Mai 03

Contra algumas más interpretações retroactivas do anticlericalismo e do laicismo

Contra algumas más interpretações retroactivas do anticlericalismo e do laicismo

 Em anexo, algumas provas de registos esquecidos (1820-1918), bem como uma lista de inapagáveis que fundaram o ar livre que todos respiramos

 

 

 

Por José Adelino Maltez

 

 

I

 

O processo de reconstrução de um modelo racional-normativo de Estado no Portugal Contemporâneo foi sempre ensombrado por sucessivos conflitos entre a política e a religião, sem que se tenha conseguido a necessária aliança entre o humanismo laico, ou, melhor dito, de obediência maçónica, e o humanismo cristão, ou, mais dilectamente  dito, de apologética católica, quando bastaria recordar o sincretismo da própria restauração da Europa no século XIII, numa altura em que a autonomia das cidades e dos reinos beneficiou da cristianização dos clássicos do estocismo, trazido pelos árabes, judeus e por Bizâncio, para o seio da nascente universidade, quando ela ainda era studium generale e universitas scientiarum, restauradora da academia de Platão ou do liceu de Aristóteles, com complexa ratio studiorum, na linha da que sonhou mestre Leonardo Coimbra e os seus discípulos da Renovação Democrática.

 

Apesar de, no presente regime, se ter atingido algum grau de consensualidade, mas quase clandestina, e com algumas fúrias proibicionistas quanto a locais de comunhão de locais sagrados, mesmo em hora de tolerância pela morte, falta ainda enfrentarmos, sem fantasmas congreganistas e sem complexos anticongreganistas, uma leitura pluralista e desinibida, capaz de compreender a pluralidade de pertenças de uma cidadania de homens livres, incluindo os que são livres dos partidos e da finança, (para citar a epígrafe da revista portuguesa de 1925, fundada por Afonso Lopes Vieira e António Sérgio), onde uma saudável relação entre os que se qualificam como povo de Deus e todos os que são povo da república permita que, entre César e Deus, a nenhum deles pertença tudo, evitando teocracias e cesaropapismos, com os consequentes totalitarismos e apartheids  da cité antique.

 

Sobre o laicismo, é sabido que, etimologicamente, vem do grego laikos, ou popular, onde a expressão portuguesa tem, aliás, como intermediário o francês laicisme, sendo introduzida na nossa língua apenas no século XIX. Trata-se da doutrina que defende a independência da sociedade e do Estado face à influência religiosa ou eclesiástica, sendo marcante no início do século XX, principalmente a partir da experiência da III República Francesa, depois do affaire Dreyfus de más memórias pelas consequências de intolerâncias de muitos lados que deviam ser aliados, para serem fiéis à casa comum da civilização europeia e mediterrânica, onde os homens da meia noite furaram a suavidade dos homens do luminoso meio-dia, para glosar Camus.

 

Equivale ao movimento britânico do secularismo. Tem as suas origens na reacção contra a doutrina das duas espadas assumida pelo papa Bonifácio VII na bula  Unam Sanctam de 1302, luta assumida por autores como Marsílio de Pádua e Guilherme de Ockham. Desenvolve-se com o Renascimento, desde as novas concepções políticas de Maquiavel às perspectivas de ciência assumidas por Galileu, mas que foi amplamente assumida pelos nossos repúblicos, da estirpe erasmista de um Damião de Góis ou do escotismo de Luís de Camões, eternos mestres do universalismo lusíada e da arte de ser português.

 

Isto é, não pode reduzir-se à variante, marcada pelas teses de Saint-Simon e Comte, que teve tendência para substituir a religião tradicional por uma nova religião da humanidade, marcada pela confiança na razão finalística que às vezes se esqueceu da racionalidade axiológica, como nos ensinou Max Weber. Nem todos os maçons são inimigos da Igreja, necessariamente ateus, adeptos da gnose ou agnósticos, porque, entre muitas variedades, há os que permanecem religiosos, com os seus livros sagrados, ao lado panteístas, hereges ou simples seguidores estóicos da unidade plural dos divinos.

 

 

Já o anticlericalismo difere do laicismo, dado implicar uma hostilidade aberta face ao mundo clerical, pelo facto deste ter influência social ou política. Com efeito, o laicismo apenas rejeita a influência da Igreja na esfera pública, considerando que os assuntos religiosos pertencem à esfera privada de cada indivíduo.

 

Isto é, remonta ao anticongreganismo iluminista, sendo, sobretudo, marcado pelo espírito de resistência à modelação de certas vulgatas jesuíticas, embora, desde sempre, tenha sido moderado por deísmos ou humanitarismos panenteístas, nomeadamente por kantianismos e krausismos. Há assim várias ondas de anticlericalismo desde a Revolução Francesa, com destaque para o justificado movimento da unificação italiana, a inevitável Kulturkampf de Bismarck, entre 1871 e 1878, ou a Terceira República francesa, marcada pelo positivismo, onde caso Dreyfus vai agravar a tensão e culmina com a Lei da Separação de 12 de Dezembro 1905, do governo Combes, contra os regressos da intolerância pré-leonina, que nunca admitiu um liberalismo católico, em nome do dogma da infalibilidade papal ou da disciplina das muitas obras dos pretensos guerrilheiros de Cristo, com os seus exercícios e cursilhos espirituais, pós-medievais e inquisitoriais.

 

Contudo, ambos os ismos diferem do agnosticismo, termo cunhado por T. H. Huxley em 1869 (agnosticism), e, depois, divulgado por Herbert Spencer. Formado a partir do grego agnostos, isto é, aquilo que é relativo ao desconhecido, assume-se como uma doutrina segundo a qual não é possível conhecer o que está para além da experiência. Porque os seres humanos nunca teriam, silogisticamente, suficientes provas para sustentarem uma afirmação ou para negarem uma proposição.

 

Neste sentido, a tese admite a impossibilidade do entendimento humano aceder ao absoluto. Que não é possível saber se Deus realmente existe ou não. Uma doutrina que está ligada ao movimento céptico do cientismo,   principalmente à rejeição das crenças cristãs.

 

 

Diremos que, na história portuguesa contemporânea, o desaguar do liberdadeiro movimento maçónico tanto acirra os processos situacionistas demoliberais da monarquia liberal e da I República, algumas vezes com exaltados devorismos e radicalismos, como também nunca perdeu o sonho de instauração, ou de luta pela restauração, da liberdade, como aconteceu face ao contra-revolucionarismo apostólico, ou ao autoritarismo salazarista.

 

Entre 1820 e 1918, sempre houve múltiplas maçonarias e sucessivos catolicismos sociais e políticos, bem como vários anticlericalismos, outros tantos congreganismos, inúmeros laicismos e não menos fundamentalismos, fanatismos e agnosticismos, todos em espiral reactiva.

