Faria bem a qualquer desses “talibans” do pretenso europeísmo, aos que confundem a coisa com o seguidismo face à dita Constituição Europeia, para defenderem o emprego eurocrático ou para se situarem na fila rebanhal do partidarismo supranacional, que fosse meditada a voz sensata de António Barbosa de Melo de de António Almeida Santos, dois antigos presidentes do nosso parlamento, na TSF de hoje, comemorando Abril. O primeiro foi veemente ao considerar que o dito texto estava “abaixo da racionalidade europeia” e que se o mesmo documento não passar “arranja-se outra coisa melhor”, denunciando a virulência chiraquiana da ameaça do tudo ou do seu nada. Já o segundo também se manifestou contra a hipótese de referendarmos um texto com centenas de artigos. O meu querido amigo e mestre Barbosa de Melo, a quem devo muito de quem sou, porque soube apoiar-me quando a virulência da mentira e da infâmia pintavam de negro quem era branco, sempre foi tão modesto e austero na sua sabedoria que, respeitando as exigências do “cursus honorum” da vida universitária, renunciou a cumprir aquilo que merecia. Mas não é por isso que deixa de ser o professor dos professores. E se eu mandasse proporia uma lei não geral e não abstracta que lhe desse essa categoria de máximo, no activismo universitário. Já Almeida Santos é mestre insigne nessa raiz da democracia a que se chama palavra em conversa, de acordo com a velha definição de Aristóteles, segundo o qual o “zoon politikon” sempre foi um animal de “logos”, isto é, animal de discurso, numa etimologia que muitos confundem com o animal racional, do estreito racionalismo geométrico. É pela palavra que aprendemos a viver-com e a prender-com, a conviver e a compreender, e sem discurso, sem palramento não há parlamento. Ele é, sem dúvida, o mestre dos conversadores pedagógicos da nossa democracia. Com que gosto, eu ouvi estes meus queridos professores de democracia, feitos de convicção e qualidade, de honra e inteligência. Já outros, que usam e abusam da categoria do “ausente-presente”, seria bom que não usurpassem, pelo abuso mediático, a função do senador, contribuindo para o desprestígio da sabedoria, dado que, como gerontes intervencionistas, viciados em protagonismo sem recato, continuam a misturar a ideia decadente de “brigada do reumático” com o activismo histérico do MRPP.
A questão liberal e a superveniência do confessionalismo
A superveniência de tópicos confessionais que tem vindo a enredar a partidarite lusitana levou a que renascesse o tradicional conflito entre a política e a religião, que parecia sepultado na pós-revolução. Regressou-se assim aos confusos tempo do demoliberalismo e do salazarismo, com o retomar dos fantasmas do congreganismo e do anticongreganismo. Parece que já esquecemos os próprios tempos de institucionalização da democracia, quando o grande partido anticomunista fez com que católicos e laicos convergissem tanto nas manifestações promovidas pelos bispos-condestáveis como nas várias alamedas desencadeadas pelo PS e pelo PPD. No seio do PS e do PSD ainda se misturam maçons e militantes catolaicos, mas quando os ventos de Roma apontam para aquilo que é qualificado como luta contra a ditadura do relativismo, o ambiente interno português, onde ainda não se resolveram questões como a IVG e as uniões de facto, pode ser propício para o regresso aos fantasmas. A questão político-religiosa, disfarçada pelas cláusulas gerais da defesa da vida e da família tradicional, pode levar a que as pulsões reaccionárias traduzam em calão maniqueísta tão complexos valores, com os consequentes equívocos. E tudo se agrava neste ambiente de pequena política, típica do regime dos tarimbeiros, marcado pelo ritmo dos “soundbytes” e de certo fundamentalismo discursivo. Pior do que isso: quando as presentes e futuras lideranças de direita, cedendo à chantagem de certa esquerda, que fabrica