Abr 04

Entrevista a O Encoberto

Gostaríamos de lhe agradecer por esta entrevista. 

Ao publicar não faremos quaisquer alterações, quer às nossas perguntas, quer às suas respostas.

Haviam muitas mais perguntas para fazer, mas devido ao pouco espaço do nosso “jornal”, fomos obrigados a racionar. 

Preencha a entrevista e reenvie-nos o documento, sff.

 

“O Encoberto” fala com o Prof. Maltez

 

O corpo editorial d’”O Encoberto” gostaria de agradecer ao Prof. Maltez, pela oportunidade que gentilmente nos concedeu, de uma “Mail to Mail Interview”  ( em inglês fica sempre melhor , não fica?).

 

“O Encoberto” –  O que acha de uma iniciativa como “O Encoberto”? E bebe ou não bebe Sumas de Ananol?

 

Prof. Maltez – Em tempos de nevoeiro, quando até os tecnocratas manipulam o processo de fabricação de desejados, planeando o D. Sebastião científico, através da do clientelismo e da encomendação feudal, nada melhor do que baralhar e dar de novo, com um pouco de criatividade, inconformismo e irreverência, sem medo de ter medo. Por isso, quando um colega me telefonou alarmado com a circunstância de um grupo de alunos, num jornal clandestino, me ter feito uma caricatura, eu me senti orgulhoso de viver numa instituição onde nem todos cantam o “lá vamos cantando e rindo”, transformando em mais valia criativa, aquilo que é a caricatura e a anedota que todos contam sobre os professores, como eu próprio fiz nos meus tempos de estudante.  Apenas protestei porque, prefiro a “coca light”, embora compreenda que me tenham ligado a um produto português… Logo, aceitei o vosso pedido de entrevista, porque sei o risco que correm , quando  os habituais espiões reciclados vos ligarem à minha pessoa, em nome de mais uma teoria da conspiração, forjada em locais misticamente clandestinos, onde uns dizem ser fascista, outros, maçónica, não faltando até os que falam no congreganismo jesuítico, embora me assuma como homem livre, adepto do liberdadeirismo, sempre contra a ignorância, a intolerância e o fanatismo, mesmo que seja pela revolta dos sem poder.

 

“O Encoberto” – O caos em que aparenta estar o processo de Bolonha no nosso Instituto, é simplesmente aparente ou estão a fazer muito pouco, tarde de mais?

 

Prof. Maltez – Direi que se houvesse caos, ainda poderia haver quem ousasse a perfeição, mesmo que fosse a da anarquia ordenada ou a da desordem bem organizada. O dito processo de Bolonha, esse conceito indeterminado ou cláusula geral que apenas serve para os detentores da via decretina a usurparem, constitui uma espécie de placebo a que alguns põem o rótulo de racionalidade importada e que confundem com uma chouriçada de “curricula” feitos a “copy and paste” a partir da “Internet”. Sobre a matéria, apenas direi que temos de submeter-nos para podermos sobreviver, mas que seria bom continuarmos a lutar para podermos viver como pensamos. Acrescentarei apenas que pôr o velho vinho azedo em pipas novas talvez apenas sirva para notarmos como ele vai azedar ainda mais. Tentem, por exemplo, a via dita da tutoria, que poderia ser aplicada imediatamente nos actuais mestrados e doutoramentos, acabando com os nossos decadentes segundos e terceiros graus que apenas funcionam porque ainda há clientela interna de assistentes à procura de progresso na carreira, mas reparem nos encargos financeiros que ela traz. Por exemplo, ninguém deveria poder inscrever-se num mestrado sem projecto de investigação prévio e sem nomeação de um tutor que interviria em todos os actos de exame, de acordo com um “menu” concertado, a fim de evitar que os mesmos mestrados continuem a ser repetições dos cursos de licenciatura. Por outras palavras, quem não reparar que precisamos de urgentes medidas de salvação pública, face ao número significativo de alunos que abandonam as graduações, depois de nelas terem entrado, e perante o decréscimo dramático nas inscrições nos mestrados, está a hipotecar o futuro da escola, mesmo que fique encantado com os belos anúncios e os excelentes cartazes da propaganda, esquecendo-se que os padrões de avaliação já não dependem  do anterior crivo.

 

“O Encoberto” – Muitos alunos já tiveram aulas neste Instituto com Prof’s que aparentemente não reconhecem a palavra pedagogia, como fazendo parte da língua portuguesa e esqueceram-se que um Prof. é na verdade um professor (na verdadeira acepção da palavra). Já ouviu falar deste problema no nosso Instituto?

 

Prof. Maltez – Muitos vêem, ouvem e lêem, mas preferem ignorar e esperar pela próxima reunião do Conselho dito Pedagógico, onde, felizmente, a cultura herdada do nacional-porreirismo do Professor Pereira Neto foi elevada a hipérbole nos tempos que correm, especialmente num país onde a avaliação das competências de um professor, depende das bocas conjunturais, emitidas no efémero de uma reunião, e não de um sistema objectivo de avaliação que lhe forneça créditos para a própria carreira, bem como de um adequado regime contencioso interno de reclamação de notas.  Sou adepto de outro modelo, radicalmente diverso. Que todos os professores nasçam de um concurso público, com prévias provas pedagógicas, e que o processo de carreira não dependa das lealdades louvaminheiras ou de pagamento de serviços eleitorais, mas dos critérios de uma sociedade aberta, pluralista e competitiva, que eliminem esta  doença endogâmica e tribalista onde decadentemente nos embrenhámos.

 

“O Encoberto” – Considera que os nossos Prof’s, estão preparados para as exigências dos novos padrões de ensino?

