Confesso que só agora me sentei à tecla, à procura das novas do dia, tentando encontrar um motivo de interesse para um postal. Fiquei desolado com as autarquíadas. A única compensação para a agrura veio-me de bárbara, a minha, que já me expressou toda a solidariedade, conforme o “mail” que junto: manifesto desde já o meu apoio incondicional. Para dar um pézinho de dança num mercado de rua estarei ao seu lado nesse projecto de serviço público pelo povo de Valbom. Anexo também, em imagem, um pequeno excerto do que irá ser desencadeado a partir do próximo dia 10, tendo em vista a conquista das simpatias populares e do posterior acesso à junta de paróquia da Senhora do Ó. Não engraxo os eleitores, dou-lhes com o pezinho e com a experiência grisalha da barba branca.
Junta de paróquia da Senhora do Ó
Confesso que só agora me sentei à tecla, à procura das novas do dia, tentando encontrar um motivo de interesse para um postal. Fiquei desolado com as autarquíadas. A única compensação para a agrura veio-me de bárbara, a minha, que já me expressou toda a solidariedade, conforme o “mail” que junto: manifesto desde já o meu apoio incondicional. Para dar um pézinho de dança num mercado de rua estarei ao seu lado nesse projecto de serviço público pelo povo de Valbom. Anexo também, em imagem, um pequeno excerto do que irá ser desencadeado a partir do próximo dia 10, tendo em vista a conquista das simpatias populares e do posterior acesso à junta de paróquia da Senhora do Ó. Não engraxo os eleitores, dou-lhes com o pezinho e com a experiência grisalha da barba branca.
posted by JAM | 10/04/2005 06:19:00 PM
Eclipsados e pategos, olhemos o sol de frente, mas com adequada protecção
Os clips nunca foram boa protecção para um patego
Com dragões e leões em depressão, depois de Sócrates ir à tenda do líder líbio, em dia de eclipse solar, o maior desde 1912, verificámos que o fenómeno não devia ter sido observado sem adequada protecção, especialmente no santuário de São Bartolomeu de Argozelo, em Vimioso, Bragança, lá para lá do Marão. A temperatura baixou, os animais recolheram ao curral e um súbito vento chegou, para que as faúlhas andassem à solta na serra da Boa Viagem e levassem o fogo a chegar à malha urbana da Figueira da Foz.
Nada melhor do que sermos fiéis europeístas e deixarmos aderir os turcos
O brilho do dia diminuiu e ninguém reparou nas muitas centenas de cartazes autárquicos, onde podemos ler que João Soares oferece não sei quantas piscinas e centros de saúde para os saloios, enquanto o adversário diz que aumentou exponencialmente as refeições escolares no seu mandato, como pode ser confirmado em fernandoseara.ponto.come.
As faúlhas desceram a serra em menos de meia hora e a cidade ficou um forno
Porque Sintra não pára, há que escolher entre o Senhor Prego e o Senhor Carreira quanto à Terrugem, tal como em Mafra quem quiser livrar-se do Ministro e não apoiar Leonor Coutinho, tem a hipótese do Professor Pardal Morcela, enquanto na Amadora há que observar o repuxo da Falagueira e, em Oeiras, reparar no esparso bigode do Martins e na laca da Zambujo, apesar de estar em aberto um regresso ao passado, embrulhado num futuro que pode estar de volta, isaltinadamente. E não foi por isto que uma caravana do PS foi alvejada a tiro em Arouca, mas sem qualquer relação com os insultos que Rio sofreu em Aldoar.
A filarmónica de Taveiro em campanha, antes de ganhar o campeonato nacional de bandas
O resto do país prefere a 1ª Companhia, não discute a candidatura de Alegre, não se excita com hipótese de Portas e não lê a entrevista do andar por aí de Pedro Santana Lopes. Sabe que a Dina do Kickboxing deu às vilas Diogo, que o Peseiro foi recebido com lenços brancos, que o Koeman disse “porcaria” em castelhano e que na Contra-Informação puseram Cavaco e Soares disfarçados de mortos-vivos, depois de nos recordarem que o Marques Mendes é que deu a SIC ao dono do “Expresso” e a TVI ao casal Moniz, o que traz aves com gripe no bico, no dia de reabertura oficial da caça às rolas, em teatros de tiro ao alvo com reservado direito de admissão.
