Mar 16

Parabéns aos homens de sucesso!

Almoço, em solidão, em plena cidade, diante do sol, olhando as árvores e as rolas e sentindo a água correr, aqui nos Moinhos de Santana, para me olhar por dentro e esquecer os pequenos cabrais que continuam a instrumentalizar os nossos atavismos devoristas e inquisitoriais, gerindo os interstícios do poder com o manhoso jogo das promessas da habitual política de empregadagem, com que delambem os restos pútridos que caem da mesa do orçamento, onde não faltam os sempiternos intelectuários que se costumam manipular pela avença e a engenharia dos subsídios, a que agora chamam projectística e consultadoria.

 

A culpa está na circunstância de os homens livres serem um bem escasso, dado que poucos podem viver honestamente, praticando o que vão pensando, porque a chamada história dos homens de sucesso parece registar esse híbrido de fascista cobarde e de ébrio inimputável, sempre à espera do favor decretino, mas propagando pequenas cortes de seguradores de copo e de abridores de garrafa, em sucessivas tragicomédias. Os que, de tanto se submeterem para sobreviver, já nem sequer sabem lutar para continuarem a viver.

 

As gentes de antes quebrar que torcer, que homens e mulheres dessas cortes não podem, nem querem, ser, já nem sequer têm cais de partida, donde larguem naus de sonho que nos levaram para a busca do paraíso ou a ilha dos amores. Porque quem ama a ideia de Portugal e a quer servir como português à solta, libertando-se das amarras que nos acirram o desterro interno, já nem sequer pode usar o primeiro direito dos homens que é o ius ambulandi, neste cativeiro de homens-lapas, agarrados aos postos de vencimento.

 

A pátria está presa nas teias das manigâncias dos filhos, sobrinhos e primos de algo, esses vingativos e invejosos carreiristas que nos amarfanham, procurando controlar-nos de acordo com os procedimentos constantes do manual das velhacarias e vigarices dos inquisidores, moscas e bufos, mesmo quando rezam o terço todos os dias, editam santinhos e se ajoelham na dominical missinha. Apenas agradeço que continuem nessa apoplexia acumuladora de cargos e suplementos financeiros, para que possam explodir em verdade, deixando que se quebre o verniz e surja o caceteiro impiedoso e devorista que faz parte da sua natureza.

Mar 14

O regime dos emplastros

Dia a dia que passa, sem espaço de exílio externo, mas também sem causas cívicas que me mobilizem institucionalmente, vou sobrevivendo e submetendo-me a estas circunstâncias, cada vez mais desterrado na minha própria pátria. Mas, todos os dias, confirmo que não estou sozinho, aqui e agora, apesar de sentir que a maioria dos meus concidadãos, prefere a segurança e o bem-estar dos remediadamente conformistas, a qualquer aventura da liberdade.

Sinto-me um pouco naquele ambiente decadentista dos “anciens régimes” que, em Portugal, costumam durar décadas, como aconteceu no crepúsculo da monarquia liberal, nos anos vinte da república velha ou na fase pós-delgadista do salazarismo. Recordo-me até da primeira causa cívica que assumi em artigos de jornais, quando, adolescente, defendi, em carta assinada, no jornal da terra, o velho “Diário de Coimbra”, uma mudança de horários contra os interesses de uma concessionária dos transportes públicos. Então, uma minha conhecida, cidadã de meia-idade, apoiante do regime, logo me veio admoestar porque muita sorte tinham os pobrezinhos de terem oferta de transportes públicos, em vez de andarem a pé ou de bicicleta…

Hoje, parafraseando Belmiro de Azevedo, quem não é por Cavaco ou por Sócrates ou é incompetente ou maluquinho. Logo, corre o risco de ir para a bolsa dos supranumerários ou de ser internado no pelourinho dos inconvenientes que não dizem “sim senhor” a estas ilustres vontades de modernização da pátria.

Pouco mudámos nesta servidão voluntária, desde que surgiram os profissionais da contestação ou os canalizadores do protesto institucional, a que chamam partidos da oposição, cheios de antigos ministros da mesma situação de um permanente bloco central de interesses, a que hoje se chama coabitação em regime de cooperação estratégica. Basta olharmos uma desssas visitas de presidente ou chefe de governo a inaugurações de província, mesmo que fiquem em plena capital.

Nada melhor, para confirmarmos como vivemos em regime de emplastros, que numa dessas imagens de telejornal, verificarmos o que acontece quando Cavaco ou Sócrates têm que mandar umas bocas para o país através da camâra e do microfone. É vermos o ridículo de ministros e outras figuras do estadão se empurarrem todos, para ver se cabem no écran, encostando as cabecinhas ao microfone do chefe, só para aparecerem no boneco. Porque em política o que aparece é o que é.

Somos cada vez mais um regime de emplastros, onde cada chefezinho e cada subchefe da mão longa do estadão decidiram copiar suas altezas, com um gabinete de relações públicas e um assessor de comunicação e imagem, normalmente um desses jornalistas desempregados que consegue colocar uma notícia ou uma entrevista numa dessas folhas de couve que ninguém lê, mas o gabinete fotocopia e distribui, dando cinco minutos de fama ao vaidoso emplastro.

É pena que alguns não tenham o dom da palavra ou da carantona televisionável. E pior ainda é quando, assumindo a função de emplastro, não reparam como são baixinhos, pançudos, carecas ou coxinhos, levando a que meio povo se questione sobre quem é aquela alimária que anda aos empurrões atrás de Sua Excelência, só para furar o telejornal. É que os assessores pagos ter-lhe-ão dito como gostaram de vê-lo nessa manifestação de massas desta permanente sociedade de corte e até os familiares e as secretárias de função acabaram por lhe afagar o ego, sem lhe dizerem da triste figura que ele fez.

