Mar 07

GIS, televisão a cores, Corte no Rio de Janeiro e paternais conselhos dos instalados

Ontem não disse nada sobre a fundação do PCP, porque já o tinha dito, e se o dissesse o Pedro Namora continuaria a tratar por fascitóide o meu epidérmico antitotalitarismo. E também teria que assinalar o nascimento de Afonso Costa em 1871, sobre quem também já disse tudo, porque continuo antijacobino primário e sempre preferi o António José de Almeida. Infelizmente, seria pouco curial que, também ontem, no dia da morte de Maria Helena Vieira da Silva (1992), eu tivesse que comentar a publicação do retrato do quase ex-presidente Sampaio por Paula Rego.

Porque nesta semana de todas as efemérides sampaístas, temos de recordar que hoje, em 1976, era criado o GIS, dominado por ex-militantes do MES, liderados por Jorge Sampaio, precisamente. Assim se aburguesava a ex-esquerda revolucionária que, analisando com frieza as circunstâncias, sempre considerou que não existiam condições objectivas para se fazer a revolução, preferindo ser assessora dos grandes capitalistas cá do burgo ou advogada de negócios, até se assumir como a decana das bonzices nos dias que correm, esquecida das vítimas da fome e dos amanhãs que cantam. Afinal, neste dia, no ano de 1980, a RTP, ainda em monopólio, iniciava a televisão a cores neste país que continua a preto e branco, com muitos tons de cinzento, saudoso que está da viagem da corte do Príncipe Regente e da Rainha Louca que chegou ao Rio de Janeiro precisamente neste dia de 1808.

É por estas e por outras que ainda ontem fui interpelado por uma alta figura da nossa praça jurídico-política, com quem me cruzei numa dessas do social a que não posso escapar, e a quem, neste blogue, já apontei umas frechas, o qual, rapando de sua agenda, muito paternalmente me convidou para jantar, a fim de tentar aconselhar-me à dita moderação que lhe deu milhões no negocismo e a mim me dá “mau ambiente”. E bem me lembro, quando éramos jovens não instalados, quem o moderava na sua exaltação. E fazia-o exactamente com as mesmas ideias que expresso hoje, as tais que, face a novas circunstâncias, já são por ele consideradas como radicais. Apenas lhe disse que era funcionário público e que a própria república me pagava para eu ser contrapoder. Além de que nunca andei por aí na caça do subsídio ou da barganha do sindicato das citações mútuas que dá a alguns a ilusão da tal fama que foge. A essência do homem ocidental é ser do contra, como Unamuno nos ensinou. Mesmo quando os pretensos contras passam a presidentes, ministros, advogados ou deputados.

Mar 05

Cortina de ferro, morte de Estaline e democráticos impérios coloniais, sem esquecer a invasão do Iraque, com o desembarque de José Lamego

Há duas notas para hoje que merecem reflexão, porque, afinal, todas estão imbricadas na história profunda do século XX. No ano de 1946, Churchill fazia em Fulton o célebre discurso em que denunciava a “cortina de ferro”, através da qual o sovietismo estava a dividir a Europa. Sete anos depois no mesmo dia, morre Estaline. Curiosamente, no dia seguinte àquele em que se comemora o discurso de um PCP que, na realidade, só foi fundado mais de um lustro volvido, com a reorganização de Bento Gonçalves. E tudo bem antes de Moscovo ser governada pelo degelo anti-estalinista que, afinal, criou o Pacto de Varsóvia, construiu o “muro da vergonha” e até invadiu Praga, proibindo as primaveras, antes de medir os respectivos poderes e optar pela “perestroika” e por Putine.

O recriador do conservadorismo no século XX, contudo, olhava a Europa bem de fora: mesmo sem o Império Britânico e a Rússia, a massa europeia, uma vez unida, uma vez federada ou parcialmente federada, uma vez consciente do seu continentalismo, constituirá um organismo sem igual. No que diz respeito à Inglaterra, nós estamos com a Europa, mas não somos da Europa. Estamos ligados, mas não estamos incluídos.

E a tal Europa do eixo franco-alemão, mesmo depois das “Libérations” não deixava de ser a continuadora dos Jules Férry e dos Norton de Matos, como se expressava na democratíssima constituição da França antifascista: A França forma com os povos do ultramar uma União fundada na igualdade dos direitos e deveres, sem distinção de raça nem de religião … Fiel à sua missão tradicional, a França entende conduzir os povos…para a liberdade de se administrarem por si próprios. Isto é, tanto britânicos como galos, ainda assumiam, muito democraticamente, o white man’s burden… E se soubessem de política internacional perceberiam que a superpotência russa ainda praticava o clássico imperial-comunismo que traduzia em século XX a velha Weltpolitik, onde a ideologia do internacionalismo proletário apenas era uma espécie de federalismo anestesiante.

Daí o paternal conselho de Churchill aos homens do Eixo franco-alemão, alguns meses depois, no discurso de Zurique: se os países europeus chegarem a unir-se, os seus 300 a 400 milhões de habitantes conhecerão, pelo fruto de uma herança comum, uma prosperidade, uma glória, uma felicidade que nenhum limite, que nenhuma fronteira limitará. É preciso que a família europeia, ou, pelo menos, a maior parte possível da família europeia, se reforme e renove os seus laços, de tal maneira que possa desenvolver-se na paz, na segurança e na liberdade. É preciso erigir qualquer coisa como os Estados Unidos da Europa. O primeiro passo que deve dar-se é a constituição de um Conselho Europeu. Para conduzir a bom termo esta urgente tarefa, a França e a Alemanha deverão reconciliar-se, a Grã-Bretanha, a família dos povos britânicos, a poderosa América e, espero-o sinceramente, a União Soviética – porque, assim, tudo se resolverá – deverão tronar-se amigos e protectores da nova Europa, deverão defender o seu direito à vida e à prosperidade.

O georgiano Estaline, se pudesse, isto é, se tivesse poderes para tanto, faria o mesmo discurso. Truman e Eisenhower preferirão a OECE e Jean Monnet. Salazar, infelizmente, porque não tinha carta de condução, não conseguiu voltar para Santa Comba Dão. Mas ainda participou na fundação da EFTA e ponderou pedir a inicial adesão à CEE, numa altura em que esta ainda reunia a final flor dos velhos impérios coloniais europeus que, aliás, só o deixaram de ser quando, reconhecendo a respectiva falta de força, se descolonizaram, acirrando o neocolonialismo, como se tornou patente no ciclo que vai do desembarque em Port Said, contra a nacionalização do Canal de Suez, à recente “pacificação” do Iraque, onde colaborámos com o desembarque do socialista José Lamego.

