Jan 26

Toda a solidariedade para Pedro Guedes e Ana Gomes!

Portugal precisa, cada vez mais, de gente que goste de viver como pensa, que tenha a coragem de estar em minoria e que assuma causas, mesmo que sejam causas contra as quais eu possa estar. Reparo hoje que uma senhora deputada do Bloco de Esquerda, ao melhor estilo dos moscas do intendente e dos caça-comunas e caça-fascistas, veio atirar para o pelourinho o meu querido Pedro Guedes e o seu blogue belenense, só porque ele se assumiu como seu, e meu, opositor na causa da IVG. Em nome da memória do teu avô, assistente de Abel Salazar, e do sonho sempre presente da tua mãe Fernanda, quero dizer-te, Pedro, que estou contigo, para que possas continuar a defender os teus princípios, mesmo quando eles contrários aos meus.

Outra pessoa que está pelourinho, é a senhora embaixadora Ana Gomes, empenhada que está numa causa onde eu confio mais nela do que no deputado José Luís Arnaut, embora, neste campo, tenha de apoiar o ministro Luís Amado. Julgo que Portugal bem precisa de inconformistas como ela, temendo que, por esta razão, ela seja punida na próxima escolha de candidatos a deputados pelo respectivo directório partidário. Por mim, confesso que devia haver mais pessoas com esta energia, especialmente nas chamadas comissões parlamentares de inquérito.

Curiosamente, estes dois pelourinhados são activistas da blogosfera e quem por aqui navega não precisa de denúncias para saber o que esses dois navegadores pensam e defendem. Por mim, que tenho a honra de ser referenciado e de referenciar os blogues dos dois, apenas desejo que, na grande política, se estabeleça esta vivacidade não censurada do mundo da “internet”. Tanto não admito que o poder estabelecido e as conveniências governamentais e parlamentares atirem para o campo da dissidência a senhora embaixadora, como gostaria que em Portugal pudesse haver uma liberdade de organização de forças políticas equivalente à própria liberdade de expressão.

Se, por exemplo, existirem inequívocos neofascistas, como ele se expressam na blogosfera, eles devem poder constituir-se em organizações políticas expressamente neofascistas, tal como acontece com a coincidência que há entre a liberdade de expressão de pensamento da esquerda revolucionária e a respectiva liberdade de organização. De outra maneira, poderemos correr o risco de ter militantes da extrema-esquerda a organizar processos contra militantes de extrema-direita e a consequente hipocrisia vigente, onde aparecem neofascitas a reclamar-se como a direita autêntica, esquecendo ambos que nenhum adepto de ditaduras, autoritarismos e totalitarismos alguma vez admitiu que houvesse partes ou partidos e, consequentemente, direitas ou esquerdas.

Basta assinalar que nunca um Salazar, um Hitler ou um Estaline se qualificaram como da direita ou da esquerda, admitindo, contra eles, com os mesmos meios, opositores de esquerda ou de direita. Eles sempre disseram que eram o “todo” e nunca admitiram que eram “partidos” ou “parcelas”.

É por isso que me revolto contra estes sinais de intolerância de que estão sendo vítimas Pedro Guedes e Ana Gomes. A actual democracia pluralista tem a vantagem de ter sido gerada no pós guerra por governações dominadas pelos dois principais inimigos do demoliberalismo no século XIX. De um lado, os democratas-cristão, herdeiros de uma militância eclesiástica que, até à “Rerum Novarum” de 1891, era inimiga da democracia. Do outro, os sociais-democratas que, até ao revisionismo de Bernstein, eram incompatíveis com o jogo parlamentar.

Curiosamente, nos finais do século XX, a democracia pluralista transformou antigos marxistas-leninistas sovietistas em pós-comunistas à italiana e à Europa Central e do Leste, bem como antigos neofascistas italianos em ministros da democracia e do europeísmo, tal como, entre nós, antigos cunhalistas, salazaristas, udps e mrpps andam por aí, e muito bem, como ministros, deputados e líderes partidários, convictos e coerentes sacerdotes do Estado de Direito e do pluralismo. E ainda bem…

