Jan 10

Reflexões

Há momentos de encruzilhada psicológica que são excelentes reveladores de algumas mentalidades decretinas e merceeiras, onde a bula do Komintern, a lei de Santos Cabral, a matança de Hitler ou os tribunais de Franco se podem traduzir por obediência ao patrão, folha de contabilidade ou ideologia de nostálgico do cacete, da cavalariça ou do auto de fé, com dispensa do poema, da religião, da crença, da facção ou do sonho. As sementes do totalitarismo já despontam em silvados sem amoras.

 

O problema em Portugal está nas canalizações. Sobretudo nas representativas. Por causa dos curto-circuitos e dos comandantes no fornecimento de energia. Gostam imenso da casa dos segredos, da história da carochinha, do papão e da teoria da conspiração. Dá “share”. Mas a gula que faz inchar também leva a rã a rebentar, quando quer imitar o boi sagrado.

 

Nestes dias desfilaram tantas rãs velhas pensando que são vacas sagradas. Claro que há golpes de estadão, mas o primeiro milho é para os pardais, o segundo para a razão. Para a razão animada.

 

A maior das energias sociais é a sede de justiça. Basta colocá-la acima da luta de invejas. E encher a raiva, de ternura. Dá rebeldia, sem insolência. E pode causar libertação.

 

Tudo o que foram instituições de igualização social na luta contra a estratificação do “Ancien Régime”, isto é, o que estava antes de Mouzinho da Silveira, estão, lentamente a ser comprimidas. Foi a tropa, foi a universidade, foram os magistrados, foram os funcionários públicos, são os partidos, são outras associações morais e cívicas, não tarda que seja a igreja. Não é a esquerda contra a direita, os socialistas contra os liberais, ou o público contra o privado, mas o que esteve por trás das próprias rixas de Campo de Ourique, o partido dos fidalgos (não dos nobres) contra o partido dos ditos funcionários, o do Portugal Novo. A própria democracia ameaça ser ocupada, através dos tradicionais inocentes úteis que os donos do poder apenas usam como feitores.

 

Não é um acaso a programação de anarquia ordenada pelos agentes do velho poder de sempre. Só com uma desorganização bem organizada é que o neofeudalismo pode manter-se.

 

O processo de terraplanagem dos símbolos libertadores dos indivíduos e das pátrias, que está em curso, não se insere em nenhuma campanha. É apenas um revelador dos vermes que nos ocuparam a cidade, chamando pensamento à unidimensionalização da complexidade do comunitário e às representações que o iluminam através dos símbolos.

 

Quando falta o amor que nos elevou da casa, ou empresa, à política, pode voltar o chefe da casa, aquilo que, em grego, chamavam déspota e, em romano, dominus, ou dono, e chegar o principado, ou império. E de vez em quando, há repúblicas que regressam ao doméstico, quando cedem ao pai tirano, ou quando esquecem que inventámos a política para deixarmos de ter um dono. Reparo que, por cá, muitos têm saudades do patrão que usurpou a cidadania. É sinal de regresso ao feudalismo.

 

As nações e as outras comunidades políticas de dimensão patriótica, sejam cidades, reinos ou repúblicas, correspondem à terceira potência da alma, inventariada por Platão, a imaginação. São comunidades em torno das coisas que se amam, correspondendo à razão complexa e não apenas à mera razão finalística, a dos chamados rácios. Mas exigem a vontade de sermos, ou continuarmos independentes. Nascem, crescem e podem morrer. Uma das causas da morte anunciada é faltarem poetas que movam os povos.

Jan 09

Farpas de 9 de Janeiro de 2012

Desculpem continuar “um liberdadeiro empedernido”, porque não vejo “no indivíduo a coisa da sociedade”, mas antes “na sociedade a coisa do indivíduo.” Parafraseando mestre Herculano.