 

Prof. Maltez –O problema tem que ser perspectivado fora da lógica do rebanho e dos discursos de música celestial em que somos excelsos. Também por cá há bons e maus professores e óptimos e péssimos processos de ensino, mas não podemos continuar a tapar o sol da concorrência com a peneira do mais do mesmo nem entrarmos na loucura decadentista que fez falir as universidades privadas que professores do ISCSP de outras eras em má hora fundaram, quando também se fingiu que qualquer professor doutor poderia ser especialista “out of área” e que, com promessas, todos os monitores poderiam por obra e graça de uma chouriçada decretina passarem a catedráticos, para gáudio de eternas promessas cinquentonas ou sessentonas que só eram reconhecidas nas quatro paredes da tribo. Por mim, abriria imediatamente concursos para professores auxiliares, onde posso enumerar muitos antigos alunos da casa, titulados pelas melhores universidades europeias, estabelecendo um efectivo regime de concorrência pela igualdade de oportunidades e pelo reconhecimento do mérito, através de um programa que não daria votos, mas que salvaria a instituição, mesmo sem alguns contratos automaticamente renovados. Do mesmo modo, permitiria que as unidades ditas científicas e pedagógicas passassem todas a ser geridas por detentores de título da especialidade para a área, aconselhando alguns colegas que abdicassem de tantas acumulações inevitavelmente inimputáveis, de tantas turmas a reger e a coordenar, de tantas orientações de teses e tantos cargos, que lhes devem  dar compensações  psicológicas, mas que fora deste quintal soam a gargalhada.

 

“O Encoberto” – Tendo em conta as várias reclamações que os alunos têm quanto a notas, maneiras de dar aula… parece-nos suspeito, haverem tão poucas (ou nenhumas) reclamações “oficiais”, pedidos de reapreciação de exame… Qual é para si a melhor opção? 1ª Os alunos são cobardolas 2ª Instalou-se no I.S.C.S.P.(e O.) um regime de medo (quase Salazarista… tipo faca e queijo na mão…) que impede os alunos de reagir. 3ª O Problema “não existe”.

 

Prof. Maltez –O problema existe porque a maioria sociológica de estudantes e professores tem os representantes que escolheu e que merece. A cultura do Estado de Direito e do entendimento da democracia como uma institucionalização dos conflitos ainda não se difundiu na cultura da instituição e, portanto,  ainda dominam atavismos de Escola de Regime e do consequente micro-autoritarismo sub-estatatal, onde os antigos aparelhos de repressão se volveram em subsistema de medo, gerando este ambiente de servidão voluntária, plena de medos e de falsos temores reverenciais, filhos do velho absolutismo de facto de uma escola onde sempre tivemos “senhores directores” omnipotentes que nunca souberam o que era o princípio da separação de poderes, nesse ridículo autoritarismo bem expresso pela distribuição de gabinetes aos professores, onde basta irmos ao terceiro andar para vermos quem manda, isto é, quem está mais próximo do simbólico sítio de sua alteza. Em democracia pós-autoritária, o salazarentismo continua, mesmo que se pinte de neofascista ou de esquerda moderada ou revolucionária.

 

 

 

“O Encoberto” – Quais são para si as características de um bom professor universitário?

 

Prof. Maltez – Dar cada aula como se ela fosse um acontecimento que nunca se repete, dada por um ser que nunca se repete perante pessoas de alunos que também nunca se repetem e, para tanto, não ser um mero lente de fotocópias obtidas em resumos de bibliografia alheia, mas detentor de produção própria, nascida da mistura de adequada teoria com as circunstâncias do tempo e do lugar em que labuta. Por outras palavras, viver cada momento desta vida de professor como se ele fosse o último. Isto é, fazer desta profissão uma vocação e não um posto de vencimento ou um trampolim que nos dá cartão de visita ou trampolim para mais altos e bem remunerados cargos. Quem não tiver vocação para esta missão que a deixe!  Acresce que esta exigência íntima impõe que as escolas sejam instituições, isto é, que tenham uma ideia de obra, que gerem manifestações de comunhão e que sejam reguladas por normas processuais que a todos vinculem, para que possam ser escolas de cidadania e de abertura para aquele transcendente situado a que damos o nome de cultura. Se transformarmos o professor num burocrata de uma direcção-geral da administração directa do Estado ou num esquema partidário, sujeito ao “spoil system”, não poderemos cumprir a missão civilizadora daquela entidade onde o essencial do homem ocidental é o sentido crítico do “ser do contra”, para depois poder ser qualquer outra coisa em coerência de pensamento e acção.

 

“O Encoberto” – O que recomenda para o I.S.C.S.P.(e O.) ?

 

Prof. Maltez –Que seja uma universidade, uma “universitas scientiarum” e que não caia na tentação politécnica que o levará ao suicídio, mesmo que os senhores directores e coordenadores ganhem imagem e trampolim. Que se liberte do tribalismo endogâmico e suicida, com muita música celestial, onde muda a retórica para que continue tudo na mesma. Que abra as portas e as janelas à sociedade, mesmo que apanhe constipações e que permita que os homens livres que aqui ainda permanecem deixe que a respectiva imaginação possa ter o poder a ajudá-los e não o contrário. Mas tenho medo que, nesta encruzilhada, regressem os fantasmas do “salve-se quem puder” e do “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. Que não confessemos nossos antigos pecados saneadores, para irmos ao passado e recuperarmos as boas heranças que também temos, nomeadamente uma cultura de escola de proximidade e de “small is beautiful” que a presente doença do “Portugal dos pequeninos com a mania das grandezas” nos parece comprometer.

 

“O Encoberto” – Comentários finais Sr. Prof. O que gostaria de dizer aos alunos?