O primeiro esboço do meu cartaz de campanha já está pendente nalgumas janelas, por gentileza de bárbara…
É por isso que, depois de muitos apelos da população do Valbom dos Gaviões, decidi voltar à política activa dentro de quatro anos, começando já a partir do dia 10 o meu processo de candidatura à junta de paróquia da Senhor do Ó. Apenas me falta convencer a minha bárbara, com minúsculas e tudo, para me acompanhar na manobra, dado que, com ela do meu lado, sempre poderei peregrinar todas as feiras da batata e da cebola das redondezas, que os saloios não sabem ainda aceder ao http:/www, apesar de já haver “wireless” junto à capela da terra, mesmo diante do talho do Quim Zé.
Da charanga presidencial às guardadoras de cabras
Manhã de Lisboa, caminhada nestas vizinhanças da minha casa, onde também estaciona o supremo magistrado da nação e a carrinha do peixe fresco, onde vou à procura de pescada. Por aqui, assisto ao cerimonial da GNR, com o povo a dizer que “eles querem é festa”. Paro, cerimoniosamente, quando a charanga emite os acordes de “A Portuguesa” e noto o garbo das mulheres nesta cavalaria da Ajuda. Recordo que, em nota enviada aos jornais pela Presidência da República, Sampaio diz que se referiu à inversão do ónus da prova em matéria fiscal e à possibilidade de poder passar-se a considerar um novo crime no código penal o enriquecimento ilícito. Sampaices… Delicio-me com a nova edição das obras completas de Camões e, passando os olhos pelos jornais, noto que uma guardadora de cabras de Melgaço ganhou 68580 euros no sorteio do passado dia 12 de Agosto do Euromilhões, mas só anteontem soube que tinha sido premiada, graças a um alerta estampado na primeira página de um jornal local. Recordo que ontem na televisão o ex-presidente do Tribunal de Contas proclamou, alto e bom som, que o Ministério Público não tem actuado face às denúncias da instituição. Reparo que também o presidente Sampaio, depois de um leonino discurso, teve nota oficiosa à Peseiro. Como confirmou o fiscalista, marido da magistrada Mizé, o novo crime proposto pelo presidente já está em vigor desde o ano de 2000 e não passa de mera tradução de uma lei norte-americana de há cerca de duas décadas. Sampaio volta a meter discursos em certas poças, à semelhança do que emitiu sobre a limpeza coerciva das matas. As charangas da GNR afastam o palácio da realidade. Nunca pus em causa o brio, a isenção, ou sentido de honra da pessoa do nosso supremo magistrado, nem duvido da garbosa biografia militante e da aprimorada educação, clássica e cosmopolita. É por estas loisas que não tenho perdido meu tempo ao dedicá-lo à análise do mais recente “reality show” de uma televisão de sucesso. Cheguei à conclusão vivida do que vem nos manuais sobre o modelo de teatrocracia dos presentes sistemas democráticos: tudo isto é triste, tudo isto não é fado, tudo isto é um jogo sistémico, num clube com rigoroso direito de admissão, onde as regras escritas do Estado de Direito são constantemente ultrapassadas pelas regras dos encenadores do jogo. Não há partidos, há partidocracia. Não há cidadania nem liberdade de pensamento, há democratura. Que o diga o candidato da coligação PND/PPM à câmara municipal do Porto que não entrou no debate da RTP, apesar de ter por si um parecer da Comissão Nacional de Eleições, bem menos forte do que o critério jornalístico da