A verdadeira ciência da política, vestida com o hábito de certa ciência política, foi usurpada pelas ideologias do cientismo que, afinal, são uma continuação da gnose. Porque transformaram a política num adjectivo e a ciência num simples método ideológico. E tudo aconteceu porque o mundo do pensamento perdeu o sentido dos gestos; porque a política deixou de ser procura do melhor regime e deixou de enraizar-se numa paideia. O pensamento passou a ser literatura de justificação da ordem estabelecida (posita in civitate), perdeu o norte da justiça e a raiz da pátria. Perdeu o universalismo e perdeu a tradição. A verdadeira ordem é a ordem justa. E os conceitos analíticos da ciência da política só o serão se ela voltar a ser ciência da polis, ciência dos actos do homem enquanto cidadão. Diversa da ciência dos actos do homem enquanto membro da casa (economia) e da ciência dos actos do homem enquanto indivíduo (moral). Importa retomar o núcleo duro da ciência da política, essa raiz que é a chave da abóbada. O alfa que é o ómega da procura do pensar a política. Porque no princípio estão os princípios, aquela procura da felicidade que é ir além da autarquia e procurar a boa sociedade. Uma polis suficientemente grande para gerar governabilidade e suficientemente pequena para permitir a cidadania/participação. Para conciliar o poder e a liberdade, a comunidade e o amor. Numa polis que continua a ser pequena demais para os grandes problemas da vida e grande demais para os pequenos problemas da vida (Daniel Bell) e onde o Estado está acima do cidadão, mas o homem está acima do Estado (Fernando Pessoa). Política, direito e economia são parcelas de uma mesma ciência da ordem, de uma mesma ciência arquitectónica. Onde a procura da verdadeira ordem impõe que se vá além da mera ordem da conjuntura. Existe o perigo das elites espiritualmente imaturas, sem rigor espiritual e sem disciplina analítica. Onde a doxa veste o hábito da episteme. Porque o hábito não faz o monge e o palavrar demagógico salta para fora da polis. A verdade só vem dos que aprenderam a pensar pela conversão interior, de forma racional e justa. Porque se eu disser ordem posso pensar no mero ordinalismo autoritário da ordem externa, da ordem pela ordem, do mero equilíbrio mecânico de um “status”, de um situacionismo que nos dê segurança sem justiça, como o salus populi levitânico, da razão de Estado ou do desenvolvimentismo. Logo, a terapia da procura da ordem implica a abertura amorosa da alma ao fundamento da sua ordem que está no além. Contra o modelo decretino das grandes ideias em sistema. Há que denunciar o domínio da ciência da política pelo método empírico-analítico de um sociologismo neopositivista, justificado pelas ilusões da hiperinformação contemporânea. Há que recusar as proibições do perguntar, esse fechamento contra a ratio. Que equivale a uma desordem. Porque a ditadura dos perguntadores apenas nos permite a ratificação plebiscitária. Há que ser contra a ideia do homem como operário em construção, dessa ilusão de um homem novo contra o homem de sempre, nesse desfazer o mistério do transcendente, decretando-se uma ideologia segundo a qual o homem solitário pode ser maître et seigneur de la nature. Política não é ciência da casa (oikos nomos). Até inventámos a polis para deixarmos de ter um dono, um dominus ou um oikos despote. Há que repudiar o regresso ao doméstico. Há que rejeitar o método da pirâmide conceitual que nos faz engenheiros de definições e conceitos supra-infra-ordenados, dependentes do conceito matriz. Há que denunciar a redução da razão ao estreito racionalismo, essa impostura intelectual da não-essência e da não-sabedoria. Porque a consequência é uma ideia de revolução do processo histórico. Dos amanhãs que cantam. Das vanguardas. Da intelligentzia. Onde a linguagem pode ser filosófica, mas não a sua substância e não a sua intenção. Também consideramos que os três subsolos filosóficos no século XIX (Comte, Marx e Nietzsche) produziram as sete principais ideologias no século XX (Progressismo, Positivismo, Marxismo, Psicanálise, Comunismo, Fascismo e Nazismo). Todas geraram movimentos de massas de elites, porque os intelectuais podem ser massificados, nessa identificação entre gnósticos e revolucionários.
