Depois da provocação do ex-comissário Vitorino, também me apetece continuar a fazer “ruído” sobre a Europa. Dizendo “sim” através do “não”. E repito que, como português, fiel às Cortes de Coimbra de 1385, às promessas traídas das Cortes de Tomar e à solução de autodeterminação pela vontade nacional concretizada no dia 1 de Dezembro de 1640, acredito na Europa como a república universal a que temos direito. Acredito na Europa da respublica christiana como o defendeu o humanismo cristão; acredito na Europa dos ius gentium como o defenderam os estóicos e o humanismo laico dos projectistas da paz. Acredito na Europa que os democratas-cristãos, os sociais-democratas, os conservadores reformistas e os liberais éticos começaram a reconstruir face às últimas tragédias do Leviathan e do Behemot, como as conhecemos na Segunda Guerra Mundial. Não tenho, portanto, medo da Europa. Não tenho o receio atávico de certo conservadorismo britânico, com medo da Invencível Armada. Não tenho complexos do cordão sanitário luterano, como certos nórdicos da Europa enriquecida continuam a alimentar, para não falar nalguns descendentes dos huguenotes franceses que por aí circulam com outros nomes. Julgo que o principal objectivo estratégico pelo qual os portugueses devem lutar é o da descolonização interna da Europa. Que todos façam, sem defenestrações, através da revolução do poder dos sem poder, o que nós praticámos em 1640. Mas sempre através de um conceito de casa comum europeia. Não me repugna, portanto, sacrificar o conceito absolutista de soberania ou a perspectiva geométrica de Estado moderno. Desde que se garantam os reinos, os povos e as nações; desde que se pratiquem as antiquíssimas virtudes da defensão e conservação das comunidades históricas. A União Europeia pode não tornar-se inimiga dos nacionalismos libertacionistas, como alguns europeístas herdeiros do iluminismo geométrico e construtivista andam por aí a proclamar de forma politiqueira. Julgo, pelo contrário, que nem sequer poderá haver autenticidade na construção europeia se a Europa não se assumir como nação das nações, com a consequente auto-determinação das nações proibidas por impérios e pan-nacionalismos europeus. O nacionalismo português, por exemplo, não é irmão gémeo do nacionalismo germânico ou francês. Nós que somos resistência a partir de uma separação, como podemos comparar-nos a nacionalismos que ainda são expansão de certos núcleos étnicos dominantes, através da supressão de certos direitos à secessão ou à diferença, num processo chamado de unificação? Comparar os lombardos com os franceses, os irlandeses com os defensores da Anschluss e os que queriam uma España una, grande y libre, de mar a mar, sin Portugal ni Gibraltar com os que sempre disseram que de Espanha, nem bom vento nem bom casamento, é o mesmo que colocar os nossos sebastianistas como emissários de Olivares ou continuar a dizer, muito estalianiamente, que o nacionalismo ucraniano era agente do nazismo.
Empregomania. Cunha .
Em Portugal, ter poder é, acima de tudo, ser medido pela eficácia de gestão da cunha a nível da empregomania. Para tanto, importa ter uma minuciosa rede de contactos entre a fauna dos gabinetes, poder movimentar a agenda da gente da jornalada, ter alguma simpatia no meio dos “opinion makers” e até ornar-se com as flores cheirosas de alguns académicos ou intelectuais, susceptíveis de avença e compra do elogio. Mas um influente a nível nacional só pode consagrar-se se conseguir prestar adequados serviços a dirigentes locais, especialmente se conseguir olear adequadamente as comunicações entre as ministerialidades e os autarcas, acelerando o despacho cimeiro através do telefonema certo no momento exacto. Não estamos, evidentemente, a falar nos consagrados “boys” que procuravam simples “jobs”, mas antes nos “oldmen”, na gente madura, mesmo misturada com certa fruta pôdre, especialmente nos privilegiados que podem ascender ao supremo sinal das companhias majestáticas, com “golden share”. Esses espaços de bailado por onde se passeia a malta do Bloco Central, nessas trocas e baldrocas das nomeações pelo discricionário do “jus imperii”. Antigamente poderiam ser as dez ou vinte famílias que controlavam a teia plutocrática, nacionalizada no 11 de Março, antes de serem indemnizadas pelo soarismo e pelo cavaquismo e se reconverterem de forma discreta, ao mesmo tempo que assistiam à emergência de novos grupos, já mais experimentados neste conúbio entre a consultadoria e a “pantouflage”. Porque, no século XXI, o Estado em Portugal ainda conserva algumas gaiolas douradas para certas pretensas elites, à semelhança do que acontecia com o Crédito Predial nos tempos do rotativismo, onde se sucediam os chefes regeneradores e progressistas, com Fontes Pereira de Melo a refugiar-se nesse supremo tacho, quando José Luciano passava a Presidente do Conselho, e com Hintze Ribeiro a suceder a Fontes na chefia do partido e no gozo do belo lugar. Claro que, hoje, a nossa pequenez já é um pouco mais abastada e também já está integrada na “network structure” das sociedades abertas da barganha. Chamar a este espaço de “boys” seria tão injusto quanto qualificá-lo como sítio de senatorialismos. Porque estes preferem fundações, afundações e avaliações, numa dança de “pantoufles”, perfeitamente legais, eventuais a-morais, mas politicamente censuráveis. A não ser que qualifiquemos tal processo como remuneração de imagem.