Jan 25

Breves notas de contrição ao correr da tecla…

Reparei hoje que, na “net”, sou objecto de barrocas qualificações gostosamente críticas, onde alguns me apontam o defeito de “ficar em águas de bacalhau” e de outros, às vezes, os mesmos, me elogiarem como “um liberal à antiga”, embora parcos me qualifiquem de forma mais demonizante, onde não escapo ao tradicional “fascista”, bem como às liberdades literárias dos magnicidas que continuam a pelourinhar este “mindeleiro” como perigoso “miguelista”, para não falar dos que me acusam de ser mais antivida do que os comunistas. Agradeço o não-indiferentismo. Contudo, porque fiquei sem saber o significado da primeira expressão sobre o elemento hídrico dito do que já foi o fiel amigo, carreguei no ciberdúvidas “on line” e acabei por concluir que nem os sábios da língua se entendem, porque uns falam na água com que se demolha o bacalhau, a que não serve para nada, e outros nas águas da Terra Nova, onde os bacalhaus se pescavam e os bacalhoeiros se perdiam. Agradeço a metáfora que ela própria dá em aquíferas bacalhoas. Notei também que certos clericais militantes da velha e da nova direita declaram categoricamente que perderam todas as afinidades que julgavam ter comigo, por causa da posição que sempre assumi, agora e antes, sobre a IVG, enquanto outros, pouco dados a alegorias, me desdenham carinhosamente, como o sujeito das bocas sobre o “quinto império”. Isto é, eu, assumido pescador destas navegações que dão sempre em nada, lá descobri que era permanecente a minha vocação para o nevoeiro e os naufrágios. Mas, olhando para os breves adjectivos de paradoxal coerência, com que procuro definir-me, aqui na coluna da esquerda, e lá em cima, bem no centro excêntrico, no começo deste blogue, julgo não andar longe do caminho que vou caminhando, com o tradicional “humor merancórico” e a compensadora verrina das ferroadas e bicadas com que me indigno. Logo, tenho de prometer que continuarei a navegar, mui salgadamente, à procura do sítio donde vêm as manhãs de bruma, onde a santa liberdade continua a querer subverter as santas alianças, sempre para vir a descobrir se, nesse mais além, consigo mesmo olhar o sol de frente…

