Foi em Dezembro de 2005 na Universidade de Brasília, onde tive a honra de participar num júri de doutoramento (uma “banca”), a que se sujeitou uma jovem professora lusitana, minha antiga aluna de licenciatura, talvez a primeira portuguesa a praticar ao vivo este tipo de cooperação activa entre universidadades lusófonas, sonho como poderíamos ter saudades de futuro se largássemos o ritmo dos discursos da diplomacia do croquete e das viagens de turismo universitário, passando a cumprir o legado de Agostinho da Silva.
Foi em pleno sertão, longe das polémicas da micropolítica lusitana que voltei a sentir a braveza do português antigo, bandeirante do sonho, retomando aquele profundo direito à indignação e à revolta, contra os que, provincianamente, transformaram o Velho do Restelo numa estreita lógica de mercearia financeira, candidatando-se a meros bons alunos de imperialismos estranhos à nossa índole, tal como Cristóvão de Moura e Miguel de Vasconcelos.
Como sempre, levei comigo os textos de Gilberto Freyre, agora actualizados pelo meu amigo Vamireh Chacon, em “A Grande Ibéria”. Apenas repeti Fernando Pessoa: quanto mais ao povo a alma falta, mais minha alma atlântica se exalta. E assim compreendi como ser português universal é o mesmo do que ser brasileiro, esse português à solta, como lhe chamava Manuel Bandeira.
Foi nessa cidade do sertão que o sonho de Juscelino edificou que a jovem portuguesa Raquel Patrício se tornou na primeira doutorada pela Universidade de Brasília em Relações Internacionais, de acordo com o programa lançado há quatro anos.
A banca presidida pelo Professor Amado Cervo, contou com a presença dos professores Estêvão Martins, Norma Breda Santos e Vizantim. Fui o arguente estrangeiro convidado e tivemos a honra de ter, entre a assistência outro aluno e docente convidado do ISCSP, o Embaixador Francisco Seixas da Costa. O espírito desse grande português e brasileiro que participou na fundação da Universidade de Brasília, chamado Agostinho da Silva esteve sempre presente. Julgo que todos fomos portugueses à solta e que importa fomentar esta importação de estrangeirados vindos do Sul da lusofonia, porque talvez assim se possa cumprir o objectivo estratégico de reaportuguesarmos Portugal…
Reparei como os donos do poder da globalização, incluindo os que emitem o discurso cultural da superpotência que resta, a república imperial norte-americana, se admitem democracia para os cidadãos do respectivo centro, quando exportam a respectiva influência pelos senhorios do comércio, da navegação e da própria conquista, continuam a hierarquizar os efeitos do respectivo poderio, com uma sucessão de povos aliados, dos mais livres aos mais estipendiários, aos dominados pelo ritmo feudal-patrimonial. Há, com efeito, uma geometria variável de dependências, onde se detecta uma “newspeak” de certo pensamento pretensamente único, uma espécie de totalitarismo doce em cujas teias, todos nos vamos amarfanhando, como autómatos de uma abstracta voz do dono.
Os grandes donos deste poderio tanto não têm pátria como não têm verdadeiros amigos. Obedecendo à rigidez lógica do “ai dos vencidos”, logo “lavam as mãos como Pilatos” quando os anteriores serventuários são condenados à derrota, não reparando que foram usados e deitados fora. Entretanto, fica-nos um multitudinário “big brother” que reduz os indivíduos a meros consumidores e auditores, como simples elementos fungíveis, onde se nota a crescente proletarização das antigas classes médias e das profissões ditas intelectuais, onde o próprio espírito se reduz a simples elemento de produção de um mero serviço, sujeito às flutuações do mercado e à ditadura do mediático.
É por isso que em Brasília, tentei ir além daquilo que António Ferro considerava os Estados Unidos da Saudade e reparar como Brasil e Portugal, se mobilizarem os restantes países lusófonos, poderão afinar, pela língua e pelos afectos, a principal língua do hemisfério Sul. E basta aliarmo-nos globalmente aos nossos irmãos de língua castelhana para cumprirmos o sonho de Oliveira Martins, expresso nas últimas páginas da sua História da Civilização Ibérica. Só quando estou no Brasil e penso o abraço armilar é que não me incomoda o iberismo, este necessário eixo cultural que pode equilibrar o Ocidente, preso em demasia à ilusão anglo-americana.
Há que ingressar, de vez em quando, no tempo que vamos esquecendo. Que regressar a esse poiso que nos sustenta. Na tal imanência que é transcendência, no devagar regresso ao profundo silêncio da leitura daquelas obras que não têm princípio nem fim.
Bem precisamos, portugueses e brasileiros, de diálogos transversais que entendam esta nossa pluralidade de pertenças. Porque importa navegar nas ondas de um mar interior que nos deu ensimesmamento e porque, para continuarmos a navegar, nesse navegar é preciso, temos de nos converter ao signo maior de um tempo que tem de ser. Esse comunitário amor universal que é diluir-nos em todos os outros.
Porque, quando a viagem nos faz peregrinos, eis que podemos ser romeiros de um sentido que transforma cada um dos nossos passos em missão. E todos os que são bafejados pela força desse sentido nunca terão um sítio que os limite. Em todo o mundo poderá haver a nossa terra. Viajemos, pois, com o sentido da viagem, sem a mácula daquele que tudo pensa poder captar porque apenas viaja para fazer suas preconceituosas sensações, já registadas por outros. Sem que lhe apeteça ser Pero Vaz de Caminha. Porque não se sente parcela da mudança, dessa tal viagem onde apetece cumprir livremente nosso destino. Quando importa sermos sempre os mesmos em qualquer lugar, mas convertendo-nos ao espírito da mudança. Porque, se formos desenraizados pelo preconceito da abstracção, apenas conseguiremos ver aquilo que é a confirmação das nossas próprias previsões.
Porque, parafraseando Agostinho da Silva, é dever do mestre fazer com que seu discípulo seja o que é; para o transformar nele mesmo, só tem que deixá-lo ir sendo, consigo e todos e tudo aprendendo o que é; e, a cada experiência com ele o mestre reflicta. Eis-me, portanto, parcela desta viagem, por acaso parte de uma viagem que apetece, deste cumprir livremente a missão e o destino que nos são propostas.
Até porque “a fonte do poder não é, para portugueses, nem delegação de transcendências, nem figuração de imanências, nem contrato ou consenso; a fonte do poder é a unidade essencial do homem, da paisagem e do sonho que numa e noutro anda; o poder emana das aldeias no curtido das faces, na aspereza das rochas, no fumo das lareiras, no mugido dos gados, no escampado horizonte, na imobilidade e no gesto, no silêncio e na palavra; o primeiro elemento é o do homem e o seu chão e o seu cão; depois se forma a aldeia, ainda pequena e desvalida para ser política; mas com o município a primeira república se forma e sobre ela tudo o resto se tem de modelar; a Federação começa aqui; com a junção das economias aldeãs; a catedral começa aqui; com esta pedra de muro ou este ladrilho de piso; conhece a nau seus primeiros redemoinhos nas águas bravas do cabril; e é o primeiro Reino o deste Rei, com o seu chão e o seu cão; repeti-lo não sobra”
José Adelino Maltez