Eurocracia. Partidocracia. Subsidiocracia.
Critiquei particularmente a parcela tecno-burocrata do modelo codificador do estado a que chegámos na Europa, onde, à irreverência dos nobres criadores do projecto, sucedeu o cinzentismo dos gestores de obra feita e os privilégios dos fidalgotes. Porque foram os eurocratas, partidocratas e subsidiocratas que definiram o processo de audição convencionalista, através de um sistema de canalização da opinião pública onde acabou por funcionar o processo do macaco cego, surdo e mudo, desta ditadura de perguntadores. Acresce que se deu uma espécie de reciclagem do vanguardismo, agora barrigudo e arrependido. É ver ex-Maios 68, ex-MRPP e ex-PCP, todos passados para o outro lado da barricada e a quererem ditar, mais uma vez, a chamada via justa, quando decretam, de forma diabolizante e inquisitorial, que os do “não” não estão com a ordem, a justiça, o progresso e os amanhãs que cantam. E não é por acaso que Valéry Giscard d’Estaing é presidente do Instituto Auguste Comte, assim se compreendendo porque encabeçou esta procura de um código único para a pretensa “ordem e progresso”. Só que este construtivismo, vanguardista e codificacionista, deu com os burrinhos na água, quando pretendeu unidimensionalizar a complexidade europeia. O problema está menos neste ou naquele princípio da pretensa constituição, mas antes no método. Já não estamos no tempo dos movimentos de massas das elites dos congressos europeístas do pós-guerra. Nem na época da Europa confidencial e do método dito furtivo do federalismo sem dor, quando Monnet usava a porta das traseiras do grupo de pressão para se preparar o relance. O alargamento não gerou aprofundamento. A quantidade não foi acompanhada pela qualidade. O salto em frente mais uma vez não resultou, como sucedeu com o fracasso da CED (1954) e com os meandros da emergência do gaullismo (1958). A Europa, enquanto OPNI (objecto político não identificado), precisava deste desafio, para se quebrar o ciclo eurocrático e dos líderes com cara de plástico, bem como do domínio da federação dos impérios frustrados que se assumiam como a locomotiva do projecto. Só um louco não conclui que o não de franceses e holandeses tem a ver, não apenas com a extrema-direita e com a extrema-esquerda, mas também com o homem comum, sem o qual não pode haver democracia. E muito menos podemos chegar a uma Europa como comunidade que se ame, se se enveredar pelo jacobinismo de uma decisão multitudinária, por exemplo, de um só referendo num só dia. A Europa só pode resistir se continuar como uma democracia de muitas democracias e como uma nação de muitas nações. Por mim, admito que é possível “dividir para unificar”, dividir os estadualismos e soberanismos que são prisões de povos e nações, para se atingir a unidade na diversidade. Assim, sendo pelo “não”, jamais serei eurocéptico e soberanista, mas também não alinharei com cínicos nem com jacobinos ditos idealistas: posso continuar nacionalista, federalista e pluralista e, para ser europeísta, não preciso de pedir autorização aos dois partidos dominantes do Bloco Central eurocrático, o Partido Socialista Europeu e o Partido Popular Europeu.
