Dizem que temos ano novo e vida nova só porque mudaram as marcas que assinalam os dias e os sinais. Só porque os novos sinais nos dão a ilusão de um tempo que julgamos diverso, nessa permanente procura do que não temos. Apenas mudou o sinal, não mudou quem somos, se as janelas permanecerem fechadas, sem um breve intervalo, ou um secreto recanto onde guardemos as sementes que a invernia ameaça destroçar. Apenas porque tememos que o incontrolável da mudança possa desfazer os equilíbrios onde nos acoitamos, em ilusão de bonança, quando, afinal, apetece retomar um qualquer cais que nos dê viagem destemida. Porque há sempre um sinal de mar no ciciar da folhagem, na brisa que nos chega em madrugadas de espera. Acabou mais um ano deste tempo que passa, mas continuam a circular as sementes de sonho e estas mãos que ainda sabem moldar o tempo dito futuro, para que o fruto semeado possa amadurecer, dando tempo ao tempo. Basta aprender com quem mais sabe e que ainda há dias me dizia: nunca há uma verdade verdadeira, a verdade é sempre uma composição. E há sempre um muro intransponível que nos separa do que nunca podemos saber. Não é preciso gritar nem bater para dizermos que temos razão… Vou abrir as janelas e deixar entrar a madrugada. Há um sinal de mar que nos traz a noite. Basta que um qualquer pássaro da manhã nos ajude a capturar o sinal da esperança e que um vento imaginário nos leve para um qualquer cais de partida, onde a espera nos dê além, um tempo de ter tempo onde possamos semear quem sonhamos… Há um Deus que pode nascer todos os dias dentro de quem somos. Porque, às vezes, é na rebeldia que está a lealdade, nessa suprema ortodoxia do heterodoxo, e não na diluição no rebanho seguidista. Deus pode ser o mundo e haver mais mundos, sobretudo aqueles que continuam a criação, dando novos mundos ao mundo. As seitas sempre foram a própria negação da verdade. Não passam de rebanhos de dilectos que apenas reagem aos exoterismos, mesmo que se disfarcem em rituais, sobretudo quando estes perderam o sentido dos gestos. Nas seitas já não há sacerdotes, mas apenas sacristães e sacristas. Até nem há generais, mas apenas sargentos de economato. Não há mestres, mas apenas lentes, repetidores da vulgata. Desses que se extinguem nas eternas sessões de esclarecimento dos sindicatos das citações mútuas, transformados em correias de transmissão da unicidade. Odeio todos os grupos e movimentos que procuram assumir o monopólio da verdade, do espírito, da vida e do próprio bem, só porque alguns exibem uma contrafacção da chave da verdade e dizem ser o caminho. Odeio catecismos e formulários, bem como os seminaristas de cordel que procuram transformar-se nos cardeais da propaganda da falsa fé e nos comandantes de uma nova Inquisição que nos quer a todos relaxar para o braço secular da persiganga. Os que retomam a hermenêutica disciplinada da unicidade preferem a liturgia da subserviência à religiosidade da libertação. Até nem compreendem que só há pátria quando se cultivam as complexas heranças que nos sagraram a terra das árvores, dos rios e dos montes. Eles nunca entenderão que é possível o não através do sim e o sim através do não. A heresia continua a ser a única foram criativa de fecundarmos este caminho repleto de dejectos, ditos os filhos dilectos, mas que sabem que a revolta individual dos que procuram é o que mais se aproxima de sua imagem e semelhança. O homem é um ser que nunca se repete.
O que não é a política
Há um maquiavelismo, dito da razão de Estado, como o seu segredo, também de estado, tal como há uma razão revolucionária, com a sua clandestinidade. Ambas as ditas razões assentam e formas de monopólio da violência, para a sublimarem em ordem que espera o carimbo da legitimação. Há também outras zonas de segredo, próprias do indivíduo e da ciência que trata dos actos do homem como indiviso. Uma, a mais sagrada, tem a ver com o castelo muralhado da intimidade pessoal e familiar. Outra, com o esotérico dos actos litúrgicos ou iniciáticos. Daí o perigo de confusão entre o político, o litúrgico, o familiar e o pessoal. A política é apenas aquela zona da praça pública onde acedemos com a máscara da personalidade, sem nos desnudarmos ou nos confessarmos, depois de largarmos o espaços do privado, incluindo o doméstico, e do sagrado. Logo, em tudo o que é político não pode haver zonas não transparentes de litúrgico, iniciático, familiar ou privado.