Neste regime de emplastros parece agora ter chegado a moda de suas excelências ministeriais fazerem blogues, não por causa da blogosfera, mas para que os jornais do dia publiquem duas páginas de reportagem sobre a matéria, a fim de confirmarem que a dita personalidade sabe usar os efeitos do choque tecnológico, neste “big brother” de uma crescente gargalhada, onde os sábios gestores do poder vão, de sondagem crescente em sondagem crescente, até ao tabu, ao pantanal ou a um convite para funções mais importantes, deixando os “saloios” a ter que gramar os emplastros.

Basta que um qualquer chefe da grande Europa mostre, ao presidente ou ao primeiro-ministro, os relatórios sobre negociatas e as escandaleiras que os adidos das embaixadas elaboraram, quando descreveram os nossos meandros dos passos perdidos à beira do poder.

Por outras palavras, estou cada vez mais do contra. Contra os que estão e até contra os que dizem que são do contra, de Zés Ribeiros a Marques Mendes, ou de Portas e Monteiro a Pedro Santana Lopes, nesses bailados de bonzos, canhotos e endireitas, onde todos vão explorando a nossa revolta, para reforço dos micro-autoritarismos subestais que se alimentam das sociedades de corte e das servidões voluntárias. Infelizmente, já não há revistas de “Homens Livres”, entre a “Seara Nova” e a “Nação Portuguesa”, nem um qualquer “Album das Glórias” que nos retrate. Já não somos quem sempre fomos, à espera de uma revolução, de uma “maria da fonte” ou de um “vinte oito de maio”.

Eu preferia fazer um golpe de Estado sem efusão de sangue, através de eleições, mas, infelizmente, não tenho partido onde militar. Já me enganei algumas vezes e tive que sair a tempo, para poder continuar a viver como penso, sem pensar muito como assim tenho de viver. Pior ainda, já nem na universidade posso dizer que há lugar para o pensamento livre, dado que o estadão, os emplastros e a partidocracia estão a dar cabo dela.

Mar 14

Dia a dia que passa, sem espaço de exílio externo

Dia a dia que passa, sem espaço de exílio externo, mas também sem causas cívicas que me mobilizem institucionalmente, vou sobrevivendo e submetendo-me a estas circunstâncias, cada vez mais desterrado na minha própria pátria. Mas, todos os dias, confirmo que não estou sozinho, aqui e agora, apesar de sentir que a maioria dos meus concidadãos, prefere a segurança e o bem-estar dos remediadamente conformistas, a qualquer aventura da liberdade. Sinto-me um pouco naquele ambiente decadentista dos “anciens régimes” que, em Portugal, costumam durar décadas, como aconteceu no crepúsculo da monarquia liberal, nos anos vinte da república velha ou na fase pós-delgadista do salazarismo. Recordo-me até da primeira causa cívica que assumi em artigos de jornais, quando, adolescente, defendi, em carta assinada, no jornal da terra, o velho “Diário de Coimbra”, uma mudança de horários contra os interesses de uma concessionária dos transportes públicos. Então, uma minha conhecida, cidadã de meia-idade, apoiante do  antigo regime, logo me veio admoestar porque muita sorte tinham os pobrezinhos de terem oferta de transportes públicos, em vez de andarem a pé ou de bicicleta… Pouco mudámos nesta servidão voluntária, desde que surgiram os profissionais da contestação ou os canalizadores do protesto institucional, a que chamam partidos da oposição, cheios de antigos ministros da mesma situação de um permanente Bloco Central de interesses, a que hoje se chama coabitação em regime de cooperação estratégica. Basta olharmos uma desssas visitas de presidente ou chefe de governo a inaugurações de província, mesmo que fiquem em plena capital. Nada melhor, para confirmarmos como vivemos em regime de emplastros, que numa dessas imagens de telejornal, verificarmos o que acontece quando o presidente ou o chefe do governo têm que mandar umas bocas para o país através da camâra e do microfone. É vermos o ridículo de ministros e outras figuras do estadão se empurarrem todos, para ver se cabem no écran, encostando as cabecinhas ao microfone do chefe, só para aparecerem no boneco. Porque em política o que aparece é o que é. Somos cada vez mais um regime de emplastros, onde cada chefezinho e cada subchefe da mão longa do estadão decidiram copiar suas altezas, com um gabinete de relações públicas e um assessor de comunicação e imagem, normalmente um desses jornalistas desempregados que consegue colocar uma notícia ou uma entrevista numa dessas folhas de couve que ninguém lê, mas o gabinete fotocopia e distribui, dando cinco minutos de fama ao vaidoso emplastro. É pena que alguns não tenham o dom da palavra ou da carantona televisionável. E pior ainda é quando, assumindo a função de emplastro, não reparam como são baixinhos, pançudos, carecas ou coxinhos, levando a que meio povo se questione sobre quem é aquela alimária que anda aos empurrões atrás de Sua Excelência, só para furar o telejornal. É que os assessores pagos ter-lhe-ão dito como gostaram de vê-lo nessa manifestação de massas desta permanente sociedade de Corte e até os familiares e as secretárias de função acabaram por lhe afagar o ego, sem lhe dizerem da triste figura que ele fez. Neste regime de emplastros parece agora ter chegado a moda de suas excelências ministeriais fazerem blogues, não por causa da blogosfera, mas para que os jornais do dia publiquem duas páginas de reportagem sobre a matéria, a fim de confirmarem que a dita personalidade sabe usar os efeitos do choque tecnológico, neste “big brother” de uma crescente gargalhada, onde os sábios gestores do poder vão, de sondagem crescente em sondagem crescente, até ao tabu, ao pantanal ou a um convite para funções mais importantes, deixando os “saloios” a ter que gramar os emplastros. Basta que um qualquer chefe da grande Europa mostre, ao presidente ou ao primeiro-ministro, os relatórios sobre negociatas e as escandaleiras que os adidos das embaixadas elaboraram, quando descreveram os nossos meandros dos passos perdidos à beira do poder. Por outras palavras, estou cada vez mais do contra. Contra os que estão e até contra os que dizem que são do contra, nesses bailados de bonzos, canhotos e endireitas, onde todos vão explorando a nossa revolta, para reforço dos micro-autoritarismos subestais que se alimentam das sociedades de corte e das servidões voluntárias. Infelizmente, já não há revistas de “Homens Livres”, entre a “Seara Nova” e a “Nação Portuguesa”, nem um qualquer “Album das Glórias” que nos retrate. Já não somos quem sempre fomos, à espera de uma revolução, de uma “Maria da Fonte” ou de um “vinte oito de maio”. Eu preferia fazer um golpe de Estado sem efusão de sangue, através de eleições, mas, infelizmente, não tenho partido onde militar. Já me enganei algumas vezes e tive que sair a tempo, para poder continuar a viver como penso, sem pensar muito como assim tenho de viver. Pior ainda, já nem na universidade posso dizer que há lugar para o pensamento livre, dado que o estadão, os emplastros e a partidocracia estão a dar cabo dela.