Casta banco-burocrática
O presente Estado de Direito não resiste à hipócrita invocação do princípio da legalidade que até pode ser respeitado em pleno autoritarismo. Num Estado de Direito como o nosso, consagrado não em 1976, mas em 1982, a lei está dependente do direito e o direito está dependente da justiça. Logo, mesmo a postura dos que incorrem nessa assincronia, é passível de uma análise daquela juricidade que vai além da mera legalidade. Mais: tal atitude é susceptível de um juízo político e está dependente do que pode ditar o tribunal da opinião pública. E tudo isto muito antes de a podermos analisar na óptica da moralidade. Mas aqui seria hipócrita não repararmos que a moral continua a ser a ciência dos actos do homem enquanto indivíduo. Não entra na praça pública nem no espaço de cidadania.
Europa. Constituição europeia.
Os holandeses rejeitaram a dita Constituição Europeia e um ilustre catedrático lusitano, dizendo ter lido todos os jornais holandeses do dia, mesmo não sabendo neerlandês, tudo explica por causa da xenofobia de extrema-direita e de extrema-esquerda. Isto é, depois dos republicanos franceses, chegou a vez dos monárquicos holandeses, esses nobres fundadores da CECA e da CEE que agora vieram rejeitar as delícias da constituição valéria. Esse europeísmo de pronto-a-vestir, misto de chouriço e banha da cobra, parece não conseguir resistir a simples desafios urneiros. Valia mais que entendesse a simplicidade do conceito de vizinho, de amigo, de compatriota, de português e de europeu. E que não nos tratasse a todos como párias do come e cala, para que o presidente da Comissão Europeia esfregue o olho, pensando na reforma que vai receber quando sair. Caso se mantenha a intenção de dar democracia ao processo de edificação do projecto europeu, julgo que importa assumirmos a necessidade de uma Europa dos homens comuns com signos efectivamente mobilizadores. Esses burocratas e subsidiocratas, higienicamente transnacionais, que se passeiam por aeroportos e programas de propaganda quase colonial, não podem continuar a refugiar-se à sombra dos belos símbolos da bandeira azul das doze estrelas e do hino de Beethoven. Muito menos, devem misturar-se com os politiqueiros que pedem a suspensão do mandato para responderem a processos judiciais ou a confundir-se com políticos reformados que esperam um tachito dourado numa qualquer empresa pública. Estamos fartos de ouvir esses discursos enlatados de ministros que fazem da austeridade para os outros um hino épico de resistência nacional, enquanto todos os dias vão abichando a sua pensão de ex-bancários. Não é por mera xenofobia que tememos alguns dos anexos da Constituição europeia que por aí circulam em denúncia justa: pena de morte em caso de sublevação, insurreição ou “ameaça de guerra”; requisição de cidadãos para trabalhos forçados; prisão arbitrária; vigilância electrónica da vida privada; liberdade de expressão e de informação; clonagem humana. Como ainda hoje li num “mail” privado de um querido amigo: “estão a jogar aos brinquedos com seres humanos que deitam para o lixo e autoproclamam-se humanistas!” Noutro “mail”, de outro silencioso revoltado, posso ler que antigo gestor do PSD “está em grande guerra com o governo por causa da indemnização que exige para sair. Aliou-se com o X que também faz qualquer coisa no Serviço Z e aufere de lá apenas 1600 contos e também diz que não sai se não lhe derem uma certa fortuna”. Por mim, preferia que a Europa fosse como a bela festa dos vizinhos que a minha junta de freguesia promoveu, onde nos fomos conhecendo uns aos outros, neste olhos nos olhos e mãos nas mãos dos homens comuns, sem os quais não há enraizada democracia e confiança pública. Por isso continuo a apoiar uma mudança autárquica na cidade onde vivo. E transcrevo o apelo ao voto no meu candidato a Lisboa, recebido de A.A., porque “quem impugna e impugna sempre alcança; ainda não reclamou de todos nós os juros compensatórios a que tem direito pelo esforço no acto de estar atento; conhece a interpretação do jus gentium; sabe que as obras vivas correspondem à parte submersa das embarcações que não são nem obras novas, nem obras de arte, nem obras mortas, nem obras públicas; é objector de consciência da sociedade quando a esta faltam as convicções profundas no dever de actuar; e finalmente porque tem sido pelo Não tal como se devia fazer no referendo para a Constituição europeia, apenas porque os que vão votar pelo Sim não sabem explicar porque lhes não resta outra escolha. E assim se passeia a democracia na Europa, como se de negócio jurídico abstracto se tratasse!”. Se calhar, para escrevermos Europa por estas linhas tortas, temos de receber inspiração no checo prédio de Gehry que aqui deixo como imagem de meditação. Para os devidos efeitos se comunica que também já fui catedrático Jean Monnet. Fiquei farto dos pretensos filhos de algo. Mas continuo a venerar a nobreza de Jean Monnet.
