Mar 16

Viagem aos traseiros da “Révolution” de uma França que é pretérito, numa Europa sem presente

Também eu estava em Paris, quando os filhos e afilhados do Mai 68 fizeram uma viagem retro à bastonada da révolution, numa altura em que metade dos ministros da Europa são oriundos desses soixante-huitards, antes de se terem aberto lojas de santinhos que misturam, no mesmo altar, Iemanjá, Che Guevara, Gandhi e os pastorinhos de Fátima. Assisti, por dentro da própria rua, ao tradicional jogo do gato e do rato, na luta contra o CPE, Villepin e Sarko. E como pai de jovens licenciados lusitanos que vivem de recibos verdes, esbocei um sorriso, até porque ainda não cedi à tentação de meter cunha a um desses “amis” maoístas e trotskistas de outrora que agora são engenheiros deste Estado europeu a que chegámos, para fazer o habitual curto-circuito à falta de justiça que vai matando a “liberté, égalité et fraternité”.

 

Paris continua desequilibradamente viva entre o imaginário libertino do capitalismo selvagem e o proteccionista coitadinho de um État-Providence que obriga os africanos a fazer fila à procura da senha para consulta diante do edifício dos “Médécins du Monde”. É por isso que hoje, quem quiser estudar a coisa vai ao Collège de France e pode comparar em video a última conferência do especialista na coisa, o Professor Rosanvallon, antes da academia ter sido invadida pelos vizinhos estudantes da Sorbonne, que aproveitaram o vazio de vigilância da “gendarmerie” sobre o prédio ao lado, para ensaiarem as últimas técnicas de pedrada contra os representantes da globalização, aqui na rue des Écoles.

 

Os filhos dos pretensos pacifistas de ontem mostram como sem o freio da profiláctica policial por todo o lado semeariam carros incendiados, nesta Paris cujas colunas míticas são “les révolutions”, com muitas desordens e repressões que não levaram a nenhum lado, mas que continuam a ser escritas pelos revolucionários frustrados transformados em historiadores oficiosos, depois de instalados no calor dos seus “bâtiments” ultra-burgueses, onde maoístas e trotskistas se pintam hoje de eco-socialistas e radicais de extrema-esquerda, não compreendendo que há quem tenha estado sempre do outro lado, contra Laval e Vichy e a favor de Aron, Camus e Malraux, desfilando nos Campos Elíseos, em 1968 a favor de De Gaulle.

 

Por mim, que sempre desconfiei dessa floresta de equívocos a que dão o nome de revolução e que conheço as técnicas das guerras de multidões, continuo a notar que qualquer cobarde, no seu seguidismo, pode ser arrastado pela torrente das massas, quando julga que se transfigura em herói, só porque repete o slogan e a “palavra de ordem” que os conspiradores de manual previamente ensaiaram. Mas reparo que alguns destes artistas secundários e figurantes se sentam hoje nos cadeirões ministeriais e paralamentares da dita Europa, perdidos que foram os sonhos juvenis daquilo que qualificaram como militância. Hoje dão ordens aos mesmos agentes repressores que ontem denunciaram ou são os principais beneficiários dos ditos aparelhos movidos a violência e a ideologia burguesas. Isto é, entre ontem e hoje, há o mesmo deserto de ideias e a mesma falta de espinha.

 

A Europa não passa de uma velha praça onde estão abertas muitas pensões frequentadas por estudantes Erasmus, cantores de ópera do Paquistão, canalizadores uzbeques e outros que tais que agora ameaçam tirar o emprego ao proletariado universitário dos arrondissements. Mas em Le Parisien, que todos lêem, não há uma só primeira página sobre a crise do Mundo que vai além do Hexágono, demonstrando como a União Europeia, nas suas intimidades nacionais, continua apenas a discutir os pequenos dramas da vizinhança, neste glocalismo provinciano e egoísta em que nos enrodilhamos.

 

A França é cada vez mais um pretérito de uma Europa sem presente. De um bairro antigo do defunto Euromundo, onde temos vergonha de o ter sido, só porque continuamos a viver uma espécie de guerra civil fria, onde todos vamos definhando. É a simples memória de uma pretensa grandeza que faz desta Europa dos pequeninos um tempo que já não há. Por mim, português antigo, mais próximo da geração da “valise de charton” que dos exilados da Boulevard Haussman que tratavam por tu mon ami Mitterrand, apenas sei que nunca tivemos Vichy, colaboracionistas e ocupação alemã. E nada tenho a ver com essas culpas alienígenas, porque já me bastam os traumas das minhas próprias guerras coloniais, para desfiar meu rosário de vergonhas. Apenas sei que também em França as muitas guerras coloniais fizeram da nação uma ideia sem raça.

