Dez 19

Aí dos estadões que assentam em constipações maltratadas

Aí dos estadões que assentam em constipações maltratadas. E das antimonarquias que fazem com que o neto suceda ao avô, na montra. Porque o mecanismo totalitário é o de um complexo militar-industrial, alimentado a fome e a escravatura, para gáudio da montra de chefia. Morreu um pedaço do mecanismo de guerra que ainda envergonha a humanidade. Aí dos que ainda têm a complacência cobarde da invocada ideologia.

 

Um outro olhar da Porta da Loja. Também o meu agradecimento. Até ao sismógrafo dos comentários ao postal.

 

Passos disse em voz alta o que todos os anteriores Pedros consideraram um alívio. Como no século XIX, os governantes do tempo da fome de terra. Como Salazar com a valse de carton. Até poderia dourar a pílula, falando no novo império sombra como clímax da integração europeia, para recuperarmos a grandeza perdida pela demografia, a dívida e as medidas da troika, isto é, do PS, do PSD e do CDS. Por outras palavras, é urgente fundarmos o Partido da Partida. Para procurarmos Portugal fora de Portugal. Aqui, voltámos a ser Ilusitânia …

 

Às vezes, ofendemos pessoas queridas porque não respondemos a todas as mensagens que recebemos nas caixas. Como estou a tentar esvaziar as da categoria de não-lidas ainda me faltam algumas. Peço perdão a quem possa ter ofendido pela a falta de acção adequada. Apenas deficiência minha, mas tentarei cumprir o meu dever.

 

Dominique não deve ter lido Saramago.

Dez 18

A voz do establishment

A voz do establishment

Por José Adelino Maltez

 

A existência de planos de contigência como a indiscrição do “Sunday Times” faz parte do normal-anormal dos engenheiros de cenários do securitismo, sendo tão mirabolantes quanto os da evacuação de todos os muçulmanos de França, ou até ideia norte-americana de ocupação dos Açores pelos brasileiros, durante a Segunda Guerra Mundial. São coisas que não se estranham, mas que, infelizmente, podem vir a entranhar-se. E o mais significativo está na pretensa seriedade que enquadra a respectiva divulgação, quase equiparável à ameaça paivense de bomba atómica, a ser lançada sobre os nossos credores. Felizmente, o ridículo, por enquanto não mata e mais interessante seria saber como o nosso segredo diplomático e de segurança, externa e interna, acompanhou os meandros da emissão da informação, antes de ela aterrar na opinão pública, sem o recurso aos nossos próprios planos de contingência e de coordenação com os da própria NATO. Talvez seja mais avisado notarmos que no Reino Unido persiste uma tradicional aliança do “establishment” que gerou um modelo político de governo pela sociedade civil que, se é mais centralizado que o modelo político norte-americano, é bem menos estatizado do que a França.  Porque o mercado precedeu o Estado e o aparelho de poder central nunca tentou controlar a sociedade e a economia, surgindo um modelo de capitalismo e de free trade a partir da autonomia da sociedade civil e não pelos estilos mercantilistas do estadualismo absolutista.

Dez 15

Dos traseiros do “não pagamos”

Dos traseiros do “não pagamos”

Por José Adelino Maltez

 

Talvez não mereça ser nominalmente citado o deputado que, por palavras, reproduziu aquilo que foi o símbolo gráfico da geração dita rasca e que agora se disse marimbando. Porque a expressão é equívoca, dado que tanto pode referir-se a um instrumento musical formado por lâminas de vidro ou metal, graduadas em escala, que se percutem com baquetas, como a um jogo de cartas em que a dama de espadas é o maior trunfo. Antigamente, chamava-se a isso demagogia jota, mesmo sem mostrar o “não pagamos”, antes de ter triunfado o modelo da velha conspiração de avós e netos. É evidente que há calinada, mas ninguém pode dar palmatoadas neste irascível da visita à parvónia, porque, de vidraças, de insultos rascas, está o parlamento cheio. É mais preocupante o regresso de velhos movimentos unitários de intelectuais ao “agenda setting”, bem como o surgimento, quase diário, de mais um abaixo-assinado, reveladores da crescente falta de adequadas canalizações representativas da democracia. Escândalo, do grego scandalon, é apenas a pedra em que se tropeça quando se está a marchar. Como ainda não houve protestos da comunidade internacional quanto à ameaça atómica, talvez importe acrescentar que este economista de boa escola apenas disse em voz alta, aquilo que todos gostaríamos que acontecesse, se fosse possível usarmos o nosso poder funcional nas relações europeias. Merkel, Obama e Sarkozy já nos insultaram mais, menos civilizadamente.

