Ontem, onze dos doze candidatos a autarca-mor da Lusitânia aceitaram sentar-se no palanque do estadão cameralístico que assistiu às marchas de Santo António de Lisboa, naquela nossa Avenida da Liberdade que, nascendo nos Restauradores, vai subindo, subindo, até ser encimada por um déspota, o dito marquês, agora furado por um belo e rápido túnel. Só um, de imagem fadista, foi para o meio do povo, e saudando a assistência, num golpe publicitário, recebeu carinhosos aplausos. Neste país de arguidos e acusados, esta esquizofrenia judicialista que tende a confundir o jurídico com o moral e a colocá-lo acima do político, esperam-se mais alguns comentários teológico-resignatários sobre a matéria, denunciando-se este regime do segredo de justiça e de segredo de Estado. Consta que haverá transmissões em directo da próxima reunião plenária da Conferência Episcopal Portuguesa e que as actas do concílio que elegeu o papa serão publicadas integralmente no “Observador Romano”, nomeadamente com a indicação nominativa dos votos que precederam o fumo branco. É por isso que dói esta ressaca de sardinha assada e discussões sobre a Ota e Alcochete. Até seria mais interessante se fosse aberto concurso público de ideias sobre mais uma destas obras de regime. Porque depois das pontes Salazar e Vasco da Gama, chegou a hora do Aeroporto do Barrete Verde… Por mim, que ontem não fui a Alfama, passei parte do começo da noite na sala das chegadas do quase defunto aeroporto da Portela, meditando sobre estas polémicas e colocando-me na pele de um qualquer visitante anónimo que aqui chegue e dê uma volta pelas instalações. Reparei, por exemplo, que se o dito for ao magazine dos jornais e revistas e fizer um retrato literário do país encontrará uma interesse imagem da nossa cultura. Por isso é que, ao descer a avenida com o nome do maçon Gago Coutinho (piada para o D. Marcelino…), fui olhando para os cartazes dos candidatos a autarcas, quase todos fabricados pela mesma onda publicitária, reparando nas carantonas dos acompanhantes de Telmo, com uma deputada de Leiria, um candidato a deputado por Coimbra e um administrador da Emel, para concluir como nos querem tomar por parvos. Passei pela estátua de Sá Carneiro e reparei como deixaremos para os vindouros imagens tão pindéricas e acabei por perder-me na descida da Almirante Reis, outro lojista do Bairro Alto (nova piada para D. Marcelino, a quem o Luís Mateus deve mesmo oferecer a sua obra sobre os ditos nas ruas de Lisboa e mandar-lhe os semanais comunicados da respectiva associação). Voltei ao velho ambiente do meu bairro e sonhei que poderia voltar a ser cidadão de uma pequena polis que se libertasse do concentracionarismo dos paços do concelho, se o Portugal democrático ousasse fazer o que aconteceu em Espanha, França ou Itália no último quarto de século: manter o regime democrático, mas alterar a fundo as canalizações partidárias enferrujadas destes partidos infuncionais. Cheguei à conclusão que o salazarismo ainda mete medo a todos quantos vêem nas críticas aos actuais partidos, uma rejeição do regime de partidos, preferindo as marchas do Leitão de Barros, dado que sabem que, se outras fossem as condições geopolíticas e geofinanceiras, já teria havido um desfile de Gomes da Costa (ex-militante de um partido de extrema-esquerda do 5 de Outubro e que teve como conselheiro e inspirador José Eugénio Dias Ferreira, pretexto para a greve académica de 1907, quando Alfredo Pimenta ainda era anarquista e António Sardinha republicano e positivista) na Avenida da República, ou, então, para sermos mais prosaicos, uma carta de intenções do FMI contra a bagunça. Infelizmente, o próximo 28 de Maio apenas será a cláusula de opting out para a saída da zona euro, coisa que não virá de Braga, a cavalo num comboio, mas de Bruxelas, sem aterrar no aeroporto da Bóina Verde e Vermelha…