Mar 04

A culpa que continua solteira,escola de Sagres com MIT, escarros absolutistas, comunistas lusitanos e monárquicos republicanos

Sim, foi há cinco anos que se deu o acidente da ponte de Entre-os-Rios e que um ministro se demitiu para que a culpa não morresse solteira. A nova ponte já está circulante. Governo de então se foi e já voltou neste vira o disco e toca o mesmo. A administração da justiça em nome do povo ainda não julgou a causa, à espera que está de um ministro da justiça qualquer que utilize a técnica do ovo de Colombo: isto é, em vez de brincar às greves corporativas com os sindicatos magistrais, chame um qualquer José Alberto dos Reis que faça em democracia o que lhe permitiu ser feito pelo ministro Manuel Rodrigues em ditadura. Isto é, escrever direito em linhas tortas, através daquilo que continua a ser, entre nós, um escassíssimo recurso: a ciência processualista, coisa que os nossos ministeriais e secretariais professores pardais devem considerar mais um capítulo das míseras ciências ocultas que estudam as adequadas fundações das pontes do século XIX, com nome de ministros defuntos.

Continuo a passar os olhos pelo meu moleskin do ter que fazer, que o enchi de efemérides nas férias do Natal, e reparo que, séculos atrás, em 1394, nasceu um tal D. Henrique, o nosso Infante sem mais, dito por outros o Navegador, que não criou nenhuma fundação depois de morto nem fez um acordo com o MIT, mas que montou uma coisa que nunca existiu, a Escola de Sagres, a tal que nos deu velas, caravelas, mapas, rotas e bartolomeus que venceram a dor e o bojador, as tormentas e a esperança. Infelizmente, segundo o conselho do ministro diogo, não o convém comemorar, dado que o dito participou, em 1415, na reconquista de Ceuta e queria contornar África para atacar o Império Islâmico pela rectaguarda. Já agora, gostava de saber se no acordo com o tal MIT se incluíram as secções de ciências sociais que a instituição de Boston cultiva em paralelo com as ciências ditas exactas, da antropologia à ciência política?

Já em 1777, concretizando a Viradeira, D. Maria I decidiu exonerar o déspota, Sebastião José, devolvendo-o a Pombal, mas sem lhe retirar as imensas terras e outros haveres de que se apropriou, enquanto ministro de Estado, nessa nossa péssima tradição de identificarmos os reformadores com os corruptos, nesse sonhado “roubo, mas faço”, onde até admitimos o assassinato político e a tortura, em nome da tal Razão de Estado e do tal Segredo de Estado, onde a democracia continua a cultivar os escarros provindos do absolutismo.

Não, não vou comemorar a criação em 1919 do internacionalismo proletário através do Komintern, porque teria de recordar algumas das criaturas do dito, nomeadamente a fundação do nosso PCP, em 1921. Prefiro assinalar que o nosso, então dito maximalismo, estava contaminado na base pelo anarco-sindicalismo e pelo choradinho sentimentalão e telúrico, como se expressa pelas primitivas lideranças de Manuel Ribeiro, que acabou romancista democrata-cristão, e de Carles Rates, que terminou salazarista, especialmente depois de ser convidado a ir à URSS que ele não olhou como sol da terra, mas como estalinismo sem degelo. Mas como não já não sou anticomunista primário, como o tinha de ser em plena guerra fria, contra o imperial-comunismo, prefiro saudar a influência que tal marxismo-leninismo teve nas artes, desde o movimento dito do realismo socialista aos desenhos de Álvaro Cunhal, e na própria recepção do neotomismo, onde se destaca a conversão de António Júdice, o pai do meu amigo Zé Miguel, numa história ainda por contar.

Uma última palavra para este dia de 1838, quando contra a generosidade do regime setembrista, de Passos Manuel e Sá da Bandeira, se deu a primeira revolta dos exaltados do Arsenal, a que se seguiram as de 13 de Março e de 14 de Junho, as quais contaminaram o ambiente de consensualismo do 9 de Setembro de 1836 que pretendia “cercar o trono com instituições republicanas” e evitar que, através do Paço, Portugal se transformasse em pau mandado dos interesses da rainha Vitória, através do seu agente continental, o rei dos belgas e o seu primo, então jovem consorte da rainha, sempre disponíveis para belemzadas, com a esquadra britânica surta no Tejo. Passos era o sinal desse sonho de nacionalismo liberal e de republicanismo monárquico, cuja síntese chegou quase a ser estabelecida por D. Pedro VI, mas acabou desfeita com o assassinato do seu sobrinho D. Carlos. Infelizmente, o programa de Passos Manuel continua por cumprir, especialmente quando os maçons do GOL enveredaram maioritariamente por traduzirem em calão o naturalismo positivista francês.

Mar 03

Os cueiros de Freitas e os vomitantes cheiros do revisionismo histórico

Hoje se recorda que, nesta data de 1832, começou o governo da regência de D. Pedro, a partir das ilhas açorianas, onde emerge a figura reformadora de Mouzinho da Silveira, cujo primeiro decreto será já emitido em 7 de Março. Outra efeméride, mais triste, é a 1915, quando se dá a primeira revolta dos abastecimentos, provocada pela economia de guerra, quando havia quatro anos e meio de novo regime que, em vez do prometido bacalhau a pataco, acabou por ter como circunstâncias a fome, a peste e a guerra, bem como as aparições de Fátima e alguns magnicídios. Finalmente, assinale-se coisa mais próxima, do ano de 1979, quando os ex-GIS aderiram ao PS, quando Mário Soares consegue integrar no partido que fundara em 1973, nos arredores de Bona e sob os auspícios de Willy Brandt, personalidades hoje tão conhecidas como João Cravinho e Jorge Sampaio.

 

Nessa altura, o fundador do CDS, que ainda não era ministro dos estrangeiros de um governo do PS, já não andava de calções e até mantinha boas relações com Jonas Savimbi e a UNITA. Ao que parece, ontem, no dia 2 de Março de 2006, houve uma cena típica de lavar da roupa suja dos congressos do CDS/PP, quando o ex-militante da organização sentiu ciúmes de Savimbi, acusando Telmo Correia de não o respeitar, porque teria sido graças a Freitas que ele, Telmo, tinha liberdade, mas que ele, Telmo, não podia recordar-se de tal, porque ainda andaria de cueiros e não respeitava a memória do fundador do partido, de cuja bancada é, precisamente, o deputado mais ancião.