Mestre Ramalho Ortigão, dizem que em 1877:
Em Portugal há “uma maioria parlamentar e uma oposição composta de vários grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do único partido existente – o partido
conservador – fragmentos cuja gravitação constitui o organismo do poder legislativo. Estes partidos, todos conservadores, não tendo
princípios próprios nem ideias fundamentais que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente indiferente para a ordem e o
progresso que governe um deles ou que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de comum acordo revezarem-se no poder e governarem alternadamente segundo o
lado para que as despesas da retórica nos debates ou a força da corrupção na urna faça pesar a balança da régia escolha. Tal é o
espectáculo recreativo que há vinte anos nos está dando a representação nacional”

Tendo-se verificado pelos acontecimentos que são bem notórios, o excesso de abuso a que têm chegado as sociedades secretas que com diversos nomes de Ordens, ou Associações se têm convertido em conventículos ou conspirações contra o estado. Assim, declara-se por criminosas e proibidas todas e quaisquer sociedades secretas, de qualquer denominação que elas sejam; ou com os nomes e formas já conhecidas, ou debaixo de qualquer nome, ou forma de que de novo se disponha ou imagine: pois todas e quaisquer deverão ser consideradas de ora em diante como feitas para conselho e confederação contra o rei e o estado. Logo, nenhum pode convocar, ir, ver entrar ou a assistir a essas lojas, clubs, comités ou qualuqer outro ajuntamento de sociedade, sob pena de muitas e de confiscação de bens, sempre em nome do crime de lesa-magestade e a desonra do traidor. Alvará, da autoria do ministro Tomás António Vilanova Portugal (1754-1839) que proíbe associações não autorizadas (30 de Março de 1818).

Quem é favorável, completamente favorável, a que todos façam, em todos os cargos e funções, públicas, privadas e concordatárias, os adequados registos de interesses, mas de todos os interesses materiais e espirituais, de forma não discriminatória, deve indicar um só sistema em direito comparado que o tenha conseguido. O que pressupõe a definição de uma lista de interesses registáveis de forma obrigatória. Pode ser por ocasião do censo populacional, com a restauração dos censores romanos. Conheço um software adequado, da companhia “Big Brother”. E até o juramento vigente no regime da Constituição de 1933, nomeadamente sobre a não pertença a sociedades secretas. Basta restaurá-lo, apesar de ter sido absolutamente ineficaz.

Jan 08

Farpas de 8 de Janeiro de 2012

Os seres vivos divergem da lei da degradação da energia marcante no mundo físico, onde domina a entropia, aquela quantidade de energia que, sendo gasta numa mudança, se torna irrecuperável pelo sistema e fica para sempre na zona do desperdício. Há em certos comentários uma demonstração inequívoca da existência de seres vivos que preferem ser do mundo físico.

Adoro que este mural sirva a alguns de catarse. O mesmo que purga, expressão que em sentido figurado significa libertação. Utilizada pela linguagem freudiana. O eliminar de emoções destrutivas, através da apreciação de uma experiência estética. Agradeço a quem se purga. E que se vê ao espelho.

Há uma lógica curiosa de alguns dos nossos alimentadores do situacionismo, sobretudo do oposicionismo que convém ao situacionismo: os maus de hoje, antigamente eram bons. Os bons, hoje, apenas somos nós. Era como dizermos que o totalitarismo era bom, pena foi haver totalitários, sobretudo os milhões e mortos de mortos por genocídios e democídios. Alguns são tão coerentes que tanto foram militantes do totalitarismo, como aqueles que ainda o são.

Porque pensar é dizer não, nada mais entorpece que o pensamento único que arrasta as correntes dos pretensos bem pensantes. A liberdade sempre foi uma espécie de federação de minorias, especialmente dos que procuram a razão antes do tempo. Ou, como diria Unamuno, o essencial do homem ocidental é ser do contra. Só o futuro nos pode avaliar, desde que se tenha saudade de futuro, isto é, esperança.

Há momentos de encruzilhada psicológica que são excelentes reveladores de algumas mentalidades decretinas e merceeiras, onde a bula do Komintern, a lei de Santos Cabral, a matança de Hitler ou os tribunais de Franco se podem traduzir por obediência ao patrão, folha de contabilidade ou ideologia de nostálgico do cacete, da cavalariça ou do auto de fé, com dispensa do poema, da religião, da crença, da facção ou do sonho. As sementes do totalitarismo já despontam em silvados sem amoras.

E com Trotsky me despeço: “há uma incompatibilidade completa e absoluta, entre o espírito revolucionário e o espírito da pequena burguesa maçónica, instrumento da grande burguesia”. Ouvi isto ontem no meu parlamento.

