Vários companheiros republicanos, à cinco de Outubro, manifestaram-me extrema preocupação pela circunstância de José Saramago nada dizer sobre a forma de regime da sua proposta de “Ibéria”, vociferando alguns deles sobre a hipótese da projectada união poder caber aos actuais Bourbons e a Filipe V, se reunirem as Cortes de Tomar. Por mim, continuarei a subscrever as “Alegações de Direito” a favor da proposta de reeleição da casa de Bragança, sem nova batalha de Toro ou ocupação de Olivença. Sugiro apenas que se mude rapidamente a actual tipificação penal sobre a matéria, através de um “blitz” de agendamento potestativo, porque corremos o risco de um qualquer patriotorreca apresentar uma queixa-crime sobre a matéria. Porque Saramago assumiu a sua missão de indiscipilinador e fê-lo muito bem, dizendo em voz alta o que outros têm dito baixinho. Julgo que seria útil convidá-lo para um urgente debate sobre a estratégia nacional portuguesa, coisa que poderia ser desencadeada pelo parlamento, se nenhum deputado cá das berças provinciais ousar quebrar o politicamente correcto do silêncio sobre a matéria. Continuarmos a tratar da questão aberta como um “fait divers” é ofendermos o Prémio Nobel e esquecermos que mesmo na segunda metade do século XIX isso aqueceu os ânimos parlamentares. Até António Enes chegou a escrever um opúsculo em defesa dos “Estados Unidos da Europa”, para nos livrarmos de Madrid. A matéria é mais importante do que a movimentação dos santanistas e dos barrosistas sobre os sapatos do defunto ou as diatribes antiportistas sobre o lugar do morto. Todos sabemos a causa que levou Saramago a não assumir a ofensiva de federação republicana ibérica, à Francisco Pi y Margall. A maioria dos republicanos convictos do lado de cá não quer ser “provintia”, de “pro” mais “vincere”. Voltaram a 1140 e sabem que Aljubarrota mais Toro é igual a zero, como proclamava José de Almada Negreiros.