 

O azedume pouco diplomático de quem se candidata a pai da democracia, depois da derrota e consequente retirada de Mário Soares e da colocação de Eanes por trás das cortinas do futuro palácio presidencial de Cavaco apenas nos faz recordar a conhecida reunião de Alvalade dos jovens marcelistas, no preciso dia 25 de Abril de 1974, onde se teria combinada a participação de Freitas tanto na ANP como no cargo de ministro da justiça do governo presidido pelo catedrático de quem era sebenteiro de estimação. Para informações adicionais sobre o evento, poderão consultar-se as memórias de José Luís Nogueira de Brito, Basílio Horta ou Silva Pinto, dado que Adriano Moreira não prestará memórias adequadas sobre a matéria, apesar de ter estado para ser fundador do CDS, juntamente com Veiga Simão e Sousa Franco, quando os homens da SEDES já estavam de candeias às avessas com o marcelismo e uma nova SEDES, inspirada pelo freitismo estava prestes a reforçar o regime.

Mar 02

Aljubarrota mais Toro, igual a zero, Brandão, Carmona e falso sagrado

Dia 2 de Março de 1476, dia da batalha de Toro, dia supranacional ibérico, onde os portugueses tentaram fazer a “nuestros vicinos” o que os castelhanos não conseguiram em 1385, o que os já espanhóis concretizaram em 1580. Neste dia, o nosso D. Afonso V não ganhou e, por isso, ganhámos, porque ganhou Isabel de Castela, Fernando de Aragão e o Príncipe Perfeito de Portugal: deixou de querer mandar na CEE e preferiu preparar a viagem de Bartolomeu Dias, de tal maneira que neste dia de 1498 já o nosso Vasco da Gama, entre terra de boa gente, aportava na ilha de Moçambique, com atitude diversa daquela que George W. Bush ontem teve no Afeganistão. De qualquer maneira, sobre as relações peninsulares, apenas gosto de citar o nosso Almada Negreiros: “Aljubarrota mais Toro, igual a zero”.
E também quero recordar que hoje, em 1867, nasceu o meu querido Raul Brandão, o tal que, segundo Vergílio Ferreira, foi quem melhor escreveu português no século XX. Quase subscrevo. E, finalmente, a tal história da eleição de Carmona como presidente da república em 1928. Teve 761 000 votos, estávamos em Ditadura Nacional, ainda não tinha chegado o salazarismo e deu-se o paradoxo: a ditadura, pelo método plebiscitário, dado que não havia opositores, foi mais democrática do que a anterior fase republicana, demoliberal, pelo menos em participação do povo. Foram mais às urnas do que aqueles que votaram nas anteriores eleições parlamentares em todos os partidos que concorreram. Isto é, repetia-se a legitimidade populista ensaiada por Sidónio e volatava-se aos colégios eleitorais da monarquia liberal. Infelizmente, não havia pluralismo, liberdade de expressão nem concorrência, mas ainda não havia polícia política, presos políticos, congreganismo anticongreganista, beatério religioso-politiqueiro ou república de catedráticos, mesmo sem serem doutores.

 

 

Nos tempos que correm, para além do desembarque de toneladas de droga em Albufeira, com policial troca de tiros, onde é morto um jovem traficante lisboeta, faz-nos recordar que vinte por cento dos nossos jovens consomem a Maria Joana, enquanto há greves do pessoal de luta contra a corrupção, incidentes dilatórios processuais que ameaçam anular o julgamento da Casa Pia e muitas outras memórias que a lixívia do revisionismo histórico tenta apagar. Que os silêncios e o esquecimento geram sempre a reacção facciosa das seitas de extrema-esquerda e de extrema-direita que vão fabricando profetas e heróis, para sejam rezados pelas muitas capelinhas seguidistas da hagiografia, do martírio e da apologética, nesse ambiente de falso sagrado que vai recobrindo o dogma com as chitas do transcendente.

Mar 01

Chegaram os tempos de roxo, há gatos engripados e o Mário Fala-Só

E começamos novo mês, deste março, marçagão que costuma ter manhãs de inverno e tardes de verão, assinalando a circunstância de, neste dia, no ano de 1565, Estácio de Sá ter fundado a povoação de São Sebastião do Rio de Janeiro, sítio onde ainda há pouco circulavam os sambas de um Carnaval, com cada vez mais silicone. E reparo nas notícias que nos tornam a todos epidemologistas, virologistas, celularistas e molecularistas, especialmente quando um gato alemão, que gostava de comer passarinhos ao pequeno-almoço, apanhou a gripalhada que veio da China.

Infelizmente, não queremos saber nada de antropologia política, e do regresso do sagrado, transformando os sanguinários atentados do Iraque em banalidades quotidianas, para análise do “Foreign Affairs” e das estatísticas da importação de petróleo, como se chiitas e sunitas apenas fossem estatísticas de animais exóticos e não homens concretos, de carne, sangue e alma. Preferimos temer a subida do Euribor e ouvir a GNR falar no balanço das mortes nas estradas lusitanas, enquanto nos deliciamos com a próxima campanha de Mourinho na Grã-Bretanha, promovendo as nossas queridas rolhas de cortiça.

 

E assim passaram as pequenas férias dos dias gordos e magros deste Carnaval, onde vivi a obsessão de preparar aulas e de escrever textos para as ditas, sem ainda ter dado um salto a Paris, dado que fui para fora cá dentro, deliciando-me com os belos dias de sol na cidade sem carros, onde conversei muito com o Mário, o fala-só cá do bairro que, todos os dias inventa uma bela frase que vai encenando, antes de nos pedir uma moedinha ou um cigarrito. O dito, que foi homem de estudos universitários, sabe verbalizar palavrões eruditos e ontem proclamava, em berraria contida, “acto nata” e que “as cabeças deles só servem para estrume”. Qualquer dia, pego na caneta e na agenda e trato de todos os dias registar estes eventos literários a que tenho direito.

Aliás, esta minha abstenção de bloguear, até foi acompanhada por um quase vazio de efemérides registadas na minha agenda. Apenas me apetecia ter comemorado o nascimento de Cesário Verde a 25 de Fevereiro (1855) e, no dia 26, a revolta dita liberal do Rio de Janeiro (1821), bem como o II Pacto MFA/Partidos (1976). Preferi passear sem “stress” e não comentar a OPA da SONAE sobre a PT, dado que me pus em dia com os filmes de sucesso, desde o Capote ao Brokeback Mountain, porque talvez estivessem de acordo com o ritmo das festividades pré-quaresmais, quase sempre vestidas de roxo, antes da chegada da desejada primavera.