Mar 13

Entre Maquiavel, Nietzsche e Freud, lá vamos cantando e rindo..

Uma notável autarquia pública, detentora de cerca de cinquenta por cento de uma universidade dita privada, acaba de tentar descobrir a careca de uma ilustre personalidade, vice-presidente de um dos dois maiores partidos portugueses e esposa do presidente do principal banco português.

A universidade responde que a senhora auferiu, a título de honorários por serviços de assessoria jurídica e de mandato judicial prestados em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006 e 2007 (…), respectivamente as importâncias de 1.200.000$00 [seis mil euros], 37 409,85 euros, 27 433,88 euros, 44 318 euros, 10 mil euros 12 500 e 2000 euros, tendo emitido os competentes recibos verdes, o que perfaz um total de 139 410 euros. Ouvida a senhora, esta disse estranhar a iniciativa: não tenho nenhum vínculo [àquela entidade], sou advogada, estou no mercado.

Foi há uns anos que a mesma autarquia aí colocou, como supremo mandador, outro ilustríssimo jurista, por acaso, o presidente da assembleia-geral da autarquia, e, também por acaso, o actual presidente do segundo partido português, o qual logo recorreu aos serviços jurídicos da visada, não indo, naturalmente, ao dito mercado. Aliás, até a viria a colocar a mesma, sua antiga adjunta, como sua número dois, de acordo com as tais nomeações supremas com que a partidocracia costuma desfigurar a lei da oferta e da procura e a concorrência leal. Neste caso, além do mercado, a vítima também foi uma certa ideia de universidade e uma certa ideia de democracia.

Julgo que, se colocássemos o taxímetro das horas e dos honorários a funcionar, se verificaria como os serviços autarco-juridico-partidocráticos sempre foram melhor pagos do que aqueles com que se remunerava um professor. Aliás, taxímetro por taxímetro, também seria interessante conhecer quanto recebia, directa ou indirectamente, o actual presidente do principal partido da oposição, nessas tarefas. Nesta quinta, os animais são todos iguais mas há sempre alguns que são mais iguais do que outros.

Nessas zonas mistas do público autárquico com o universitário de mercado, com patos bravos à mistura e formas indirectas de financiamento partidário, as chamadas universidades privadas foram, e são, um excelente laboratório, onde cada partido usufruiu dos laços de convívio íntimo com a sua universidadezinha. E também seria interessante fazermos cruzamentos com as principais construtoras civis, em vez de entrarmos nas habituais teorias da conspiração e dos relatórios dos serviços secretos, entre comércio de diamantes e tráfico de armas. Porque logo chegaríamos à conclusão que o principal problema do ensino superior não passa de uma questão de assoalhadas, lombas, rotundas e parques de estacionamento.

E a coisa passou do superior privado para o superior público e concordatário, dado que os mesmos agentes coincidem em sucessivas falências, mas sempre com excelentes discursos de música celestial, fazendo chorar as pedras da calçada. Aliás, a nietzschiana vontade de poder e os recônditos freudianos podem explicar as movimentações de alguns actores universariantes que se pensam donos das suas vaidades, mas não passam de meras peças de xadrez, movimentáveis pelo processo da facturação, ou ansiando por suplementos de vencimento e, até há pouco, complementos de reforma, ou até acumulações de aposentações, a que costuma acrescer a glória de poderem mandar nos contínuos e nos motoristas, com direito a secretária de carne e mesa de escritório de torcidos e pau-preto, com telefone pago e Mercedes à espera.

Contudo, a recompensa suprema dos candidatos a mandadores, neste arquipélago de micro-autoritarismos subestatais, continua a ser a chamada subversão a partir do vértice dos aparelhos, para glória das pequenas vinganças dos políticos desempregados e dos políticos frustrados, que pensam poder manipular a fábrica de chouriços doutorais, onde o chefe e o subchefe podem finalmente ser citados e o serviço de relações públicas da coisa consegue, finalmente, cinco minutos de tempo de antena, com entrevistas e belas fotografias no jornal da região, cujas fotocópias são depois afixadas no átrio da instituição, ou metidas nos cacifos dos serviçais.

Os filhos, os sobrinhos e as primas podem finalmente ver como o chefe ficou bem na fotografia e até é possível que o serviço de edições da mesma coisa publique as entrevistas completas e os discursos de sua excelência, nomeadamente os das comemorações do aniversário da inauguração da impressora a cores, do balcão do bar ou da missa de acção de graças. Em qualquer dos casos, convém que, em cada momento institucional, se contrate o serviço de croquetes do restaurante da vizinhança, com tudo bem regado por uísque velhote, onde sempre se pode embebedar um dos institucionais mais susceptível, aproveitando-se os excessos de o ver cair de trombas, especialmente no dia em que ele deu uma bofetada num qualquer incauto e, depois, foi transportado aos ombros, para risada geral face ao inimputável de uma tal coisa, feita de comunismo burocrático, onde a culpa morre sempre solteira e os cemitérios estão cheios de insubstituíveis.