 

Comecemos por recordar que o velho reino, esquecido da lusitana antiga liberdade, segundo o censo de 1821, tinha 3 026 450 indivíduos, dos quais 12 500 eram religiosos, religiosas e serventes dos conventos.

 

Acrescentemos que em 1834 ainda havia cerca de quatro centenas de conventos e de meia centena de hospícios (448 casas religiosas, das quais 356 eram conventos de religiosos e 12 de religiosas, 28 colégios, 49 hospícios e ermidas, bem como 3 seminários). Dominavam os franciscanos (44%), seguindo-se os agostinhos (9,4%), os carmelitas (7,1%) e os beneditinos (6,5%), abrangendo-se 6 289 pessoas, segundo números de A. Martins da Silva. E isto num universo, onde, de acordo com Vitorino Magalhães Godinho, os rendimentos das ordens religiosas em 1832 andavam pelos 1 162 contos, enquanto o Estado recolhia apenas 1 600 contos, em impostos directos…

 

Isto é, no dealbar do século XIX as funções que hão-de ser nucleares do Estado, enquanto sociedade perfeita, ainda eram exercidas pelas sociedades imperfeitas do clero e da nobreza, do ensino à saúde, incluindo a própria defesa nacional, sem qualquer princípio da subsidiariedade. Basta recordarmos que só depois de três quartos de século de república é que foi eleito, por sufrágio universal e directo, um presidente não-militar, tal como o registo civil só foi instaurado depois de 1910 e a cidadania inividual livre dos colectivismos de seitas tem menos de um quarto de século e ainda é projecto por cumprir, sobretudo por não ser ainda efectiva a liberdade de ensinar e de aprender, com a necessária igualdade de oportunidades, que tem regredido no ensino público, para gáudio dos mais privilegiados que investem nos ensinos de reservado direito de admissão no ranking concordatário e congreganista, mas de público subsídio e prémio, livre, muitas vezes, do imposto geral e permanente instaurado por D. João I.

 

Isto é, a sociedade de ordens do ancien régime nunca se extinguiu de um momento para o outro, por efeito de uma revolução ou de um decreto, tal como as contra-revoluções nunca foram geradas por duas aparições marianas ou por um qualquer golpe de Estado. Basta assinalar a manutenção de amplas zonas de legitimidade dos donos do poder, no presente neocorporativismo, na permanência da encomendação feudal da cunhocracia ou no alastrar dos caciquismos, dos clientelismos, dos nepotismos ou do cancro da compra do poder, a que damos o nome de corrupção.

 

Entre 1800 e 1834, tivemos sucessivas sementes de mudança, quase todas frustradas, e, entre o pombalismo e a viradeira, talvez seja mais justo dizermos que houve a tradicional tensão entre o partido dos funcionários e o partido dos fidalgos, tal como, depois de 1820, foi acentuado o conflito entre o partido dos becas e o partido da tropa, com martinhadas, contra-martinhadas, abriladas e vilafrancadas, onde  os adesivos e os viracasacas do oportunismo passaram de um extremo ao outro da traição servil, dado que continua a ser difícil a contenção da sociedade da Corte e as heranças da velha sociedade corporativa, tanto do clero,  incluindo a universidade, como da nobreza militar, bem como das legitimidades carismática e patrimonialista.

 

Sempre tivemos a ilusão das subversões a partir do aparelho de Estado, para citar Sottomayor Cardia, desde a absolutista concessão de uma carta, com que o rei absolutista nos liberalizou, à restauração da democracia através de um golpe militar.

 

Daí a incompreensão das raízes da construção do Estado moderno, semeadas pelo vintismo e pelos projectos racionais da ordem maçónica, em torno da construção da cidadania, a partir dos homens livres das tutelas corporativas e dos colectivismos morais, de antes quebrar que torcer.

 

Daí alguns fulgores construtivistas dos novos regimes, com os seus ditatoriais governos provisórios e as consequentes confusões entre a própria maçonaria e os partidos-sistema, com os sucessivos erros de chamorros (1834), cartistas (1842), regeneradores (1851) e republicanos (1910).

 

Infelizmente, habituados aos picos vanguardistas, não costumamos fazer ressaltar os longos períodos reformistas dos regimes pós-revolucionários, até porque a literatura de justificação das viradeiras, incluindo a salazarista, costuma exacerbar erros anteriores, para que se continue a confundir a árvore com a floresta e a betesga com o rossio, darwinistas e haeckelianos com kantianos e krausistas, ou estóicos com ateus.

 

Tanto os católicos como os maçons mudaram muito durante os séculos XIX e XX e continua a ser um atentado contra os homens de boa vontade e os homens livres certa interpretação retroactiva da história, feita pelos sucessivos revisionismos históricos, com as suas propagandas, em música celestial, adesivas ou viracasacas.

 

A organização política eclesiástica tem de reconhecer que só se reconciliou com a democracia a partir de 1891 e não pode reduzir dois séculos de maçonaria portuguesa a alguns instantes construtivistas de incompreensão das ditaduras revolucionárias de 1834 ou de 1911, esquecendo os armistícios regeneradores pós-revolucionários, de sociedade aberta e pluralista. Para que todos esqueçamos as cumplicidades e os silêncios face à lei proibicionista de 1935, ao contrário dos exemplos de Alberto Moura Pinto e António José de Almeida, que não tiveram o justo retorno.

 

Talvez seja preferível notarmos que as relações entre o religioso da graça e o político da terrena natureza humana, tanto podem traduzir-se numa concepção teocrática e fundamentalista como numa concepção clássica, quando se considera que o político e o religioso são regidos por um transcendente que lhes é comum: a ordo rerum, a natureza das coisas, o cosmos, ou transcendente situado do direito racional de conteúdo relativo, onde a roda do eu vai variando, conforme as circunstâncias do tempo e do lugar das várias existências e perspectivas, mas permanece o eixo da roda dos valores e princípios da matéria individual, feita existência do homem concreto, de carne, sangue e sonhos, com os pés na lama do caminho, mas os olhos nas estrelas das saudades do futuro.

 

E talvez importe recordar que os nossos repúblicos renascentistas pré-inquisitoriais optaram por esta última concepção, assumindo-se à maneira do clássico homo theoreticus, daquele que parte de uma norma universal para uma instituição particular, com a consequente subordinação das realidades políticas à transcendência de uma abstracção, mantendo o primado da ética sobre o politique d’abord.

