Dez 25

Untitled

A metafísica não é monopólio de nenhuma religião revelada. Por isso vou reler esse magnífico livro de José Régio, “Confissões de um Homem Religioso”…

Por mim, sou crente, isto é, não sou ateu nem agnóstico. Só que crenças sempre houve muitas, até as dos que acreditam que pode haver pluralismo entre a unicidade absoluta, que está lá em em cima, e a divergência da vida e da historicidade, que está cá em baixo, entre o macrocosmos e o microcosmos que o pretende imitar pela ascensão mística da conversão…

Quando a Igreja de Roma optou por antedatar o dia tradicional de Natal, colocando-o por cima do solstício, não o fez por mero oportunismo. Seria também injusto monopolizá-lo com um banal fundamentalismo. Unir essa religião revelada com os mistérios antigos é convergir em universalismo!

Os símbolos cristãos da natividade e da imaculada concepção, quando deixam a rotina da liturgia, assumem aquela dimensão poética de uma infância que pode dar além, mesmo para os que não são crentes do povo encabeçado pelo Santo Padre. Este estes e os ateus e os agnósticos, há um largo espaço de complexidade

Dez 25

Um novo Buda está a ser desenterrado no Afeganistão

Um novo Buda está a ser desenterrado no Afeganistão. A bomba dos talibãs tem nova resposta dos mistérios antigos. Não tardará que se confirme: afinal o Buda foi copiado do deus grego Apolo. Afinal, todas as civilizações universais são filosoficamente contemporâneas. Viva o fundador do abraço armilar: Alexandre o Grande! Alexandre, Alexandria, Mediterrâneo, Persas que deram aos Árabes a Al-Kimiya e essa mistura de estoicismo e neoplatonismo que provocou Camões e o nosso Renascimento manuelino, contra o dualismo do corpo e do espírito, nessa arte que procura a eternidade contra os dualismos, em nome do “ora et labora”, de que resultou Newton e a ciência inteira… Os símbolos cristãos da natividade e da imaculada concepção, quando deixam a rotina da liturgia, assumem aquela dimensão poética de uma infância que pode dar além, mesmo para os que não são crentes do povo encabeçado pelo Santo Padre. Este estes e os ateus e os agnósticos, há um largo espaço de complexidade, insusceptível da tenaz de certo discurso maniqueísta. Mas todos podem ser homens de boa vontade! Quando a Igreja de Roma optou por antedatar o dia tradicional de Natal, colocando-o por cima do solstício, não o fez por mero oportunismo. Seria também injusto monopolizá-lo com um banal fundamentalismo. Unir essa religião revelada com os mistérios antigos é convergir em universalismo! Por mim, sou crente, isto é, não sou ateu nem agnóstico. Só que crenças sempre houve muitas, até as dos que acreditam que pode haver pluralismo entre a unicidade absoluta, que está lá em em cima, e a divergência da vida e da historicidade, que está cá em baixo, entre o macrocosmos e o microcosmos que o pretende imitar pela ascensão mística da conversão… A metafísica não é monopólio de nenhuma religião revelada. Por isso vou reler esse magnífico livro de José Régio, “Confissões dum Homem Religioso”…

Dez 22

E tudo o vento vai levando, neste cantinho de moinhos decepados

Partido onde não há votos, todos ralham e ninguém tem razão. Dizia-se do CDS freitista: “um grupo de amigos que cordiamente se odeiam”. Repete agora Santana sobre o PSD é “uma federação de pessoas que se detestam”. É tudo um problema de fome.

Foi, portanto, penoso ver, ontem, a Drª Manela, armada em Sancho Pança, num discurso para telejornal, não perceber o que ela própria tinha escrito, quando atingia o clímax comunicativo.

Foi, aliás, directamente proporcional ao discurso de Sócrates, no mesmo palácio dos jantares de Natal, numa caricatura de Quixote, elogiando Sérgio Sousa Pinto e Ricardo Rodrigues.

Todos eles são combativos. Pena que faltem moinhos, com tanto ventania…

Hoje foi Sócrates II, na casa da democracia, fazendo má propaganda. Porque a boa propaganda é aquela propaganda que não parece propaganda. Temo que, entre os situacionismos e as oposições, continuem a faltar lugares comuns e sem estes não pode haver diálogo. Temo que os adversários se transformem em inimigos…

Dez 22

Domingo, entrevista

Perfil:

 

Assume-se da direita, porque é liberal à antiga, mas pensa ser um desencantado, sempre aliado aos sonhadores activos de todos os quadrantes, desses que querem viver como pensam, com saudades do futuro. Por isso, ainda tem esperança na politica embora a exerça fora do sistema das pressões das forças vivas e do conservadorismo da partidocracia. Peretence à antiquíssima academia dos homens livres e só por acaso está no circuito das honrarias univiversitárias, mobilizando-se bem mais pelo abraço armilar da lusofonia, esse caminho de afectos para a  urgente república universal.


