Set 21

O país dos intelectuais

O país dos intelectuais é, com efeito, uma balança sem fiel, deusa ou espada, onde todos os pesos da pressão pendem para um dos lados, querendo transformar o que resta do Portugal-que-pensa-pensar numa simples colónia cultural da estupidez de uma sub-Europa de exportação para as bolsas terceiromundistas das respectivas periferias. Aliás, o próprio jornalismo de ideias vigente constitui uma das primeiras cabeças do chamado quarto poder, procurando configurar-se como uma nova espécie de catedratismo, desse que, outrora, foi representado pelas universidades. Aliou-se, aliás, à chamada cultura empresarial, medida pelos padrões da compra, esse parecer a que falta o ser e que acaba por ser medido pelo ter. Todos representam o que de mais vácuo há nessa ponte do tédio que vai do poder para a cultura, constituindo uma forma suave e gaguejante daquilo que têm os Maxwell, os Murdoch e os Berlusconi, esses que, vendendo mistelas de pornografia e análises de política internacional, conseguem marcar o ritmo dos que pensam pensar. Surgiu assim um estranho pensamento em Portugal que nada tem de enraizadamente português, constituindo a principal via da nossa nova forma de colonização cultural e de empobrecimento identitário. E não haverá nenhum manifesto anti-Dantas, capaz de proclamar revolta, nem ninguém capaz de dizer que o rei vai nu. Não. Porque o situacionismo se vai suicidando, pela criação de incomensuráveis distâncias entre o país político e o país real. Isto é, Portugal vai ficando cada vez mais estreito, cada vez mais fechado sobre fantasmas, cada vez mais prisão, para quem sente a liberdade, para quem apenas tenta encontrar o bom senso. Mesmo aquilo que por outros já foi pensado tem que ser, por nós, repensado, para lhe acrescentarmos a mais valia do actualismo, o estampido de viver. Para lhe darmos a realidade das circunstâncias e o sopro do nosso próprio eu. Sem essa fluidez de vitalismo não há corrente de pensamento e apenas continuaremos a rastejar nesta unidimensionalidade acrítica e não criativa onde nos vamos estupidificando.

Set 20

Contra o Estado Sindical provocador do actual Estado Exígu

Com tão luzida e significativa presença, o País está seguro de que conta com as suas forças desarmadas O tempo não volta para trás, mas a ingratidão e o esquecimento voltam a marcar passo… Em plena semana da mobilidade das duas rodas, quando nos recordamos de filmes interessantes do neo-realismo do pós-guerra, leio no Sentinela Alerta que o governo proibiu. O governo autorizou. Mas o governo proibiu dentro da autorização que magnanimamente concedeu às três senhoras, como disse o senhor Ministro António Costa, porque há aqueles que podem e os que não podem integrar a manifestação convocada. Não é que não exista o direito à manifestação, mas a coesão e a disciplina no seio das Forças Armadas, estão em perigo, segundo análise dos chefes militares. Ainda não li o parecer do meu amigo catedrático de direito administrativo que sustenta a postura do ministro Luís Amado. E todos se rebelaram contra o Estado Sindical provocador do actual Estado Exíguo, em regime de partilha de soberania, num daqueles momentos de descarada propaganda que antes de o ser já o era. Até peroraram detentores de reformas douradas de públicas fundações privadas que até há pouco acumulavam com subsídios extraordinários consecidos em especiais conselhos de ministros do governo PS, por caso ministros confirmadores de decisões que demitiram colegas catedráticos, porque ousaram verberar atitudes de colegas ministros, só porque estes proibiram estudantes de exercerem o respectivo direito de manifestação, quando não havia direito a manifestações. O filme que esta noite revi. Porque tenho saudades de chuva nestes últimos dias de Verão… Setembo vai voltar a ser feliz!  Recordo que no dia 14 de Março de 1974, segundo palavras de António Mega Ferreira, as altas patentes das Forças Armadas dirigem-se a S. Bento para testemunhar ao Presidente do Conselho a sua lealdade. No salão nobre, dezenas de oficiais apinham-se ao princípio da tarde. A Assembleia interrompe os trabalhos, ao que dizem alguns jornais da época, «curiosa e expectante» perante o movimento de oficiais em S. Bento. Cerca das quatro da tarde, o Presidente do Conselho entra na sala. Conta «O Século» do dia seguinte: «Ambiente de grande expectativa. Breves minutos de silêncio, aguardando o general Paiva Brandão, Chefe do Estado-Maior do Exército, que o prof. Marcello Caetano terminasse de passear a vista pelo quadro geral que se lhe oferecia com tão luzida e significativa presença». Depois, o Presidente do Conselho diria que, com «tão luzida e significativa presença», «o País está seguro de que conta com as Forças Armadas. E em todos os escalões destas não poderão restar dúvidas acerca da atitude dos seus comandos». Porque já não possíveis, tecnicamente falando, golpes de Estado, é possível compreender que continuemos o 7º país mais endividado do mundo, que tenhamos descido lugares no índice do PNUD e que estejamos na cauda da Europa quanto à luta contra a corrupção. Ainda por cima, não conseguimos levar cinco mil cães num passeio a Monsanto, ao contrário do que eu próprio fiz, com trela, saquinho de plástico e boletim de vacinas. A autorizada manifestação que não entrou no Guiness. Fui lá e garanto que não ladraram muito. A tarde estava linda, não havia ensaios da 1ª Companhia e não se vislumbravam candidatos ao Esquadrão G nessa colina de Monsanto. Por tudo isto, sugerimos que continuemos a usufruir das vantagens da semana europeia da mobilidade e que se volte a ver o filme de Vittorio de Sica. Grândola já não é Vila Morena, mas concelho onde se derrubaram as torres da Torralta. O homem vai voltar à Lua em 2018. E os pategos continuarão a olhar o balão.