Europa. Constituição europeia.
Os holandeses rejeitaram a dita Constituição Europeia e um ilustre catedrático lusitano, dizendo ter lido todos os jornais holandeses do dia, mesmo não sabendo neerlandês, tudo explica por causa da xenofobia de extrema-direita e de extrema-esquerda. Isto é, depois dos republicanos franceses, chegou a vez dos monárquicos holandeses, esses nobres fundadores da CECA e da CEE que agora vieram rejeitar as delícias da constituição valéria.
Alguns estúpidos povos europeus, como o francês e o holandês, tiveram o desplante de rejeitar o convite para a música celestial que os convencionalistas tinham lançado, para esse bailado de prosperidade que a santa aliança de Mário Soares, D. José Policarpo e o Professor Doutor Fausto de Quadros propunha. Esse europeísmo de pronto-a-vestir, misto de chouriço e banha da cobra, parece não conseguir resistir a simples desafios urneiros. Valia mais que entendesse a simplicidade do conceito de vizinho, de amigo, de compatriota, de português e de europeu. E que não nos tratasse a todos como párias do come e cala, para que Barroso esfregue o olho, pensando na reforma que vai receber quando sair.
Caso se mantenha a intenção de dar democracia ao processo de edificação do projecto europeu, julgo que importa assumirmos a necessidade de uma Europa dos homens comuns com signos efectivamente mobilizadores. Esses burocratas e subsidiocratas, higienicamente transnacionais, que se passeiam por aeroportos e programas de propaganda quase colonial, não podem continuar a refugiar-se à sombra dos belos símbolos da bandeira azul das doze estrelas e do hino de Beethoven. Muito menos, devem misturar-se com os politiqueiros que pedem a suspensão do mandato para responderem a processos judiciais ou a confundir-se com políticos reformados que esperam um tachito dourado numa qualquer empresa pública. Estamos fartos de ouvir esses discursos enlatados de ministros que fazem da austeridade para os outros um hino épico de resistência nacional, enquanto todos os dias vão abichando a sua pensão de ex-bancários.
Não é por mera xenofobia que tememos alguns dos anexos da Constituição europeia que por aí circulam em denúncia justa: pena de morte em caso de sublevação, insurreição ou “ameaça de guerra”; requisição de cidadãos para trabalhos forçados; prisão arbitrária; vigilância electrónica da vida privada; liberdade de expressão e de informação; clonagem humana. Como ainda hoje li num “mail” privado de um querido amigo: “estão a jogar aos brinquedos com seres humanos que deitam para o lixo e autoproclamam-se humanistas!” Noutro “mail”, de outro silencioso revoltado, posso ler que antigo gestor do PSD “está em grande guerra com o governo por causa da indemnização que exige para sair. Aliou-se com o X que também faz qualquer coisa no Serviço Z e aufere de lá apenas 1600 contos e também diz que não sai se não lhe derem uma certa fortuna”.
Por mim, preferia que a Europa fosse como a bela festa dos vizinhos que a minha junta de freguesia promoveu, onde nos fomos conhecendo uns aos outros, neste olhos nos olhos e mãos nas mãos dos homens comuns, sem os quais não há enraizada democracia e confiança pública. Por isso continuo a apoiar uma mudança autárquica na cidade onde vivo. E transcrevo o apelo ao voto no meu candidato a Lisboa, recebido de A.A., porque “quem impugna e impugna sempre alcança; ainda não reclamou de todos nós os juros compensatórios a que tem direito pelo esforço no acto de estar atento; conhece a interpretação do jus gentium; sabe que as obras vivas correspondem à parte submersa das embarcações que não são nem obras novas, nem obras de arte, nem obras mortas, nem obras públicas; é objector de consciência da sociedade quando a esta faltam as convicções profundas no dever de actuar; e finalmente porque tem sido pelo Não tal como se devia fazer no referendo para a Constituição europeia, apenas porque os que vão votar pelo Sim não sabem explicar porque lhes não resta outra escolha. E assim se passeia a democracia na Europa, como se de negócio jurídico abstracto se tratasse!”. Se calhar, para escrevermos Europa por estas linhas tortas, temos de receber inspiração no checo prédio de Gehry que aqui deixo como imagem de meditação.
