Muitos sinais me dizem que muitas instituições parecem ter escolhido o seu caminho de não salvação pública e de não-ruptura, delegando os seus destinos no presente e no futuro situacionismo, para que eles conjuguem o medo e a esperança, escrevendo o capítulo final de um certo ciclo de vida em comum. Esperemos que todos tenham o êxito que nos vêm prometendo, sobretudo no programa de luta pelo emprego. Eles têm todos os poderes que querem ou quiseram, no cargo um, no cargo dois, no cargo três, no quadro quatro e aos quais até julgam que podem distribuir o acrescer das pensões, das avenças, dos subsídios e de outras prebendas. Eles são a direcção e coordenação do conselho alínea a), do conselho alínea c), da assembleia alínea d), bem como das unidades z), x), w), y), k), bem como do boletim oficial, dos programas de intercâmbio e, directa ou indirectamente, da maior parte dos processos de condução de carreirismo, consagrando a continuidade herdada dos nossos ilustres directores de colégios e centros de estágio, de quem foram próximos discípulos e de quem são miméticos semeadores, até na continuação do verbo mudar. Por outras palavras, em termos de hierarquias formais e reais, têm, na dependência, mais de metade do corpo eleitoral e podem, assim, fazer da vida uma negociação permanente, com o nome de gestão democrática. Que se plenifiquem em graça e desgraças. Julgo que seria conveniente fazerem acrescer a estes poderes, a plenitude da direcção de todos, ou quase todos, os restantes restos, para que possam conduzir os destinos de um sistema que, inequivocamente, entra naquela fase crepuscular, donde também pode emergir a Fénix. Por mim, que não gosto de cinzas nem de terra queimada, prefiro reconhecer que é ao entardecer que a sobriedade da coruja da sabedoria costuma levantar voo(die Eule der Minerva beginnt erst mit der einbrechenden Dämmerung ihren Flug, Hegel dixit, Grundlinien der Philosophie des Rechts, «Vorrede», Bd. 7, s. 9-10)
Se o poder enlouque, o poder absoluto enlouquece absolutamente
Reparo que vivemos em plena ditadura do défice, herdeira daquela ditadura das finanças que levou Salazar ao poder, pelo que corremos o risco de entrarmos em regime de salazarismo democrático, nesse submeter-nos para sobreviver para aguentarmos a bolsa e a vida. O que talvez explique a angústia do principal partido da oposição que, sabedor dos ditames do programa de aplicação do défice da União Europeia, prefere que nosso governo faça o jogo do tratamento de choque e que, na hora certa, o instinto predador gere um novo líder que vá fazer a rodagem do carro ao próximo congresso da Figueira da Foz, nessa Blitzkrieg ensaiada, onde rebus sic stantibus, sempre em nome da alteração anormal das circunstâncias.
Da luta de classes, sem consciência de classe, ao mesquinho da mera energia das invejas igualitaristas
A alta governança deste estadão a que chegámos, onde, em casa de ilustres ferreiros, continuam a ser usados espetos de pau, ao anunciar reformas que não cumpre, vai fazendo entrar em regime de greve de zelo enormes fragmentos de um aparelho de Estado feito de pessoas, que bem poderiam ser mobilizadas pelo bem comum se, de cima, viessem exemplos daquela autoridade que vem de autor e não dos autoritarismos plagiados com encenações de Estado-Espectáculo e música verbal de celestial demagogia. E nada digo sobre a minha chafarica universitária, que essa está à espera dos decretos que mestre Mariano vai preparando para a sua comteana révolution d’en haut,com muitas promessas de ordem e progresso sobre o fim das idades da teologia e da metafísica e a gloriosa chegada de um D. Sebastião científico, Guerra Junqueiro o dixit a Raul Brandão. O tal bandarriado que não compreendeu Thomas Kuhn e persiste numparadigma dos anos setenta do século passado, quando os maoistas, trotskistas e outros alpistas ainda andavam à procura da revolução perdida, sem assumirem oagainst method dos inimigos do construtivismo, como é o meu caso, de liberalão empedrenido que vai relendo Fiore e Vico e manda esses falsos gnosticismos para o caixote de lixo da história do pensamento. Basta notar como ainda se elegem reitores, conselhos directivos e conselhos pedagógicos, um quarto de hora antes de todos estarem mortos, incluindo conselhos de reitores e reitores primazes, onde generais dependem do vanguardismo de sargentos e de muitos soldados unidos que ainda clamam jamais serem vencidos. E tudo isto num sítio onde continua eficaz a memória daquilo que Mário Sottomayor Cardia qualificou como a subversão a partir do aparelho de Estado e que até inventou um PREC feito de generais de aviário, como eram os majores graduados em generais, em benefício do regabofe do oportunismo carreirístico do salve-se quem puder, típico de um ambiente que consegue transformar a luta de classes, sem consciência de classe, nessa grande energia das petites histoires da grande história como é a rasteirinha luta de invejas, categoria que Karl Marx nunca inventariou, mas que a há, a há e até se move e move, enquanto o mundo gira e Jaime Dias roda. P.S. Já agora, agradeço a qualquer coimbrinha, ainda vivendo na terra dos mestres dos locatários de Belém, se permanece a empresa de camiões que tinha o slogan que citei em último. A sede era em frente aos Bombeiros Voluntários, na Avenida Fernão Magalhães, e este escrevente, quando era puto a caminho da escola primária de São Bartolomeu, vindo da rua fora de portas, aprendeu com ela a procura da globalização alternativa. Espero que o Professor Boaventura a leve para o museu do seu laboratório associado de ciências sociais…
Entrevista sobre a corrupção
- 1. Portugal é um dos países da Europa que mais recorre ao pequeno tráfico de influência ou ao chamado «puxar os cordelinhos» e à «cunha. Como se pode explicar tal facto?
