Jun 17

Entre Jacinto Leite Capelo Rego e A. Bramão & H. Raki

Domingo de quase Verão, com carantona de invernia. São poucos os pedaços de azul que vislumbro, mas lá vou procurando, por entre as penumbras cinzentonas deste ambiente de ópera bufa. Reparo que o António Balbino Caldeira corre o risco de tornar-se o numa espécie de simbólico arguido do regime, e logo respondi ao desafio: Meu caro António Balbino Caldeira. Fui sua testemunha, em nome da verdade, na primeira vez em que, através de si, a blogosfera se sentou num banco dos réus. Não o tenho acompanhado nalgum argumentário e no modo como tem defendido algumas causas. Até tenho alinhado em causas que são contra as suas causas. Por isso mesmo, estou profundamente consigo, para poder estar sempre com a liberdade. Vamos todos pedir, viver e praticar justiça! Na próxima barricada, com muitas saudades de futuro.

 

José Adelino Maltez | 16.06.07 – 11:53 am

 

 

 

Temo que o nosso ministério público, perdido em tantas notas pé de página, não consulte o essencial do texto, talvez por não ter suficiente formação em hermenêutica bíblica. Seria interessante que interrogasse D. António Marcelino por causa do artigo que o mesmo publicou no jornal Correio do Vouga, face à denunciada cabala de conspiração contra o regime. Seria curioso que contratasse o Professor Paulo Morais para perito em matérias de pato-bravice. Ou que fizesse uma acareação entre o Professor Marcelo Rebelo de Sousa e o Professor Saldanha Sanches, para que dessem conteúdo probatório a todos os conceitos que utilizam, ao abusarem do epistemológico método indutivo dos casos práticos, oriundos da velha técnica da imaginação criadora dos académicos exemplos.

Aliás, para exemplificarmos o que é um grupo de pressão, nada melhor do que recorrermos às inconfidências de um representante da Associação Comercial do Porto, sobre as recentes movimentações aeroportuárias nos corredores de Belém e de São Bento. Ou notarmos a aflição com que se debate um qualquer recém-chegado conselheiro de uma qualquer grande embaixada, especialista em informações estratégicas, quando tem que mandar, para a respectiva capital, um telegrama a explicar quem é o militante do CDS Jacinto Leite Capelo Rego, que não é especialista em crítica cinematográfica. O recém-chegado conselheiro, que ontem almoçou com o presidente do conselho de administração da firma A. Bramão & H. Raki, apesar de ter tirado um curso de português por correspondência, ainda não compreendeu que somos uma esquizofrénica herança de teorias da conspiração e anedotas porcas, fórmulas que sempre usámos para aliviarmos a pressão dos autoritarismos e micro-autoritarismos que sempre nos esmagaram.

Agora já não podemos usar desse vernáculo nos corredores das repartições públicas, temos que o utilizar no âmbito do direito à manifestação quando o primeiro-ministro faz visitas de fim de semana inaugurativas, a uma qualquer cidade de província, onde tudo como dantes já não dispõe de quartel-general. Mas se acabar por vingar o conceito de poder da directora Margarida Moreira, seremos sucessivamente afogados por mais margaridices e mais providências cautelares, com mais delegados do ministério público a lerem mais memórias de carolinas salgados e mais artigos em jornais regionais de mais bispos resignatários, com mais peças de investigação jornalística sobre a maçonarias, os opus dei e os copus night, escritos por ex-maçons e ex-frades, que se dizem professores universitários, para que a energia criativa de mais paulos portas sejam portizados pelos feitiços que o mesmo semeou e que agora se voltam contra o feiticeiro, por causa de um qualquer jacinto leite capelo rego, enquanto zé ribeiro e castro, de forma pouco cristã, esfrega as mãos de pilatos em odemira sobre o reno.

 

No intervalo, a democracia continuará a ser parodiada, com doze candidatos a presidentes da câmara alfacinha, enquanto Joe Berardo se vai transformando num excelente candidato a presidente da república, em nome de um programa de capitalismo popular para self made men. Há pelo menos seis milhões de benfiquistas que já ficaram convertidos, apesar de não terem visitado a exposição patente na Assembleia da República…

É neste ambiente épico que a pátria lusitana se prepara para assumir a presidência daquela União Europeia, onde a Polónia, donde veio João Paulo II, passou a ser gerida pelos gémeos que não seguem os sábios conselhos de Angela Merkel para a elaboração do minimalista tratado com que Sarkosy se poderia entender com Blair, apesar de Mário Soares não gostar destes dois últimos e nada dizer sobre os gémeos. O futuro da Senhora Europa continua a ser debatido por jovens octogenários e nonagenários, como se estivesse a discutir um testamento ou um regime de inventário…

O recém-chegado conselheiro da tal embaixada, que ainda anda às voltas com a teoria de luta contra o terrorismo, emitida por Almeida Santos, por causa da ponte Vasco da Gama, acabou de transcrever a sessão de homenagem a Pinto da Costa que teve lugar na câmara municipal de Soure, mas não sabe o que quer dizer o símbolo dos dragões. Aconselho-o a visitar a blogosfera lusitana, ou a pedir um relatório sobre a dita, de preferência à Direcção-Regional de Educação do Norte, dado que os gabinetes de imprensa dos actuais membros do governo ainda não dispõem dos necessários consultores blogosféricos, como os manhosos difusores do segredo de justiça, formados nos bares de crimino-lojistas, anexos á Gomes Freire. Les portugais sont toujours gais…

Se a autonomia da nossa sociedade civil e as consequentes relações desta com o nosso querido poder político têm a dimensão daquilo que Rui Moreira vai contar hoje no “Diga Lá, Excelência!”, como posso eu confiar nos gestores do dinheiro dos meus impostos? Não há democracia possível se o Estado for este lui. Por mim, apenas gostaria que um qualquer parlamento pudesse promover uma qualquer comissão de inquérito a estas movimentações, cumprindo as tais regras mínimas de qualquer comunidade política, onde os valores da cidadania são superiores à disciplina partidária e aos cálculos oportunísticos dos que esperam um convite do chefe para serem renomeados como deputados. O Otagate e o Alcochetegate cheiram mesmo a uma water que parece choca e a gates, onde cada um de nós pode dizer que não é o um nem é o outro, mas mero pilar da ponte do tédio que vai de nós para a risada com que nos tratará o futuro.

Jun 16

Como vamos caçar formigas com o DIAP se não enxergamos os elefantes nesta lojeca de chinesíssemas porcelanas?