Para os devidos efeitos se comunica que também já fui catedrático Jean Monnet. Fiquei farto dos pretensos filhos de algo. Mas continuo a venerar a nobreza de Jean Monnet.
M
2006
Logo, tenho de continuar a falar por metáfora, que é aquilo que me aguenta, neste mundo de gente lúcida onde tento manter a lucidez de ser ingénuo, porque quero viver como penso, sem ter pensar como vivo, dado que sei que importa submeter-me para sobreviver, a fim de conseguir, de seguida, lutar para continuar a viver. Até porque, na prática, a teoria é outra e, de boas intenções, está o inferno cheio.
E lá continuarei a falar por metáforas, no microcosmos e no macrocosmos, utilizando a técnica criativa da analogia que é ir de semelhante a semelhante, para pegar numa folha de árvore e tentar apanhar o todo, através da tradicional técnica da hermenêutica, que é o método epistemológico e de vivência que recebi da velha peripatética, coisa a que os alemães, muito Wissenschaft, chamaram Verstehen, que é prender coisa com coisa, similia ad similia, compreendendo a floresta pela descoberta do que é a alma de uma simples árvore, através dos indícios que me dão os sinais de casca que, por acaso, me caem na careca, sem eu, sequer, ter que os procurar, segundo a técnica da pretensa espionagem. Basta o olho vivo…mas triste.
Foram dias plenos de frio e de sonho…
Foram dias de semi-chuva e semi-vento, com o mar verde e cinzento, velas ao largo e ondas plenas de espuma. Foram dias plenos de frio e de sonho, com paragem naquela cidade que me deu cidade, o meu Porto da infância, hoje cheio de lixo e de luxo, mas com os mesmos lajedos de granito, de quem desce da Sé para a Ribeira, onde há memórias de muitas cheias, nesse cantinho do Aniki-Bóbó, diante de janelas de guilhotina e varandas com roupa a secar, nessa viagem do Infante para a Cantareira, onde me lembro sempre dos textos de Raul Brandão.
O Porto-cidade que me deu cidade, quando havia o Jaburu, no futebol, e o Alves Barbosa, na Volta a Portugal. E de tão intensas peregrinações pelas raízes de quem fui e ainda sou, reforçou-se o calor de quem sonho ser, até porque fui capaz de vencer o cinzento das nuvens e nem sequer reparei na cultura funerária que enredou os factos políticos destes dias, onde não emiti postais.
Reparei que, neste tempo de gaivotas em terra, tanto os actores políticos mais mediáticos como os próprios fazedores de opinião quase silenciaram o Primeiro de Dezembro, preferindo ter breve depoimento sobre os 25 anos do caso Camarate, mas sem o compararem com a morte de D. João VI em 1826, o ponto de partida para os magnicídios do Portugal Contemporâneo, com o regicídio de 1908, o assassinato de Sidónio em 1918, a Noite Sangrenta de 1921 o assassinato de Delgado em 1965 e o desparecimento de Sá Carneiro e Amaro da Costa em 1980. Porque em todos estes magnicídios o crime acabou por compensar e a investigação política e judiciária a não resultar.
Nesta série de magnicídios, os “serial killers” tornaram-se sempre “questões ideológicas”, embrulhadas pela teoria da conspiração dos ditos “brandos costumes”. Em 1826, dividem-se as hostes sobre o envenenamento, só provado quase século e meio depois, entre os adeptos do cozinheiro absolutista e os denunciadores do médico liberal, enquanto noutros casos, se sabemos quem carregou no gatilho, continuamos sem saber quem deu ordem para matar, pelo que acabamos todos feitos buiças ou buissidentes, para candidatos presidenciais ou membros primeiros das comissões de honra fazerem discursos de literatura de justificação.
Por isso, decidi desligar o televisor e não ouvir mais, incluindo o discurso de Marques Mendes na Alfândega do Porto ou as memórias de Diogo Freitas do Amaral sobre os casos. Porque tanto os ocupantes do Largo do Caldas como os ocupantes dos gabinetes herdeiros da Buenos Aires variam de homenagem conforme as circunstâncias das respectivas lideranças conjunturais.
