Dez 10

Para reaportuguesarmos Portugal, através da importação de novos estrangeirados

Quase madrugada de sábado, nesta cidade do sertão que o sonho de Juscelino edificou aqui num hotel da Asa Norte, apenas para não lamentar a circunstância de estar sem notícias sobre a campanha das nossas presidenciais. Ontem houve uma boa notícia para alguns portugueses que se interessam por matérias de ciências sociais e humanas: a jovem portuguesa Raquel Patrício tornou-se na primeira doutorada pela Universidade de Brasília em Relações Internacionais, de acordo com o programa lançado há quatro anos.

 

A banca presidida pelo Professor Amado Cervo, contou com a presença dos professores Estêvão Martins, Norma Breda Santos e Vizantim. Fui o arguente estrangeiro convidado e tivemos a honra de ter, entre a assistência outro aluno e docente convidado do ISCSP, o Embaixador Francisco Seixas da Costa. O espírito desse grande português e brasileiro que participou na fundação da Universidade de Brasília, chamado Agostinho da Silva esteve sempre presente. Julgo que todos fomos portugueses à solta e que importa fomentar esta importação de estrangeirados vindos do Sul da lusofonia, porque talvez assim se possa cumprir o objectivo estratégico de reaportuguesarmos Portugal…

Dez 09

Aqui estou, do lado de baixo do Equador

Aqui estou, do lado de baixo do Equador, onde a estrela do Norte é o cruzeiro do Sul, neste Novo Mundo feito com homens de sempre que para cá vieram à procura de um lugar que lhes desse o paraíso. Um novo mundo feito dos sonhos por cumprir nessa velha Europa e que a maioria dos que vieram fizem ponto de não regresso, sem esses caixões de remessa de que são feitas as malhas que os impérios tecem. Porque o novo Portugal se chamou, durante séculos, terra do pau brasil, onde Pêro Vaz de Caminha vislumbrou o bom selvagem e de que muitos fizeram porto seguro. Este exílio procurado que, felizmente, se reproduziu em nova pátria, em novo caminho para uma super-nação futura. E entre quem sou e quem amo, somos. Na limpidez de um tempo enraizado, onde antes de o sermos já o éramos. Âncoras antigas com muitas memórias de naufrágios. Um afecto quase desejado pela razão. Onde as muitas feridas que nos marcaram têm assentado como aço sobre os destroços de um passado de quem também somos. Porque agora apetece sorver o sublime deste presente, onde o sentido íntimo do futuro até nos dispensa de falar do futuro. E é nesse terreno de fronteira que há-de continuar a florescer a serena esperança. Esse aqui e agora de um transcendente situado que, em nome do além, possa subverter a realidade, com mãos, palavras e confiança. A espera que tem porquê sempre foi um poder-ser que é.

Dez 09

Entre quem sou e quem amo, somos

Aqui estou, do lado de baixo do Equador, onde a estrela do Norte é o cruzeiro do Sul, neste Novo Mundo feito com homens de sempre que para cá vieram à procura de um lugar que lhes desse o paraíso. Um novo mundo feito dos sonhos por cumprir nessa velha Europa e que a maioria dos que vieram fizem ponto de não regresso, sem esses caixões de remessa de que são feitas as malhas que os impérios tecem. Porque o novo Portugal se chamou, durante séculos, terra do pau brasil, onde Pêro Vaz de Caminha vislumbrou o bom selvagem e de que muitos fizeram porto seguro. Este exílio procurado que, felizmente, se reproduziu em nova pátria, em novo caminho para uma super-nação futura.

 

E entre quem sou e quem amo, somos. Na limpidez de um tempo enraizado, onde antes de o sermos já o éramos. Âncoras antigas com muitas memórias de naufrágios. Um afecto quase desejado pela razão. Onde as muitas feridas que nos marcaram têm assentado como aço sobre os destroços de um passado de quem também somos. Porque agora apetece sorver o sublime deste presente, onde o sentido íntimo do futuro até nos dispensa de falar do futuro. E é nesse terreno de fronteira que há-de continuar a florescer a serena esperança. Esse aqui e agora de um transcendente situado que, em nome do além, possa subverter a realidade, com mãos, palavras e confiança. A espera que tem porquê sempre foi um poder-ser que é.