 

Já por aqui aconteceu dessa moda que passa de moda, onde só é novo aquilo que se pode esquecer. Já por aqui houve a ilusão das vanguardas e da revolução, com algum terror, muito desespero e imenso fingimento. Porque a revolução deu em guilhotina e em invasão e só se aguentou com os massacres da Vendeia, acabando por chamar-se Napoleão, coisa que, em português, se foi traduzindo por Junot, Soult e Massena, com traidores, Ponte das Barcas, protector inglês e mudança da capital para o Rio de Janeiro.

Agora podemos passear no bairro do Marais entre rabinos de barbicha, bandeiras arco-íris e estrelas de David, fazendo bric-a-brac do sagrado, antes de voltarmos para o doce lar dos brandos costumes, percorrendo a fumarada destes traseiros da globalização, que são a fealdade típica das megacidades produzidas pelas teias de um tecnocracia possidente que vai gaguejando o pensamento único derramado pela secção intelectual da República Imperial que resta.

Afinal, o radical-chic já não rima com Paris, mas eu continuo a ser francês, apesar de desconfiar cada vez mais dos preconceitos de esquerda e dos fantasmas de direita das nossas classes A e B que vão reduzindo o mundo aos quintais dos bares, ginásios e restaurantes frequentados pelos nossos capitaleiros de sucesso e que acabam por inibir os processos criativos e as próprias vocações literárias e artísticas, sobretudo quando o abstracto “ninguém” dos pretensos críticos se transforma num sindicato das citações mútuas, deste minimalismo pós-moderno das letras e artes do novo cavaquistão.

Mar 15

Efemérides

Hoje, dia 15, quando em 1939, Hitler invadiu a Checoslováquia, importa ir atrás, aos tempos da Grande Guerra, para dizermos que em Portugal, no ano de 1916, surgia o governo da União Sagrada, com democráticos e evolucionistas, sob a formal presidência de António José de Almeida, mas sem os evolucionistas de Brito Camacho e até sem os monárquicos que lá deviam estar se o governo fosse efectivamente de unidade nacional, dado que na guerra morreriam todos.

Mar 14

Efemérides

Hoje, dia 14, quando por ordem do papa João XXII, em 1319, conseguimos fazer instituir a Ordem de Cristo, com que nacionalizámos os templários e permitimos a posterior empresa dos Descobrimentos, há também que assinalar o contraponto, a homenagem da Brigada do Reumático a Marcello Caetano, no ano de 1974.

Mar 13

Efemérides

Hoje, dia 13, quando em 1954 os vietnamitas iniciaram o cerco aos franceses em Dien Bian Phu, e John Kennedy propôs uma ilusória Aliança para o Progresso aos ibero-americanos, deu-se, em 1903, a revolta do Grelo em Coimbra, onde andaram meus avoengos, vendedores de hortaliças no mercado da cidade, nesses restos de Patuleia que ainda me enchem as veias e me fazem notar quanto o Estado a que chegámos ainda é estranho e estrangeiro, com más relações com o Povo.

Mar 12

Efemérides

Hoje, dia 12, quando em 1572 ocorreu a publicação de “Os Lusíadas”, depois de em 1514, entrar em Roma a embaixada de D. Manuel I ao papa Leão X, importa assinalar que em 1927 era criada, no exílio, a Liga de Defesa da República, com Afonso Costa, Álvaro de Castro, José Domingues dos Santos, Jaime Cortesão e António Sérgio, enquanto os democráticos do interior, com António Maria da Silva, na formal liderança do PRP, ainda tentavam um acordo com a Ditadura, a fim de republicanizarem o nascente regime

Mar 11

Paris I

Mesmo em Paris, não resisto ao bloguear, para assinalar que, neste dia de 1918, surgiu uma lei eleitoral sidonista que estabeleceu o sufrágio universal e directo para a eleição do presidente da república, enquanto em 1952 era emitida lei conformadora do condicionamento industrial, antes de em 1975 surgir o golpe spinolista e o contragolpe gonçalvista dos homens sem sono que nos nacionalizaram a economia da noite para o dia, antes de, em 1985, Gorbatchev chegar ao poder e lançar a implosão do sovietismo que, para Cunhal, deixou de ser o sol da terra, a partir de então.