Prefiro nem sequer imaginar o que seria de nós se voltasse a acontecer 1383 ou 1580, dada a nossa impossibilidade de organização da resistência. Porque se a invasão se avizinhasse, teríamos de esperar mais sessenta anos para que frutificassem as sementes lançadas por D. João de Castro e pelo Manuelinho de Évora, ao contrário do que aconteceu com o cerco de Lisboa, o quadrado de Aljubarrota ou as Cortes de Coimbra. Porque não há nenhum Álvaro Pais entre os banqueiros e cavalheiros da indústria, porque D. Nuno não tem nenhum general que lhe assemelhe, e porque o Professor Canotilho de Miranda não se assemelha a João das Regras.
Também não há um qualquer João, Mestre de Aviz, que pudesse ser fabricado rei pelo interesse nacional. Agora, outras são as circunstâncias e, apesar de sermos os mesmos homens e mulheres, lavaram-nos as boas memórias que nos davam autonomia. Mas bem me apetecia que Soares e Cavaco discursassem sobre a constituição europeia, que Manuel Alegre lesse a sua carta ao Manuelinho ou que Jerónimo desse voz aos ventres ao sol.
Cultura imperial-autárquica. Otomanos
Tudo parece continuar como dantes, entre certo povo dos velhos do restolho, cujo lastro sempre foi o de comer chicote, calar cenoura e esperar por mais, admitindo a hierarquia dos filhos e enteados, especialmente quando quem manda depende do levantamento mediático que instrumentaliza o pedibola, ou que faz assentar o financiamento partidário na barganha dos resultados e das arbitragens, nesse conúbio mesquinho onde continua a pagar o justo pelo pecador, para gáudio místico dos vendedores da banha da cobra, que tanto comentam a encíclica como o défice, como se Jesus Cristo percebesse alguma coisa de finanças. E quase apetece passar para o estado de activa intolerância face aos hipócritas e falsários que, refugiados no colectivismo moral da seita em que se inscreveram, nos querem condenar às grades da dependência. O dominador sempre conseguiu controlar as esperanças e domar as ilusões, através do magistral uso do chicote e da cenoura, usando apenas o primeiro de forma selectiva, de maneira a liquidar as cabeças que se assumem como alternativas oposicionistas. A cultura imperial-otomana que nas amarfanha, pintando-se de bom pai tirano, ou fe filosofia ditadora, sempre soube manipular de forma magistral o pão e o circo, desde a jantarada à custa do dinheiro do contribuinte, às sucessivas farras e guitarradas, para que a rapaziada se embebede e não cuide da chefia da cidade, num ambiente por onde se semeiam subchefes inimputáveis, especialmente se têm vocação para director de colégio e tratam o patrão com um submisso “senhor director”. A canalha jagunçal que o primeiro grande manitu fabricou em subserviência, especialista na falência de muitas quintas de passarinhos, andou de vitória em vitória até à derrota final, pintando de colorido boato o governo da domesticação patriarcal, ao confundir o público com o doméstico, onde não faltavam pompadours que, quais santanetes, iam prodigalizando ao velho leão imperial os doces miminhos necessários para que se disfarçassem de perfumes os ambientes de apodrecida decrepitude que a todos nos ia enredando. Na corte nunca faltam os crepúsculos dos aristocretinos de carinha laroca, subsidiáveis pelo clientelar nepotismo, com muitos serralhos e pretensos bois do povo, pouco reprodutivos, a não ser nos coices e marradinhas. Há também muita estupidez fumacenta, manipulada por mestres em frustração, autores de páginas que ninguém lê, cita ou referencia, a não ser os próprios autores, quando para o colectivo remetem restos da escrita assexuada com que não querem borrar as escrita dos relatórios em que assinam com nome próprio. Os editorialeiros que nos plenificam de gozo leitoral não reparam que o oficiosismo é chatíssimo e que o situacionismo pode fazer com que a má moeda expulse a boa moeda, ao contrário do que poderá acontecer nas boas intenções dos economistas. E neste ambiente de acrítico louvaminheirismo continua a ser pecado produzirmos simples farpas que ousem sair da mediania estupidocrática dos produtores de hossanas aos contadores de histórias que ocupam as chefias. Porque ninguém ousa dizer em voz alta, mesmo sem berros, o que todos vão comentando pelo sussurro, sobre a total inutilidade de instituições que, sem ideias, apenas servem de corrimão para gentes viciadas em protagonismos balofos de falso mediatismo, apesar de as cortes se emprenharem em ilusionismos activistas.