Fev 24

Viradeira, assassinatos políticos, personalizações do poder e balança da Europa, com classe alta à mistura

Portugal sempre sofreu os balanços da balança da Europa e da balança do mundo, a não ser quando entendeu o mundo como armilar e tratou de ver mais alto, sem recorrer às lentes de contacto das pretensas classes altas dos estoris e das fozes do douro, com os distintos intelectuários que as mesmas vão mobilizando para a respectiva sociedade de Corte, onde já não há trono nem altar, mas tacho banco-burocrático, com alguns traseiros judiciais expostos em pouco sossego e esperança num convite para a próxima tomada de posse do futuro inquilino do palácio de Belém.  Como professor e, logo, membro do antigo clero não eclesiástico, reparo como as boas coisas desta sociedade de ordens, que eram as práticas do princípio da igualdade de oportunidades entre o clero universitário e eclesiástico e a nobreza funcional dos militares, acabam por ser subvertidas pelo regresso dos filhos de algo, dos herdados e dos prendados, neste declive decadentista que tende para a inevitável e horrorosa revolta do povo contra os ricos, naquilo que sempre foram as revoluções, quando estas não conseguem ser domadas por uma qualquer personalização do poder e a inevitável esperança numa constipação mal tratada ou na queda do ditador em qualquer cadeira. Se os estados gerais não funcionarem a bastilha é inevitável.

Fev 24

Viradeira, assassinatos políticos, personalizações do poder e balança da Europa, com classe alta à mistura

Portugal sempre sofreu os balanços da balança da Europa e da balança do mundo, a não ser quando entendeu o mundo como armilar e tratou de ver mais alto, sem recorrer às lentes de contacto das pretensas classes altas dos estoris e das fozes do douro, com os distintos intelectuários que as mesmas vão mobilizando para a respectiva sociedade de Corte, onde já não há trono nem altar, mas tacho banco-burocrático, com alguns traseiros judiciais expostos em pouco sossego e esperança num convite para a próxima tomada de posse do futuro inquilino do palácio de Belém.  Como professor e, logo, membro do antigo clero não eclesiástico, reparo como as boas coisas desta sociedade de ordens, que eram as práticas do princípio da igualdade de oportunidades entre o clero universitário e eclesiástico e a nobreza funcional dos militares, acabam por ser subvertidas pelo regresso dos filhos de algo, dos herdados e dos prendados, neste declive decadentista que tende para a inevitável e horrorosa revolta do povo contra os ricos, naquilo que sempre foram as revoluções, quando estas não conseguem ser domadas por uma qualquer personalização do poder e a inevitável esperança numa constipação mal tratada ou na queda do ditador em qualquer cadeira. Se os estados gerais não funcionarem a bastilha é inevitável.

Fev 23

Primeira reflexão sobre a Europa

23.2.06

A primeira reflexão. De José Adelino Maltez

I
O Elogio da Europa

A história da construção da unidade europeia concretizada a partir da segunda metade do século XX pode ser contada em meia dúzia de linhas, sem recorrermos às gastas citações que aparecem nos folhetos de divulgação e propaganda emitidos por Bruxelas, a essa perspectiva oficiosa da eurocracia sobre o nascimento do projecto europeu, onde certo revisionismo histórico estabelece uma espécie de linha justa da construção do modelo.

Essas vulgatas falam, por exemplo, na proposta de criação de uns Estados Unidos da Europa apresentada por Winston Churchill, no discurso de Zurique, de 19 de Setembro de 1946, mas não inserem a mesma na linha política tradicional britânica que apenas queria federar a pequena Europa – mantendo-se de fora, privilegiar o atlantismo e manter a Commonwealth. Refere-se também a criação da OECE em 1948, tendo em vista a gestão do Plano Marshall, lançado no ano anterior, mas acentua-se o aspecto da integração económica internacional, desdenhando-se do confronto entre Moscovo e Washington, no processo da guerra fria e até se cita desgarradamente a instituição do Conselho da Europa pela Convenção de Londres de 1949.

Contudo, convém insistir que a antiquíssima ideia de reconstrução de uma unidade política da Europa, de certa maneira, concretizada no plano político pelo Império Romano e no plano político-religioso, pela Igreja Católica Apostólica Romana durante a Idade Média, sempre esteve na base dos grandes projectos de Império desencadeados pelas grandes potências europeias da Idade Moderna e Contemporânea. Foi este sonho que animou a Espanha de Carlos V e Filipe II, a França de Napoleão Bonaparte e as várias Grandes Alemanhas, lideradas pelos Habsburgos, pela Prússia ou por Adolfo Hitler, já que os ingleses, conscientes das respectivas vulnerabilidades no plano continental, sempre preferiram conter uma das outras potências no teatro europeu, para poderem continuar a expandir-se noutros continentes. Acontece apenas que este choque de Impérios conduziu a mortíferas guerras na Mitteleuropa que, neste século, produziram aos grandes desastres humanos que constituíram as duas guerras mundiais.

Compreende-se, pois, como depois de 1945 se procurou um efectivo tratado de paz entre as duas principais potências da Mitteleuropa, a França e a Alemanha, a fim de se destruírem as causas dos potenciais conflitos. Assim, surgiu, em plena guerra fria, a ideia de um mercado comum do carvão e do aço que, em 1951, com o Tratado de Paris, vai conduzir à criação da primeira das Comunidades Europeias, a CECA. A geração que concretizou este modelo, se vivia a euforia do planeamentismo económico, se tinha consciência que os problemas económicos só se resolviam com soluções económicas, não se podia, contudo, integrar na categoria dos meros tecnocratas.

Os pioneiros da Europa comunitária eram essencialmente animais políticos, isto é, sabiam que os problemas económicos não eram apenas problemas económicos, adoptando o método de curar o económico através do económico, mas não apenas através do económico, para parafrasearmos Emmanuel Mounier. Eles sabiam que a economia tinha de ser conduzido pela política, que a política tinha de ser norteada por ideias e que a superação das questões sociais da Europa de então tinha de ser comandada por um sonho. Só que ensaiaram realizá-lo, não pelos métodos da guerra, mas através da persuasão política, da negociação diplomática, do planeamento, da tecnocracia e da burocracia. E passaram do plano das boas intenções, desencadeando o processo de uma realidade nova: a Europa Comunitária.

Em 1957, depois dos fracassos da CED e do projecto da Comunidade Política Europeia, já não bastava a restrita integração sectorial do carvão e o aço. Era preciso um mercado comum, com livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais e uma unificada política agrícola, bem como uma conciliação no plano da energia atómica. E assim surgiu a CEE e a EURATOM, com o Tratado de Roma.

O modelo atingia o ponto de não regresso e estava suficientemente maduro para alargar-se, dos seis Estados iniciais, a todos os vizinhos europeus que se identificassem com o núcleo duro no plano político, económico e social. Assim, algumas décadas volvidas, além da França, da Alemanha/RFA, os pilares do processo, da Itália, e dos três parceiros do Benelux – Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo -, eis que vão chegando, depois de muitos percalços, o Reino Unido, a Irlanda, a Dinamarca, a Grécia, o nosso Portugal e a Espanha, sem esquecer o alargamento à própria Alemanha/RDA, depois da queda do Império Soviético. Mais recentemente com o alargamento à Europa Central e Oriental, desde os países bálticos e outros antigos satélites dos soviéticos até às ilhas de Chipre e Malta, o projecto atingiu uma via de plenitude, onde a quantidade corre o risco de afectar a qualidade da construção, mas onde também o sonho pode compensar as dificuldades da obra.