as chamadas “causas de direita”, da tal direita que convém à esquerda, as posturas liberais da esquerda da direita e da direita da esquerda, num país pouco habituado à tradicional postura dos radicais do centro, que, por muitos, ainda é confundida com o centrismo equidistante do cobarde rigorosamente ao centro, ambas as atitudes políticas, mais culturais do que políticas, aliás, acabam por dispersar-se entre muitas capelinhas, mais ou menos ortodoxas, mais ou menos estrangeiradas. Aqueles que pretendem manter a antiga, mas não antiquada postura liberal, azul e branca ou republicana, começam assim a perder a possibilidade de intervenção cívica. Basta também recordar como foi instrumentalizada a ideia liberal por certos clubes dos finais da década de oitenta, onde os mais mediáticos de direita se benzeram como democratas-cristão e os mais badalados de esquerda se volveram em sociais-democratas ou socialistas, ao mesmo que, pela via da importação, começaram a pulular muitos grupos neoliberais que costumam rivalizar entre si, conforme os encontros imediatos de pretenso primeiro grau que cada um deles tem com certas universidades ou certos clubes de fans de alguns autores. A própria inelasticidade do sistema político-partidário, bem como os erros cometidos por alguns projectos, para não falar na falta de apoio popular, levam a que a institucionalização de tal família política tenha que continuar adiada por mais alguns ciclos políticos.
Elementos para uma teoria dos tumores de micro-autoritarismo
Ainda há instituições que continuam a ser espaços infradomésticos de falso paternalismo, porque ingloriamente dependentes de certos capatazes e dos respectivos fiéis. E nesse universo de cinzentismo pós-totalitário, quem se assume da oposição quase parece que comete um pecado, porque os donos e senhores da coisa logo dizem que monopolizam o conceito de bem institucional, considerando os divergentes como dissidentes a abater. E assim podem sobreviver, para além do prazo de validade, sistemas imperiais de gestão, marcados pela arendtiana categoria do governo dos espertos, onde se manipula a legalidade, conforme o uso que dela podem fazer os espiões da Razão de Estado. Os quais nem sequer alguma vez compreederam o mínimo denominador comum da civilização do Estado de Direito. Seguindo o manual de organização política e administrativa da nação, com que se formatavam os chefes de repartição do “ancien régime”, tais ilustres autocratas conseguiram continuar a medrar neste sistema de formal democracia pluralista e competitiva, só porque instrumentalizaram o processo do anticomunismo e de luta contra os excessos do PREC, gerando tumores de micro-autoritarismo. Estes, florescentes em épocas de transição, vão continuando a germinar pela podridão das sucessivas inércias e até pelas descaradas coberturas de alguma partidarite, que os ditos cujos usam e deitam fora, conforme as conveniências. Não falta sequer o recurso às próprias pompadours, bem como uma espécie de actualização da pretensa conspiração de avós e netos, com esbirros desempregados a tentarem a junção da brigada do reumático dos gerontes com a rapazida dos novos eme-erres. Há também alguns inimputáveis, sempre temendo a chegada dos justos cobradores de fraque, bem como uma certa legião de cordeiros amansados pelo temor e falta de espinha, aquela moluscular base de recrutamento para a inevitável vindicta dos “days after”, quando as peles da fingida doçura hipócrita, com que fingem obediência, não conseguirem recobrir as inevitáveis unhas aguçadas da revolta dos PREC. O vale-tudo da opressão sempre gerou o incontrolável das libertações das molas oprimidas, quando estas se partem e emerge um poder à solta, inversamente proporcional, em revolta contra a frieza cinzenta da opressão concentracionária. A cultura da dependência, gerada pela estreiteza de vistas do paroquialismo