 

Como refere Eduardo Hinojosa, nessa altura, até os teólogos praticavam a respectiva ciência como Cícero considerava a ciência do Direito, enquanto conhecimento das coisas divinas e humanas e ciência do justo e do injusto. Chamavam-lhe prudência, conforme João de Barros refere nos seus Panegíricos, como saber as coisas que se devem saber, e isto no entendimento das cousas divinas e humanas

 

Até um jesuíta, como Francisco Suárez, partindo do princípio que os homens, segundo a ordem da natureza não se regem nas coisas civis pela revelação, mas pela razão natural, proclamou, contrariamente a Santo Agostinho e a Lutero, que o poder político não se funda no pecado ou em alguma desordem, mas na natural condição do homem. Porque o poder de dominar ou reger politicamente aos homens, a nenhum homem em particular lhe foi dado imediatamente por Deus; este poder só em virtude do direito natural está na comunidade dos homens, está nos homens e não em cada um ou num determinado. Assim, o poder político é visto como algo de direito humano, como instituição dos homens e doação da república, algo que surge por vontade de todos (per voluntatem omnium).

 

Tal como o humanismo laico e não absolutista de Espinosa, precursor de Rousseau, opondo-se à teocracia de protestantes, católicos e judeus, vai estruturar a primeira teoria democrática moderna. Primeiro, quando deixa de considerar a liberdade como mero atributo de uma minoria de cidadãos, fazendo-a radicar na universalidade humana, na multitudo. Segundo, quando perspectiva a mesma democracia de forma realista, entendendo-a como uma conjugação do poder e da liberdade e retirando-a dos domínios da utopia, quando aceita que o homens são iguais do ponto de vista do direito, mas desiguais do ponto de vista do poder.

 

Aliás, não é provocatório recordar que até o Partido Popular Italiano,  fundado por Luigi Sturzo, se assumiu como movimento laico, não confessional, ao contrário do que aconteceu como o movimento português congénere, o Centro Católico Português, que até foi directamente inspirado e previamente autorizado pela Conferência Episcopal Portuguesa, um pouco à semelhança do partido único da dita União Nacional, estabelecido decretinamente por resolução do conselho de ministros, onde todos fomos demais para que as abstenções contassem como votos a favor do autoritarismo, a fim de que se propagasse a servidão voluntária e se impedisse a necessária revolta de escravos.

 

Do mesmo modo, um Jaques Maritain defendeu uma cidade laica de inspiração cristã  e um Estado laico cristamente constituído, isto é, um Estado onde o profano e o temporal tenham plenamente o seu papel e a sua dignidade de fim e de agente principal ‑ mas não de fim último nem do agente principal mais elevado e que levaria também à extraterritorialidade da pessoa face aos meios temporais e políticos.

 

Quem reduzir a dimensão do humanismo católico aos episódios contra-revolucionários das abriladas de 1824 ou das acções de algum providencialismo, posto ao serviço da Santa Aliança dos apostólicos, derrotados em 1834, comete o mesmo vício dos que não reparam que uma certa lei de 1911 foi revista em 1918 por activistas da mesma instituição que teve como grão-mestre um António José de Almeida que reatou as relações entre Lisboa e o Vaticano.

 

Apenas repito, glosando Fernando Pessoa, que se o Estado é superior ao cidadão, o homem está sempre acima do Estado. É livre e de plurais pertenças, para que o Estado deixe de ser um César, ou de direito divino, com encontros imediatos com o charlatanismo providencial, e passe a ser nós todos, homens comuns que espremam, gota a gota, o escravo que todos têm dentro de si, para glosar Tchekov.

 

O Estado da coisa pública, chame-se cidade, república ou reino, somos nós e não um qualquer L’État c’est moi, dos absolutismos providencialistas que esqueceram a velha, mas não antiquada, doutrina aristotélica, cristianizada por São Tomás de Aquino, segundo a qual a cidade nasceu da natureza humana e  não da graça. Daquele elemento voluntário, produto das pessoas, que, pela ideia de contrato, em nome dessa estrela do norte que é a justiça, produziram a sociedade política, onde o pacto de associação ou de união sempre foi superior ao pacto de sujeição ou de governo, se para tanto nos submetermos à ideia de constituição, sem a qual não há pluralismo, controlo do poder e respeito pelas minorias, nesta cultura de liberdade a que, hoje, demos o belo nome de Estado de Direito, sinónimo de paz perpétua, república universal ou peace through law, o tal que é de-rectum, longe do torto, em procura da norma e da regra, a que o plurissecular simbolismo dos homens livres da intolerância, do fanatismo e da ignorância tem dado os nomes de compasso e de régua, sempre em abraço armilar, a caminho da cosmopolis e da super-nação futura. Só homem segue regras, porque só aquele que sabe que vai morrer e procura a raiz do mais além as pode não seguir. O homem é por exigência da perfeição um animal cívico.

 

Mai 02

Pelos meus filhos e os meus alunos de hoje, continuo do contra, mas com saudades do futuro…