Julgo que sou um velho liberal com modestas provas dadas, mesmo a nível do aparelho de Estado, como técnico que fui do extinto ministério do comércio e adjunto político de governos da mesma área. Mas também julgo nunca ter prestado uma só hora do meu suor em avenças, consultadorias, subsídios ou contratos com entidades empresariais, à excepção de uma universidadezeca privada, em regime de “part time”, onde, aliás, fui explorado. Pelo menos, posso invocar, desses tempos da minha meninice curricular, ter estado na base da revogação dos preços controlados, ou na viragem para a instauração de um modelo concorrencial, quando a maioria dos peritos estaduais meus colegas ainda era adepta do 11 de Março, ou da interferência do corporativismo salazarento. Estive também com Lucas Pires, no Largo do Caldas, como membro eleito da sua comissão política, ou como um dos pioneiros do Grupo de Ofir. Tal como participei como membro estadual em várias instâncias julgadoras de multinacionais e assumi funções de vice-presidente do comité de práticas comerciais restritivas da UNCTAD, eleito como candidato do grupo OCDE. Tudo antes de 1989. Isto é, não falo apenas de som palavroso e de abstracções conceituais. Negociei taxas sobre biqueiras de sapatos em Genebra e sei o que foram tabelas de preços de cafetaria, tal como despachei sobre processos da Coca Cola, ou de hipermercados, aconselhando sempre o não intervencionismo. Conheço, de experiência vivida e mãos sujas em compromissos cívicos e políticos, estes meandros e até fiz a carreira toda, de técnico de segunda a assessor, com passagem por chefe de divisão, director de serviços e subdirector-geral, antes de moder dedicar doutoralmente a filosofices. Hoje, como professor catedrático de nomeação definitiva, sou mero funcionário da comunidade, com concurso público que me dá independência igual à que costumam ter todos os que têm o mesmo estatuto nos países mais liberais e capitalistas do mundo que, sem ser por acaso, também são os menos corruptos e aqueles onde o Estado é mais respeitado, sem evasões fiscais e com rápidas condenações dos vigaristas, como ainda recentemete sucedeu com os USA de George Bush. Agora, tenho orgulho de poder dizer que o meu único patrão é a república dos portugueses, com quem me contratualizei em dedicação exclusiva. Daí que tenha as mãos livres para denunciar tanto os nossos estadualistas de trazer por casa, pintados de socialistas à onze de Março, mas pós-revolucionariamente convertidos à economia mística, como os herdeiros da União dos Interesses Económicos de Alfredo da Silva, que consideram os servidores do Estado como feitores dos respectivos interesses. É como liberal que aqui protesto solenemente contra a manifesta arrogância de alguns agentes patronais, na sua procissão demonstradora da vergonhosa interferência do poder económico sobre o poder político, mesmo quando arrogantemente se abstêm de referir o financiamento partidário e os empregos que foram dando a políticos desempregados. Ao menos, na I República, quando foi constituída a União dos Interesses Económicos, o grupo de pressão assumiu a forma de partido político e foi a votos. Hoje, a entidade que se assume como sucessora dessa estrutura prefere as reuniões com as cúpulas governamentais e presidenciais, impõe o segredo de negócio, e o patrão dos patrões, sem qualquer pudor, declara, um pouco desleixadamente, sobre um ministro em funções, que ele já deu provas que é um bom funcionário e faz aquilo que se lhe pede. Julgo que já Platão distinguia claramente a plutocracia da democracia. Tal como os democratas e liberais contemporâneos não confundem aquela com o capitalismo e sabem que o Estado moderno e o libertacionismo individual sempre foram irmãos gémeos do mesmo capitalismo democrático. O Governo, a Assembleia da República e o Presidente da República não podem ser feitores de interesses particulares. Mesmo que não queiram, ou não saibam, ler a Constituição nos seus pormenores de pequena letra e pequeno espírito, são obrigados a servir a ideia de Constituição e os fundamentos de qualquer comunidade política. Julgo que mesmo um destes juízes partidocráticos do Tribunal Constitucional pode escrever, numa folha de A4, um bê-á-bá de mínimos de um Estado de Direito ao serviço do bem comum. Pior ainda, quando a quase totalidade dos agentes que representam a república se diz detentora de uma ideologia dita socialista democrática ou social-democrata. Por mim, como liberal, apenas digo que não há liberdade económica se for extinta a res publica, através deste processo amplo de leilão do poder que sempre foi a pior das formas de corrupção. Como vamos caçar formigas com o DIAP se não enxergamos os elefantes nesta lojeca de chinesíssemas porcelanas?

Jun 15

A democracia seria o melhor dos regimes políticos caso fosse possível sanear todas as oposições

O verbo mandar no Portugal a que chegámos é coisa que serve para pegar em meia dúzia de cláusulas gerais e conceitos indeterminados e transformá-los em personificações nominativamente diabolizantes. Tal verbo tanto serve para o senhor presidente elevar um qualquer às dignidades da comendadoria, como para o governo transformar um qualquer geronte, desempregado político ou amigalhaço numa das personalidades de elevado mérito a quem será atribuída a função de governação das universidades. No intervalo, pode servir para outro qualquer sub-burocrata determinar quem deve ser passível de acusação por grave desinteresse pelo cumprimento dos deveres gerais de lealdade e correcção. O anexo para que faço ligação é um belo paradigma educativo dos nossos tempos, constituindo peça antológica que permitirá detectar as risadas dos vindouros, quando fizerem uma pesquisa sobre a linguagem de corredor usada por gentes do Norte. Espero que o meu velho amigo, juiz do Supremo Tribunal de Justiça, com quem costumo ir ao futebol, confie no meu silêncio. Não direi de idênticas comparações que ele fez entre um alto dignitário do estadão e o árbitro do jogo. Ambos andámos, embora com uma geração de intervalo, na mesma faculdade de direito de Coimbra, quando ela era poluída maioritariamente pelo vernáculo da Imbicta, mantenedor de pornográficas expressões latinas, impróprias para educadores da infância desvalida. Aliás, se um qualquer director-geral for à blogosfera não anónima, pode, com extrema facilidade investigativa, encontrar alguns dos seus funcionários a incorrer na violação do normativo invocado pelo instrutor brigantino, incluindo magistrados, funcionários dos serviços secretos e professores liceais e universitários. Do mesmo modo, se entrar na via da ficção menos informática, detectará inúmeros repetidores das farpas de Eça e Ramalho, dos gatos de Fialho e do antónio maria do Bordalo. E haverá sempre um cinzento instrutor processual com que será extremamente fácil voltarmos ao regime dos inquisidores e dos pides. Basta que os ministros e deputados tratem de lavar as mãos como Pilatos e que este país entre em regime de anedota. Lembro-me apenas de quem chamou canalha a um ilustre colega deputado e ainda correm pela Net as belas referências vernáculas do deputado Francisco Sousa Tavares emitidas em São Bento. Julgo que, para ultrapassarmos o impasse, basta que, em todos os serviços públicos, o futuro simplex possa introduzir a figura do provedor psiquiátrico, a fim de evitarmos que surjam futuros confrontos entre o “Hamas” e a “Fatah”, cabendo, em primeiro lugar, a tal provedor detectar todos os dirigentes, incluindo os eleitos, que padecem de graves distúrbios típicos das personalidades autoritárias, nomeadamente os que fazem listas de pessoas de não confiança e as decretam solenemente em reunião oficial. Com efeito, todos os homens de boa vontade percebem que no universo concentracionário da burocracia, antes da chegada do ambiente kafkiano, ameaça sempre a tragicomédia dos semeadores do subsistema do medo, essa herança pós-totalitária que, misturada com os favoritismos partidocráticos e neofeudais, pode levar a que a maioria do país entre em greve de zelo. Basta que o chefe divida o mundo entre os bons e os maus, onde bestiais são os que lhe dizem sim e bestas todos os que lhe dizem não, incluindo os que até à véspera eram bestiais, só pela circunstância de terem passado de apoiantes eleitorais e abstencionistas. O pessoal de confiança tem melhores hipóteses. Pode fazer viagens de trabalho à custa do erário público. Pode ser nomeado para qualquer lugar onde haja suplementos de vencimento. E até pode ser nomeado instrutor processual em futuras indagações sobre quem não é leal ou correcto. O pessoal do segundo grupo está pura e simplesmente tramado. Com está tramada a democracia da sociedade pluralista, aberta e competitiva que, para eles, seria o melhor dos regimes políticos caso fosse possível sanear todas as oposições, incluindo as que manifestam espírito subversivo e contra-revolucionário, nessa mistura de Salazar com Estaline, onde não pode haver ninguém com direito à indignação.  Todas estas palavras não pertencem à ficção, mas à história do nosso querido quotidiano de persigangas. São de um aqui e agora, pleno de vindictas e de invejas, com muitos meninos birrentos elevados à categoria de chefes, subchefes, serviçais e bufos. Como aquele que aqui vai a este postal e o leva imediatamente ao birrento-mor, antes de sugerir ao jornalista avençado a quem prometeu defender o gancho que coloque o autor destas linhas no pelourinho.