balofo e pelo charlatanismo dos piratas com chapéu de coco, que confundem a palavra com a demagogia, apenas afina o delírio de um carreirismo cobarde. Acresce que tudo se pode agravar quando as ondas do reviralho se reduzem a péssimas alternativas oposicionistas, permitindo que a comparação com o mau do situacionismo leve a que se opte pelo regime dito “do mal, o menos”. Com efeito, o facciosismo e aventureirismo podem acabar por enclausurar o sistema, agravando a loucura despótica e concentracionária, hábil na manipulação da teoria conspiratória do “Anticristo” e do “Gegenreich”. Mas não há mal que sempre dure nem falso bem que não acabe por ser desmascarado, principalmente quando o niilismo crepuscular faz com que os sistemismos situacionistas acabem por cair de pôdres. Especialmente quando o hossana desafina já sem altura os conspurcadores nem sequer conseguem vestir-se com a mentira dos anjinhos papudos…
Neste Abril de águas mil, em que renasce meu sentir
Inesperadamente, uma chuva miudinha, mas intensa, vai molhando a cidade velha, lavando muitas mágoas. E, anotando meu “carnet d’antropologue”, em estilo de reportagem íntima, o meu olhar se vai perspectivando sobre o mundo e as gentes que me circulam. É, sobretudo, o acaso procurado que me acontece, numa qualquer curva do caminho, o inesperado de há muito antecipado, a emoção que racionalmente fui construindo, neste permanente encontro do eu com as suas circunstâncias, entre o sonho que me leve além e a força normativa dos factos, onde só por dentro das coisas é que as coisas realmente são. Porque a vida vivida, sem a aventura de quem passeia na cidade, correndo praças, ruelas e travessas, neste prazer do movimento que é vivermos como pensamos, permite que enfrentemos, olhos nos olhos, o calculismo frio dos que, por tanto planearem, se dispersam em pensamentos sem sítio, acabando por transformar-se em frustrações semoventes. Prefiro o pragmatismo da aventura, o tal transcendente situado de quem dá corpo ao sonho, olhos, mãos, sons, sabores e cheiros, neste procurar o todo da compreensão, onde, em comunhão, podemos fazer cidade, tempo vivido, intenso e denso, entre passado e futuro, na dor-alegria do presente. Aqui e agora, pode sorrir-nos o mais além, mesmo em dia de chuva como hoje, onde, olhando por mim dentro, além de mim, é nos outros que me confundo e me difundo. Na seiva peregrina de ser vizinho e de apetecer viver comum.
Ratzinger e o fim da coligação negativa
Depois de ler algumas manifestações de desencanto de certos liberais católicos que, outrora, desperdiçaram a respectiva intolerância congreganista açulando a caça aos miguelistas, atacando quem, sendo tradicionalista, desembarcaria no Mindelo e faria a Maria da Fonte, tenho de concluir que Bento XVI antes de o ser já o era. Porque nenhuma nova era se desencadeia a partir de um simples acontecimento, seja um acto eleitoral que santifique um padre, seja a descida do espírito santo sobre a cabeça de 115 mortais que, sendo falíveis, só pela transfiguração podem escolher quem ascende à infalibilidade. Os insondáveis meandros do Vaticano, cujos segredos nem Dan Brown conseguiu desatar, têm mais a ver com a experiência secular dos salamaleques da Razão de Estado do que com um dos nossos debates parlamentares sobre o programa do governo ou a reforma do sistema político, animados por Francisco Louçã e Telmo Correia. Ratzinger é o cardinalício elevado ao clímax, o consagrado teólogo do Vaticano II que soube conservar o catolicismo e sustentou doutrinariamente o papa polaco. Daí que nenhum católico, que perfilhe os dogmas e as regras processuais do papismo, possa criticar “extramuros” o processo, a não ser que caia no ridículo de Salazar que, em conversas com os seus ministros, denunciava os erros teológicos do seu contemporâneo João XXIII. Também nenhum não-católico pode desancar na coisa a partir de