Dez 07

Quanto mais ao povo a alma falta, mais a minha alma atlântica se exalta

Nas vésperas de partir para a Universidade de Brasília, onde terei a honra de participar num júri de doutoramento (uma “banca”), a que se vai sujeitar uma jovem professora lusitana, minha antiga aluna de licenciatura, talvez a primeira portuguesa a praticar ao vivo este tipo de cooperação activa entre universidadades lusófonas, sonho como poderíamos ter saudades de futuro se largássemos o ritmo dos discursos da diplomacia do croquete e das viagens de turismo universitário, passando a cumprir o legado de Agostinho da Silva.

 

 

 

Amanhã, quando estiver em pleno planalto, longe das polémicas dos presidenciáveis, quando aí voltar a sentir a braveza do português antigo, bandeirante do sonho, retomarei aquele profundo direito á indignação e à revolta, contra os que, provincianamente, transformaram o Velho do Restelo numa estreita lógica de mercearia financeira, candidatando-se a meros bons alunos de imperialismos estranhos à nossa índole, tal como Cristóvão de Moura e Miguel de Vasconcelos.

 

 

 

Como sempre, levo comigo os textos de Gilberto Freyre, agora actualizados pelo meu amigo Vamireh Chacon, em “A Grande Ibéria”, recentemente publicado. Apenas repetirei Fernando Pessoa: quanto mais ao povo a alma falta, mais minha alma atlântica se exalta. E às vezes apetece compreender como ser português universal é o mesmo do que ser brasileiro, esse português à solta, como lhe chamava Manuel Bandeira.

Dez 06

Esta hipocrisia que nos invadiu por dentro…

Todos os regimes portugueses, quando começam a envelhecer e a apodrecer por dentro, tratam de manter, muito orgulhosamente sós, certos lugares de reservado direito de admissão no primeiro banco de um qualquer cerimonial com transmissão no telejornal, conforme as definições constantes do livro de estilo de um qualquer curso de formação acelerada, destinado ao aperfeiçoamento oligárquico dos funcionários das relações públicas e do protocolo do estadão. Por isso é que por aí abunda inúmera literatura de justificação que procura perpetuar o hierarquismo balofo do “jet set”. Ao mesmo tempo, a gente graudamente engordada pelos aparelhos do sistema, bem instalada na garupa do cavalo do poder, vai alimentando uma ficção quase telenovelesca sobre as mudanças de regime, onde até não falta a própria visão aristocretina de certo elitismo de gente “bem” de extrema-esquerda que, continuando a circular pelas capitaleiras alfurjas do “radical-chic”, não deixa de procurar implantação entre os miméticos capitaleiros portuenses, mesmo quando recorre ao exótico de uma qualquer pronúncia do Norte, ou ao sotaque lentícola de um qualquer profe coimbrês. Poucos têm a coragem de denunciar esta hipocrisia instalada que nos invadiu por dentro, muito especialmente as habituais posturas da arrogância intelectualóide, como se o país que pensa tivesse todo ele que usar as palas que costumavam marcar a pose dos que na minha terra se assumiam como os senhores doutores, os tais asininos carregados de livros que por aí escoiceiam. Como se a direita fossem os filhos-famílais da gente fidalgota que costuma dar muitas voltas pela estranja à procura de um qualquer canudo que os superiorize aos plebeus que se ficam pelas pobres escolas públicas lusitanas. Por isso é que hoje gazetei a um desses cerimoniais do estadão, onde costumam espanejar o veludo vistoso das honrarias os muitos manequins da praça, trocando a conversa da diplomacia do croquete com essas majestades que, de vez em quando, descem de suas alturas para trocar dois dedos de conversa com as notabilidades das nossas cortes institucionais, que se se costumam distanciar da planície unidimensional onde continua a diluir-se o Zé Povinho, dos bate-palmas e desempregados.

Dez 06

Tecnocracia, subsidiocracia, empregomania, futebolítica, bufaria e teatrocracia. Viva o pão e o circo!