Jun 14

Devorados pelo decretino e incinerados pelo socratino, restam as proféticas vozes que clamam no deserto

O sector estatizado da nossa universidade, onde o quantitativo vai destruir o qualitativo multissecular, devorado pelo decretino e incinerado pelo socratino, passará a deserto, susceptível de ocupação pela racionalidade importada. Por mim, estou disponível para activista de quem venha por bem, mesmo que sejam os habituais grupos da geofinança que nos qualificam como província (de pro mais vincere), isto é, como terra do tal veni, vidi, vinci, feita res nullius pelos actuais partidocratas, alguns dos quais nos governam. Apenas acrescento que entre a CIP e o conceito de sociedade civil da esquerda analisada por Saramago, há aquilo que muitos anglo-americanos qualificam com neocorporatism, isto é, um especial processo sócio-político distinto do pluralismo, em que os grupos de interesse voltam a ser uma espécie de corpos intermediários entre a comunidade e o aparelho de Estado, constituindo organizações quase monolíticas, em número limitado, onde, contrariamente ao pluralismo, no qual as organizações são rivais, é o centro do aparelho de poder estadual, incluindo a presidência da república, a decretar quais são as associações representativas, independentemente da autenticidade associativa das mesmas. No fundo, trata-se de uma degenerescência do pluralismo e constitui um fenómeno pós-capitalista em que existe uma economia privada, mas não uma economia de mercado. Já não estamos no tempo de Schlotzer, com a distinção entre Staat e burgerliche Gesellschaft, ou de Robert von Mohl, com a separação entre ciência social, estudando o Sozialstund, e a ciência política, estudando o Staat. Já não serve a perspectiva hegeliana de sociedade civil: a sociedade dos particulares ou a sociedade dos burgueses, onde domina uma ideia de Estado privado de eticidade, ou de Estado Externo, nessa segunda fase no processo de desenvolvimento do Weltgeist, depois da sociedade natural (a família) e antes da sociedade política, ou Estado, já constituída por cidadãos.  Já também pouco interessa o programa de extinção do Estado do anarquismo e no socialismo, ou a ideia de comunismo e de sociedade sem classes, onde Karl Marx e Friedrich Engels consideravam a sociedade civil como sociedade de classes. Porque, se em Hegel a sociedade civil tende a fazer parte do Estado, já Marx a considera como o fundamento efectivo do Estado, definindo-a como o conjunto das relações materiais dos indivíduos no interior de um estádio de desenvolvimento determinado das forças produtivas.  Nem sequer nos vale o neomarxismo de Antonio Gramsci, onde a sociedade civil aparece como o conjunto dos organismos vulgarmente dito privados que correspondem à função de hegemonia que o grupo dominante exerce em toda a sociedade, e o Estado, como conjugação da sociedade civil e da sociedade política, a hegemonia couraçada pela coerção. Se as vulgarizações neo-liberais adoptam o separatismo Estado/Sociedade Civil, retomando as perspectivas dos fisiocratas e do liberalismo escocês, também a sociologia histórica de inspiração funcionalista, assumida por R. Bendix, considera a sociedade civil como todas as instituições nas quais os indivíduos podem seguir interesses comuns sem a direcção ou a interferência do governo. Neste sentido, os neo-liberais reclamam a libertação da sociedade civil, reduzindo o Estado a agência de protecção que detém o monopólio do uso da força. No âmbito das traduções em calão que marcam os nossos notáveis governamentais, ledores de revistas compradas nas viagens de avioneta, talvez baste o conceito britânico de government e o conceito norte-americano de administration, que transparece da respectiva cultura de jet set. Isto é, a visão do Estado enquanto mera agência especializada nos interesses do todo, do Estado como processo e não como coisa.  É por isso que somos um deserto. É por isso que subscrevo Saramago, mesmo quando estou prestes a entrar num conselho científico presidido pelo meu colega António Sousa Lara, onde irei discutir o sexo dos anjos, tal como há duas semanas, no Senado da minha universidade, andei a discutir o sexo dos deuses. Logo, apenas posso concluir que as nossas classes políticas, dependentes das teias do neocorporatism, apenas servem para dar vida a partidos que são alvarás de certificação dos agentes dos grupos de interesse e dos grupos de pressão, para que os actuais detentores do poder, quando forem despedidos pela opinião pública, se transformem em assessores e adjuntos dos reais patrões desse neofeudalismo dominante na presente anarquia ordenada. Repito: não tenho dúvidas: depois da reforma de Gago, chegou a hora de poder haver efectivos investimentos da sociedade civil internacional no ensino superior português, longe dos negocismo decadentista que marca os restos de universidades privadas, filhas da crise da extinta Universidade Livre. Porque o sector estatizado da nossa universidade, onde o quantitativo vai destruir o qualitativo multissecular, devorado pelo decretino e incinerado pelo socratino, passará a deserto, susceptível de ocupação pela racionalidade importada. Por mim, estou disponível para activista de quem venha por bem, mesmo que sejam os habituais grupos da geofinança que nos qualificam como província (de pro mais vincere), isto é, como terra do tal veni, vidi, vinci, feita res nullius pelos actuais partidocratas, alguns dos quais nos governam.