uma perspectiva teológica. Mas temos o direito de entrar em dialéctica com a Razão de Estado vaticana no plano meramente secular, a partir de uma perspectiva política ou de uma perspectiva filosófica, denunciando as diferenças, até para que se identifiquem os lugares comuns, através dos quais se sustenta o diálogo entre adversários. Neste sentido, se é difícil, por agora, a postura em que se encontram os liberais católicos, julgo que têm as mãos mais livres os liberais não-católicos, especialmente os que também não sofrem de anticatolicismo. Eu, pelo menos, congratulo-me com a clarificação do nevoeiro, tendo, sobretudo, em atenção o mercado das ideias, principalmente, no tocante aos subsolos filosóficos, desde que ninguém pratique a missionação, do género da propaganda da fé, ou a irmã-inimiga da “agitprop”. Compreende-se também a decepção dos progressistas cristãos que, em nome do socialismo cristão, sonhavam com a conciliação entre o marxismo e o eclesiástico, instrumentalizando as leituras dos textos do Vaticano II, em favor dos peixinhos vermelhos em água benta. A era desta confusão de narizes e boas intenções parece ter chegado ao fim. Da mesma forma, podemos dizer que chegou agora ao Vaticano o fim da guerra fria. Aquilo que era a grande coligação negativa que, em termos intelectuais, sustentava o combate contra o sovietismo, a que alguns davam o nome de de comunismo, começou agora a concluir a respectiva saída da encruzilhada. Não para que surjam novas guerras santas entre os catolaicos e os estatolaicos, mas para que se distingam os campos e se desencadeie o necessário diálogo, a que alguns chamam modernismo e a que eu chamo tradição, pluralista, consensualista e complexa. O que passa por não abrirmos certos armários onde se guardam os esqueletos da intolerância passada, nomeadamente o combate entre congreganistas e anticongreganistas. Identicamente, terá que serenar o nevoeiro reactivo e emocional subsequente à entronização de Ratzinger que, epidermicamente, quase pareceu unificar pagãos e liberais, com Louçã e Soares a reeditarem uma espécie de frente neojacobina, onde apenas parecem faltar os formigas da Associação do Registo Civil. Cá por mim, prefiro procurar ser fiel a outras tradições liberais, desde as que foram representadas por Herculano, Ferrer e D. António Alves Martins, às que, defendendo a liberdade religiosa, foram assumidas em plena I República, contra a intolerância afonsista, por políticos como Leonardo Coimbra, Raúl Proença ou António Sérgio, culminando na imposição do barrete cardinalício ao núncio pelo grande emotivo da portugalidade que se chamou António José de Almeida.
Viagem a São Bento da Porta Aberta
Uma nova era está a nascer, conforme dizem os sinais do tempo. Porque, só é novo aquilo que se esqueceu. Porque só é moda o que passa de moda. Porque, muito vieiramente, importa recordar que o antigo já foi moderno de que o moderno há-de ser antigo. A eleição de Bento XVI demonstra que não há um fim da história, mas antes um permanecente regresso da história. Não a Leão XIII, da “Rerum Novarum”, não a Pio XI, da “Quadragesimo Anno”, mas a Bento XV, com mais teologia do que doutrina social, com mais universalidade do que debates sobre as “policies” do “Welfare State”. Com algo do sacro-império romano-germânico de Carlos V e com a eventualidade de um Filipe II. Uma espécie de regresso ao dogma, em nome da fé, e com a eventual abertura de um antiquíssimo debate, nomeadamente entre o ser liberal e o ser confessional, “vexata quaestio” de umas brasas inapagadas que as cinzas tinham recoberto, mas que os ventos do tempo novo fizeram reavivar, com o fim da Guerra Fria e os alvores da globalização. Coisas bem mais sérias do que o confronto soarista ou lefebvriano entre integristas e os progressistas, onde os primeiros seriam o diabo e os segundos, a ala vingadora do bem, do progresso