Entre Maquiavel, Nietzsche e Freud, lá vamos cantando e rindo, neste vira o disco e toca o mesmo e com os mesmos…

Mar 13

Nessas zonas mistas do público autárquico com o universitário de mercado

Nessas zonas mistas do público autárquico com o universitário de mercado, com patos bravos à mistura e formas indirectas de financiamento partidário, as chamadas universidades privadas foram, e são, um excelente laboratório, onde cada partido usufruiu dos laços de convívio íntimo com a sua universidadezinha. E também seria interessante fazermos cruzamentos com as principais construtoras civis, em vez de entrarmos nas habituais teorias da conspiração e dos relatórios dos serviços secretos, entre comércio de diamantes e tráfico de armas. Porque logo chegaríamos à conclusão que o principal problema do ensino superior não passa de uma questão de assoalhadas, lombas, rotundas e parques de estacionamento. E a coisa passou do superior privado para o superior público e concordatário, dado que os mesmos agentes coincidem em sucessivas falências, mas sempre com excelentes discursos de música celestial, fazendo chorar as pedras da calçada. Aliás, a nietzschiana vontade de poder e os recônditos freudianos podem explicar as movimentações de alguns actores universariantes que se pensam donos das suas vaidades, mas não passam de meras peças de xadrez, movimentáveis pelo processo da facturação, ou ansiando por suplementos de vencimento e, até há pouco, complementos de reforma, ou até acumulações de aposentações, a que costuma acrescer a glória de poderem mandar nos contínuos e nos motoristas, com direito a secretária de carne e mesa de escritório de torcidos e pau-preto, com telefone pago e Mercedes à espera. Contudo, a recompensa suprema dos candidatos a mandadores, neste arquipélago de micro-autoritarismos subestatais, continua a ser a chamada subversão a partir do vértice dos aparelhos, para glória das pequenas vinganças dos políticos desempregados e dos políticos frustrados, que pensam poder manipular a fábrica de chouriços doutorais, onde o chefe e o subchefe podem finalmente ser citados e o serviço de relações públicas da coisa consegue, finalmente, cinco minutos de tempo de antena, com entrevistas e belas fotografias no jornal da região, cujas fotocópias são depois afixadas no átrio da instituição, ou metidas nos cacifos dos serviçais. Os filhos, os sobrinhos e as primas podem finalmente ver como o chefe ficou bem na fotografia e até é possível que o serviço de edições da mesma coisa publique as entrevistas completas e os discursos de sua excelência, nomeadamente os das comemorações do aniversário da inauguração da impressora a cores, do balcão do bar ou da missa de acção de graças. Em qualquer dos casos, convém que, em cada momento institucional, se contrate o serviço de croquetes do restaurante da vizinhança, com tudo bem regado por uísque velhote, onde sempre se pode embebedar um dos institucionais mais susceptível, aproveitando-se os excessos de o ver cair de trombas, especialmente no dia em que ele deu uma bofetada num qualquer incauto e, depois, foi transportado aos ombros, para risada geral face ao inimputável de uma tal coisa, feita de comunismo burocrático, onde a culpa morre sempre solteira e os cemitérios estão cheios de insubstituíveis. Entre Maquiavel, Nietzsche e Freud, lá vamos cantando e rindo, neste vira o disco e toca o mesmo e com os mesmos…

Mar 12

Os bonzos, os endireitas e os canhotos desta ditadura da incompetência

Neste segundo aniversário de uma governação que não é carne nem peixe, mas “action man” do bloco central de interesses, em luta contra o défice, em regime de pilotagem automática, conforme a ameaça de défice, para uso da comissão europeia, depois das congratulações na Quinta das Lágrimas com a eleição de Cavaco e da manifestação de vontade de regresso de Paulo Portas, precisávamos que outros dois endireitas, no desemprego mediático, Santana Lopes e Manuel Monteiro, viessem aos holofotes dos telejornais.
O pretexto chamou-se “estados gerais da direita”, organizados pelo partido registado em nome de Monteiro. O local foi o eterno seminário dos sucessivos regimes, uma Faculdade de Direito, sob o patrocínio do Professor Catedrático Doutor Paulo Otero. As ideias não foram nenhumas, a não ser a ameaça do ex-primeiro-ministro quanto à necessária reorganização do espaço dito do centro-direita, com insinuações sobre a ineficiência de Marques Mendes, enquanto Monteiro, assumindo a sua obsessão antiportista, acrescentou umas notas-pé-de-página sobre a permanecente crise do CDS/PP. O povo ouviu e continuou a seguir as comemorações do meio século de vida da RTP.

Eu não ouvi, já ando a ouvir, há muito, esses restos de música celestial, com os constantes bailados da tal direita que convém à esquerda. E, na prática, tais notícias são não-notícias. São meros factos políticos de criadores e criaturas. Pouco interessa que Marcelo se tenha posto contra Santana e os “gatos pingados” de Monteiro e Otero (Profe comentador dixit), recordando a anterior ameaça santanista de um Partido Social Liberal.

De pouco vale que Júdice tenha entrado na liça, atacando o amigo Marcelo. Ou que Marques Mendes apareça, denunciando o projecto pessoal de poder de Sócrates. Cavaco vai mesmo celebrar a energia limpa, vinda da ventania. E António Vitorino vai substituir Vasco Vieira de Almeida na presidência da assembleia-geral da Brisa. Está farto de partidos.

Desejo apenas votos de boa saúde a Jerónimo de Sousa, que foi visitar um hospital no Centro-Norte e acabou internado em Lisboa, enquanto os jornais anunciam que há 150 000 funcionários públicos em risco, que o governo fez 2 373 nomeações na área livre para a partidocracia e que o Estado a que chegámos, com tanta obesidade, sem músculo forte nem osso calcificado, se fica assim pelo dinamismo da propaganda e das sucessivas reformas administrativas, desde que Marcello Caetano criou a moda, na segunda parte da década de cinquenta do século XX.
Na prática, hoje, não há mesmo notícias. Mas apenas comentários sobre os comentários da vida política, feitos pelos eternos bonzos da situacionismo, onde também querem entrar os endireitas e os canhotos, neste crescente ditadura da incompetência que nos rege.

