Dez 29

Há ilustres hierarcas que hoje constituem o espelho da nação

Há ilustres hierarcas que hoje constituem o espelho da nação, cujos currículos são os melhores reveladores da banalidade do bem que faz caricatura da falta de sentido de serviço público em que nos vamos degradando. Esta farsa ambulante de criadores de eventos que geram sucessivos perfis e cartões de visitas, com muitas assessorais governamentais, ministeriais, culturais e autárquicas, sempre à custa da mesa do orçamento, seriam anedota saborosa no tempo do cavar batatas e do ensinar a minhoca a pescar. Agora, os emplastros apenas causam vómito.

 

Dei uma saltada aos nossos livreiros “on line” e confirmei que o meu “Abecedário Simbiótico” está na estante da “Religião, espiritualidade e auto-ajuda”. São simpáticos. Até poderiam dar um novo nome à coisa, o de bruxaria e ciências ocultas, na estante da geometria. Se o prefácio fosse de um marinheiro, iria, naturalmente, para a secção de “Desertos e alpinistas”.

 

Anuncia-se a transferência de vários vassoureiros ortodoxos do Belenenses para equipa dos cristãos nigerianos. Noutro dia, numa das nossas televisões, estes nigerianos eram reduzidos a católicos, tal como as reportagens de 25 de Dezembro sobre as comemorações do Natal cristão em Atenas e Moscovo. A ignorância manifestada pelos tradutores de telegramas internacionais em matéria religiosa é um verdadeiro susto e o principal motivo para ressurgências fundamentalistas. É que nem sequer se dão ao respeito com tanto etnocentrismo…

 

Este tempo de descanso, somado ao escasso tempo de descanso que os deputados tiveram no Verão, ainda não perfaz um tempo anual normal de descanso. Foi só por isso que o Parlamento parou: todos estávamos a precisar de descansar um pouco. Não vamos estar com demagogias e dizer que fomos fazer outras coisas. Fomos descansar e usar o descanso a que temos direito.

 

Atingimos a dimensão etimológica da histeria grega, conforme o preconceito machista de chamar à coisa “útero na cabeça”. Isto é, se fosse tecnicamente possível um golpe de Estado, todos sorririam se ele se desencadeasse, incluindo os que por ele fossem decapitados. Odeio tanto a putrefacção como um acto de violência pré-político. As decadências, como esta, têm, pelo menos, uma vantagem: permitem que alguns se arrependam da cobardia da abstenção cívica com que se desleixaram. Eu quero apenas correr o risco de o declarar e de prever que a decadência ainda vai durar muito tempo.

Dez 29

Atingimos a dimensão etimológica da histeria grega

Atingimos a dimensão etimológica da histeria grega, conforme o preconceito machista de chamar à
coisa “útero na cabeça”. Isto é, se fosse tecnicamente possível um golpe de Estado, todos
sorririam se ele se desencadeasse, incluindo os que por ele fossem decapitados. Odeio tanto a
putrefacção como um acto de violência pré-político. As decadências, como esta, têm, pelo menos,
uma vantagem: permitem que alguns se arrependam da cobardia da abstenção cívica com que se
desleixaram. Eu quero apenas correr o risco de o declarar e de prever que a decadência ainda vai
durar muito tempo.

Este tempo de descanso, somado ao escasso tempo de descanso que os deputados tiveram no Verão,
ainda não perfaz um tempo anual normal de descanso. Foi só por isso que o Parlamento parou: todos
estávamos a precisar de descansar um pouco. Não vamos estar com demagogias e dizer que fomos fazer outras coisas. Fomos descansar e usar o descanso a que temos direito.”

