Fev 17

Heréticas reflexões de política internacional, em dia de raiva

Está mais do que demonstrado o irrealismo dos chamados realistas que reduziam a política internacional a simples bolhas de bilhar no tabuleiro geopolítico dos Estados em movimento. Esses que conceberam o progresso como mero teleponto de conclusões discursivas de uma cimeira intergovernamental. Durante mais de duas décadas confundiram o fim da história com essas promessas de uma ilusão de bem estar a que deram o nome de globalização e desenvolvimento, pensando que a coisa era tão fatal como o nascer do sol, todos os dias. Protegeram tiranos com subsídios, conselheiros militares e escudos de espionagem, sem quererem saber de povos, pensamentos e suas identidades. Até pensaram que podiam substituir cartilhas de marxismos por outros quaisquer comprimidos empacotados, não querendo saber dos mitos que movem as civilizações. Alguns chamaram a tal patranha ciência da estratégia e quiseram transformá-la em recinto esotérico para deleite de falsas elites que nem os bois à frente do palácio conseguem topar… E até deixaram que parcelas fundamentais da cidadela universitária fossem assim assaltadas, clamando contra os hereges. E muitos nisso continuam entretidos, julgando que assim podem conter os feitiços que engendraram, essas criaturas que, libertando-se dos pretensos criadores, estão a pôr em causa a bela ordem que a todos os pariu. Já chega dessas servas de uma nova teologia, onde legiões de novos clérigos, mancomunados com o diabo do pretenso irmão inimigo, vão brincando a revoluções, contra-revoluções, armamentos outros tráficos, dando uma falsa imagem do ocidente, só porque nos proíbem de o pensar e de o vivermos como pensamos. Acorda, Europa! Pobres de nós, simples coitados, se nos deixarmos ser mero mercado de notícias enlatadas, cotações de juros e blindados, tudo reduzindo a manuais de instruções e procedimentos de quem, sendo agente, não nos deve comandar.

Fev 15

O estrume da sucata vai moendo à esquerda e à direita…

O uno inefável do estadão vai-se propagando em sucessivas emanações de falta de autenticidade, e os alargados círculos concêntricos da hierarquia neofeudal vão queimando estas sucessivas sociedades da corte da golpada, onde o crime sempre compensou. Os que estão em baixo começam a perder a protecção de quem está em cima. Ter poder em Portugal é ter capacidade para federar receptores de cheques de avenças e consultadorias, nessa distribuição de recursos por via hierárquica, onde a massa é directamente proporcional às falsas honrarias e comendas que os chefes do bando vão emitindo em nome de nós todos, para que todos continuem a pagar apenas a alguns… Nesta quinta de animais decadentes, se somos todos iguais, há alguns que são mais iguais do que outros, sobretudo os que pertencem à classe dos porcos triunfantes, onde Corte (do latim “Cohors”) tem a mesma origem etimológica dessa fábrica de estrume chamada córte, a de nossas velhas aldeias, onde os suínos iam guinchando…

Fev 12

Uma soberania condicionada

.. interessa menos o nome e mais a coisa nomeada.

O PSD, essa grande federação de militantes, grupos de interesse e grupos de pressão, vive, mais uma vez, em encruzilhada, agora com três candidatos à procura de autor.

 

O “catch all”, não pertencendo às raças puras e tendo uma certa complexidade mestiça, apenas tem como essência o sentido predador do poder pelo poder.

 

Daí que não possa dobrar o cabo das tormentas do pós-cavaquismo, mesmo depois do falhado cavaquismo sem Cavaco, porque está condenado a ter de apoiar a respectiva reeleição, mesmo que o não creia.

 

Logo, toda a mudança tem soberania condicionada, e toda ruptura está obrigada a ter que usar adequado hífen com o mais social-democrata dos líderes do PS. Com quem, aliás, tem coabitado, numa espécie de vivenda geminada, mas com os mesmos telhados de vidro, agora orçamentais.

 

Apenas desejaria que acabasse este ciclo de hipocrisia de uma direita que convém à esquerda, onde as eventuais boas, ou más, intenções de distinção face ao PS acabam sempre no inferno manipulado pelas forças vivas do situacionismo.