e dos amanhãs que cantam. Não digamos, como o grão-mestre Sebastião de Magalhães Lima em 1912, quando, à frente de uma manifestação anticlerical foi recebido pelo presidente do ministério, Augusto de Vasconcelos, sublinhando que “o Papa de Roma é apenas o chefe do sindicato católico universal e não pode ser considerado como um soberano”. Recordemos apenas que este papa Bento XV foi aquele que, em plena I República, em 18 de Dezembro de 1919, emitiu uma encíclica aos prelados portugueses, apoiando expressamente a instituição do Centro Católico Português, o partido-antipartido de que era militante o super-centrista António de Oliveira Salazar e que foi criado de forma centralista pelo conclave dos bispos lusitanos, da mesma maneira como a Ditadura Nacional, já Salazar izada, vai criar, por resolução do conselho de ministros, o partido único antipartido do regime derrubado em 1974. O tal Bento XV, o papa da missionação, quando a própria Sociedade das Nações ainda traduzia para direito internacional o “white man’s burden”, à maneira de Kipling, em plena euforia civilizacional dos impérios coloniais, quando havia uma santa aliança de cristãos e maçons, então donos intelectuais do Ocidente. Prefiro retirar-me em espírito para as bandas do Gerês, instalando o meu olhar sobre São Bento da Porta Aberta. Por lá passa o caminho de Santiago, à descoberta de um mundo interior e ninguém também chama, ao nosso edifício parlamentar, Palácio de São Benedito, tal como não é tolerável o uso dos “sanbentinhos”. Importa o São Bento tanto da porta aberta como o escancarar das janelas, para deixar entrar o ar fresco desta manhã de primavera, mesmo que venha a apanhar alguma constipação. Que nem os pretensos progresistas ditos de esquerda considerem que ser conservador é um pecado, nem os pretensos hierarcas do dogma reclamem o monopólio do bem, da verdade e da boa relação com o transcendente. Por mim, só sei que nada sei. E sei muito menos do que Filipe II quando mandou para a Inquisição um qualquer frade que reclamava a necessidade de tal monarca passar a ser absoluto. Os herdeiros desta sagrada congregação até podem ser intolerantes e dogmáticos ao serviço da tolerância e do universalismo. Não analisem apenas os meios, cuidem dos fins.
Declaração de dívida intelectual
Agradeço aos estimados analistas ortodoxos da minha heterodoxia o convite que me fizeram para não ser. E que os deve ter enchido de gáudio, porque sempre avisaram quem de direito sobre o perigo desta espécie de bestas do apocalipse de que faço parte. Queria apenas dizer que o copo transbordou depois daquele pinguinho de água em que se traduziu a primeira provocação recebida sobre a matéria e que transcrevia uns “slogans” identitários que marcam este blogue desde a respectiva renascença. Imediatamente comuniquei a quem de direito que deixei de ser, para poder ser. Quem silencia (“tacet”), não consente (“nihil dicit”). Apenas nada diz, para poder voltar a dizer o que sempre disse, mesmo quando se treslia o que se lia. Os únicos realistas em Portugal são os adeptos do trancendentalismo da matéria, aqueles ideais-realistas que seguem a natureza das coisas. Porque o natural sempre foi o mesmo do que o dever-ser, onde, segundo o conceito grego e jusracionalista, natureza é o mesmo do que razão, do que procura da perfeição e do melhor regime. Aliás, é por dentro das coisas que as coisas realmente são. Ora, como o odiado teórico apenas é, segundo os tais gregos, que, afinal, somos nós todos, o homem maduro, isto é, o que repensa pela própria cabeça o pensamento dos outros, o que compreende, o que prende uma coisa com outra, folha com folha, árvore com árvore, para poder ter a intuição da essência daquilo que é todo, mesmo que seja a alma da floresta, não serei eu que passarei além da minha chinela, dado que apenas reclamo o tal conhecimento modesto sobre as coisas supremas.
