Fev 22

Entre os desembarques de D. Miguel e D. Pedro e as homenagens por fazer a Paradela de Abreu e a Manuel Belchior

O problema português continua a estar na circunstância de não sabermos casar a honra com a inteligência, a pátria com a liberdade e a justiça com a eficácia na gestão. A nossa grande estupidez continua a estar nas estalinistas literaturas de justificação dos revisionismos históricos e na consequente história dos vencedores, que não atinge a humaníssima perspectiva das memórias de libertação e das consequentes comunidades de amor. E ninguém resolve estas complexidades com as simplificações ideologistas de quintal, porque, na prática, a teoria é outra e quem lê livros de teóricos miguelistas e pedristas, ou de marcelistas e antifascistas, se lhes tirar as capas, os nomes dos autores e os carimbos diabolizantes, confundirá as páginas e até pode acreditar nas biografias que os sobrinhos escrevem sobre os tios ou os afilhados sobre os padrinhos nas enciclopédias e dicionários históricos que precisam de subsídios de ministros e fundações para serem editados.  A não ser que trate de frequentar um desses mestrados de sacristia saneadora, abençoando a extrema-esquerda que agora faz genuflexão aos novos donos do poder, com muito protestantismo importado, dito “neolib”, e algum providencialismo reaccionário de pacotilha, dito “neocon”, para pretender descobrir o que já está descoberto, sem saber quem foram os “british liberales” (sic) ou que “The Federalist” foi traduzido por um miguelista exilado no Brasil, ainda antes do século XIX chegar ao meio.

Fev 18

Diz-me que inimigo escolhes e eu dir-te-ei quem és… ou as teorias da conspiração que são literatura de justificação

Confesso que sou céptico demais para me bastarem as explicações universais de alguma literatura de justificação, a que muitos dão o nome de teorias da conspiração. Vivo num aqui e agora de quatrocentos anos de Inquisição, com persigangas, fogueiras, bufos e dissimulações, restauradas por sucessivas Viradeiras, a última das quais se vestiu de salazarismo, soma de inquisidores de gabinete e sacristia com o policiesco torturador de Pina Manique, onde dezenas de milhares de moscas viviam da denúncia anónima, em nome da luta de invejas, a mesma que o PREC restaurou sob a forma de saneamentos, pedindo ao aparelho de poder para excluir da cidadania o vizinho, o colega ou o parente. Hoje, vestidos com a verniz da democracia, mudámos o aspecto do bufo e instrumentalizámos o aparelho de poder, sobretudo a nível da espionite e da processualização. É evidente que acredito em conspirações e que posso identificar algumas do Portugal Contemporâneo. A de 24 de Agosto de 1820, promovida pelo Sinédrio. A da Maria da Fonte e da Patuleia que só frutificaram com a Regeneração de 1851. A de 1910, com base nos Jovens Turcos e na Carbonária. A do dezembrismo sidonista de 1917, com os subsídios do latifundiário alentejano do Partido Unionista, avô de um antigo deputado europeu da actualidade. A do 28 de Maio de 1926 que meteu um conspirador de 1910, acabando usurpada pela ditadura das finanças e das forças vivas. A do 25 de Abril de 1974 que foi mobilizada pelo movimento dos chamados capitães. É evidente que, para cada conspiração triunfante, houve, em média, cerca de cinco conspirações falhadas por década. E que alguns desses movimentos levaram a magnicídios, transformando-nos num dos países do mundo que, no século XX, mais matou figuras cimeiras do Estado: o regicídio de 1908; o presidenticídio de 1918; a Noite Sangrenta de 1921; o assassinato do chefe da oposição, Delgado; o acidente/atentado de Camarate. Para não falarmos do envenenamento de D. João VI em 1826. Em quase todos estes casos, sabemos quem matou, mas, no fim dos processos, nunca as polícias e os magistrados determinaram quem mandou matar. Por outras palavras, fica um vasto espaço para cada um elaborar a teoria da conspiração conveniente, sempre que as polícias e os tribunais se mostram impotentes para a descoberta da verdade. Podemos escolher o fantasma ou preconceito que melhor se adequa à nossa crença, atirando para cima de maçons, jesuítas, comunistas ou fascistas, ao estilo daquilo que se diz da morte de D. João VI em 1826, onde foi confirmado o enevenamento mais de um século depois. Os liberais dizem que foi o cozinheiro, miguelista; os reaccionários, que foi o médico, maçon e liberal. O resto é sinarquia, campanhas negras, cabala, hidras disto e daquilo, não faltando os que voltam a ler a conspiração dos sábios do Sião ou a manobra do capitalismo internacional. Hoje, é Freeport, Casa Pia e Apito, o prefeito emérito da Congregação da Causa dos Santos, o grupo de pressão LGT e, sobretudo, o sindicato eterno do elogio mútuo. Fica a explicação conveniente para cada um: a campanha negra contra Sócrates; a cabala contra o PS; o anticomunismo primário; a doença infantil do esquerdismo; a antinação; os revisas; os fachos;  as pinoquídas dos jotas e dos jornais partidários; as denúncias da espionite pidesca com periscópio de fora. Por mim, só sei que nada sei. Mas que a hidra da corrupção leva a que o crime compense, não tenho dúvidas. Não acredito em teorias da conspiração, mas que as há, as há. O mundo da razão de Estado e da compra de poder continua a mover-se. E sorrio com estas volutas de uma crise mental. Diz-me que inimigo escolhes e eu dir-te-ei quem és… 2009 São recordações escritas de uma intervenção minha no Rádio Clube Português,
Fev 17