A Dona Maria da Cunha, prima da Senhora Dona Política e do Senhor Amor Próprio, para parafrasear a antiga, mas não antiquada “Arte de Furtar”, obra publicada anonimamente em 1652, com o subtítulo Espelho de Enganos, Teatro de Verdades, Mostrador de Horas Minguadas, Gazua Geral dos Reinos de Portugal, sempre foi dotada de sagacidade hereditária e de modéstia postiça. Criou‑se nas cortes dos grandes Principes,embrulhou‑os a todos. Logo todos falam de política,muitos compõem livros dela e no cabo nenhum a viu,nem sabe de que cor é. Porque a primeira máxima de toda a política do mundo que todos os seus preceitos encerram em dois,como temos dito, o bom para mim e o mau para vós. Ao aceitar a regra de viva quem vence. E vence quem mais pode, e quem mais pode tenha tudo por seu, porque tudo se lhe rende, neste ponto, errou o norte totalmente,porque tratou só do temporal sem pôr a mira no eterno.
- 2. Acha que a corrupção tem crescido na sociedade portuguesa nos últimos anos — sobretudo pela mediatização de alguns casos — ou sempre houve, de forma mais escondida?
Corrupção vem do latim corruptio, acção de romper pelo meio, de rasgar em partes iguais, de ir ao centro da coisa e desintegrá-la. De corrumpere, tornar podre, decompor. Ela começa sempre pelo centro e visa a destruição total do ser. Diz-se de todo o processo de compra do poder, onde o comprador deseja obter parcelas do poder. Trata-se efectivamente de um roubo de poder. Como se assinalava na nossa Arte de Furtar: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, este sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.
3. Quais os instrumentos mais eficazes para combater aquele que é considerado um dos «cancros» das democracias?
Para Lord Acton o poder tende a corromper é o poder absoluto corrompe absolutamente. O mesmo pessimismo leva-o a dizer que se devia desconfiar do poder mais do que do vício e que a História não é uma teia trançada por mãos inocentes. Entre todas as causas que degradam e desmoralizam os homens, o poder é a mais constante e a mais activa. Entre nós, talvez seja preferível citar Alain, para quem se o poder enlouque, o poder absoluto enlouquece absolutamente.