Mar 12

Estados gerais da direita

Neste segundo aniversário de uma governação que não é carne nem peixe, mas “action man” do Bloco Central de interesses, em luta contra o défice, em regime de pilotagem automática, conforme a ameaça de défice, para uso da comissão europeia, precisávamos que outros dois endireitas, no desemprego mediático, viessem aos holofotes dos telejornais. O pretexto chamou-se “estados gerais da direita”, o local foi o eterno seminário dos sucessivos regimes. As ideias não foram nenhumas, a não ser a ameaça do ex-primeiro-ministro quanto à necessária reorganização do espaço dito do centro-direita. O povo ouviu e continuou a seguir as comemorações do meio século de vida da RTP. Eu não ouvi, já ando a ouvir, há muito, esses restos de música celestial, com os constantes bailados da tal direita que convém à esquerda. E, na prática, tais notícias são não-notícias. São meros factos políticos de criadores e criaturas.  Entretanto, os jornais anunciam que há 150 000 funcionários públicos em risco, que o governo fez 2 373 nomeações na área livre para a partidocracia e que o Estado a que chegámos, com tanta obesidade, sem músculo forte nem osso calcificado, se fica assim pelo dinamismo da propaganda e das sucessivas reformas administrativas, desde que Marcello Caetano criou a moda, na segunda parte da década de cinquenta do século XX. Na prática, hoje, não há mesmo notícias. Mas apenas comentários sobre os comentários da vida política, feitos pelos eternos bonzos da situacionismo, onde também querem entrar os endireitas e os canhotos, neste crescente ditadura da incompetência que nos rege.

Mar 12

Pátria, identidade, nação

Pede-me o meu colega Professor Doutor Carlos Diogo Moreira que deixe um breve testemunho neste ensaio sobre Pátria, Identidade Nação. Saliento que, se a expressão nação começou por significar aqueles que nascem da mesma raiz, já a expressão pátria vem do latim patrius, isto é, terra dos antepassados. Se a primeira tem uma conotação sanguínea e biológica, a segunda tem uma origem claramente telúrica. Isto é, se a expressão nação apela ao nascimento, à raiz de onde se vem, já a expressão pátria invoca mais o passado e, fundamentalmente, os mortos passados.

 

Neste sentido, Luís de Almeida Braga define-a como terra patrum, a terra dos Avolengos, a nação tal como a criaram e engrandeceram nossos pais antigos. Refira‑se, a este respeito, que os juristas na Idade Média tanto falavam numa patria sua ou patria propria, no sentido de localidade – equivalente àquilo que em castelhano, ainda hoje se diz com a expressão pátria chica -, como numa communis patria, simbolizada na principal cidade de cada monarquia ou na coroa. É neste segundo sentido que, como refere Martim de Albuquerque, que a expressão pátria vai ser divulgada pelos nossos escritores de Quinhentos.

 

Já também D. Afonso Henriques, num documento de 1132, intitulava‑se portugalensium patrie princeps e em 1158 portugalensium patrie rex. Spranger dizia que a pátria era um sentimento espiritual das origens.  Se com a pátria, eis que um povo passa a localizar-se fisicamente, espiritualizando um determinado território, não tarda que se localize historicamente, num espaço já cunhado pelos seus antepassados, num espaço que já foi vivido e experimentado por eles e que está carregado de memórias, e deste modo trata de procurar a nação, entendida como comunidade de gerações.

 

Já nação vem do latim natio, de nasci, nascer e muitas são as desavenças sobre o respectivo significado, principalmente na sua relação com o Estado. Se, para Lord Acton é mero resultado da acção do Estado, outros enveredam pela mesma perspectiva. Joseph Delos diz que ela se personaliza quando se estatiza. Leonel Franca observa que o Estado é o termo da respectiva evolução histórica. Carl Joachim Friedrich que Estado e nação são irmãos siameses. Maurice Hauriou observa que será ser perfeito se tiver Estado Centralizado.Bertrand de Jouvenel refere que ela foi criação do rei. Jorge Miranda que não passa de uma certa espécie de Estado.

 

Outros perseguem análises da mais diversa índole. Para Maurice Barrès, é a aceitação do determinismo, da terra e dos mortos. Fichte fala em unidade de língua e de raça. Já Max Weber refere uma comunidade de sentimento, dado que tem a ver com valores de prestígio. O nosso Damião Peres acentua que se trata de um Estado vivificado pelo patriotismo. Jacques Maritain fala que a nação instila uma segunda natureza nas pessoas, porque é uma comunidade de modos típicos de sentimento, um abraço do fervilhar espontâneo das sociedades, misturando o chão físico com o chão moral da história e gerando uma psique comum inconsciente. Na mesma senda, Maurice Duverger que é produto da história objectiva e da imaginada. Karl Deutsch, que se trata de uma comunidade de significações partilhadas, gerada por hábitos complementares de comunicação, geradores de um povo politizado. André Malraux acrescenta a comunidade de sonhos.

 

Têm todos razão. Mesmo Fernando Pessoa quando assinala que se trata de um conceito místico que visa a coordenação de forças sociais, para se gerar a homogeneidade do carácter nacional, algo com raízes no passado e raízes no futuro, para que se obtenha a sociabilização de forças individuais, nesse mais tronco do que raiz. E não falha Renan quando a qualifica como um plebiscito de todos os dias, uma afirmação perpétua da vida, um produto da história e não da zoologia, da raça.

 

Não há, de facto, conceito mais equívoco e ideologia mais eficaz nestes dois últimos século, quando se exacerbou a não identificação entre o Estado e a nação e se acelerou o consequente conflito entre essas duas entidades, dado que o conceito de Estado moderno, enquanto Estado racional normativo, não coincide com o projecto de nação, tal como a razão nem sempre se identifica com a emoção, o geral com a diferença, e a civilização entra, por vezes, em contradição com a cultura.