“Homo partidarius”, “homo sectarius” e “homo institutionalis”
Às vezes o “homo institutionalis”, isto é, o que deve cumprir uma ideia de obra, o que tem o prazer da relações de comunhão e o que obedece a regras processuais, entra em conflito com o “homo sectarius”, quando os agitadores dos fantasmas do “homo partidarius” consideram que os excêntricos devem passar à categoria de “inimicus”, só porque não alinham no unidimensionalismo louvaminheiro que se reproduz em silogismos propagandísticos e exorcismos inquisitoriais. Malhas que a nossa educação continua a tecer. Sempre preferi estar de acordo comigo mesmo, ainda que, momentaneamente, pudesse parecer discordar com todos os outros e remetendo-me para a minoria, às vezes, constituída pela minha própria pessoa. Sempre rejeitei ceder à técnica do velho maquiavelismo que tenta instrumentalizar os excêntricos, pondo-os uns contra os outros, para que resulte o “divide et impera”, coisa que aprendi pela experimentação sofrida com a politiqueirice lusitana, plena de tacticismos sem estratégia, gerida por alguns que, num dia, mandam morrer soldadinhos, fiéis ou jagunços, para, no “day after” à derrota, se passarem para o vencedor, ultrapassando assim a própria desvergonha do pilatismo. Sempre assumi o risco de, não sendo vice-rei, ficar de mal com el-rei por amor dos homens e de mal com os homens com amor de el-rei, até porque, muitas vezes, me engano, errando, e, outras tantas, tenho dúvidas, típicas de bicho intelectual. Contudo, tento não me enfileirar no conceito de “prima dona”, entre aquela que anda sempre em bicos de pé e a sua irmã-inimiga, a que anda sempre de pé atrás, pensando que, ao não sujar as mãos nos compromissos, se podem escoucear os outros, eternamente. Não sou “homo partidarius”, mas sou militante, especialmente de causas, e quase sempre das perdidas. Tudo isto para comunicar aos meus queridos leitores que, no mesmo dia em que aqui elogiei um líder político de uma organização a que estava ligado, imediatamente formalizei a minha desvinculação da mesma, concretizando processualmente o que, já antes, tinha substancialmente assumido e manifestado. Para bons entendedores, aqui fica a coisa sem meias palavras.
O meu 25 de Abril, em textos coevos e ainda coimbrinhas, muito pouco cravotípicos, a trinta e um do dito
Dar um depoimento sobre o 25 de Abril em sessenta segundos, só através de uma caricatura. Digamos que nesse dia de 1974 nos vimos livres de um regime que havia sido montado por um avô autoritário, ao estilo do pai tirano, e que chegou o tempo da geração do pai modernaço e “bon vivant”, muito viajado, que não tinha problemas de abrir as janelas, porque resistia às correntes de ar. A certa altura, no fim da década de oitenta, os membros da família, fartos dos laxismos desse pai modernaço que não gostava de ler “dossiers” e que até meteu a ideologia na gaveta, pediram ajuda a um tio austero, que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava. E foi ele que tratou de pôr ordem no orçamento, pintou a casa e arranjou os caminhos e as cêrcas do quintal. Depois, tanto o pai Mário como o tio Aníbal saíram da coabitação, dando lugar ao primo António que logo mostrou o que valia, abrindo a gestão ao Durão, ao Portas, ao Santana e ao Sócrates. Por outras palavras, como dizia Ortega y Gasset, todas as revoluções são pós-revolucionárias. Medem-se menos pelas intenções dos primitivos revolucionários e mais pelas acções dos homens concretos que fazem a história, sem saberem que história vão fazendo. Porque, na prática, a teoria é outra… Daí que comemore o dia com pequenos textos recolhidos de meus diários, concluindo com parte de um artigo que publiquei no “Povo Livre”, em 1976. Em 25 de Abril de 1974, a minha mãe acordou-me às dez horas a dar-me a notícia do golpe de Estado. Fiquei toda a manhã a ouvir os comunicados que a rádio ia transmitindo. De tarde, tive exame de Medicina Legal, comprei “A Capital” na Portagem e fiquei toda a noite a ouvir rádio e a ver televisão. Só dei um pulo de contente, quando ouvi o nome do General Spínola. Afinal aquilo podia ser o meu golpe de Estado. O vinte e cinco de Abril foi a tão esperada pedrada no charco do nosso letargo, o tal indisciplinador de que falava o poeta. Poucas vezes terá acontecido na história deste país uma tal explosão de emoções e uma tal mobilização de vontades, que