Anuncia-se a transferência de vários vassoureiros ortodoxos do Belenenses para equipa dos
cristãos nigerianos. Noutro dia, numa das nossas televisões, estes nigerianos eram reduzidos a
católicos, tal como as reportagens de 25 de Dezembro sobre as comemorações do Natal cristão em
Atenas e Moscovo. A ignorância manifestada pelos tradutores de telegramas internacionais em
matéria religiosa é um verdadeiro susto e o principal motivo para ressurgências fundamentalistas.
É que nem sequer se dão ao respeito com tanto etnocentrismo…

Dei uma saltada aos nossos livreiros “on line” e confirmei que o meu “Abecedário Simbiótico” está
na estante da “Religião, espiritualidade e auto-ajuda”. São simpáticos. Até poderiam dar um novo
nome à coisa, o de bruxaria e ciências ocultas, na estante da geometria. Se o prefácio fosse de um
marinheiro, iria, naturalmente, para a secção de “Desertos e alpinistas

Há ilustres hierarcas que hoje constituem o espelho da nação, cujos currículos são os melhores
reveladores da banalidade do bem que faz caricatura da falta de sentido de serviço público em que
nos vamos degradando. Esta farsa ambulante de criadores de eventos que geram sucessivos perfis e
cartões de visitas, com muitas assessorais governamentais, ministeriais, culturais e autárquicas,
sempre à custa da mesa do orçamento, seriam anedota saborosa no tempo do cavar batatas e do
ensinar a minhoca a pescar. Agora, os emplastros apenas causam vómito.

Dez 28

O primeiro chinês que conheci

O primeiro chinês que conheci, era eu menino, foi na esquina da Praça Velha, em Coimbra. Vendia glavatas na rua e devia ser mais velho que o último imperador. Os mais recentes já não têm os olhos em bico. Mas continuam a investir no longo prazo, como as pedras da igreja de Santiago, junto às quais o senhor Pinto, o primeiro patrão de meu pai, já não vende louça de Conimbriga. Mas todos somos gente antiga.

 

Morreu o chimpazé de Tarzan e vai decorrendo o funeral do querido líder. Por cá, só uma clandestina placa toponímica dava nome de largo a um bode expiatório, com cognomes que o difamavam. Como os cemitérios estão cheios de insubstituíveis, prefiro notar como ainda abundam placas com nomes dos chefes no activo em tantos recantos do portugalório das vaidades, de autarquias a escolas, de estádios a ruas. Um problema de consciência da finitude por parte dos que têm medo da história e da verdade. Preferem as viúvas clientelares.

 

Retrato da personalização do poder, para ser meditado nas muitas coreias que ainda nos ensarilham, à esquerda e à direita, mesmo quando os intelectuários fingem que o inferno são os outros

 

Segundo o diário espanhol El País, o Orçamento do Estado de Espanha dedicou 141 mil euros anuais de vencimento ao rei Juan Carlos. António Mexia pode ganhar até 4,2 milhões de euros de salário na EDP. Já o nosso Presidente da República decidiu prescindir, a partir de 1 de Janeiro de 2011, do seu vencimento, no valor de 6.523 euros. Convinha privatizarmos a Zarzuela e o nosso paupérrimo Palácio de Belém.

 

Paliteiros da vassoura, numa igreja bem cristã, são postos na ordem pela polícia palestiniana. Notícia de uma rádio católica, que já não tem a velha estrutura das Cruzadas e costuma, nestes casos, ser uma estrutura de equilíbrio.

 

A fotografia secreta que a CIA forneceu às três gargantas fundas de Pequim, acentuando os efeitos das velhinhas de Fátima. As alemães já protestaram, considerando que se trata de mera operação de fotoshop de hackers do Tibete.

Dez 27

Há um tempo de feliz e funda nostalgia

Circula na net a lista das cerca de oito dezenas de assessores de gabinetes ministeriais que são incluídas no sítio das nomeações. Não escandalizam. Seria mais útil percorrer o último Povo Livre que publicou os nomes inteiros dos delegados ao congresso do partido e cruzá-lo com todas as noemações e ascensões em todos os aparelhos do favor do estadão. Juntem-lhe os do CDS, comparem com os que também ascenderam do mesmo modo no PS e façam o cúmulo de décadas de “spoil system”. Não chega. São bem menos fáceis de detectar os rastos de favoritismo nas universidades, nas empresas de regime e nos contratados. É meio mundo ao serviço doutro em feudalismo, o desta ditadura da incompetência.