Jun 14

Devorados pelo decretino e incinerados pelo socratino, restam as proféticas vozes que clamam no deserto

Não tenho dúvidas: depois da reforma de Gago, chegou a hora de poder haver efectivos investimentos da sociedade civil internacional no ensino superior português, longe do negocismo decadentista que marca os restos de universidades privadas, filhas da crise da extinta Universidade Livre. Porque o sector estatizado da nossa universidade, onde o quantitativo vai destruir o qualitativo multissecular, devorado pelo decretino e incinerado pelo socratino, passará a deserto, susceptível de ocupação pela racionalidade importada. Por mim, estou disponível para activista de quem venha por bem, mesmo que sejam os habituais grupos da geofinança que nos qualificam como província (de pro mais vincere), isto é, como terra do tal veni, vidi, vinci, feita res nullius pelos actuais partidocratas, alguns dos quais nos governam.

Com efeito, dizem os jornais que o socratismo, depois da abandonar a Ota, vai voltar o seu ímpeto reformista co-incinerador para as universidades, pondo a arder o CRUP, a fim de levar representantes da sociedade civil, ditos notáveis, ao governo das velhas e antiquadas instituições. É por isso que decidi reparar nas recentes declarações do nosso Prémio Nobel da literatura, para quem a esquerda actual “deixou de ser esquerda” e tornou-se “estúpida”, acusando também os governos de estarem a tornar-se em “comissários do poder económico”. Porque “já não há governos socialistas, ainda que tenham esse nome os partidos que estão no poder”,a respeito de executivos como o português e o italiano, citado pela agência EFE no último dia da conferência “Lições e Mestres”, em Santilhana del Mar, no Norte de Espanha.

“Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda”, adiantou o octogenário escritor e militante histórico do Partido Comunista Português. Fugindo ao tema literário, Saramago acabou por dedicar grande parte da sua intervenção aos problemas das democracias contemporâneas, que na sua opinião não passam de “plutocracias”, e apelou à insubmissão da população, segundo relata a agência espanhola. “O mundo é dirigido por organismos que não são democráticos, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio”, acusou. Para Saramago, “é altura de protestar, porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam e não fazemos nada por contestá-los, pode dizer-se que merecemos o que temos”. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e aproximam-se tempos de obscuridade, o fascismo pode regressar; já não há muito tempo para mudar o mundo”, afirmou José Saramago.

E de pouco vale o discurso do Professor Avelãs Nunes, actual vice-reitor da veneranda universidade onde me formei, que li no “Diário de Coimbra”, se o mesmo não for glosado pelo blogue do também meu antigo Professor Vital Moreira, porque, dos antigos cunhalistas, não chegam a Sócrates os clamores dos que só sabem que nada sabem, mas os que sejam do simplex. Daí que apele à CIP e a Belém, para que seja encomendado novo estudo de anónimos investigadores e mais anónimos fundos, a fim de que não enfiemos o barrete verde, onde devia estar a boina basca da resistência à portuguesa, com o adequado gesto do Zé Povinho.

Apenas acrescento que entre a CIP e o conceito de sociedade civil da esquerda analisada por Saramago, há aquilo que muitos anglo-americanos qualificam com neocorporatism, isto é, um especial processo sócio-político distinto do pluralismo, em que os grupos de interesse voltam a ser uma espécie de corpos intermediários entre a comunidade e o aparelho de Estado, constituindo organizações quase monolíticas, em número limitado, onde, contrariamente ao pluralismo, no qual as organizações são rivais, é o centro do aparelho de poder estadual, incluindo a presidência da república, a decretar quais são as associações representativas, independentemente da autenticidade associativa das mesmas. No fundo, trata-se de uma degenerescência do pluralismo e constitui um fenómeno pós-capitalista em que existe uma economia privada, mas não uma economia de mercado.

Já não estamos no tempo de Schlotzer, com a distinção entre Staat e burgerliche Gesellschaft, ou de Robert von Mohl, com a separação entre ciência social, estudando o Sozialstund, e a ciência política, estudando o Staat. Já não serve a perspectiva hegeliana de sociedade civil: a sociedade dos particulares ou a sociedade dos burgueses, onde domina uma ideia de Estado privado de eticidade, ou de Estado Externo, nessa segunda fase no processo de desenvolvimento do Weltgeist, depois da sociedade natural (a família) e antes da sociedade política, ou Estado, já constituída por cidadãos.

Já também pouco interessa o programa de extinção do Estado do anarquismo e no socialismo, ou a ideia de comunismo e de sociedade sem classes, onde Karl Marx e Friedrich Engels consideravam a sociedade civil como sociedade de classes. Porque, se em Hegel a sociedade civil tende a fazer parte do Estado, já Marx a considera como o fundamento efectivo do Estado, definindo-a como o conjunto das relações materiais dos indivíduos no interior de um estádio de desenvolvimento determinado das forças produtivas.

Nem sequer nos vale o neomarxismo de Antonio Gramsci, onde a sociedade civil aparece como o conjunto dos organismos vulgarmente dito privados que correspondem à função de hegemonia que o grupo dominante exerce em toda a sociedade, e o Estado, como conjugação da sociedade civil e da sociedade política, a hegemonia couraçada pela coerção.

Se as vulgarizações neo-liberais adoptam o separatismo Estado/Sociedade Civil, retomando as perspectivas dos fisiocratas e do liberalismo escocês, também a sociologia histórica de inspiração funcionalista, assumida por R. Bendix, considera a sociedade civil como todas as instituições nas quais os indivíduos podem seguir interesses comuns sem a direcção ou a interferência do governo. Neste sentido, os neo-liberais reclamam a libertação da sociedade civil, reduzindo o Estado a agência de protecção que detém o monopólio do uso da força.

No âmbito das traduções em calão que marcam os nossos notáveis governamentais, ledores de revistas compradas nas viagens de avioneta, talvez baste o conceito britânico de government e o conceito norte-americano de administration, que transparece da respectiva cultura de jet set. Isto é, a visão do Estado enquanto mera agência especializada nos interesses do todo, do Estado como processo e não como coisa.

Logo, importaria que, entre o caso da Ota e o da reforma de Mariano Gago, com passagem pelo caso Pinto da Costa em choque com o casal-maravilha, se fizesse um simples estudo dos grupos de interesse e dos grupos de pressão, onde se coloca apenas o problema da regulamentação da actividade dos lobbies, tanto no plano intra-estadual, como no domínio das relações internacionais, no âmbito da chamada sociedade civil internacional. Vive-se, com efeito, o abandono do anterior general good sense com a introdução de formalized rules, nomeadamente com a introdução do registo de interesses dos parlamentares e com o estabelecimento de regimes de incompatibilidades.