direcção televisiva, sufragado pelo silêncio cúmplice dos candidatos sistémicos, que nem esboçaram um simples registo da ocorrência. Nesta democracia, os pequeninos e os intrusos não podem torcer o pepino. Liberdade, liberdade, quem a tem, chama-lhe sua. O jogo eleitoral tem regras semiclandestinas a que todos os políticos de sucesso obedecem. E Carrilho, sem dúvida, um dos nossos melhores professores de filosofia no activo, quando foi transformado em visitador de mercados, com a Bárbara ao lado, deve ter compreendido que, neste reino do vale tudo, ninguém escolhe os melhores, mas os que, por acaso, podem ser melhor formatados pelas regras de um concurso, onde dominam as Cinhas e os Zé Castelo Branco. É por isso que as próprias boas intenções de Sampaio cedem perante a elefantíase legiferante e a fealdade de um simbólico de Estado, onde acabam por preponderar os que melhor se enquadram nas regras da “quinta das celebridades”. Os nossos candidatos autárquicos não passam de meros “nomeados” pela produção do jogo e o povo, de há muito, que deixou de ser soberano: apenas ratifica as escolhas previamente feitas pelos encenadores do jogo. Por outras palavras, uma democracia que não consegue relacionar-se com a meritocracia e um pluralismo que cede à servidão voluntária do caciquismo e dos meandros corruptos dos pequenos donos do poder não serão regenerados por discursos. A palavra perdeu sentido! Os analistas da coisa, como este sujeito escrevente, podem dramatizar ou adocicar, enquanto muitos outros lavam as mãos como Pilatos, mas foi Guilherme d’Oliveira Martins que acabou nomeado para o Tribunal de Contas e não Saldanha Sanches, apesar de continuar no subliminar das gentes aquele mau feitio de certos antigos militantes da extrema-esquerda para quem importa que os ricos paguem a crise, não reparando que a questão social de hoje tem mais a ver com a clandestinidade dos novos-ricos e a tristeza acabrunhada dos novos-pobres. Pobre lusitana republiqueta que não consegue transformar em potencialidade mobilizadora a circunstância de haver 400 000 candidatos autárquicos e de haver alguma qualidade no debate dos Rio, Zézinhas, Sá Fernandes, Assis, Carrilho e Carmona, belos exemplares na nossa zoologia partidocrática, perdida entre patos-bravos e aparelhistas.
Porque hoje é domingo…vou acariciar a urze
Como o Sobre o tempo que passa já tem mais do que um ano de vida e começa a ficar muito plenificado de si mesmo, apesar de ter constante colaboração da minha irmã Maria Teresa Bracinha Vieira, decidi abrir estas páginas, de forma regular, a alguém de uma geração com uns anitos abaixo dos meus, pelo que, a partir de amanhã, terei várias colaborações de Epifânio Estrupa Caçapa. Hoje não digo nada, porque é domingo, porque é Outono, porque é Outubro, porque houve um atentado em Bali, porque o Oceano Ártico está a derreter e porque as aves migratórias estão a atravessar os céus com a gripe das aves no bico. Logo, tentarei nada dizer de autárquicas ou de presidenciais, porque, infelizmente, todos nos estamos a nivelar por baixo das portas, metidos num sobrescrito cor de rosa, onde antigamente metíamos o elefante da mesma cor, conforme a anedota. Mas como os dias de anos são quando um homem quiser, adeus, adeus, até ao meu regresso, que será amanhã, se Deus quiser. Vou até ao Valbom dos Gaviões, para acariciar a urze.