Jan 25

Partitocracia, Cancrena dello Stato

Portugal continua a ser marcado pelo conjunto d’os compadres e as comadres que constituem o país legal, como dizia Alexandre Herculano. Com efeito, do país da realidade, vem a constante da indiferença que, vez em quando, explode em revolta populista ou em apoio a césares de multidões, isto é, a experiências de poder pessoal, onde o carismático e o messiânico se aliam. Já no século XVI, por exemplo, quando nos podíamos ter transformado na primeira potência capitalista da Europa, preferimos ceder à mentalidade castelhana, expulsámos os judeus e, ao cheiro da canela, acirrámos um capitalismo de Estado que beneficiou fundamentalmente o negocismo de certos cortesãos. Entretanto perdeu-se o sentido do anterior comunitarismo e a própria lógica de Estado que comandou o processo da expansão. Mais tarde, a revolução liberal, vitoriosa em 1834, preferiu substituir o frade do antigo regime pelo barão devorista. É a época da venda em hasta pública dos bens nacionais e da energência de uma nova classe política que gera uma nova aristocracia social, marcada pelo barão usurariamente revolucionário e revolucionariamente usurário, segundo as palavras do desiludido Garrett. Depois do interregno setembrista, o cabralismo fez acrescentar a este baronato financeiro e fundiário, a nova classe dos burocratas, todo um clientelismo estatizante que vai degenerar naquilo que Oliveira Martins qualificou como o comunismo burocrático: burocracia, riqueza, exército: eis os três pontos de apoio da doutrina; centralização, oligarquia; eis o seu processo. A Regeneração também não passou de mais um capitalismo de Estado que, em vez de instaurar a liberdade económica, cedeu ao proteccionismo e a privilégio. Com efeito, o nosso liberalismo regenerador veio apenas agravar o peso morto da estatização, proibindo a livre associação da sociedade civil, muito especialmente das estruturas sócio-profissionais. O mal baronal é típico de todas as oligarquias patidárias geradas à boleia do poder, mantendo zonas de encomendação ou grupos de amigos, relativamente aos grupos dominantes do situacionismo anterior. Em todas estas situações sempre a mesma tendência neofeudal de alguém económica, social ou politicamente enfraquecido se colocar sob a protecção de uma certa personalidade ou de um determinado grupo, bem colocados que, a troco de fidelidade, lhe vão dar emprego estável, a avença compensatória, a facilidade burocrática ou o acesso a círculos íntimos do poder económico, social ou político. É toda uma teia de aristocracias semiclandestinas em que os nossos regimes se têm enredado que, sem atingir as dimensões dos mafiosos padrinhos ou dos mafiomaçónicos polvos, eleva a tradicional cunha aos requintes da tecno-estrutura. Enquanto isto, a maioria do país da realidade tanto adopta a esperança do sapateiro de Braga (ou há moralidade, ou comem todos) como se torna indiferente, caindo, o primeiro, no engodo sensacionalista e distanciando-se, o segundo, dos reais problemas da coisa pública, dado que apenas é chamado a participar nos banhos de multidão do folclore eleitoral. Não há estados de graça que sempre durem nem pecados que nunca acabem… Apesar das muitas revoluções que nos aconteceram, Portugal político continua a ser Lisboa, onde o resto é paisagem, onde se fazem campanhas eleitorais e para onde se emitem telejornais, apenas com uma pequena cedência à tradicional autonomia do burgo portuense, quando este tenta imitar Lisboa e se assume como a capital do Norte, como se expressa na caricatura da futebolítica, onde algumas lideranças dos dragões, como se chama ao Futebol Clube do Porto, chamam mouros aos da capital e cantam o querer ver Lisboa a arder, num frenesim bairrista que, muitos, confundem com regionalização, quando invocam os paralelismos vocabulares de alguns líderes históricos das ilhas atânticas que, aos continentais, chamam cubanos. Aliás, o bairrismo vem do árabe barri, o mesmo que terra, e, depois, passou a qualificar uma das partes em que se divide uma cidade. Significa parcialidade, tendência para se sobrevalorizarem as características de uma das divisões de um todo político ou administrativo. A política portuguesa persiste em viver no círculo vicioso de um pequeno grupo populacional. Mesmo nestes primeiros anos do milénio, se poderá haver cerca de cem mil formais filiados em partidos políticos, eis que este universo gera apenas pouco mais de cinco mil militantes activos que costumam participar em congressos partidários. Contudo, mesmo estes são devidamente enquadrados por um escasso milhar de dirigentes ou potenciais dirigentes políticos, os quais constituem o núcleo duro da chamada classe política. A política portuguesa persiste assim em ser marcada por este desvio oligárquico da partidocracia, onde predomina a lei do baronato, zona onde se recrutam os deputados, os ministros e todos os que, graças à vitória eleitoral do respectivo partido, podem invocar o esforço militante para passarem a viver à mesa do orçamento, sem necessidade de mais curriculum. Citando Lorenzo Caboara, em Partitocracia Cancrena dello Stato, Roma, Volpe, 1975, podemos dizer que, neste modelo, a soberania já não reside no povo, dado ter passado para as mãos dos partidos políticos que a exercem através dos seus órgãos e das suas administrações próprias. Se o mal não é tipicamente português nem exclusivo do nosso tempo, o facto de alguns nos terem continuado a qualificar como uma jovem democracia, onde existiu, durante cerca de uma década, a maioria absoluta de um só partido, e ainda por cima do partido que há mais tempo estava no governo, tudo isso contribui para agravar o distanciamento do país político face ao país real. O Portugal político, traumatizado pelas memórias contraditórias do autoritarismo e do revolucionarismo, constitui, na verdade, um terreno fértil para o dessangramento da democracia pluralista.

Jan 24

Anomia: ou os governantes que parecem governados, os juízes que se sentem julgados, os professores que temem os discípulos e o diabo feito deus

Dizia ontem, a uma jornalista do “JN”, ao ser interrogado sobre o presente debate sobre a IVG, que a coisa não estava serena, pois “criou-se uma confusão enorme entre a moral e o Direito” com “a interferência da religião na política”, assim se reflectindo “o estado de anomia”. O relato da breve conversa saiu hoje, embora os pouco habituados à terminologia durkheimiana possam ir ao dicionário confirmar que a anomia é essa situação social onde não existem mais leis ou regras ou, se existem, são confusas, contraditórias ou então ineficazes. Logo, se o grupo permanece não há mais qualquer solidariedade entre os indivíduos que perdem os sistemas de apoio e os pontos de referência.