1 -Acredita que o governo de José Sócrates vai resistir aos “ataques” das oposições e sobreviver a 2010, apesar da minoria parlamentar?

 

Sócrates pode resistir tanto como António Maria da Silva, dado que os instrumentos de controlo social da presente ditadura da incompetência, ainda tem suficientes recursos para que continue a teatrocracia de endireitas contra canhotos, para que os bonzos finjam que o rotativismo devorista permaneça. Quando, entre eles, se trocam qualificações como “inimputável”, “palhaço”, “vendido”, “esquizofrénico”, “aldrabice”, “trafulhice”, “tropa-fandanga”, “burrice”, eles apenas confirmam que o o Estado são eles. Vale-nos que temos um povo com brandos costumes, mas que, sem ser por acaso, é o que mais assassinou figuras cimeiras do Estado no século XX. Temam a revolta dos mansos!  Contrapartidas de armamento, trocas do BPN, afundações, baldrocas do BCP, sucatas e escutas, é, o grão a grão, com que se vai enchendo o papo. Não o da revolta. Não o da indiferença. Mas o do desprezo.

 

2 – É de esperar que algum partido da Oposição apresente uma moção de censura ao Governo? Qual he parece ser o partido mais disposto a avançar com uma iniciativa desse género?

 

O sinal dado pelo bolinho de mel do jardim madeirense em São Bento, se é menos do que um queijo limiano, pode ameaçar a funcionalidade da confraria do azeite porteira. Até o PS já concluiu que a democracia pode funcionar com o apoio do que apodava como défice democrático. A velha raposa de Alberto João, apesar de continuar a dizer que é perseguido por certa maçonaria internacional, tornou-se lebre….

 

3 – A acontecer um cenário de queda do actual Governo, como acha que os eleitores vão reagir?

Julgo que se vive uma espécie de degenerescência íntima do regime, naquilo que qualifico como privatização clandestina dos antigos serviços públicos, pela sublimação da velha engenharia feudal da cunha, destruidora da meritocracia. E tenho a consciência que alguém assumir um programa anti-estatista em Portugal, onde há quase um quinto do eleitorado a votar PCP e BE, como um enorme centrão socialista e social-democrata e um PP pouco liberal, será mera voz que clama num deserto de utopias intervencionistas que são a principal causa de sucessivas derrotas dos portugueses…

 

4 -  No PSD discute-se a liderança. É de esperar que o próximo líder consiga pôr o partido a falar a uma só voz, ou vamos continuar a ver o PSD dividido, continuando os ataques ao líder a ser a regra?

O PSD enredou-se na função de ser outra face da mesma moeda do rotativismo devorista. Aqui e agora, o situacionismo dos vários estados a que chegámos, sobretudo o dos micro-autoritarismos sub-estatais, já não teme esse tipo de opositores, os tais que podem tornar-se convivas da alternância na gamela. Apenas odeia os dissidentes que não se transformam na oposição que lhes convém e que não se confundem com os tradicionais inimigos da democracia. Apenas desejava que o partido de Sá Carneiro retomasse a sua pulsão libertacionista dos tempos da fundação.

 

5 – Educação e Justiça têm sido, nos últimos anos, as pastas mais sensíveis da governação. Que novidades podemos esperar nestas áreas durante o próximo ano?