No dia do manifesto de Marx e Engels
No dia do manifesto de Marx e Engels, importa recordar que o Portugal político é o país mais à esquerda da Europa, dado que a esquerda dominante é socialista democrático e a oposição liderante de direita é social-democrata. Isto é, tanto a esquerda como a direita ainda continuam marxistas, não-leninistas, mas revisionistas. No rigor da ideologia e da história, esta é uma afirmação correcta, embora politicamente incorrecta. Porque ninguém pode negar que o PPD fundacional admitia a inspiração marxista, que o PS era claramente marxista e que até o CDS de Freitas apresentava projectos de constituição em nome do socialismo humanista. Porque ninguém pode negar que a própria JSD chegou a adoptar “A Internacional” como hino da organização, quando fazia congressos com os retratos de Marx e Engels na parede. Porque ninguém pode negar que o PSD retirou o marxismo do programa bem depois do PS de Constâncio o ter concretizado, copiando ambos o que o SPD tinha feito no Congresso de Bad-Godesberg de 1959. Coisas bem mais substanciais do que a habitual historieta que põe Durão Barroso como jovem maoísta do MRPP antes de passar para presidente da Comissão Europeia, com prévia passagem pelo centro de desmarxização universal, anti-Bin Laden, da universidade de Georgetown, onde precedeu Nuno Severiano Teixeira. Talvez até ainda possa ser até mais correcto: Portugal político é o país mais hipócrita do mundo. Porque fez partidos de cima para baixo. E só sobreviveram os que saltaram para o cavalo do poder governamental na ditadura revolucionária dos governos provisórios (PCP, PS e PPD), ou o que teve assente no Conselho de Estado da altura (CDS). Assim se repetiu o salazarismo, que também criou o partido único da União Nacional por resolução do conselho de ministros: Tal como o partido democrata-cristão do Centro Católico Português foi instituído por deliberação da conferência episcopal em 1917. Somos obedientes, reverentes e obrigados, filhos da Inquisição, do devorismo e do partido único de Afonso Costa. Isto é, temos medo do Estado. E depois de 1974, porque era moda, fizemos democracia com partidos onde os dirigentes estavam à esquerda dos militantes e os militantes à esquerda dos votantes, com imensos fantasmas de direita e imensos preconceitos de esquerda. Felizmente, fomos escrevendo direito por linhas tortas e fazendo história sem processo histórico, porque não é a história que faz o homem, mas o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Por isso é que Marx merece o meu respeito. Viveu como pensou e não pensou como viveu. Marx ainda está vivo. Nixon e Caetano já morreram. Contudo, sempre preferi o partido de Alexis de Tocqueville e de Alexandre Herculano. De Leonardo Coimbra. E de Agostinho da Silva. Não alinho nos grupos revisionistas que transformaram antigos ministros de Salazar e Caetano em inspiradores ou neo-ministros. Viva Marx que nunca foi marxista!
Em busca do paraíso, com algum empirismo e muita aventura
Regresso, quarta-feira de cinzas, depois de alguns dias de Entrudo, onde nada se podia dizer que não fosse carnavalício. Nem sequer podíamos comentar a demissão de Alberto João Jardim no Funchal, a fim de referendar a respectiva revolta contra o colonialismo socialista de Lisboa e encavacar o Palácio de Belém. E seria arriscado comentar a saída de José Miguel Júdice do PSD ou os últimos programas da RTP sobre os “grandes portugueses”, agora que Paulo Portas ameaça falar sobre a situação interna do CDS e Pedro Santana Lopes assiste embeiçadamente revoltado à dissolução da sua equipa autárquica.
É por isso que, ao viajar por alguns blogues da não-esquerda, reparo que começa a emergir uma nova direita, onde há vários artigos de fé. O primeiro é o ter estado com o “não” ao referendo sobre a IVG, porque se proclama que o “sim” era de esquerda. O segundo é aceitarmos que, depois de António Ferro, o novo profeta daquele salazarismo que já existia antes de Salazar é o recente concurso televisivo e os brilhantes documentários que os sustentam. O terceiro é atacar José Miguel Júdice que, mais uma vez, sai do rebanho.
Como não sigo estes três mandamentos da nova coisa, peço que me tirem da lista dos pretensos membros da direita lusitana, embora declare que não é por isso que vou para a esquerda. Fico bem como radical do centro e volto a gostar da atitude do meu antigo líder dos tempos estudantis de Coimbra, o Zé Miguel, tendo ainda mais saudades de outro heterodoxo desses momentos de transição, o Francisco Lucas Pires, dois dos que falharam numa aliança que teria sido necessária para que não vivermos entre Cavaco, Ribeiro e Castro e Marques Mendes, tal como poderemos vir a viver entre Cavaco, Paulo Portas ou Pedro Santana Lopes.
Por mim, que entre os cinco, apenas digo que venha o Diabo e escolha, prefiro continuar a tratar das minhas macieiras, que não incluem as teses de Franco Nogueira sobre o autoritarismo, com filmes realizados por António Lopes Ribeiro, ou a literatura de justificação sobre o caceteirismo e a cedência à Santa Aliança, mesmo que se chame República Imperial. Apesar da minha simpatia pela Maria da Fonte e pela Patuleia, prefiro reler as Trovas de Bandarra, para ganhar inspiração para novas cartas de achamento, em busca do paraíso, com algum empirismo e muita aventura. Apesar de conservador nunca cedi aos “tories”, prefiro desembarcar com John Locke nas praias do Pampelido, perto do Mindelo, e ousar reflectir sobre o PREC à maneira de Burke e de Hayek.