O desafio que os europeus enfrentam talvez constitua um dos mais importantes reptos políticos da história da humanidade. Seria trágico que essa grandiosa missão ruísse por questiúnculas politiqueiras. Seria ridículo que o europeísmo se reduzisse ao discurso europês, mesmo que disfarçado nas constituições valerias.

A Europa é uma democracia de muitas democracias. Não é uma super-estrutura comissária, directamente irresponsável perante os povos – uma espécie de sacro-império burocrático em regime de despotismo iluminado, mesmo que com boas intenções construtivistas -, nem um super-congresso multitudinário sem respeito pelas democracias vivas e directas dos vários cantões nacionais.

Perspectivando o processo a partir das nossas circunstâncias, podemos dizer que os interesses portugueses nada têm a ganhar com o regresso da clássica distinção entre Estados Directores e Estados Secundários, numa balbúrdia, donde, a prazo, apenas beneficiariam as médias potências capazes de liderança no pelotão da divisão de honra, como agora, muito eufemisticamente, chamamos à tradicional segunda divisão, a tal que está abaixo da que lidera a honra. Só beneficiaremos com a politização do processo quando se desvendarem muitos dos mistérios da antecâmara, muito especialmente os reais conflitos internos da euroburocracia e da europarlamentocracia, contribuindo-se para a superação do equilíbrio instável, com a consequente procura de uma nova ordem europeia.

A Europa em que eu acredito, aquele projecto que leio nas entrelinhas dos pais- fundadores, é uma Europa que foi feita contra os erros políticos que levaram ao permanente confronto de impérios europeus. Logo, há que denunciar o facto de os Estados a que chegámos na Europa das potências ainda continuarem inconscientemente feudalizados por projectos imperiais frustrados. Da Espanha de Carlos V, à França de Napoleão. Da Alemanha de Hitler à Inglaterra de outras procuras de Império no além mar. Da Rússia sonhando-se polícia da Europa a outros impérios espirituais ou económicos.

E estes modelos talvez contrariem aquilo que a Europa do pós-guerra tentou ser. Essa outra coisa que ousou procurar a esquecida unidade da respublica christiana na diversidade dos reinos, dos povos e das nações. Essa tentativa de escrituração de um novo capítulo para além da dinâmica da vontade de poder dos Estados Directores em confronto, instrumentalizando uma multidão de Estados secundários. Esse sonho que tentou refazer os Estados à maneira do chamado regresso da política, do dividir para unificar. Promovendo uma descolonização interna da Europa, para reconstruir a casa comum, em torno do que era efectivamente comum.

Se os tratados de Maastricht, Amsterdão e Nice foram coisas péssimas, talvez tenham sidos coisas menos péssimas que outras mais péssimas alternativas que, nessas encruzilhadas, se nos apresentavam. Com efeito, seria bastante mais dramática aquela alternativa que nos conduziria a um qualquer regresso ao confronto dos três impérios vencedores da história recente – o Reino Unido, a Alemanha e a França.

Haveria a tragédia de uma verdadeira Europa de muitas velocidades, onde os que menos poderiam correr regressariam à condição de Estados Secundários, feudalizados ou satelitizados pelas potências directoras, onde o chamado sistema Metternich retomaria lugar de comando. E aí basta recordar a terrível consequência de tal modelo em Portugal – a guerra civil de 1828-1834.

Importa, contudo, reconhecer que esta Europa institucional que vamos tendo, se é formal continuadora do projecto dos Tratados de Paris e de Roma da década de cinquenta do século XX, talvez não continue integralmente fiel ao espírito dos fundadores desse formidável movimento de lançamento do Estado de Direito que se sucedeu à Segunda Guerra Mundial.

A Europa não está apenas nas margens do Reno nem acaba com o alargamento a certas zonas ribeirinhas do Báltico, do Atlântico e do Mediterrâneo. A Europa, neste virar do milénio, pode voltar a ser a ideia da Europa, pode ir da Ilha do Corvo a Vladivostoque. Pode juntar as Três Romas e todos os respectivos projectos de Renascimento. Pode e deve ser mais do que um mero processo de ultrapassagem dos contenciosos franco-alemão, britânico-continental ou hispano-central.

A Europa somos nós, as pessoas, os cidadãos, os povos e as nações, não são apenas eles, os eurocratas, os parlamentocratas, e todos os cratas que temem as vozes irreverentes dos que não são moldáveis pelos unidimensionais partidos, sindicatos e patronatos, cada vez mais neocorporativamente enquistados no statu quo, esses estados que condicionam os Estados.

Quem me der poder dizer que chegou a hora de uma Europa mais livre e mais unida, enraizada no direito à pátria e já descolonizada de algumas tentações imperiais, capaz de dizer a todas as nações sem Estado deste nosso tempo que a exigência dos grandes espaços não tem que ofender os princípios da auto-determinação nacional.

O principal perigo dos actuais meandros do projecto europeu continua a ser a tentação de regresso ao sistema da Europa dos projectos imperiais frustrados, desses que querem assumir-se como Estados Locomotivas, feudalizando todo o processo de construção europeia.

Foi esse o erro da Europa de Metternich e Talleyrand. Foi essa a tentação do pós-Grande Guerra e a causa da Segunda Guerra Mundial. É contra este modelo de federação dos impérios frustrados da Europa que a República Portuguesa tem de resistir, invocando a possibilidade do grande espaço europeu continuar uma hipótese de conciliação das liberdades dos povos contra as perspectivas absolutistas do estadualismo e do soberanismo. E que reagir, não apenas em nome da liberdade de Portugal, mas também em nome da liberdade da Europa, da liberdade de todos aqueles povos da Europa que continuam a ser nações.

As recentes paixões identitárias que levaram as instituições europeias a reclamarem uma Europa dos princípios, mobilizada pelas ideias de Estado de Direito, de democracia e de direitos do homem, impõem um regresso para seguir em frente, um regresso aos grandes combates de ideias sem as quais a Europa se diluirá nas teias de uma globalização de merceeiro.

Primeiro, está democracia. Porque a Europa tem de ser uma democracia de muitas democracias, directamente responsável perante todos e cada um dos povos europeus. A Europa política não pode ser um qualquer sacro-império burocrático, em regime de despotismo iluminado, mesmo que com boas intenções construtivistas, como aquele que perpassa por certo elitismo voluntarista de alguns eurocratas que se julgam iluminados pela pretensa razão do Euro-Estado, misturando assim os contrários de certo hegelianismo e de certo maquiavelismo. Do mesmo modo, não pode tornar-se numa espécie de super-congresso multitudinário sem respeito pelas democracias vivas e directas das repúblicas que a integram.