 

Com efeito, a partir do século XIX, surgiu um jogo múltiplo e contraditório, dado que, em nome do nacionalismo, alguns povos, até então dispersos por vários Estados, buscaram respectiva unificação (casos da Itália e da Alemanha), enquanto outros tentaram independentizar-se de grandes Estados (casos da Grécia e da Bélgica).

 

A partir de então, surgiram, variados modelos de nacionalismo: — os que, centripetamente, se volveram em supranacionalismos, tentando construir Estados quase imperiais (caso do pangermanismo e do paneslavismo); — os que, de forma expansionista, se transformaram em colonialismos; — os que promoveram a fragmentação centrifugadora de certos Estados, gerando separatismos, regionalismos, anticolonialismos e autodeterminações.

 

Mas observando a actual realidade internacional, verificaremos, sem grande esforço, que continua a existir essa não coincidência entre o Estado e a nação. Isto é, entre o Estado e a nação persiste uma espécie de paradoxo que tanto passa por separatismos centrífugos como por unificações centrípetas: — porque há povos repartidos por vários Estados (veja-se o caso dos curdos); — porque há povos que procuram constituir-se em Estados (v.g. o caso da nação palestiniana); — porque há povos que pretendem reivindicar o estatuto de minoria nacional institucionalizada dentro de um determinado Estado (v.g os catalães); — porque há Estados que incluem vários povos e nações ( v.g. o Estado espanhol); — porque há Estados que procuram construir nações (v. g. o caso de grande parte dos Estados afro-asiáticos, com fronteiras traçadas na era colonial).

 

O conflito permanece hoje em dia com inúmeros nacionalismos que em nome de nações pretendem alterar a configuração dos Estados existentes pela desintegração, unificação, expansionismo ou integração. Com efeito, conforme alguma doutrina, sempre diremos que há uma diferença entre a nacionalidade e a nação, onde aquela não passa do grupo que aspira a formar uma nação autónoma, enquanto a nação exigiria nacionalidade mais Estado.

 

Porque a autodeterminação dos povos nem sempre coincide com a integridade territorial dos Estados (v.g. os romenos que, em nome do Estado defendem a dependência da Transilvânia húngara, já, em nome da etnicidade, reclamam a integração da Moldova). E a este respeito, cumpre assinalar que William Connor, analisando 132 entidades que, em 1971, se qualificavam como Estados, chegou à conclusão que só 12 eram nation-states, sendo todos os outros plurinacionais: 25 tinham 10% de minorias nacionais; outros 25, entre 11% e 25%; 31, entre 26% e 50%; 39, com mais de 50% .

 

Existem, com efeito, os sinais mais contraditórios nesta relação. Num primeiro grupo, elencaremos nacionalismos que, invocando a existência de nações, integradas em Estados plurinacionais, querem, pela via separatista, desintegrar aqueles e construir novos.

 

Num segundo grupo, referiremos nacionalismos que, invocando nações dispersas por vários Estados, procuram construir novos Estados. E aqui seremos obrigados a distinguir os nacionalismos que pretendem unificar vários Estados num só Estado, dos que apenas pretendem juntar várias parcelas de Estados num novo Estado, mantendo os anteriores.

 

Num terceiro grupo, incluiremos os nacionalismos que procuram transformar-se em supranacionalismos (o pan-eslavismo e o panarabismo). Não deixa até de existir o grupo dos nacionalismos sem nação que querem construir nações.

 

É este o nosso tempo, dito, por certa ideologia, como de fim da história. É este o nosso tempo de encruzilhada, onde predomina a teokrasia ou a mistura de deuses, de deuses e diabos, de anjos e de fantasmas que libertaram, das prisões racionais-normativas, os subversivos génios invisíveis da cidade.

 

Diremos, a respeito das relações históricas entre o Estado e a nação, que se há nações que foram criadas por Estados, também há nações que criaram Estados. Até poderemos acrescentar, noutra perspectiva, que não faltam Estados que são, ou foram prisões de nações, ao lado de outros Estados que se assumiram como formas de libertação nacional.

 

Se alguns autores, como Carl J. Friedrich, consideram que a nação e o Estado constituem dois irmãos siameses e outros falam numa identidade entre o Estado e a nação, há também quem estabeleça entre as duas entidades, uma relação de progenitura, dizendo que é o Estado que cria a nação ou o inverso. Se o contra-revolucionário Joseph de Maistre salientava que a nação deve mais ao soberano que o soberano à nação , também Bertrand de Jouvenel dizia que foi o rei e o trono que construiram as nações: tornámo-nos compatriotas como fiéis de uma mesma pessoa, de um rei que acumulou títulos porque, sendo senhor de povos distintos, precisava de assumir relativamente a cada um aspecto que lhe fosse familiar. Assim, ele foi o destruidor da República dos conquistadores e o construtor da nação, transformando elementos dispersos, que apenas constituíam um agregado de uma societas e que, depois, integraram um todo.

 

De facto, entre os séculos XVI e XVIII, com o Estado Moderno, o soberano exerceu o poder, unidimensionalizando todos os habitantes de um território demarcado por fronteiras, contrariamente ao que acontecia na poliarquia medieval, onde o poder do centro político assentava, sobretudo, numa variedade de pactos. Mas este Estado da monarquia absoluta, com um príncipe territorial, a lutar contra o universalismo, do Império e do Papado, e contra os particularismos, ou as poliarquias, do feudalismo e do comunalismo, se, nalguns casos, se transformou em Estado-nação, noutros não passou de simples Estado-administração, ou de um Estado sem nação, marcado pela mera lealdade a uma dinastia e sem qualquer nação susceptível de suportar a unidade do Estado.  Neste último caso, o Estado aparecia como protector das minorias nacionais, como o rei medieval o fora, principalmente para os judeus, colocados sob a sua directa protecção. Da mesma forma como o Império Romano fizera relativamente aos vários estatutos particulares de alguns povos, que, apesar de dependentes, mantinham a autonomia dos respectivos direitos e das respectivas justiças.