Recordando Eric Voegelin
Eric Voegelin constitui, sem dúvida, uma das referências fundamentais do universo contemporâneo das ideias. Principalmente por ser um insigne representante da íntima ligação entre o pensamento europeu e o pensamento norte-americano do pós-guerra, à semelhança de outros gigantes, como Leo Strauss, Carl J. Friedrich e Hannah Arendt, que a euforia genocida das perseguições hitlerianas obrigou a uma travessia do Atlântico. Uma geração que manteve, nesse Novo Mundo, a arca dos segredos teóricos da liberdade europeia, daquilo que o mesmo Voegelin considerou como a ciência clássica e cristã do homem, onde o fundo ateniense, platónico e aristotélico, reanimado pelo estoicismo romano e pelo vigor espiritual judaico-cristão, produziu aquele humanismo activista que sempre ousou nascer de novo, refazendo as sucessivas renascenças e promovendo aquelas regenerações que sempre visaram regressar para seguir em frente .
Falamos evidentemente daquelas correntes contrárias à modernidade do cientismo, iluminista ou positivista, que alguns alcunham de conservadoras, e que o não deixam de ser, se as entendermos como conservadoras do que deve ser, isto é, dos princípios, mas que, contudo, se manifestam como irreverentemente inconformistas, quando não insolentes, face ao situacionismo mental da modernidade, que apenas pretende conservar o que está. Aliás, a comunidade instalada nas terras norte-americanas, fiel ao acto fundacional da respectiva res publica, sempre constituiu uma espécie de refúgio para todos os que, peregrinando pelas origens, conservam fidelidade ao princípio da continuidade histórica das instituições políticas, tendo até transformado a independência norte-americana naquela revolução evitada que permitiu o transporte do consensualismo anti-absolutista, tardo-medieval e renascentista, para os nossos dias.
Ao contrário de alguns dos mitos de certa concepção cientificista da modernidade, Voegelin propõe, tanto para o direito como para a politologia, um modelo neoclássico de ciência de princípios, isto é, o regresso à autêntica perspectiva teórica que nunca significou uma separação da praxis. Primeiro, porque não é possível que se atinja o nível da teoria sem que se parta de uma base empírica. Segundo, porque não há teoria sem experiência.
Tanto a base empírica como o modelo de experiência nada têm a ver com os postulados das regras do método da chamada modernidade, pós-cartesiana e positivista, correntes que, transformando aquilo que sempre deveria ser entendido como caminho (a noção etimológica de método) num fim, usurparam a perspectiva da razão, recobrindo, com os nomes de racionalismo e de cientismo, uma ideologia que nunca coincidiu com os autênticos conceitos de razão e de ciência. Isto é, inverteram a natureza das coisas, esquecendo-se dos fins pela absolutização dos meios e não lembrando que a verdadeira ciência sempre foi entendida como o consenso daqueles que pensam de forma racional e justa no sentido da superação da opinião pelo conhecimento.
Acontece que, segundo Voegelin, a verdadeira teoria, como explicação de certas experiências, só é inteligível para aqueles que, tendo atingido a maturidade ( spoudaios de Aristóteles), conseguem reproduzir imaginativamente as experiências que a teoria procura apreender, isto é, para aqueles onde se despertem experiências paralelas como base empírica que sirva para testar a base da teoria. Porque a razão, enquanto logos, não se reduz ao intelectualismo e ao voluntarismo, exigindo também imaginação. Porque o verdadeiro homem de razão, aquele que procura a recta ratio, não pode excluir o animal simbólico, essa zona fundacional do homem onde têm de harmonizar-se todas as potências da alma, da razão e da vontade à própria imaginação.
A modernidade transformou a teoria numa escrava do método, levando a que os meios passassem a ser superiores aos fins e gerando aquelas rupturas epistemológicas que conduziram aos extremos do materialismo e do idealismo, perspectivados como contrários. Como se a natureza das coisas em sentido clássico não exigisse uma espécie de transcendente situado, dado que no imanente está o transcendente, porque só por dentro das coisas é que as coisas realmente são. Esse desespero gnoseológico, que transformou a dialéctica numa luta de contrários, esquecendo a possibilidade de uma dialéctica de distintos, passível de circularidade e de harmonia. Esse exacerbado absolutismo que provocou o dualismo do bem e do mal, cada qual situado em lugares conflituantes, como se as coisas más não tivessem muitos pedaços de bem e as coisas boas, fragmentos de mal.
Marcado por outra postura, considera que as ideias não têm história, quase coincidindo com a perspectiva de Arnold Toynbee, para quem existiria uma contemporaneidade filosófica de todas as civilizações. Neste sentido, a sua aposta num regresso às origens platónicas, aristotélicas e tomistas do pensamento ocidental, nada tem de retroacção reaccionária contra a modernidade, significando, pelo contrário, um seguir em frente, de acordo com o sentido regenerador daquilo que Fernando Pessoa (1888-1935) metaforizou como o ter saudades de futuro. Nem sequer pode confundir-se com a recente moda da pós-modernidade onde alguns adeptos tardios do mesmo dogmatismo cientificista se mostram arrependidos sem, no entanto, recusarem o essencial da metodologia anterior.