Fui à SIC-Notícias fazer uma leitura dos jornais do dia, neste peso diário de hiperinformação que é emitida em Portugal, onde publicamos. quotidianamente, quase mais do que os caracteres das obras completas de Fernando Pessoa. Aliás, se um extra-terrestre aqui aterrasse repararia que continuamos a viver num Estado-Espectáculo onde o circo domina o pão e onde a política continua a ser usurpada pela tecnocracia, pela subsidiocracia, pela empregomania, pela futebolítica, pela bufaria e pela sondajocracia teatrocrática. Comecei por salientar a nova referente à abolição dos exames de português e de filosofia, como disciplinas obrigatórias, no 12º ano, o que reflecte a terceiro-mundialização crescente de quem nos quer trasformar em tradutores em calão do “software” alheio, renunciando à autonomia cultural dos produtores de ideias, dado que os responsáveis educativos parecem preferir o “saber-fazer” da tecnologia à sabedoria, num programa que, conforme a moda avalióloga, pretende transformar as universidades em meras escolas politécnicas e onde as ciências humanas são uma espécie de flor na lapela intelectualóide, para uso dos ajudantes das grandes potências que culturalmente nos colonizam de certas más empresas e empresários lusitanos que ameçaam serem eles a definir quais são as boas universidades. E o país-matriz da quinta língua do mundo que também é o principal veículo comunicacional do hemisfério sul, parece contente em ser provinciano, na sequência do processo de extinção das velhas Faculdades de Letras… Não reparámos como, ao termo-nos submetido à PAC conveniente para o eixo franco-alemão, aceitámos liquidar a nossa agricultura, porque a entendemos como mera actividade económica, quando ela devia ser assumida como questão global de memória pátria, de povoamento e de luta contra a desertificação do país interior. A quarta leitura que fiz tem a ver com a futebolítica e com a existência de tantos jornais diários sobre a matéria e que constituem um espelho do país. Uma consequência do tal espectáculo circense que também passa pelas telenovelas e pelos “reality shows”. Ainda há dias, verificava que o Marítimo, amplamente subsidiado pelo Estado para crescimento do desporto nacional, apresentou-se com dez em onze jogadores estrangeiros, no chamado campeonato nacional. A quinta leitura preparada acabou por não ser comunicada, visando a transcrição das escutas do processo da Casa Pia, que teve como veículo um diário dito sensacionalista. Assim se confirma como a bufaria inquisitorial e pidesca continua em forma. Porque, como se dizia numa dessas escutas, “quem manda é o verdadeiro poder”. Mal acabou o debate, um velho jornalista meu amigo telefonou-me e disse que se eu continuasse a dizer destas coisas, nunca mais me convidiriam. Por mim, prefiro que a voz me doa.

Dez 06

Sobre a alegre cavaqueira…

Pediram-me, do semanário “O Independente”, que analisasse o primeiro confronto das presidenciais:

 

Pontos negativos comuns:

 

Não parecia um debate, mas uma dupla entrevista, uma espécie de jogo de amizade entre as velhas glórias do Águeda e do Boliqueime. Uma conversa morna, chata, comprida e muito repetitiva de “slogans” e anteriores propostas dos candidatos.

 

Nenhum deles denunciou o afastamento de candidatos fora do sistema aceitando as regras do jogo do critério jornalístico dos donos do poder comunicacional

 

Pontos negativos de Cavaco:

 

Abusou nas meias palavras e mostrou uma profunda tristeza, sem ter esboçado um único sorriso, apesar de ter dito algumas vezes que cometeu erros no passado

 

 

Cedência ao economês da linguagem e com o consequente hermetismo que, contudo não o impediu de entrar em contradição, ao alinhar na crítica ao europeísmo acrítico

 

 

Pontos negativos de Alegre:

 

Manifestou uma certa demagogia esquerdista em matéria de política internacional, sendo vago na questão da guerra do Iraque e na denúncia do fantasma neoliberal da construção europeia e da globalização

 

Não conseguiu denunciar os erros económicos e financeiros do discurso de Cavaco e da memória do respectivo governo

 

 

 

Pontos positivos comuns:

 

Os candidatos foram coerentes face aos respectivos manifestos, assumindo ideias sólidas, e conseguiram cumprir o que previamente ensaiaram para comunicarem ao povo, conseguindo o respeito e a elevação democráticas e proclamando a independência nacional face a certos exageros de certo europeísmo vindo de fora

 

 

Pontos positivos de Cavaco:

 

Recuperou a memória boa do desenvolvimentismo da respectiva era governativa, aquilo que qualificou como “o meu tempo”, mas conseguindo fugir ao exagero justificador

 

Fugiu das acusações de intervencionismo, anunciando-se como força de desbloqueio que chamará os partidos da oposição e apoiando os governos, dando o exemplo da decisão sobre a Ota, no caso de Sócrates

 

 

 

Pontos positivos de Alegre:

 

Lucidez na crítica, fluidez sem agressividade, mas com desenvoltura combativa e frases lapidares

 

Defesa de uma ideia de pensamento nacional como pensamento estratégico, em nome da tríade “pátria, liberdade e democracia”, contra o seguidismo acrítico face à chamada constituição europeia em que Cavaco se empenhou

Dez 05

Foram dias plenos de frio e de sonho…

Foram dias de semi-chuva e semi-vento, com o mar verde e cinzento, velas ao largo e ondas plenas de espuma. Foram dias plenos de frio e de sonho, com paragem naquela cidade que me deu cidade, o meu Porto da infância, hoje cheio de lixo e de luxo, mas com os mesmos lajedos de granito, de quem desce da Sé para a Ribeira, onde há memórias de muitas cheias, nesse cantinho do Aniki-Bóbó, diante de janelas de guilhotina e varandas com roupa a secar, nessa viagem do Infante para a Cantareira, onde me lembro sempre dos textos de Raul Brandão. O Porto-cidade que me deu cidade, quando havia o Jaburu, no futebol, e o Alves Barbosa, na Volta a Portugal. E de tão intensas peregrinações pelas raízes de quem fui e ainda sou, reforçou-se o calor de quem sonho ser, até porque fui capaz de vencer o cinzento das nuvens e nem sequer reparei na cultura funerária que enredou os factos políticos destes dias, onde não emiti postais. Reparei que, neste tempo de gaivotas em terra, tanto os actores políticos mais mediáticos como os próprios fazedores de opinião quase silenciaram o 1º de Dezembro, preferindo ter breve depoimento sobre os 25 anos do caso Camarate, mas sem o compararem com a morte de D. João VI em 1826, o ponto de partida para os magnicídios do Portugal Contemporâneo, com o regicídio de 1908, o assassinato de Sidónio em 1918, a Noite Sangrenta de 1921 o assassinato de Delgado em 1965 e o desparecimento de Sá Carneiro e Amaro da Costa em 1980. Porque em todos estes magnicídios o crime acabou por compensar e a investigação política e judiciária a não resultar. Nesta série de magnicídios, os “serial killers” tornaram-se sempre “questões ideológicas”, embrulhadas pela teoria da conspiração dos ditos “brandos costumes”. Em 1826, dividem-se as hostes sobre o envenenamento, só provado quase século e meio depois, entre os adeptos do cozinheiro absolutista e os denunciadores do médico liberal, enquanto noutros casos, se sabemos quem carregou no gatilho, continuamos sem saber quem deu ordem para matar, pelo que acabamos todos feitos buiças ou buissidentes, para candidatos presidenciais ou membros primeiros das comissões de honra fazerem discursos de literatura de justificação. Prefiro nem sequer imaginar o que seria de nós se voltasse a acontecer 1383 ou 1580, dada a nossa impossibilidade de organização da resistência. Porque se a invasão se avizinhasse, teríamos de esperar mais sessenta anos para que frutificassem as sementes lançadas por D. João de Castro e pelo Manuelinho de Évora, ao contrário do que aconteceu com o cerco de Lisboa, o quadrado de Aljubarrota ou as Cortes de Coimbra. Porque não há nenhum Álvaro Pais entre os banqueiros e cavalheiros da indústria, porque D. Nuno não tem nenhum general que lhe assemelhe, e porque o Professor Canotilho de Miranda não se assemelha a João das Regras. Também não há um qualquer João, Mestre de Aviz, que pudesse ser fabricado rei pelo interesse nacional. Agora, outras são as circunstâncias e, apesar de sermos os mesmos homens e mulheres, lavaram-nos as boas memórias que nos davam autonomia.