DITADURA DA INCOMPETÊNCIA AINDA TEM RESURSOS
Previsões feitas em 3 de Janeiro de 2010. Correio da Manhã
“DITADURA DA INCOMPETÊNCIA AINDA TEM RESURSOS’
Nome: José Adelino Maltez.
Idade: 51 anos.
Carreira: Doutorado em ciência política, lecciona no ISCSP e na Faculdade de Direito de Lisboa. Diz-se “da direita, porque é liberal à antiga”.
- Acredita que o governo de José Sócrates vai resistir aos ataques das oposições e sobreviver a 2010, apesar da minoria parlamentar?
- Sócrates pode resistir tanto como António Maria da Silva, dado que os instrumentos de controlo social da presente ditadura da incompetência, ainda tem suficientes recursos para que continue a teatrocracia de endireitas contra canhotos, para que os bonzos finjam que o rotativismo devorista permaneça. Quando, entre eles, se trocam qualificações como “inimputável”, “palhaço”, “vendido”, “esquizofrénico”, “aldrabice”, “trafulhice”, “tropa-fandanga”, “burrice”, eles apenas confirmam que o o Estado são eles. Vale-nos que temos um povo com brandos costumes, mas que, sem ser por acaso, é o que mais assassinou figuras cimeiras do Estado no século XX. Temam a revolta dos mansos! Contrapartidas de armamento, trocas do BPN, afundações, baldrocas do BCP, sucatas e escutas, é, o grão a grão, com que se vai enchendo o papo. Não o da revolta. Não o da indiferença. Mas o do desprezo.
- É de esperar que algum partido da Oposição apresente uma moção de censura ao Governo?
- O sinal dado pelo bolinho de mel do jardim madeirense em São Bento, se é menos do que um queijo limiano, pode ameaçar a funcionalidade da confraria do azeite porteira. Até o PS já concluiu que a democracia pode funcionar com o apoio do que apodava como défice democrático. A velha raposa de Alberto João, apesar de continuar a dizer que é perseguido por certa maçonaria internacional, tornou-se lebre….
- A acontecer um cenário de queda do actual Governo, como acha que os eleitores vão reagir?
- Julgo que se vive uma espécie de degenerescência íntima do regime, naquilo que qualifico como privatização clandestina dos antigos serviços públicos, pela sublimação da velha engenharia feudal da cunha, destruidora da meritocracia. E tenho a consciência que alguém assumir um programa anti-estatista em Portugal, onde há quase um quinto do eleitorado a votar PCP e BE, como um enorme centrão socialista e social-democrata e um PP pouco liberal, será mera voz que clama num deserto de utopias intervencionistas que são a principal causa de sucessivas derrotas dos portugueses…
- No PSD discute-se a liderança. É de esperar que o próximo líder consiga pôr o partido a falar a uma só voz, ou vamos continuar a ver o PSD dividido, continuando os ataques ao líder a ser a regra?
- O PSD enredou-se na função de ser outra face da mesma moeda do rotativismo devorista. Aqui e agora, o situacionismo dos vários estados a que chegámos, sobretudo o dos micro-autoritarismos sub-estatais, já não teme esse tipo de opositores, os tais que podem tornar-se convivas da alternância na gamela. Apenas odeia os dissidentes que não se transformam na oposição que lhes convém e que não se confundem com os tradicionais inimigos da democracia. Apenas desejava que o partido de Sá Carneiro retomasse a sua pulsão libertacionista dos tempos da fundação.
- Educação e Justiça têm sido, nos últimos anos, as pastas mais sensíveis da governação. Que novidades podemos esperar nestas áreas durante o próximo ano?
