de Santa Casa dita da Misericórdia. Amen…

Ago 06

Destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste

Há uma semana que estou nesta imaginada casa branca de telha portuguesa, neste sítio onde há pedaços de sombra, num pátio interior, bem algarvio, ousando esquecer estes restos de quem sou. Aqui, neste lugar de calma, há um largo da praça, um azul solar, um devagar, e sempre uma folha branca por onde peregrinar, especialmente quando a manhã vai nascendo e apetece o aconchego de uma árvore ainda verde, em pleno Agosto, para mais um dia de pedra calcinada. Aqui sou, mais uma vez, à espera que novo dia me desperte, neste ritual de estar sentado a escrever-me, aqui estou, à minha espera, viajando pelas memórias que me desperta a gente que passa no largo da praça. Tento cumprir a missão de todos os dias me pensar, de todos os dias me escrever, mesmo quando não o comunico aos irmãos leitores destes postais. Deixo que a fluidez lírica que me impregne, que este ambiente aquífero e arenosos das dunas e sapais estimulem a minha própria procura, feita de quotidianos exercícios espirituais e de certa “ratio studiorum” que nem por isso me fazem guerrilheiro da palavra, ao serviço de um qualquer colectivismo moral. Até porque as escamas de sal e de sonho que trago no corpo vieram da realidade destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste. Continuo sereno e difuso, anotando quem sou e procurando captar o sonho que me leva à escrita, neste escrever por ter de escrever, sem saber o que vai acontecer na linha que começo a escrever. Porque escrever-me à toa é procurar captar o manancial de signos e sensações que todos os dias vou resguardando na arca dos poemas por fazer. Confesso que neste bloguear continuo a ser abstracto demais para os caçadores de parangonas, mesmo quando peregrino pelas politiqueirices que me cercam e as quais tento enfrentar com o mínimo analítico do lume da razão, e com alguma imaginação criativa, dita lume da profecia (Padre António Vieira)

 

Ago 06

Lá vamos gaguejando e cientificando, levados, levados, não

Foi há poucos dias publicada uma entrevista do senhor ministro-presidente da Europa em matéria de ciência, e também supremo reformador das nossas universidades, que, do alto da sua vitória, nos manifesta que ainda está vivo o militante do verdadeiro e extremista socialismo científico, embora se presuponha que já deve ter abandonado as suas fúrias marxistas-leninistas. Verifico, contudo, que ainda conserva um restrito conceito de ciência que faz da ciência que diz praticar a única que merece o dom de arquitectónica, remetendo todas as outras para a categoria de ocultas servas dos professores pardais. As ideologias passam, as metodologias ficam.

Todo ele feito da tal ciência certa e do inequívoco poder absoluto, voltado para a vanguardista felicidade dos povos, continua a considerar que só existe aquilo que pode medir-se e que só é mundo o mundo que ele conhece. Daí que tenha a ousadia de determinar como paradigma apenas aquilo que se radica nas suas ideológicas raízes de despotismo teórico, aquilo que julga poder elevá-lo, de forma estruturalista, às culminâncias de um estadão decretino.

Até um anterior Prémio Nobel lusitano é determinado como simples acaso da área médica. Daí que, por mim, fomule um simples desejo: que deixe em paz criativa os portugueses à solta que procuram aquela imaginação politicamente científica que estimula todos os que pensam comunitariamente de forma racional e justa. Desses que, para serem científicos, não têm que vestir-se daquelas fatiotas pós-modernas que se iludem em captar as luzes das pretensas nações polidas e civilizadas.

Essas perspectivas, mui axiomaticamente-dedutivas e mui sintético-compendiárias, à boa maneira das deduções cronológico-analíticas dos livros únicos, podem conduir ao terrorismo de uma decepada razão que, se aliado ao decretino do Estado, acaba por reduzir-se a mais uma ideologia oficial. Especialmente quando não compreende que a razão inteira é uma razão complexa, axiológica e normativa, plena se símbolos, de imaginação e com muito lume da profecia. Não deixemos cair nos bolsos rotos da conspiração laboratorial dos batas brancas esses pretensos desperdícios que até fazem, da república, a comunidade das coisas que se amam.