posted by JAM | 10/02/2005 10:52:00 AM
o Estado não são apenas eles
Diz-nos o bom senso que a unidade do chamado Estado é apenas unidade na diversidade. Isto é, que o Estado não se reduz ao conjunto dos aparelhos de Estado, ao Estado-Principado, mas antes à soma do Estado-Aparelho com o Estado-Comunidade. Ou, por outras palavras, à relação da sociedade civil com a governação. Porque o Estado não são apenas eles, os que mandam, mas nós todos os que, como cidadãos, temos o dever de participar nas decisões comunitárias. Porque o poder é uma relação entre a chamada sociedade civil e o chamado aparelho de poder, e o poder não é uma coisa que se conquista, com muitos “jobs” para se distribuirem ao “boys”, “friends” e “oldmen”, mas algo que tem se ser inserido na presente “network structure”, numa altura em que até já não há um só Estado, mas vários Estados em confluência, como o real Estado Europeu e o oculto Estado Mundial, naquilo a que muitos chamam partilha das soberanias, interdependência ou gestão de dependências, neste neofeudalismo global. O que está a acontecer é, pura e simplesmente, a manifestação clássica da nossa incompreensão do pluralismo político, numa terra herdeira de sucessivos absolutismos e autoritarismos, onde se confunde unidade com unicidade, unitarismo, unidimimensionalismo e até se teme que toda a pluralidade seja incompativel com a clássica perspectiva que exige o acesso ao universal através da diferença. Quando se concebe que o aparelho de Estado seja uma simples federação de ministérios e se continua a manter, na doutoral constituição, a possibilidade de o número e designação dos ministérios depender do decreto presidencial de nomeação de cada ministro, estamos a gozar com o bom senso e atirar para a rua carrada de dinheiros dos contribuintes. Quando mantemos a ilusão de dizer que há secretariados de reforma ou modernização administrativa, salientando que com a próxima, ou presente, comissão de sábios, com o respectivo relatório, é que vai ser desta, estamos a esquecer-nos que o modelo já vem de 1958 e foi desencadeado pelo ministro da presidência Marcello Caetano. Isto é, estamos a brincar ao estadão, à mania das grandezas típica deste Portugalório das minúsculas, recorrendo a especialistas em árvores e folhas de árvore e a não recorrermos aos especialistas no todo, na floresta, aos necessários especialistas em assuntos gerais que sabem a verdadeira situação do actual conceito de público que não é o contrário de privado. O Estado, hoje, não é o do tempo do Marquês de Pombal, de Mouzinho da Silveira, de Afonso Costa, de Oliveira Salazar , de Vasco Gonçalves ou da coabitação Soares/Cavaco. Mas a nossa sociedade civil continua a ser uma sociedade de ordens, ferozmente competitiva, em termos de pressão, reivindicação, corrupção e outras nicas. De certa maneira ainda somos uma sociedade de ordens, onde o velho clero, hoje, se chama Igreja mais Maçonaria, mais catedráticos, mais jornalistas e homens de letras, mais investidores na comunicação social. Onde a nobreza mantém restos de militares, mais juízes e outros magistrados, mais políticas, mesmo os dos secos e molhados, mais médicos, mais burocratas. Onde o povo, que era da elite dos homens bons, são empresários, mais capitalistas, mais partidos, mais sindicalistas, mais autarcas, estc. E isto num país onde o primeiro presidente da república civil eleito até foi Mário Soares. Dizem alguns que há condições para um 28 de Maio. Aceito, mas apenas recordo que desde 1921 que havia condições para um 28 de Maio que só chegou cinco anos depois. Tal como o 5 de Outubro só por acaso é que não foi em 31 de Janeiro de 1891. Tal como o 25 de Abril devia ter surgido logo depois das eleições de Delgado. Porque todos os nossos regimes não caíram a tiro, caíram de podre, por sucessivos acasos cómicos ou por revoltas corporativas de caserna. Estamos como estávamos em 1890, como estávamos em 1921, como estávamos em 1958. Estamos desencantados. E com saudades de datas mobilizadoras do bem comum, como foram 1385, 1640 ou até 1820, ou como começou por ser o 25 de Abril de 1974, só corrigido em 25 de Novembro de 1975. Talvez importe começar por deixarmos de “pensar baixinho”. Isto é, sairmos da análise da casca de árvore e passarmos a analisar a floresta no seu todo. Sem complexos de esquerda e sem fantasmas de direita. Para bem desta gente antiga que é o povo de Portugal e que talvez ainda tenha vontade de continuar a querer ser independente.