Apenas recordo um Mouzinho da Silveira que, ainda no Porto, em plena guerra de pedristas contra miguelistas, logo se demitiu da pasta da fazenda, quando resistiu ao oportunismo das expropriações, a velha tentação absolutista, a que continuam a dar o nome de Estado… Aliás, quando acusam os liberais de anti-estatismo, esquecem que quem edificou o Estado Contemporâneo foram as revoluções liberais. E o nosso resultou do programa de Mouzinho da Silveira, quando centralizou os impostos que o povo sempre pagou, mas que no “Ancien-Régime” eram desviados para o clero e a nobreza, ordens às quais cabia as políticas de educação, saúde, defesa e segurança! Por mim, continuo a dizer que quanto mais estatismo, mais corrupção! Sobretudo quando surge o Estado-Empresário que se transforma em patrão, tanto através de “empresas públicas”, como de “empresas de regime”. Mesmo nos ditos países nórdicos da Europa, se há um robusto Estado-Companhia de Seguros, não há nenhuma tentação de intervencionismo na economia… Por outras palavras, o direito não é a vida. O direito vigente são meras relações jurídicas, isto é, uma minoria das relações sociais. Logo, nem tudo o que é lícito é honesto e a licitude nem sequer corresponde a um mínimo ético. Porque a moral  e o direito não são círculos concêntricos, apenas coincidem nalguns segmentos. Hoje foram totalmente confundidos pela teledemocracia.

 

6 – Em 2011 há eleições presidenciais, pelo que é de esperar que as candidaturas apareçam em 2010. O cenário de confronto entre Cavaco Silva e Manuel Alegre é o mais provável?

Hoje não há nomeações, mas eleições. Só que, em muitos cargos electivos, o colégio eleitoral é substituído pelos que podem lançar os nomes dos plebiscitáveis ao povo, isto é, vivemos num sistema bem mais gravoso do que o censitário, dado ser uma colecção de elegíveis, definidos pelos restritos electivos que os previamente eleitos nomeiam, para que, de eleitos, passem a elites que nada têm a ver com o mérito.Porque o essencial do poder conquistado (o estadão a que se chegou) é o mesmo procurar manter-se, com muita música celestial disfarçando o “apartheid”. Quem diz organização, diz necessariamente oligarquia, isto é, a degenerescência da aristocracia, e na véspera do cesarismo.

 

7 -  Em 2009, a relação entre Cavaco Silva e José Sócrates foi marcada por várias polémicas e desentendimentos públicos. O que podemos esperar do entendimento entre o Presidente da República e o primeiro-ministro?

Pouco interessa esse teatro de indícios que alimenta comentadores e analistas, como o tenho sido. O importante, em Portugal, não é ser ministro, é tê-lo sido. Sobretudo, quando ainda se têm colegas no poleiro. Sempre podem ser um importante elemento de consultadoria e pressão, por causa dos meandros da mesa do orçamento. E, entre um grupo empresarial de obras públicas e um estabelecimento de ensino, pouca é a diferença de pecado, na privatização já não clandestina do que deveria ser público.

 

8 -  Com o desemprego a pressionar as despesas do Estado e o défice das contas públicas em aparente descontrolo, será possível ao Governo manter a promessa de não aumentar mais impostos?

 

Quando os jornais, no século XIX, substituíram o púlpito, dizia-se que conquistar o poder era conquistar a palavra. Desde Kennedy que entrámos em mediacracia mais videopoderosa. Política já não é apenas o que parece, mas a percepção do homem comum sobre o que aparece e que pode não ser o que é previamente ensaiado pelas agências de comunicação. Por outras palavras, se é inevitável o realismo de quebra do ciclo do endividamento, com medidas drásticas, temo que continuemos a música celestial de mais “imagem, sondagem e sacanagem”.

 

9 – Quais são, no seu entender, os temas que mais vão marcar o debate politico em 2010?

Anda tudo irascível, sempre à procura do adjectivo demoníaco que dê uma desculpa para ninguém dialogar com o adversário. Todos parecem carecer daquela ciência certa do ideologismo e daquele poder absoluto que adora pisar o opositor com um insulto. Será que o novo D. Sebastião não passa de um contabilista que se assuma como disciplinador externo? Alcácer-Quibir ainda nos mata. Depois do “sebastianismo científico”, o do esquerdismo marxiano ou fascitóide, e do sebastianismo merceeiro, o da ditadura das finanças, há muitos que anseiam por um qualquer invasor suave que nos traga “a bela ordem”, sobretudo se ele chamar “libertação” à efectiva ocupação heterónoma das coisas e das mentes.

 

10 – A aprovação do tratado de Lisboa abriu lugar a várias mudanças na União Europeia. O que é que podemos esperar de diferente?

O sonho de sempre, uma Europa, nação de nações, sem um super-Estado, mas com uma democracia de muitas democracias. O resto é saber se o Sarkosy sai do eixo e passa a preferir Londres a Berlim, de acordo com o ritmo da nova “Weltpolitik” de Washington…

 

11 – A discussão sobre a regionalização está de volta ao debate politico. Haverá, desta vez, condições para se fazer uma reforma administrativa desta natureza?