As explosões de Saturno, os carpidores-mores da república, memórias, irmã Lúcia, privatizações e fuga ao segredo

Uma poderosa tempestade está a abalar o corpo gasoso do planeta Saturno, o tal que tem cem vezes a massa da Terra, sítio onde ainda nos dividimos invocando um Profeta do século VII depois de Cristo, neste século I depois de Bill Gates, onde ainda tememos a gripe das aves e continuamos pequenos demias face ao mundo, face a um tempo que é eternidade e face a um espaço que é infinito.  Daí que seja pequenina demais a questão de certa vaidade ministerial, essa peça menor de uma máquina anónima que se pensa maior do que o seu próprio país, só porque se considera como uma espécie de monopolista da racionalidade importada, quando não passa de um cadáver adiado que procria decretos e nomeações burocráticas. Quase se assemelha a outros entes dessas outras eras em que ainda vivem, como o prtenso carpidor-mor da república, a quem encomendam homenagens e “reprises”, só porque não tem coragem para descrever suas memórias. Dizem as notícias que, depois de amanhã, o corpo morto da irmã Lúcia descerá à terra que a viu nascer, mas as televisões aproveitam a ocasião para transformar o sagrado numa reportagem sobre a venda de artigos religiosos em Fátima, confirmando-se que os escritos da vidente estão em bom lugar no “ranking” ads vendas, depois da Bíblia e da encíclica Papal. Apenas diremos que o mau-gosto e a falta de bom-senso continuam, sem ser por causa dos “cartoons” de Mafoma, até porque Fátima era o nome de uma das filhas do mesmo. Dizem também que o governo socialista se prepara para a venda dos últimos restos de participação do Estado nas cem empresas que restam do próprio socialismo. Ficará para a ideologia o eterno comunismo burocrático e a rede banco-burocrática do chamado capitalismo de Estado, tentando salvar a anunciada falência da segurança social. Finalmente, sabe-se que polícias e magistrados entraram numa redacção e no domicílio de um jornalista, apreendendo computadores e tentando assim deter a rede que tem permitido sucessivas fugas de informação judicial. Como se quem bebe do fino não soubesse como informalmente se mantêm redes informais de recolha de informação junto do esquema de acesso a circuitos ditos de segredo de justiça, de segredo fiscal, de segredo bancário ou de segredo de Estado ou de simples e lucrativa “inside information”, onde a falta de deontologia e o desleixo permitem a montagem de esquemas da velha persiganga, sem qualquer profissionalismo do tipo cabalístico. Basta ir almoçar a certos restaurantes e tascas e estar de ouvido atento.