Set 06

Conforto de seita

É confortável podermos ter acolhimento no seio de um qualquer sistema ideológico capaz de dar sentido ao mundo. Assim foi e continua a ser a vulgata do chamado cristianismo. Assim chegou a ser o marxismo-leninismo até 1989. Assim tentam ser certos neoliberais de importação. Mas o mundo, mesmo o português, de aqui e agora, é demais e muitas zonas da realidade acabam por não se moldar à rigidez do caixilho ideológico com que pretendemos retratar e emoldurar as circunstâncias e os eus. É assim difícil classificar este sub-Bloco Central onde muitos se vão perpetuando em roubalheiras, clientelismos e favoritismos, nesta grande paródia da chamada política à portuguesa, onde é marcante a degenerada feira das vaidades, neste refúgio de interesseirismos onde todos correm para o efémero de um título de semanário de fim de semana, ou com a procura de uma dessas artificiais excitações político-jornalísticas que costumam marcar a chamada “rentrée”. Por mim, não sei bem quem sou e onde estou. Não tenho candidato presidencial, seja Soares, Cavaco, Louçã ou Jerónimo. Apesar de ser monárquico, se hoje houvesse um referendo votava pela república. Continuo a sentir que estou na esquerda da direita, nunca votaria na Zezinha e estou farto dos restos de Partido Popular que por aí ainda gorgulham. Aliás, quando diante de um papel tento olhar dentro de mim, sou palavras de Camões a escrever um Livro do Desassossego, ao ritmo das trovas breves que me transportam para a Praça da Canção. E nestes silêncios da solidão, há sempre a música de Carlos Paredes ou a beleza de um cântico colectivo a movimentar os patuleias que ainda não cederam à Convenção do Gramido e à Quádrupla Aliança, onde nos querem arrebanhar. Gosto de ser um homem livre de mãos livres. Resisto. E sempre que recebo um desses papéis dos impostos, sinto-me desses profundos campónios que, por odiar o Estado, vai logo a uma caixa multibanco para se livrar da coisa e não ter que aturar a papelada que me liga ao monstro. Odeio o aparelho de Estado com todas as forças emotivas da minha alma, mantendo a raiva do velho anarquismo místico e desejando que a nação possa assumir-se comunitariamente sem o recurso aos constitucionalistas e aos aparelhos repressivos desse abstraccionismo piramidal, desse plurissecular despotismo do Leviathan. O problema é que conheço o bicho. Fui licenciado em Direito. Alto burocrata em gabinetes ministeriais e direcções-gerais, sempre classificado como muito bom. Fui professor titulado em direito. Etc. Mas sei cientificamente o que é o poder e pagam-me para o estudar. Por isso me sinto bem longe desse mundo da gestão tecnocrática da coisa pública cá da capital, bem como das excrescências que o mesmo tem produzido com a corrupção autárquica e o caciquismo consequente. Porque são essas alimárias subtecnocráticas que servem de trampolim para o acesso ao poder de perdulários e bandoleiros, para gáudio de patriarcas e padrinhos que vão manejando os cordelinhos do chamado sistema, todos esses maquiavéis de cordel que nos fazem cadáver. Esses donos de tácticas sem estratégia e de discursos sem ideias que conseguem, pela flexibilidade do molusco instrumentalizar a imoralidade neste oportunismo da barganha. E assim nos vamos sucessivamente empobrecendo, sem que passemos a efectiva sociedade aberta, com mais liberdade e mais liberais, em sentido liberdadeiro e tolerante. O que não se consegue com discursos, mas apenas com um efectivo culto de um humanismo activista.