 

Os autores de cepa hegeliana, por seu turno, consideram que há uma identidade entre a nação e o Estado, nomeadamente quando declaram que o Estado é a nação politicamente organizada. Felice Battaglia, por exemplo, considera que se a nação cria o Estado, o Estado cria a nação. A nação, longe de ser algo distinto do Estado, é ela mesma vontade de Estado, preparando o Estado ou concedendo-lhe o sentido mais exacto do seu ser com a individualização concreta do complexo humano que o constitui.  E nisto estes autores neohegelianos têm algum fundo de verdade dado que raro é o movimento nacionalista conformado com o que está, com o status. Mais do que conservar, quer tradicionalizar, isto é, reformar o presente, recuperando o passado, de forma repristinatória, utilizando pretéritos elementos míticos para justificar o presente e movimentar o futuro.

 

Uma conclusão que podemos retirar do emaranhado de ideologias que enumerámos é que o conceito de nação varia conforme o tempo, o espaço e a unidade política que o pretende invocar. Na realidade, cada nacionalismo é sempre marcado pelos mais variados paradigmas, conforme as circunstâncias. Conforme as palavras de Israel Zangwell, o nacionalismo é um estado de espírito, a que corresponde um facto político.

 

Todos tendem para o futuro e todos tentam acreditar numa idade de ouro passada, procurando restaurar uns quaisquer anos de glória que teriam, outrora, acontecido. E lá vão falando no passado ou no presente de acordo com as conveniências dos fins, ora dizendo, de forma conformista, que a história é que faz a nação, ora replicando que é a nação que faz a história.

 

De facto, o nacionalismo tanto pode invocar o passado, o regresso às origens com o respectivo culto pela tradição, como provocar um construtivismo progressista e reformador. Tanto pode iluminar conservadores como revolucionários; tanto pode ser liberal como autoritarista; tanto pode pugnar pelo centralismo como pela descentralização.

 

Os fins da unidade nacional justificam, com efeito, todos os meios e instrumentos ideológicos, pelo que, neste sentido, o romantismo nacionalista, neste sentido, também é, paradoxalmente, maquiavélico.

 

Mesmo, a nível português, eis que, em nome do nacionalismo, tanto se defendeu o Portugal do Minho a Timor, pluricultural e pluri‑racial, como agora se defende um Portugal uniformemente cultural, sem minorias nacionais.

 

O nacionalismo foi defendido por idealistas e racionalistas, por românticos e utilitaristas, por individualistas e culturalistas. Os franceses napoleónicos influenciaram o discurso nacionalista de Fichte; mas é também o romantismo alemão que vai, depois, dar alento ao nacionalismo místico francês; os portugueses nacionalistas provocaram os movimentos de libertação angolanos, tal como os romanos acirraram a identidade dos lusitanos e os jesuítas filipinos fomentaram as conspirações dos manuelinhos de Évora e coleccionaram argumentos que vão, depois, ser brandidos pelos juristas da restauração.

 

O conceito de nação situa‑se, com efeito, na zona de fronteira entre a história e a poesia. Uma história concebida como o género literário mais próximo da ficção, como, noutro contexto, referia Armindo Monteiro, ou uma poesia mais filosófica que a história, conforme as palavras de Aristóteles. O tal quanto mais poético, mais real de Novalis, porque são os poetas que movem os povos, segundo José António Primo de Rivera.

 

Temos de reconhecer que se o homem é razão e vontade, também não deixa de ser imaginação. Que ao lado das duas potências da alma inventariadas por Platão, a ratio e a voluntas, tem também que colocar‑se uma terceira: o mito. O homem não é apenas animal rationale et politicum, é também animal symbolicum.

 

Se a poesia, como assinala Alain, é a reunião de todas as potências do homem, assim a nação é a polis que procura copiar o homem, tentando roubar‑lhe a imaginação e provocar a mobilização de todas as potencialidades do animal social e político, ao acrescentar‑lhe as asas do simbólico.

 

A nação é, pois, uma manifestação dessa terceira dimensão da sociabilidade. Mas porque é um sonho de futuro partilhado (Georges Burdeau), há tantos conceitos de nação quantos os sonhos desses diversos povos nacionais. E mesmo cada povo nacional vai variando de sonho conforme os respectivos instintos de legítima defesa. Ora, é nessa variedade, feita à imagem e semelhança da própria personalidade humana, que se encontra o essencial da respectiva universalidade.

 

Com efeito, só existe uma nação quando um qualquer povo atinge a dimensão de entidade impossível de repetir‑se. É que, como assinala François Perroux, os espíritos nacionais distinguem‑se uns dos outros conforme a representação que fazem de si mesmos. O mito, como dizia o nosso Fernando Pessoa, é um nada que é tudo.

 

Como cada nação é sempre um grupo humano mais a sua circunstância, que tanto encara mitologicamente o respectivo nascimento e crescimento, como visiona poeticamente o seu futuro, eis que se torna absolutamente impossível capturar racionalmente um conceito geral e abstracto de nação, válido para qualquer espaço e para qualquer tempo.

 

Os ensaios jurídicos, politológicos e filosóficos que tentam aprisionar o conceito de nação são, portanto, normalmente inconsequentes quanto à obtenção de um conceito intemporal e universal de nação, válido para qualquer espaço e para qualquer tempo.

 

Cada nação é sempre um determinado grupo humano na sua circunstância política, onde confluem as três unidades do tempo em dialéctica, ora se encarando as origens de forma mitológica, ora perspectivando-se o futuro, de forma sonhadora.

 

 

Fev 28

Nacionalistas, mas pouco patriotas…

O mundo das universidades portuguesas que, muitas vezes, não se confunde com a ideia de universidade, vive dias intensos de mudança, com a tomada de posse do novo reitor-primaz, Seabra Santos, de Coimbra, que defende a necessidade de manter a universidade pública e inclusiva, enquanto escola de cultura e de cidadania, bem como o reforço da autonomia universitária, mutuamente responsabilizante: com prestação de contas por parte das instituições, mas acompanhada pela transferência do financiamento devido pelo Estado.