 

Sócrates já não é da JSD, mas continua a ser o principal eleitor de uma pugna que não consegue um candidato contra Eanes, como Sá Carneiro, ou contra Soares, como Aníbal do anti-bloco central.

(DN, Hoje)

Fev 12

Uma soberania condicionada

O PSD, essa grande federação de militantes, grupos de interesse e grupos de pressão, vive, mais uma vez, em encruzilhada, agora com três candidatos à procura de autor. O “catch all”, não pertencendo às raças puras e tendo uma certa complexidade mestiça, apenas tem como essência o sentido predador do poder pelo poder. Daí que não possa dobrar o cabo das tormentas do pós-cavaquismo, mesmo depois do falhado cavaquismo sem Cavaco, porque está condenado a ter de apoiar a respectiva reeleição, mesmo que o não creia. Logo, toda a mudança tem soberania condicionada, e toda ruptura está obrigada a ter que usar adequado hífen com o mais social-democrata dos líderes do PS. Com quem, aliás, tem coabitado, numa espécie de vivenda geminada, mas com os mesmos telhados de vidro, agora orçamentais. Apenas desejaria que acabasse este ciclo de hipocrisia de uma direita que convém à esquerda, onde as eventuais boas, ou más, intenções de distinção face ao PS acabam sempre no inferno manipulado pelas forças vivas do situacionismo.

Fev 11

Uma soberania condicionada

Uma soberania condicionada

Por José Adelino Maltez

 

O PSD, essa grande federação de militantes, grupos de interesse e grupos de pressão, vive, mais uma vez, em encruzilhada, agora com três candidatos à procura de autor. O “catch all”, não pertencendo às raças puras e tendo uma certa complexidade mestiça, apenas tem como essência o sentido predador do poder pelo poder. Daí que não possa  dobrar o cabo das tormentas do pós-cavaquismo, mesmo depois do falhado cavaquismo sem Cavaco, porque está  condenado a ter de apoiar a respectiva reeleição, mesmo que o não creia. Logo, toda a mudança tem soberania condicionada, e toda ruptura está obrigada a ter que usar adequado hífen com o mais social-democrata dos líderes do PS. Com quem, aliás, tem coabitado, numa espécie de vivenda geminada, mas com os mesmos telhados de vidro, agora orçamentais. Apenas desejaria que acabasse este ciclo de hipocrisia de uma direita que convém à esquerda, onde as eventuais boas, ou más, intenções de distinção face ao PS acabam sempre no inferno manipulado pelas forças vivas do situacionismo. Sócrates já não é da JSD, mas continua a ser o principal eleitor de uma pugna que não consegue um candidato contra Eanes, como Sá Carneiro, ou contra Soares, como Aníbal do anti-bloco central. Que interessa menos o nome e mais a coisa nomeada.

Fev 10

Tempo de pronunciamentos e de falsos Messias…

Hipocrisia é dizer que vale mais o nome da coisa do que a coisa nomeada, que a culpa é do mensageiro e não da mensagem. Até Manuel Alegre, invocando Aristóteles, confundiu a justiça com a administração da dita, esquecendo que, na “polis” a que se referia o Estagirita, os tais administradores da justiça eram eleitos, e que os cidadãos não eram canalizados pelos partidos, participando directamente nas decisões… Não sei até se haverá uma proposta, em sede penal, de restauração da pena de morte política, judicial ou jornalística, para os que promovem assassinatos morais, conforme Talião. Os primeiros implicados são os que vêem os outros em “delirium tremens”, porque vão para o estrangeiro e aí discutem a Pátria! O Estado de Direito são eles. Tem todos os partidos contra eles e onde jornalistas apenas abusam. Eles são a Verdade. Eles são o Caminho. E até têm ministros que usam a farda, e põem a tropa e os meios armados como pano de fundo para pronunciamentos partidários de propaganda. Soares é fixe! Veio declarar que o aparente vencedor da presente encruzilhada continuará de vitória em vitória até à derrota final, onde serão punidos tantos os facciosos e clientes que o têm apoiado, como todos os que se enredaram nas regras do jogo do sistema, incluindo irmãos-inimigos e homens do apito que, de vez em quando, também tocam na bola e não reconhecem situações de fora de jogo…

Fev 05

Quisemos a democracia para nos livrarmos daquele despotismo a que chamaram ditadura das finanças

Espreito as inconfidências de o Sol. Recordo a “comunicação à nação” de Teixeira dos Santos. Reparo que os heterónimos politiqueiros do actual primeiro-ministro minoritário podem ter planos para o controlo da informação e até chamarem, aos opositores, dissidentes e chatos não unidimensionalizáveis, os nomes de birra que ultrapassam o dicionário do bom senso. Não podem é condicionar o direito à indignação dos governados.