- Apenas recordo um Mouzinho da Silveira que, ainda no Porto, em plena guerra de pedristas contra miguelistas, logo se demitiu da pasta da fazenda, quando resistiu ao oportunismo das expropriações, a velha tentação absolutista, a que continuam a dar o nome de Estado… Aliás, quando acusam os liberais de anti-estatismo, esquecem que quem edificou o Estado Contemporâneo foram as revoluções liberais. E o nosso resultou do programa de Mouzinho da Silveira, quando centralizou os impostos que o povo sempre pagou, mas que no “Ancien-Régime” eram desviados para o clero e a nobreza, ordens às quais cabia as políticas de educação, saúde, defesa e segurança! Por mim, continuo a dizer que quanto mais estatismo, mais corrupção! Sobretudo quando surge o Estado-Empresário que se transforma em patrão, tanto através de ‘empresas públicas’, como de ‘empresas de regime’. Mesmo nos ditos países nórdicos da Europa, se há um robusto Estado-Companhia de Seguros, não há nenhuma tentação de intervencionismo na economia… Por outras palavras, o direito não é a vida. O direito vigente são meras relações jurídicas, isto é, uma minoria das relações sociais. Logo, nem tudo o que é lícito é honesto e a licitude nem sequer corresponde a um mínimo ético. Porque a moral e o direito não são círculos concêntricos, apenas coincidem nalguns segmentos. Hoje foram totalmente confundidos pela tele democracia.
- Em 2011 há eleições presidenciais, pelo que é de esperar que as candidaturas apareçam em 2010. O cenário de confronto entre Cavaco Silva e Manuel Alegre é o mais provável?
- O cenário dos presidenciáveis, pode ser a melhor demonstração de que, em muitos cargos electivos, o colégio eleitoral é previamente controlado pelos que podem lançar os nomes dos plebiscitáveis ao povo. Por outras palavras, no ano de 2010 vão jogar os influentes que querem nomear Alegre como candidato do povo de esquerda, procurando reduzir Cavaco à resistência do chamado povo de direita e colocando o situacionismo do PS entre o martelo e a bigorna, porque, em qualquer dos casos fica entalado… Isto é, vivemos num sistema bem mais gravoso do que o censitário, dado que há uma colecção de elegíveis, definidos pelos restritos electivos que os previamente eleitos nomeiam, para que, de eleitos, passem a elites que nada têm a ver com o mérito.Porque o essencial do poder conquistado (o estadão a que se chegou) é o mesmo procurar manter-se, com muita música celestial disfarçando o ‘apartheid’. Quem diz organização, diz necessariamente oligarquia, isto é, a degenerescência da aristocracia, e na véspera do cesarismo
- Em 2009, a relação entre Cavaco Silva e José Sócrates foi marcada por várias polémicas e desentendimentos públicos. O que podemos esperar do entendimento entre o Presidente da República e o primeiro-ministro?
- Pouco interessa esse teatro de indícios que alimenta comentadores e analistas, como o tenho sido. O importante, em Portugal, não é ser ministro, é tê-lo sido. Sobretudo, quando ainda se têm colegas no poleiro. Sempre podem ser um importante elemento de consultadoria e pressão, por causa dos meandros da mesa do orçamento. E, entre um grupo empresarial de obras públicas e um estabelecimento de ensino, pouca é a diferença de pecado, na privatização já não clandestina do que deveria ser público.
- Com o desemprego a pressionar as despesas do Estado e o défice das contas públicas em aparente descontrolo, será possível ao Governo manter a promessa de não aumentar mais impostos?
- Quando os jornais, no século XIX, substituíram o púlpito, dizia-se que conquistar o poder era conquistar a palavra. Desde Kennedy que entrámos em mediacracia mais videopoderosa. Política já não é apenas o que parece, mas a percepção do homem comum sobre o que aparece e que pode não ser o que é previamente ensaiado pelas agências de comunicação. Por outras palavras, se é inevitável o realismo de quebra do ciclo do endividamento, com medidas drásticas, temo que continuemos a música celestial de mais “imagem, sondagem e sacanagem”.
- Quais são, no seu entender, os temas que mais vão marcar o debate politico em 2010?
- Anda tudo irascível, sempre à procura do adjectivo demoníaco que dê uma desculpa para ninguém dialogar com o adversário. Todos parecem carecer daquela ciência certa do ideologismo e daquele poder absoluto que adora pisar o opositor com um insulto. Será que o novo D. Sebastião não passa de um contabilista que se assuma como disciplinador externo? Alcácer-Quibir ainda nos mata. Depois do ‘sebastianismo científico’, o do esquerdismo marxiano ou fascisóide, e do sebastianismo merceeiro, o da ditadura das finanças, há muitos que anseiam por um qualquer invasor suave que nos traga ‘a bela ordem’, sobretudo se ele chamar ‘libertação’ à efectiva ocupação heterónoma das coisas e das mentes.