Situacionismo, ou a bissectriz de um paralelograma de forças
Apesar de algumas insistências, não será desta que tomarei posição quanto à intervenção de qualquer candidato na corrida para o arranque das presidenciais, onde quase todos os que até agora se assumiram vivem dos mesmos “slogans” antifascistas, socialistas, laicos e de uma ética republicana cheia de complexos de esquerda, quase iguais à outra face da moeda do mesmo rotativismo, desse sebastiânico candidato da não-esquerda, o tal que já foi da esquerda moderna, social-democrata e bernsteiniano, nada liberal, que, com idêntico pensamento único, ameaça levar de vencida os slogans “expressos” pelos entediantes debates televisivos, onde é o poder estabelecido que define o que é a esquerda e o que é a direita, nesse bailado dos prós e contras do eterno situacionismo, que até põe ministros de Salazar a apoiarem os ministros presentes do mesmo antigamente. A presente fuga populista, bairrista, fragmentária ou ultra-caciqueira da presente campanha autárquica é uma espécie de mola amortecedora que nos dá a ilusão de podermos manter a presente tirania do “status quo”, onde até os os “opinion makers” sistémicos se assumem como uma espécie de grandes educadores das presentes classes mediacráticas. Por mim, que sempre fui de direita e sempre fui do contra, sou tanto da direita a que chegámos que até estou disponível para votar num candidato de esquerda, dado que nunca passarei um cheque em branco ao pai autêntico deste cavaquismo que nos enreda e destes restos salazarentos que me fazem repudiar o presente situacionismo, onde a nossa governança é, cada vez mais, uma mera bissectriz de um paralelograma de forças.
As candidaturas autárquicas que estão em curso
As candidaturas autárquicas que estão em curso, envolvendo dezenas de milhares de portugueses, não podem confundir-se com as redes de canalização dos aparelhos e dos hierarquismos partidários e, muito menos, com os casos mais mediáticos de rebeldia. Não podemos confundir certas árvores com a floresta, nem transformar algumas ressequidas folhas do todo no bode expiatório daquilo que começa a tocar as raias da anarquia mansa e da própria ditadura da incompetência. Ora, neste ambiente decadentista e diletante, poucos têm a coragem de dizer em voz alta o que todos vão comunicando em surdina uns aos outros: que a partidocracia é uma erva daninha que está enredando as boas energias cívicas da militância partidária, dos combates doutrinários e ideológicos e da própria essência da democracia, enquanto real participação dos cidadãos nas efectivas decisões comunitárias. Os presentes líderes partidários, desde o que foi nomeado presidente de uma universidade privada, autarquicamente dependente do favor que lhe fez o autarca que ele agora saneou, a todos os outros, que foram elevados a líderes pela barganha dos caciques autárquicos que agora criticam, não podem aparecer como os bons de uma fita que sempre assentou na inveja igualitária e no jogo dos influentes e patos bravos. Daí que o episódio Fátima Felgueiras deva ser inserido num contexto onde ela não é a tal andorinha que não nos anuncia a primavera, dado que está apenas em causa a ineficiência de um sistema, onde não conseguimos conciliar o Estado de Direito com o Estado-Espectáculo, da mesma maneira como a partidocracia não tem que se identificar com a democracia representativa de base partidária, nem o neo-corporativismo que confundir-se com a autonomia da sociedade civil. Estamos a assistir a uma fragmentação, não da unidade e da autoridade do Estado, mas à simples aplicação de uma lei mal feita, atirando para cima das polícias e dos magistrados uma imagem de mera boca que pronuncia as palavras da mesma, esquecendo-nos que, num verdadeiro Estado de Direito, a lei tem que estar abaixo do direito e o direito tem que estar abaixo da própria justiça. Infelizmente, continuamos a ter que administrar a justiça de acordo com o princípio da velha legalidade dos autoritarismos e dos absolutismos, onde até a tortura podia ser legalmente permitida, não admitindo