Set 04

Apetece ter tempo para perder o tempo em coisas que sejam eternas

Apetece ter tempo para perder o tempo em coisas que sejam eternas. Revoltar-me contra este estado de coisas a que chegámos, onde todo o tempo que temos é uma rigorosa abolição do ócio e onde os próprios intervalos são justificados pelo negócio. Sobretudo, quando temos que comprar para darmos prendas e quando temos que descansar para justificar o fim de semana. Vale-me que sou pago para pensar, especializado em ciências sociais naquilo a que o decretino chamou ciência política, tenho assim algum título e carimbo para tratar de assuntos gerais. Porque, sendo universitário, isto é, pária, exigem-me que socialmente cultive o ócio, isto é, o preciso contrário do nec+otium. Contudo, talvez trabalhe mais todos os dias, do que a maioria daqueles que se dedicam ao negócio. Na minha profissão não há férias nem fins de semana. Temos que passar da opinião para o conhecimento, da dispersão dos saberes para a sabedoria. Sempre odiei o dinheiro como ideia, esse time is money que se esquece que o tempo só a Deus pertence e não aos horários dos tiquetaques suíços e também não quero ser niponicmanete digitalizado, mesmo que tudo seja made in China. O tempo deve voltar a ser de todos e o ócio a não confundir-se com a paragem do trabalhar.  O tempo pode ser a procura de quem somos, a eterna procura do que não há, mas pode ser. Que nossa dita economia de mercado, aparentando ser teologia de mercado, não passa de falsificação, resultante de um assalto devorista que, vestindo-se de legalidade, se vai esquecendo que não há liberdade sem justiça. Porque a pax mercatoria nunca pode substituir a ânsia de república universal, o desejo de um Estado de Direito universal. As ideias nunca podem ser massificadas, para alimentarem parangonas e vaidades, dado que assim correm o risco de serem instrumentalizadas pela banalidade, pela propaganda comercial e pelo marketing. E continua a faltar-nos uma imaginação politicamente científica, como propunha Gilberto Freyre. Como sentimos o vazio, na política da camaradagem da amizade, da conspiração da reverência; da cumplicidade de uma crença; da comunidade de sonhos. Ora, grande parte dos actuais conflitos universais resultam de erros de cálculo dos assumidos projectistas da globalização, onde os bons polícias do universo são ferreiros que têm em casa espetos de pau e péssimos arquitectos do concerto das nações. Por mim, mantenho a ambição de ser cidadão de uma potência espiritual e por isso continuo a lutar contra os fantasmas dos pequenos interesses da pequena burguesia e o pensar baixinho dos nossos bem pensantes da mediocracia. Porque há culturas em movimento que apenas precisam de alfabetização e de educação tecnológica, desses pequenos nadas que, de um momento para o outro, nos podem dar uma manhã de nevoeiro. Daí notar os vícios que vão dessangrando a nossa alma atlântica, desde a Hobbesiana teoria do homem de sucesso do individualismo pirata, onde tem razão quem vence, ao verniz burguês, cheio de lantejoulas que continua a recobrir a carcaça deste cadáver adiado que se vai reproduzindo em candidatos presidenciais, festas do Avante e guerrilheiros de café do esquerdismo lamúrias, enquanto o crime compensa e os mass media vão prestando menagem aos vencedores que se estabeleceram sobre as ruínas, através da evasão fiscal e de todo esse manancial de golpes dos colarinhos brancos e dos cavalheiros da indústria. Há um intelectual-salsicha à portuguesa que, longe do intelectual orgânico gramsciano, é essa forma arredondada feita de subprodutos de revoluções frustradas, essa falsa cultura feita de muitas fichas roubadas à Wikipedia e aos dicionários de citações. Ele é um pescador das modas que passam de moda que estão sempre na crista da onda, mas, continuando sem uma ideia, continua a mandar e a silenciar, neste reino cadaveroso que descobre sempre os respectivos génios no centenário da sua morte.  Porque aqui e agora mandar continua a ser silenciar, excluir a diferença e estabelecer a unidimensionalidade do rebanho que fica de cócoras perante os fantasmas. E porque continua pujante um smart set possidente que tem a secular arte de manipular a mais valia, numa burguesia devorista que sempre teve a atracção fatal pelos cachorros de estimação que lhe mordem as canelas. Quem somos não assenta naquela mixórdia com que a perspectiva da “touriste” Simone Beauvoir confundiu o salazarismo com Portugal, desconhecendo Pessoa ou as páginas de Miguel de Unamuno sobre este povo de suicidas que sempre foi constitucionalmente pessimista. E, por mim, bem queria que voltasse esta espécie de espanhol que, sendo o nosso outro, nunca é um efectivo estrangeiro quando ama o nosotros da ocidental praia.