 

Dez 14

Reflexões sem conjuntura, para quem quiser enfiar a carapuça

Quase todos os dias, tento resistir aos velhos fantasmas que tive e talvez ainda tenha sob a forma de preconceitos, sobretudo contra as categorias políticas que considerei inimigas. Quase todos os dias, tento educar-me, procurando distinguir certos “ismos” das pessoas concretas que os enquadram e servem. Pelo menos tento reconhecer que, entre os meus, há tão maus exemplos pessoais quanto nos meus antigos, ou presentes, adversários. Os homens não se medem pelos redutores “ismos” com que os classificam. Todos somos imperfeitos, sobretudo na falta de autenticidade. Mas isso não me impede a revolta contra certas bestas que nos querem oligarquizar. Nem o agressivo combate espiritual por minhas crenças, valores e princípios, os da minha perspectiva, da minha concepção do mundo e da vida, ou da minha própria irmandade. Lamento sempre não ter partido. Não tenho sequer o partido dos sem partido, com que se costumam vangloriar os chamados independentes, os que estão sempre à espera que os contratem, para um qualquer estágio de adesão à partidocracia, período em que demonstram o máximo de facciosismo, nomeadamente quando cantarolam o seguidismo face a um qualquer novo príncipe do populismo das elites, mesmo que não chegue a césar de multidões.

Dez 14

Lançamento do Abecedário Simbiótico

 

No famoso políptico do século XV atribuído a Nuno Gonçalves, conhecido como Tábuas de S. Vicente de Fora e existente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, reencontramos o tema do «livro ocluso»: no painel central da direita, a que António Quadros chama «Painel da Missão das Ordens de Cristo e de Aviz» (Quadros 11-1987, 173 segs.), o Hierofante tem o «livro ocluso» debaixo do braço, além de empunhar a vara simbólica da Iniciação: é o tempo passado e presente dos mistérios por abrir; no painel central da esquerda, «Painel da Aliança no Espírito Santo» (Quadros ibidem) o Hierofante já apresenta o livro aberto, o Evangelho de João, onde Jesus anuncia a vinda futura e desveladora do Paracleto (João 14, 16.26; 15, 26; 16, 7) – a verdadeira História do Futuro de que se haveria de encarregar António Vieira. Não deixa de saltar à vista, para quem contemple os painéis no seu conjunto, tal como se encontram agora, a organização hermética dos três grandes grupos humanos que os integram, num total de 60 personagens: o grupo de pessoas de negro («obra em negro» ou nigredo), o grupo de branco(«obra em branco» ou albedo) e o grupo de vermelho («obra em rubro», ou rubedo). Destaca-se, neste último, a majestosa figura do Hierofante, totalmente vestida de vermelho em suas duas aparições, que Lima de Freitas identifica com il Messo di Dio, o que virá como «Consolador», ou Paracleto (Freitas 2003, 303-312): com efeito, o vermelho é a cor simbólica do Espírito Santo, tal como o azul é a do Pai e o amarelo-dourado a do Filho.

 

 

 

 

 

 

É possível semear no tempo que passa. Só atingimos a essência pela existência e só podemos aceder ao eterno pelo fugaz do dia a dia.

 

Os templos não são do céu. Têm as fundações no magma que vai crescendo por mim dentro.