Fev 13

O Alcorão segundo Maomé…

Obrigado a consumir a hiperinformação desta aldeia global que nos transmite “ad nauseam” a série de quarenta e sete pontapés que, há dois anos, tropas britânicas emitiram contra manifestantes iraquianos, noto que se anuncia a circunstância de norte-americanos estarem a elaborar planos para eventual coacção cirúrgica contra o Irão, enquanto o nosso ministro dos estrangeiros tem a louvável inciativa de acabar com a autonomia estatutária da FIFA e da UEFA, propondo um campeonato euro-árabe de futebol, a fim de ultrapassarmos tanto a crise dos “cartoons” como a eventual pressão da república imperial contra os persas. Concordamos totalmente com o biógrafo de Viriato e Afonso Henriques e insigne memorialista do PREC, dado que esse campeonato até poderia ser previamente ensaiado em palco, tendo como clímax a mãozinha de Deus/Alá, dando à equipa vencedora direito a golo madjeriano, sem cartão vermelho. Consta até, nos meios diplomáticos domésticos, que foi encomendado romance a um ilustre prémio Nobel, com o título “O Alcorão segundo Maomé”, texto este que, visando superar anterior erro do Estado português, será desde já indicado para prémio internacional, estando garantido um prefácio do ministro e um pósfácio de vários descendentes directos do Profeta, desde o chefe da comunidade ismaelita ao senhor duque de Bragança, com notas pé-de-página de Rui Zink e caricaturas de António, segundo texto de Miguel Esteves Cardoso.

Fev 12

Porque o mundo está feito num barril

Porque o mundo está feito num barril, cada manif contra o Ocidente é igual a mais um cêntimo no preço do petróleo, quando importava recordar que o mesmo mundo, apesar de ser quase redondo, não tem que ser unidimensional, mas unidiversidade. Com efeito, a CIA, para vencer a foice e o martelo russos, no Afeganistão, deu bombas e treino de guerrilha a Bin Laden e aos agentes wahabitas do Corão, enquanto os generais de Washington de hoje pensam deter o terrorismo do martírio com os meios de repressão que, dantes, continham o terrorismo niilista. Tal como os embaixadores e intelectuais da república imperial supõem que somos todos daquele um mais um é igual a dois, só porque alguém terá dito um dia que quando lhe falam de inteligências puxa logo do livro de cheques, susceptível de promover a diplomacia do croquete, a visibilidade do prestígio ou a gestão da vaidade, num país que ignora o processo que levou os Filipes ao poder ou as peripécias que se sucederam com a chegada de el-rei Junot, onde as invasões sempre se disfarçaram com bonitos nomes de modernização e bela ordem. O homem de sucesso não tem que ser o homem do poder nem o homem do dinheiro e nessas suas sínteses que são o político feito feitor dos ricos, ou o intelectual feito sacristão dos distribuidores de subsídios ou de avenças. Tal como Salazar era consultor de Moses Bensabat Amazalak, antes de ser chamado pela Ditadura para ministro das finanças. Isto para não falarmos noutros gestores de alto calibre que vivem nessa zona de penumbra, entre a alta advocacia, os “holdings”, a consultadoria e a super-administração bancária, onde se destacam os perfis dos que, entre cheques, prebendas, prefácios a livros e negócios, se assumem como a fina flor de um capitalismo lusitano, onde ser liberal pode rimar com Compal, social-democracia com Coca-Cola e doutrina social da Igreja com outra qualquer marca de sucesso. Assim se confirma que, neste pequenino Portugalório, não há grande espaço de respiração para os homens livres do poder partidocrático e da sedução financista e negocista, face ao instalado sistema de subsidiodependência que vai continuando a segregar aquela baba de que são cobertos os pretensos homens de sucesso. Especialmente, num sítio capitaleiro onde, dantes, o medo guardava a vinha dos rendeiros e senhores de sempre, quando o arame farpado da clandestinidade comunista mantinha intacta a reserva da dita classe operária e a guarda profissional das forças aramadas e militarizadas tanto ameaçava o golpe de Estado como podia garantir o Estado de Segurança Nacional. O resto da pátria, assim guardada, sempre se entretinha entre os fiéis de Fátima, os aplausos às vitórias do Benfica e a possibilidade de igualdade nos pequenos espaços de igualdade de oportunidades que havia na burocracia, no sistema de ensino e aparelhos eclesiásticos e militares. Cerca de três séculos e meio depois da morte de Descartes e cerca de duzentos anos depois da morte de Kant, a nossa modernidade dos donos do poder continua a viver ao ritmo de um patrimonialismo pouco racional-normativo. Porque, enquanto o pau vai e vem folgam as costas dos que vivem de mão estendida à espera do reconhecimento do subsídio ou da avença. E só alguns radicais, passíveis de uma declaração de insanidade, continuam a ser ingénuos neste mundo de gente lúcida, mesmo que certos assumam a lucidez de serem ingénuos, não se deixando enredar no moluscular peganhento dos petróleos e nas queimadelas de um nuclear que deixa sempre resíduos de lixo, para milhares de anos.