 

Não sou socialista nem social-democrata, logo quero menos “Estados”, mais sociedade e mais autonomia dos cidadãos, enquanto indivíduos, porque importa reinventar o aparelhismo, para deixarmos de ter os “donos” do costume

Essa abstracção chamada Estado passou a ser a medida de todas as coisas e ai de quem diz que devemos ter menos aparelho de Estado na economia e na sociedade, sobretudo quando já não há apenas o Estado português a que chegámos, mas um “Leviathan” plural, desde a União Europeia ao modelo de globalização da hierarquia das potências…

 

12 – Em relação à sua vida pessoal e profissional , que projectos tem para 2010?

 

Acabar o livro dito científico que tenho em conclusão e voltar ao livro de poesia que está quase em ritmo de unidade de sonho. Isto é, continuar o programa de viver como penso, mesmo que venha a ser, mais uma vez, punido pelas máquinas do respeitinho. Tenho péssimas relações com o poder quando ele entra em ilusão revolucionária ou em decadência situacionista…O essencial da nossa permanecente crise é, como dizia Sérgio Buarque de Holanda, a grande dificuldade de adaptação às virtudes do cálculo que estão na base dos formais planeamentismos colectivos, esquecendo a procura do paraíso pelos homens concretos, com aventura e pragmatismo… O nosso individualismo tem a ver com a aventura, pela visão de um Paraíso, misto de riqueza mundanal e beatitude celeste. Quando somos criativos e imaginativos como povo, não costumamos rimar com comemorativismos nem com subsidiologia…

 

PS – A entrevista inclui o pequeno perfil do entrevistado, pelo que lhe peço que indique a sua idade e projectos profissionais em que participa neste momento, para além da docência no ISCSP

 

 

Dez 21

Mais aventura e mais pragmatismo, para sonhadores activos

Não salvámos o mundo em Copenhaga, Obama não foi o anjo do Quinto Império, e Deus não fez milagre, como dizia o presidente Lula. A próxima cimeira será no México, onde o aquecimento poluidor é mais sentido. Se tivermos menos mania das grandezas e soubermos distinguir clima de poluição, poderemos evitar o estrondo de tratados com sabor a concertos do novo Maio 68. Grão a grão, a república universal pode vencer!

Continuam os restos comemorativos dos dez anos de passagem da bandeira em Macau. Noto as televisivas intervenções do macaense presidente do Instituto Internacional de Macau e do goês presidente do Instituto do Oriente. Tudo palavras do habitual sincrético do chamado luso-orientalismo, ressaltando-se o “time is money”.

Prefiro reler Jorge Dias e Sérgio Buarque de Hollanda. O primeiro diz que o sonhador activo, que marca o carácter nacional é o exacto contrário do tal “time is money”. O segundo diz que o nosso individualismo tem a ver com a aventura, pela visão de um Paraíso, misto de riqueza mundanal e beatitude celeste. Não costumamos rimar com comemorativismo e subsidiologia.

Sérgio Buarque (na imagem), o pai do Xico que queria desaguar no Tejo e dizia que a festa era linda, bem reconheceu o essencial da nossa permanecente crise: a grande dificuldade de adaptação às virtudes do cálculo que estão na base do espírito da globalização apátrida. Nunca funcionámos com planos colectivos, mas apenas com a procura do paraíso pelos homens concretos, com aventura e pragmatismo…

Dez 16

Alcácer-Quibir ainda nos mata.

Alcácer-Quibir ainda nos mata. Depois do “sebastianismo científico”, o do esquerdismo marxiano ou fascitóide, e do sebastianismo merceeiro, o da ditadura das finanças, há muitos que anseiam por um qualquer invasor suave que nos traga “a bela ordem”, sobretudo se ele chamar “libertação” à efectiva ocupação heterónoma das coisas e das mentes. Sim! Tudo anda irascível, sempre à procura do adjectivo demoníaco que dê uma desculpa para ninguém dialogar com o adversário. Todos parecem carecer daquela ciência certa do ideologismo e daquele poder absoluto que adora pisar o opositor com um insulto. Será que o novo D. Sebastião não passa de um contabilista que se assuma como disciplinador externo? Aqui, o essencial no poder conquistado (o estadão a que se chegou) é o dito procurar manter-se, com muita música celestial disfarçando o “apartheid”. Quem diz organização, diz necessariamente oligarquia, isto é, a degenerescência da aristocracia, e na véspera do cesarismo, como é típico de todas as ditaduras da incompetência, plenas de bonzos, endireitas e canhotos.