No mesmo sentido, teria sido fundamental o inventário das formas de controlo da pantouflage, nomeadamente com o estabelecimento de regras sobre o emprego dos membros do governo, depois de os mesmos abandonarem as funções políticas, vegetando nas reformas e aposentadorias acumuláveis, ou metendo cunha para assessorias na banca.

Perceberíamos assim o que é um real grupo de pressão, isto é, um grupo de interesse que exerce uma pressão, que passa do mero estádio da articulação e da agregação de interesses e trata de influenciar e pressionar o decisor político, saindo do âmbito do mero sistema social e passando a actuar no interior do sistema político. Onde a pressão pode ser aberta ou oculta, pode actuar directamente sobre o decisor ou, indirectamente, actuando sobre a opinião pública.

Entre as pressões abertas, destaca-se a acção de informação, a de consulta, bem como a própria ameaça. As duas principais formas de pressão oculta, isto é, não publicitada, são as relações privadas e a corrupção. As relações privadas passam pelo clientelismo, pelo nepotismo e pela pantouflage. A corrupção, como processo de compra de poder, tanto pode ser individual como colectiva, nomeadamente pelo financiamento dos partidos. Entre as acções dos grupos de pressão sobre a opinião pública, temos tanto o constrangimento como a persuasão. Na primeira, temos a greve, as manifestações, os boicotes ou os cortes de vias de comunicação. A persuasão tem sobretudo a ver com a propaganda e a informação.

É por isso que somos um deserto. É por isso que subscrevo Saramago, mesmo quando estou prestes a entrar num conselho científico presidido pelo meu colega António Sousa Lara, onde irei discutir o sexo dos anjos, tal como há duas semanas, no Senado da minha universidade, andei a discutir o sexo dos deuses. Logo, apenas posso concluir que as nossas classes políticas, dependentes das teias do neocorporatism, apenas servem para dar vida a partidos que são alvarás de certificação dos agentes dos grupos de interesse e dos grupos de pressão, para que os actuais detentores do poder, quando forem despedidos pela opinião pública, se transformem em assessores e adjuntos dos reais patrões desse neofeudalismo dominante na presente anarquia ordenada.

Repito: não tenho dúvidas: depois da reforma de Gago, chegou a hora de poder haver efectivos investimentos da sociedade civil internacional no ensino superior português, longe dos negocismo decadentista que marca os restos de universidades privadas, filhas da crise da extinta Universidade Livre. Porque o sector estatizado da nossa universidade, onde o quantitativo vai destruir o qualitativo multissecular, devorado pelo decretino e incinerado pelo socratino, passará a deserto, susceptível de ocupação pela racionalidade importada. Por mim, estou disponível para activista de quem venha por bem, mesmo que sejam os habituais grupos da geofinança que nos qualificam como província (de pro mais vincere), isto é, como terra do tal veni, vidi, vinci, feita res nullius pelos actuais partidocratas, alguns dos quais nos governam.

Jun 13

O Tejo é um simples rio que passa na minha aldeia…o resto é deserto

Ontem, onze dos doze candidatos a autarca-mor da Lusitânia aceitaram sentar-se no palanque do estadão cameralístico que assistiu às marchas de Santo António de Lisboa, naquela nossa Avenida da Liberdade que, nascendo nos Restauradores, vai subindo, subindo, até ser encimada por um déspota, o dito marquês, agora furado por um belo e rápido túnel. Só um, de imagem fadista, foi para o meio do povo, e saudando a assistência, num golpe publicitário, recebeu carinhosos aplausos. Neste país de arguidos e acusados, esta esquizofrenia judicialista que tende a confundir o jurídico com o moral e a colocá-lo acima do político, esperam-se mais alguns comentários teológico-resignatários sobre a matéria, denunciando-se este regime do segredo de justiça e de segredo de Estado. Consta que haverá transmissões em directo da próxima reunião plenária da Conferência Episcopal Portuguesa e que as actas do concílio que elegeu o papa serão publicadas integralmente no “Observador Romano”, nomeadamente com a indicação nominativa dos votos que precederam o fumo branco. É por isso que dói esta ressaca de sardinha assada e discussões sobre a Ota e Alcochete. Até seria mais interessante se fosse aberto concurso público de ideias sobre mais uma destas obras de regime. Porque depois das pontes Salazar e Vasco da Gama, chegou a hora do Aeroporto do Barrete Verde…  Por mim, que ontem não fui a Alfama, passei parte do começo da noite na sala das chegadas do quase defunto aeroporto da Portela, meditando sobre estas polémicas e colocando-me na pele de um qualquer visitante anónimo que aqui chegue e dê uma volta pelas instalações. Reparei, por exemplo, que se o dito for ao magazine dos jornais e revistas e fizer um retrato literário do país encontrará uma interesse imagem da nossa cultura. Por isso é que, ao descer a avenida com o nome do maçon Gago Coutinho (piada para o D. Marcelino…), fui olhando para os cartazes dos candidatos a autarcas, quase todos fabricados pela mesma onda publicitária, reparando nas carantonas dos acompanhantes de Telmo, com uma deputada de Leiria, um candidato a deputado por Coimbra e um administrador da Emel, para concluir como nos querem tomar por parvos. Passei pela estátua de Sá Carneiro e reparei como deixaremos para os vindouros imagens tão pindéricas e acabei por perder-me na descida da Almirante Reis, outro lojista do Bairro Alto (nova piada para D. Marcelino, a quem o Luís Mateus deve mesmo oferecer a sua obra sobre os ditos nas ruas de Lisboa e mandar-lhe os semanais comunicados da respectiva associação). Voltei ao velho ambiente do meu bairro e sonhei que poderia voltar a ser cidadão de uma pequena polis que se libertasse do concentracionarismo dos paços do concelho, se o Portugal democrático ousasse fazer o que aconteceu em Espanha, França ou Itália no último quarto de século: manter o regime democrático, mas alterar a fundo as canalizações partidárias enferrujadas destes partidos infuncionais.  Cheguei à conclusão que o salazarismo ainda mete medo a todos quantos vêem nas críticas aos actuais partidos, uma rejeição do regime de partidos, preferindo as marchas do Leitão de Barros, dado que sabem que, se outras fossem as condições geopolíticas e geofinanceiras, já teria havido um desfile de Gomes da Costa (ex-militante de um partido de extrema-esquerda do 5 de Outubro e que teve como conselheiro e inspirador José Eugénio Dias Ferreira, pretexto para a greve académica de 1907, quando Alfredo Pimenta ainda era anarquista e António Sardinha republicano e positivista) na Avenida da República, ou, então, para sermos mais prosaicos, uma carta de intenções do FMI contra a bagunça. Infelizmente, o próximo 28 de Maio apenas será a cláusula de opting out para a saída da zona euro, coisa que não virá de Braga, a cavalo num comboio, mas de Bruxelas, sem aterrar no aeroporto da Bóina Verde e Vermelha…

Jun 13

O Tejo é um simples rio que passa na minha aldeia…o resto é deserto

Ontem, onze dos doze candidatos a autarca-mor da Lusitânia aceitaram sentar-se no palanque do estadão cameralístico que assistiu às marchas de Santo António de Lisboa, naquela nossa Avenida da Liberdade que, nascendo nos Restauradores, vai subindo, subindo, até ser encimada por um déspota, o dito marquês, agora furado por um belo e rápido túnel. Só um, de imagem fadista, foi para o meio do povo, e saudando a assistência, num golpe publicitário, recebeu carinhosos aplausos.