Assim Voegelin defende que a racionalidade plena dos meios depende da racionalidade do fim, exigindo que a ciência do direito se integrasse numa ciência do bem maior, isto é, da felicidade. É que a modernidade, tal como explodiu nos contemporâneos séculos XIX e XX, mais não foi do que um secularismo, que ousou fechar a alma ao transcendente e desintegrar a própria filosofia, gerando-se o mito desenvolvimentista de progresso, filho das ideias de processo histórico, que negou a possibilidade de crescermos para cima e para dentro, como propunha Teilhard de Chardin. Uma ruptura que teria sido produzida quando o homem, ao decepar-se do Mundo e, consequentemente, de Deus, encheu de sombras e de vazio a sua interioridade, impedindo que ele acedesse à teoria, de acordo com aquele ensimesmamento de que falava Ortega y Gasset, e que não vivesse a experiência imaginativamente, esse camoniano vale mais experimentá-lo que julgá-lo, mas situado numa Ilha dos Amores, onde também se admite o julgue-o quem não puder experimentá-lo. Quando o homem deixou de entender o Mundo como sistema aberto a um transcendente, onde tanto pode estar Deus como o logos.
Importaria que a alma se abrisse ao transcendente que tanto pode ser o nous e o agathon de Aristóteles e Platão, respectivamente, como o tal logos dos estóicos e dos cristãos. De qualquer maneira, o direito e a sociedade reflectem as concepções do mundo e da vida dominantes. Em civilizações cosmológicas, a ordem aparece como um microcosmos, enquanto em civilizações antropológicas nos surge como um homem em ponto grande, um macro-anthropos. A ruptura deu-se quando, na sociedade ocidental, deixou de existir um equilíbrio entre a razão e a revelação, como fontes autorizadas de ordem, situação provocada pelo ambiente cultural anti-religioso e anti-filosófico. Uma ruptura que atingiu o seu clímax nos totalitarismos contemporâneos, por causa da ascensão de movimentos doutrinais gnósticos que tentaram a ordenação da sociedade pela fusão da autoridade normativa com a autoridade poder.
É nesta zona que Voegelin faz entrar o problema do direito, enquanto ordem normativa, do direito entendido como aquela representação da realidade que faz exigências à própria realidade. Essa ordem normativa, irmã das ordens normativas da religião, da política e da moral, e até da própria economia, quando esta procura a espontaneidade do kosmos, como notou Hayek. Essa ordem normativa que expressa tanto a tensão entre a ordem empírica, isto é, a ordem social existente, e uma outra ordem superior, a ordem substantiva, a ordem do ser ou a ordem verdadeira, para utilizarmos a terminologia voegeliniana.
E aqui, o nosso autor, retomando algo da Idade de Ouro de Platão, apela à ideia regulativa de uma espécie de ordem primordial, marcada pela harmonia entre o homem, o Mundo e Deus, um alfa que sempre continuaria a ser um ómega, esse tal mais além, de onde se vem, para onde se vai, e que nunca correspondeu a um facto histórico, a algo que se teria verificado no tempo e no espaço, como o defenderam certas teorias do contrato social.
Nessa ordem verdadeira, do antes e do depois, residiriam as verdadeiras regras, o objecto perfeito, a lex animata, o direito vivo, insusceptível de ser criado ex novo, ou ex nihilo, mas apenas passível de descoberta. Essa ordem verdadeira, equivalente à physis dos gregos, antes da ruptura dos sofistas, esse estado regulativo de um nomos basileus, próximo daqueles mores maiorum dos romanos, a que só os prudentes podiam aceder, tirando o véu, desvelando ou interpretando.
Nesta argumentação, retoma o sentido platónico e aristotélico da natureza das coisas. Assim, a ordem verdadeira de Voegelin é quase o mesmo que a politeia de Platão, a polis melhor ou a ordem perfeita, pouco diferindo da boa sociedade de Aristóteles ou do bem comum de São Tomás de Aquino. A verdadeira ordem é o melhor regime da polis, a ordem perfeita, a ordem justa, estando tão próxima da grande sociedade de Adam Smith quanto das regras de conduta justa de Hayek.
Voegelin assinala que o direito é parcela de um todo bem mais complexo e insiste na hierarquia: ordenamento jurídico, ordem da sociedade, ordem verdadeira. Não deixa mesmo de estabelecer hierarquias dentro de cada uma dessas ordens, salientando que a ordem empírica do direito tem como nível superior a ordem substantiva da sociedade. Assinala até que existe uma tensão entre a ordem substantiva da sociedade, tal como existe empiricamente, ou simples ordem empírica, e a verdadeira ordem substantiva.