Madrugada de mais um dia de Primavera, ainda com restos de frio e chuva, sem que os pirilampos nos visitem, sem que a amenidade nos permita ver que as papoilas já vencem as verdes ervas dos valados. As notícias nos poluem, especialmente as da campanha eleitoral da Madeira, quando a democracia e todo um povo são instrumentalizados pelas guerrazinhas de homenzinhos que transformam o sufrágio num instrumento de justificação da personalização de um poder que tem medo de ser posto em causa pelos autores de sátiras, a quem demonizam, como fascistas, comunistas ou cubanos, ao pior estilo dos reaccionários da sacristia que pensam monopolizar o púlpito da demagogia, para que todo o peso do situacionismo se confunda com um dos actores em cena, transformando o enredo da institucionalização de conflitos no seu próprio monólogo do vaqueiro. Regressaram todos os nossos fantasmas totalitários do século XX. De um lado, duzentos militantes que se assumiram como nacionalistas com “slogans” de um regime que também foi socialista, em “Der Arbeiter”, mas sem pouca “alegria no trabalho”. Do outro, os sons da memória de um comunismo, preso pelas tenazes do sovietismo e das marchas de Cuba, e agora desperto pelo calor guerrilheiro de Hugo Chávez, muito bolivariano e guevarista, enquanto o cinéfilo Portas, no calor da sua imaginação discursiva, acabou por inventar uma frase que já estava inventada (“o trabalho liberta”) e que se tornou célebre nos campos de concentração hitlerianos.  É evidente que Portas, que tanto gosta de invocar o maçon Churchill, é o exacto contrário do modelo adolfiano. Só que caiu na ratoeira madeirense, posta em delírio pelo activismo imaginativo da família Baltazar, a quem louvo a coragem de ter gerado o revelador da verdade desse populismo inauguracionista de vivório e foguetório, que mancha as nobres tradições do partido de Francisco Sá Carneiro e do seu conúbio com bispos, patos bravos e padralhada, nesse regabofe a que chamam autonomia, com bofetadas nos que recusam integrar a procissão e ofensas à honra de pais e avós dos que resistem a bater de palmas ao chefe. Vale-nos que, na Madeira, não havia povos autóctenes quando os portugueses a descobriram, porque não tardaria que à Portela começassem a chegar novos retornados… Por cá apenas permanecem esses novos indígenas que eram opositores até o novo poder os subsidiar em projectos e arranjos de estradas para as terras da família e que, de nós, apenas se querem vingar com a exportação da jardineirice de sinal aparentemente contrário, mas idêntica em teologismos de base que benzem a nova aliança social-fascista, de outras eras baladeiras, dado que agora ainda não há registos de interesses nem obrigatoriedade de comunicação do IRS dos reformados que acumulam tachos públicos, com a embriaguez dos botequins das fidalguices ou das pidarias saneadeiras… A embriaguez discursiva dos aproveitadores das velhas lutas de classes não permitiu que vislumbrássemos a novidade de ontem, o primeiro desfile das vítimas da novíssima questão social, em torno do chamado desfile do chamado “May Day”, esses novos marginais da globalização, da europeização e do chamado desenvolvimento situacionista e que, sem ser por acaso, integra quase todos os meus filhos. Porque esses são a efectiva realidade deste pretenso paraíso que, sem qualquer espécie de solidariedade, lança no desemprego essa nova forma de escravatura doce. A sociedade que estamos a gerar, para garantir os pretensos direitos adquiridos de cerca de dois terços de instalados, lança as novas gerações no precário da falta de esperança. E porque os privilegiados têm o monopólio da palavra e do reformismo, continuam a música celestial das reformas do sistema de ensino e da luta pela qualificação, pensando que todos os jovens têm que ter o futuro dos “jotas” da partidocracia, dos sete aos setenta anos, que eles empregam como assessores e adjuntos, através da velha encomendação neofeudal da cunhocracia e do clientelismo, sem vergonha. O desfile de ontem, dessa nova esperança dos desesperados, foi um grito de revolta que veio pôr em causa o meu papel de pai e de professor e explicar a razão pela qual nenhum dos meus filhos e a esmagadora maioria dos meus alunos não quer ter partido. Por isso é que não quero perder a minha palavra com esses novos sacerdotes do situacionismo que gastam o respectivo latim em interpretações comemorativas do 1 de Maio, do 5 de Outubro, do 28 de Maio ou do 25 de Abril. Para quem foi licenciado por um sistema de ensino que agora brinca às gagas bolonhesas, esses delírios funerários apenas representam velharias dos que, perdendo as ideologias do “bacalhau a pataco” e dos “amanhãs que cantam”, estão, pura e simplesmente, a abdicar daquelas “saudades do futuro” que hoje já são um escandaloso presente. Ontem, foram apenas algumas centenas contra o precariado, amanhã serão milhões. Eles sabem o que significam palavras como “call center”, estágios, bolsas, recibos verdes e contratos a prazo. Sabem que não podem constituir família, ou comprar casa, mas até pagam imposto. Felizmente que o ATTAC e o FERVE lhes deram voz tribunícia, contra os mafiosos da cunhocracia e da partidocracia dos “jotas”, que os instrumentalizam…

Abr 28

A recandidatura a presidente regional de um professor da Universidade Independente

Um quarto de hora antes de morrer, este regime ainda está vivo. Só que o quarto de hora em causa pode, e vai demorar, uma década a passar, a não ser que aconteça um imprevisto, como vai acontecer, vindo de cima, ou vindo de fora. E a agonia decadentista nem sequer pode ser acelerada se alguns dos partidos existentes passarem a alvarás, emprestando siglas a movimentos de cidadãos que contratem actores de teatro para se candidatarem a líderes governamentais, mesmo que seja contra presidentes em exercício que são camaradas do mesmo partido, dado que eles até são melhores actores do mesmo teatro da trágica comédia em que nos vamos enredando.
As recentes cenas dos enredos madeirenses disputam a agenda mediática com as operações saudosistas de Santa Comba, onde um cadáver físico não adiado vai procriando manifestações, para gáudio de manifestantes e contra-manifestantes, onde uns sonham com regressos a ditaduras e outros com ditaduras do contra, quando apetece repetir o que disse o ministro, António Costa, com algum bom senso democrático: «Espanta-me o fervor noticioso em torno desse partido chamado PNR … só o Ministério Público tem legitimidade para intentar uma acção de dissolução de um partido, se entender que há motivos para isso … esse partido é um partido como o meu partido, o PS, o PSD, o CDS-PP ou o PCP. É um partido legal como os outros».

No intervalo, deu-se o regresso de Paulo Portas, com uma excelente intervenção parlamentar, ninguém reparando que durante dois anos ele apenas foi um deputado silencioso, talvez para demonstrar que eles são todos iguais, mas que há alguns mais iguais do que outros, pelo que não espanta que os representantes da nação prefiram biscates, mesmo que seja a ida aos painéis televisivos de comentarismo oficioso, onde recebem cerca de 20 euros por minuto, conforme pode ler-se no último número do “Tal & Qual”.

Voltando ao ritmo jardineiro, se achei piada à técnica do Manuel do Bexiga, com que Manuel Monteiro conseguiu um pontinho na agenda mediática, apenas confirmei o que Francisco Lucas Pires argumentou quando se demitiu do CDS de Monteiro e Portas: para se ouvirem, eles têm de berrar. Porque quando todos ralham, corremos o risco de continuar a ter caravanas situacionistas que passem, de tal maneira que Jardim até pode dizer que as trapalhadas académicas de Sócrates são um “castigo divino”, enquanto a segunda linha da biografia oficial do senhor presidente do governo regional reza que ele é licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, tendo sido professor nos ensinos técnico e secundário. É Professor Convidado da Universidade Independente de Lisboa.

Abr 27

Afinal a polícia também reprime a ilegalidade da extrema-esquerda…

Uma semana depois de Sócrates começar a respirar de alívio, os engenheiros sociais que comandam o “agenda setting” conseguiram driblar os incautos e ficaram a saber que há mais de setenta milhões de blogues indexados, que se criam diariamente mais de 120 000, que se publicam 1 500 000 entradas por dia e que 37% da blogosfera é em japonês, contra 36% em inglês e 3% em castelhano. Do português, não obtive informações. Temos menos votos na blogosfera do que a soma dos sufrágios da extrema esquerda e da extrema direita, expressos nas últimas eleições.

Voltando à nossa agenda mediática, reparo que Paulo Portas está também cada vez menos notório, face ao crescimento dos autarcas arguidos, tal como o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carmona Rodrigues, que foi notificado para ser ouvido, na próxima semana, pelo Ministério Público na qualidade de arguido.

Inesperadamente, reparámos, pelo DN, que um dia antes dos confrontos do 25 de Abril entre a polícia e anarco-libertários no Chiado, em Lisboa, já as autoridades sabiam que os manifestantes pretendiam atacar a sede do Partido Nacional Renovador (PNR) e destruir o cartaz contra a imigração colocado no Marquês de Pombal. Por outras palavras, estes da extrema-esquerda parecem ser directamente proporcionais aos da extrema-direita, para os quais o PGR disse estar atento, e muito bem.