Sócrates não foi convidado, porque poderia receber algumas vaias. Cavaco também acabou por não ir, dado que a RTP, se transmitisse a procissão, poderia não a mostrar integralmente. Ninguém reparou que esta profunda tradição popular foi uma invenção do salazarismo em 1935, da iniciativa do cineasta Leitão de Barros e acarinhada pelo Secretariado da Propaganda Nacional. Hoje, há feriado em Lisboa. O resto do país trabalha.

As notícias que nos chegam são interessantes, neste regime do Ministério Público, com mais arguidos e acusados, entre Rui Rio e Pinto da Costa, além de muitas queixas no DIAP e mais processos promovidos pela associação dos autarcas contra Saldanha Sanches, para que os oficiais de justiça fotocopiem e cosam, para que os advogados facturem, para que uns aos outros se notifiquem e piquem. Quase ninguém nota que o processual não coincide com o jurídico, tal como o mundo do direito não é a vida. Não passa de um teatro onde fingimos o quod non est in actis non est in mundo…, para que alguns facínoras possam exibir uma qualquer sentença de absolvição e certos inocentes acabem condenados.

Neste país de arguidos e acusados, esta esquizofrenia judicialista que tende a confundir o jurídico com o moral e a colocá-lo acima do político, esperam-se mais alguns comentários teológico-resignatários sobre a matéria, denunciando-se este regime do segredo de justiça e de segredo de Estado.

Consta que haverá transmissões em directo da próxima reunião plenária da Conferência Episcopal Portuguesa e que as actas do concílio que elegeu o papa serão publicadas integralmente no “Observador Romano”, nomeadamente com a indicação nominativa dos votos que precederam o fumo branco. É por isso que dói esta ressaca de sardinha assada e discussões sobre a Ota e Alcochete. Até seria mais interessante se fosse aberto concurso público de ideias sobre mais uma destas obras de regime. Porque depois das pontes Salazar e Vasco da Gama, chegou a hora do Aeroporto do Barrete Verde…

Por mim, que ontem não fui a Alfama, passei parte do começo da noite na sala das chegadas do quase defunto aeroporto da Portela, meditando sobre estas polémicas e colocando-me na pele de um qualquer visitante anónimo que aqui chegue e dê uma volta pelas instalações. Reparei, por exemplo, que se o dito for ao magazine dos jornais e revistas e fizer um retrato literário do país encontrará uma interesse imagem da nossa cultura.

Numa estante, os habituais livros para homens de negócios, entre memórias de gestores públicos condecorados no dez de Junho e o “soduku”. Na outra, em primeiro destaque, cerca de dez livros laudatórios sobre Salazar. Em seguida, em segundo destaque, uma estante inteira com memórias da Carolina Salgado e Pinto da Costa. Isto é, tudo isto é triste, tudo isto é fado e o Tejo é um simples rio que passa na minha aldeia…

Por isso é que, ao descer a avenida com o nome do maçon Gago Coutinho (piada para o D. Marcelino…), fui olhando para os cartazes dos candidatos a autarcas, quase todos fabricados pela mesma onda publicitária, reparando nas carantonas dos acompanhantes de Telmo, com uma deputada de Leiria, um candidato a deputado por Coimbra e um administrador da Emel, para concluir como nos querem tomar por parvos. Passei pela estátua de Sá Carneiro e reparei como deixaremos para os vindouros imagens tão pindéricas e acabei por perder-me na descida da Almirante Reis, outro lojista do Bairro Alto (nova piada para D. Marcelino, a quem o Luís Mateus deve mesmo oferecer a sua obra sobre os ditos nas ruas de Lisboa e mandar-lhe os semanais comunicados da respectiva associação).

Voltei ao velho ambiente do meu bairro e sonhei que poderia voltar a ser cidadão de uma pequena polis que se libertasse do concentracionarismo dos paços do concelho, se o Portugal democrático ousasse fazer o que aconteceu em Espanha, França ou Itália no último quarto de século: manter o regime democrático, mas alterar a fundo as canalizações partidárias enferrujadas destes partidos infuncionais.

 

Cheguei à conclusão que o salazarismo ainda mete medo a todos quantos vêem nas críticas aos actuais partidos, uma rejeição do regime de partidos, preferindo as marchas do Leitão de Barros, dado que sabem que, se outras fossem as condições geopolíticas e geofinanceiras, já teria havido um desfile de Gomes da Costa (ex-militante de um partido de extrema-esquerda do 5 de Outubro e que teve como conselheiro e inspirador o avô da Drª Manuela Ferreira Leite, pretexto para a greve académica de 1907, quando Alfredo Pimenta ainda era anarquista e António Sardinha republicano e positivista) na Avenida da República, ou, então, para sermos mais prosaicos, uma carta de intenções do FMI contra a bagunça. Infelizmente, o próximo 28 de Maio apenas será a cláusula de opting out para a saída da zona euro, coisa que não virá de Braga, a cavalo num comboio, mas de Bruxelas, sem aterrar no aeroporto da Bóina Verde e Vermelha…

Jun 12

Cartesianas reflexões contra quem não tem dúvidas e raramente se engana, com tiro de Alcochete no campo da Ota

Depois de tantos desertos e do presidencial conselho, a governança do estadão diz, de forma anticavaquista, que agora tem dúvidas e que pode ter-se enganado, tratando de encomendar um honesto estudo comparativo ao serviço público mais habilitado para o efeito, que não a Procuradoria-Geral da República, na sua secção de luta contra os apitos dourados.

Os cartesianos seis meses que quase acompanham a presidência portuguesa da União Europeia serão tempo de espera para aterrarmos no bom senso, mas onde Mariano Gago ameaça tirar o veto de gaveta ao despacho sobre a UnI, ou vetar-nos a todos com as pombalices engenheirais da sua concepção de ensino superior, antes de ser substituído por uma qualquer margarida moreira, para termos que ler notáveis editoriais de Fernanda Câncio, em nome da liberdade de expressão de pensamento.