 

Prof. Maltez –Importa resistirmos para lutarmos contra o regime do mestre-escola e podermos salvar o pluralismo de paradigmas sem o qual deixaremos o campo da universidade. Importa compreendermos que, com mais de cem anos, já passámos quatro regimes e que não podemos estar dependentes do oportunismo e da conveniência dos que querem servir aquilo que julgam ser os novos senhores. Isto é, sermos humildes, transformando as nossas vulnerabilidades em potencialidades e evitando que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades. Isto é, praticarmos a arte da estratégia, onde dizemos ser pioneiros, voltando ao sonho que move montanhas, mas com um pouco mais de aventura e pragmatismo, isto é, reconhecendo pecados passados, como os dos saneamentos por razões ideológicas e de invejas, onde foram afastados os mais competentes, à esquerda e à direita, sempre com inúmeros adjectivos de teoria da justificação, para que explodissem os cogumelos dos conformistas e “yesmen”. Uma escola que afastou Vitorino Magalhães Godinho, Hermano Saraiva, D. António Ribeiro, Martim de Albuquerque ou Luís Sá e ainda não se redimiu desse pecado, não pode continuar a viver em regime de teoria da conspiração explicativa, vendo manobras da maçonaria, do “opus dei”, dos comunas ou dos fachos em todos os cantos, só para que continuem a dominar os filhos de algo, mesmo que teologicamente benzidos, que já nem sequer nobreza têm. O segredo está na velha regra da igualdade de oportunidades, livre da encomendação feudal deste permanente regime de convidados para a mesa do orçamento. Não tenhais medo!

 

Abr 03

Ser professor

 

Hoje, um professor universitário, se se assumir como funcionário da comunidade e se ousar libertar-se das teias dispersivas das mobilizações burocráticas, da chamada gestão de poder, terá de ousar viver como pensa e deixar de preocupar-se com as eternas mudanças decretinas que os ventos governativos vão sucessivamente soprando.

 

O meu princípio está em não cumprir os três primeiros mandamentos de Moisés, dado que sou um militante daquela heresia panteísta que gostaria de voltar ao pluralismo dos divinos, acreditando que, mesmo no tocante ao transcendente, vale a pena distinguir para unir.

 

Em segundo lugar, não sigo as regras do método da modernidade cartesiana, rejeitando os deicídios de uma racionalidade finalística que nega o mistério e confunde o humanismo com a ilusão de podermos ser “donos e senhores da natureza”.

 

Em terceiro lugar, uso e abusar do paradoxo, essa “forma mentis” que, conforme nos ensina Mounier, brota do ponto de união da eternidade com a historicidade, do infinito com o finito, da esperança com o desespero, do trans-racional com o racional, do indizível com a linguagem. Porque a certeza das certezas, ou, melhor, o acto de fé central é para a razão uma antinomia, e a sua solidez está composta do impulso mútuo que se dá nos dois pólos da antinomia.

 

Não chega o mero investigar, para que outros investigadores o leiam ou para que possa entrar na rede do sindicato neocorporativo das citações mútuas. Tenho de libertar-me dos enredos dessa casta de amigos que cordialmente se odeiam e assumir-me como publicista, usando os novos meios de comunicação que tenho ao dispor.

 

 

 

Aliás, seguindo assim o lema de Miguel de Unamuno, considero que a essência do homem ocidental é ser do contra, o que reforça a minha posição de conservar, porque, não sendo conservador do que está, sou um acérrimo conservador do que deve ser. Apesar de viver em Lisboa e de ser pai de três naturais de São Sebastião da Pedreira, continuo um resistente camponês, com nostalgia da terra natal. Apesar de ter sido adjunto de seis governos e de ter seguido a “via crucis” da função pública, de técnico superior de segunda a assessor, com passagem por chefe de divisão, director de serviços e subdirector-geral, abdiquei da coisa quando me doutorei e corri o risco de assumir as minhas ideias liberais fora da proteccção da hierarquia vertical.

 

Seguindo o paradoxo, continuo a ser considerado estadualista entre os neoliberais, heterodoxo anti-americano entre os “neocons”, autor de livros de poesia entre os doutorados em politologia, saloio entre os capitaleiros. Mesmo assim prefiro ser um homem livre que ousa viver como pensa, sem pensar como vive, nomeadamente na avença ou no subsídio que assim não recebo, porque também os não peço.

 

Porque se a liberdade não nasce da certeza, mas da incerteza (Kierkegaard), apesar de professor de coisas políticas, não aceito que toda a realidade possa ser definida, isto é, reduzida a conceitos, porque o objecto é uma realidade que existe independentemente do sujeito, essa realidade entendida como o tal objecto de conhecimento que pode ser definida, classificada, analisada e manipulada através dos conceitos.

 

Acresce que, como cientista, subscrevo aquele ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss, é a tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas, a passagem do exotérico, do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico, isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado. Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Weil, não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido de experiências.

 

Acredito mais no pensamento problemático do que no pensamento sistemático, pelo que tento pesquisar sempre o problema, isto é, toda a questão que aparentemente permite mais de uma resposta, mas que também requer, necessariamente, o entendimento preliminar, só passível de compreensão. Onde se reclama que só pode haver diálogo entre posições adversárias, quando entre elas se estabelecem pontes de consensualidade ou lugares comuns.

 

 

 

Aliás, titulado que sou numa área científica bastante recente na universidade portuguesa, a de ciência política, considero que não bastam os debates nos passos perdidos dos capítulos universitários, pelo que tenho tentado o publicismo, dos que querem ser fiéis ao antigo, mas não antiquado nome de republico, que é bem mais honroso do que o galicismo do politólogo, usando o blogue para assumir a plenitude da cidadania.

 

 

 

Importa viver cada aula como se ela fosse um acontecimento que nunca se repete, dada por um ser que nunca se repete perante pessoas de alunos que também nunca se repetem e, para tanto, não ser um mero lente de fotocópias obtidas em resumos de bibliografia alheia, mas detentor de produção própria, nascida da mistura de adequada teoria com as circunstâncias do tempo e do lugar em que labuta.

 

 

 

Por outras palavras, viver cada momento desta vida de professor como se ele fosse o último. Isto é, fazer desta profissão uma vocação e não um posto de vencimento ou um trampolim que nos dá cartão de visita ou trampolim para mais altos e bem remunerados cargos. Quem não tiver vocação para esta missão que a deixe!