É naturalmente saudável que se detectem estes praticantes do velho desporto do assalto às sedes dos outros e cultivar a memória do 25 de Abril é não repetirmos erros do passado recente e remoto, até porque tanto a esquerda de sempre como a direita de sempre foram vítimas da falta de adequada polícia e de adequado ministério público, quando confundíamos casos de polícia com liberdade de expressão. Já estamos mais crescidos e desde a primeira revisão constitucional que consagrámos a ideia e a prática de Estado de Direito. O ataque a Igrejas, a templos da maçonaria ou a sedes de formigas brancas por formigas pretas, ou vice-versa, inevitáveis degenerescências da sociedade aberta, são espectáculo pouco dignificante e nada de acordo com uma democracia pluralista e competitiva.

Só os autoritarismos gostam da paz dos cemitérios, tal como os totalitarismos preferem os comícios da Cuba de Fidel, ou da actual Coreia do Norte. Os primeiros dizem que quem não está expressamente contra o Chefe é a favor do Chefe. Os segundos dizem que quem não se manifesta expressamente a favor do Chefe é contra o Chefe. Julgo que é saudável a atitude do município de Santa Comba Dão, autorizando a procissão dos saudosos de Salazar, se, a seguir, também autorizar os anti-salazaristas a fazerem a sua. Qualquer proibicionismo abstracto favorece o crescimento clandestino da loucura. Apenas exijo que a polícia e o ministério público cumpram o seu dever. A vida continua e a paz exige institucionalização dos conflitos.

Abr 26

25 de Abril, sempre, contra os escribas dos sucessivos “Anais da Revolução Nacional”

Os regimes, em Portugal, caem de podre porque, muitas vezes, ultrapassam todos os prazos de validade que lhe garantiam autenticidade. Só que a apatia e o indiferentismo gerados pelas manobras da elite no poder, lançam o colectivo numa inércia cobarde, inversamente proporcional ao activismo dos oposicionistas, cujo vanguardismo, marginal face à opinião pública, resulta, precisamente, da frustração de não se sentirem, entre ela, como peixe na água.

No plano das consequências, o golpe de Estado do 25 de Abril de 1974, que Costa Gomes, no plano operacional qualificará como um acaso cómico, é uma espécie de libertação da mola desoprimida que se partiu, para utilizar-se uma expressão de Fernando Pessoa.

É que, como Salazar tinha confessado a António Ferro, o povo português é bondoso, inteligente, sofredor, dócil, hospitaleiro, trabalhador, facilmente educável, culto, mas excessivamente sentimental, com horror à disciplina, individualista sem dar por isso, falho de espírito de continuidade e de tenacidade na acção e de tempos a tempos assiste-se ao fenómeno de nascimento de certas ondas de pessimismo, dessa ânsia de deitar tudo a perder, não se sabe bem porquê, porque sim, desejo infantil de variar, de mudar, de quebrar o boneco para ver o que tem dentro.

Abril é, sobretudo, essa descompressão, inicialmente gerida por uma Junta de Salvação Nacional, donde emerge um Presidente da República, o General António de Spínola, um Governo Provisório e um Conselho de Estado, tudo em nome de um programa do MFA que promete a democracia política pluri-partidária, um desenvolvimento socializante e uma descolonização com autêntica autodeterminação das populações coloniais, admitindo-se tanto a plena independência como a própria permanência na área da soberania portuguesa. Só que o programa é rigorosamente vigiado por uma comissão coordenadora dos jovens oficiais que haviam corporizado o golpe, divididos entre os operacionais, como Otelo Saraiva de Carvalho, e os mais intelectuais, como Melo Antunes, e, além disso, há o povo inorgânico, os homens da comunicação social e da cultura também comunicacional, os restos da oposição clássica e os movimentos políticos nascidos nos crepúsculo do regime, entre estudantes e sindicalistas politizados.

Digamos que nesse dia de 1974 nos vimos livres de um regime que havia sido montado por um avô autoritário, ao estilo do pai tirano, para, depois de algumas cenas de violência familiar, chegar o tempo da geração do pai modernaço e bon vivant, muito viajado, que não tinha problemas de abrir as janelas, porque resistia às correntes de ar. Por isso é que, a certa altura, no fim da década de oitenta, os membros da família, fartos dos laxismos desse pai modernaço, que não gostava de ler dossiers e que até meteu a ideologia na gaveta, pediram ajuda a um tio austero, que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava. E é ele que trata de pôr ordem no orçamento, pinta a casa e arranja os caminhos e as cercas do quintal. Por outras palavras, como dizia Ortega y Gasset, todas as revoluções são pós-revolucionárias. Medem-se menos pelas intenções dos primitivos revolucionários e mais pelas acções dos homens concretos que fazem a história, sem saberem que história vão fazendo. Porque, na prática, a teoria é outra…

Vai, a partir de então, viver-se a euforia. Libertam-se os presos políticos. Deixa de haver censura prévia. Regressam os exilados. Surgem à luz do dia os partidos políticos. Álvaro Cunhal atravessa a cortina de ferro e chega de avião ao aeroporto da Portela. Soares vem de Paris, de comboio, e desembarca na estação de Santa Apolónia. Cunhal emociona-se na frieza de ter que cumprir o papel de Lenine. Soares, sem papel, é demagogo, fala em democracia, mas logo clama pela necessidade do fim da guerra. Os portugueses acordam estremunhados de um sono forçado que teria quase meio século de censuras, proibições e repressões. Embriagam-se colectivamente com liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de associação. Com liberdade e libertinagem. Há comícios, manifestações de apoio e de repúdio, bem como mesas redondas que debatem o que até então haviam sido os livros proibidos, os filmes proibidos, as palavras proibidas. Todos correm à procura de um tempo que julgam perdido, sonhando viver em poucos dias o que outros povos polidos e civilizados haviam levado décadas a germinar e a consolidar.