Na Renascença, com a emergência do conceito bodiniano de soberania, ainda entendida como mera soberania externa, surge um príncipe que se assume como representante da comunidade política, em luta contra o papado e o império. Contudo, esta soberania ainda não é absolutista, nomeadamente no plano interno, dado que o soberano para efeitos inter-estaduais tem um campo de actuação delimitado: os soberanos têm de garantir uma substância de ordem que não é obra deles. Com efeito, a soberania ainda não é a competência da sua competência, ainda não necessita de auto-limitação e as leis do príncipe estão num plano hierarquicamente inferior aos estratos cimeiros do direito divino e do direito natural, bem como das próprias leis fundamentais. As leis editadas por tal soberano são superiores ao costume e às decisões dos magistrados.
Só a partir de Thomas Hobbes e do absolutismo surge a soberania interna, uma verdadeira soberania absoluta que se aplica a nível interno, unidimensionalizando as comunidades pelo rolo compressor da obediência. Surge assim um soberano onde tudo aquilo que ele diz tem valor de lei e que não está submetido a nenhuma ordem superior, nem mesmo à lei que ele próprio edita. E tudo se concebe em nome da segurança interna, a salus populi que ultrapassa o próprio desvario da maquiavélica razão de Estado e passa a conceber que a paz, num mundo de homens lobos dos homens, não passa de uma mecanicista ausência de guerra, gerada pela força das potências e dos Estados em movimento na balance of power..
Finalmente com o chamado secularismo e a desintegração da filosofia, nos séculos XIX e XX, principalmente a partir dos positivismos, é que se afasta da teoria jurídica a questão da ordem substantiva. Surgiria então uma distinção entre a jurisprudência normativa, defensora das regras válidas, e a jurisprudência sociológica, que põe o acento tónico no acto de criação de regras válidas. Se no primeiro campo se enquadra a teoria pura de Stammler e Kelsen, com a identificação entre o direito e o Estado, para afastar o direito da sociologia e da ideologia, já no segundo campo se inserem as várias tentativas de uma sociologia do direito e das subsequentes escolas sociologistas. E como observa Voegelin, em nenhum destes processos mentais há preocupação com a procura da ordem verdadeira, pelo que a natureza do direito como a ordem substantiva da sociedade não se tornará objecto de análise.
Tartarugas, RGAs, presidentes e presidenciais, nesta aliança do sistema com o esquema
Hoje vou glosar o presidente Sampaio que, quanto mais se aproxima da “deadline” do respectivo mandato, mais incendiário se torna, em nostalgia discursiva de RGA para televisão mostrar, antes de aconselhar os estudantes de hoje a não serem como ele foi quando era cenourinha, ou quando anunciava a sua candidatura a Belém, na cidade universitária de Lisboa. Com efeito, também eu seria novamente acusado de radical e libertário se aqui dissesse, como ele, que o sistema universitário estava desregulado e sem racionalidade. Apenas acrescento que o sistema de ensino superior entrou numa espiral implosiva, porque vai rodopiando em torno de eixos endogâmicos que o levaram a uma autoclausura reprodutiva de fantasmas. Espero que desta feita não surjam os habituais ventríloquos inquisitoriais que, em voz baixa, fazem as habituais denunciações de ouvida e fotocópia deste blogue para levram aos grão-mestres que o controlam e não admitem os desobedientes que se recusam a participar nas procissões da engraxadoria salazarenta . Os donos do poder universitário transformaram-se em autarcas de quintarolas que se mostram incapazes de lancetamento dos nódulos de micro-autoritarismo neocorporativo que se mantêm como controladores de carreiras, subsídios, viagens e jantaradas, a quem os oportunistas pedem prefácios de palavras pseudo-reformistas, gastas pelo uso e prostituídas pelo abuso. A universidade caminha para a implosão por causa desta aliança do sistema com o esquema, sendo imune à necessária abertura para cima, às ideias, e para baixo, à sociedade. Porque o sistema assenta num esquema dito de gestão democrática, mas que não permite a eleição pelos pares e pelos que pensam de forma racional e justa, dado que se mistura o decretino hierarquista da ameaça com a clique da pequena classe política de um associativismo oligárquico que manobra os bastidores dos grandes eleitores e das assembleias ditas representativas, transformadas em meras subsecções da permanecente sociedade de Corte, pintada com “slogans” de RGA vanguardista. É por isso que há vivendas que se transformam em faculdades da noite para o dia, sem comunidades académicas vivas que as sustentem, dado que em vez de professores, alunos e funcionários em interacção, criámos uma casta de reformadores académicos encartados, avaliólogos e educacionólogos, só porque décadas antes deram umas aulas e, depois, se tornaram eméritos, reformados e aposentados em regime de quase psicopatia sentenciadora, com muitos compadres e comadres.