- A aprovação do tratado de Lisboa abriu lugar a várias mudanças na União Europeia. O que é que podemos esperar de diferente?
- O sonho de sempre, uma Europa, nação de nações, sem um super-Estado, mas com uma democracia de muitas democracias. O resto é saber se o Sarkosy sai do eixo e passa a preferir Londres a Berlim, de acordo com o ritmo da nova “Weltpolitik” de Washington…
- A discussão sobre a regionalização está de volta ao debate politico. Haverá, desta vez, condições para se fazer uma reforma administrativa desta natureza?
- Não sou socialista nem social-democrata, logo quero menos ‘Estados’, mais sociedade e mais autonomia dos cidadãos, enquanto indivíduos, porque importa reinventar o aparelhismo, para deixarmos de ter os ‘donos’ do costume. Essa abstracção chamada Estado passou a ser a medida de todas as coisas e ai de quem diz que devemos ter menos aparelho de Estado na economia e na sociedade, sobretudo quando já não há apenas o Estado português a que chegámos, mas um ‘Leviathan’ plural, desde a União Europeia ao modelo de globalização da hierarquia das potências…
- Em relação à sua vida pessoal e profissional , que projectos tem para 2010?
- Acabar o livro dito científico que tenho em conclusão e voltar ao livro de poesia que está quase em ritmo de unidade de sonho. Isto é, continuar o programa de viver como penso, mesmo que venha a ser, mais uma vez, punido pelas máquinas do respeitinho. Tenho péssimas relações com o poder quando ele entra em ilusão revolucionária ou em decadência situacionista…O essencial da nossa permanecente crise é, como dizia Sérgio Buarque de Holanda, a grande dificuldade de adaptação às virtudes do cálculo que estão na base dos formais ‘planeamentismos’ colectivos, esquecendo a procura do paraíso pelos homens concretos, com aventura e pragmatismo… O nosso individualismo tem a ver com a aventura, pela visão de um Paraíso, misto de riqueza mundanal e beatitude celeste. Quando somos criativos e imaginativos como povo, não costumamos rimar com comemorativismos nem com subsidiologia…
Sete pedacinhos de mais além em domingo de chuva
Acordo. A chuva inunda as ruas. O primeiro domingo deste último ano da década é um acontecimento que nunca mais se repetirá. Porque pode ser vivido por milhões de seres que também nunca se repetirão. Os homens ditos comuns são coisas que intelectuais, políticos e produtores do videopoder desleixam, como simples massa ou multidão, violável pela solidão. Porque tais manipuladores do “agenda setting” olham os seus semelhantes como pasta a cilindrar pelo rolo compressor da mensagem com que nos procuram profanar… Esses pretensos homens-mais-do-que-homens parecem esquecer que há uma reserva inalcançável dentro de cada um, o simples segredo da dignidade da pessoa humana, a tal que só pode desabrochar em ser quando se descobre além, ao compreender que, por dentro de si mesma, é que tais coisas realmente são… O sopro do eterno não vem do hábito nem do monge, mas daquele acaso procurado que o sagrado deixou no mais íntimo e mais divino de quem somos. Se somos deste lugar e deste agora, há, no mais íntimo do tempo que passa, o que, estando aqui, é aristocraticamente de todos, essa procura incessante de um sinal que nos dá o mais além. Diante de um desses normais anormais da natureza, de pouco valem discursos de presidente ou sermões de cónego. Os profissionais do sagrado, e os seus comentaristas e glosadores, são tão profanos quanto os praticantes acríticos de qualquer fé, incluindo a da religião secular. Todos nos dividimos e separamos apenas por não sabermos quem na verdade somos. São ondas em fúria, a Norte, terras deslizando, a Sul, um vulcão nas Filipinas, ou uma depressão tropical nas Linhas de Torres. É o normal anormal da cultura contra o que estava aqui antes de o homem se acrescentar, inventando obras sobre a paisagem, incluindo a casa, a praça pública, o livro ou o um milhão e duzentos mil portugueses que comunicam pelo “Facebook”, inventando como brincadeira de rapaziada para os dormitórios de Harvard. Não existe apenas aquilo que pode medir-se e experimentar-se, em laboratório ou tabelas de registo de obra feita. Há também um todo a que só pode aceder-se pela intuição da essência. A que exige conversão, litúrgica ou poética, ao risco da mudança, nessa mistura de aventura e pragmatismo, a que se chamam viver em comum.