 

Acresce que esta exigência íntima impõe que as escolas sejam instituições, isto é, que tenham uma ideia de obra, que gerem manifestações de comunhão e que sejam reguladas por normas processuais que a todos vinculem, para que possam ser escolas de cidadania e de abertura para aquele transcendente situado a que damos o nome de cultura. Se transformarmos o professor num burocrata de uma direcção-geral da administração directa do Estado ou num esquema partidário, sujeito ao “spoil system”, não poderemos cumprir a missão civilizadora daquela entidade onde o essencial do homem ocidental é o sentido crítico do “ser do contra”, para depois poder ser qualquer outra coisa em coerência de pensamento e acção.


Mar 31

Aprender a viver.

Mudar de sítio pode ser mudar de horizonte e encontrar, no acaso das estantes de uma livraria, novas janelas escritas que nos baralhem os dados e nos voltem a dar sonho. Primeiro, foi A Coroa, a Cruz e a Espada, de Eduardo Bueno, sobre lei, ordem e corrupção no Brasil Colônia 1548-1558, de Setembro d 2006. Segundo, foi a tradução de Apprendre à Vivre. Traité de philosophie à l’usage des jeunes générations, de Luc Ferry, de Dezembro de 2006.

Sem querer fazer recensões a duas obras que devorei, começo por este último, nascido no mesmo ano que eu, reparando que a boa novidade que ele traz não é a vanguarda das modas que passam de moda, mas a eterna corrente dos estóicos e o humanismo liberdadeiro de Rousseau e Kant, reassumido por Husserl, nessa procura liberalmente individual do transcendente situado que sempre rejeitou os materialismos, do positivista ao marxista, bem como activismos nietzschianos, de cunho fascista, ou fidelíssimas interpretações, com nihil obstat.

 

Folgo comungar com o filósofo que ficou farto de ser político, nesse ambiente de pós-Maio 68 que não precisa de revisionismo para se manter na linha do humanismo de sempre. Porque o homem é o único animal que sabe que vai morrer, porque a democracia é mesmo o único regime que favorece o aparecimento de elites de homens livres, porque importa descobrir, mais do que conceitos, importa o exercício da sabedoria, porque há que compreender antes e criticar, superando as algemas da nostalgia passadista e o futurismo sem presente.

Embora a palavra saudade nunca apareça, também eu considero que a razão inteira não pode naufragar na fé e ainda subscrevo que a inteligência é superior à confiança, mas com humildade, sem a soberba do vanguardista e reconhecendo os sinais dos judeus e a sophia dos gregos, rejeitando que a filosofia seja serva da religião e optando por pensar por mim mesmo e não apenas por meio do outro, onde há mais disciplina do que ciência e mais pirâmides conceituais do que criatividade.

Mar 31

Lei, ordem e corrupção no Brasil Colônia

O jornalista-historiador, Eduardo Bueno, vestindo-se de uma linguagem weberianamente dura, descreve, de forma realista, as grandezas e as misérias lusitanas, mas, por isso mesmo, manifesta um intenso amor às origens da sua própria pátria. E lá podemos viajar pelo tempo do senhor D. João III, Tomé de Sousa e Manuel da Nóbrega, entre letrados e guerrilheiros de Jesus, com seculares, burocratas e desterrados que saíam do Tejo à procura de um lugar onde que lhes desse vida, já que, no velho reino, eram mais os pés do que as botas. Já então a história de Portugal era a história do défice, do desperdício e da exagerada carga fiscal. Bueno mostra-nos os extremos, entre o lusitano Caramaru, um desses lançados que se transformou numa espécie de rei dos índios, e o jesuíta Manuel da Nóbrega, o fundador de São Paulo, o gago das mortificações em público, ditas exercícios espirituais. E assim continuamos a viver entre o sórdido da corrupção e o dramático da procura do mais além, enquanto alguns vícios privados, de vez em quando, se inserem no bem comum, mesmo quando misturam feudalismo e estadualismo, economia privada e serviço de el-rei, num acumular de contradições que acabou por constituir esse reprodução de cidades e do próprio reino, a que hoje chamamos Brasil. A descrição de Bueno é atraente, fazendo da história uma espécie de guião cinematograficamente colorido e tornando-se numa espécie de livro de aventuras empolgante, mesmo quando exagera no traço e caricaturiza o lado da degenerescência de uma sociedade de favoritismos, tráfico de influências, exagero de funcionários e corrupção. Porque faz, muito lusiadamente, a denúncia caseira dos nossos próprios vícios. Aliás, a crítica acerba pode ser uma forma humanista de amor, nesta viagem por umas profundas origens medievais e renascentistas, quando ainda não tinham chegado os ventos do soberanismo, do estadualismo e do próprio negocismo capitalista e se viviam as explosões da nossa mistura de heterodoxias, entre cristãos novos, fidalgos falidos, militares andantes, navegadores, arquitectos, físicos e artesãos, todos muito papeleiros e humanamente imperfeitos. Mas foi nesse caos, refugiados nas paliçadas, entre a voragem esclavagista e a antropofagia, que começámos a tal procura do paraíso que levou todos a desmatar uma terra quase virgem, construindo cidades e vilas, dotando-as de vereações pluralistas e erigindo um novo reino, sempre segundo o regimento, sempre violando o regimento, para também se vararem as linhas das Tordesilhas. Todos os povos são também as respectivas origens, essemanifesto destino que a nossa liberdade de sonhar vai construindo e desconstruindo, dia a dia vencendo a necessidade, o tal desafio das circunstâncias que vamos moldando, em nome da perfeição de um mundo melhor, nesse transcendente situado a que chamamos vida, entre a aventura e o pragmatismo.  Só depois de ler tudo, de um jacto, é que reparei fazer parte da bibliografia, como meu O Estado e as Instituições, de 1998, incluído na História de Portugalde A. H. de Oliveira Marques, no volume coordenado por João Alves Dias (século XVI), com um comentário honroso.