Ago 06

Destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste

Há uma semana que estou nesta imaginada casa branca de telha portuguesa, neste sítio onde há pedaços de sombra, num pátio interior, bem algarvio, ousando esquecer estes restos de quem sou. Aqui, neste lugar de calma, há um largo da praça, um azul solar, um devagar, e sempre uma folha branca por onde peregrinar, especialmente quando a manhã vai nascendo e apetece o aconchego de uma árvore ainda verde, em pleno Agosto, para mais um dia de pedra calcinada.

Aqui sou, mais uma vez, à espera que novo dia me desperte, neste ritual de estar sentado a escrever-me, aqui estou, à minha espera, viajando pelas memórias que me desperta a gente que passa no largo da praça. Tento cumprir a missão de todos os dias me pensar, de todos os dias me escrever, mesmo quando não o comunico aos irmãos leitores destes postais.

Deixo que a fluidez lírica que me impregne, que este ambiente aquífero e arenosos das dunas e sapais estimulem a minha própria procura, feita de quotidianos exercícios espirituais e de certa “ratio studiorum” que nem por isso me fazem guerrilheiro da palavra, ao serviço de um qualquer colectivismo moral. Até porque as escamas de sal e de sonho que trago no corpo vieram da realidade destas águas atlânticas voltadas para África, deste novo Mediterrâneo da história, deste mar cuja linha de horizonte vai de Leste para Oeste.

Continuo sereno e difuso, anotando quem sou e procurando captar o sonho que me leva à escrita, neste escrever por ter de escrever, sem saber o que vai acontecer na linha que começo a escrever. Porque escrever-me à toa é procurar captar o manancial de signos e sensações que todos os dias vou resguardando na arca dos poemas por fazer.

Confesso que neste bloguear continuo a ser abstracto demais para os caçadores de parangonas, mesmo quando peregrino pelas politiqueirices que me cercam e as quais tento enfrentar com o mínimo analítico do lume da razão, e com alguma imaginação criativa, dita lume da profecia (Padre António Vieira). É por isso que tenho lido algumas coisitas publicadas pela imprensa e que analisarei nos próximos postais, desde a entrevista de José Luís Sanches sobre a avençologia, à teoria da traição da zitomania, coisas que foram compensadas pela radicação patriótica de António Arnaut, sinais de crise desta coisa chamada regime…

Ago 04

Lá vamos gaguejando e cientificando, levados, levados, não

Foi há poucos dias publicada uma entrevista do senhor ministro-presidente da Europa em matéria de ciência, e também supremo reformador das nossas universidades, que, do alto da sua vitória, nos manifesta que ainda está vivo o militante do verdadeiro e extremista socialismo científico, embora se presuponha que já deve ter abandonado as suas fúrias marxistas-leninistas. Verifico, contudo, que ainda conserva um restrito conceito de ciência que faz da ciência que diz praticar a única que merece o dom de arquitectónica, remetendo todas as outras para a categoria de ocultas servas dos professores pardais. As ideologias passam, as metodologias ficam. Todo ele feito da tal ciência certa e do inequívoco poder absoluto, voltado para a vanguardista felicidade dos povos, continua a considerar que só existe aquilo que pode medir-se e que só é mundo o mundo que ele conhece. Daí que tenha a ousadia de determinar como paradigma apenas aquilo que se radica nas suas ideológicas raízes de despotismo teórico, aquilo que julga poder elevá-lo, de forma estruturalista, às culminâncias de um estadão decretino. Até um anterior Prémio Nobel lusitano é determinado como simples acaso da área médica. Daí que, por mim, fomule um simples desejo: que deixe em paz criativa os portugueses à solta que procuram aquela imaginação politicamente científica que estimula todos os que pensam comunitariamente de forma racional e justa. Desses que, para serem científicos, não têm que vestir-se daquelas fatiotas pós-modernas que se iludem em captar as luzes das pretensas nações polidas e civilizadas. Essas perspectivas, mui axiomaticamente-dedutivas e mui sintético-compendiárias, à boa maneira das deduções cronológico-analíticas dos livros únicos, podem conduzir ao terrorismo de uma decepada razão que, se aliado ao decretino do Estado, acaba por reduzir-se a mais uma ideologia oficial. Especialmente quando não compreende que a razão inteira é uma razão complexa, axiológica e normativa, plena se símbolos, de imaginação e com muito lume da profecia. Não deixemos cair nos bolsos rotos da conspiração laboratorial dos batas brancas esses pretensos desperdícios que até fazem, da república, a comunidade das coisas que se amam.