Fev 10

Não há pior emenda do que a falta de soneto

Não há pior emenda do que a falta de soneto, especialmente quando uma figura catedraticamente intelectual e beatamente culta, sentada no alto do seu cadeirão ministerial, despacha, segundo a ciência certa e o quase poder absoluto, quem, palacianamente, é decretado como pretensamente intelectual e pretensamente culto e não pode ir fazer exposições de arte à Arábia Saudita, acompanhando a inspiração de Roma e os contratos de Estado ismaelitas. Apenas se torna ridículo que se assuma como o pilar fundamental da democracia doméstica e que se visione como seguro indispensável contra o choque de civilizações. Felizmente que ainda não chegámos ao jardim da madeirense, onde o crítico é mais do que dissidente, dado correr o risco de ser demonizado como passível de insanidade mental. Ele, a rocha firme da paz e o grande educador do Ocidente, especialmente quando manda a imprensa publicar o último parágrafo do recente comunicado do presidente Bush, apenas tendo, contra seus dramas e rimances, o habitual bando dos tais intelectuais radicais de esquerda e de direita que não vislumbram a sorte que a Providência nos concedeu ao colocá-lo no Palácio das Necessidades, que é coisa que fica um bocado abaixo do Cemitério dos Prazeres, onde há banheiras onde se não escorrega.

Fev 09

Conversando com o mestre..