Não deixemos que fora de nós fique um único Deus!
A manhã se vai levantando fria, nítida e azul, com a violência desta luminosidade despontando por entre os sinais da invernia que regressa. Acordo, não apetece largar o calor daquele aconchego que me dá o plural de uma esperança viva. Acordo para mais um dia, para mais uma semana, onde tenho de transformar em aulas o pensamento pensado e preparado. Recordo. A música gregoriana, a mística em memória de Teresa de Lisieux, as palavras do malogrado Padre Daniel Faria e, como fundo, a memória de outras plurisseculares vozes que à Sé vieram à procura do eterno. Sinto a metafísica das colunas de pedra e a abóbada misteriosa, onde sempre se acolheram os homens que procuram o mais além. Recordo. A música, a voz humana em sinfonia, a noite inteira do mundo que temos de peregrinar. Vivo Novembro. A atmosfera límpida e encontro muita outra gente que procura. Confesso. Que decidi participar nesse evento que trouxe um pouco de religião à cidade, não como crente da liturgia oficial e eclesiástica, que o deixei de ser; não como agnóstico, que nunca fui nem serei; mas como alguém que, sobre estas matérias, só sabe que nada sabe. Mas que respeita o mistério da procura do eterno, mesmo para aqueles que, como eu, apenas acreditam no humano acreditar. Ficaram dentro de mim as rosas vermelhas de Lisieux, os olhos cristalinos da irmã Teresa e esta pesquisa de metafísica sem homilias, missas, procissões, guerras santas de conversão, sacristias e beatérios. Apenas a viagem da palavra à procura de sentido, desse máximo de razão a que muitos chamam fé. Do que procuro, mas não acho. Saúdo esses organizadores da terapia de choque manifestativa do transcendente que ousaram reocupar uma cidade que também é deles, porque é nossa. A “polis” precisa de reacender os seus lugares de culto, para que fora dela não fique um único Deus (Pessoa dixit), incluindo esse pedaço divino a que milhões de portugueses entregam o seu sentido de vida.
Da minha varanda da Junqueira, ao cair da tarde
Neste dia de São Martinho e de seu Verão, apetece pensar e repensar o que neste blogue tenho escrito. Estes escombros em que vou esboçando uma colecção de pequenas reportagens íntimas com que quero reflectir uma breve peregrinação interior pelas sensações de uma viagem à volta das minhas circunstâncias, onde o sujeito escrevente não é apenas uma simples placa registadora das ocorrências, nem quer transformar-se numa máquina de projectar preconceitos e ideias feitas sobre esse terreno que vai calcorreando. Aliás, sinto que faço parte daqueles grupos que são objecto de uma conspiração de silêncio, só porque não gostam de beber nas fontes das intelectualices que estão na moda. Até porque os cultores da opinião dominante têm toda uma plateia que vai transformando as frustrações em vulgatas e palavras de ordem, nesse pretenso contra-poder que não passa do mais extremado dos situacionismos, filho do iluminismo Pombalista, adorador de positivismo serôdio e saneador dos que não seguem os catecismos da seita ou não bajulam os pretensos grão-mestres do pensamento único. A casta dos intelectuais é, com efeito, uma balança sem fiel, deusa ou espada, onde todos os pesos da pressão apenas pendem para um dos lados, querendo transformar o que resta do Portugal-que-pensa-pensar numa simples colónia cultural da estupidez de uma sub-Europa de exportação para as bolsas terceiromundistas das respectivas periferias. Aliás, o próprio jornalismo de ideias constitui uma das primeiras cabeças do chamado quarto poder, procurando configurar-se como uma nova espécie de catedratismo, desse que, outrora, foi representado pelas universidades. Até se aliou à chamada cultura empresarial, medida pelos padrões da compra, esse parecer a que falta o ser e que acaba por ser medido pelo ter. E todos representam o que de mais vácuo há nessa ponte do tédio que vai do poder para a cultura, constituindo uma forma suave e gaguejante daquilo que têm os Maxwell, os Murdoch e os Berlusconi, esses que, vendendo mistelas de pornografia e análises de política internacional, conseguem marcar o ritmo dos que pensam pensar. Surgiu assim um estranho pensamento em Portugal que nada tem de enraizadamente português, ou de qualquer outra pátria, constituindo a principal via de uma nova forma de colonização cultural e empobrecimento identitário. E não haverá nenhum manifesto anti-Dantas, capaz de proclamar revolta, nem ninguém capaz de dizer que o rei vai nu. Não! Porque o situacionismo nos vai suicidando, através do avivamento daquelas incomensuráveis distâncias que continuam a separar o país político do país real. Isto é, Portugal vai ficando cada vez mais estreito, cada vez mais fechado sobre fantasmas, cada vez mais prisão, sobretudo para quem gostaria de sentir que a liberdade pode rimar com o bom senso.