Agostinho da Silva, para percebermos a urgência de superarmos a velha retórica dos Estados Unidos da Saudade, dado que os mesmo deixarão de existir se não fizermos investimentos culturais de povo a povo. É por isso que depois de amanhã irei tentar viver a festa do dia da independência do Brasil, mas bem gostaria de poder ter comigo um arquivo que contivesse o discurso do presidente António José de Almeida, em 1922, quando aqui veio comemorar os cem anos do Ipiranga, proclamando vir agradecer ao Brasil o facto de se ter tornado independente. Precisava de o comunicar aqui no meu espaço de diálogo universitário, antes de poder começar minhas pesquisas na biblioteca do Senado, para refazer o espírito de Silvestre Pinheiro Ferreira e de Morais de Carvalho.

 


Set 02

Katrina

Qualquer especialista em coisas políticas e sociais que vá além da mera engenharia de conceitos sabe, daquela ciência certa, sem poder absoluto, a que se chamava sabedoria, que só sabe que nada sabe. Isto é, que todo o mundo é composto de mudança e que o lume da razão tem de ser compensado pelo lume da profecia. Por outras palavras, sem vudu, falso esoterismo ou outras crendices, importa lidar com o imprevisto… Um tal “Katrina” foi o suficiente para que se demonstrasse o irrealismo dos pretensos realistas que não parecem ser capazes de enterrar os mortos nem de cuidar dos vivos. Tal como se demonstrou o total falhanço de todos os engenheiros, especialmente os engenheiros políticos e sociais, dado que o tal furacão acabou por ser mais complexo do que um ataque de terroristas a dois arranha-céus. O que aconteceu na foz do Mississipi podia ter sucedido com um terramoto em Lisboa. Apenas demonstra como o imprevisto pode ser pior do que aquele efeito de simples bater de asas de uma borboleta em Pequim que produziu um ciclone na Amazónia. Deus é grande!

Ago 29

Grandes candidaturas presidenciais

Quando todos e cada um dos portugueses são obrigados a tomar partido nas grandes candidaturas presidenciais que se anunciam, declaro que não alinho nesta estúpida bipolarização que tende a mobilizar a cidadania, não entre o povo de esquerda e o povo de direita, mas de acordo estilos psicológicos, entre os que gostam das bochechas bonacheironas e soarentas e a impertigada pescoceira cavaquense.  Se certa esquerda ainda vai fingir que mexe, com os “radical chic” de uma utopia que não gosta dos gaiteiros da festa da Quinta da Atalaia, muitos há que, oriundos de tais costelas , preferem a racionalidade analítica à persistência quase miguelista dos que não superam a ideia de paraíso terráqueo. Mas pior talvez seja a lógica de terra queimada da chamada não-esquerda, que é coisa que a direita envegonhada costuma chamar a si mesma. Infelizmente quem, como eu, não finge sair da tribo de direita, resta manter-se nesta heterodoxa rebeldia que, sem ser diletante, apenas continua a ser intimamente legitimista, porque continua a ser capaz de perder tudo aquilo que conquistou na cidade, só para ter a ilusão de salvar a própria alma. Por outras palavras, não estarei ao lado de muitos meus amigos e companheiros de luta, no lançamento das candidaturas presidenciais. Prefiro continuar a viver naquela paz que equivale à estóica tentativa de estar de acordo comigo mesmo, ainda fique em decacordo com muitos outros que prezo. Não alinho na aceitação resignada do mal menor. E não serei de direita se se identificar a direita com a procissão cavaquista.