 

A vida é o máximo de além vida que nos permite ascender.

 

Para nos diluirmos na corrente de vivermos uns com os outros em cadeia de união.

 

Quando alguém ,por acaso um antigo aluno aqui presente, me deu a adequada explicação da capa deste livro, eu próprio me comecei a interpretar a posteriori.

 

Aliás, não é por acaso que não trago a origem da ilustração da capa na presente edição.

 

Porque a ela acedi por mera adesão íntima, de emoção estética e compreensão poética, na linha do título do recente livro de Steiner, “The Poetry of the Tought”.

 

Nunca o fiz por comunhão de especialidades alquímicas, cabalísticas ou esotéricas.

 

Apenas confirmei que a poesia pode ser mais verdadeira, no sentido de mais filosófica, do que a própria história.

 

Confesso-o, aqui e agora, com toda a humildade de quem se sente mero elo de uma corrente que ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai.

 

Nem sequer tenho aquela erudição esotérica, capaz de articular segredos e símbolos, perdidos no livro ocluso.

 

Por minhas mãos apenas escrevo um livro que na verdade não sei nem tenho de saber.

 

Os mistérios antigos, os que nos podem dar futuro, não são passíveis de adequadas engenharias reconstrutivas, mesmo que possam ser despertados pelos rituais.

 

Apenas quero inscrever-me como soldado das velhas religiões e heresias. E confesso que já era herege antes de me reconhecerem como tal.

 

Até não passo de eterno aprendiz, mesmo depois dos decretos e cânones do Estado me titularem no terceiro e último grau do chamado universitarês.

 

Tenho pelo menos aquela sabedoria daquele que sabe que só sabe que nada sabe.

 

Pelo menos, mereço que a perfeição me reconheça como autor de obras imperfeitas e que, por isso mesmo, procuram a imperfeição.

 

Já agora, uma confissão. Orgulho-me de fazer parte de uma sociedade secreta iniciática que teve a sua saída da caverna no ano de 1140.

 

Pretendo continuar obreiro desse grito de nós somos livres, numa pátria livre. E estarei com todos aqueles que queiram continuar a resistir a um qualquer merceeiro da geofinança que nos queira extinguir, mesmo que seja ministro do reino por vontade estranha.

 

Porque D. Afonso I ou D. João I também não percebiam nada de finanças, nem consta que tivessem biblioteca. Como aquele palestiniano que as únicas palavras que escreveu foram sobre a mobilidade de um qualquer pó de terra.

 

E as pátrias, tal como todos os filhos do homem, nesta terra de homens, podem alcançar o direito a seu voltar, quando se der a regeneração que lhes permita ascender. Quando quiserem vencer a lei da morte e assumirem que cada um as pode regenerar em suas vidas terrenas.

 

A esperança é como essa esfera que tem eixo em cada um dos homens em seu indiviso, mas que são do todo quando crescem por dentro.

 

Por enquanto apenas sabemos que podemos caminhar para o eterno. Alguns, os que nacionalizaram uma tendência importada de 1717, chamam Oriente a tal lugar comum da civilização, desde 1802.

 

Mas só o podem dizer, não por causa da invocação de outras lendas e livros sagrados, quando as letras não matarem o espírito.

 

Como, depois de nós, outros irão dizer, caso não confundam os nomes com as coisas nomeadas, nesta raiz do mais além, onde continuamos a procurar. Porque esse navegar é preciso para que o sobreviver apenas seja o suficente para a luta pela vida, isto é, pelo necessário.

 

Se soubermos ser homens de boa vontade.

 

Isto é, de uma comunidade pelas coisas que se amam. Mesmo que continuemos a fazer amor através das próprias palavras que dissemos e por vezes já não lembro.

 

Porque o máximo de espírito que podemos atingir é quando, depois de um acto de criação, adormecemos a conversar, para sonharmos.