Mar 31

A Europa que começa a não estar connosco…

Vimos, ouvimos e lemos, mas os nossos responsáveis, políticos e académicos, continuam a ignorar, têm de ser arrastados pelo mainstream. Preferem cantar a loa daEuropa connosco, apenas conjugando o verbo nopretérito imperfeito. Entretanto, a cadeia do rolo unidimensionalizador vai-se alargando em chouriçadas decretinas, transformando as secções universitárias com menos poder de pressão em pequenos gabinetes de planeamento de “curricula” que vão tirando da “Internet”, com imenso “copy and paste”, enquanto jovens assistentes fazem noitadas, com tabelas de equivalência lançadas em papel quadriculado, longe da vida, longe do sonho e, sobretudo, longe da sabedoria. Pobres os que, depois da destruição, ficam à espera do que há-de vir, porque o que parecia ter que ser pode não vir mesmo. Entretanto, à bela maneira das passagens administrativas do PREC, alguns líderes institucionais, em processo eleitoral, prometem facilidades, onde os velhos quartos anos da licenciatura, com uma simples tese, podem transformar-se em gloriosos mestrados e ser rampa de lançamento para mais futuríveis dissertações de doutoramento. Vale-nos que os romances de cordel contam as recentes aventuras das privadas e acirram este nosso sonhar é fácil do enquanto o pau europeu vai e vem folgarem os costados do chico-esperto, sentado na encruzilhada deste potencial regime de passagens administrativas, à procura do canudo e da melhoria das estatísticas, como se, do regabofe, alguém pudesse lucrar. Julgo que a autonomia das universidades assenta naautonomia dos professores e na consequentemeritocracia, coisa que deveria ser sinónimo de democracia, de escola de cidadania e de semente de homens livres. Não esperemos que a terapêutica de um futuro ministro das universidades seja capaz substituir-se à necessária profiláctica. Por mim, serei consequente e não irei por aí. Não subscreverei esta ameaça de degradação académica, pedagógica e científica que vai germinando. Quando uma democracia passa a ser o reino da quantidade, não tardará que os inimigos e críticos da democracia a assaltem por dentro… os sinais que vislumbro no meu quintal são óbvios demais. O ensino superior continua à procura de bom senso!

Mar 30

Entre vanguardistas e derrotados políticos, sejamos bandeirantes e regeneradores

Depois da missão cumprida, foi continuar a peregrinação por esta antiga capital de Portugal, ainda saudoso do esplendor de livros e de pedra talhada do Real Gabinete, onde recordo os sinais e testemunhos deixados por Ramalho Ortigão, Joaquim Nabuco, Gago Coutinho e António José de Almeida, nesta cadeia de gerações que unem os nossos sucessivos sonhos e paraíso. Quase comparo esta visita à viagem que, outora, fiz à sinagoga portuguesa de Amsterdão. Porque são quase sempre os chamados heterodoxos que resistem na profunda tradição da lusitana antiga liberdade que sempre foi de antes quebrar do que torcer. E, no silêncio do Real Gabinete, lá conversei com meus avoengos mestres, de Herculano a Camilo, de Carlos Malheiro Dias a Jaime Cortesão, nessa constante procura de um Portugal mais do que Portugal, esse sonho que vai além da pátria física da terra dos mortos e se pode sempre elevar em navegação e bandeira, fazendo dos sertões do tempo o espaço do próprio mar-oceano. Especialmente quando a terra-mãe das origens se torna patroa e madrasta, presa nas teias dos donos do poder e de alguns dos restos dos senhores da guerra, com muitos herdeiros de inquisidores, das juntas de providência literária e das reais e republicanas mesas censórias, amarrados às vistas curtas dos conjunturais politicamente correctos, de que são sorridentes escravos, incluindo os ministerais. No templo do Real Gabinete se guardam sinais de sonhos e contemplações, prenhes de tradição e de futuro, especialmente daquele quinto império do poder dos sem poder, onde a pátria da língua portuguesa não é senão mera super-nação futura. Aliás, em plena turbulência doméstica, sempre houve cientistas que se puseram a caminho do Sul, como Gago Coutinho, com Os Lusíadasque ofereceu ao Real Gabinete, numa mão, e o sextante, na outra.  Sempre houve cultores do verbo e da autenticidade, como António José de Almeida que aqui veio em 1922, agradecer ao Brasil o ter-se tornado independente. Sempre houve António Ferro, clamando pelos Estados Unidos da Saudade, João de Barros ou Nuno Simões. Parafraseando Ramalho, assinale-se que mesmo que haja um cataclismo nos estreitos limites da Europa, não precisamos de jangadas de pedra, porque já nos reproduzimos aqui, neste Portugal maior, neste Portugal à solta, dando novos mundos ao mundo, quando nos diluímos na diferença dos outros, que não considerámos inferno. Paupérrimas questiúnculas domésticas, como as do colégio eleitoral da RTP que elegeu, a título póstumo, como os melhores portugueses de sempre, dois políticos profissionais que, nunca souberam, pelo saber de experiência feito, que, muito lusotropicalmente, o pecado não mora do lado de baixo do Equador. Esses votantes, dignos representantes de certo grupo dos portugueses que restam na Europa, têm quase todos medos do enjoo da viagem, preferindo o império dos merceeiros ou os campos de concentração em que se enregelou a utopia do D. Sebastião científico. Uma pequena nota para o jornal “Público” de hoje que relata, sem o picante da escandaleira, a sessão realizada anteontem no RGPL, mas onde assume o paradoxo de atribuir uma frase da minha autoria a quem nunca a poderia proferir, isto é, a um dos ministros derrubados pelos capitães de Abril. Fui eu, que há muito deixei de ser secretário da AICP, que disse: os regimes, em Portugal, caem de podre porque, muitas vezes, ultrapassam todos os prazos de validade que lhe garantiam autenticidade. Só que a apatia e o indiferentismo gerados pelas manobras da elite no poder, lançam o colectivo numa inércia cobarde, inversamente proporcional ao activismo dos oposicionistas, cujo vanguardismo, marginal face à opinião pública, resulta, precisamente, da frustração de não se sentirem, entre ela, como peixe na água. Repito-o num contexto diacrónico: porque temos tendência para fazer durar e durar cinzentismos decadentistas, desde o crepúsculo da monarquia liberal, desde o Ultimatum ao 5 de Outubro (20 anos), à nova república velha pós-sidonista (nove anos, desde o magnicídio do Rossio à subida de Salazar à ditadura das finanças), passando pelo velho Estado Novo (16 anos, desde as eleições de Delgado em 1958 ao contra-28 de Maio de 1974). Porque quando as crises se difundem nas consciências individuais daquelas maiorias sociológicas que preferem as delícias da servidão voluntária ao inconformismo da necessária revolta dos escravos, quase sempre tropeçamos com as degenerescências da ditadura da incompetência e da compra de poder, enquanto os sistemas entram em pilotagem automática e as elites vegetam num deserto de ideias, com pensadores feitos intelectuários, procurando os restos que caem da mesa do orçamento ou dos subsídios dos mecenas. Consolida-se assim um situacionismo bonzo, típico dos blocos centrais de interesses politiqueiros e negocistas, onde a ilusão de alternância fomenta o rotativismo das duas faces da mesma moeda, a que hoje damos o nome de PS e PSD. Acontece até que os controladores sistémicos, mais ou menos banco-burocráticos, liquidam as verdadeiras alternativas que podiam dar-nos o urgente golpe de Estado sem efusão de sangue, como Popper chamou às mudanças pela via eleitoral, ao promoverem canhotos e endireitas, para além de fomentarem o medrar da borbulhagem dos extremistas da esquerda e dos extremistas da direita, apostados em morderem nas canelas uns dos outros. Por mim, gostaria que este regime não caísse apodrecido. Não há por aí um subversivo Herculano que comece a pensar aregeneração mesmo que seja com Saldanha, Fontes e Rodrigo? Eu, que me assumo como histórico, estou disposto a filiar-me no partido de Anselmo Braamcamp e a não o abandonar mesmo depois do regicídio.