Por outras palavras, o tal Conselho de Reitores, apesar de continuar a ser engenheiralmente presidido, ameaça transformar-se num contrapoder face ao conformismo gaguista, nesta fase pós-veiga-simonista-maputiana da sua curta existência. Porque toda a inside information que nos chega aponta o apoiado por António Avelãs dos Nunes como o mais conservador dos reitores, ao mesmo tempo que é o mais próximo de Jerónimo de Sousa, sem qualquer paradoxo, face ao progressismo da literatura de justificação do situacionismo.

Aliás, quase todos os que circulam neste pequeno mundo observam a atitude que vai tomar o senhor ministro face a uma das mais engenheirais e british das ditas privadas, instituição que o Primeiro-Ministro bem conhece e sobre cujos meandros deve ter uma informação convicta e experimentada. Segundo consta, as parangonas recentemente geradas por palavras como gatunos, roubos e vigarices podem vir a afectar a boa intenção da criação de uma universidade dita europeia que, agregando três cadáveres adiados, parecia poder ser procriada pela engenharia de influências, com cunhas à mistura, que alguns partidocratas iriam lançar, em ligação a uma grande instituição universitária dos States, especialista em terceiromundismos.

Já na nossa dita pública, com amplos sinais de novas privatizações devoristas, outros jotas e outros betas, congregados em lista única de meia dúzia de hierarcas, dita AZ, para abranger tudo, onde todo o mundo não passa de ninguém, vão parodiando o conceito de gestão democrática, com ilustres democratas a não perceberem que o manto diáfano da legalidade pode não corresponder à verdade da legitimidade. Aconselhamos que releiam os discursos do ex-venerando Chefe de Estado depois das últimas eleições marcelistas de Outubro de 1973, a que não compareceu a oposição, quando esta nem dava ao situacionismo a mera categoria de oponível, porque um quarto de hora antes de morrer ainda estava vivo.

Há coisas que têm muita identidade e pouca memória. Espreitem-se algumas das bocas que anunciam o estudo da rede de pesquisa International Social Survey Programme, que em Portugal está integrado no programa Atitudes Sociais dos Portugueses, do ICS. Os portugueses engrandecem o passado na mesma medida em que desprezam o presente. Estão pessimistas, desconfiados. E, nas “médias de patriotismo”, numa escala de 1 a 4, Portugal fixa-se nos 2,14, contra 2,71 de média na União Europeia. Mas cerca de 92 por cento de portugueses dizem sentir orgulho na história do país. Em 42 países auscultados no âmbito desta investigação, é uma percentagem só ultrapassada nos Estados Unidos e na Venezuela. E, surpresa, os portugueses sentem-se mais orgulhosos com as suas artes e literatura do que os nacionais de países como a Irlanda, os EUA ou a Rússia.

Por outras palavras, estamos cada vez mais próximos do mundo de Bush e de Chávez, sem a sociedade civil do primeiro e sem o petróleo do segundo, mergulhados num passadismo esquizofrénico, alheio ao presente, porque nos faltam saudades de futuro. Daí o regresso ao encanto por Salazar, neste desespero por cacetes e déspotas, a que, muitas vezes, damos o nome micro-autoritário do senhor director, especialmente quando ele é brasonado e se veste num alfaiate de finórios, porque sempre podemos, muito freudianamente, fazer uma dessas viagens autistas, entre os vapores da ressaca, mesmo que, no day after, acordemos com a boca a saber a papel de música…

Basta saber ler a lei do cherne, onde o Barroso anda a fazer campanha para ir desta para melhor, deixando-nos o rigor de Santana e os belos fatos de Portas, enquanto o Sampaio vai consultando constitucionalistas sobre o momento exacto da intervenção externa naquele universo onde, depois de frémitos ingentes, a montanha costuma parir ratinhos…

Fev 27

A história continua a ser o género literário mais próximo da ficção

No dia em que se anuncia novo filme sobre Maria Madalena e uma caixa tumular, onde o realizador do “Titanic” pretende ganhar dinheiro, afundando um pilar da crinstandade, reparo que as universidades privadas lusitanas continuam a produzir guiões para tragicomédias, antecipando muito do que vai suceder nas universidades ditas públicas, dado que, também nestas, continuam edificantes cenas do mesmo género, onde a história continua a ser o género literário mais próximo da ficção.

Não posso comentar a relação entre o espectáculo televisivo e os efectivos meandros da realidade, dado que não conheço o texto, o pretexto e o contexto do mais recente episódio, mas seria bem esclarecedor que os senhores jornalistas fizessem um trabalho de casa de levantamento da lista dos docentes de todas as instituições do género, bem como dos sócios das entidades em causa, anotando, menos os filhos, sobrinhos e primos dos donos do poder, e mais os ilustres políticos da partidocracia que nas mesmas dizem dar aulas ou, nas mesmas, se licenciaram, mestraram ou doutoraram.

Seria também interessante que determinassem os sócios e financiadores das coisas em “U”, com especial destaque para os patos bravos e os negócios imobiliários que com elas coincidem, antes de entrarem em eventuais teorias da conspiração e triangulações de política externa.

Acrescentem ao processo os contornos de anteriores cisões universitárias, desde que a velha Universidade Livre explodiu, procurando ligações a antigas e actuais direcções de entidades bancárias, começando pelo concelho de Lisboa, dando um salto a Loures e fazendo breve pregrinação por Oeiras e pelas ribas da ribeira do Jamor, junto à estrada onde os malhados fizeram estatelar o infante D. Miguel, quando ele corria de Queluz para Caxias.

Um delicioso drama camiliano está espera de telenovela sobre as vaidades lusitanas do “sotôr” e o eterno situacionismo dos partidocratas e bancoburocratas, com cumplicidades de pato bravo.