Ago 24

A limpeza coerciva das matas e os dragões de papel do socialês

Portugal pode ser hoje objecto dos comentários jocosos de um célebre jornalista alemão que, muito cruamente, nos caracterizou pelos dez estádios para o Euro 2004, pelos saldos, pelas férias e pelos incêndios, mas não pode esquecer que somos a floresta mais minifundiária do mundo, com cerca de meio milhão de proprietários florestais, onde quem quer que saiba fazer contas pode calcular quantos orçamentos de Estado nos custaria limpar a mata privada. Por isso são curiosos alguns discursos de certo subconsciente do socialismo utópico que bem gostaria de nacionalizar essa mancha oriunda da pesada herança dos nosso proprietarismo liberal, quando entoa discursos típicos dos que podem prometer mas não conseguem cumprir. Assim, o Presidente Sampaio, salientando o facto de actualmente 90 por cento da floresta ser privada, havendo «uma enorme percentagem que não é limpa», defendeu, a título pessoal, que «está a chegar o momento de equacionar» a aplicação do princípio da obra coerciva à limpeza das florestas, «tal como acontece com os prédios nos aglomerados urbanos». Mais acrescentou que, face aos danos que os fogos «projectam na comunidade» nacional, esta é uma questão que «não pode ser compatível com a ausência da capacidade de intervenção junto daqueles que são proprietários e que não cuidam da floresta que têm a seu cargo». Ainda no começo do Inverno passado, o então ministro da Agricultura proclamava que o problema crónico dos incêndios em Portugal tem uma causa bem definida «o abandono sistemático da terra e a consequente acumulação de resíduos nas florestas. O modo ancestral como os portugueses se relacionaram com a terra e a floresta e que permitia uma limpeza e vigilância constantes sobre o território pertence ao passado». Também acrescentava que se não limparmos o que durante trinta anos se sujou, tudo continuará na mesma, «o maior esforço continuará a ser feito apenas no combate e a floresta vai continuar a arder». «Só a partir deste trabalho inicial poderemos pensar em gestão eficiente da floresta, em prevenção efectiva dos incêndios e em valorização económica dum património nacional que é, no meu entender, um factor crítico para o sucesso de Portugal.» Basta fazermos contas: o território português tem 9,2 milhões de hectares dos quais 3,3 milhões são floresta representativos de 3,2 do PIB nacional e responsáveis pelos postos de trabalho de cerca de 3% da população activa. Logo, só poderemos resolver um problema económico com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas. Portanto, saibamos quantos orçamentos de Estado pode custar aquilo que era a necessária limpeza coerciva das matas e entendamo-nos: os proprietários florestais só limparão a coisa quando ela voltar a ser economicamente compensadora e a nossa agricultura deixar de ser uma simples subsidiária de uma PAC feita para certas parcelas da Europa, onde há enxurradas nos meses de Verão. Ninguém consegue fazer economia contra as condições edafoclimáticas, tal como ninguém devia fazer florestação exótica. Os responsáveis por esta ideologia pseudo-desenvolvimentista, consagrada pelo cavaquismo, cometeram um verdadeiro crime de lesa-majestade que não pode ser punido, invocando-se o subconsciente nacionalizador de certos dragões do socialês!…