Mar 10

Democráticos, aristocráticos, extremistas, presença de Régio, magnicídios e conselheiros de Cavaco

Hoje, dia dez, do mês três, importa começar por assinalar que em 1927, surgia a revista “Presença”, a qual sempre rimou com José Régio e chegou mesmo a irritar o jovem literato e artista Álvaro Barreirinhas, mais conhecido por Cunhal, que se insurgia contra a circunstância de personalidades antifascistas como o vilacondense citado, viver a arte pela arte e não alinhar nos artistas comprometidos do realismo socialista. Por mim, ainda hoje continuo a procurar a salvação do mundo, para utilizarmos o título de uma tragicomédia do mesmo Régio, de 1954.

Porque ainda hoje, nos dividimos entre o partido democrático, para quem só os princípios da liberdade são a garantia do progresso, o aristocrático, defensor da qualidade dos governantes contra a inconsciência e a mediocridade das maiorias, e o extremista, acreditando em regimes de autoridade baseados as aquisições da Ciência e da Técnica. E todos apenas vão concordando naquela metodologia que os leva a estar em desacordo, como Lenine a invocar Ford e Taylor, o futurismo fascista a repetir as imprecações do surrealismo anarcocomunista ou Georges Sorel a servir de inspirador para todos os totalitarismos dos anos vinte.

Resta-nos a esperança de um rei Pedro da Traslândia que proclame: venho nu, cheio de boa fé e de boa vontade. Perdi toda a ciência que tinha…, que julgava ter, e que nem era ciência nem era sabedoria. Agora não sei quase nada. Vou tentar aprender a cada instante com as realidades interiores e exteriores. Um rei Pedro, aprendendo com aquele Profeta que volta a falar num novo Evangelho sem palavras, ideias e doutrinas: Enchestes os vossos livros de letras; as letras mataram o Espírito! Viveis soterrados em fórmulas.

 

Prefiro também recordar que hoje, em 1826, se assinala a morte oficial de D. João VI. Coisa que, só mais de uma centena de anos depois, se provou ser assassinato, com arsénio. Para uns, adeptos do carlotismo, levado a cabo pelo médico, que era maçon. Para outros, adeptos dos liberais, executado pelo cozinheiro, que era apostólico. De qualquer maneira, inauguraram-se os magnicídios neste país dito de brandos costumes, onde também houve um regicídio, em 1908, um presidenticídio, em 1918, um primeiroministricídio, em 1921, e o assassinato silenciado do chefe da oposição, em 1965, para não falarmos no acidente de Camarate, em 1980.

 

Por isso, desejo longa vida ao presidente Cavaco, aproveitando a ocasião para saudar os novos conselheiros da Corte de Belém, em especial os meus colegas Blanco de Morais, da FDL, e José Jacinto, do ISCSP, porque, de outros, não sei suficiente inglês para swordizar e reparar como não regressou Joaquim Aguiar. Saúdo também o fim da prestação do Carlos Gaspar e espero que, no Museu da República, se mantenha o António da Costa Pinto, a fim de mantermos a continuidade suprapresidencial.

Mar 09

Nem D. Maria II, nem Sidónio, com recordações de outras eras e bicadas aos cheques tecnológicos

Aqui estou eu, no fim desta rua da Junqueira, mesmo ao lado do Palácio de Belém, à espera que chegue o meu novo vizinho. Vim agorinha mesmo de comentar a coisa na RTP, onde fiz umas continhas e chegue à conclusão que neste regime, com quase trinta e dois anos, o dobro do tempo da Primeira República, quase dois terços de vida da Ditadura, mas apenas com um terço da monarquia pós-vintista, Cavaco é o oitavo presidente eleito por sufrágio directo e universal, o primeiro civil que é professor doutor e o primeiro a assumir o cargo depois de ter sido derrotado numa prévia candidatura ao lugar. O segundo que tem como “curriculum” uma experiência de primeiro-ministro e o primeiro, neste regime, que não veio do chamado “povo de esquerda”.