A nova balança de poderes
A NOVA BALANÇA DE PODERES
Por José Adelino Maltez
Depois de um atribulado “annus electoralis”, onde a palavra da política quase se prostituiu pelo abuso de ideologismos, manhas e engodos, a comunicação presidencial, sem prometer um ano porreiro de uma ilha sem lugar, parece anunciar um roteiro de autenticidade, para menos “desemprego”, “pobreza” e “exclusão social”, que deixe de nos iludir com revisões de regime, em sentido mais presidencialista ou de governo de assembleia. Em nome de mais “verdade” e mais “país real”, sem “querelas artificiais”, ficou um “alerta” para um maior “concertação” parlamentar, para que o exemplo “venha de cima” e com o regresso aos valores da “família” e da “ética republicana”, mas com o “empenho dos magistrados”, para que se evite uma solução “dramática”. Os sinais destas palavras, apelando, de imediato, para um novo contrato social, a partir da decisão orçamental, não parecem ser pólvora seca nem música celestial, mas antes o princípio de um novo conceito de separação e interdependência da presente balança de poderes. Para que o sistema partidocrático não seja o coveiro do regime. Pode vir a chamar-se esperança dos que estão desencantados e revoltados, mas que não querem renunciar pelo medo.
Uma dúzia de breves princípios fundacionais para combate de concepções do mundo e da vida
30.12.09
1
Balanços do ano, balanços da década, profecias do que há-de vir e tudo ao ritmo dessa hiper-informação que não informa, com notícias históricas de hora a hora, semanários políticos de fim-de-semana e revistas cor-de-rosa, para colorirmos o que é cinzento…
2
De uma coisa tenho a certeza: tudo vai continuar como dantes, neste mais do mesmo de uma decadência que, entre nós, costuma durar décadas, quando apenas se vislumbram causas externas de crises financeiras e políticas, mas onde só existe aquilo que se pode medir em quantidades e gráficos, quando o problema é espiritual e metafísico, porque só por dentro das coisas é que as coisas realmente são.
3
Penúltimo dia do ano a que chegámos, com menos desdivinização e mais desencantamento, naquilo que alguns continuam a qualificar como choque de civilizações, só porque temem peregrinar pelas próprias origens. Chegariam à conclusão que não é a história, progressista ou reaccionária, que faz o homem, mas o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo…
4
O pensamento politicamente correcto deste último meio século sempre disse que caminhávamos para um fim da história, como muitos amanhãs cantando, em nome da revolução ou da contra-revolução. Os respectivos sucedâneos preferem o planeamentismo e dão-lhe hoje o novo nome de investimento público. Por mim, continuo a rejeitar o construtivismo…
5
A história é um ditadura de factos, de fenómenos resultantes da acção do homem concreto, gerando-se sucessivas ordens comandadas por uma espécie de mão invisível, onde o homem através de meios não desejados por ele, nem projectados por ninguém, é levado a promover resultados que, de maneira nenhuma, fazem parte das suas intenções.
6
Os detentores do poder são completamente indiferentes ao bem estar ou ao mal estar dos que não têm poder, excepto na medida em que os seus actos são condicionados pelo medo
7
Os princípios são o eixo da roda da mudança, pelo que, alterando-se a matéria, terão de variar as consequências que deles podem extrair-se.
8
Para um veículo avançar no caminho que o seu condutor determinou, tem que andar sobre rodas que monotonamente giram sempre em torno de tal eixo.
9
Não é por acaso que a roda é o símbolo antigo da corrente do devir, do círculo da geração. Tem um centro imóvel, um eixo, símbolo da estabilidade espiritual, mas movimenta-se, apesar de o eixo se manter íntegro, porque representa a permanência de certos valores.