Da Renovação Democrática ao soarismo presidencial
Apesar de ultrapassarmos os noventa e cinco por cento de cidadãos que se dizem católicos, os chamados católicos praticantes não passam de 25% e, destes, ainda há uma fatia significativa que já não obedece aos apelos da hierarquia, quando se trata de votos em referendos. Aliás, julgo que, na prática, só há 5% de gente da esquerda praticante e outros tantos da direita, também praticante, ficando os restantes dependentes, não da manipulação da opinião pública, mas do que lhes interessa em termos de manha. Porque, entre a nossa mistura criativa de pragamatismo e aventura, o pragmatismo acaba por superar o sentido de aventura e quase todos reconhecem que a maioria dos portugueses à solta foi emigrando ao longo dos tempos. E o desencanto continua se passarmos para os temas mobilizadores dos blogues, onde grande parte dos meus amigos discute Salazar , por causa de um concurso televisivo que o coloca como o melhor português de sempre, enquanto outro concurso, da estação rival, o atira para o preciso inverso. Mas nada posso dizer sobre o programa onde o meu amigo e colega Jaime Nogueira Pinto, com toda a coerência, defendeu o ditador, porque não quis mesmo ver a coisa, para não me irritar com o brilhante apologeta de uma figura que, muito liberalmente, detesto e contra a qual tenho muitos fantasmas e outros tantos preconceitos, até pelo que aconteceu a alguns avoengos meus, presos e condenados num processo político a que um tribunal militar especial deu guarida. Prefiro notar esta explosão de Salazar inhos que vai proliferando à esquerda e à direita, em plena democracia geneticamente anti-salazarista, neste regresso ao ambiente mental salazarento, para dizer que me apetecia ser mesmo um português à solta e continuar a procurar Portugal fora de Portugal. Temo apenas que regressemos à tal Salazar quia de que falava Hipólito Raposo, que era monárquico e tudo: A Salazar quia é um regime de constrangimento que oprime a vida do espírito em Portugal, provocando a dissolução moral que diariamente vamos assistindo. Porque a II República do Estado Novo foi a eternização do provisório, algo de ilógico, onde reina uma ordem à maneira sepulcral dos cemitérios (Alberto Monsaraz, também monárquico). Porque Salazar e o regimecometeram o monstruoso erro psicológico de quererem governar este povo com… método geométrico, coercitivo e glaciar, levando a uma rotura no parentesco dos portugueses (Afonso Lopes Vieira, idem). Um governo autoritário, que vive à custa do silêncio dos adversários e nega os direitos do cidadão pode impor-se num país de escravos, nunca a um povo que teve de lutar com extremos de bravura para fundar a sua independência e expandir-se no mundo. Nada de um português do velho cerne pode perdoar do que reduzirem-nos à condição de menor (Jaime Cortesão, republicano e democrata). Julgo que foi liquidado o ambiente de confiança e de respeito pela palavra dada, o que, de acordo com a soberana avaliação individual, me coarcta a possibilidade de assumir, pela realização consensual, a capacidade de sonho, onde a ideia de obra, as regras de processo e as manifestações de comunhão geraram a ilusão de regresso à clássica via da teoria institucional, assumida pelos institucionalistas que acreditam que as criaturas se libertam dos criadores e sabem que “os cemitérios estão cheios de pessoas insusbstituíveis”. Talvez importe permitir que a crueza da realidade se manifeste, para confirmar que chegámos a um momento de encruzilhada, onde só podem actuar e liderar aqueles que põem a ética da responsabilidade acima da ética da convicção, conforme os modelos da politiqueira razão de Estado, isto é, os que consideram como meramente instrumentais os princípios clássicos das instituições, conforme acima sumariei. Entrámos definitivamente no habitual modelo das “guerrazinhas de homenzinhos” e mulherzinhas, para parafrasear Eça, onde todos perderemos, incluindo os vencedores, dado que continuamos a flutuar ao sabor de discursos celestialmente demagógicos dos que, até agora, têm mantido esta confusão entre o poder e o saber, onde todos podem inventar lendas e narrativas, nesses factos que não se confundem com a interpretação dos factos, dado que domina um ambiente de desconfiança, feudalização e quebra da ideia de autoridade, onde esta vem de autor e não dos autoritarismos burocráticos, incluindo os electivos. Isto é, estão abertas as portas à bagunça e aos inevitáveis “césares de multidões”, mesmo que seja um movimento de massas de pretensas elites. E seria melhor acabar com o medo, fazer casar a honra com a inteligência. Porque tentar superar a crise com a criação de ligações de encomendação feudal ou propostas de troca de serviços protectivos é apenas adiar o inevitável processo de “out of control”, propício à inevitável ingerência de potências estranhas à nossa autonomia. Todas as frases que nos hão-de salvar já estão todas escritas, há muitos candidatos a salvadores, mas, na pátria, continua a falta de razão e de emoção, de entusiasmo e pensamento, de ciência e pedagogia, de honra e de inteligência, das tais emergências da lei da complexidade crescente que permitam salvar mesmo a pátria, mantendo a democrática institucionalização dos conflitos e as consequentes convergências e divergências das coisas vivas e dos sistemas abertos.