Dez 15

Do poder nu aos anjos decaídos

Hoje, concluirei este habitual ciclo de intervenções públicas em actos de extensão universitária, desde arguição de dissertações e lançamento de livros a outros discursos que nunca divulgo, no “facebook” ou no blogue. Pelo menos, fico mais livre para outras intervenções, sobretudo para fazer a reportagem íntima de certas actividades daquele sacristão que perdeu o sentido dos gestos e a que chamamos regime.

Ainda por estes dias, em vários passos perdidos dos palácios da estadualidade, confirmava esta degenerescência íntima do regime, naquilo que qualifico como privatização clandestina de um antigo serviço público, pela sublimação da velha engenharia feudal da cunha, destruidora da meritocracia.

Os exemplos sagrados e profanos dos recentes episódios, de anjos que, depois da queda, se renomearam, metem ministeriais sumidades dos tempos crepusculares do antigo e do recente regime. O tempo está cinzento e gélido, com muitos cadáveres adiados que, mantendo a categoria do sacristão, se assumem como cardeais desta rede de micropoderes em que nos fragmentámos.

Bertrand Russell falava no mero poder nu, naquele que exprime uma forma de poder pré-político ou não político. Trata-se do poder que se exerce sem aquiescência dos submetidos, durante a conquista, por ocasião da colonização ou através do totalitarismo. Outros referem o poder totalitário, o que é marcado pela “Wille zur Macht”, o poder pelo poder, uma vontade que se fecha sobre si mesma, quando o poder deixa de ter um fim que lhe seja superior, dado que o fim do poder deixa de lhe ser exterior.

Prefiro recorrer ao conceito de anjo decaído, desse que, anteriormente, era um anjo bom. Porque o pecado é uma queda, consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram o Reino. E como invocava São João Damasceno: não há arrependimento para eles depois da queda. Continuo a preferir Albert Camus: o espírito revolucionário recusa o pecado original. E assim se atola nele. O espírito grego não pensa nisso. E deste modo lhe escapa.

Dez 15

Esta degenerescência íntima do regime

Ainda por estes dias, em vários passos perdidos dos palácios da estadualidade, confirmava esta degenerescência íntima do regime, naquilo que qualifico como privatização clandestina de um antigo serviço público, pela sublimação da velha engenharia feudal da cunha , destruidora da meritocracia. Os exemplos sagrados e profanos dos recentes episódios, de anjos que, depois da queda, se renomearam, metem ministeriais sumidades dos tempos crepusculares do antigo e do recente regime. O tempo está cinzento e gélido, com muitos cadáveres adiados que, mantendo a categoria do sacristão, se assumem como cardeais desta rede de micropoderes em que nos fragmentámos. Bertrand Russell falava no mero poder nu, naquele que exprime uma forma de poder pré-político ou não político. Trata-se do poder que se exerce sem aquiescência dos submetidos, durante a conquista, por ocasião da colonização ou através do totalitarismo. Outros referem o poder totalitário, o que é marcado pela “Wille zur Macht”, o poder pelo poder, uma vontade que se fecha sobre si mesma, quando o poder deixa de ter um fim que lhe seja superior, dado que o fim do poder deixa de lhe ser exterior. Prefiro recorrer ao conceito de anjo decaído, desse que, anteriormente, era um anjo bom. Porque o pecado é uma queda, consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram o Reino. E como invocava São João Damasceno: não há arrependimento para eles depois da queda. Continuo a preferir Albert Camus: o espírito revolucionário recusa o pecado original. E assim se atola nele. O espírito grego não pensa nisso. E deste modo lhe escapa.

Dez 14

O vazio de metafísica e a falta de bom senso, ou a democracia apoiada pelo défice democrático…

Leio a sondagem Aximage no Correio da Manhã: PS tem 32,5% e PSD 24,4%. CDS já vai nos 12% das intenções de voto. Cavaco volta a subir. Compreendo a propaganda do TGV. Entendo Almeida Santos quando reconhece a falta de bom senso de todos. Até do próprio reconhecedor do óbvio.