Ter, ser, direita, esquerda, razão e emoção, em delírio de “secunda feria”, depois do dia do Senhor
Muitas são as substanciais diferenças entre o ter e o ser, tal como as separam o ser do próprio estar, o pensar do viver, a razão da emoção e o preto do branco. Como cientificamente não há raças, desde que se descobriu, pela experiência, que os amarelos são mais brancos do que os pretensos brancos, os mesmos que chamaram, aos morenos, peles-vermelhas, somos todos mestiços, embora não necessariamente cinzentos. Eis o drama de todos os que fazem interpretações dogmáticas e inquisitoriais sobre o augustinianismo, o do Aurelius Augustinus, a tal distinção entre a cidade de Deus e a cidade do Diabo, as duas que, na terra dos homens, se confundem, por falta de adequados planos directores e subsídios do programa Polis. Porque, aqui e agora, não há um lugar que seja monopolizador do bem e um sítio para onde se atire todo mal dos preconceitos e fantasmas, dado que o bem está cheios de muitos males e, no reino do mal, há imensos pedações de bem. Ora, quando politiqueiramente, com muita pulhítica, se proclama que quem está à direita é um ser de direita, pode ser que a direita e a esquerda sejam posições relativas que, começando na sala rectangular dos estados gerais franceses, acabaram no semi-círculo de São Bento, depois de um reunião prévia de distribuição topográfica, marcada pelo ritmo mental dos nossos líderes parlamentares, todos diferentes, todos iguais. Daí que, nesta terra de mestiços, onde todos somos saloios, mesmo quando nos disfarçamos de loiros, muitos ainda pensem que os moçárabes são mouros do tipo cristão-novo, quando eles são os velhos-crentes paleocristãos, descendentes dos que já cá estavam antes de chegarem os romanos. Os descendentes de tais primitivos habitantes deste jardim ocidental da terra dos coelhos, principalmente os que continuam a resistir na banda mais entrada no mar dessa península a que os fenícios deram o nome de nariz e que, dos promontórios, fizeram pedras sagradas, só são esotéricos para os que não reparam nas evidências exotéricas dos livros escritos pela vida. Da vida entendida como um dever-ser que é, onde devemos vivê-la como a pensamos, sem pensarmos muito como depois disso a vamos viver. E tudo de acordo com aqueles clássicos princípios que descobriram a existência de uma racionalidade axiológica, uns séculos antes do professor António Damásio comunicar ao “Expresso” que Descartes tinha morrido. Porque, um tal Pascal ou um tal Baruch, que, sendo oriundo da Vidigueira, era Bento e Espinosa antes de também ser Spinoza, acabaram por gerar a heterodoxia de um tal Rousseau, seguidor da lei da experimentação de um tal Pêro Vaz de Caminha. E nestas meias palavras, continuo a considerar que digo tudo, dado que, entre o preto e o branco, há interessantes cinzentos que podem ser vistos de azul e branco, desde que encaremos as coisas com a seriedade lúdica dos que vão brincando com coisas sérias. De outro modo, seria tudo uma grande chatice.