Contra a salazarquia, os salazarinhos e o salazarentismo
Anteontem, fui convidado, por sugestão de Baptista Bastos, para, no RCP, dar o meu testemunho sobre a falta de auto-estima dos portugueses, onde, utilizando os números do recente inquérito social europeu, lá observei as nossas contradições, entre o teoricamente prático e o praticamente teórico, onde, na prática, a teoria é outra.
Apesar de ultrapassarmos os noventa e cinco por cento de cidadãos que se dizem católicos, os chamados católicos praticantes não passam de 25% e, destes, ainda há uma fatia significativa que já não obedece aos apelos da hierarquia, quando se trata de votos em referendos. Aliás, julgo que, na prática, só há 5% de gente da esquerda praticante e outros tantos da direita, também praticante, ficando os restantes dependentes, não da manipulação da opinião pública, mas do que lhes interessa em termos de manha. Porque, entre a nossa mistura criativa de pragamatismo e aventura, o pragmatismo acaba por superar o sentido de aventura e quase todos reconhecem que a maioria dos portugueses à solta foi emigrando ao longo dos tempos.
Basta passar os olhos para as grandes parangonas de hoje, entalados que estamos entre um Fontão da autarquia da capital, que era arguido há um mês, mas não o dizia, e o jogo do gato e do rato entre Maria José Morgado e o senhor Pinto da Costa. E o desencanto continua se passarmos para os temas mobilizadores dos blogues, onde grande parte dos meus amigos discute Salazar, por causa de um concurso televisivo que o coloca como o melhor português de sempre, enquanto outro concurso, da estação rival, o atira para o preciso inverso.
Mas nada posso dizer sobre o programa onde o meu amigo e colega Jaime Nogueira Pinto, com toda a coerência, defendeu o ditador, porque não quis mesmo ver a coisa, para não me irritar com o brilhante apologeta de uma figura que, muito liberalmente, detesto e contra a qual tenho muitos fantasmas e outros tantos preconceitos, até pelo que aconteceu a alguns avoengos meus, presos e condenados num processo político a que um tribunal militar especial deu guarida.
Prefiro notar esta explosão de salazarinhos que vai proliferando à esquerda e à direita, em plena democracia geneticamente anti-salazarista, neste regresso ao ambiente mental salazarento, para dizer que me apetecia ser mesmo um português à solta e continuar a procurar Portugal fora de Portugal. Temo apenas que regressemos à tal salazarquia de que falava Hipólito Raposo, que era monárquico e tudo: A salazarquia é um regime de constrangimento que oprime a vida do espírito em Portugal, provocando a dissolução moral que diariamente vamos assistindo.
Porque a II República do Estado Novo foi a eternização do provisório, algo de ilógico, onde reina uma ordem à maneira sepulcral dos cemitérios (Alberto Monsaraz, também monárquico). Porque Salazar e o regime cometeram o monstruoso erro psicológico de quererem governar este povo com… método geométrico, coercitivo e glaciar, levando a uma rotura no parentesco dos portugueses (Afonso Lopes Vieira, idem).
Um governo autoritário, que vive à custa do silêncio dos adversários e nega os direitos do cidadão pode impor-se num país de escravos, nunca a um povo que teve de lutar com extremos de bravura para fundar a sua independência e expandir-se no mundo. Nada de um português do velho cerne pode perdoar do que reduzirem-nos à condição de menor (Jaime Cortesão, republicano e democrata).
Julgo que foi liquidado o ambiente de confiança e de respeito pela palavra dada, o que, de acordo com a soberana avaliação individual, me coarcta a possibilidade de assumir, pela realização consensual, a capacidade de sonho, onde a ideia de obra, as regras de processo e as manifestações de comunhão geraram a ilusão de regresso à clássica via da teoria institucional, assumida pelos institucionalistas que acreditam que as criaturas se libertam dos criadores e sabem que “os cemitérios estão cheios de pessoas insusbstituíveis”.