Um dos órgãos ou aparelhos de Estado pode reagir contra uma determinada situação política, usando o respectivo direito oficial à palavra, enquanto autoridade pública. Só se a quisessem derrubar a ordem estabelecida é que estaríamos diante de um golpe de Estado…mesmo que se vestisse de golpe de Estado constitucional.

Não se detectam esses sinais em Sócrates e na sua mão longa financeira. Ambos apenas manifestaram a compreensível birra de quem perdeu o privilégio da solidão absoluta. Daí terem que aceitar a não resignação da ocasional maioria parlamentar e o poder de clamor dos que preferem a liberdade de expressão e o dever de pensamento.

Não vejo sinais de pronunciamentos, levantamentos, insubordinações ou motins de um qualquer golpe de Estado constitucional, mas uma saudável resistência de outros órgãos do mesmo Estado, bem como o saudável activismo da comunidade política dos governados, pouco disponíveis para uma usurpação bonapartista da legitimidade estabelecida. Ainda bem!

Uma das características do Estado de Direito tem a ver com as sinuosidades impostas pelas regras do jogo quanto à feitura das leis. Incluindo as variadas manobras dilatórias de ministros, grupos parlamentares e presidente da república, coisa que o Sá Pinto não aguentava. Mas não parece que a “muita tranquilidade” de Paulo Bento leve a vitórias…

Já tivemos um governo que fez greve, mas não no período de constitucionalização pós-revolucionária. Agora, temos um ministro que anuncia, na véspera da aprovação de uma lei, que vai reagir contra ela, por todos os meios legais e políticos, numa pedagogia que pode levar a outras respostas de reacção dos cidadãos, dos seus grupos e de outras instituições, públicas, privadas ou mistas. Por outras palavras, está inaugurada uma nova fase política, a da resistência legal e política, comandada pelo governo contra o parlamento…

E, por cá, em mais um destes normais anormais, talvez importe recordar que quisemos a democracia para nos livrarmos daquele despotismo a que chamaram ditadura das finanças. Resta saber se há mais vida para além do endividamento…

Stéphanne Rials, desculpem-me o eruditismo, considera que o Estado é intrínsecamente crise, cabendo-lhe geri-las de modo dinâmico. Porque o dito é o lugar onde a sociedade se reflecte, se mediatiza, se pensa. Mesmo quando faz braço de ferro partidocrático, nesta forma de institucionalização dos conflitos que é a democracia…

Fev 05

Controlo da informação

Reparo que os heterónimos politiqueiros do actual primeiro-ministro minoritário podem ter planos para o controlo da informação e até chamarem, aos opositores, dissidentes e chatos não unidimensionalizáveis, os nomes de birra que ultrapassam o dicionário do bom senso. Não podem é condicionar o direito à indignação dos governados. Um dos órgãos ou aparelhos de Estado pode reagir contra uma determinada situação política, usando o respectivo direito oficial à palavra, enquanto autoridade pública. Só se a quisessem derrubar a ordem estabelecida é que estaríamos diante de um golpe de Estado…mesmo que se vestisse de golpe de Estado constitucional. Não se detectam esses sinais em n e na sua mão longa financeira. Ambos apenas manifestaram a compreensível birra de quem perdeu o privilégio da solidão absoluta. Daí terem que aceitar a não resignação da ocasional maioria parlamentar e o poder de clamor dos que preferem a liberdade de expressão e o dever de pensamento. Não vejo sinais de pronunciamentos, levantamentos, insubordinações ou motins de um qualquer golpe de Estado constitucional, mas uma saudável resistência de outros órgãos do mesmo Estado, bem como o saudável activismo da comunidade política dos governados, pouco disponíveis para uma usurpação bonapartista da legitimidade estabelecida. Ainda bem! Uma das características do Estado de Direito tem a ver com as sinuosidades impostas pelas regras do jogo quanto à feitura das leis. Incluindo as variadas manobras dilatórias de ministros, grupos parlamentares e presidente da república. Mas não parece que a “muita tranquilidade” de Paulo Bento leve a vitórias… Já tivemos um governo que fez greve, mas não no período de constitucionalização pós-revolucionária. Agora, temos um ministro que anuncia, na véspera da aprovação de uma lei, que vai reagir contra ela, por todos os meios legais e políticos, numa pedagogia que pode levar a outras respostas de reacção dos cidadãos, dos seus grupos e de outras instituições, públicas, privadas ou mistas. Por outras palavras, está inaugurada uma nova fase política, a da resistência legal e política, comandada pelo governo contra o parlamento… E, por cá, em mais um destes normais anormais, talvez importe recordar que quisemos a democracia para nos livrarmos daquele despotismo a que chamaram ditadura das finanças. Resta saber se há mais vida para além do endividamento… Stéphanne Rials, desculpem-me o eruditismo, considera que o Estado é intrínsecamente crise, cabendo-lhe geri-las de modo dinâmico. Porque o dito é o lugar onde a sociedade se reflecte, se mediatiza, se pensa. Mesmo quando faz braço de ferro partidocrático, nesta forma de institucionalização dos conflitos que é a democracia…