As semelhanças entre Alberto João e Silvio Berlusconi
As semelhanças entre Alberto João e Silvio Berlusconi resultam de ambos serem um excelente exemplo da democrática personalização do poder, embora o primeiro tenha continuado a vencer eleições e o segundo esteja a digerir uma recente derrota nas regionais. Quando as notícias são apenas conclusões que já estão previamente escritas, de nada valem os preâmbulos históricos da verdade e, muito menos, as permisssas, não vá o diabo da realidade tecê-las. Quando se é missionário da “agit-prop”, não há factos, mas apenas interpretação dos factos. Quando os grupos, movimentos políticos ou partidos viram à direita ou à esquerda apenas para se fulanizarem, sem deixarem, nos mecanismos internos, qualquer tipo de pluralidade e eliminando as resistências dos contrapoderes, eles correm o risco de nem sequer repararem nos dejectos não recicláveis que outras entidades para aí possam emitir. Por outras palavras, a personalização do poder, mesmo a nível das paróquias, leva a que tais grupos, movimentos ou partidos, se transformem em comissões de candidatura do sol que os conduz, e apenas virarão para onde os conduzir os caprichos da eficácia. Empanturrados pelo tacticismo, perdem estratégia, durando até que sejam apanhados por uma qualquer lei dos dinossauros. Muito semelhante é a posição de certos intelectuais lusitanos que, de antigos incendiários do PREC, viraram circunspectos bombeiros dos fogos que ajudaram a atear, graças às avenças que antigos companheiros, feitos conservadoríssimos ministros de governos do extremo-centro, lhes vão prodigalizando, só porque assumem a imagem de reformadores oficiosos das golpadas revolucionárias que introduziram no sistema. Entre eles e os oligopólios da advocacia, subsidiados pela mesma fonte, venha o Sílvio ou o Alberto João e escolham. Os patinhas não são patetas.
Radical do centro, liberal e nacionalista
Nestes sábados que, há anos, ainda eram de São Expresso, em bipolarização com São Semanário, cá pelas fragas da serra, longe de Aveiro e longe de Lisboa, antes que sejamos submersos pelas nótícias sobre a próxima eleição papal, vou ficando a saber que somos o país da Europa com mais advogados “per capita”, para podermos ter a justiça mais morosa do mesmo espaço, tal como somos o que mais gasta em educação e saúde, para termos os piores serviços públicos de educação e de saúde. Apesar de continuar a ser ensurdecedora a música celestial dos eternos reformólogos da justiça, da educação e da saúde, essas doutas vacas sagradas, entre os que se sucedem como ministros do Bloco Central de interesses e os que passam a eméritos, jubilados e reformados, para darem sentenças sobre aquilo que, quando estavam no activo, espatifaram. O que vem dar razão ao engenheiro Ezequiel de Campos, o seareiro que foi ministro do governo esquerdista do José Domingues dos Santos e que chegou a ser indigitado para voltar a tais funções pelo primitivo 28 de Maio, para quem o nosso problema sempre foi o da “organização do trabalho nacional”. E hoje continuam a faltar-nos os ezequiéis construtores de barragens, isto é, tecnocratas com alma de reformadores políticos. Vale-nos que José Hermano Saraiva, em “A Capital”, talvez candidatando-se à categoria de intelectual do ano pelo mesmo jornal, sempre ávido por ministros do “ancien régime”, vem dizer que “Salazar era um santo e um judeu”. Na primeira qualificação, esperamos por um processo expedito, a ser desencadeado por D. José Saraiva Martins, o segundo dos nossos “papabile”. Na segundo, apenas recordamos o que disse José Lopes de Oliveira, um historiador anti-salazarista e ex-militante republicano radical, que chegou a proclamar um dia: “Salazar é judeu”, logo dizendo que o podia provar, “ele é meu primo…”. Para os devidos efeitos, comunico que continuo como sempre, nestes breves aforismos conspiradores, sofridos no exílio interno, lá para os lados de São Julião da Ericeira, de costas para a Corte e com os sonhos postos no Atlântico, até porque sou e sempre fui um tradicionalista que detesta os reaccionários e que, para ser de direita, tem de assumir-se como um radical do centro. Porque um liberal liberdadeiro deve ser libertacionista para servir a justiça. Tal como um nacionalista que assuma a armilar tem de ser mais universalista do que soberanista. A esmagadora maioria dos representantes da