Mar 29

Um pedaço do Portugal à solta à procura do abraço armilar

Foi com emoção que, ontem, tive a honra de conferenciar num dos templos da pátria e da liberdade, no Rio de Janeiro, o Real Gabinete Português de Leitura, fundado há 170 anos por exilados liberais portugueses, agora instalado num edifício neomanuelino, inaugurado em 1887, onde se guarda uma primeira edição d “Os Lusíadas” de 1572, ou o manuscrito do “Amor de Perdição”, que o presidente António Gomes da Costa me permitiu consultar. Porque esta instituição, de matriz azul e branca, isto é, liberal e liberdadeira, ainda vive como pensa, como um pedaço de Portugal à solta, tentando cumprir a ideia maior do abraço armilar, fiel à matriz dos homens livres que a fundaram e sucessivamente recriaram (aqui deixo algumas imagens do espaço e das pinturas que nela se guardam, de Camilo a um quadro de Malhoa sobre a descoberta do Brasil). E não foi por acaso que esta instituição teve a coragem de recordar alguém que, no ano de 1980, teve o seu corpo em câmara ardente nesse local.

Tentei identificar Marcello Caetano com um certo tempo de vésperas daquele que ainda hoje nos mobiliza, e que talvez faça aquecer em valor mais altoespera, esfera e esperança o necessário abraço armilar. Tentei falar de um certo tempo português, para o qual não tem sido adequado o verso épico, mas sobre o qual também já chegou a hora de pormos fim às inverdades e aos insultos. Porque Marcello era racional-normativo em demasia para poder erguer uma nova legitimidade carismática. Maquiavélico de menos para poder instrumentalizar a legitimidade tradicional do patrimonialismo, isto é, dos donos do poder e dos senhores da guerra

 

E sempre foi paradoxalmente português: o jovem monárquico neo-integralista que se assumiu como republicano; o adolescente para-fascista da revista Ordem Nova constitucionalista que teve de manter aparelhos autoritários de repressão; o de 1926, que nos quis transformar em Estado de Legalidade; o corporativista que lançou a reforma capitalista; o professor de direito que tem de ser chefe de generais em guerra.

E foi no Real Gabinete que recordei o Brasil como permanente terra de exílios. Dos liberais expulsos pelo miguelismo. Dos miguelistas exilados depois da derrota (e lá consultei na Biblioteca um exemplar da tradução que José da Gama e Castro fez no Rio de Janeiro a “The Federalist”, em 1840, mas sem indicação do nome do autor). Dos monárquicos, com o 5 de Outubro (foi em 1920 que Sérgio aqui editou o seu primeiro volume dos Ensaios, tal como Carlos Malheiro Dias aqui foi presidente do RGPL). Dos deserdados do 28 de Maio, como Fidelino de Figueiredo, ou das vagas sucessivas de expulsos pelo salazarismo, como Jaime Cortesão, Sarmento Pimentel, Agostinho da Silva, Henrique Galvão ou Humberto Delgado e tantos outros, durante tantas décadas.

Basta detectar os sinais dessa revolta em discretos símbolos que se conservam nos átrios e tectos do Real Gabinete, homenagenado a passagem do caos à ordem e apontando os nossos Estados Unidos da Saudade, como simples semente da República Universal, onde fomos e poderemos voltar a ser bandeirantes do tal Império do Espírito Santo de que falava mestre Agostinho da Silva e que muitos continuam a não querer compreender, porque rejeitam os sistemas morais, as alegorias e os símbolos que nos dão rota humanista de libertação.

 

 

Marcello, entre a renovação e a continuidade, hesitou nas estratégias porque duvidava dos fins, desde a instauração de uma efectiva democracia à própria independência das possessões africanas. Sabia, como ninguém, analisar as questões, fazer diagnósticos, criticar. Ficou sempre titubeante quando tentou usar o bisturi da terapêutica.