Mestre Agostinho, ao analisar o nosso fim do ciclo do Império já dizia que, pode ser Portugal a morrer como metrópole e a renascer como comunidade livre, já que dominar os outros é a pior forma de prisão que ter se pode. Porque, Portugal, ao contrário do que tantos dizem, não diminuiu, antes se multiplicou, dado que libertando os que mantinha sob o seu domínio, reconhecendo-lhes independência para a vida, renasce em Pátrias. Porque o que Portugal foi tem servido para que Portugal não seja, pois a ilusão portuguesa de império terrestre acabou por ser subvertida pela sorte do capitalismo industrial. Porque Portugal, impelido ainda pelo seu afã de mar e sentindo no mar a verdadeira garantia de independência chega, porém, a África, parasitado pela economia europeia e, já, euro-americana. Acrescentava até que agora Portugal é todo o território de lingua portuguesa. Os brasileiros lhe poderão chamar Brasil e os moçambicanos lhe poderão chamar Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora é essa a Pátria de todos nós. Para ele, a ciência e o racional só servem para chegar às fronteiras do irracional, para mais nada. Porque depois de um sujeito estudar toda a física e toda a Matemática que é possível, chega àquilo que considera o fim e vai chocar no mistério. Até porque falta uma realidade mais alta, aquela que nos permite efectivamente fazer do mar, o mar sem fim, aquela que se comporia do que melhor tiveram Ocidente e Oriente, uniria Cristo e Lao-Tseu e nos daria, num eterno sendo e vir a ser, aquele Espírito Santo que á a fusão perfeita do Todo e do seu Nada. Assim educar a nação não é para mim metê-la em molde algum, mas deixar que plenamente viva cada um dos indivíduos que nela existem.  Entre testas de ferro e cabeças de apito Todas as grandes fortunas da nossa pós-revolução devorista se fizeram graças àquela mistura de socialismo de consumo e liberalismo a retalho de uma certa economia mística que tanto socializa os prejuízos como privatiza os lucros, segundo certa lógica merceeira do salve-se quem puder e do faz-de-conta que transformou os centros comerciais em novas catedrais e os balcões da banca hipotecária em pouco discretos confessionários. Daí que, nesta sociedade de casino, se tenha aberto o leilão do país em saldos. Assim reparo que uma das estrelas deste capitalismo lusitano anuncie querer Papar uma das antigas joías da coroa do nosso capitalismo de Estado, enquanto muitas testas de ferro se vão movimentando. Assim se confirma a verdade globalizadora e pouco armilar segundo a qual o capital não tem cor nem pátria, entre a vontade de comer de uma nacional francesa multinacional e a vontade de não ser comida de outra nacional multinacional cá da península, enquanto voltam os velhos vendedores de sucata nuclear, ao mesmo tempo que os defensores acirrados da globalização de há algumas semanas fazem agora o discurso nacionalista de defesa dos centros de decisão capitalista cá das berças. Enquanto isto, as nossas glórias do pedibola, do velho glorioso ao eterno lagarto quase levam nas trombas dos pequeninos, ao mesmo tempo que fogem aos segredos do processo as acusações judiciais, onde um conhecido político é acusado de “capo” de conspiração, por uso da respectiva influência política e um outro fazedor de parangonas aparece como sacristão da movimentação, com palavras de corrupção no subentendido, como se esta apenas pudesse ser provada para relvados e não para partidos, obras públicas e autarquias, apesar de alguns dos protagonistas coincidirem no palco. E, entre testas de ferro e cabeças de apito, resta-nos ir votando, pagando impostos e jogando no euromilhões e no betandwin.