Foi em 12 de Outubro de 1936, em Salamanca: ” Vencer no es convencer, y hay que convencer, sobre todo, y no puede convencer el odio que no deja lugar para la compasión”. Falava Miguel de Unamuno na sua universidade. Um animal de cavalariça logo berrou :”Viva la muerte!” . Unamuno respondeu: “Acabo de oír el grito negrófilo de “Viva la muerte!”. Esto me suena lo mismo que “Muera la vida!”. Y yo, que he pasado toda la vida creando paradojas que provocaron el enojo de quienes no las comprendieron, he de deciros, con autoridad en la materia, que esta ridícula paradoja que me parece repelente. Puesto que fue proclamada en homenaje al último orador, entiendo que fue dirigida a él, si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que el mismo es un símbolo de la muerte.” Furioso, Millán gritou:”Muera la inteligencia!” José Maria Pemán, intelectual oficioso, logo exclamou: “No! Viva la inteligencia! Mueran los malos intelectuales!” Unamuno acrescentou: “Éste es el templo de la inteligencia! ¡Y yo soy su supremo sacerdote! Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido , diga lo que diga el proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir, y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha”.

As nações e as outras comunidades políticas de dimensão patriótica, sejam cidades, reinos ou repúblicas, correspondem à terceira potência da alma, inventariada por Platão, a imaginação. São comunidades em torno das coisas que se amam, correspondendo à razão complexa e não apenas à mera razão finalística, a dos chamados rácios. Mas exigem a vontade de sermos, ou continuarmos independentes. Nascem, crescem e podem morrer. Uma das causas da morte anunciada é faltarem poetas que movam os povos.

Quando falta o amor que nos elevou da casa, ou empresa, à política, pode voltar o chefe da casa, aquilo que, em grego, chamavam déspota e, em romano, dominus, ou dono, e chegar o principado, ou império. E de vez em quando, há repúblicas que regressam ao doméstico, quando cedem ao pai tirano, ou quando esquecem que inventámos a política para deixarmos de ter um dono. Reparo que, por cá, muitos têm saudades do patrão que usurpou a cidadania. É sinal de regresso ao feudalismo.

O processo de terraplanagem dos símbolos libertadores dos indivíduos e das pátrias, que está em curso, não se insere em nenhuma campanha. É apenas um revelador dos vermes que nos ocuparam a cidade, chamando pensamento à unidimensionalização da complexidade do comunitário e às representações que o iluminam através dos símbolos.

Um dos meus mestres, Luís da Silva Mousinho de Albuquerque, que morreu em combate na Patuleia, contra a tirania, proclamou: “Podem as nações ter a faculdade de renascer pela reacção contra a força; mas da gangrena moral ninguém ressurge, não é essa gangrena uma das fermentações tumultuosas que transformam uns produtos em outros; é a fermentação pútrida, que destrói radicalmente o ser orgânico, que desagrega, que dispersa os átomos componentes.”~

O mesmo Luís da Silva Mousinho de Albuquerque: para quem “o princípio único de toda a Política é a Moral. Finanças, interesses materiais, formas de Governo, tudo é adventício, tudo é subordinado a esse princípio único. Tudo são entidades secundárias, tudo são acessórios do edifício da existência social. O valor fundamental é a independência portuguesa e o carácter nacional, importando servir o Estado…o Estado, a República…este dever todo moral, todo patriótico”.Por isso, há que assumir “uma bandeira nacional, que seja excêntrica a todas as paixões, a todos os ódios, a todas as vinganças, em nome do desejo do povo que não aspira à governança, mas sim à felicidade”. Belos Patuleias!

Mestre Alexandre: “Que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um se exerça sobre dez milhões deles, é sempre a tirania, é sempre uma coisa abominável”. Temendo o regresso a um regime que tratou de “inventar a idolatria do algarismo; e cobrindo com a capa de púrpura a mais ruim das paixões, a inveja, enfeitou-a com um vago helenismo.”