Segundo, o repúdio de qualquer neo-imperialismo de fachada europeísta. Com efeito, qualquer ideia de construção política europeia, seja federalista ou confederacionista, invoque o princípio da integração política ou o da cooperação política, que assuma a existência de núcleos duros ou Estados locomotivas tende para um neo-imperialismo de fachada europeísta, onde serão fatalmente satelitizadas as comunidades políticas que não podem assumir o estatuto de potências.

A única ideia de construção política da Europa que convém à República Portuguesa é a ideia que convém à Europa dos povos, das pátrias ou das nações e à Europa dos cidadãos.

A ideia da Europa que permita destruir a degenerescência de um núcleo duro de soberanismos absolutistas. A Europa só pode unir-se e integrar-se, federando-se ou confederando-se, desde que pratique o dividir para unificar, desde que a semente da unidade passe além e aquém dos modelos de estadualismo existentes, desde que possa ser praticada a unidade na diversidade.

Só pode haver transferência de lealdades, expectativas e interesses para um novo centro político, desde que não se eliminem centros políticos de ordem inferior, a nível local, regional ou nacional. Por outras palavras, desde que se abandone aquele conceito absolutista de construção do político que concebe os Estados a que chegámos como o fim da história nesse tipo de construção. Como se não houvesse político antes do Estado, isto é, nas autarquias ou nas regiões, e como se não pudesse haver político além dos Estados.

Os Estados a que chegámos são apenas repúblicas maiores, feitas de outras repúblicas particulares e caminhando necessariamente para outras ainda maiores e ainda mais universais, como diria o jurista da Restauração João Pinto Ribeiro. O princípio da subsidiariedade constitui, neste contexto, o elemento mais fecundante do actual processo de construção europeia, permitindo superar a tradicional disputa entre federalistas e unionistas, gradualistas e maximalistas, funcionalistas e fundamentalistas. O princípio pode transformar-se no denominador comum que propicia o diálogo, constituindo a ponte necessária para a vivificação da ideia de Europa.

A grande herança político-cultural europeia, a do humanismo cristão e a do humanismo maçónico, podem, deste modo, dar as mãos em torno do mesmo tópico, para repudiarem a degenerescência estatolátrica e soberanista que destruiu a grande unidade das res publica europeia. Seria suicidário que agora tentássemos um novo salto em frente normativista ou uma revolução vinda de cima. Seria utópico exigirmos aquilo que apenas fingimos ser: a formal igualdade dos Estados Soberanos a que chegámos, como se os Estados algumas vezes tivessem sido iguais e como os menos iguais alguma tivessem tido qualquer plenitude soberana…

A Europa pode e deve ser o continente aberto e a plataforma giratória de todo o mundo, conciliando a ambiguidade euroasiática dos países da Europa Oriental, como a ambiguidade euroafricana ou euroamericana das antigas potências coloniais da Europa ocidental.

A vulnerabilidade desta contradição ontológica constitui, sem dúvida, a principal potencialidade da Europa. Isto é, a unidade da Europa será tanto mais universal quanto mais enraizada autonomia tiverem as suas diferenças. Só há, aliás, unidade se houver harmonia na diversidade. Cada Estado membro criou a sua própria expectativa quanto à construção europeia e a Europa passou a ser, sem dúvida, o resultado desse paralelograma de forças, projectos, esperanças e desconfianças.

O segredo da resistência da construção europeia está precisamente na conciliação entre o interesse de cada comunidade política parcelar e o interesse global da entidade europeia
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Aquilo que dissemos para o Estado Soberano pode também dizer-se para a entidade europeia que se vai projectando e construindo. Ela também é pequena demais e grande demais, em simultâneo.

Há que exigir uma Europa mais Europa, uma Europa que, retomando os desejos da geração dos pais-fundadores, trate de recomeçar pela cultura e de apostar na educação. Há que exigir uma Europa dos cidadãos, uma Europa que comece pelo fundamento de qualquer polis, a cidadania pela paideia. A Europa política não pode ser um super-Estado, um grande Leviatã. A Europa da vontade geral tem de ser uma Europa dos povos, chamem-lhe nações, cantões, pátrias ou regiões. A Europa política não pode copiar o modelo dos anteriores projectos de Império ou de Monarquia Universal, com pretensões a Estado Mundial, como prepassa em certos conceitos de Europa Fortaleza

A táctica negocial portuguesa tem, pois, de conciliar permanentemente o patriotismo com o europeísmo, porque os dois movimentos, não são incompatíveis, porque se exigem reciprocamente. Desde que não se entenda o europeísmo como uma espécie de prisão das nações. Desde que não se reduza o patriotismo à reinvenção de um soberanismo ultrapassado.

A República Portuguesa é hoje um mediano Estado que exige o small is beautiful na construção do político. Que exige do político não ser grande demais, levando à exclusão da participação na decisão, como é exigência de qualquer cidadania. Não pode confundir-se com os modelos de manutenção do Estado que necessitam de esmagar ou comprimir aquilo a que eufemisticamente chamam nacionalidades ou regiões.

O nosso modelo de nação, anterior a Maquiavel e a Bodin, bem mais antigos que o conceito absolutista, territorialista e concentracionário de Estado Moderno, pode servir de inspiração para a conciliação do grande espaço europeu com o princípio da liberdade dos povos. O nosso modelo de patriotismo nada tem a ver com pan-nacionalismo de alguns projectos imperiais europeus que ainda persistem. Nem sequer pode confundir-se com modelos de irredentismo sem conteúdo histórico, como de muitos nacionalismos sem nação.

O espaço supra-estadual e plurinacional da União Europeia tem de dar uma pátria a cada povo e que admitir que várias nações possam conviver no mesmo espaço, através do respeito por aquele fundamentalismo europeu que é a consideração do respeito pela autonomia ética da pessoa humana.

O princípio da subsidiariedade implica distinguir para unir e não o seu inverso o dividir para reinar. A Europa que sonho vir a ter poderá ser uma res publica dotada de um novo centro político para onde se transferirão lealdades, expectativas e interesses dos cidadãos europeus, mantendo-se, embora os anteriores centros políticos do modelo do Ocidente dos Estados.

O tempo de interregno que durante muitos anos vamos continuar a viver, implica, inevitavelmente aquilo que Raymond Aron qualificava como uma nova ordem marcada pela mistura da hegemonia do mais forte e de um consentimento real dos menos fortes. Logo, nesta Europa dos Estados, onde se misturam os mais diversos modelos de organização do político, desde seculares Nações-Estados a Estados plurinacionais, desde pequenos grão-ducados a potências herdeiras de modelos de Império, desde os que conservam fronteiras medievais aos que ainda sonham com unificações, separatismos ou reestruturações territoriais, onde abundam minorias nacionais e alguns povos sem pátria, não podemos deixar de ter um mitigado neofeudalismo de Estados desiguais, onde alguns deles terão de ser mais iguais do que outros, com voto de qualidade proporcional ao número de eleitores ou de regiões que cada um possui.