Fev 08

A Europa dos Estados

Recordo hoje, conferência que proferi no Porto, em 1991, na Cooperativa Árvore, integrado no ciclo À Descoberta de Nós, promovido e presencialmente comandado por mestre Agostinho da Silva, a que dei o título de “A Europa dos Estados”. Neste começo da década de noventa, para uns, dito de fim da história e, para outros de regresso da política, talvez estejamos a assistir ao início de um efectivo após guerra, já não bipolarizado pelo equilíbrio mecânico das superpotências, estabelecido entre a pax americana e a pax sovietica, segundo os modelos de Yalta e a prática da guerra fria. Esta casa comum europeia, esta Europa das pátrias que vai do Atlântico aos Urales e que já foi res publica christiana, marcada por uma unidade em forma de elipse, que tinha num centro o Papa e, no outro, o Imperador, continua à procura da unidade perdida. Desde a Paz de Vestefália, de 1648, que vários Estados Impérios tentaram assumir a missão federadora desse processo, em nome dos mais variados signos ideológicos. Alguns actuaram isoladamente, como a tricolor França de Napoleão; outros tentaram a concertação de Santas Alianças, desde a de Alexandre Romanov à Santa Aliança Democrática da Paz de Versalhes. Quase todos falharam.A mais consolidada e esperançosa das experiências chama-se, agora, Comunidade Europeia. Começou por ser um simples acordo de paz franco-alemão, com os Tratados de Paris e de Roma, que instituíram a CECA e a CEE, respectivamente. Ousou ir mais além, com os alargamentos para as Ilhas Britânicas, o Mar Egeu e a Hispania, depois de encerrados os ciclos imperiais do white man’s burden.Mas quando essa mesma Europa estava, muito tecnocraticamente, à espera de 1992, eis que aconteceu aquele repto protagonizado por João Paulo II, a semear o Solidariedade, e com Gorbatchov a responder com a perestroika. E a pequena Europa das margens do Reno, assim alargada para além da Mancha e dos Pirinéus, com um poiso em Atenas, de olhos postos no Oriente, e em Copenhaga, às portas do Báltico, foi obrigada a repensar-se. A repensar-se em profundidade e em tempo de paz, sem ruínas nem ódios. A Europa, “la nation des nations”, como a qualificava Montesquieu, talvez seja mais do que a restrita Europa do internacionalismo liberal dos anos vinte, conforme o modelo de unidade política proposto por Aristide Briand, perante a Sociedade das Nações, em 5 de Novembro de 1929. A Europa em corpo inteiro é, de certeza, mais do que o mercado comum sonhado por Jean Monnet em plena era dos managers. A nossa Europa neste Ocidente dos Estados é um sonho partilhado por quase todas as correntes da civilização greco-latina e germânica.Reclamou-a a Maçonaria de Mazzini em 1834, aquela corrente que queria impor à Europa uma unidade absoluta, fundar uma teocracia republicana, um Papado republicano, como antes Carlos V e Filipe II sonhavam uma monarquia universal. Defendeu-a o internacionalismo comunista de Trotski, quando propunha, também no final dos anos vinte, uns Estados Unidos Soviéticos da Europa. Desejou-a o romantismo fascista de Drieu la Rochelle que, em 1940, advogava ser preciso entrar no federalismo e pôr fim ao nacionalismo integral e ao autonomismo patriótico. Concretizou-a a democracia-cristã e a social-democracia do pós-guerra, de Konrad Adenauer a François Mitterrand, de Alcide de Gasperi a Harold Wilson, ao instalarem esta semente de mercado único e de Europa dos cidadãos em que estamos vivendo. Trata-se, com efeito, de uma Europa que, como dizia Raymond Aron, não tem religião secular, não tem Papa e não tem Imperador, sendo, contudo, dotada de uma ordem que não é imperial nem totalitária, mas que se funda numa mistura da hegemonia do mais forte e de um consentimento real dos menos fortes. É uma Europa dos Estados desiguais, um mitigado neofeudalismo, onde os vários Estados, apesar de conservarem simbolicamente a respectiva independência, reconhecem que há alguns Estados que são mais iguais do que outros e que, por isso, têm direito a um voto de qualidade, directamente proporcional ao número de cidadãos-eleitores e de regiões que cada um possui. Até porque esta Europa dos Estados engloba os mais diversos modelos de organização estadual. Desde os seculares Estados Nações, culturalmente homogéneos, aos Estados Multinacionais; desde os pequenos Grão-Ducados aos grande herdeiros de Império; desde os que ainda conservam fronteiras medievais aos que aspiram, ou lutam, pela unificação. É uma Europa onde vigora o princípio do “quod omnes tangit, ab omnibus approbari debet”, com o consequente realismo anti-igualitário da prevalência da “major et sanior pars”.Esta Europa a que chegámos, na Comunidade Europeia, constitui uma entidade dinâmica que vive o desafio de uma integração económica, social, cultural e política. De uma integração política que, segundo Ernest B. Haas, consiste num processo pelo qual “os actores políticos de várias organizações nacionais diferentes são personalidades a deslocarem as suas lealdades, expectativas e actividades políticas para um novo centro, cujas instituições possuem ou reclamam jurisdição sobre os Estados nacionais preexistentes”.O resultado final deste processo vai constituir uma nova comunidade política onde as comunidades anteriores são meras parcelas. Uma nova comunidade política que apenas se concretizará quando surgirem efectivos poderes no novo centro e se começarem a transferir interesses e lealdades para a nova organização.Tal consequência escapa, contudo, aos futurólogos, sejam profetas ou pretensos cientistas da prospectiva. Porque o normal nestes processos é haver anormais. Que o digam os projectistas de 1992 que não previram a eleição de João Paulo II nem a perestroika, apesar dos inúmeros especialistas em Igreja do Silêncio e em sovietologia. Resta interrogar-nos, como Agostinho da Silva: “teremos uma República Federativa da Europa, certamente – mas Federativa de quê? Federativa das nações renascentistas e pós-renascentistas? Não vou nada por essa solução. Continuarão os Escoceses sujeitos a Londres, os Flamengos a Bruxelas, os de Valência a Madrid? Vamos perpetuar Luís XI ou Carlos V? Tem de se dar uma volta completa e definir Pátria como a definiram Joana d’Arc em França, pela língua em que se brincou sendo criança, e Nun’Álvares aqui, pela terra que se beija antes de um combate que pode ser o último”.