O sinal dado pelo bolinho de mel do jardim madeirense em São Bento, se é menos do que um queijo limiano, pode ameaçar a funcionalidade da confraria do azeite porteira. Até o PS já concluiu que a democracia pode funcionar com o apoio do que apodava como défice democrático. A velha raposa de Alberto João tornou-se lebre. Não tardará que todos tenham de engolir mais sapos vivos. Para o bem comum.
Se outro tivesse sido agredido como Berlusconi, o coro de solidariedade contra a violência seria uníssono, incluindo do nosso Bloco de Esquerda e dos habituais caça-fascistas da nossa praça. Desta feita, tudo se explica como uma espécie de vingança da mão divina através de um simples louco. Por outras palavras, a violência é sempre relativa, porque um bom revolucionário não pode ser humanista…
Os regicidas praticaram uma violência boa. O Júlio Costa, que assassinou Sidónio era louco. O massacre da Noite Sangrenta de 1921 foi a consequência deste paralelograma de forças. E o assassinato de Humberto Delgado, mero excesso de zelo de um funcionário que, graças à tolerância salazarenta, nem sequer recebeu uma maquiavélica reprimenda. Ficou protegida pelo segredo da Razão de Estado. Já não havia bom senso.
Todas as ordens normativas humanas, da moral ao direito, mantêm uma espécie de ligação primordial à pré-filosofia espontânea do senso comum, porque, por mais intelectual que seja o respectivo desenvolvimento, elas nunca conseguem quebrar as amarras que o ligam ao instinto. E ai do conhecimento, incluindo o científico, que deixe de ser um facto íntimo e próprio do espírito, para utilizarmos palavras de Antero de Quental. Aliás, o conhecimento científico, segundo o mesmo autor, constitui apenas a região média do conhecimento, entre o senso comum e o conhecimento metafísico.

Dez 11

Esta é a minha polícia

I

 

 

Por outras palavras, o direito não é a vida. São relações jurídicas, isto é, uma minoria das relações sociais, as que são legislativamente seleccionadas e coactivamente protegidas pelo monopólio da violência legítima a que se chama Estado. Logo, nem tudo o que é lícito é honesto e a licitude nem sequer corresponde ao tal mínimo ético, dessa ilusão de deixarmos para os detentores do poder a definição de códigos de conduta que devem caber apenas às autonomias individuais e grupais e são insusceptíveis de captura pelo decretino, pelo que vêm do vértice para a planície dos súbditos. Moral e direito não são círculos concêntricos, apenas coincidem nalguns segmentos. Aqui e agora foram totalmente confundidos pela teledemocracia. E às vezes até continuam a ser medidos pelos preconceitos do racismo social e castífero que nos encarquilha.

 

 

Quando os jornais, no século XIX, substituíram o púlpito, dizia-se que conquistar o poder era conquistar a palavra. Desde Kennedy que entrámos em mediacracia mais videopoderosa. Política já não é apenas o que parece, mas a percepção do homem comum sobre o que aparece e que pode não ser o que é previamente ensaiado pelas agências de comunicação. E quando falha a confiança no aparelhismo público, as comunidades tendem a regressar aos esquemas da vingança privada, nesse jogo perigoso dos tribunais da opinião pública, onde, pela simples imagem, o justo pode pagar pelo pecador e acabar como “inimigo público”.

 

 

Aqui e agora, o situacionismo dos vários estados a que chegámos, sobretudo o dos micro-autoritarismos sub-estatais, já não teme os opositores rotativistas, os tais que podem tornar-se convivas da alternância na gamela. Apenas odeia os dissidentes que não se transformam na oposição que lhes convém e que não se confundem com os tradicionais inimigos da democracia.

 

 

II

O povo, o povo soberano, que naquele dia tinha nas mãos o ceptro da sua soberania, não é menos dócil do que os irracionais que recordamos. O dia que devia mostrar-se orgulhoso, é quando mais se humilhava; quando podia dispor dos destinos dos seus senhores, é quando mais vergava a cabeça sob o peso que estes lhe assentavam. Não é semelhante esta força inconsciente do povo à do boi robusto e válido, que uma criança dirige e subjuga? Forte como ele, como ele dócil, como ele laborioso, como ele útil, não vê que a mesma força que emprega no trabalho lhe poderia servir para repelir o jugo. Ou, quando vê, é quando o desespero e a fúria, o cegam e impelem a revoltas tremendas (Júlio Dinis, ou um liberal à antiga descrevendo um acto eleitoral do rotativismo devorista).

 

III

Porque a força da inércia é mesmo a força maior destas forças vivas que nos enredam, dessas volutas de quem, olhando para o próprio umbigo, agrava a trindade da “imagem, sondagem e sacanagem”. Todos esses que só vislumbram, diante do olhos, ramos e ramos que nos embaciam a compreensão do todo. Porque só se “com-preende” quando se “prende com”, isto é, coisa com coisa, através de uma adequada intuição da essência.