criaram condições para que a tal libertação da mola desoprimida que se partiu se transformasse numa autêntica revolução libertadora, pois raras vezes os ideais de pão, paz, justiça e liberdade terão sido, ao mesmo tempo, de tantos. Mas a ilusão não duraria muito tempo. Nos subterrâneos do processo, começava a gerar-se uma aliança “contra natura” entre certos militares, que haviam sido libertadores, e alguns intelectuais ditos “unitários”, aliança essa que pretendia fazer uma leitura totalitária de um programa que se asumia como de salvação nacional. E o espírito do vinte e cinco de Abril a que quase todos tinham aderido, foi sendo progressivamente usurpado pelo oligopólio dos que não queriam, ou não sabiam, entender a palavra liberdade. “Ser-se revolucionário de acordo com as maiorias é um contra senso”, afirmou certo dia um tal marinheiro que havia sido alto-comissário (não) de Portugal em Angola. Era o estado de espírito de todos os pretensos libertadores que pretendiam alcançar o poder através da “insurreição a partir do aparelho de Estado”. Traduzindo em calão todos quantos modelos de revolução haviam sido inventados desde os tempos de Lenine, os nossos surrealistas revolucionários não se entendiam quanto ao modelo mais adequado. Tivemos, assim, desde os mais estalinistas dos leninistas, aos maoístas ultravermelhos, com passagem pelos titistas, guevaristas, trotskistas, castristas, oportunistas, vigaristas e outros que tais. Um repetir “ad nauseam” de todos os “ismos” que o mundo e o submundo haviam produzido no meio século anterior. Em todos eles, sempre o mesmo erro: o de pensarem a história, não como uma co-criação de homens livres, mas como algo que os manuais das respectivas ideologias já trazem escrito; o de, obcecados por determinados modelos de homem e de sociedade, quererem neles encaixara realidade de qualquer modo, nem que fosse pelo camartelo das propagandas e das polícias. Mas a revolução não eram só os generais em mangas de camisa e discursar no Sabugo, nem as “madamas de pá p’ra cima” das campanhas de alfabetização. Para lá da comédia, havia a tragédia da repressão “tout court”. É que, parafraseando Albert Camus, “para adorar por tempos e tempos um teorema, a fé não chegava; era preciso mobilizar a polícia”. É que, “enquanto houvesse inimigos, reinaria o terror e haveria sempre inimigos enquanto a revolução existisse e para que a revolução existisse”. Com o Verão Quente de 1975 e o pronunciamento de Tancos, iniciou-se o processo da segunda libertação que, no entanto, só viria a consolidar-se em vinte e cinco de Novembro. Foi a queda dos garnizés, pequenos e médios oficiais, incluindo generais graduados, que haviam subido ao poleiro do poder graças a toda a sorte de bicadas traiçoeiras, quase nos tendo lançado para o lodo mais nojento que o charco do antigo regime havia produzido. A segunda libertação, não sendo tão embriagadoramente eufórica quanto a primeira, foi, contudo, muito mais eficaz. É que os portugueses, tendo sofrido na carne e no espírito a tragicomédia da pseudo-revolução, já não eram o povo despolitizado do salazarismo nem o povo sloganizado e massificado do gonçalvismo. Fartos de batalhas contra fantasmas do outro mundo, estavam agora lançadas as condições para descobrirmos que o inimigo verdadeiro eram as nossas próprias divisões internas. O que nos dividia, no entanto, já não era o Velho do Restelo. Os que partiram de Belém com Vasco da Gama já não podiam descobrir mais nada. Nem sequer o caminho marítimo para a Índia do socialismo original, pela via do terceiro mundo. As nossas caravelas ou se afundaram tragicamente na aventura africana, ou regressaram meio arrombadas às praias ocidentais donde haviam partido. Aliás, desde que o Almirante Tenreiro as transformou em duvidosos bacalhoeiros, as mesmas já haviam perdido toda aquela sedução que exaltava os nossos épicos. Regressados definitivamente às nossas fronteiras europeias, também já não podemos sonhar com o regresso de D. Sebastião. Agora é que D. Sebastião talvez tenha morrido de vez. Mas se o Desejado-ele-próprio já não pode voltar, porque as areias movediças da traição o fizeram perder, talvez o sebastianismo continue. E, o que é pior, talvez continue na sua faceta mais retrógada e obscurantista, aquela que aceita toda a injustiça, todo o crime e toda a mentira, pela promessa de um milagre.