 

Os irmãos-inimigos (no Diário Económico de hoje): Porque Sócrates e Passos, substancialmente, não existem, dado que não passam de meros adjectivos de uma enferrujada canalização representativa, qualquer cenarização retrospectiva apenas confirmaria que a ordem dos factores eleitorais apenas mostra como não passam de irmãos-inimigos de um mais amplo situacionismo. Porque, no princípio, está a troika e o que nos conduziu ao presente modelo de protectorado, isto é, o cavaquismo, o guterrismo e o socratismo, essa gestão de dependências de uma governança sem governo, em avariada pilotagem automática, com a consequente rede invertebrada de um senhor ninguém, o que nos continua a tornar servos de uma gleba hipotecária, sem a vontade de sermos independentes, pelo culto dos laços de afecto comunitário que nos davam república. O país deve libertar-se e passar a ser governado pelo país. Está farto de ser laboratório das manobras eleitorais das jantaradas, dos congressos, das visitas dos queridos líderes, dos passeios do venerando chefe de estado, ou das inaugurações de sua excelência o primeiro ou o segundo ministro. Está farto da aliança de patos bravos, delegados de propaganda médica, dirigentes desportivos, jotas e seus oleodutos autárquicos.

 

No ano que agora finda, cem mil portugueses foram desta para melhor ficando neste mundo. No ano que aí vem, dos que cá ficaram, segundo as previsões, haverá uma baixa de 5,4% na remuneração. Já entrámos no Guiness da música celestial.

 

Há um tempo de feliz e funda nostalgia, a da família e a da pátria, do sentir-me vivo e livremente preso aos que amo e que me amam. Porque é elevar o comum da coisa amada a um transcendente situado, a que todos os homens têm direito. Tão comum e tão metafísico quanto aquilo que sentem todos os que pensam o sentimento dos laços afectivos que nos enraízam. Por isso me dói a alegria de hoje estar feliz, sobretudo quando se sente cada momento como se fosse o último. Uma funda e feliz nostalgia daquilo que alguns qualificam como lirismo e português. Como sempre e para sempre.

Dez 26

Quem peregrina o país profundo

Quem peregrina o país profundo, o das freguesias rurais e do país dos municípios, compreende a estupidez da desorganização do trabalho nacional, entre burocratas, políticos e jotas do concentracionarismo que não conseguem mobilizar o que há de melhor entre professores, empresários, jornalistas, padres, juristas médicos, militares e outras elites, no activo ou na aposentação, postas à margem pela ditadura da incompetência que serve de correia de transmissão aos chefes que consideram Portugal a capital onde se assentam e decretam o resto como paisagem.

 

O país quer ser governado pelo país, longe desta formidável rede de betão, cunhas, facilitadores de empréstimos bancários e outras loisas que gerou aquilo a que chamamos regime, onde muitos deslumbrados continuam a exibir as habituais sentenças de café, ao ritmo de RGA, pelas quai vamos finalmente salvar Portugal, a Europa e a Humanidade, enquanto no íntimo todos as piram por um lugar à sombra de pequenos césares de multidões do micro-autoritarismo sub-estatal.

 

O Portugal profundo, a província, etimologicamente, as partes conquistas, do magistrado romano que vinha pro vincere, está farta de ser laboratório das manobras eleitorais das jantaradas, dos congressos, das visitas dos queridos líderes, dos passeios do venerando chefe de estado, ou das inaugurações de sua excelência o primeiro ou o segundo ministro. Está farta da aliança de patos bravos, delegados de propaganda médica, dirigentes desportivos, jotas e seus oleadutos autárquicos.

 

Há que destruir a máquina invertebrada do senhor ninguém que todos os dias vai transformando em servidão o que outrora foram laços de afecto comunitário. Há todo um estadão paralelo de bufos, agentes intelectuários e honoríficos do penduricalho, bem como de pretensas oposições compradas pela mesa do orçamento que vão reproduzindo-se em encómios a quem não sai de cima, mas também já não sabe como criar. São eles que reprimem, coitados, só porque temem a inevitável revolta dos oprimidos.

Dez 25

Rabanadas electrónicas

Neste dia em que costumam ser notícia as mensagens do costume, emitidas pelo Papa e pelo cardeal, sobre o bem e a moralidade pública, convém reparar no resultado das eleições do Egipto e no consequente significado de Al Nur. Bom Natal!

 

Sinais de rabanadas electrónicas na mesa de uma casa de jantar, tradicionalmente portuguesa, nas profundas do Minho.

 

“Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram.” Ou como Almada Negreiros conseguiu retratar o permanecente método salazarento da gerontocracia decadente em que nos vamos deglutindo.