 

 

Aliás, toda a luminária retórica, de todos os regimes em decadência, vive da laudatória ideologista, perdendo-se em estupidificantes discursos de conformismo, com muito texto sem contexto, com muito movimento, gestual e verbal, sem ensimesmamento nem maturidade, onde, na prática, todas as teorias passam a ser outra coisa, mas sem natureza da coisas, porque, por dentro delas, as coisas já realmente não são, não passando de meros restos moldados pela música celestial de um falso politicamente correcto.

 

 

Porque, afinal, já há tortura, espionagem política, coscuvilhice, suspeitas, já entrámos, disse o primeiro, em verdadeiro totalitarismo. Ai de quem perde o sentido dos gestos. Pode passar a mero sacristão. Quando precisávamos de mais. Isto é, de mais além. De decisões em tempo de excepção.

 

IV

 

Há uma rede de micropoderes, de poderes centrífugos, locais, familiares e regionais, com uma variedade de conflitos, dotados de articulações horizontais, mas onde também surge uma articulação vertical, uma integração institucional dos poderes múltiplos tendente para um centro político, para um poder centrípeto.

Entre esses vários micropoderes, importa salientar os chamados poderes difusos que actuam pela persuasão e pela sedução. É o caso do poder dos meios de comunicação social, dos “mass media”, dos suportes da difusão da comunicação, como é a imprensa, o rádio e a televisão, a quem têm chamado o quarto poder.

Mas actividade de todos estes grupos não se processa no vazio, mas antes dentro de um quadro estrutural e de acordo com certas regras do jogo. Há, com efeito, uma estrutura de rede (network structure), uma relação de relações, uma rede de micropoderes, um macrocosmos de macrocosmos sociais.

Há um poder político, um campo concentrado, uma governação que trata de coordenar o processo de ajustamento entre os grupos, procurando um ponto de equilíbrio entre as tensões. Neste sentido, o Estado é perspectivado, não como uma coisa, mas como um processo relacional, entre a sociedade civil, ou comunidade, e o aparelho de poder, como o mero quadro estrutural de um jogo entre forças centrífugas e centrípetas, toda uma miríade de poderes periféricos, não necessariamente hierarquizáveis como corpos intermediários, que se justaporiam, de forma complexa, pelo que a soberania, na prática, seria divisível e, sobre o mesmo espaço e as mesmas pessoas, não teria que haver o centralismo e o concentracionarismo de uma única governação.

O político é uma invenção marcada por uma estratégia que globaliza várias micro-estratégias, onde há uma especial forma de poder, o poder político, a síntese emergente, integrante de vários micropoderes, onde uma multiplicidade de actores actua numa determinada unidade, em quadros estruturais, em circuitos institucionalizados.

 

V

Claro que nunca sou capaz de desenhar, numa folha de papel em branco, uma linha recta perfeita. Claro que, por isso, recorro a instrumentos de aperfeiçoamento, como as réguas (regras, em sentido etimológico) e os esquadros (normas). Claro que sei que tanto o Estado como o Direito são meros normativos. Especialmente quando o Estado deixou de ser Razão de Estado e passou a ser Estado-Razão e o Direito passou do Decreto do vertical absolutismo à Lei vinda do Povo. Até porque também nunca houve Povo e, conquentemente, Democracia. Não houve nem vai haver. Ontem e hoje. Aqui e em qualquer lado, onde haja o dever-ser que é e esse transcendente situado, a chamamos justiça e que não se confunde com o burocrata que diz ser ele esse serviço em figura humana.

 

 

Mas o aparecimento do Estado resultou de uma operação de juridificação da política, quando deu direito a uma sociedade senhorial e civilizou uma comunidade guerreira, assumindo-se como o direito contra o poder, a paz contra a guerra. É um pouco de filosofia política, para enriquecimento cultural de sociólogos-ministros.

 

 

O Estado de Direito resultou de uma dupla operação : – juridificação da política – e constitucionalização do poder. Deu direito a uma sociedade senhorial; civilizou uma comunidade guerreira citações de minha mestra Blandine, que é francesa, judia e tudo).

 

 

O Estado de Direito equivale à velha expressão de Plínio, dirigindo-se a Trajano, quando aquele proclamava que inventámos um Príncipe para deixarmos de ter um dono. Para, em vez de continuarmos a obedecer a outro homem, podermos passar a obedecer a uma abstracção, utilizando as categorias de Georges Burdeau.