Um excelente trabalho de investigação: a relação da lista dos membros da comissão de honra das candidaturas presidenciais vitoriosas e os lugares de nomeação nas empresas e companhias de regime. Com reportagem em directo nas televisões das reuniões não rituais que precederam o processo. Ou de como os sinais de fumo não exigem a presença dos habituais bombeiros. É tudo um fogo que arde sem se ver. Além disso, estamos perante relações privadas, sem actas do conselho de ministros.

O poder em Portugal é uma coisa que se conquista, não é ainda uma relação estratégica entre a comunidade e o aparelho de poder. Logo, vigora o velho “spoil system”, com a tradução em calão do mais antigo sistema de razia, do árabe ghazya.

Tudo o que foram instituições de igualização social na luta contra a estratificação do “Ancien Régime”, isto é, o que estava antes de Mouzinho da Silveira, estão, lentamente a ser comprimidas. Foi a tropa, foi a universidade, foram os magistrados, foram os funcionários públicos, são os partidos, são outras associações morais e cívicas, não tarda que seja a igreja. Não é a esquerda contra a direita, os socialistas contra os liberais, ou o público contra o privado, mas o que esteve por trás das próprias rixas de Campo de Ourique, o partido dos fidalgos (não dos nobres) contra o partido dos ditos funcionários, o do Portugal Novo. A própria democracia ameaça ser ocupada, através dos tradicionais inocentes úteis que os donos do poder apenas usam como feitores.

Por acaso estou a preparar um texto sobre a matéria, para conferência que irei proferir no dia 30 de Janeiro, nas cerimónias integradas no centenário do Instituto Superior Técnico. Claro que não fui convidado por nenhuma oficialidade conselheira da escola onde sou decano.

O problema em Portugal está nas canalizações. Sobretudo nas representativas. Por causa dos curto-circuitos e dos comandantes no fornecimento de energia. Gostam imenso da casa dos segredos, da história da carochinha, do papão e da teoria da conspiração. Dá “share”. Mas a gula que faz inchar também leva a rã a rebentar, quando quer imitar o boi sagrado.

Jan 07

Farpas de 7 de Janeiro de 2012

To be, or not to be: that is the question…Até para os que antes de o serem já o eram. Porque há os dizem ser sem nunca o terem sido, bem como os que não o sendo sempre o foram.
To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;

Vários órgãos de comunicação social têm pedido o meu depoimento sobre a questão maçónica. Não tenho podido estar presente. Mas aqui não tenho calado. E até respondi longamente a um pedido de entrevista, vinda da jovem blogosfera. Precisamente de quem tem sido frontalmente divergente face às minhas concepções do mundo e da vida. Aqui a divulgarei conforme a deontologia da própria lealdade entre adversários. Na luta de ideias não há inimigos.

Jan 06

Farpas de 6 de Janeiro de 2012

Consta que vários senhores deputados, pressionados pelas circunstâncias, se preparam para mudar o nome dos Passos Perdidos, enquanto corre um abaixo-assinado, que já mobilizou milhares, visando derrubar as colunas do Cais das ditas. Entretanto, anuncia-se inédita medida legislativa no contexto das democracias europeias, que nos colocará na vanguarda da violação da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Bastaria consultar o Tribunal que a protege, se houvesse constitucionalistas que conhecessem tal jurisprudência. A Itália já foi condenada por medida idêntica, tomada por uma sua região. E a norma positiva que a nossa constituição acolhe é exactamente a mesma. Estudem.

Um ex-ministro e ex-deputado acaba de me confidenciar:”Dessa fatal corrupção das sociedades nasce o maior inimigo da liberdade, o indiferentismo. Quando uma nação prevertida e podre chega a cair nesse estado paralítico, nem há que esperar para a liberdade nem que recear para o despotismo”. Não é conveniente ligar-lhe. Era membro da Jardineira. E também já morreu em 1854.

Uma sociedade iniciática, existente desde 1717, nunca pode ser uma sociedade secreta política. Esta subtil diferença não é captável por todos aqueles que consideram que a política, o dinheiro ou a pertença a uma religião revelada são totalizantes da vida humana, especialmente quando tiveram juvenis adesões ao totalitarismo. Pensam que o mundo da liberdade começou quando, indo eles na estrada de Damasco, tiveram uma súbita aparição com a consequente guinada que lhes levou a carapuça, à esquerda ou à direita. Ficaram vazios de mística e tratam do transcendente como feijões fungíveis da mercearia. Não tarda que, com eles, também a religião secular da pátria se dilua em niilismo.