São castelos de palavras recortadas dos manuais de um pensamento petrificado, teorias, “slogans”, fraseologias, palavras cheias de letras amontoadas à toa, discursos, palavras cruzadas, num qualquer xadrez sem regras. De madrugada chegara o sonho há tanto esperado, a hora da liberdade, o país da emoção, finalmente recuperado. Abril ressoa a nevoeiro feito aurora, é a revolução de um Portugal mais inteiro, com justiça, com primavera, com nação de corpo vivo. E para muitos, até Spínola se assume como o condestável da lusitana antiga liberdade, ao sinal do antes quebrar que torcer, nesse dia que parece de ressurreição, onde soldados nos dão crenças, horas de sonho, com liberdade e com pão. Quebrando as algemas da tirania, parece que regressa o Portugal marinheiros, dos heróis do mar, do nobre povo, da nação valente e imortal, gritando às armas, às armas da libertação, sobre o silêncio das praias desertas com direito a azuis infinitos. Quase parece que voltam o Quinto Império, as baladas de Bandarra, a Mensagem de Pessoa, as profecias de Vieira, a luz vencendo a bruma, com Camões regressando, numa mão a espada, na outra, a pena. Porque ainda ontem era o triste dedilhar das guitarras, quartos escuros em mansardas e as janelas saudosas sobre os telhados de uma cidade morta, a lua escondida, por trás das chaminés, restos de chuva nas ruas e alguém escondido, à luz dos candeeiros, enchendo folhas brancas de palavras negras, palavras que só ele um dia poderia ler. Agora, a rádio vai trazendo novas de liberdade, diz que os tiranos foram libertados e canta liberdade em hino nacional, tudo parecendo voltar a ser o Portugal-missão. O desencanto seguirá dentro de semanas.

O capitão Salgueiro Maia, em pleno Largo do Carmo, de megafone em punho, anuncia o fim de alguma coisa que qualifica como o Estado a que chegámos. Marcello Caetano quer entregar o poder a Spínola para que não caia na rua, manda Pedro Feytor Pinto ter com Maia, mas este diz que é preciso pedir autorização ao PC, isto é, ao posto de comando do MFA, instalado no quartel da Pontinha, onde funciona a coordenação da movimentação golpista. Feytor Pinto ainda pergunta: quem manda aqui? Respondem-lhe que mandamos todos. Questiona, depois, sobre quem é o mais graduado, mas a resposta de Marques Júnior, Manuel Monge, Otelo, Pinto Soares e Vítor Alves é simples: somos todos capitães.

Contraditoriamente, a Junta de Salvação Nacional retoma o golpismo institucional do reviralho, bem como o próprio sentido hierarquista, como havia sido expresso pela Abrilada de 1961. Mas o movimento dos capitães, em nome da legitimidade revolucionária, acaba por dominar um equilíbrio instável entre esses dois pólos, chegando-se a uma espécie de solução de compromisso, como acontece quando os capitães e majores se transformam em brigadeiros e generais arvorados, enquanto durasse a situação transitória do processo revolucionário em curso. Mas, nos interstícios da inexperiência política, começam a predominar os partisans das células de alcatifa, com que o PCP oleara os mecanismos das chefias militares e com quem Costa Gomes sabe dialogar.

Só que, na rua, a extrema-esquerda, decide lançar o grito de nem mais um soldado para as colónias, clamando contra o exército colonial-fascista, incendiando um rastilho que vai levar à inevitável quebra de comando de um país que, apesar de pensar-se em festa, continua em guerra. E, no teatro das operações, algumas tropas logo começam a abandonar os aquartelamentos e a dirigir-se para os principais centros de concentração urbana, desertificando a quadrícula do interior e desguarnecendo as fronteiras da Guiné, de Angola e de Moçambique. Misturando-se a inevitável quebra de vontade de combater com alguns sentimentos anti-coloniais, gera-se a principal contradição do processo, dado que as forças no terreno não podem esperar pela decisão do comando do processo. O ambiente de vivório e foguetório propaga-se até àqueles que estão destinados a conter a guerrilha e as tropas portuguesas começam a confraternizar com os antigos adversários.

Os inúmeros projectos político-partidários obedecem quase todos ao mesmo ritual. Em dois ou três meses há que fazer o que noutros países levou décadas. E tudo num ambiente de slogans
No dia 1 de Maio, multidões invadem as ruas e as praças e os cravos vermelhos consolidam-se como símbolo de um tempo novo, ao som dos discursos de Mário Soares e Álvaro Cunhal. O povo explode em manifestação organizada pelo espectáculo das palavras de ordem, com um Zé povinho a vestir-se de mariana reivindicativa, confundindo a revolução com uma grande festa. Cunhal e Soares tentam liderar o movimento de rua e juntam-se no antigo Estádio da FNAT, em Lisboa. Soares volta ao verbalismo demagógico e clama roucamente contra o governo fascista e colonialista de Marcelo Caetano, dizendo que foi hoje e aqui que destruímos o fascismo, arengando contra o baronato político-corporativo e os agentes do imperialismo estrangeiro. Cunhal, mais calculista, julgando repetir Lenine e o livro do processo histórico, fala na revolução do 25 de Abril e apela para a unidade da classe operária e das forças democráticas, clamando contra a guerra. E, num gesto ensaiado, termina o discurso abraçado a um marinheiro e a um soldado, desprezando a tal unidade antifascista das forças democráticas. Pereira de Moura fica ao lado e de lado. A transmissão em directo do espectáculo do povo unido começa engasgada nessa cena de palco, bem ensaiada. É uma liberdade condicionada e rigorosamente vigiada pelo aparelho militar revolucionário. Fartávamo-nos de opiniões, de opiniões de muitos outros, que não é a opinião que cada um tinha, mas a opinião que convinha e que todos fingiam ter, mesmo quando não a tinham. Porque todos temiam quem eram, donde tinham vindo ou para onde iam. Porque todos tentavam ser o equilíbrio das aparências que a hipocrisia social impunha.

Às quatro da tarde do dia 9 de Setembro de 1836 desembarcam no Terreiro do Paço, os deputados oposicionistas do Douro e da Beira, vindos no vapor Napier. São esperados por uma manifestação de cerca de 6 000 pessoas, num ambiente de vivório e foguetório, animado por bandas de música.

Cerca das nove da noite batalhões da Guarda Municipal concentram-se na Praça do Príncipe Real (então Patriarcal Queimada) e, com a populaça, os insurgentes dirigem-se ao Rossio onde dão vivas à Constituição de 1822. Pouco antes em Espanha (12 de Agosto), uma revolta em Madrid tinha obrigado Maria Cristina a repor a Constituição de Cádis de 1812. Tropas do Governo, chamadas para reprimir a sedição, logo confraternizam com os revoltosos. Uma deputação destes entrega um ultimato à rainha nas Necessidades, sendo escolhido, para a liderar, face à recusa de Sá da Bandeira, o conde de Lumiares. Na reivindicação apresentada à Rainha, redigida por Soares Caldeira, consta a imediata proclamação da constituição de 1820 com as modificações que as cortes constituintes julgarem por bem fazer-lhe. O Conselho de Estado sugere à rainha que se submeta às movimentações e às oito da manhã já desfilam os vencedores com louros nas espingardas, depois das hortênsias de 1832 e dos cravos de 1974.

Saldanha regressa a Lisboa, vindo de Roma, sendo esperado e saudado por uma multidão de cerca de seis mil pessoas, com vivório, foguetório e bandas de música (4 de Julho de 1865).