Fev 04

A necessidade de um trinta e um qualquer, para que se instaure a Real República do Rapó-Tacho

Acordamos. Bolsas em queda. CDS em ascensão (os seguros da dívida e não os porteiros do sistema político). Almunia, amigo de Peniche. É negra, a quinta-feira. Mas pode ser menos branca a sexta. E pior ainda o próprio sábado. Antes do dia do Senhor. O madeiro não pode ser o bode expiatório… Por enquanto, todos devemos seguir o “espírito de diálogo paciente e frutuoso” que nos ajude a responder aos “desafios estruturais”… Quando era menino coimbrinha, todos os dias passava diante da melhor definição do presente regime político que, aliás, deveria ter adequado acolhimento constitucional: “Portugal é uma Real República do Rapó-Tacho…”. Aqui deixo a fotografia da casa inspiradora… Neste tempo de homens lúcidos, há que ter a lucidez de ser ingénuo…

Fev 03

Conselho de Estado, constituído por muitos venerandos pares vitalícios

O Senhor Presidente, órgão unipessoal resultante do sufrágio universal, convocou, e muito bem, o Conselho de Estado, constituído por muitos venerandos pares vitalícios, mas que, para este efeito, são uma entidade constitucionalmente discreta, sem hipóteses do escrutínio público de um parlamento.  Muitos confundem a entidade com a Câmara dos Pares, o Senado ou a Câmara Corporativa, quando nem sequer corresponde à antiga comissão permanente das Cortes renascentistas, onde tinham assento os procuradores do povo das principais cidades do país (os do primeiro banco, como então se dizia).  Outros vêem a reunião como uma espécie de junta médica, com direito à verdade da ecografia, dos TAC e das análises, desconfiando daqueles médicos que, ainda há meses, não reconheciam a doença.  E tudo acontece no preciso dia em que é conhecida a receita aplicada à Grécia pela geofinança, através da União Europeia, nesse contrato à força, típico de uma balança da Europa, comandada pelo directório das potências.  Por cá, confundimos a árvore com a floresta e pensamos que o Conselho vai tratar de pôr a conversar o chefe do governo com líder da região autónoma, esquecendo-nos que o parlamento até criou uma comissão negocial para o efeito, só porque sabemos que tudo depende de uma conversa de um deputado da região com um ministro das relações com o parlamento.  Talvez fosse mais interessante recordar os elogios de Jaime Gama e Almeida Santos ao jardinismo e não darmos, ao grupo consultivo de Cavaco Silva, o ritmo do “agenda setting”, como se o mesmo fosse mais um dos reverendos conselhos de honra, onde muitos põem o governo paralelo de alguns serviços públicos.  Valia mais rejeitarmos esta tendência suicida das governanças sem governo, em regime de quase pilotagem automática, reconhecendo que a nossa verdadeira independência tem que voltar a ser gestão de dependências e interdependências, sem esta mania das grandezas do comemorativismos…dos tais cem dias que mudaram o mundo… Democracia, segundo a ética republicano, não é governo dos notáveis!