Ouço Pacheco Pereira: “tradicionalmente, no PSD, era tudo contra a maçonaria”. Deve ser por isso que Emídio Guerreiro, o mais antigo maçon do mundo, enquanto viveu seus tempos de fim, presidiu ao PPD. E mais outro. Ambos GOLU-GOL. Por outras palavras, o PPD/PSD não começou quando Pacheco Pereira se inscreveu no partido. Mais, o GOL não começou em 1910. Foi fundado e existe continuadamente desde 1802. Já esteve em 1806-1808, na luta contra Junot, em 1817, 1820 e por aí fora. Sempre com a liberdade.

Ontem, hoje e amanhã, aqui e em muitos lados, a maçonaria só o é se for uma sociedade iniciática. Há mais de dois séculos de doutrina civilista e penal sobre a matéria, tanto nativa como comparada. Sobretudo, a produzida por não-maçons. E jurisprudência correspondente. Mas há quem queira fazer regredir Portugal às interpretações vigentes de certos ayatolas

A mais antiga e continuada organização demoliberal portuguesa chama-se Grande Oriente Lusitano que, para efeitos de Estado de Direito, recebe a forma de Grémio Lusitano. Merece o respeito de decano. Já passaram meia dúzia de regimes políticos e as consequentes constituições. E outros tantos, tantas e tontos hão-de passar. Até já esteve formalmente extinto, cerca de quarenta anos, mas sempre foi.

Li. É provocador da ignorância, do fanatismo e da consequente tirania que de tal emerge.

Tenho a honra de ter neste mural uma pluralidade de vozes, de fascistas a marxistas-leninistas, socialistas, liberais, reaccionários e progressistas. Há até quem insulte boçalmente as minhas concepções do mundo e da vida. Isto é, surge um certo espelho da nação, sobretudo quando as circunstâncias quebram o verniz e se mostra o que seria se eliminássemos o pluralismo. Peço que me compreendam. Não quero excluir ninguém, mas bem gostaria de pedir um pedacinho daquilo que aprendi ser a boa educação, sobretudo em casa alheia onde só entrou quem expressamente pediu. Porque, como todos sabem, o hospedeiro tem como norma nunca ter feito tal pedido. Por último, também não sou parvo de todo e sei que alguns formais amigos só aproveitam o local para não serem amigos e o instrumentalizarem.

Um velho mestre, disse-me hoje: “Há uma cousa em que supponho que ate os meus mais entranhaveis inimigos me fazem justiça; e é que não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las”

Mais sugestões: Franco emite a lei de repressão da Maçonaria e do comunismo (1 de Março de 1940). Há penas retroactivas. Os encontros maçónicos sujeitos a uma pena de prisão até trinta anos. Criado um tribunal especial para a repressão do comunismo e da maçonaria, que começa a funcionar logo em 1941. São elaborados cerca de 80 000 dossiers sobre maçons, quando o número destes antes da Guerra Civil não chegava aos 5 000. Haverá até maçons mortos que chegam a ser condenados. O modelo dura até à criação do Tribunal da Ordem Pública, em 1963.

Em 1941 chega a ser denunciado, ao mesmo Tribunal de Franco, José Maria Escrivá, embora sem ser processado, considerando-se o Opus Dei como um ramo judeu da maçonaria. Em Bacelona, no mesmo ano, num convento de religiosas carmelitas, foi queimada publicamente uma cópia do ‘Caminho’

Outra sugestão: nos Estados Unidos, em 1827, é organizado um Antimasonic Party que publica Antimasonic Review and Magazine. Dura até 1833. Por cá, foram menos civilizados. Utilizaram o cacete e a forca. E puniam todos quantos se vestiam de azul e branco, justamente considerados símbolos maçónicos. A regência dos Açores elevou-as a cores nacionais, retomando as Constituintes vintistas. Outras cores maçónicas eram precisamente o verde e amarelo. Também hão-de ser símbolo nacional, do Brasil.