Jan 23

Há uma razão humana que governa todos os povos da terra

Continuo a ouvir, ver e ler perlengas bispais sobre a IVG como pena capital, as quais constituem uma espécie de caricatural fuga ao que deviam ser os tempos de antena da campanha do “sim”. Dou assim razão a Bergson, para quem o homem é um animal que sabe rir, porque não há nada de cómico fora do que é propriamente humano. É que o cómico nasce quando os homens reunidos em grupo voltam a sua atenção para um deles, calando a sua sensibilidade e exercendo só a sua inteligência.

Portanto, sobre a matéria, quase me apetece citar José Ortega y Gasset, o tal espanhol que, desde 1942 até à data da sua morte, sempre se disse “residente em Lisboa” (no nº 10 da Avenida 5 de Outubro, diga-se), para quem quando a paixão invade as multidões, é crime de lesa-pensamento o pensador falar. Porque para falar tem que mentir. E o homem que aparece antes de mais entregue ao exercício intelectual não tem o direito de mentir. Acontece apenas que, de vez em quando, há que seguir outro dito do mesmo mestre: reivindico inteiramente o direito de me manifestar tal como sou. Ingresso na política, mas sem abandonar um átomo da minha substância… Reclamo o pleno direito de se fazer uma política poética, filosófica, cordial e alegre. Outra coisa seria coarctar-me injustamente.

Daí que me apeteça sublinhar que nunca foram os prelados que levaram à abolição da pena de morte em Portugal. Estavam presos demais aos autos de fé e ao caceteirismo do partido do Ramalhão, e não consta que, entre os dogmas, tivessem o princípio de abolição de coisas como a escravatura ou a pena de morte. E não mentirei se sublinhar que tais conquistas se devem a famílias humanistas daquela parcela do Ocidente que, mergulhando nas profundidades do estoicismo greco-romano e nas irmandades medievais, faziam parte daquela corrente que vai de Beccaria a Ortega y Gasset, misturando Locke, Montesquieu e Kant.

Os senhores bispos são ilustres representantes de um legado político-cultural humanista e libertador, mas dele não têm o monopólio. E não convém que atirem pedradas aos telhados e janelas dos outros, porque basta chegarem a casa e achar as suas quebradas. Quem aboliu a pena de morte em Portugal para crimes políticos foi o Acto Adicional à Carta, de 1852, obra da Regeneração e dos ilustres seguidores e companheiros de valores de Alexandre Herculano, o tal eu que se opôs às circunstâncias do então clero. Quem a aboliu na generalidade para todos os crimes foi o acto legislativo de 1 de Julho de 1867, o da fusão liberal, dos companheiros de valores de Vicente Ferrer de Neto Paiva e António Luís de Seabra.

Diremos, a este respeito, que os indivíduos só começaram a ser vistos como sujeitos activos a partir do século XII, com o desenvolvimento da Escola dos Glosadores e com o proto-individualismo franciscano. Só a partir de então é que a teoria e a prática começaram a distinguir-nos do grupo, principalmente quando se iniciou o processo de conquista da primeira das liberdades: o direito à segurança, o direito de cada um à apropriação do seu próprio corpo. Porque até então havia um poder do todo sobre o corpo de cada um, havia o ius vitae necisque, um poder de vida ou de morte, que o paterfamilias havia transmitido ao princeps.

Foi então que começámos a deixar de ser escravos, quando nos passámos a distinguir das coisas. Quando o homem passou a ser mais que um simples ter e, por isso, não pôde continuar a ser um simples tido. Quando o homem passou a exigir um direito penal humanista, onde a definição dos crimes deixou de ser retroactiva, onde o processo proibiu a tortura, onde as penas cruéis foram abolidas e a própria pena de morte começou a ser posta em causa. Quando os homens começaram a ser humanos, pensados à imagem e semelhança de um Deus em figura humana.

Até porque importa recordar, conforme as palavras de Battaglia, que não existe nenhuma grande conquista da humanidade no sentido da liberdade e do progresso, que se não ligue ao nome de um filósofo do direito.