10
O verdadeiro liberal é, por natureza, um reformador social, o paladino do humilde explorado e o adversário de todos os altos interesses dominantes e predatórios
11
Os capitalistas não são os únicos a terem privilégios egoístas e predatórios; o operariado bem organizado, abrangendo muitos milhões de trabalhadores, pode também ser predatório e perigoso ao bem-estar comum
12
Repetindo: o verdadeiro liberal nunca diz isto é verdade, apenas sendo levado a pensar que, nas circunstâncias actuais, este ponto de vista é provavelmente o melhor.
Os últimos oito parágrafos são mistura de citações: Tocqueville, Toynbee, Russell, Hill Green, Ferguson, Smith e Hayek. Já nem sei distingui-los de mim mesmo. Uma questão de fé na aventura da liberdade, contra os revolucionários frustrados que nos reaccionarizam, neste caminho para a servidão…
posted by JAM | 12/30/2009 11:03:00 AM
Princípios. Decadência
Balanços do ano, balanços da década, profecias do que há-de vir e tudo ao ritmo dessa hiperinformação que não informa, com notícias históricas, de meia em meia hora, semanários políticos de fim-de-semana e revistas cor-de-rosa, para colorirmos o que é cinzento… De uma coisa tenho a certeza: tudo vai continuar como dantes, neste mais do mesmo de uma decadência que, entre nós, costuma durar décadas, quando apenas se vislumbram causas externas de crises financeiras e políticas, mas onde só existe aquilo que se pode medir em quantidades e gráficos, quando o problema é espiritual e metafísico, porque só por dentro das coisas é que as coisas realmente são. Eis que chegámos, com menos desdivinização e mais desencantamento, àquilo que alguns continuam a qualificar como choque de civilizações, só porque temem peregrinar pelas próprias origens. Quando importa concluir que não é a história, progressista ou reaccionária, que faz o homem, mas o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo… O pensamento politicamente correcto deste último meio século sempre disse que caminhávamos para um fim da história, como muitos amanhãs cantando, em nome da revolução ou da contra-revolução. Os respectivos sucedâneos preferem o planeamentismo e dão-lhe hoje o novo nome de investimento público. Por mim, continuo a rejeitar o construtivismo… A história é um ditadura de factos, de fenómenos resultantes da acção do homem concreto, gerando-se sucessivas ordens comandadas por uma espécie de mão invisível, onde o homem através de meios não desejados por ele, nem projectados por ninguém, é levado a promover resultados que, de maneira nenhuma, fazem parte das suas intenções. Os detentores do poder são completamente indiferentes ao bem estar ou ao mal estar dos que não têm poder, excepto na medida em que os seus actos são condicionados pelo medo. Os princípios são o eixo da roda da mudança, pelo que, alterando-se a matéria, terão de variar as consequências que deles podem extrair-se. Para um veículo avançar no caminho que o seu condutor determinou, tem que andar sobre rodas que monotonamente giram sempre em torno de tal eixo. Não é por acaso que a roda é o símbolo antigo da corrente do devir, do círculo da geração. Tem um centro imóvel, um eixo, símbolo da estabilidade espiritual, mas movimenta-se, apesar de o eixo se manter íntegro, porque representa a permanência de certos valores. O verdadeiro liberal é, por natureza, um reformador social, o paladino do humilde explorado e o adversário de todos os altos interesses dominantes e predatórios. Os capitalistas não são os únicos a terem privilégios egoístas e predatórios; o operariado bem organizado, abrangendo muitos milhões de trabalhadores, pode também ser predatório e perigoso ao bem-estar comum. Repetindo: o verdadeiro liberal nunca diz isto é verdade, apenas sendo levado a pensar que, nas circunstâncias actuais, este ponto de vista é provavelmente o melhor. Os últimos oito períodos são mistura de citações: Tocqueville, Toynbee, Russell, Hill Green, Ferguson, Smith e Hayek. Já nem sei distingui-los de mim mesmo. Uma questão de fé na aventura da liberdade, contra os revolucionários frustrados que nos reaccionarizam, neste caminho para a servidão…
Presidenciais
Em 2011 há eleições presidenciais, pelo que é de esperar que as candidaturas apareçam em 2010. O cenário de confronto entre Cavaco Silva e Manuel Alegre é o mais provável?