Se foi sincero quando procurou liberalizar o regime, já não foi capaz de admitir que o feitiço liberalizante se poderia voltar contra o próprio feiticeiro e, quando a ala liberal propôs, para a reforma, caminhos diversos dos programados pelo Presidente do Conselho, deu-se a inevitável ruptura, com Marcello a comprimir-se entre yesmen e propagandistas menores, ao mesmo tempo que os chamados ultras, ameaçando conspirar através de Américo Tomás, transformaram o decadente cônsul num homem só, cada vez mais enredado num cepticismo pessimista. Assim se geraram as circunstâncias golpistas de 1974, com o feitiço autonómico a voltar-se contra o feiticeiro e os militares ultras a não repetirem o modelo de Santos Costa contra Botelho Moniz.

 

Marcello se, num assomo salazarista, ainda conseguiu deter autoritariamente o golpe dos militares spinolistas de 16 de Março de 1974, mostrou-se incapaz de uma medida preventiva que atalhasse os desenvolvimentos subversivos do Movimento dos Capitães. Podia ter forças militares e para-militares suficientes para conservar o poder, mas não soube ser resistente. E talvez tenha sido traído pelos que eram ou pareceram fiéis. Preferiu ser avestruz no indefensável quartel do Carmo, lavar as mãos como Pilatos e chamar pateticamente Spínola para o poder não cair na rua.

Mar 28

O que é comum não pode ser de nenhum

Vistas à distância de um oceano inteiro, as nossas notícias da política doméstica, quase reduzidas a guerrazinhas de homenzinhos e mulherzinhas, são ridicularmente minúsculas. Que influência pode ter no diálogo Norte/Sul a anunciada demissão de Maria José Nogueira Pinto do PP e da autarquia alfacinha, ou a candidatura de Luís Filipe Menezes à liderança do PSD? Ou que influências tem no combate aos processos de combate à guerrilha urbana das favelas a detenção dos donos do poder na Universidade Independente?

Essas questões de cozinha doméstica estão, aliás, em consonância com a grande conferência que Jaime Gama promoveu sobre a corrupção que quase se reduziu às fotografias tiradas a Morgado, Pinto Monteiro e Garzón em plenos Passos Perdidos, o nosso lusitano e maçónico nome para qulificarmos um “átrio” parlamentar que, em anglo-americano se diz “lobby”. Porque os principais responsáveis pelo vazio legislativo sobre a matéria apenas fizeram uma provincianista lavagem de imagem, para esquecermos que quase todos eles assentaram em longos anos de balbúrdia quanto ao financiamento partidário, apesar de terem sido lestos quanto à tipificação legal dos crimes de corrupção. Em vez de fabricararem uma imagem, os nossos deputados partidocratas deveriam dar o exemplo.

A questão política em Portugal continua a ser a de confundirmos a polis com a oikos, a respublica com adomus, não assumindo que o político foi inventado para deixarmos de ter um dono, um dominus, ou um oikos despote. O despotismo paternalista de Salazar tem esta origem. O actual processo de compra privada do poder, a chamada corrupção, assenta na mesma estaca. Tal como o clientelismo, o favoritismo, a cunha e o nepotismo derivam da devorista privatização do que deveria ser público, onde o que é comum não pode ser de nenhum, conforme o lema das nossas aldeias comunitárias.

Quando lemos que a história da Universidade Independente (UnI) confunde-se com a amizade de três famílias: Carvalho, Verde e Arouca. Lima de Carvalho levou a mulher para a gestão da UnI, Rui Verde o irmão e Luiz Arouca dois filhos, quase poderíamos aplicar a história à política partidocrática, onde genealogias de filhos, sobrinhos, primos e dependentes de inúmeros filhos de algo se perpetuam em deputados, ministros, secretários de estado, chefes de gabinete, adjuntos e assessores, bem como em toda a fileira de nomeados. Basta fazermos científicas listas de jobs for the boys, em vez de colóquios internacionais, para declararmos a dimensão da nossa pequenez.

Mar 27

Para além da venalidade, da boçalidade e da maldade

Em plena tarde do Rio, em volta dos alfarrabistas, onde costumo comprar raridades portuguesas a preço do real, recebo telefonema da RCP, procurando saber se eu ia mesmo homenagear Caetano. Disse que a verdade não era pecado e que a cerimónia de amanhã se desenrolaria numa venerando instituição que, por já ter passado por quatro regimes portugueses, ainda podia ser Real Gabinete Português de Leitura, não se confundindo com o concurso da RTP, nem com o regresso da salazarquia. Aliás, sobre Marcello, o que aqui venho dizer já o disse num artigo publicado após a sua morte, no boletim da Faculdade de Direito de Lisboa e repeti o testemunho numa cerimónia que este instituição promoveu no centenário do respectivo nascimento. E amanhã irei insistir nas teses constantes do meu publicado “Tradição e Revolução”.

Porque sempre me fascinaram aqueles actores políticos que, apesar das extraordinárias qualidades que marcam os homens de génio, acabaram vencidos pela vida, quando as ciclópicas tarefas das circunstâncias os esmagam em derrotas políticas. E mais desafiantes são quando, sendo homens de pensamento, treinados pela teoria ou pelo estudo da história, acabam por não poder responder aos desafios daquilo que considerararam a respectiva missão.

Em contraste, há outros que não chegaram antes ou depois do tempo e, apesar de marcados pela venalidade, pela boçalidade e pela maldade, conseguiram os vícios privados em virtudes públicas e ainda hoje enchem as ruas e praças do país com placas inauguratórias, mesmo quando lançam foguetes e recebem vivório pelos investimentos feitos pelos antecessores que nem direito a pé de página merecem, nas crónicas dos homens de sucesso.