Da extinção da escravatura à abolição da pena de morte, da igualdade de oportunidades entre pessoas de sexo ou etnias diferentes, à aplicabilidade política de um conceito de cidadania activa – com uma igualdade entendida não apenas como igualdade da lei ou perante a lei, mas antes como igualdade pela lei, isto é, como igualdade de oportunidades, como igualdade perspectivada com o sal da liberdade, da justiça e da solidariedade –, é todo um secular processo de luta pelo direito como dever-ser que, muitas vezes, tem de assumir-se contra o direito que está posto na cidade.

Como salienta Metz, a dinâmica essencial da História é a memória do sofrimento, como consciência negativa de liberdade futura e como estimulante para agir, no horizonte desta liberdade, de modo a superar o sofrimento. Uma memória do sofrimento que força a olhar para o “theatrum mundi” não só a partir do ponto de vista dos bem-sucedidos e arrivistas mas também do ponto de vista dos vencidos e das vítimas.

 

Determinar qual o além do direito tem sido, aliás, constante tarefa dos que pensam o direito. Desse direito, conforme a definição de lei dada por São Tomás de Aquino, como uma ordem elaborada pela razão tendo em vista o bem comum e promulgada por aquele que tem o encargo da comunidade. Dessa lei que, conforme Montesquieu, tem de ser a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. Desse direito que se é verdade além dos Pirinéus não pode ser mentira aquém ou além de qualquer barreira geográfica ou mítica

Somos portugueses, pensamo‑nos portugueses, ensimesmando uma história que também foi precoce na consideração do homem como sujeito, no sentido vincadamente existencial de dono do seu próprio corpo, tanto na abolição da escravatura como na abolição da pena de morte.

Por mim, quero retomar o estoicismo romano de Cícero, para quem, das leis, todos somos escravos, para que possamos ser livres (legibus omnes servi sumus, ut liberi esse possimus). Para bons compreendedores, meias palavras bastam. Releiam os trabalhos de Eduardo Correia e Guilherme Braga da Cruz, no centenário da abolição. Ambos sabiam que a nossa tradição humanista sempre juntou o humanismo laico ao humanismo cristão. E não consta que o segundo, consolidado católico tradicionalista, tenha saneado da história o patriotismo iluminista, o patriotismo liberal e o patriotismo republicano. Nem todos os que não seguem a sacristia têm de ser da cavalariça.

Jan 23

António Henrique de Oliveira Marques

Faleceu esta noite mais uma das pedras vivas de Portugal. Chamava-se António Henrique de Oliveira Marques, um professor catedrático que antes de o ser já o merecera. Tal como o seu inspirador em valores, de cem anos antes, deu origem a uma nova época, a partir da qual pode acontecer a redescoberta de um silenciado Portugal liberal e republicano. Daí que seja justo salientar que, depois do mestre, surgiu uma nova história do Portugal Contemporâneo, um renovado espírito que nos pode ajudar a refundar e a reinventar a pátria comum. Por mim, mais próximo dos valores do Portugal liberal que do Portugal republicano, mas continuando a militar no partido de Alexandre Herculano, tenho o orgulho de poder dizer que o conheci como meu coordenador no volume referente ao século XVI, onde tive a plena liberdade de procurar caminhos que nalguns segmentos contrariavam a interpretação que ele fazia dos mesmos factos. Mas foi dessa minha íntima divergência que nasceu uma convergência de passado e de futuro, onde o lume da razão se juntou a certo lume da profecia, em nome de uma mais superior concepção do mundo e da vida, com a tradicional religação a Portugal e ao Mundo, pelos caminhos da liberdade. Por isso, apenas me apetece citar um dos últimos avisos do mestre, que bem descreve estes tempos de encruzilhada: Portugal está condenado como nação, porque perdeu valores colectivos que definem um povo, uma sociedade, uma moral, uma política… Mas para acrescentar que continua a valer a pena a regeneração do povo, da sociedade, da moral e da política, num processo onde a lição de Oliveira Marques tem que ser assumida. Até sempre!