Na noite de 26 de Janeiro de 1914, Afonso Costa promove cortejo de apoio aos democráticos, com o tradicional vivório e foguetório, onde não faltam filarmónicas e um balão à veneziana; a manifestação é dispersa por oposicionistas com cenas de pugilato no Rossio. Bandos de formigas pretas chegam a cercar o jornal O Mundo. Segue-se manifestação oposicionista nocturna, do Largo de Camões para Belém, organizada por Machado Santos, Júlio Martins, Carlos da Maia e Rocha Martins, onde se exige a queda de Afonso Costa, amnistia para todos os presos políticos e reabertura das associações sindicais encerradas. Entram na manifestação sindicalistas armados de archotes, a partir da Avenida 24 de Julho. Almeida e Camacho recusam participar e os comerciantes de Lisboa não fecham as portas.

Gomes da Costa toma posse como Ministro da Guerra e interino das Colónias, juntamente com Felisberto Pedrosa, nomeado no dia anterior (7 de Junho de 1826). Continuam sem ocupação os lugares de ministro das finanças, devido à renúncia de Salazar, bem como o do comércio e comunicações. No mesmo dia, Parada da Vitória na Avenida da República, com 15 000 homens. Assiste o corpo diplomático. Rocha Martins confessa que, nesse dia, estando perto de Sinel de Cordes, durante o desfile lhe diz: que bem que fica o Gomes da Costa a cavalo. Sinel, entre risadas dos que assistem à cena, responde: oxalá se aguente muito tempo no selim.

A besta continuou a cavalgar-nos durante meio século, devido aos sucessivos escribas dos Anais da Revolução Nacional.

Abr 25

Pedimos desculpa por esta interrupção, o 25 de Abril segue dentro de momentos

Confesso que tanto não fui à inauguração do túnel do Marquês, como também não participei no desfile comemorativo, por não haver discurso do Gato Fedorento. Estive ontem a comemorar mil oitocentos e vinte. Mas não posso deixar de me congratular com o discurso do PSD contra o controlo da comunicação social por parte do PS, depois da renomeação de Pinto Balsemão como dono da SIC.

Esperemos que a próxima inauguração do aeroporto da Ota tenha mais consensualidade, dado que circula a notícia de restauração do Conselho Superior das Obras Públicas, constituída por todos os professores catedráticos de engenharia civil que não têm empresas de consultadoria e que se dedicarão a dar fundamento técnico a decisões políticas desse teor. Nada de estranhar, portanto, quanto aos meus não comentários sobre as eleições timorenses e francesas, da mesma forma como ainda não tenho opinião sobre a repressão ao movimento Falun Gong por parte de Pequim. Pedimos desculpa por esta interrupção, o 25 de Abril segue dentro de momentos.

Abr 23

O plágio da era pós-ideológica e o fim do beatério democristão, com fins de semana em Odemira

Nova semana, vida velha, depois de Mário Soares já criarfactos políticos, depois de Portas vencer Ribeiro e Castro, depois de Santana Lopes ameaçar regressos, depois de Manuel Monteiro dissertar sobre o que deve ser a direita, depois de Sarkosi e de Royal, entre o “sonho francês” e o “patriotismo republicano”. Hoje fixo-me em Portas. Porque 5 642 pessoas o escolheram como novo líder de um novo ciclo velho, face ao renovado PP que volta a deixar de ser CDS. Isto é, o ritmo das directas partidárias está cada vez mais parecido com o fulgor eleitoral dos grandes clubes de futebol, onde até asclaques juvenis são a maioria dos sócios.

Portas reassume assim um estrelato idêntico ao de Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira ou Soares Franco, sem necessidade de passar pelo exame das discursatas e golpadas de corredor dos velhos congressos, com as suas barganhas de notáveis de província, à espera de um lugarzinho nas listas para deputados. Em vez de um fim de semana com mil militantes num hotel de três estrelas, eis que, dos ditos 44 000 000 inscritos, apenas uma visita às urnas de cartão de 7 563 votantes. Por outras palavras, um dos cinco maiores partidos portugueses mostra assim, perante a opinião pública a sua efectiva dimensão de paróquia, principalmente quando abandona os níveis metafisicamente representativos e se dissolve num populismo sem espectáculo de luzes e balõezinhos.

Daí que tenha perdido brilho o discurso dito de vitória, onde se proclama o “espírito de conquista” e a promessa de construção de “um grande partido de centro-direita”. Daí que só alguns guardadores de slogans tenham reparado que a novidade de Portas seja uma repetição de um tópico emitido, há um quarto de século, pelo social-democrata sueco, Olof Palme, sobre a era pós-ideológica. Coisa compreensível depois da derrota dos católicos no referendo do aborto e do esmagamento do beatério democrata-cristão de Zé Ribeiro e Castro, apesar dos entusiásticos apoios recebidos da ala hindu e de certos neoconservadores.

Logo, Portas prefere os conceitos indeterminados e a cláusula geral de um vazio doutrinário, mas sem ousar um apelo à costela liberal. Fica-se pela encruzilhada de uma personalização do star system e pela repetição doagenda setting, rivalizando com Maria José Nogueira Pinto na mobilização blogueira dos neocons e neolibs da revista Atlântico e dos blogues satélites. Zé Castro ficará no combate pela boa ideia de Europa, citando Bento XVI e caminhando, como homem só, pelas ruas desertas de Odemira. Só que, na TVI, já não manda o Zé Eduardo nem a Manela, mas um cardeal republicano, laico, hispanista e socialista, enquanto a SIC tem problemas de facturação e apoiará, invitavelmente, o próximo estrelato do PSD. Nada de novo, na frente Sudoeste deste flanco do europês, onde manda cada vez menos a Conferência Episcopal Portuguesa, já sem direito ao seu Centro Católico Português.

Abr 20

De como o capital pode ter pátria.