 

 

 

 

 

Dez 12

Na justiça, como administração da justiça

Portugal precisa de um(a) ministro(a) da justiça forte, de um bastonário forte, de um procurador-geral forte e de juízes ainda mais fortes, para que a o minar da confiança pública na missão do jurista não destrua a paz pública. Na justiça, como administração da justiça, qualquer jogo de soma zero é criminoso. Isto é, ganhar um sector à custa do outro. A administração da justiça só serve o povo, em nome do qual actua, se voltarmos ao jogo de soma variável, onde todos concorrem para a mais valia do serviço público. Não é latim. É uma questão de sobrevivência. Deste modo suicida, todos podem invocar muitos poderes, mas nenhum tem autoridade. Não há por aí ninguém que seja “auctor”, isto é, que tenha “auctoritas”? Alguém que tenha o consenso dos que pensam de forma racional e justa e ponha isto na ordem? Um velho jurisprudente, por exemplo. Ou alguém da doutrina. É no que dá quando o legalismo se põe contra o costume, isto é o “tacitus consensus populi longa consuetudine inveteratus”. Isto é um problema de falta de adequada fonte do direito.

Dez 06

Por Cícero e Carl Gustav!

O laboratório mais antigo de quem pensa a política continua a ser a longa guerra civil romana que opôs os cesarianos António e Octaviano aos republicanos Brutus e Cassius, com Cleópatra pelo meio. Claro que sempre torci por Cícero contra o concentracionarismo de César e a emergência do principado e do império. E julgo ter compreendido a causa da queda da república romana: quando as instituições se enredaram em aristocracias possidentes e oligarquias de privilegiados, enquanto os cesarianas passaram a aliar-se à dinâmica da revolta popular e à instrumentalização da abstracção pátria. Roma, de guerra civil em guerra civil, de triunvirato em troika, logo acabou em dominado, quando o imperador, apenas aclamado pelos chefes da soldadesca, passou a assumir-se como “dominus et deus”. E tudo se agravou quando ele se converteu ao monoteísmo e fez com que Roma caísse na teocracia do cesaropapismo. Por isso é que continuo pelo politeísmo superior da republica romana, mesmo em forma de reino, sempre contra as monarcias Quase diria o mesmo do recente filme sobre Freud e Jung. Onde o pai fundador queria cesarismo, isto é, uma revolução com dogmas e ortodoxos, nomeação de um príncipe real e o estrondo de disciplinados apologetas e propagandistas reverenciais. Prefiro o dissidente, o que quis continuar a dizer que só sabia que nada sabia, para integrar a corrente nos mistérios antigos e assim captar a incerteza do futuro, com a consequente aventura da individualidade. Sou da seita de Cícero e Carl Gustav.

Dez 06

Há sempre césares quando emerge a chamada “intelligentzia”

Há antigos ministros das finanças que só politicamente existiriam porque foram ajudantes de políticos como Soares e Santana, que percebiam tanto de finanças como Cristo, apesar de terem biblioteca. Quem neles se vicia corre o risco de entrar no desespero dos meios, sem perceber que eles só existem se permanecerem os fins, nomeadamente coisas como crenças, nações e humanidade. Só engenheiros de sonhos políticos, dotados de um mínimo de patriotismo científico nos podem despertar. As únicas ideias que valem a pena são as ideias pelas quais se está disposto a morrer. E as pessoas só morrem por aquilo que amam. Ninguém morre por ministros, contabilistas, comentadores e treinadores de bancada.

O laboratório mais antigo de quem pensa a política continua a ser a longa guerra civil romana que opôs os cesarianos António e Octaviano aos republicanos Brutus e Cassius, com Cleópatra pelo meio. Claro que sempre torci por Cícero contra o concentracionarismo de César e a emergência do principado e do império. E julgo ter compreendido a causa da queda da república romana: quando as instituições se enredaram em aristocracias possidentes e oligarquias de privilegiados e os cesarianas passaram a aliar-se à dinâmica da revolta popular e à instrumentalização da abstracção pátria.