Jan 22

O que pode ser tem muita força…ou a crise do direito

Ontem, no silêncio dos Jerónimos, por ocasião da missa de corpo presente, homenageava intimamente o falecido prudente Ruy Albuquerque, professor e advogado, que sempre resistiu na sua procura do eterno conceito de “opinião comum dos doutores”, desse consenso qualitativo entre os que pensam de forma racional e justa a eterna “arte do bom e do justo”, onde a dialéctica é superior à subsunção silogística destes técnicos sem sabedoria que por aí circulam, que, por “ignorantia” que não é “docta”, continuam a colocar os tribunais cada vez mais longe daquela comunidade viva, a qual deveriam servir, sem tantas contabilidades de jurisprudência dos conceitos e de jurisprudência dos interesses, num caldo de constitucionalismo jellinekiano, onde o transcendente não tem que ser o extrajurídico. Basta notar uma das consequências vivas dessa falta de “ratio studiorum” a nível dos estudos jurídicos que, neste momento, coincide com o principal líder da oposição, para quem o “sim” ao próximo referendo gera um” aborto provocado, fora os casos previstos na lei actual”, passando a ser “um acto arbitrário e injustificado que destrói um ser humano” e colocando tal prática a nível de outros crimes. Porque “é difícil combater corrupção e tráfico de droga, mas não os legalizamos”. Como se, depois de tal “sim”, não continuasse a existir crime de aborto. Recordando Ruy de Albuquerque, apenas noto o que outrora escrevi: aquilo que, para muitos, pode parecer poética ambiguidade ou erudita vaidade na pesquisa do interdisciplinar, constitui uma exigência íntima nascida da procura de uma ciência de princípios que rejeita as rupturas epistemológicas da chamada modernidade cientificista e deicida e não desdenha da especialidade em assuntos gerais. Nestes domínios, somos daqueles que gostariam de poder ser desafiados pela existência em Portugal não só de uma filosofia prática, capaz de fazer comunicar a moral, o direito, a política e a própria teologia, como também de metateorias propiciadoras de uma aliança metodológica entre as chamadas ciências da natureza e as chamadas ciências da cultura. Sentimos o apelo para a reconstrução de uma ciência da “polis” capaz de procurar o “bonum honestum”, essa união de esforços que, entre outras coisas, investigue a paz pelo direito , a moralização da política , o reencontro do homem com o kosmos, e, quiçá, a religação com Deus. O direito, a política e, consequentemente, a ciência jurídica e a ciência política são filhas de uma unitária ciência da polis mobilizada em torno de um valor supremo: a justiça. Assim, todos aqueles que procuram ser fiéis às raízes greco-latinas da liberdade europeia e se assumem como herdeiros tanto do humanismo cristão como do humanismo laico do ius publicum europeu, não podem deixar de cultivar esses terrenos de fronteira. O próprio Estado de Direito, quando proclama que o direito é o fundamento e o limite do poder, exprime essa necessária mobilização entre todos os que estudam os problemas do direito e do político e tendem a professar a deontologia justicialista que deles emana. Parafraseando Blandine Barret-Kriegel, podemos dizer que, em virtude da interpenetração entre o direito e a política, porque o direito quer juridificar a política e institucionalizar o poder, eis que o jurista encontra a política quando procura o direito, tal como o politólogo depara com o direito quando procura a política, pelo que urge pensar a política em termos de direito e descobrir que a mesma política é objecto do direito. Aliás, aquilo a que muitos hoje chamam direito era, na Grécia antiga, identificado com a política, isto é, que o poder organizado, numa boa sociedade, tem necessariamente de ser ordenado por um direito que seja superior ao poder. Acresce que talvez haja uma homologia entre o direito, a política e o próprio sagrado. Porque todos procuram uma ordem que os unifica, a ordo rerum, o kosmos. Norteia-nos, com efeito, aquela procura neoclássica que tenta decifrar o mistério das tais ordens que emergem de processos autoconstituintes residentes no interior da sociedade. No tal princípio da natureza das coisas, segundo o qual cada coisa possui a sua própria natureza, a tal virtude ou poder constituinte que tende a realizar-se em acto e a que pode chamar-se missão, se, para tanto, os agentes que dizem servir a instituição forem dotados de uma teoria que desvende a ideia de obra, de uma deontologia que os obrigue interiormente e de uma estratégia que os mobilize. O tal imanentismo de raiz aristotélica, desenvolvido pelo estoicismo greco-romano, pelo tomismo e pela neo-escolástica peninsular que certo jusracionalismo humanitarista semeou no chamado krausismo peninsular do século XIX, onde, pela via do intelectualismo maçónico, Wolff pôde reconciliar-se com Leão XIII. E que, hoje, continua a ser cultivado pelo movimento de regresso ao direito natural e pelos seguidores do princípio da autonomia dos sistemas complexos. Esses defensores da procura do quid permanecente que identifica a sucessão de ordens de complexidade crescente. Porque, utilizando uma linguagem teilhardiana, é possível dizer que a maior intensidade dos simultâneos sinais de divergência e de convergência, longe de se configurar como uma luta de contrários, com a vitória de um termo e a aniquilação do outro, numa reedição maniqueísta da luta do bem contra o mal, talvez aponte para a emergência de uma reforçada harmonia que continue a admitir a liberdade de vencermos o pretenso fim da história, mesmo que se chame pós-modernidade.