nação, tal como a dos professores que temos, usurpa um título, dado que todos eles apenas têm licença para continuação dos estudos, de acordo com a etimologia e a designação institucional do canudo. O poder enlouquece, o poder absoluto enlouquece absolutamente (Alain). Infelizmente, o fundo da questão continua a fugir-nos da lupa da investigação e quase me apetece contar uma história real, em que participei, quando um ilustre político em funções me chamou ao respectivo gabinete de poder, solicitando-me que o ajudasse, na presença, aliás, de um terceiro, seu colega de função, a escrever uma carta de exoneração, porque tinha um ilustre colaborador, de outro partido, que deveria ser preso em flagrante, por actos de corrupção. Ajudei-o naturalmente. Mas, no fim da labuta, perguntei-lhe se ele já tinha comunicado a coisa ao respectivo chefe de partido. Ele respondeu-me que não, porque o dito estava no estrangeiro e só voltaria dentro de dias. Power tends to corrupt and absolute power corrupts absolutely(Lord Acton). A carta foi escrita. O chefe regressou e a carta não foi enviada. O corrupto continua impune. O tal meu amigo continua nas mesmas funções. E o referido chefe continua a brilhar ainda mais. Todos eles são considerados exemplos de bons e extraordinários políticos e enchem-nos os olhos e os ouvidos de discursos sobre a moralidade política. À excepção do tal colaborador corrupto, onde aparecem cada vez mais sinais de que, mais dia, menos dia, será apanhado. It has been said that power tends to corrupt, but that loss of power tends to corrupt absolutely (John Ruskin). Esse político, meu amigo, talvez por remorso, nunca mais me contactou. Continuo a considerar que ele é honesto, mas tratei de o incluir na categoria dos incorruptíveis que sobrevivem pela boa gestão de corruptos que sabem fazer. Dos que chegam ao fim do dia e fazem o respectivo exame de consciência, concluindo que, por acção e omissão, ao somarem as colunas do bem e do mal, reparararam que a balança pendeu para a primeira opção. Corruption, the most infallible symptom of constitutional liberty (Edward Gibbon). Tenho a certeza que esse tal político meu amigo, se lhe dessem o estatuto de arrependido, poderia, ao pôr a boca no trombone, desvendar as teias e os apitos que alimentam esta rede de canalhocracia em que estamos envolvidos, dado que uma pequena minoria de corruptos está a estragar a imagem de uma maioria de políticos honestos, que são deglutidos pelos inferno das boas intenções. É a isto que chamo sistema e que se transformou num mostrengo. Flattery corrupts both the receiver and the giver (Burke). Acrescento que nada há de novidade debaixo do sol da sociedade aberta e pluralista. Mesmo na história de anteriores regimes políticos portugueses, esta degenerescência sempre aconteceu, tanto na monarquia liberal como na Primeira República. Mas hoje, há um aparelho de leis e de magistrados como, anteriormente, não existia, pelo que é, no mínimo, pisarmos as raias da incompetência, deixarmos que a degradação continue.Among a people generally corrupt, liberty cannot long exist (Burke). E lá volto à azáfama das aulas, onde a recepção da bolonhesa ameaça muita massa mal cozida e bastante carne picada de duvidosa proveniência. Valem-nos os molhos, ingredientes, especiarias e outros condimentos que disfarçam a realidade. Basta fazer contas: onde antigamente havia quatro anos de licenciatura, dois de mestrado e outros tantos de doutoramento, há agora três, no primeiro grau, um, no segundo, e eventual chouriçada no terceiro. Por outras palavras, graças à concorrência e à mobilidade, grande parte das escolas pode cumprir o primeiro grau, mas já não atingirá o segundo, pelo que os orçamentos de Estado assistirão à redução dos cogumelos, sem terem que declarar entidades em degradação pedagógica ou que atender às sugestões das comissões de avaliação. Se eu pudesse influenciar quem manda, em vez de lavar as mãos como Pilatos e de ser vítima da celestial demagogia dos profissionais do reformismo, aconselhava um pouco mais de patriotismo científico e uma adequada estratégia, para a gestão dos recursos escassos. Na minha área, por exemplo, seguia o modelo francês de concentração de esforços no ensino superior público, independentemente dos interesses dos concordatários e dos que andam na procura do lucro. Por outras palavras, tinha bom senso…