Dez 24

Hoje sou da minha família

Hoje sou da minha família, dos meus amores, dos meus irmãos, dos meus amigos, e escrevendo isto, sou como todos os outros, de todos os outros, para todos os outros, sendo ninguém, sou de todo o mundo, procurando o universal pela diferença. É Natal, todos podemos ser homens comuns à procura de Deus e dos deuses.

 

De Barcelos, no jardim de minha mãe.

Dez 23

O almirante Cheng Ho

O almirante Cheng Ho, ou Zheng Ho, acaba a viagem iniciada em 1371. Finalmente, os chineses descobrem o caminho eléctrico para a barra do Tejo, assim completando ao contrário as viagens de Vasco da Gama e Fernão Mendes Pinto. Boa chegada, antes de nova afundação.

 

PCP vota contra manifestação parlamentar de pesar pela morte do anticomunista checo Vaclav Havel. Ainda bem que o recordam. Já não é proibido morrer pela pátria, como aconteceu a Jan Palach.

 

Aqui, nas profundas do Minho, nadamelhor do que começar o dia trincando uma maçã da porta da loja. A minha mãe guarda-me sempre meia dúzia que vai buscar à feira de Barcelos.

 

Essa do pai de Sarkozy, do avô de Erdogan, do neto do Kaiser, do trineto de Junot e do tetraneto da Europa, obrigam-nos a que a emenda não se torne pior que o soneto.

Dez 22

Tempos difíceis, mesmo muito, muito difíceis

“Tempos difíceis, mesmo muito, muito difíceis”. Mas o Seguro ainda não morreu de velho.

 

Todas as mensagens da manhã me mandam: “vai trabalhar, malandro!”. O problema da organização do trabalho nacional é que quem manda é mesmo uma malandragem. Quem tem paixão pelo trabalho não sabe o que são férias, feriados ou horas de sono. Basta que nos deixem ser felizes no trabalho, sem ordens, decretos, fichas e desordens com que enfeitam respectivos mandos. Basta mandá-los para o olho da rua.

 

A desordem bem organizada desta anarquia ordenada que se chama poder precisa de ser substituída pelo poder dos sem poder que nos liberte da falsidade. Ainda gostava de ver isto, um dia. Já chega de opressão com música celestial e literatura de justificação. Sem regeneração não sobreviveremos. Estou disponível para passar da resistência à construção

 

Antigamente, havia forças de bloqueio, agora há forças levianas. Destes bloqueios levianos, começo mesmo a ficar farto.

Dez 20

Aqui acaba toda a terra antiga

Aqui acaba toda a terra antiga,/começa aqui a tentação do mar./ Europa – ainda era rapariga -,/ Sentou-se aqui um dia a descansar./ Vinha de longe, andando com fadiga,/ vinha de longe, andando sem parar…/ Em frente ao mar, que o rosto lhe fustiga,/ logo pensou Europa em se casar./ / Pediu-a p’ra mulher o Padre-Oceano./ Entre sereias, conchas e golfinhos,/ as ondas lhe bordaram o enxoval.// E quando o noivo a recebeu, ufano,/ nestes penhascos rústicos, sòzinhos,/ deram os dois o ser a Portugal

 

Cavaco Silva repete as teses de Strauss-Kahn, tal como as de Kohl, Schmidt, quanto à Europa, bem como na necessidade de diálogo do PS e do PSD e na procura da coesão social. As ideias são nacionalmente consensuais e, da parte da opinião pública, apenas temos que dar mais uns empurrões.

 

Aqui, os submarinos acedem mais rapidamente às profundezas oceânicas, mesmo que desenrolem o periscópio.

 

“Sozinha, nos penhascos do Ocidente,
ouvindo ao mar o ímpeto brutal,
pariste longa e dolorosamente
um moço a quem chamaste Portugal!”

 

A coerência do PCP na solidariedade do internacionalismo estalinista não é um defeito, é uma virtude, a da continuidade, com pouca evolução.

 

Como dizia Raymond Aron, o principal problema da democracia é que praticamente todos os regimes do mundo se dizem hoje democráticos.

 

Ai do nosso tempo, se tivesse de acabar com todos os mistérios! Não existe apenas aquilo que se explica.