Ago 04

Há flores e cascos de crustáceo nas dunas do sapal

Por aqui continuo. Há barcos que passam, velas que voam. Onda que vai e vem. Há concheiros, algas, lesmas de mar e uma sopa de verde que pisamos antes de entrarmos no além profundo da nostalgia do ventre mãe do oceano donde nascemos. Há flores e cascos de crustáceo nas dunas do sapal. Há bicos de barco, lisas dunas, vapor que pinga e muros de canas que nos defendem do vento que ameaça. E não dói quem sonho. Rachei a modorra e já revoo. Sou capaz de sentir o todo de uma impressão sem analiticamente descrever pássaros. Sabemos dunas, sal e sol, e barcos que nos levam para a outra margem de quem somos. Sabemos todas as viagens donde partimos, a circum-navegação de quem não chegou ao fim, e as tormentas de quem morreu tentando. Porque há sinais de vento que nos enfunam as telas de pano cru onde bordámos os signos da boa esperança.
Sabemos mar e a linha do horizonte que nos dá o espaço inteiro de uma vida por cumprir. Sabemos mar. E presos em seu vaivém, dia a dia continuamos marés e ritmos lunares. Sabemos mar e partimos sempre em cada proa que vai passando ao largo. Porque apetecem sempre viagens, novos sítios de procurar, para não mais voltar. Sabemos mar e além-mar. E apetece não regressar. Quando quem somos se faz exílio procurado, quando quem somos é posto à solta, livre das teias do ter de ficar e sem o desterro do ostracismo. Podemos ser o sonho de quem semeia nomes de vento em plena terra de ermamento. Há a doce lonjura de um verso que dormita, um sonho que o sono adormecia, o voo de um tempo sem tempo que me voltou a dar distância. Longe e perto, na recta linha por onde fujo, na longa noite me perco à procura de manhã. Sabemos mar, praias abertas, fúria de vento, rios que procuram sua foz. Sabemos mar. Seremos mar. Há muitos sinais que nos trazem o azul, a síntese da cor do universo. E podemos sempre seguir o rasto da gaivota e navegar o mar sem fim, dito assim em português à solta. Somos porque fomos. E só assim seremos.

Jul 31

Um lugar do sul, um lugar de sal, entre alcatruzes e a terra estreita

Para os devidos efeitos se informa que estou por aqui, bem pertinho dos alcatruzes dos polvos, cá para as bandas de Santa Luzia, onde a componente autóctene e piscatória ainda domina os serviços turísticos. O arroz de lingueirão continua óptimo e a viagem para a Terra Estreita, para além de hora e meia de espera no passadiço, em certos dias, demora apenas cinco minutos.

Várias vezes, a ilha largou do continente, esquecendo-se da campanha para a eleição do líder do PSD e das novas contratações do Benfica. Há um poço de água fresca e sabe tão quente sentir cair o dia no sapal, com este cheiro intenso de maré vazia. Depois, há noites de lua cheia e barcaças que nos levam para o outro lado de quem somos.
Sobretudo, um braço de mar que entra por mim dentro. E sempre a procura de um sítio onde pensar-me, um simples lugar que me dê mais tempo, para poder perder meu tempo. Porque assim posso voltar a ser menino na praça das cidades abertas, voltar a ser olho marinho, com todos os sonhos que outrora me sustiveram, lá nas alturas da janela do meu sótão.
Não trouxe livros para ler nem consumo semanários de análise política. Porque vivendo em um novo lugar, andei absorvido durante os primeiros dias a captar a alma do sítio, dando passeios matinais para saber onde se compra o pão, onde fica a barbearia do senhor Bento, etc… Porque é melhor conviver numa vila onde viva gente do que refugiar-me na paliçada de um qualquer hotel com “spa” e fila para o pequeno-almoço sempre igual.
Ainda há pouco tropecei no imprevisto do dia, quando, na primeira caminhada, em plena rua, uma velhinha, de negro vestida, ao cruzar-se comigo, me saudou com um sonoro e feliz “bom dia”. E lá recordei esse resto de civilização que o mundo não urbano ainda conserva e que ostensivamente me envergonhou, eu, capitaleiro, de rurícolas origens, que já nem sequer é capaz de praticar as regras da boa educação que aprendeu de seus avoengos. Respondi-lhe evidentemente: “bom dia, minha senhora”.