Marcello, um pouco como D. João VI, faz parte da lista dos derrotados políticos, assinando a perda do último império africano, tal como o pai do Imperador do Brasil viu amputada a parcela principal do seu sonhado Reino Unido. Aliás, o último presidente do conselho do regime derrubado em 1974, que só exerceu o consulado nos últimos cinco anos e meio dos 48 anos de interrupção autoritária que nos marcaram, ficará nos anais mais como criador do estilo da sua faculdade, onde, se sempre ousou defender a respectiva herança institucional, não teve, depois, coragem, ou condições, para restaurar a lusitana antiga liberdade.

Mas não podemos esquecer que esse ideólogo do Estado Novo teve a honra de repor o seu inimigo político, Afonso Costa, no lugar de fundador da escola, tal como estudou e homenageou a personalidade de Mouzinho da Silveira. Ou como moveu diligências para que se acolhesse em Lisboa o maior jurista do século XX, Hans Kelsen, quando este fugia às perseguições hitlerianas.

Infelizmente, não admitiu a institucionalização de partidos e não ousou avançar numa paz dos bravos com os movimentos de libertação africana, mas muitas micro-histórias locais consignar-lhe-ão sinais de neofontismo e muitas páginas de guerra terão, desse tempo, heróis e até alguns mártires. Ele apenas é o espelho de um certo tempo português.

Apesar de tudo, poucos lhe poderão apontar a categoria de traidor, da mesma forma como os anais diplomáticos não lhe dedicarão páginas de desonrosa negociação, ou de portas artificialmente fechadas. Aí está o acordo de associação com a CEE, nesse hibridismo lusitano que sempre jogou em todos os tabuleiros, preparando alternativas futuras.

Não foi Pompidou, porque Salazar também não tinha sido Charles de Gaule e a guerra impedia-o de fazer o jogo de Adolfo Suárez. Já comendo o pão amargo do exílio esperado, pode ter-se zangado e polemizado, principal através de emissários e mensageiros, mas, nesta terra brasil, deixou um legado de pensamento universitário que constituirá um elemento de peregrinação obrigatória para quem mantenha uma certa perspectiva universal de Portugal.

Mas não vale a pena corrermos à cata de minúsculos sinais reformistas para o homenagearmos. Basta pensarmos no governo que poderia ter constituído no começo da década de setenta, atendendo aos colaboradores que mobilizou, em certa altura, e aos colaboradores que deveria remobilizar. O posterior sistema político ficaria sem cabeças e até a banca e a vida empresarial recentes, lá teriam deixado semente. Aqui fica a provocação:
•M. Presidência: Francisco Sá Carneiro
•M. Finanças: Manuel Jacinto Nunes
•M. Estrangeiros: Diogo Freitas do Amaral
•M. Interior: Adriano Moreira
•M. Justiça: Afonso Queiró
•M. Defesa: Francisco da Costa Gomes
•M. Ultramar: Veiga Simão
•M. Ilhas: Mota Amaral
•M. Educação: António Alçada Baptista
•M. Assuntos Sociais: M. Lurdes Pintasilgo
•M. Coordenação Económica: João Salgueiro
•M. Indústria: Rogério Martins
•M. Comércio: Xavier Pintado
•M. Agricultura: Mota Campos
•M. Saúde: Baltazar Rebelo de Sousa
•M. Comunicação Social: Francisco Pinto Balsemão

Mar 27

Navegar é preciso, viver habitualmente já não é preciso

Com mais quatro horas de fuso, neste começo da manhã na Guanabara, depois de dar a última volta ao texto da minha conferência de amanhã, vou ceder ao impulso lírico que a travessia do oceano moreno me provoca, neste voltar à procura do paraíso, nestes sucessivos sonhos por cumpriri que me dão a espera, a esperança e a esfera do abraço armilar. Assim decidi comemorar o cinquentenário do Tratado de Roma, protestando silenciosamente com a retórica habitual dos discursos de justificação do poder, especialmente quando elas atingem as raias do propagandismo exacerbado. Felizmente que ainda não consideram crime de traição à pátria o não sufragarmos o programa de criação de uma constituição europeia, ou não elogiarmos gongoricamente o nosso comissário em Bruxelas. Atravessando a zona da turbulência, continuo a peregrinar por estes Estados Unidos da Saudade, onde bem gostaria de restaurar o Reino Unido. Porque a curiosidade do vale mais experimentá-lo do que julgá-lo me leva à constante investigação no terreno e no laboratório da história, tal como a angústia me provoca a procura de teorias, neste quase beneditino diarismo que me obriga a pensar para os outros, neste todos os dias me escrever e rescrever, também através deste blogue. Nesta terra onde Lula se pinta de Getúlio Vargas, comparo a diferença que temos, quando a RTP, para comemorar outros cinquenta anos, permitiu que Sua Excelência, o ex-Presidente do Conselho, nos voltasse a zurzir em preto e branco. Porque, até domingo, tudo isso era apenas anormal por ter sido decretado como tal pela literatura de justificação do poder estabelecido. Eu, pelo menos, fiquei feliz por Salazar entrar na moda que passa de moda e ser novo apenas porque o tínhamos esquecido. Quando o nosso politicamente correcto o passa a elogiar, sinto que tenho mais legitimidade para o zurzir, como desabrido opositor até do próprio post-mortem. Mas nada estranho desse quebrar de tabu, quanto ao reconhecimento de um estilo do homem político, dado que o actual momento psicológico da pátria, ao colocar no pódio tal personalidade, tem muitas coincidências com a vaga de fundo que elegeu o actual locatário de Belém, assim elevando a normalidade o profundo desejo de salazarismo democrático que nos enreda. E muitas culpas tem certa historiografia oficiosa dita antifascista, que, até agora, apenas eleogiava do regime defunto certos ministros que eram tios ou patrocinadores académicos dos biógrafos dominantes. É por isso que peregrino em sonho por esta terra feita por muitos portugueses à solta, livres dessa casta capitaleira que continua a controlar o estado a que chegámos. Navegar é preciso, viver habitualmente já não é preciso.