Imagem obtida há minutos

Claro que, neste nosso modelo constitucional, o presidente não é mera D. Maria II ou presidente da Constituição de 1911, mas também não pode ser chefe do executivo, como Sidónio. A cerimónia correu protocolar demais, neste nosso teatro da república, com muitas passadeiras vermelhas e nenhum povo, nem que fosse a pedir-lhe um gesto da janela. Os convidados estrangeiros foram tão parcos quanto o peso de um país que só tem duas dezenas e meias de embaixadores formais, excepção feita aos amigos dos PLOPs, ao pai Bush e aos príncipes de Espanha e a malta cá do país, nesta missa laica, até se portou civilizadamente, dentro das previsões desta pescada que antes de o ser já o era e que não costuma ser lustrosa em liturgias.
Imagem obtida há minutos

Ninguém se lembrou que neste dia do ano de 1500 partiu de Belém a esquadra de Pedro Álvares Cabral que acabou por descobrir o Brasil, enquanto em 1836 foi fundado o jacobino Clube dos Camilos, dito Sociedade Patriótica Lisbonense, e em 1916 a Alemanha declarou guerra a Portugal. Por isso ninguém repara que tanto Cavaco como Sócrates são fabricados na mesma cepa do “action man”, entre complexos de esquerda e discurso populista que tende a agradar aos fantasmas de direita, pelo que a coabitação não causará turbulências entre os que subscrevem a mesma política europeia, a mesma política externa e a mesma política de defesa, podendo também dar as mãos quanto aos cheques e choques tecnológicos.
Imagem ainda colhida no tempo das obras de Sampaio

Sugiro contudo que, no caso do MIT, reparem que essa escola de Boston não é apenas de engenheirais comteanos, divulgadores do catecismo dos industriais do São Simão, dado que também se dedica às ditas ciências sociais, a que aqui costumam chamar ciências ocultas. Aliás, foi nesse sítio que um tal Norbert Wiener, lá para o ano de 1948, inventou a cibernética, baptizando aquilo que qualificou como a ciência da comunicação nos seres vivos, grupos sociais e máquinas, com a expressão grega que queria dizer “governo”. Infelizmente, por cá continuam os sistemas, mas sem o sistemismo dos Deutsch e Easton, porque epistemicamente continuamos típicas nabiças oitocentistas, não reparando que é do “superpower” que resta que vêm cerca de três quartos dos recursos mundiais em ciência política e relações internacionais.
Potencial ameaça biológica, não detectada pela segurança do Palácio

Por cá, nossa iliteracia dominante, incluindo a das cortes presidenciais, confundindo conhecimento com opinião e ciência com ideologia, cede ao predomínio do mediático e aos discursos justificadores do poder instalado, onde até os distribuidores de subsídios para a investigação, de tanta conversata com manitus salazarentos e beatos concordatários, ainda continua a fazer o jogo dos salamaleques da sociedade de corte. Esperemos que Cavaco cumpra o que prometeu, até nestes domínios, onde o corporativismo de certa república de catedráticos.

Mar 08

De Alves dos Reis à Revolução de Fevereiro na Rússia, com observações sobre os adesivos e viracasacas das nossas eternas viradeiras

Hoje vão dois apelos à memória, um mais lusitano e imaginativo, dado que em 1930 começou, neste dia, o julgamento do burlão Alves dos Reis, personalidade que terá iniciado em Portugal o movimento das manipulações monetaristas, mas sem o apoio da lei, do ministério das finanças e do Banco de Portugal, ou a ciência de Cavaco Silva e Miguel Cadilhe, antes do euro, enredando, na teia que fabricou, personalidades de reconhecido mérito, incluindo alguns ilustres catedráticos, que avençou, e que raramente aparecem nos filmes e séries de aventuras que o retrataram. A grande burla, que contribuiu para a implosão do regime da nossa Primeira República, ainda foi detectada e contida antes do 28 de Maio, mas o julgamento acabou por fazer-se já em Ditadura Nacional, com Salazar no Ministério das Finanças, mas mantendo-se o republicano Inocêncio Camacho como governador do Banco de Portugal.