Jan 20

Entre vanguardas e correias de transmissão…

Dos milhões os portugueses que restam e que podem ser cidadãos activos no âmbito dos mecanismos da actual democracia representativa, constitucionalmente vigiada, o principal problema político está nas canalizações participativas e nos encenadores do palco mediático que censuram as notícias e estabelecem a agenda política. Os sucessivos filtros de controlo que se estabelecem entre o que foi a maioria silenciosa, ou silenciada, e a inevitável minoria gestora dos aparelhos de poder, são às vezes denunciados por meia dúzia de acasos que fazem com que os bestiais passem a bestas e os salvadores a meros salvados, expostos na tralha do ferro velho. Tal como há cerca de cem anos, para parafrasear Pessoa, em Portugal há apenas cinco por cento de monárquicos e cinco por cento de republicanos. Os restantes noventa por cento dependem das tais canalizações participativas e dos encenadores do palco mediático que censuram as notícias e estabelecem a agenda política. Antigamente chamavam, aos activistas, a vanguarda e até se teorizavam os conceitos de correias de transmissão. Hoje, a distância que vai do país das realidades ao país oficial já não se mede pelo conceito de ministro ou de funcionário público, mas antes pelos novos elementos de compra de poder, onde públicos e privados se confundem no regabofe. Entre sobreendividados e enfuracados, há dezenas de milhares de contas bancárias congeladas pelo fisco, neste processo de caloteiragem em curso, onde há transmissões em directo de penhora de antigos heróis mediáticos, enquanto discutimos se os embriões são pessoas humanas, como nega um bispo, com algum bom senso, contrariando a propaganda clerical que continua a insinuar que quem diz sim ao referendo é um adepto do aborto, enquanto o sargento de Torres Novas volta a colocar o problema das leis injustas e dos tribunais que, de silogismo em silogismo, não conseguem garantir aquela clássica hierarquia que põe, acima das leis positivas, tanto o direito como a justiça. Anda tudo trocado. A Igreja e as igrejas pedem que os tribunais, os polícias e as cadeias transformem as ordens normativas da moral e da religião em zonas protegidas pela coacção estadual, assim negando a autonomia da moral, enquanto ciência dos actos dos homens como indivíduos e o transcendente da religião que não pode continuar a situar-se no chanfalho do relaxamento ao braço secular. Os caloteiros e os corruptos brincam às dilações processuais e às evasões fiscais, com muitos garantismos hipócritas e dezenas de requerimentos ao abrigo do código do procedimento administrativo, para sucesso do emprego dos licenciados em leis e cânones, sem direito nem justiça . E a secção manhosa do povinho que acreditou nas patranhas do bacalhau a pataco e do enquanto o pau vai e vem folgam as costas ainda não se consciencializou que nesta quinta dos animais falantes somos todos iguais, mas há sempre alguns mais iguais do que outros. Continua a não haver moralidade e, depois desta interrupção, nem todos os mexilhões vão comer. O programa do sistema vai seguir dentro de momentos e é melhor continuar a jogar no Euromilhões.