Direito e blogosfera
DIREITO E BLOGOSFERA
A propósito da minha participação como testemunha no julgamento de António Balbino Caldeira no Tribunal de Alcobaça, notei que vivia uma inédita e pioneira chegada do judicialismo à blogosfera lusitana. Tive de concluir que quem passa por Alcobaça, não passa sem lá voltar e reparei que um blogue é esse fio que liga um indivíduo ao espaço supra-soberano da cidadania universal, onde o imediatismo de um clique participa naquele espaço de etérea mudança que torna este meio de comunicação incompatível com as regras da agulha que cose os processos feitos de acordo com a ciência de que foi mestre José Alberto dos Reis. O blogue pertence sempre ao império do efémero, onde só é novo aquilo que se esqueceu, onde só é moda aquilo que passa de moda e onde, na prática, a teoria é outra.
A blogosfera é um universo íntimo de desabafo, situado, como meio de comunicação inter-pessoal, num círculo pré-político. Um espaço que, saindo do doméstico, não pisa as raias dos controlos da cidadania nacional, não fazendo parte da ciência dos actos do homem como membro do Estado, mas da ciência dos actos do homem como indivíduo. É matéria que só pode ser verdadeiramente regulada pelo consenso daqueles, que praticando blogues, pensam e agem de forma racional e justa. Porque neste espaço de homens livres, não há leis, nem polícias, nem tribunais, nem prisões, onde deveria estar plenamente em vigor o princípio da subsidiariedade, dado que tem a ver com a pluralidade de pertenças cidadânicas, onde uma comunidade de ordem superior, como é o Estado, não tem que interferir na esfera de autonomia de uma comunidade de outra natureza.
Julgo que na lei portuguesa só incidentalmente existe uma ideia de blogosfera, pelo que a analogia com os meios de comunicação social pode levar a pouco adequadas interpretações extensivas, dado que um blogue nem sequer pode equiparar-se a um jornal electrónico. Logo é muito difícil que o teatro do mundo judicial penetre nestes universo. No mundo processual, há uma sobre-vida, com sobre-homens, sobre-factos e sobre-linguagens, pelo que é extremamente complexa a boa intenção de se aproximar o direito da vida e da verdade, bem como as subjectividades analíticas daquilo que deve ser a objectividade da justiça. Logo, sempre poderei dizer, como Fernando Pessoa, que se o Estado está acima do cidadão, também não deixa de ser verdade que o Homem está acima do Estado.
E mais não posso dizer, obrigado que estou obrigado ao chamado segredo de justiça, neste ambiente de triste balbúrdia e de mesurado intervencionismo, em que vamos decaindo, esquecidos que já estamos das eleições autárquicas, neste dia seguinte à greve dos magistrados e de muita memória curta, quando Pedro Santana Lopes regressou ao comentarismo político, depois de estarem lançados os principais dados da corrida presidencial da história recente da nossa democracia.
Nossas mãos, serenamente livres, porque nada devem a quem não o merece, podem continuar a acalentar o prazer da descoberta, acariciar cordas do navio que nos vai levar longe daqui, para o outro lado de um mar que há-de ser.
Homo cavaquistanensis, homo suaresensis ou o regresso ao estudo dos nossos primitivos actuais
Sobre as candidaturas presidenciais que por aí circulam, já muito subliminarmente devo ter comunicado que estou condenado a votar em quem não apoio e que, à partida, sou, pessoalmente, um perdedor. Penso que todos estes bailados de apoiantes, comandantes e honrados, a que se seguem os blogues oficiais, oficiosos e de apoio, são um excelente sismógrafo que detecta as movimentações profundas do ambiente societário que cerca os aparelhos de Estado e que confirma a impotência reformista desta multidão solitária a que condenaram os homens comuns. Apenas sugerimos que se façam adequados registos do nosso processo de “pantouflage” entre as candidaturas presidenciais e as várias fundações que recebem apoios do Estado ou dão apoios a gentes da partidocracia, abrindo um capítulo especial para a avençagem e subsidiocracia dos chamados artistas e homens de letras, incluindo universitários. As listagens das comissões de honra dos três principais candidatos constituem um excelente objecto laboratorial para a demonstração da rigidez castiça das nossas pretensas elites capitaleiras e estato-dependentes. Bastaria uma pequena digressão genealógica, para concluirmos que os efectivos donos do poder dos dias de hoje são filhos dos homónimos do Estado Novo e da Primeira República e netos dos devoristas da monarquia constitucional. Mantendo-se as tradicionais técnicas de co-optação, geridas a partir de um sistema de ensino pouco propenso à efectiva igualdade de oportunidades e à meritocracia, apenas teremos os tradicionais bailados verbais e certa retórica de música celestial, onde não faltarão os tradicionais caça-fascistas, filhos, sobrinhos ou afilhados de ministros do fascismo a procurarem no outro uma diabolização que, afinal, está dentro deles. E quase ninguém repara que este regime já tem o dobro do tempo da Primeira República e está a oito anos de atingir a provecta idade da governação salazarenta . Há momentos de nuvens acumuladas que nos dão a volta por dentro e até nos impedem de brincar à heteronomia. Apesar de tudo, ainda há gente que quando diz não o diz definitivamente e atinge pontos de não regresso. Porque há palavras de esperança que se entretecem de renúncias, longas cartas de princípios que se escrevem, mas não se enviam e rupturas que apenas são continuidade de procuras, mesmo que sejam denúncias face à injustiça que nos cerca.