Pergunte a mestre Carl Gustav Jung sobre os símbolos e ele disse: o que chamamos símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós. Porque uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto inconsciente mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. E nem podemos ter esperanças de defini-la ou explicá-la.

E mestre Jung continuou: Quando a mente explora um símbolo, é conduzida a ideias que estão fora do alcance da nossa razão. Logo, os símbolos não se podem confundir com os signos, constituindo uma concepção que ultrapassa toda a interpretação concebível. O símbolo não é como o signo, a expressão que se usa para designar qualquer coisa conhecida. Apenas é vivo o símbolo que, para o espectador, é expressão suprema do que é pressentido, mas ainda não reconhecido. Incita, portanto, o inconsciente à participação…traduz um fragmento essencial do inconsciente…

E não parou: O símbolo tem uma natureza infinitamente complexa, compondo-se de dados recebidos de todas as funções psíquicas e, portanto, não é racional nem irracional. Tem, portanto, um sentido divinatório, face à sua significação escondida, fazendo vibrar tanto o pensamento como o sentimento, numa singular plasticidade. O símbolo vivo não pode aparecer num espírito obtuso e pouco desenvolvido, pois este apenas se contenta com um símbolo já existente, tal como lhe é oferecido pelo tradicional. Só a paixão de um espírito altamente desenvolvido, para quem o símbolo oferecido já não é a expressão única da união suprema, pode criar um símbolo novo.

 

Jan 05

Farpas de 5 de Janeiro de 2012

Os chineses do século XVI diziam que os portugueses eram bárbaros, isto é, diabos vermelhos, porque comiam pedras (pão) e bebiam sangue (vinho), tal como outros povos diziam que os cristãos eram antropófagos porque, em seus cerimoniais, comiam o corpo de um deus feito homem. É o que fazem todos os que são marcados pela incompreensão face aos símbolos decepados da unidade espiritual de que os rituais são simples parcela. É por esta e por outras que detesto todo o sectarismo que pretende monopolizar o sagrado para a respectiva liturgia e que, fradescamente, semeia a intolerância, insinuando o ridículo face as alfaias que os outros usam para os mesmos fins. Afinal, todas as liturgias são ridículas fora dos templos em que se dá a comunhão e a religação. Contudo, mais ridículos ainda são os que não têm liturgia sentida por dentro, ou os que se ficam pelos sucedâneos e pelas vulgatas de certo dogmatismo pretensamente antidogmático (escrito e publicado por mim em 20 de Novembro de 2007 e não por aquilo que ontem e hoje ouvi sobre os que dizem saber muito da história de limpezas).

Em Portugal, ainda permanece um subsolo de incompreensão face a uma ordem a que pertenceram pessoas como Kant, D. Pedro IV, Churchill ou Jean Monnet, de liberais a socialistas, de conservadores a destacadas figuras eclesiásticas. Bastava aliás notar que a última intervenção pública de Fernando Pessoa, nas vésperas da morte foi a defesa da não extinção da maçonaria contra os ditames da primeira lei do Estado Novo, desencadeada por um conhecido defensor da restauração da pena de morte que, em 1867, fora abolida depois de uma campanha e do empenhamento de maçons portugueses que, no mesmo dia, também lançavam o primeiro Código Civil, o do maçon António Luís de Seabra. Dizer que o Partido Conservador britânico sempre foi enraizadamente maçónico ou que a Resistência francesa nasceu desse impulso espiritual apenas causa espanto para mentalidades tão intolerantes quanto certa faceta ultra-positivista e neojacobina da história maçónica, a que queria “enforcar o último papa nas tripas do último padre”. Porque os maçons, em termos de opção política, correm todo o espaço dos arcos democráticos que defendem as sociedades livres e pluralistas (Janeiro de 2009).