Admitir a subsidiariedade, corresponde assim a introduzir divisibilidade na própria soberania, permitindo transferir parcelas destas, tanto para cima, para um centro supra-estadual, como para baixo, para novos centros infra-estaduais.

Só depois desta distinção pode unificar-se. Só então pode haver federação ou confederação, federando ou confederando, não as quinze divisões estaduais existentes, todas elas concentracionárias, mas as pluralidades geo-humanas, locais ou regionais, e as pluralidades interpessoais, dos vários grupos.

A República Portuguesa nada deve temer desse modelo, porque nem é pequena demais, nem grande demais. Aliás, a única forma de poder resistir na sua dimensão, passa por ter um espaço onde possa fugir aos diálogos bilaterais das suas alianças e confrontos ancestrais. Só a multilateralidade de uma grande Europa, como a da actual União Europeia lhe permite potenciar a autonomia.

A Europa que interessa a Portugal é a Europa que tenha uma alma, como dizia Robert Schuman, a tal Europa que possa recomeçar pela cultura, como acrescentava Monnet. E não haverá Europa se esta não for entendida como uma polis, como um conjunto de cidadãos, onde só é cidadão aquele que participa nas decisões. Mas a polis Europa só o poderá ser se se assumir como o resultado da complexidade das poleis que a história gerou, como ânimo comum assente nas comunidades efectivas que a formam e conformam.

Qualquer europeísmo que caia na tentação de criar um super-Estado, uniformizado, centralizado e concentracionário, em nome de um despotismo esclarecido e utilizando a metodologia da Europa confidencial, através da elefantíase legiferante e do regulamentarismo, nada mais faz do que elevar o soberanismo absolutista à escala europeia. Destruir o soberanismos dos Estados, mantendo-o num centro político supra-estatal é deixar entrar pelo sótão aquilo que pretendeu, em boa hora, defenestrar-se;

Só uma Europa consciente de que os problemas económicos só podem ser resolvidos por medidas económicas, mas não apenas por medidas económicas, pode ser viável e fiel ao ideal europeu. O que crescer a partir de um mercado único e de uma união económica e monetária, mas ser diferente dos modelos de free trade, implicando mais alma, mais cultura, mais cidadania e mais política, mas através de uma perspectiva pluralista e poliárquica.

Quem me dera poder dizer ser a vez duma Europa mais livre que, abandonando a tentação dos Estados Directores, proclame que a unidade não exclui a diversidade e, muito menos, o orgulho das seculares franquias nacionais. Uma nova espécie de organização política de um grande espaço inter-estadual e inter-nacional. Uma realidade nova que trate de quebrar as estafadas classificações das federações e das confederações; que ultrapasse e surpreenda o ius intercivitates procedente do modelo da Paz de Vestefália, do cuius regio ejus religio destruidor da unidade da respublica christiana, e do regime da hierarquia das potências consagrado pelo sistema Metternich após a Conferência de Viena.


II
A repolitização da Europa

Este especial momento de encruzilhada do processo de construção europeia, é um especial revelador desta Europa institucional que vamos tendo, a qual, se é formal continuadora do projecto dos Tratados de Paris e de Roma da década de cinquenta do século XX, talvez não continue integralmente fiel ao espírito dos fundadores desse formidável movimento de lançamento do Estado de Direito que se sucedeu à Segunda Guerra Mundial.

Com efeito, a presente encruzilhada, marcada pelo jogo do “sim” e do “não” em torno da Constituição Europeia, importa assumirmos a plenitude da cidadania europeia e não nos considerarmos europeus de segunda velocidade, na periferia de uma geometria variável que nos obrigue ao temor reverencial e à filosofia da mão estendida ao subsídio do fundo estrutural. Até me apetece dizer “sim” a uma Europa pós-soberanista e até federalista, se entendermos por federação, não o neofeudalismo dos impérios frustrados que se pensam locomotivas do projecto europeu, mas o sonho antijacobino de uma democracia de muitas democracias e de uma nação de muitas nações, atingindo o universal pela diferença! E quem reduzir o nacionalismo ao soberanismo até deve reparar que um dos nossos primeiros teóricos da tal soberania se chamava Miguel de Vasconcelos e estava ao serviço da soberania dos Filipes!

Há, com efeito, uma parcela do “sinzismo”, talvez minoritária, que tem o “cinzismo” dos sucessivos situacionismos, marcada pelo conformismo do “sim, senhor” e com argumentos que tanto davam para defender o último dos impérios coloniais da Europa, como para justificar a nossa não-opção pela democracia. E custa ver o europeísmo enrodilhar-se nesta falta de espinha dos que, submetendo-se para sobreviverem, não conseguem compreender que vale a pena lutarmos, para continuarmos a viver.

Por isso é que alguns povos europeus têm rejeitado o convite para certas músicas celestiais de eurocratas, não aceitando certo europeísmo de pronto-a-vestir, que não assume a simplicidade do conceito de vizinho, de amigo, de compatriota e de europeu. Muitos não querem ser tratados como párias do come e cala

Caso se mantenha a intenção de dar democracia ao processo de edificação do projecto europeu, julgo que importa assumirmos a necessidade de uma Europa dos homens comuns com signos efectivamente mobilizadores. Esses burocratas e subsidiocratas, higienicamente transnacionais, que se passeiam por aeroportos e programas de propaganda quase colonial, não podem continuar a refugiar-se à sombra dos belos símbolos da bandeira azul das doze estrelas e do hino de Beethoven.

Neste sentido, importa denunciar particularmente a parcela tecno-burocrata do modelo codificador do “estado a que chegámos” na Europa, onde, à irreverência dos nobres criadores do projecto, sucedeu o cinzentismo dos gestores de obra feita e os privilégios dos fidalgotes.

Porque foram os eurocratas, partidocratas e subsidiocratas que definiram o processo de audição convencionalista, através de um sistema de canalização da opinião pública onde acabou por funcionar o processo do macaco cego, surdo e mudo, desta ditadura de perguntadores que quase insinuam a resposta, nesta procura de um código único para a pretensa “ordem e progresso”. Só que tal construtivismo, vanguardista e codificacionista, virou frustração quando pretendeu unidimensionalizar a complexidade europeia.

O problema está menos neste ou naquele princípio da pretensa constituição, mas principalmente no método. Já não estamos no tempo dos movimentos de massas das elites dos congressos europeístas do pós-guerra. Nem na época da Europa confidencial e do método dito “furtivo” do “federalismo sem dor”, quando Monnet usava a “porta das traseiras” do grupo de pressão para se preparar o relance europeísta.