Um segurança de discotecas foi o único dos 10 elementos de extrema-direita, detidos quarta-feira pela Polícia Judiciária, suspeitos de discriminação racial, a ficar em prisão preventiva. Em vez de extrema-direita, alguns jornais põem claques de futebol, como poderiam pôrportugueses que gostam de dizer que são brancos, racialistas e identitários. Isto é, foi tudo tão bombásticoquanto a conferência de imprensa da UnI protagonizada por militantes do PS, embora nenhum assessor da PJ ou do MP tenha previamente declarado tal. O submundo dos espectáculos de música pimba e folclore de extremistas de direita ou de esquerda subiu episodicamente ao palco.  E é nas contracurvas e meandros deste ritmo que emerge a figura de Pina Moura a suceder a Anadia no comando de um dos principais fazedores de valores e de notícias de uma Lusitânia onde já uma vez perdeu o partido de Febo Moniz. O antigo bispo que nos andava a dar hispânica electricidade, parece agora mudar de energia cardinalícia, indo competir com Balsemão, no comando da rede do chamado quarto poder. Esperemos que continue marxista-estalinista e que pratique o velho esquema segundo o qual o capital não tem pátria… Por essa e por outras é que aqui na minha aldeia de Belém, hoje somos todos belenenses, sonhando que pode ser desta que iremos mais uma vez dar uma volta à estátua de Afonso de Albuquerque. O Doutor Cavaco, que é nosso vizinho mais recente, que fique a saber que no jardim diante do seu palácio, há um banquinho de pedra sagrada onde foi fundado o clube cá do bairro e que esse é lugar de romaria desta pequena minoria dos adeptos do Matateu, do Zé Pereira e do Vicente, pelo que daqui mando o meu sentido abraço ao ajudense Helder Costa, meu colega e resistente de sempre, bem como ao jovem Pedro Guedes, sempre fiel ao seu reduto.

Abr 19

Polícias de ideias, nunca mais!

Apenas estamos a assistir à tradução em calão de movimentos exógenos, como consequência da própria integração europeia, invocando-se nacionalismos estrangeirados, contrários à ecologia da pátria portuguesa e até ao próprio ideário do autoritarismo salazarista, que proibiu os nacionais-sindicalistas e mandou a PIDE em 1945 caçar os nazis que aqui se encontravam exilados. Salazar nunca perdoou o que eles fizeram ao seu companheiro de ideias austríaco, Dolfuss. Não podemos tratar, como questão ideológica, um simples caso de polícia e eventuais crimes de uso de arma ilegal ou de discriminação racial. A polícia deste Estado de Direito deve continuar a tradição que levou Otelo à prisão, não por ele ser esquerdista, mas por associação criminosa, de que foi amnistiado, com um juiz que era camarada ideológico dele a cumprir o seu dever. Aliás, mesmo hoje, pode haver um juiz de convicções fascistas que persiga criminosos, não por eles serem fascistas, mas por serem criminosos. A ETA em Espanha é perseguida, não por ser socialista revolucionária, ou independentista, mas por ser terrorista. Já não está em vigor o conceito sovietista de contra-revolucionário, com direito a ingresso no Gulag, ou o conceito hitleriano de Gegenreich, com bilhete para o exílio ou para o campo de concentração. A sociedade pluralista e aberta do actual Estado de Direito assenta em valores que têm como adversários a intolerância, o fanatismo e a ignorância, mas nem por isso pode proibir ideias que defendam a intolerância, o fanatismo e a ignorância. Porque houve ilustres filósofos e pensadores adeptos do totalitarismo no século XX e seria estúpido passá-los pelo silêncio. Porque a sociedade demoliberal costuma reciclar os seus inimigos. Os do século XIX, dos socialistas ao clericalismo, passaram a sociais-democratas e a democratas-cristãos, e trataram de ser os principais gestores do modelo depois de 1945. Para, nos finais do século XX, antigos comunistas se converterem ao pluralismo (veja-se o PDS italiano e os nossos ex-PCP e ex-MRPP), ou antigos neofascistas passarem a pós-fascistas (veja-se o caso de Fini e de analogias lusitanas do mesmo teor) , ambos como ilustres ministros de governos do pluralismo democrático na Europa Ocidental. Seria estúpido que caíssemos nas armadilhas de certoscaça-fascistas, para quem um extrema-direita até pode ser um conservador maçon como Churchill, o tal que liquidou o nazi-fascismo, ou um integrista teológico como Karol, depois João Paulo II, que derrubou os muros. Os segredos da liberdade têm que ser geridos pelos liberdadeiros e não pelos herdeiros da Inquisição ou dos moscas do Intendente.

Abr 18

UnI, UPAC, desgastes, e a eterna metamorfose dos donos do poder

Porque, entre nós, continua a viver-se intensamente o conflito entre o velho partido dos fidalgos, do intendente Pina Manique, e o menos velho, mas já idoso, partido dos funcionários, com saudades de Sebastião José. Com o primeiro a querer desencadear a habitual Viradeira. Com o segundo a querer servir a revolução institucional, herdeira das marquesadas. Com os dois, esperando a chegada de el rei Junot e o posterior devorismo. De um lado, a lógica dos privilégios herdados, dita defesa dos direitos adquiridos, onde, por usucapião, se garantem anteriores latrocínios que os sucessivos situacionismos legalizaram, quando promoveram a aliança casamenteira entre os velhos e os novos ricos, para que Proudhon viesse proclamar que toda a propriedade é um roubo. Prefiro deter-me nas Universidades lusitanas, as tais que resistem à custa de estudantes sem o Secundário, de acordo com o modelo que permite entrar no Ensino Superior a quem tenha mais de 23 anos. Já há instituições onde mais de metade das vagas são preenchidas com estes alunos. Do outro, a ilusão racional-normativa do partido dos funcionários, logo traída por esse eterno estado de transição dos “jobs for the boys”, dependente da mesa do orçamento, onde os buracões da lei permitem que doutorandos expulsos por plágio se doutorem na raia de Espanha e aqui entrem com mero registo automático, para bem daquela constituição europeia que obriga a um júri de equivalências para um doutor vindo de Harvard ou da USP, mas o dispensa para uma universidade privada da Letónia. Daí este místico conceito de universidades privadas, plataformas do conúbio e da barganha entre a partidocracia, os patos bravos e a fábrica de títulos para a nova fidalguia doutoreira e engenheiral, onde o Estado vai lavando as mãos como Pilatos, permitindo o negocismo e o laxismo. Sempre a metamorfose dos donos do poder, lendo muitos papéis, muitos papéis que vãotapando o sol da verdade com a peneira de um processualismo, onde os sacristães perderam o sentido dos gestos. Não precisamos de nomear a Maria José Morgado inspectora geral do ensino superior. Basta um vicentino juiz da Beira, que se assuma como Sancho Pança do bom senso, para que venha uma sentença justa que faça fraude ao legalismo em nome da verdade e da equidade, para que o povo confie no Estado que deve voltar a ser pessoa de bem. Alguém que diga que é tão grave a compra de poder, dita corrupção pelo Código Penal, quanto a compra da inteligência, do saber e da ciência, pela eliminação desse misto de intelectual e de serventuário, a que Gilberto Freyre deu o belo nome de intelectuário. Será que o ministro vai afinal gaguejar? Será que a UPAC vai mesmo descobrir o Brasil e furar a eterna política de sigilo? Será que depois da defenestração vai entrar, pela porta grande do palacete das vaidades, o que foi mandado para a lixeira do pátio através do espectáculo transmitido em directo a partir do varandim? Será que nenhum Pêro Vaz de Caminha vai escrever a nova carta de achamento de esqueletos no sótão?