O cenário dos presidenciáveis, pode ser a melhor demonstração de que, em muitos cargos electivos, o colégio eleitoral é previamente controlado pelos que podem lançar os nomes dos plebiscitáveis ao povo. Por outras palavras, no ano de 2010 vão jogar os influentes que querem nomear Alegre como candidato do povo de esquerda, procurando reduzir Cavaco à resistência do chamado povo de direita e colocando o situacionismo do PS entre o martelo e a bigorna, porque, em qualquer dos casos fica entalado… Isto é, vivemos num sistema bem mais gravoso do que o censitário, dado que há uma colecção de elegíveis, definidos pelos restritos electivos que os previamente eleitos nomeiam, para que, de eleitos, passem a elites que nada têm a ver com o mérito.Porque o essencial do poder conquistado (o estadão a que se chegou) é o mesmo procurar manter-se, com muita música celestial disfarçando o “apartheid”. Quem diz organização, diz necessariamente oligarquia, isto é, a degenerescência da aristocracia, e na véspera do cesarismo.
Mestres-pensadores e engenheiros de conceitos, da cor do burro quando foge…
Há uma geração lusitana que se sente órfã, desde que acabaram os manuais de Organização Política e Administração Nacional (OPAN) dos dois últimos anos do ensino pré-universitário, dos tempos do livro único, e que geraram, por reacção, os mestres-pensadores das extremas, esquerdas e direitas, que agora vão escrevendo memórias…
Não faltam sequer os organizadores dos compêndios de doutrinas sociais e ideologias políticas, onde os plagiadores e filósofos da traição nos encarquilharam, para que os sobrinhos e afilhados os copiassem em argumentários pseudo-revolucionários, passados a “stencil”, todos se irmanando na procura dos ontens que mandam, disfarçados de amanhãs que cantam…
Política sem metapolítica é um vazio de alma que qualquer engenheiro de conceitos consegue transformar em falso sistema fechado, e reduzir a um manual de planejamento estratégico, para que apareça um general de alcatifa, ou um catedrático de espiões, invocando o Ocidente, a luta contra o terrorismo, ou o Estado de Segurança Nacional…
Há uma legião carreirista de idiotas úteis que procuram o conforto do posto de vencimento nessas zonas putrefactas da subsidiologia estatista, da universidade acrítica e do negocismo corrupto… Eles adoram teorias da conspiração e já vislumbram nigerianos de turbante em cada banco do avião…
O que resta da presente república dos portugueses continua a ser arrastado por cadáveres adiados que um quarto de hora antes de morrerem continuam emitindo arrotos de música celestial. E ninguém os denuncia como sepulcrais calhaus pintados da cor do burro quando foge, isto é, do pensamento dominante, à Júlio Dantas, em épocas de decadência…
Manuais de Organização Política e Administração Nacional
Há uma geração lusitana que se sente órfã, desde que acabaram os manuais de Organização Política e Administração Nacional (OPAN) dos dois últimos anos do ensino pré-universitário, dos tempos do livro único, e que geraram, por reacção, os mestres-pensadores das extremas, esquerdas e direitas, que agora vão escrevendo memórias… Não faltam sequer os organizadores dos compêndios de doutrinas sociais e ideologias políticas, onde os plagiadores e filósofos da traição nos encarquilharam, para que os sobrinhos e afilhados os copiassem em argumentários pseudo-revolucionários, passados a “stencil”, todos se irmanando na procura dos ontens que mandam, disfarçados de amanhãs que cantam… Política sem metapolítica é um vazio de alma que qualquer engenheiro de conceitos consegue transformar em falso sistema fechado, e reduzir a um manual de planejamento estratégico, para que apareça um general de alcatifa, ou um catedrático de espiões, invocando o Ocidente, a luta contra o terrorismo, ou o Estado de Segurança Nacional… Há uma legião carreirista de idiotas úteis que procuram o conforto do posto de vencimento nessas zonas putrefactas da subsidiologia estatista, da universidade acrítica e do negocismo corrupto… Eles adoram teorias da conspiração e já vislumbram nigerianos de turbante em cada banco do avião… O que resta da presente república dos portugueses continua a ser arrastado por cadáveres adiados que um quarto de hora antes de morrerem continuam emitindo arrotos de música celestial. E ninguém os denuncia como sepulcrais calhaus pintados da cor do burro quando foge, isto é, do pensamento dominante, à Júlio Dantas, em épocas de decadência…