O candidato político-militar com um luzidio e significativo apoio
Quando cerca de dezena e meia de altos oficiais das nossas forças armadas, ainda há pouco no activo, decidem intervir politicamente, apoiando um dos candidatos presidenciais, temos de concluir que António dos Santos Ramalho Eanes, Abel Cabral Couto, Alípio Tomé Pinto, António Emílio Sacchetti, Aurélio Aleixo Corbal, Aventino Teixeira, Gabriel Espírito Santo, Jorge Manuel Brochado Miranda, José Eduardo Garcia Leandro, Manuel da Costa Brás, Mário Jesus da Silva, Nuno Vieira Matias, Octávio Cerqueira Rocha e Vasco Rocha Vieira estavam fartos daquela independência que era viverem nos quartéis. Mas fazem com que a maioria dos homens comuns os passem a olhar como meros e dignos combatentes político-partidários. Por mim, julgo que assim se afecta a imagem da instituição militar, devido ao exemplo dado pelos seus protagonistas mais recentes.
1.800 corta-unhas, 4.056 pares de meias e a grande causa nacional de luta contra o chico-espertismo, ou a relação da árvore com a floresta
Uma operação alfandegária de combate à contrafacção realizada a nível da UE levou à apreensão de mais de dois milhões de artigos falsificados oriundos da China, anunciou a Comissão Europeia. Com destino a Portugal foram apreendidos 1.800 corta-unhas, 1.965 relógios, 4.056 pares de meias e 312 toalhas, artigos transportados por via marítima. Ministros das Finanças da Zona Euro advertiram o BCE para não subir as taxas de juro, porque um agravamento seria prejudicial para a recuperação económica que se está a prever para a Europa. O Instituto do Consumidor ordenou a retirada do mercado nacional de dois carrinhos de bebé por se verificarem perigosos.
Vale mais ler o Zé Mateus: O que está a acontecer no laboratório francês (e que vai mudar radicalmente a França política e a polìtica francesa) é um aviso solene a todos os estados europeus e põe, de forma definitiva, o problema que há décadas anda a ser escamoteado pelo relativismo cultural, tanto da esquerda angélica como da direita cínica, da compatibilidade de culturas quando uma é aberta e outra irredutível. Há um relativismo cultural do século XX que agoniza estas noites nos subúrbios de Paris…
O Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu hoje a necessidade de fazer do ordenamento «correcto e sustentável» do país uma «grande causa nacional», combatendo, em simultâneo, o «chico-espertismo, o oportunismo e o lucro fácil». A Europa precisa de paz entre cristãos e muçulmanos para ser uma sociedade viável, declarou hoje, em Brasília, o Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres. “Se não existirem políticas activas extremamente eficazes e sem um grande envolvimento da sociedade, é fácil surgirem situações de desenraizamento, em que a pessoa não se sente ligada a nenhuma identidade, nem à sua comunidade de origem, nem à sua nova pátria”, sublinhou Guterres, alertando para o “complexo problema relacionado com a integração da segunda geração de imigrantes” que se vive na Europa.