Fev 08

Europa dos Estados (1991)

Recordo hoje, conferência que proferi no Porto, em 1991, na Cooperativa Árvore, integrado no ciclo À Descoberta de Nós, promovido e presencialmente comandado por mestre Agostinho da Silva, a que dei o título de “A Europa dos Estados”. Neste começo da década de noventa, para uns, dito de fim da história e, para outros de regresso da política, talvez estejamos a assistir ao início de um efectivo após guerra, já não bipolarizado pelo equilíbrio mecânico das superpotências, estabelecido entre a pax americana e a pax sovietica, segundo os modelos de Yalta e a prática da guerra fria. Esta casa comum europeia, esta Europa das pátrias que vai do Atlântico aos Urales e que já foi res publica christiana, marcada por uma unidade em forma de elipse, que tinha num centro o Papa e, no outro, o Imperador, continua à procura da unidade perdida. Desde a Paz de Vestefália, de 1648, que vários Estados Impérios tentaram assumir a missão federadora desse processo, em nome dos mais variados signos ideológicos. Alguns actuaram isoladamente, como a tricolor França de Napoleão; outros tentaram a concertação de Santas Alianças, desde a de Alexandre Romanov à Santa Aliança Democrática da Paz de Versalhes. Quase todos falharam.A mais consolidada e esperançosa das experiências chama-se, agora, Comunidade Europeia. Começou por ser um simples acordo de paz franco-alemão, com os Tratados de Paris e de Roma, que instituíram a CECA e a CEE, respectivamente. Ousou ir mais além, com os alargamentos para as Ilhas Britânicas, o Mar Egeu e a Hispania, depois de encerrados os ciclos imperiais do white man’s burden.Mas quando essa mesma Europa estava, muito tecnocraticamente, à espera de 1992, eis que aconteceu aquele repto protagonizado por João Paulo II, a semear o Solidariedade, e com Gorbatchov a responder com a perestroika. E a pequena Europa das margens do Reno, assim alargada para além da Mancha e dos Pirinéus, com um poiso em Atenas, de olhos postos no Oriente, e em Copenhaga, às portas do Báltico, foi obrigada a repensar-se. A repensar-se em profundidade e em tempo de paz, sem ruínas nem ódios. A Europa, “la nation des nations”, como a qualificava Montesquieu, talvez seja mais do que a restrita Europa do internacionalismo liberal dos anos vinte, conforme o modelo de unidade política proposto por Aristide Briand, perante a Sociedade das Nações, em 5 de Novembro de 1929. A Europa em corpo inteiro é, de certeza, mais do que o mercado comum sonhado por Jean Monnet em plena era dos managers. A nossa Europa neste Ocidente dos Estados é um sonho partilhado por quase todas as correntes da civilização greco-latina e germânica.Reclamou-a a Maçonaria de Mazzini em 1834, aquela corrente que queria impor à Europa uma unidade absoluta, fundar uma teocracia republicana, um papado republicano, como antes Carlos V e Filipe II sonhavam uma monarquia universal. Defendeu-a o internacionalismo comunista de Trotski, quando propunha, também no final dos anos vinte, uns Estados Unidos Soviéticos da Europa. Desejou-a o romantismo fascista de Drieu la Rochelle que, em 1940, advogava ser preciso entrar no federalismo e pôr fim ao nacionalismo integral e ao autonomismo patriótico. Concretizou-a a democracia-cristã e a social-democracia do pós-guerra, de Konrad Adenauer a François Mitterrand, de Alcide de Gasperi a Harold Wilson, ao instalarem esta semente de mercado único e de Europa dos cidadãos em que estamos vivendo. Trata-se, com efeito, de uma Europa que, como dizia Raymond Aron, não tem religião secular, não tem Papa e não tem Imperador, sendo, contudo, dotada de uma ordem que não é imperial nem totalitária, mas que se funda numa mistura da hegemonia do mais forte e de um consentimento real dos menos fortes. É uma Europa dos Estados desiguais, um mitigado neofeudalismo, onde os vários Estados, apesar de conservarem simbolicamente a respectiva independência, reconhecem que há alguns Estados que são mais iguais do que outros e que, por isso, têm direito a um voto de qualidade, directamente proporcional ao número de cidadãos-eleitores e de regiões que cada um possui. Até porque esta Europa dos Estados engloba os mais diversos modelos de organização estadual. Desde os seculares Estados Nações, culturalmente homogéneos, aos Estados Multinacionais; desde os pequenos Grão-Ducados aos grande herdeiros de Império; desde os que ainda conservam fronteiras medievais aos que aspiram, ou lutam, pela unificação. É uma Europa onde vigora o princípio do “quod omnes tangit, ab omnibus approbari debet”, com o consequente realismo anti-igualitário da prevalência da “major et sanior pars”.Esta Europa a que chegámos, na Comunidade Europeia, constitui uma entidade dinâmica que vive o desafio de uma integração económica, social, cultural e política. De uma integração política que, segundo Ernest B. Haas, consiste num processo pelo qual “os actores políticos de várias organizações nacionais diferentes são personalidades a deslocarem as suas lealdades, expectativas e actividades políticas para um novo centro, cujas instituições possuem ou reclamam jurisdição sobre os Estados nacionais preexistentes”.O resultado final deste processo vai constituir uma nova comunidade política onde as comunidades anteriores são meras parcelas. Uma nova comunidade política que apenas se concretizará quando surgirem efectivos poderes no novo centro e se começarem a transferir interesses e lealdades para a nova organização.Tal consequência escapa, contudo, aos futurólogos, sejam profetas ou pretensos cientistas da prospectiva. Porque o normal nestes processos é haver anormais. Que o digam os projectistas de 1992 que não previram a eleição de João Paulo II nem a perestroika, apesar dos inúmeros especialistas em Igreja do Silêncio e em sovietologia. Resta interrogar-nos, como Agostinho da Silva: “teremos uma República Federativa da Europa, certamente – mas Federativa de quê? Federativa das nações renascentistas e pós-renascentistas? Não vou nada por essa solução. Continuarão os Escoceses sujeitos a Londres, os Flamengos a Bruxelas, os de Valência a Madrid? Vamos perpetuar Luís XI ou Carlos V? Tem de se dar uma volta completa e definir Pátria como a definiram Joana d’Arc em França, pela língua em que se brincou sendo criança, e Nun’Álvares aqui, pela terra que se beija antes de um combate que pode ser o último”.