Em Portugal, ainda permanece um subsolo de incompreensão face a uma ordem a que pertenceram pessoas como Kant, D. Pedro IV, Churchill ou Jean Monnet, de liberais a socialistas, de conservadores a destacadas figuras eclesiásticas. Bastava aliás notar que a última intervenção pública de Fernando Pessoa, nas vésperas da morte foi a defesa da não extinção da maçonaria contra os ditames da primeira lei do Estado Novo, desencadeada por um conhecido defensor da restauração da pena de morte que, em 1867, fora abolida depois de uma campanha e do empenhamento de maçons portugueses que, no mesmo dia, também lançavam o primeiro Código Civil, o do maçon António Luís de Seabra. Dizer que o Partido Conservador britânico sempre foi enraizadamente maçónico ou que a Resistência francesa nasceu desse impulso espiritual apenas causa espanto para mentalidades tão intolerantes quanto certa faceta ultra-positivista e neojacobina da história maçónica, a que queria “enforcar o último papa nas tripas do último padre”. Porque os maçons, em termos de opção política, correm todo o espaço dos arcos democráticos que defendem as sociedades livres e pluralistas (Janeiro de 2009).

Palavras para quê? Vale mais ouvir Verdi. É tudo transparência e contador de electricidade, onde o amor programático com adequada voltagem se retribui.

Elite em Portugal conserva o sabor original de não meritocracia. São os “élus”, isto é, os escolhidos por quem manda. Incluindo, os que já ultrapassaram o prazo de validade, para que se conserve o perfume da brigada da gerontocracia.

Por alguma razão, em 1834, surgiu o epíteto de devoristas. A quem também chamavam chamorros, nome antigo, de 1383-1385, sobre os que não alinharam com os ventres ao sol, preferindo o pacto feudal de Salvaterra…

Garanto-vos coisa segura: não posso ser excomungado nem pratico pecado grave. Aliás, os que acumulam só de um dos lados é que são passíveis de sanção. Problema do sancionador e do sancionado. Talvez mais do sancionador, como é óbvio. O que revela o essencial.

Confirmo que muitos comentadores deste mural adorariam que voltasse este espírito do legislador: “a Maçonaria, e especialmente a Maçonaria em Portugal, deve ser reprimida, porque pretende substituir a civilização cristã pela civilização maçónica, aspira à dominação do Estado e possui organização exagerada e perigosamente internacionalista”. Porque tem como base um “ideal igualitário, sem superioridades sociais, nem distinção de classes, baseada no racionalismo ateísta dos materialistas, ou na religião humanitária da razão e da natureza herdada nas antigas tradições esotéricas, transmitidas pela cabala judaica”. Parecer em que se fundamentou uma lei de 1935, dita da extinção.

“Os parvos entram onde os anjos temem entrar.”

O senhor Fernando Pessoa também me segredou: “o Estado está acima do cidadão, mas o Homem está acima do Estado”.

Fui ler uma velha sentença proibicionista que dizia: temos de extinguir aqueles crentes que no dia pagão do deus do sol Rá, se ajoelham aos pés de um instrumento de tortura antigo e consomem símbolos rituais de sangue e carne.

Para ajudar alguns meus comentadores, aqui vai argumento fatal: eles tudo explicam “pelo panteísmo e pela Cabala, o culto da natureza sob formas simbólicas de repugnante obscenidade, a torpe falolatria, gerando uma turba imunda de falofaros, numa espécie de prostituição sagrada, discriminando como causas, a heresia sociniana, os templários, propagadores do maniqueísmo e do gnosticismo, o canal pelo qual as práticas e ritos infames do politeísmo passavam do velho mundo pagão para o mundo cristão.”. Manuel Fernandes Santana, em 1908.

A ironia consiste em dizer as coisas que declaramos não dizer, ou então em dizê-las com palavras que afirmam o contrário do que queremos exprimir.

A minha vizinha do lado é loira. Noutro dia torturou um gatinho pardo. O presidente da junta, que acumula com a protectora dos animais, convidado pela rádio local, defensor do bem comum, ainda há pouco declarou: “sempre disse que todas as loiras batem nos bichos, umas criminosas”. O sindicato das loiras prepara uma grandiosa manifestação de protesto, em nome do lema: “de noite, todos os gatos são pardos!”

Jan 04

Farpas 4 de Janeiro de 2012

O Marquês do Lavradio acaba de escrever uma História Abreviada das Sociedades Secretas, dá-se a primeira experiência de caminho de ferro, e o papa Pio IX, em Singulari Quaedam, considera os membros das sociedades secretas como inimigos da fé cristã, por desejarem exterminar o culto religioso. Estamos no ano da graça de 1854.