Dez 05

Acorda, Manuelinho! Viva Febo Moniz e el-rei D. António

Dizia, no meu último postal, que houve um silenciamento da maior parte dos fazedores de opinião sobre o 1º de Dezembro. Justiça seja feita ao meu antigo professor, Vital Moreira, que, ousando repor a verdade e a justiça da história, considera que nas paredes da grandiosa “sala dos capelos” da Universidade de Coimbra estão patentes os retratos de todos os reis de Portugal. Todos, não! Falam os Filipes (o lapsus calami é mera coincidência, porque a intenção do autor não foi falar pelos Filipes, mas antes dizer faltam os Filipes).

 

 

 

Esperamos ansiosos pelo repto lançado ao reitor da Universidade de Coimbra. Propomos também que nessa eventual cerimónia, para que, certamente, deve ser convidado o rei de Espanha, seja lido o poema de Manuel Alegre, “Carta ao Manuelinho de Évora”, bem como revogada a decisão pombalina de banimento dos juristas da Restauração, os quais explicariam o sic rebus, sic stantibus, segundo os mais vigorosos princípios do direito público, então vigentes. Não duvido do patriotismo do meu antigo professor, mas estranho que tenha assim abandonado as teorias da legalidade revolucionária, aplicável tanto às autodeterminações nacionais como ao internacionalismo, talvez por desconhecer o trabalho de Mário Soares sobre a matéria e que, por nós, continuamos a subscrever.

 

 

 

Por mim, prefiro que desperte o Manuelinho de Évora, contra os ministros do reino por vontade estranha. E que se entenda o Portugal Restaurado de 1640 como um momento de reinvenção nacional, respeitando os que deram a vida durante vinte e oito anos em nome do sonho de um Portugal moderno que se conseguiu impor no contexto da Europa de Vestefália e legando ao mundo o Brasil, como me ensinava Agostinho da Silva. Não votaria a favor de Filipe nas Cortes de Tomar e não seguiria os conselhos de Frei Bartolomeu dos Mártires e de Frei Luís de Sousa. Preferiria sempre morrer tentando, como D. António Prior do Crato. Sou do partido de Febo Moniz e do Padre António Vieira. As hostes de Mateus Álvares não se renderam em São Julião da Ericeira. Vamos voltar a eleger D. Sebastião!

Nov 30

Cruzes, canhotos!

Andam aflitas as nossas almas agnósticas, com que muitos confundem a laicidade da república, face às reacções de certos militantes católicos quanto à nebulosa proibição de crucifixos nas escolas, executada por certos burocratas do ministério educativo, numa dessas tradicionais manifestações de intolerância levada a cabo por espíritos de geométrica tradução em calão do jacobinismo.

 

 

 

Eu que não sou filho dilecto do povo católico, que a si mesmo se define como povo de Deus, julgo que a exibição numa escola pública desse símbolo religioso faz parte de um conceito activo do princípio da liberdade religiosa e está plenamente de acordo com os princípios fundamentais da tolerância. Neste sentido, não subscrevo as declarações da deputada do Bloco de Esquerda (BE), Ana Drago, no programa da SIC Notícias, moderado por Mário Crespo, onde a deputada referiu que, “se numa escola do interior estivesse pendurado um enchido, um chouriço ou qualquer outra coisa ligada à nossa cultura popular ninguém levantava a questão”.

 

 

 

Até poderia dizer que as quinas do nosso símbolo nacional, enquanto representação estilizada da cruz, elevaram a mesma à dignidade de religião secular. A própria Cruz Vermelha não é no âmbito da nossa civilização ocidental um Crescente Vermelho, ou uma Estrela de David da mesma cor, e ainda não vi o grupo da deputada Ana Drago propor a mudança dos símbolos nacionais ou das doze estrelas da Europa, também estas retiradas de um vitral da Virgem da catedral de Estrasburgo. Qualquer dia até teríamos de escavacar os monumentos manuelinos para deles retirarmos a martelo as cruzes de Cristo que levaram o abraço armilar ao mundo inteiro.

 

 

 

Os símbolos plebiscitados plurissecularmente e referendados pelo próprio sangue dos que morreram pela pátria fazem parte daquele sagrado, sem o qual não há sentido de república. Ninguém morre por chouriços, sardinha assada ou bananas. Ai de quem não perceber que só pode crescer para cima se crescer por dentro.