a existência de leis injustas. Como se a unidade do Estado fosse o mesmo do que unidimensionalidade e autoridade equivalesse à proibição do pluralismo. Nestas ocasiões, julgo ser prudente voltar a estabelecer-se o diálogo directo com o eleitorado, não reduzindo as presentes manifestações do nosso justo direito à indignação a certo conceito burguês e capitaleiro de populismo. Não alinho, portanto, com algumas pretensas indignações de certos “opinion makers” sistémicos que não conseguem captar a circunstância de as manifestações felgueirenses de apoio a Fátima traduzirem a mesma revolta, talvez mal canalizada, que leva à resistência contestatária de magistrados e até de militares de carreira. O facto de ser tecnicamente impossível um golpe de Estado nas presentes condições de tempo e de espaço, não nos deve desleixar. Assumíamos aliás uma postura semelhante a certos interesses que se arrogam em privilégios injustos só porque sabem que já não há condições para um partido como era o comunista poder desenvolver um processo de subversão do Estado. O problema da democracia está na circunstância de começar a não haver povo em sentido político. Aquilo que alguns ministros do Antigo Regime, feitos filósofos televisivos do actual estado mental a que chegámos, qualificam como uma vaga de “república sindical” anunciador da chegada definitiva do “Estado Exíguo”, talvez seja mero aviso a uma navegação política desleixada que, lavando as mãos como Pilatos, não compreende que quando se qualifica Fátima como a nossa “Lady Di” se está apenas a emitir um certificado de crise global da sociedade e do Estado. E não me parece conveniente que se atirem as responsabilidades para cima de um administração da justiça que apenas pode aplicar leis que foram feitas para outras circunstâncias, quando se reduziam as denúncias da corrupção a mera música celestial e se mantinham as inspecções às autarquias como simples papelada que um qualquer secretário de Estado podia arquivar, guardando na gaveta o que devia ser obrigatoriamente remetido ao Ministério Público. O problema talvez não esteja na eleição ou não eleição de Fátima ou nas eventuais deficiências da instrução do processo em que é arguida. Valia mais fazermos meia dúzia de investigações politológicas sérias que inventariassem os reais processos de financiamento partidário, o elenco dos grupos de pressão e de interesse que interferem no modelo autárquico, nomeadamente das empresas de consultadoria e prestação de serviços que globalmente se distribuem pelo terreno, conforme as simpatias partidárias das três centenas de autarquias.
A barganha dos caciques autárquicos
As candidaturas autárquicas que estão em curso, envolvendo dezenas de milhares de portugueses, não podem confundir-se com as redes de canalização dos aparelhos e dos hierarquismos partidários e, muito menos, com os casos mais mediáticos de rebeldia. Não podemos confundir certas árvores com a floresta, nem transformar algumas ressequidas folhas do todo no bode expiatório daquilo que começa a tocar as raias da anarquia mansa e da própria ditadura da incompetência. Ora, neste ambiente decadentista e diletante, poucos têm a coragem de dizer em voz alta o que todos vão comunicando em surdina uns aos outros: que a partidocracia é uma erva daninha que está enredando as boas energias cívicas da militância partidária, dos combates doutrinários e ideológicos e da própria essência da democracia, enquanto real participação dos cidadãos nas efectivas decisões comunitárias. Os presentes líderes partidários, desde o que foi nomeado presidente de uma universidade privada, autarquicamente dependente do favor que lhe fez o autarca que ele agora saneou, a todos os outros, que foram elevados a líderes pela barganha dos caciques autárquicos que agora criticam, não podem aparecer como os bons de uma fita que sempre assentou na inveja igualitária e no jogo dos influentes e patos bravos. Daí que o episódio Fátima Felgueiras deva ser inserido num contexto onde ela não é a tal andorinha que não nos anuncia a primavera, dado que está apenas