O tal “cataclismo” pode facilmente resumir-se nos quatro preceitos do método analítico e da decomposição pela reflexão estabelecidos por Descartes, o autor do Discours de la Méthode pour bien conduire sa raison et chercher la verité dans la science, de 1637:

“Jamais receber por verdadeira coisa alguma que eu não conhecesse evidentemente como tal” (a chamada regra da evidência);

“Dividir cada uma das dificuldades … em tantas parcelas quanto … possível … para melhor as resolver” (regra da análise);

“Conduzir por ordem os … pensamentos , começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como que por degraus, até ao conhecimento dos mais complexos, e supondo a existência de ordem entre aqueles que não se sucedem naturalmente uns aos outros” (regra da síntese);

“Fazer sempre enumerações completas e revisões tão gerais que se fique seguro de nada omitir” (regra da verificação).

Estes são com efeito os principais mandamentos daquilo que Bernard Roger qualifica como “o marxismo da burguesia, o instrumento teórico da sua conquista do poder e da sua luta contra a aristocracia”.

Agradeço à CIP e ao seu impulsionador Van Zeller a redescoberta da técnica do ovo de Colombo, num plágio à petição apresentada ao parlamento por Manuel Monteiro. Mas fiquei a saber que a associação patronal assume a dimensão de sociedade discreta, passível de um furibundo artigo do bispo resignatário D. Marcelino, porque o patrão dos patrões veio à televisão proclamar que nunca se saberá quem fez e quem pagou o estudo que deu um tiro de Alcochete no campo da Ota, nessa luta contra a desertificação da margem sul. Por mim, continuo em outra banda, sem ter numa mão a espada e na outra o báculo, conforme a hobbesiana imagem do Leviathan. Apenas uso pena e teclas contra o tilintar dos punhais da traição, com que muitos bácoros e bufos se embebedam.

Não assino o jornal Correio do Vouga e nem acredito que Mariano Gago siga o paradigma Mário Lino, isto é, que leia Descartes e deixe de ser metodologicamente cavaquista. Esperemos que Van Zeller encomende à sua comissão discreta novo estudo, para que um laboratório nacional de universitarice civil tenha a coragem de dar um tiro nos preconceitos reformistas, sem anedotas sobre inglês técnico.

Reparo apenas que o je pense, donc je suis constitui o ponto de partida para os chamados temps modernes, a partir dos quais se assiste a uma série de de tentativas destinadas a levar a filosofia a desempenhar o mesmo papel e a mesma função cultural que, na Idade Média, cabiam à fé e à teologia. Começa, então, a caminhar-se para uma espécie de morte de Deus ou de desdivinização do mundo, visando tentar-se a ocupação da cúpula da humanidade, esse vértice integrador do próprio conhecimento.

Só que, depois dessa “morte” , talvez tenha sucedido um infinito vazio que, desde então, temos tentado preencher frustradamente. Sozinhos, diante nós mesmos, ensimesmados, eis-nos presos nas teias de uma solidão cósmica, que a razão, em si mesma, não consegue compensar nem preencher. Com efeito, como observa Darlu, “sempre que reflectimos sobre as coisas, o nosso pensamento tem o seu centro na nossa consciência individual (é o cogito cartesiano), o nosso humilde pensamento toma a medida do mundo; a nossa pequena vontade acrescenta o ser à realidade onde está inserida. Não somos senão um fio na tela imensa que se balança ao vento e, contudo, sentimos o movimento do conjunto e sabemos afrouxá-lo ou acelerá-lo”.

Jun 11

A política, a religião, a moral e o direito são ordens complexas e autónomas, com amplas zonas de coincidência, conflito e indiferença

Lá se foi o dez de Junho, nesta encruzilhada de crescente desencanto e de regresso ao quente das guerras civis frias, sobretudo entre a política e a religião, nessas pouco correctas revoltas contra a hipocrisia instalada do sindicato da citações mútuas, incluindo as blogueiras. Por hoje, recordo, como símbolo destas águas pantanosas, o oficioso friso que emoldurava as cerimónias do feriado, entre o desfile militar e a procissão das condecorações às comissões de honra dos candidatos vencedores. Duvido que grande parte de tal estadão do aparato lusitano, para telejornal filmar, tenha obsessão lírica ou épica para se exaltar em verso, mesmo quando se plagia uma ideia pouco alegrina de um velho professor alentejano, sem dar o seu ao seu inspirador. Quase todos eles são a consequência do nosso silogismo bem pensante e politicamente correcto e, pior do que isso, sintoma, e não causa, de um crepúsculo, onde tarda que às aves da sabedoria deixem levantar voo. Todos batem palmas a discursos neutralmente escritos segundo o livro de estilo e o manual de procedimentos do candidato a deputado ou a ministro, depois de um estágio como assessor do chefe de departamento de um qualquer ministério da reforma e modernização da administração central do Estado. Esse ritmo situacionista dos seminários do regime que ensinam a fazer desfile para o rancho. Eles e os seus condecorados são o normal anormal da raça dos mandadores que pensam que o poder é coisa que se conquiste e não uma relação entre o aparelho de poder e a comunidade. Por isso é que as bandas e charangas do nosso vivório e foguetório são obrigadas aos acordes da Maria da Fonte, quando uma qualquer excelência ministerial visita a província, esse resto que não é paisagem, ou deserto, mas pátria, deserdada e desterrada. E nestes teatros de corte se vai gastando, pelo mau uso, a ideia de Estado e prostituindo, pelo abuso, o apelo à religião secular da nação, com que procurámos laicizar certo transcendente. Se a maior parte das ideias e valores cívicos são conceitos e valores religiosos secularizados (Schmitt, que era alemão, católico e ex-nazi, dixit), a laicização desse transcendente não decepa outras procuras do mais além, que não é monopólio das religiões e, muito menos, dos aparelhos que comandam as organizações religiosas, mesmo quando abusam da posição dominante, nem que seja pela omissão, ou pela inércia. Especialmente quando estabelecem que a agenda da propaganda fidei deve difundir o preconceito que ostraciza o não-legionário, colocando-o no bando dos milenaristas, ateus, agnósticos ou gnósticos, como se não houvesse o direito de heresia, na procura do caminho e da verdade, fora do obediencialismo dos dilectos filhos das organizações religiosas que se assumem providencialmente como monarquias de direito divino.  A política, a religião, a moral e o direito são ordens complexas e autónomas, com amplas zonas de coincidência, conflito e indiferença. Especialmente quando cada uma delas assume uma espécie de ciência arquitectónica, considerando as outras parceiras como suas servas, hierarquicamente dependentes do index e do nihil obstat. E todas as degenerescências fundamentalistas produziram os irmãos-inimigos, das teocracias, cesaropapismos, laicismos jacobinos, puritanismos ou justicialismos, os tradicionais vícios de quem não admite a autonomia de tais ordens complexas, especialmente quando comprimem a ciência dos actos do homem como indivisus e pessoa e estragam a fuga ao animalesco pelas racionalidades da casa, com a sua economia, da praça pública, com a sua política, e os plurais templos dos homens de boa vontade.