Talvez importe permitir que a crueza da realidade se manifeste, para confirmar que chegámos a um momento de encruzilhada, onde só podem actuar e liderar aqueles que põem a ética da responsabilidade acima da ética da convicção, conforme os modelos da politiqueira razão de Estado, isto é, os que consideram como meramente instrumentais os princípios clássicos das instituições, conforme acima sumariei.
Entrámos definitivamente no habitual modelo das “guerrazinhas de homenzinhos” e mulherzinhas, para parafrasear Eça, onde todos perderemos, incluindo os vencedores, dado que continuamos a flutuar ao sabor de discursos celestialmente demagógicos dos que, até agora, têm mantido esta confusão entre o poder e o saber, onde todos podem inventar lendas e narrativas, nesses factos que não se confundem com a interpretação dos factos, dado que domina um ambiente de desconfiança, feudalização e quebra da ideia de autoridade, onde esta vem de autor e não dos autoritarismos burocráticos, incluindo os electivos.
Isto é, estão abertas as portas à bagunça e aos inevitáveis “césares de multidões”, mesmo que seja um movimento de massas de pretensas elites. E seria melhor acabar com o medo, fazer casar a honra com a inteligência. Porque tentar superar a crise com a criação de ligações de encomendação feudal ou propostas de troca de serviços protectivos é apenas adiar o inevitável processo de “out of control”, propício à inevitável ingerência de potências estranhas à nossa autonomia.
Todas as frases que nos hão-de salvar já estão todas escritas, há muitos candidatos a salvadores, mas, na pátria, continua a falta de razão e de emoção, de entusiasmo e pensamento, de ciência e pedagogia, de honra e de inteligência, das tais emergências da lei da complexidade crescente que permitam salvar mesmo a pátria, mantendo a democrática institucionalização dos conflitos e as consequentes convergências e divergências das coisas vivas e dos sistemas abertos.
Os meus dez vícios pessoais
Pediu-me, um órgão de comunicação social, que, publicamente, desvendasse os meus dez vícios pessoais, como se fosse possível fingir que é verdade aquilo que na verdade sou, tentando ocultar os vícios privados através de sonoras frases de virtudes públicas. Aliás, já há décadas que não me confesso, pelo que, para responder ao desafio, tive de fazer uma pesquisa sobre o que é um vício, optando pela etimologia: falha ou defeito, que se opõe à virtude. Não satisfeito, dei um salto aos Dez Mandamentos, aos sete pecados capitais e fiquei ainda mais perplexo, sem que Maimónides me tivesse valido com o seu Guia. Vou assim utilizar o pretexto para o integrar no meu próprio contexto. Número um: panteísta, adepto do pluralismo dos divinos. O meu primeiro vício está em não cumprir os três primeiros mandamentos de Moisés, dado que sou um militante daquela heresia panteísta que gostaria de voltar ao pluralismo dos divinos, acreditando que, mesmo no tocante ao transcendente, vale a pena distinguir para unir. Número dois: antimoderno. O meu segundo vício está em não seguir as regras do método da modernidade cartesiana, rejeitando os deicídios de uma racionalidade finalística que nega o mistério e confunde o humanismo com a ilusão de podermos ser “donos e senhores da natureza”. Número três: adepto do paradoxo. O meu terceiro vício está em usar e abusar do paradoxo, essa “forma mentis” que, conforme nos ensina Mounier, brota do ponto de união da eternidade com a historicidade, do infinito com o finito, da esperança com o desespero, do trans-racional com o racional, do indizível com a linguagem. A certeza das certezas, ou, melhor, o acto de fé central é para a razão uma antinomia, e a sua solidez está composta do impulso mútuo que se dá nos dois pólos da antinomia. Número quatro: contra os conservadores do que está. Seguindo assim o lema de Miguel de Unamuno, considero que a essência do homem ocidental é ser do contra, o que reforça a minha posição de conservar, porque, não sendo conservador do que está, sou um acérrimo conservador do que deve ser. Apesar de viver em Lisboa e de ser pai de três naturais de São Sebastião da Pedreira, continuo um resistente camponês, com nostalgia da terra natal. Apesar de ter sido adjunto de seis governos e de ter seguido a “via crucis” da função pública, de técnico superior de segunda a assessor, com passagem por chefe de divisão, director de serviços e subdirector-geral, abdiquei da coisa quando me doutorei e corri o risco de assumir as minhas ideias liberais fora da proteccção da hierarquia vertical. Número cinco: tradicionalista anti-reaccionário. Daí que me defina como um tradicionalista que detesta os reaccionários, e que para ser de direita, tem de assumir-se como um radical do centro. Um