 

Fev 03

Bartolomeu, ventos da história, golpes do reviralho, Cerejeira e terrorismo pós-abrilista

Serão outros governos conservadores ou de direita de quase todas as metrópoles coloniais europeias que irão promover esses ventos da história da descolonização, quando as superpotências brincavam a guerras por procuração, manipuladoras do anticolonialismo e bem assentes em objectivos pragmáticos neocoloniais.  No entretanto, já depois de Dien Bien Phu, Bandung e Evian é que, em Portugal, outro seria o ciclo, incluindo o mental, dado que Salazar , que não era de direita nem de esquerda, mas do totalismo suprademocrático que não admite partes nem partidos, se deixou enredar numa série de guerras coloniais quando as guerras coloniais dos outros tinham findado, só porque achava inevitável a chegada de uma Terceira Guerra Mundial, onde as nossas bases das lajes africanas poderiam ser bem negociadas com Washington, enquanto revogava à pressa as práticas indigenatas do Acto Colonial que ele instaurara contra a tradição integracionista da monarquia liberal e da república maçónica. Por essa e por outras é que só em Portugal, segundo a historiografia dominante, elevada a doutrina de Estado, guerra colonial rima com direita e descolonização com esquerda, esquecendo-nos até que os impérios coloniais europeus foram criações dos nacionalismos místicos dos finais do século XIX, à semelhança da III República francesa e da nossa república que teve como comissários em África gente como Norton de Matos, Brito Camacho e Álvaro de Castro, com as suas missões civilizadoras laicas, aliadas às missões eclesiásticas.