 

 

O Estado de Direito não é o império da lei, de acordo com essa tradução em calão que muitos fazem de “rule of law”. Porque “law” não é direito, nem “rule” é império. Acima da lei está o direito. Acima do direito está a justiça. E nem sequer a lei é ordem ditada de cima para baixo. Nem por uma maioria absoluta.

 

 

Descendo à terra ensopada pela necessária chuva de Novembro, vi outra coisa no plano do normativo. As declarações de Vieira da Silva sobre espionagem política são pior emenda que o soneto. Tenham calma, governantes! Ai de nós se os processos mais mediáticos em curso transformarem o Primeiro-Ministro num dilatório de apitos dourados e campanhas negras. Atingiremos o grau zero da futebolítica!

 

 

Aqui não há Mafia como na Itália. Nem terrorismo como em Espanha. É tudo um problema de competência, ou de falta dela… Não foi aqui que o processo das FP teve a mesma polícia, a mesma magistratura, o mesmo governo e a mesma presidência, como instituições? O juiz mais em evidência até não era simpatizante do principal arguido? Que raio de vírus afectou os aparelhos?

 

VI

O direito não é a vida, são relações jurídicas, uma simples minoria das relações sociais. E os processos não são o mundo. São metalinguagem de um teatro de formalismos, onde até se tinge o paradoxo de proclamar-se que “quod non est in actis non est in mundo”. É hipócrita pedir a polícias e magistrados que façam moral ou que façam política. Como é igualmente hipócrita que políticos finjam que aquilo que é lícito equivale a um certificado de honestidade.

 

 

Em vez do hipócrita Frei Tomás, desse que vai pregando sem o fazer, prefiro mesmo o São Tomás que foi sempre teólogo e papista. Estou farto dos Tomásios que não são Américos só porque não foram Reverendos. O estado a que chegámos são eles. Os mexilhões são os mesmos.

 

 

Glosando Camus, podemos dizer que, depois da era dos filosófos, poderá ter desaparecido a filosofia, apesar de tantos professores de filosofia, desses que apenas ficham o pensamento pensado, sem qualquer resto de pensar, e até do pensamento pensante. Agora chegou a vez dos gestores que não sabem gerir, esses maus exemplos que saltitam entre públicos e privados, privatizando o público e falindo os privados, mas enfilosofando-nos em sermões que os amigalhaços têm que afixar na vitrina.

 

 

Sócrates, político, só poder ser politicamente defendido e atacado. Não deve ser atacado através de uma fuga ao segredo de justiça. Não se pode defender, proclamando que o povo votou e que o povo é quem mais ordena. Há uma teoria pura da política. A que lhe dá o valor justiça como estrela do norte.

 

 

Justiça não se confunde com a constitucional administração da justiça. Que é tão política quanto o poder executivo, ou o legislativo. Aquela tem que aplicar a lei e não é ela que a faz. E acima da lei está o direito, tal como acima do direito está a justiça que, em cada momento, se expressa através dos programas ideológicos dos ideais conjunturais de sociedade, sem encontros imediatos de primeiro grau com a dita.

 

 

O justicialismo está para a administração da justiça, tal como a politiqueirice está para a actividade política, ou o pretenso moralismo para os fariseus. A medida está naquilo que nos falta: uma moral social, comunitariamente assumida pela autonomia da sociedade civil e pelos seus filhos mais queridos, a liberdade de expressão e a liberdade de pensamento.

 

 

A medida ou o padrão da torta vida que temos é a régua (de “regula”, isto é, de “régua”), tal como norma vem de esquadro, e tal como a ideia que nos deve reger é a recta que traçamos numa folha em branco e que se aproxima do paradigma de recta que todos devemos trazer dentro de nós. Até o “ius”, o latino “direito”, veio da expressão “ius de rectum”, porque ele normalmente fica torto, quando os pratos da balança se desequilibram pelas desigualdades que a vida traz, ao gritarmos “isto é meu”.

 

 

Direito de “de rectum” é o que põe direito o “ius” torto pelos interesses da luta pela vida e da luta pelo poder, onde quem mais tem poderes mais faz pender para o seu lado o prato, o “lanx”, da “bi lancia”. E a deusa que a sustenta, com espadalhão maior e mais potente, ao colocar a venda nos olhos continua a ser a única que a endireita. Juiz é aquele que escreve direito por tantas linhas tortas…