Jun 08

Nenhuma força espiritual pode ter o monopólio da honra, da inteligência, do caminho e da verdade, até para o transcendente

Leio, numas páginas emitidas por um eclesiástico retirado do activo, e tão paralelamente difundidas por dilectos seguidores do protocolo dos sábios do Sião e das técnicas de Barruel, que José Agostinho de Macedo e a “Besta Esfolada” ainda continuam no activo: porque não sabemos as relações existentes, quem são e quem deixam de ser e as razões porque estão, e de repente aparece mais um aqui ou ali, verificando-se que estão sempre colocados em lugares especiais do poder. Por outras palavras, para o retirado, não deve haver nenhum, nem aqui nem ali, e, muito menos, num qualquer lugar especial de poder, ao contrário de algumas excepções ministeriais que Salazar tolerou. Talvez porque não devesse existir um Winston Churchill, um D. Pedro IV, um duque de Loulé, um Fontes Pereira de Melo, um Alexandre Herculano, um Egas Moniz, mais de metade dos chefes de governo da monarquia liberal e outros tantos da Primeira República, bastando o deputado José dos Santos Cabral e a primeira lei com que o regime do Estado Novo nos resolveu brindar. Se calhar o resignatário eclesiástico julga que a liberdade e a democracia apenas surgiram em 1891, graças aos esforços de uma coisa chamada “Syllabus”, bem como de séculos de relaxação para o braço secular do santificado ofício. Certa pré-leonina mentalidade que remeteria Trumann para a fogueira, odeia a Revolução Inglesa e a Revolução Norte-Americana e certamente detesta 24 de Agosto de 1820 ou 9 de Setembro de 1836. Isto é, ela não vive cá, isto é, no Portugal liberal, na Europa democrática e no Ocidente das liberdades e da separação do poder civil do poder religioso, há mais de dois séculos. E mente declaradamente em seu obcecado revisionismo histórico, à boa maneira estalinista e demonizante. Um belo discípulo de tão luminosos princípios, que nem o CADC subscreveu, chegou a declarar numa abrilada, quando era um jovem instrumentalizado por potências estrangeiras, que pretendia esmagar duma vez a pestilenta cáfila … ou acabar na gloriosa luta em que estamos empenhados, ou cortar pela raiz o mal que nos afronta, acabando de uma vez com a infernal raça …, antes que ela acabe connosco. Seis anos depois, com cacetes, forças e alçadas, deixou de haver um aqui e outro ali e regressaram as gloriosas páginas das detenções na Relação para os que não foram para o exílio. Os requintes de malvadez nem exluíram o macabro espectáculo de frades loios e oratorianos se regalarem com doces e vinhos finos, repetindo cenas dos autos de fé. Vale-nos que os posteriores papas são da estirpe de um Leão XIII, de um Pio XI, de um João XXIII, de um Paulo VI ou de um João Paulo II, e que a esmagadora maioria do povo que os segue faz parte dos homens e mulheres de boa vontade, como os meus avós, os meus pais, os meus vizinhos e os meus compatriotas. Estivemos quase todos num certo comício de Aveiro do ano de 1975, a defender a liberdade da Igreja, em nome de José Estevão, o pai do Luís de Magalhães, ministro progressista e combatente da Traulitânia. Depois, com católicos, andaram também todos a defender o jornal “República”, tal como foram a Braga e à Alameda, aguentaram o emissor da Rádio Renascença na Lousã e defenderam o Patriarcado de Lisboa, sempre com a cobertura operacional do Edmundo Pedro e o conselho do Padre Manuel Antunes, quando meninos do Bispo do Porto, como Francisco Sá Carneiro, militavam no partido de Emídio Guerreiro, José Augusto Seabra ou Nuno Rodrigues dos Santos, enquanto outros chegaram a eleger um menino do cardeal para secretário-geral do partido de Raul Rego. E todos se comprometerem a não “fechar a Igreja na sacristia”, a não “ignorar os valores cristãos”, a não “fazer tábua rasa de uma cultura milenária, negar a história pátria e secar as suas raízes vitais, mudar o sentido das instituições que dão consistência à sociedade, fechar o homem, por via da educação nas escolas e meios de comunicação social, à dimensão do transcendente”. Não deixemos que certas irritações de propagandismos fundamentalistas, vindas de congreganistas e anticongreganistas, fechem os outros, que eles desconhecem, nos templos, ignorem os valores da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade e da fraternidade, não façam tábua rasa de culturas mais do que milenares, neguem a história pátria e sequem as suas raízes vitais, mudem o sentido das instituições que dão consistência à sociedade, fechem o homem, por via da educação nas escolas e meios de comunicação social, à dimensão do transcendente. Todos têm direito às mesmas universidades, às mesmas rádios e aos mesmos jornais, porque nenhuma força espiritual pode ter o monopólio da honra, da inteligência, do caminho e da verdade, até para o transcendente. Por mim, continuo a querer militar, muito azul e branco, no partido do Conselho Conservador, do Sinédrio, de Manuel Fernandes Tomás, de Passos Manuel, de D. António Alves Martins (bispo de Viseu) e de Alexandre Herculano, mesmo que seja contra os bobos da Corte que preferem a República de Saló… Até julgo que a Carbonária foi refundada em Portugal para que se combatessem esses horrendos cabrais, que eram maçons e tudo… A história nunca se deu bem com o preto e branco maniqueísta de certos persas, pintados de propagandistas e vanguardistas, mesmo quando benzidamente missionários. Prefiro a tradição dos homens livres! E ando aqui e ali, em lugares de não poder. Prefiro o poder dos sem poder, Locke, Montesquieu, Burke e o ritmo liberdadeiro de Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Sempre detestei a reacção que pretende mandar para a fogueira três quatros dos conservadores e tradicionalistas europeus que não aceitam o preceito monopolista do resignatário, especialista em nihil obstat. Vale mais, ir além do pré-capto e aceder ao cum-capto do conceito. Compreende-se melhor a realidade. P.S. Não quis confundir, nem cometi, pela natureza das crenças pessoais, nenhum pecado grave de conspiração. Para ser exacto, todos os que aqui cito, à excepção dos papas, dos padres Manuel Antunes, Barruel e José Agostinho de Macedo, bem como de Francisco Sá Carneiro, violariam o cânone 1374, se fizessem parte de uma certa organização religiosa que não pratica a reciprocidade para quem não tem cânones proibitivos desse tipo (não repeti o nome de Santos Cabral que, além de ter sido o autor da lei que deu roubada sede à Legião latrocínia, até propôs a restauração da pena de morte, quando a campanha situacionista chamava poeta menor a um bebedor de absinto, empregado numa agência de publicidade e tinha a mania do milenarismo…). Apenas quis demonstrar como ainda domina um silabismo, onde muitos não fazem aos outros o que não querem que lhes façam a eles, mesmo quando todos somos um nós. As brasas da pouca boa vontade apenas estão cobertas daquelas cinzas que podem ser afastadas pela levíssima brisa de um artigo de jornal. Que as fogueiras dos autos não se levantem, mais uma vez!