Aliás, certa historiografia dita antifascista militante, costuma ocultar a circunstância de, com o salazarentismo, se terem mantido algumas ilustres personalidades do anterior regime em lugares de aparência tecnocrática, onde também se destaca Alberto Xavier, como próximo colaborador de Salazar, para não falarmos de antigos ministros do regime derrubado, transformados em deputados e embaixadores viracasacas. Um deles, ilustre maçon, até chegou a assessorar o novo regime, dando informações técnicas preciosas para a extinção da maçonaria, numa altura em que os Presidentes da República e da Assembleia Nacional do dito Estado Novo eram também ilustres maçons não extintos. Daí que os salazaristas do presente colaboracionismo adesivo, ou de neo-viracasaquismo, mantenham uma esmerada tradição do nosso oportunismo de viradeiras que, em muitos casos, coincide com a traição, habitual neste “vira o disco e toca o mesmo”.

Só a ditadura do tempo normal da vida humana é que impediu ilustres apoiantes da monarquia liberal, feitos republicanos adesivos e salazarentos viracasacas, de se tornarem abrileiros militantes, mas os filhos e sobrinhos dos ditos aí estão, entre certa corte do sampaísmo e a nova pretensa corte do cavaquismo, assentes numa literatura de memorialismo revisionista de justificação do poder que faz a grande aliança situacionista. A procissão que amanhã entrará em São Bento sempre foi precedida pelas cerimónias de ontem, ocorridas no mesmo palácio.

Por isso, recordo que também hoje, mas no ano de 1917, começou, na Rússia, a chamada Revolução de Fevereiro (Febralskaya Revolyutsiya), no dia 23 Fevereiro do calendário juliano, quando a Rússia estava em guerra contra os Impérios Centrais. Era a mais anarquista das Revoluções e vai desencadear um processo revolucionário que acabará por conduzir ao Estado mais autoritário do mundo, a partir de 24 de Outubro/6 de Novembro. Se os Romanov, um pouco à imagem dos respectivos modelos bizantinos em 1453, discutiam rasputinices, quando os comunistas cercavam a cidade, há que não perder de vista, como salienta Soljenitsine, que se a Rússia se desmantelou, foi devido à fidelidade aos aliados ocidentais, por Nicolau ter teimado em continuar uma guerra absurda, em vez de tomar a decisão de aceitar a paz separadamente, o que permitiria proteger o país.

Já segundo Kohn, a revolução que derrubou o czar foi motivada pela ineficiência e corrupção extremas do regime romanoviano, pelo que a velha ordem na Rússia não sucumbiu aos ataques revolucionários, desmoronou-se e desintegrou-se por sua própria fraqueza, um pouco à imagem e semelhança do que virá a ser a implosão sovietista, em 1989. Porque, nos dois casos, não houve força moral ou espiritual para apoiar os apodrecidos regimes.

Também Carr considera que a mesma foi uma explosão espontânea de uma multidão exasperada pelas privações da guerra e pela manifesta desigualdade na distribuição dos sacrifícios, onde a própria criação de um Soviete de Deputados Operários de Petrogrado foi um acto espontâneo de grupos de trabalhadores sem direcção central.

De forma mais englobante, Kolakowski assinala que a Revolução de Fevereiro se deveu à coincidência de muitos factores: a guerra, as reivindicações camponesas, as recordações de 1905, a conspiração dos liberais, o apoio da Entente e radicalização das massas trabalhadoras.

Aliás, o presidente norte-americano Woodrow Wilson, em discurso de 6 de Abril de 1917, saudava, deste modo, a revolução russa: os que conheciam melhor a Rússia sabiam que ela era, de facto, pelo coração, democrática em todos os seus hábitos de pensamento, nos seus costumes, na sua natural “way of life”. A autocracia que coroava o cume da sua estrutura política longa e terrível não era, de facto, russa de origem, de carácter e de intenção; e agora foi afastada, e um grande e generoso povo russo juntou-se em toda a sua autêntica majestade e força aos que lutam pela liberdade, a justiça e a paz no mundo.

Mar 08

Uma águia não engripada que foi além de moirinho, na terra dos Beatles

Todas as aves domésticas de estimação, incluindo passarinhos, pavões e papagaios, passam a ter que ser registadas nas juntas de freguesia. Quem não o fizer será multado. E não sei se qualquer vizinho pode denunciar o bicho. Vale-nos que a águia voou sobre a Europa e “fiat lux”, não há gripe das aves que resista e já ninguém liga aos quotidianos noticiários que nos anunciam mais um atentado em Bagdade. Vale mais o golo de Simão Sabrosa e o pontapé de bicicleta do Miccoli, no último dia em que Sampaio nos presidencializa. Hoje, meu coração voltou a ser vermelho.