Jul 28

Em tempo de homens ditos realistas, importa ter o realismo de ser idealista

Começo por recordar. Que na data de hoje, em 1914, com a declaração de guerra de Viena à Sérvia, se iniciaram oficialmente as hostilidades daquilo que, então, se assumiu como a Grande Guerra, que seria a última, mas que, afinal, não passou da I Guerra Mundial, depois de haver a Segunda. E a maior parte dos problemas que podem provocar as guerras mundiais de hoje ainda são problemas que este primeiro confronto pseudo-gnóstico não resolveu.

 

Comemorava então o seu aniversário, pelas doze primaveras, um tal Karl Raimund Popper, que a si mesmo se veio considerar como o último filósofo das luzes e a quem devemos a explosão solar que, na estrada para Damasco, cegou, de tanto brilho, alguns ex-ilustres marxistas-leninistas-estalinistas lusitanos, os tais que, mantendo ainda hoje a metodologia do georgiano, mas mudando de amanhãs que cantam, ainda por aí cantarolam o popperismo, procurando candidatar-se a supremos inquisidores da palaciana república. Por mim, já conhecia Popper antes de os ditos desembarcarem na biblioteca onde abriram as respectivas páginas pela primeira vez e continuo a não obedecer-lhes, embora tenha obediência.

 

Pedimos desculpa por esta interrupção dos nossos comentários de guerra. Vou ler em arquivo directo a última intervenção de Bush, porque os nossos propagandistas do dito talvez tenham cometido o erro de serem mais bushistas do que o próprio Bush. Queria acrescentar que, apesar de tudo, em matéria de política internacional, ainda sou do partido de Woodrow Wilson que, em tempo de homens lúcidos, tinha a lucidez de ser ingénuo. Até Hannah Arendt, que era judia, militaria aqui. Onde esperamos receber o mais lúcido contributo do próprio Bento XVI. Não tardará muito. Dizem que está a ler o relatório sobre o bombardeamento de alguns conventos no Líbano e a retomar o discurso de João Paulo II sobre o espírito de Assis.

Jul 27

A qualidade de uma democracia não se mede por sabermos quem manda

A qualidade de uma democracia não se mede por sabermos quem manda, mas antes por sabermos como de institucionaliza o controlo do poder. Democracia não é sondajocracia. Aliás, Hitler obteve uma maioria numa democracia, a da República de Weimar, e a Inquisição era bastante popular, com pressões do braço popular em Cortes, quando o rei queria abrandar o terrorismo de Estado, e amplas adesões das massas aos autos de fé. Aliás, em determinados momentos de pânico securitário, mesmo dos nossos dias, se a pena de morte fosse a referendo, logo revogaríamos a respectiva abolição, constante do Acto Adicional à Carta de 1852 e do decreto de 1 de Julho de 1867. Depois de séculos de Inquisição e de quase meio século de autoritarismo, se eliminámos os aparelhos de repressão, manteve-se o subsistema de medo que os mesmos geraram e não se apostou na revolução cultural educativa que desse autonomia às pessoas, com a consequente meritocracia. Deixámos subsistir os colectivismos, herdados do beatério catolaico ou comunista, onde qualquer um para se libertar dos pecados adere a uma dessas seitas, dizendo que não recebe lições de democracia dos adversários e demonizando-os com um qualquer adjectivo depreciativo. O poder não é uma coisa que se conquista em “spoil system”, mas antes uma relação, uma relação entre os aparelhos e a comundidade, entre o principado da governança e a república dos cidadãos, onde a sociedade civil não se reduz à CIP e aos loibos que sabem uivar e que não podem institucionalizar-se no parlamento, para não fazerem concorrência aos senhores deputados que pretendem monopolizar a actividade disfarçadamente, num país onde o importante não é ser ministro, é tê-lo sido