O alargamento não gerou aprofundamento. A quantidade não foi acompanhada pela qualidade. O salto em frente, mais uma vez, não resultou, como sucedeu com o fracasso da CED (1954) e com os meandros da emergência do gaullismo (1958).

A Europa, enquanto OPNI (objecto político não identificado), precisava deste desafio, para se quebrar o ciclo eurocrático e dos líderes com cara de plástico, bem como do domínio da federação dos impérios frustrados que se assumiam como a locomotiva do projecto.

E muito menos podemos chegar a uma Europa como comunidade que se ame, se se enveredar pelo jacobinismo de uma decisão multitudinária: por exemplo, de um só referendo num só dia. A Europa só pode resistir se continuar como uma democracia de muitas democracias e como uma nação de muitas nações.

Por mim, admito que é possível “dividir para unificar”, dividir os estadualismos e soberanismos que são prisões de povos e nações, para se atingir a unidade na diversidade. Se jamais serei eurocéptico e soberanista, também não alinharei com cínicos nem com jacobinos ditos idealistas: posso continuar nacionalista, federalista e pluralista e, para ser europeísta, não preciso de pedir autorização aos dois partidos dominantes do bloco central eurocrático.

Já estamos bem longe da defunta polémica entre os eurocépticos e os europeístas, onde os primeiros se acantonariam na extrema-direita e na extrema-esquerda e os segundos, no grande bloco central de interesses que, invocando os fantasmas dos nacionalismos fragmentários lançavam para os nossos olhos as maravilhas do mundo global, onde se inseria uma Europa toda cor de rosa sem espinhos.

Mesmo as sumidades politológicas de importação terão que alterar os relatórios pré-programadas dos caçadores de eurocépticos alquebradamente salazarentos, dado que agora aparecem, ao lado do “não”, convictos europeístas, certos federalistas, bem como sociais-democratas, socialistas, liberais, juntamente com conservadores, nacionais-revolucionários ou eternos adeptos da extrema-esquerda.

Com efeito, muito do europês que por aqui circula através de várias traduções em calão é quase equivalente ao paradoxo dos que vivem o drama de um aparelho de Estado que precisa de perder a banha da empregomania, mas sem descalcificar a ossatura e a agilidade muscular. O tal aparelhismo alimentado a imposto que gerou intervenção na economia e na sociedade e que levou àquilo que Habermas vem qualificando como a “repolitização da esfera social”. O tal “Estado de Bem Estar” que, segundo Cotarello, passou a “Estado de Mal Estar” e que tem provocado, já há várias décadas, um processo de crescente auto-limitação do monstro, onde neo-liberais e neo-socialistas têm comungado num programa de privatizações e de des-regulações.

Talvez volte a ser urgente uma nova cultura de análise desta encruzilhada, mas através de uma reinvenção teórica. Só que, infelizmente, continua a ser cedo, aqui e agora, para a superação do dicionário dos mestres-pensadores, para a ultrapassagemn da fragmentação dos paradigmas dominantes, isto é, dos vários pensamentos únicos e dos vários “politically correct”.

Por mim, prefiro o regresso à “polis”. Num “reculer pour mieux sauter”, não para citar Lenine ou Napoleão, mas o original de Leibniz. Para regressarmos à cidadania, enquanto participação. Corrigindo os excessos oligárquicos deste megademocracia representativa, dominada pelos pensadores oficiosos das homilias situacionistas e dos contra-poderes opinativos gerados pelos controladores dos regimes.

Regressemos à origem romana do conceito de “publicum”, onde, mui republicamente, apenas podia ser público o que era horizontal, pacto, consenso, “sponsio rei publicae”, confiança pública. Onde o povo igual, o povo comum, em comício, respondia à provocação do magistrado para emitir o máximo da lei, que nunca foi o que vem de cima para baixo, mas antes o que vem de baixo para cima.

Regressemos ao globalismo estóico, sucessivamente reinterpretado pela “respublica christiana” e pelo “ius publicum” europeu, de Leibniz e de Kant, nesse conceito de “paz perpétua” que, actualmente é equivalente ao modelo de Estado de Direito universal. Mas não esquecendo que só se alcança o universal pela diferença, dividindo para se unificar, gerando unidade pela variedade.

O que implica deseconomicizarmos o global, num crescendo que passa pelo local, pelo público e pelo global, numa quase coincidência com essa ascensão do individual, estatal e humanitário, o triângulo evolutivo da complexidade crescente onde devemos eliminar o conceito de Estado como sinónimo de público e o conceito de legalidade como equivalente ao de direito e de justiça. Só assim poderemos ter uma “patria chica” sem paroquialismos. Uma cidade sem bairrismos. Uma nação sem nacionalismos. Um Estado sem soberanismos. E um global universal, sem desprezo pela diferença. O global dos muitos arquipélagos de autonomias, unidas de centro a centro, de cabeça a cabeça, de interior a interior, sem cedência aos cilindros compressores dos unidimensionalismos.

O universal é descobrirmos que, dentro de cada indivíduo, já lá está o sinal de universal. Que o homem é um fenómeno que nunca se repete. Um solitário, um bom selvagem que pode ser lobo do homem se não for bem educado. Se não reparar que, ao lado da sua dimensão de solidão, há uma dimensão social, política e global. Que, ao lado do solitário, há o cidadão, que não é concessão do Estado, mas antes um espaço de autonomia que tem de nascer de novo, que tem de resistir, de baixo para cima, de dentro para fora. Para que todos possamos crescer. Em progresso quantitativo de melhoramentos materiais, mas também em progresso qualitativo, onde não basta o crescer para cima, exigindo-se o crescer para dentro, para que os homens possam voltar a fazer a história, mesmo sem saberem que história vão fazendo.

Fev 22

Casar a honra com a inteligência

O problema português continua a estar na circunstância de não sabermos casar a honra com a inteligência, a pátria com a liberdade e a justiça com a eficácia na gestão. A nossa grande estupidez continua a estar nas estalinistas literaturas de justificação dos revisionismos históricos e na consequente história dos vencedores, que não atinge a humaníssima perspectiva das memórias de libertação e das consequentes comunidades de amor. E ninguém resolve estas complexidades com as simplificações ideologistas de quintal, porque, na prática, a teoria é outra e quem lê livros de teóricos miguelistas e pedristas, ou de marcelistas e antifascistas, se lhes tirar as capas, os nomes dos autores e os carimbos diabolizantes, confundirá as páginas e até pode acreditar nas biografias que os sobrinhos escrevem sobre os tios ou os afilhados sobre os padrinhos nas enciclopédias e dicionários históricos que precisam de subsídios de ministros e fundações para serem editados.