em causa a ineficiência de um sistema, onde não conseguimos conciliar o Estado de Direito com o Estado-Espectáculo, da mesma maneira como a partidocracia não tem que se identificar com a democracia representativa de base partidária, nem o neo-corporativismo que confundir-se com a autonomia da sociedade civil. Estamos a assistir a uma fragmentação, não da unidade e da autoridade do Estado, mas à simples aplicação de uma lei mal feita, atirando para cima das polícias e dos magistrados uma imagem de mera boca que pronuncia as palavras da mesma, esquecendo-nos que, num verdadeiro Estado de Direito, a lei tem que estar abaixo do direito e o direito tem que estar abaixo da própria justiça. Infelizmente, continuamos a ter que administrar a justiça de acordo com o princípio da velha legalidade dos autoritarismos e dos absolutismos, onde até a tortura podia ser legalmente permitida, não admitindo a existência de leis injustas. Como se a unidade do Estado fosse o mesmo do que unidimensionalidade e autoridade equivalesse à proibição do pluralismo. Nestas ocasiões, julgo ser prudente voltar a estabelecer-se o diálogo directo com o eleitorado, não reduzindo as presentes manifestações do nosso justo direito à indignação a certo conceito burguês e capitaleiro de populismo. O facto de ser tecnicamente impossível um golpe de Estado nas presentes condições de tempo e de espaço, não nos deve desleixar. Assumíamos aliás uma postura semelhante a certos interesses que se arrogam em privilégios injustos só porque sabem que já não há condições para um partido como era o comunista poder desenvolver um processo de subversão do Estado. O problema da democracia está na circunstância de começar a não haver povo em sentido político. Aquilo que alguns ministros do Antigo Regime, feitos filósofos televisivos do actual estado mental a que chegámos, qualificam como uma vaga de “república sindical” anunciador da chegada definitiva do “Estado Exíguo”, talvez seja mero aviso a uma navegação política desleixada que, lavando as mãos como Pilatos, não compreende que quando se qualifica Fátima como a nossa “Lady Di” se está apenas a emitir um certificado de crise global da sociedade e do Estado. E não me parece conveniente que se atirem as responsabilidades para cima de um administração da justiça que apenas pode aplicar leis que foram feitas para outras circunstâncias, quando se reduziam as denúncias da corrupção a mera música celestial e se mantinham as inspecções às autarquias como simples papelada que um qualquer secretário de Estado podia arquivar, guardando na gaveta o que devia ser obrigatoriamente remetido ao Ministério Público. O problema talvez não esteja na eleição ou não eleição de Fátima ou nas eventuais deficiências da instrução do processo em que é arguida. Valia mais fazermos meia dúzia de investigações politológicas sérias que inventariassem os reais processos de financiamento partidário, o elenco dos grupos de pressão e de interesse que interferem no modelo autárquico, nomeadamente das empresas de consultadoria e prestação de serviços que globalmente se distribuem pelo terreno, conforme as simpatias partidárias das três centenas de autarquias. (passagem a texto de reflexões emitidas no forum da TSF da anterior quinta-feira e que amanhã serão publicadas em “O Diabo”; com homenagem a um colega falecido, meu antigo adversário político, que teve razão antes do tempo…)
Grandes manifestações de júbilo inundaram as ruas e praças
Grandes manifestações de júbilo inundaram as ruas e praças de uma democracia autarquicamente entalada, como continua casapianamente julgada, apitadoramente doirada, vitorinamente advogada e mourinhamente saudosa. Com um Estado de Direito que parece não saber entender-se com o Estado-Espectáculo. Com um Estado de Partidos que não consegue relacionar-se com um Estado de Corporações. Com a Santa Madre Igreja a continuar sem dialogar com o Grande Oriente Lusitano. Com o Partido da Tropa às avessas com o Partido dos Becas. E onde todos esperam que Dom Sebastião se chame Mário Aníbal Soares Cavaco Silva.