Ago 23

Nesta casa onde ainda há pão, todos os dias se agrava o circo

Por mais bombeiros, aviões, ministros e autarcas que se mobilizem, a nossa impotência perante a voracidade do vento, da resina e do fogo não consegue remediar o que as nossas ideias de planeamento, de política, de desenvolvimento e de ciência não conseguiram prevenir. Não há vigilância, combate ou rescaldo que consigam colmatar o descalabro da nossa falta de organização de trabalho nacional, ainda marcado pelo improviso do enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Por isso, não culpo ninguém. Apenas reconheço que este país ficou sem defesa. As imagens diárias que nos chegam dos telejornais, ou que se avistam de qualquer viagem, talvez esqueçam antes das próximas autárquicas. De certeza que ninguém delas se lembrará antes das próximas presidenciais. É inevitável que todos as queiram esquecer antes das inevitáveis legislativas. Por outras palavras, o bem comum continua a ser posto entre parêntesis pelos políticos profissionais, empregados ou desempregados, incluindo os que agora denunciam o umbiguismo. Nesta casa onde ainda há pão, todos os dias se agrava o circo e tudo continuará como dantes, mesmo sem quartel ardido em Abrantes. Não quero culpar ninguém e muito menos duvido do sentido de missão dos directos comandantes a quem cabe dar combate a este desastre. Só não admito que o anormal se torne normal, sem que surja a necessária mobilização nacional. Apenas temo que o país urbano que vai passeando pelos campos e serras apenas sinta a dor dos incêndios quando as cinzas se derramem sobre os locais de lazer onde vão espraiando. Neste país invertebrado, os donos da madeira queimada, entre muitas festas de “jet set”, lá vão calando. Guardam-se para alinharem na comitiva de uma qualquer candidatura presidencial. Prefeririam que, dos dois mais fortes, um deles desistisse, para poderem assinar o livro de honra do vencendor. Entre a direita que convém à esquerda e a esquerda que convém à direita, o bem comum continua a ser treta que se cantarola a toque de discurso politiqueiro.

Ago 22

Do fogo na minha cidade-mãe ao que vai ardendo sem se ver

Com o fogo a entrar na minha cidade natal, direi que os portugueses continuam a viver em regime de desesperança, provocado pela quebra íntima das expectativas e onde só se espera o mal menor de não haver alternativa ao que se vai impondo pela ditadura do estado a que chegámos. Este inevitável de quem perdeu o sonho e o sentido. Assim, diluídos nas ondas da moda, somos meros elementos fungíveis de uma caldeirada da Europa das potências secundárias, à espera de uma decisão que venha a ser tomada pela locomotiva do processo. De uma Europa que se vai fragmentando por várias velocidades variáveis e gerando uma hierarquia de desenvolvimentos separados. Apenas precisávamos de um tempo de pausa e que os polícias do universo não vivessem neste ritmo de frenesim fundamentalista. Logo, somos amargura. Principalmente quando olhamos a política com um sentido ético. Coisa que não acontece neste decadentismo da pós-revolução, onde a procura do tempo perdido é a ilusão do regresso aos pais-fundadores. Ainda há um ano, estávamos embasbacados face ao politiqueiros que não passavam de meros episódios, já esquecidos nas notas de pé-de-página de uma história de pormenores. Desses que atingiram o efémero daquela glória familiar cujo brasão já os pode inscrever como ministros nos anais das banalidades genealógicas da vaidade. Foram breves e fúteis, apesar de entoarem pátria com voz grossa, mas sem o humilde sentido de serviço. O tempo passou, a fama fugiu. Mas um Portugal desvertebrado tornou-se presa dos que conseguiram sobressair na encruzilhada. Foram os ilusórios “vícios privados, virtudes públicas” do jogo suicida em que se envolveu o capitalismo à portuguesa, onde há licenciosidade, mas falta liberdade, onde há libertinagem sem regulação, sanção e fiscalização. Onde depois da casa roubada pomos trancas nas portas. Quem pode atirar pedradas sem ter telhados de vidro? Neste forrobódó em que se transformou o nosso feudal-capitalismo que continua a denegrir a ideia de mercado? Portugal lestifica-se neste pós-autoritarismo que, por vezes, se confunde com mera via de transição para a bandocracia e a cleptocracia que uma classe política incompetente continua a permitir. PS e PSD, punindo-se reciprocamente, são os principais responsáveis pela decadência. E assim se vão suicidando. Até instituições como as universidades vivem amarguradamente, com gentes de segunda apanha que vão ocupando os interstícios da continuidade. Eles, os escavacadores de obra feita, os gestores coca-bichinhos, especialistas na casca de árvore que jamais conseguem vislumbrar o todo da floresta. Ei-los, impantes, bem sentadinhos nas nádegas do cavalito do poder, lançando serpentinas ao passivo povo que parece obrigado a assistir ao carnaval. Os portugueses continuam a considerar que a política é um clube fechado de oligarcas, voltados sobre si mesmos, e olhando, cada um deles, para o próprio umbigo. E cada um que queira notoriedade carreirista tem de alinhar na carneirada da seita, do lóbi, da lojeca ou da facção, sob pena de não existir. Porque os estreitos canais de acesso ao poder estão aramadilhados por um labirinto de dependências. Por outras palavras, as condições que promoveram o concentracionarismo, o autoritarismo e o corporativismo mantêm-se incólumes. Quem não meter a pata nesses círculos falsamente iniciáticos é considerado um perigoso marginal, um mal-amado que, se tenta interferir no circuito da dominação, ao denunciá-lo, até pode ser vítima dos habituais assassinatos de carácter que os pretensos patriarcas da padrinhagem desenvolve. A única solução que resta para tornar inofensivos esses farsantes é elevá-los a ministros. Implodem.