Roma, de guerra civil em guerra civil, de triunvirato em troika, lago acabou em dominado, quando o imperador, apenas aclamado pelos chefes da soldadesca, passou a assumir-se como “dominus et deus”. E tudo se agravou quando ele se converteu ao monoteísmo e fez com que Roma caísse na teocracia do cesaropapismo. Por isso é que continuo pelo politeísmo superior da republica romana, mesmo em forma de reino, sempre contra as monarcias

Quase diria o mesmo do recente filme sobre Freud e Jung. Onde o pai fundador queria cesarismo, isto é, uma revolução com dogmas e ortodoxos, nomeação de um príncipe real e o estrondo de disciplinados apologetas e propagandistas reverenciais. Prefiro o dissidente, o que quis continuar a dizer que só sabia que nada sabia, para integrar a corrente nos mistérios antigos e assim captar a incerteza do futuro, com a consequente aventura da individualidade. Sou da seita de Cícero e Carl Gustav.

Uma só parangona de hoje, desfaz todo o beatífico esforço de conjugação do bloco central, no propagandismo que me chegou ao começo da madrugada, naquela RGA de elites: “Administradores hospitalares ligados ao PS substituídos por gestores do PSD e CDS”. O mais do mesmo, como se esperava.

Recebi um “mail” onde me comunicam que eles elegeram um dos que escolheu quem agora o elegeu. Na Primeira República, na nova república velha, eram menos hipócritas: o ministro até nomeou para a de Coimbra um correlegionário, capitão de qualquer arma. Não é por qualquer destas vias que a coisa volta a ter alma. Mas, por favor, não lhe chamem gestão democrática. É mais continuação das forças vivas, como ministros de espada à cinta e ilharga larga.

Ninguém muda com os que querem só voltar atrás, para que os mesmo continuem a ordenar. Só com libertação deixará de haver esta liberdade vigiada por um clube com rigoroso direito de admissão e cantilenas desafinadas, com letras do sindicato das citações mútuas e do “yes, minister”.

Acordai, dormentes e enjoados! O novo mundo está aí por descobrir e vocelências ainda glosais os lençóis dos velhos do restolho? Olhem que os homens do verso já cantam outros fados. Os das saudades de futuro.

Há sempre césares quando emerge a chamada “intelligentzia”, isto é, uma “nomenclatura” constituída por esse “tertium genus” a que Gilberto Freyre chamava “intelectuário”, quando um pretenso intelectual não repara que é um simples serventuário.