Jan 19

Vira o disco e toca o mesmo…nestes ambientes de micro-autoritarismo subestatal

Desenganem-se, leitores não estimados, esses que não entendem o subliminar da ironia. Não sou mercenário de nenhuma laia, nem tenho suficiente “intelligence” para misturar alhos com bugalhos, como fazem os “bufos” de sempre, quando entram em autogestão e se entregam à venda a retalho dessas peças, num qualquer departamento do situacionismo de sempre. O tal que precisa do ódio para continuar o ritmo clássico do maquiavelismo de alcatifa, sempre a dividir para reinar, sempre a usar os jagunços para o trabalho sujo, sempre a aplicar a lei para os adversários e a dispensar dela os bons amigos e dependentes.  Mas não é só por haver doentes no mundo que a saúde deixa de ser um bem. Pode vencer quem não tem razão. Os maquiavélicos são aqueles que, parecendo ter razão a curto prazo, a perdem no médio e no longo prazos. Não acredito na lógica do homem de sucesso, o tal que utiliza a fraseologia da ética da responsabilidade, criticando os velhos do Restelo, para disfarçar a sua falta de ética de convicção. Por mim, continuo a seguir da “Virtuosa Benfeitoria” do Infante Dom Pedro e recordo-me sempre que os maquiavélicos se enganaram e o mestre só viu as suas principais obras publicadas depois de morto, nomeadamente a unificação italiana, que só ocorreu na segunda metade do século XIX. Os pretensos maquiavélicos, defensores da liberdade, nessa mistura de descupabilidades trotskistas e neofascistas, já embusharam todos e estão pendurados na corda que enforcou Saddam, mesmo que cantem o hossana nas alturas.

Jan 18

Um quarto de hora antes de morrer, o regime ainda fazia discursos

Hoje, a minha escola comemora o 101º aniversário do diploma legal que a instituiu. Era chefe de Estado o senhor D. Carlos e chefe do governo o senhor José Luciano de Castro Corte Real. Estávamos em monarquia, a dois anos do regicídio, e ainda havia um partido progressista. Um quarto de hora antes de morrer, o regime ainda estava bem. Vieram mais três regimes e a escola, apesar de vários diplomas que lhe decretaram o fim, ainda sobrevive, mesmo sem resistir, nem que seja submetendo-se para sobreviver, para que venha a hora de lutar, para continuar a viver. Nas escolas e nos países, já não há homens-lobos-dos-homens, mas antes homens-ratos-dos-homens, porque os lobos apenas defendem os respectivos territórios e não comem os da mesma espécie, como claudicam os que não andam de espinha de rectum. Por cá os ratos, vestidos de homens, invocam o transcendente sem imanente e fazem discursos, para que chorem as pedras das calçadas, lavam as mãos como Pilatos e mandam libertar o Barrabás, iludindo-se com muitos micro-autoritarismos subestatais. Como observava Américo Tomás, nas suas memórias, no primeiro dia do ano de 1974, tudo se passou como em iguais dias dos anos imediatamente anteriores… Estamos a referir-nos, evidentemente, àquele venerando chefe de Estado que iniciou, às 22 horas do dia 24 de Abril de 1974, a sua última visita oficial, à Feira das Indústrias, na Rua da Junqueira. Porque às 22 horas e 55 minutos transmite-se a senha para o desencadear do movimento através dos Emissores Associados de Lisboa: a canção de Paulo de Carvalho E depois do adeus. Porque às 0 horas e 25 minutos a Rádio Renascença emite a canção de José Afonso Grândola Vila Morena, senha confirmadora do movimento Apetecia inscrever-me no espírito do Pacto da Granja, participando, como membro dos reformistas na necessária aliança com os históricos, em nome da Maria da Fonte, do desembarque no Mindelo e do Sinédrio. Sempre gostei muito do Manifesto de Frei Francisco de São Luís de Dezembro de 1820. É por isso que estarei logo ao fim da tarde, mesmo sem poder estar presente, na Torre do Tombo, para saudar o Edmundo Pedro e os seus Combates pela Liberdade. A coisa já vem de Gonçalo Annes Bandarra que escreveu as trovas antes de D. Sebastião nascer. Por isso, meu caro amigo que, ontem, me aconselhavas a ter cuidado, quero confessar-te que há por aí alguns portugueses da antiga fibra, do antes quebrar que torcer, que ainda têm espinha e não têm medo. Melhor: que têm o cuidado de não ter o cálculo dos cuidadosos, esses que procuram, sempre, estar na fila da frente para saudarem os vencedores, batendo palmas, batendo latas. Aprendi a dizer o não do homem livre que tem a coragem de estar em minoria. A liberdade nasce sempre da memória do sofrimento e só o entende quem souber ler esta frase de Pessoa: “vencer é ser vencido”.