Entradas de leão e más saídas nas arruaças
Leio que o Ministério Público (MP) abriu um inquérito a um conjunto de operações imobiliárias levadas a cabo por empresas do universo BCP em 2003, e que resultaram num reembolso de IVA à Pensões Gere no valor de 42 milhões de euros. O processo está a ser conduzido por Rosário Teixeira, o mesmo Procurador que dirige a mega-investigação do MP a suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais e que levou à realização de rusgas a quatro instituições financeiras, soube o Diário Económico. Noto que o espaço de revolta já não afecta apenas a comuna de Paris, para onde não se deslocou imediatamente o candidato presidencial Francisco Anacleto Louçã, com as suas tropas do “SOS racismo”, mas todo o espaço de influência directa do centro do pretenso super-Estado europeu, onde é marcante a crise da segurança, enquanto nas periferias lusitanas do mesmo apenas nos chegou a crise da lei e a crise do imposto, dado que os bailados da pré-campanha presidencial só produzem entrevistas de Constança da Cunha e Sá à politiqueirice dos candidatos.
É por isso que prefiro regressar ao ritmo da tertúlia blogueira, onde ainda não emergiu o espírito bissectriz de D. José Policarpo, dizendo que tanto têm razão Zezinha Avilez Nogueira Pinto como Zé Barata Moura, o da “Joana come a papa” e da edição crítica de “Das Kapital” de Karl Marx que foi editada pela Editora Progresso da URSS, mesmo em cima do ano 1989. Por cá, apenas vamos assistindo à arruada de Soares na calçada de Coimbra e à má sina de Cavaco, por ser apoiado pelos banqueiros, nessa manobra que tenta obrigar o Zé, mas Povinho, a ter que escolher entre o Mário e o Aníbal. E a tudo vamos assistindo, mais impávidos do que serenos, até porque o simbólico apelo do poeta Manel ao patriótico, se tem autenticidade, na bota do estilo e do som épico, pode não corresponder à perdigota dos honrados apoiantes, também eles estrelas cadentes de um situacionismo quase intelectuário, dado os Eduardo Prado Coelho pouca diferença fazem dos Rui Alarcão e dos Mário Júlio das gravatas Almeida Costa.
A Sarkosy não chega a retórica da ordem republicana que perdeu a ética, como se nota nas fogueiras que tanto afectam os carros de boa marca que não têm garagem privativa, como os camiões dos patos bravos lusitanos que começaram como simples “maçons”, casados com a “concièrge” da “mala de cartão”, mas que já estão saudosos dos festivais de acordeão de Vila Verde. Esta Europa da locomotiva dos Chirac e Schroeder, todos com cara de plástico, está definitivamente de pantanas, porque se perdeu num pantanoso jogo de hierarquia de potências e saltos em frente constitucionais.
Voltando às nossas presidenciais, apenas tenho de notar que não anda por aí nenhuma candidatura semelhante à de Norton de Matos, representando a grande unidade reviralhista contra o reino cadaveroso salazarento. Os tempos que passam são cada vez mais parecidos ao crepúsculo da monarquia liberal, onde algumas das principais alternativas que nos são oferecidas apenas pretendem salvar os dominantes partidos sistémicos e a rotina do rotativismo. E eu bem gostaria que o velho leão que é Soares não se vestisse de Zé Luciano, armado em velha raposa dos progressistas e que tio Aníbal não fosse ao armário da naftalina tirar o manequim tecnocrático de António Maria, com muito macadame, fontanários e princípios de subsidiocracia, confundindo a eurofinança e a geofinança com os amanhãs que cantam. Apenas tenho saudades do velho Norton a elogiar postumamente o seu adversário Paiva Couceiro, tão anti-salazaristas e tão liberais que até se uniram no sonho patriótico da resistência contra o falso patriotismo das traduções em calão do Estado Novo que logo os condenou ao exílio.
Há por aí muitos vestígios de um devorismo possidente que, depois de se delamber com os restos de lentilhas da pós-revolução, ainda tem esperança num revanchismo de bordão que venha alcandorar algumas vaidades à comenda da gestão das cunhas e do tráfego de influências, com muitos colarinhos brancos e evasões fiscais. E não me parece que cheguem as ternurentas jantaradas da velha guarda coimbrã e algumas entradas de leão com más saídas nas sondagens. É preciso dar voz ao povo, sem ser apenas nas arruadas e nos discursos de mistura, como o que segue, entrameando o paleio dos três mais:
O meu compromisso com os Portugueses, no caso de merecer o seu apoio e ser eleito Presidente da República, emana da minha visão de futuro e das minhas ambições para Portugal. Candidato-me a Presidente da República por considerar que Portugal atravessa uma crise complexa e prolongada e por ter a consciência de que posso – tenho o dever – de dar um sério contributo para ajudar a ultrapassá-la. Candidato-me por um Portugal de todos. Não apenas dos donos dos aparelhos, sejam eles económicos, mediáticos ou políticos. Não há donos do voto nem da consciência dos homens e das mulheres livres de Portugal. Candidato-me por um Portugal que se diga no plural, uma Pátria que sois vós, uma Pátria que somos nós, um Portugal de todos.