Dez 04

Davam grandes passeios ao domingo…

Metade do país desfaz-se em graxa louvaminheira para ver se abicha, outros tantos arreganham a dentuça com inveja igualitária e só umas pequenas minorias têm a coragem de esquerda de serem direita ou a coragem de direita de serem de esquerda. Dantes, queriam carismáticos de génio que servissem de homens do leme ao rebanho da unanimidade. De há algumas lideranças falhadas a esta parte, preferem homens comuns que sejam gajos porreiros a quem possam vaiar na primeira curva da falta de popularidade. Ainda não perceberam que a salvação passa pelo exame de consciência de cada um de nós e dos votos e apoios que esbanjámos em imagens publicitárias dos exagerados. As mulheres e homens sem sono negoceiam em ritmo de contra-relógio para mais uma semana decisiva da velha Europa. Isto é, estamos em PREC, onde os grandes brincam à Europa dos pequenitos e ainda chamam irracionais às agências de ratação desta grande aldeia dos macacos cegos, surdos e mudos. Seguro está contra a regra (do latim “regula” ou régua, em luso) e o esquadro (em grego tinha qualquer coisa a ver com nomos, donde veio norma). Eu também detesto as “révolutions d’en haut”, mas acho ainda menos graça a réguas e esquadros de material rígido, como o fazem as testas de ferro com muito paleio. Nesse sentido, prefiro as e os que se adaptam à complexidade das diferenças e concordo com história clássica dos pedreiros de uma certa ilha, célebre por ser Lesbos, mas por outras razões, os que inventaram réguas de chumbo, para se medirem paredes curvas. Coisas de pedreiros antigos que também sabiam o valor do compasso, para efeitos de equidade e de justiça no caso concreto. Quando o nosso “agenda setting” é dominado por sacristãos, sacristães ou sacristanos que, de tanto darem ao badalo, perderam o sentido dos gestos, nada melhor do que voltarmos à pureza inicial das celebrações, fazendo “zapping”. Ninguém consegue traçar numa folha branca uma recta perfeita, sem ajuda da régua. Mas nem por isso deixa de procurar a perfeição. A recta apenas está no ponto de contacto da nossa cabeça com o infinito, quando a existência ascende à essência, no transcendente situado. É Platão, amigos, corrigido pelo macedónio, de Estagira. Foi aqui que começou a Europa, antes de chegarem os merceeiros da meia noite. Lendo a entrevista de PPC a um diário de hoje, posso concluir que todas as folgas são sempre relativas à interpretação autêntica do conceito de excedentes para a economia. Quase como os défices que se eliminam com receitas extraordinárias resultantes do fundo dos anéis. Tudo é verdade, enquanto não me cortarem os dedos. Por outras palavras, a verdade depende sempre da leitura que fizermos da realidade. É uma questão de fé. Confesso a minha ignorância total em matéria de economia mística e de finanças celestiais. Ainda hoje não sei distinguir entre folgas, almofadas e excedentes. Tentei ir aos manuais que aí guardo e reparei que eles não tratavam de metáforas de poesia social, como os primeiros dois termos. E apenas concluí que, em matéria de ética republicana, o que hoje vem no “Público” deveria ter sido previamente comunicado aos senhores deputados e à nação. Porque já se fazem bichas de credores do Estado à porta da pressão e do arbitrário, sobre a quem vai a ser paga a sobra, a que vai da folga à almofada, antes de acabar o excedente do milagre dos fundos de pensões que, até agora, não eram pensionistas pagos pelo estadão. Quem foi historiador que, há poucos anos, antes de morrer, temeu isto: “Portugal está condenado como nação, porque perdeu valores colectivos que definem um povo, uma sociedade, uma moral, uma política…”?

Dez 03

Carta a um velho inquisidor

Sou um velho tradicionalista com uma experiência rica de vivências daqueles a quem chamam antiquários, não viesse eu da maternidade coimbrinha e da nostalgia das baladas, num tempo de crepúsculo, quando vivi a tragédia do fim de um império que era medido em fronteiras, formal soberania extensão de terras e quintarolas. Até assisti à ilusão da descoberta de um novo mundo e que agora parece desfazer-se nos feijões fungíveis das unidades de conta do macromonetarismo. Continuo a pertencer à irmandade dos velos crentes que não confundo os pretensos sinais exteriores de riqueza de espírito, a que se disfarça em hábitos, borlas, balandraus e capelos, com o mistério íntimo da convicção e que não se confunde com catecismo, dogmas e inquisidores. Por isso, odeio os bailados agressivos do sectarismo e os choques animalescos da lei da selva de congreganismos e anticongreganismos, em manobras de teoria da conspiração, sessões celulares de purgas ou meros confrontos de claques. Guardo no corpo e na alma várias cicatrizes da persiganga, publicamente certificáveis por decretos e sentenças e, pela via testemunhal, posso comprovar pretéritas e presentes excomunhões. Daí que reconheça a fraqueza das vitimizações, porque prefiro a superioridade das conquistas por adesão dos que confessaram o erro de se deixarem influenciar pelos eternos inquisidores e mestres na arte diabólica da manipulação dos preconceitos, dos fantasmas e dos cacetes decretinos. Não há pior besta do que aquela que, praticando a intolerância, o fanatismo e a ignorância, se disfarça com discursos de humanismo, fidelidade e humanismo, mas que recruta jagunços que lhe fazem o trabalho sujo dos medos, das conspirações e da persiganga. A nossa crise é que, mesmo em decadência, eles continuam no revisionismo da história dos vencedores.