Ago 18

Fogo, seca, desertificação, futebolês e candidaturas, ou a cavalhada do nosso desencanto

Há pausas forçadas de muitas esperas sem porquê, quando fazemos viagens por dentro de nós mesmos, antes de nos lançarmos em novas viagens que apeteçam. E nessas pausas da espera, vamos peregrinando a nossa própria espera, assim dedilhando palavras, escrevendo por termos de escrever, envergonhados, especialmente quando tememos que reparem nos muitos cadernos de diários adolescentes, onde duvidosamente nos doem os pequenos nadas que revolvem as angústias. …e sinais de que a mesma recebeu a visita de Gilberto Freyre Vale-me que, inesperadamente, recebo um telefonema de uma velha amiga de oitenta e nove anos, lá do interior do planalto beirão, onde confirmo que ela continua a lutar, acreditando, e que, ao ler alguns dos meus escritos, me dá força para continuar. Por isso me revoltam os florentinos de outro tempo que, cedendo, nos querem obrigar a esta mediocracia de escravos, colocando-nos na longa fila dos tolerados. Talvez valha a pena dizer que não podemos chamar vida a esta decadência, à predominância cinzentona dos valores da cobardia, onde as circunstâncias levam a que se recrutem seres molusculares para os comandos da vida da cidade. Porque não me apetece alinhar na longa fila dos elogiadores dos peganhentos que têm a ilusão de vencer na história, essas invertebradas criaturas que ocupam os interstícios de um poder que não entende o profundo significado do belo conceito romano de autoridade. Não há políticos, autarcas ou administradores da CGD que consigam mobilizar estes restos de resistência que ainda tem saudades de futuro. Entretanto, persiste a rotina desta gente que passa em seu ingresso, ou seu regresso, da canseira do lar para a canseira do trabalho, homenageando a rotina que regressa depois das férias, com muitos gestos de quem perdeu o sentido dos gestos, neste faz porque faz, onde já nem a procura do que não há os mobiliza. Porque há que pagar a hipoteca, o colégio dos miúdos, a despesa do médico, a receita da farmácia, a dívida por causa de umas férias passadas no Sul de Espanha, que no Algarve era mais caro e havia fumo. Passo os olhos pelas parangonas matinais e reparo que Jerónimo de Sousa se vai recandidatar, para, depois, dançar em torno do candidato que vai defrontar o fantasma da direita, cuja candidatura, dizem que já está em marcha, para ocupar aquilo que foi o Passeio Público, sem Campanha Alegre e muitas Farpas. Mais adiante, reparamos que Ricardo voltou a dar frangos, que Miguel se foi de vez, para descanso da discoteca Luanda, enquanto nos vamos habituando à nova obsessão do linguajar, onde há verbos como circunscrever, lavrar, arder, cercar e substantivos como ocorrência, rescaldo, aldeia, vento, resina e nova frente, fazendo arder ainda mais este Verão de cinza e amargura. Vale-nos que se houvesse solidariedade e coesão na Grande Europa, sempre poderíamos pedir um pouco da chuva que vai alagando a Europa Central e do Leste. Por cá, apenas temos tido os meios que são possíveis, paisagem desoladora, forte vento no Vale do Nabão, que aqui apenas dizemos: isto não há palavras, é comovente…nós nascemos aqui, somos filhos da terra. Que isto é um horror, um pandemónio, um inferno. E a fuga foi a única maneira de não ficarmos encurralados pelas chamas. Tudo é horrível, até o cemitério ardeu. Porque há muita coisa aqui para apagar e resta-nos esperar que o fogo chegue à estrada para o atacarmos de vez. Até porque a Associação de Criadores de Ovinos do Sul (ACOS) está a recolher diariamente uma média de 120 cadáveres de ovinos e caprinos nos distritos localizados a sul do Tejo (Portalegre, Évora, Setúbal, Beja e Faro).