liberal liberdadeiro deve ser libertacionista para servir a justiça. Tal como um nacionalista que assuma a armilar tem de ser mais universalista do que soberanista. Número seis: republicanamente monárquico. Logo gosto de dizer o que sempre fui, um monárquico adepto da coroa aberta, isto é de um trono cercado de instituições republicanas, como dizia Passos Manuel, pelo que se houvesse referendo sobre a matéria, votaria por, primeiro, restaurar a república e só depois instaurar o reino, dado que reclamo o direito de ser um republicano monárquico ou um monárquico republicano que bem gostaria que tivesse havido um miguelismo liberal que cassasse a honra com a inteligência, a emoção com a razão, contra o anterior absolutismo monárquico, para evitar o posterior despotismo de todos, esse absolutismo do povo que conduziu aos inevitáveis césares de multidões. Portanto, tive que desembarcar no Mindelo e continuo cartista e manuelino, mesmo depois dos buissidentes terem assassinado ou rei ou de Salazar ter enterrado D. Manuel II. Número sete: um liberal anti-neolib e um conservador anti-neocon. Seguindo o paradoxo, continuo a ser considerado estadualista entre os neoliberais, heterodoxo anti-americano entre os “neocons”, autor de livros de poesia entre os doutorados em politologia, saloio entre os capitaleiros. Mesmo assim prefiro ser um homem livre que ousa viver como pensa, sem pensar como vive, nomeadamente na avença ou no subsídio que assim não recebo, porque também os não peço. Número oito: contra a ditadura dos conceitos. Porque se a liberdade não nasce da certeza, mas da incerteza (Kierkegaard), apesar de professor de coisas políticas, não aceito que toda a realidade possa ser definida, isto é, reduzida a conceitos, porque o objecto é uma realidade que existe independentemente do sujeito, essa realidade entendida como o tal objecto de conhecimento que pode ser definida, classificada, analisada e manipulada através dos conceitos. Número nove: um cientista anticientificista. Acresce que, como cientista, subscrevo aquele ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss, é a tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas, a passagem do exotérico, do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico, isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado. Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Weil, não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido de experiências. Número dez: pelo problemático contra o sistemático. Acredito mais no pensamento problemático do que no pensamento sistemático, pelo que tento pesquisar sempre o problema, isto é, toda a questão que aparentemente permite mais de uma resposta, mas que também requer, necessariamente, o entendimento preliminar, só passível de compreensão. Onde se reclama que só pode haver diálogo entre posições adversárias, quando entre elas se estabelecem pontes de consensualidade ou lugares comuns.
Manuel Vilaverde Cabral
Manuel Vilaverde Cabral tem vindo a repetir, em nome da “ecologia do voto”, que há “a clivagem Norte-Sul na cultura política portuguesa, que vem desde as Guerras Liberais do século XIX”, reflectindo também um grau diferente da implantação do catolicismo – com a comunista Beja nos antípodas do Minho católico… A análise é esmagadoramente confirmada pelos grandes mapas a cores que nos dividem distritalmente os votos, onde a extensão do concelho de Odemira, quase igual à do distrito de Viana do Castelo, pode levar-nos a não reparar que a população daquele é inferior a uma ou outra das oitenta e tal freguesias do concelho de Barcelos. Parece, contudo, que a simplificação da conclusão padece de alguns preconceitos capitaleiros e urbanóides, bem como de muitos fantasmas de esquerda, pelo que talvez não penetre na alma dos nossos paradoxos, através do velho método da sociologia da compreensão. Não vou, evidentemente, contestar a pretensa lei do investigador-coordenador, porque simplesmente rejeito qualquer lei sociológica, embora me apeteça brincar um bocado, comparando a fauna sociológica que ainda continua a ir à festa do Avante, em autocarros fretados pelo partido, a partir de Beja, com a que visita o santuário da Cova de Iria, numa dessas excursões paroquiais a partir de Fafe, onde os bustos de Lenine e Cunhalcorrespondem aos santinhos da Senhora de Fátima. Porque, entre os dois conservadorismos, não sei qual deles é o menos liberal. Aliás, mais simbolicamente, apetece dizer que a expedição do imperador-guerreiro, D. Pedro IV, partiu dos Açores e desembarcou na praia do Pampelido, bem no Norte. Tal como foram os deputados do Douro que provocaram o 9 de Setembro de 1836, e que, do Norte, nos vieram coisas libertacionistas como a Maria da Fonte, a Patuleia e o 31 de Janeiro. Porque, entre o Norte e o Sul, acabam sempre por desempatar homens do Centro, de Afonso Costa a António de Oliveira Salazar . Tal como nos vamos esquecendo de nortenhos como Basílio Teles, Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, ou Agostinho da Silva, para falar apenas em republicanos históricos e da Faculdade de Letras do Porto. Apetece dizer coisas bem mais sociológicas. Em primeiro lugar, que a população não é estática, dado que, desde as guerras ditas liberais, saíram do Norte dezenas de milhões de emigrantes, tanto para o Brasil e estranjas, como sobretudo para Lisboa, onde muitos dos urbanóides têm a nostalgia rural da sua santa terrinha. Em segundo lugar, que importa fazer uma micro-análise dos presentes resultados referendários, espreitando para os mapas distritais por dentro e reparando que, mesmo nos distritos de entre o Minho e as ribas do Douro, há tensões e divisões internas que não são apenas resultantes do conflito entre a cidade e as serras. Não é o catolicismo que está em causa, mas uma certa concepção de comando da hierarquia catolaica, onde o motor da chefia eclesial já não consegue repetir os modelos de criação do Centro Católico Português de 1917, nem depois da criação da Universidade Católica, onde o actual reitor é, aliás, investigador-coordenador do mesmo ICS de Manuel Vilaverde Cabral. Por outras palavras, os resultados do actual referendo obrigam a novas oleosidades da máquina catolaica, sugerindo-lhe que retome os modelos dos finais do século XIX e princípios do século XX, onde Oliveira Salazar não se chamava Bagão Félix, nem D. Policarpo correspondia a D. Cerejeira. E onde apareceram homens como D. António Ferreira Gomes ou António Alçada Baptista. Hoje falta um bispo que escreva obra equivalente a “A Igreja e o Pensamento Contemporâneo”, bem como activistas semelhantes aos do velho CADC. A Igreja das aparições de Carnaxide não é a mesmo que a Igreja das aparições de Fátima, especialmente depois das visitas de Paulo VI e João Paulo II. Tal como a Igreja do catolicismo da Irlanda ou da Polónia não corresponde à imagem que a nossa deixou transparecer na campanha do referendo, onde houve muitas tolices inquisitoriais e muito castelhanismo à São Escrivá, quando também podia, e devia, aparecer como libertacionista, até pela independência nacional. Apenas digo que Portugal precisa de uma nova regeneração católica que a aproxime do libertacionismo que a Igreja representa, hoje, para o Terceiro Mundo. Portugal não precisa de repetição das cenas absurdas que opuseram católicos integristas a católicos progressistas, à semelhança do que ocorreu no crepúsculo do Estado Novo. Não basta que outros investigadores do ICS e outros conselheiros de Belém continuem a semear no centro nevrálgico do pensamento católico subsolos filosóficos alienígenas, provocados por conservadorismos protestantes ou neomarxianismos adocicados. Seria mais fácil repetirem a viagem da Pontifícia de Braga e do seu neotomismo. Ou seguirem os ditames de Le Play e de Marnoco e Sousa. Estes deram mais frutos. Apenas se confia que aqui desabrochem as sementeiras de João Paulo II e Bento XVI. Porque o principal problema do pensamento católico em Portugal é não haver, internamente, capacidade para mobilizarem, para a hierarquia, o pensamento vivo que já existe nas próprias bases. Os campanheiros vanguardistas do recente “Não”, dominados pelas castas capitaleiras e urbanóides, não ganharam muitos votos nas respectivas paróquias e até famílias. O tal Norte profundo, que ainda obedeceu ao púlpito, é doutra estirpe e não precisa de ser desnorteado, europeizado ou capitaleirizado. Julgo que, finalmente, encerrou o último capítulo da campanha de lançamento da TVI, onde resultou uma secção de deputados do PS, bem como o recente líder do CDS, quase os mesmos que inspiraram um bispo, lá em meados da década de oitenta, a apelar ao voto em Cavaco Silva contra as heresias liberais de Lucas Pires. Ainda estou a ouvi-lo nas ondas hertzianas e até era de Évora… Por mim prefiro o paradoxo e quero que o miguelista Padre Casimiro volte a combater sob o comando da Patuleia liberal, tal como aconteceu em 1975, rejeitando as leis dos intelectuais trotskistas, porque nunca me esquece que as primeiras organizações operárias de massas em Portugal eram o círculos católicos operários, tal como julgo ter compreendido como o velho Partido Socialista de Antero e Fontana, andava pelo Porto de alianças com os restos da resistência miguelista e, depois, se passaram para apoio a certos deputados progressistas, como o Joaquim Pedro de Oliveira Martins. Os meus egrégios avós são povo, mesmo povo, não são diabos e eu prefiro a metodologia de Camilo, em toda a sela.