Tentando actualizar a minha “reaccionária” formação em leis, depois de verificar como as “auditorias jurídicas” existentes nos vários ministérios foram ultrapassadas pelo recurso à consultadoria deste oligopólio, também bastante influente a nível da partidocracia e do mundo dos grandes negócios, julgo que o Estado, para salvaguardar a excelência destes centros de decisão nacional, deveria dar um passo ainda mais ousado, concessionando todos os serviços da Procuradoria-Geral da República a estas entidades, ao mesmo tempo que as principais faculdades de direito também poderiam passar para a gestão das mesmas. Desta maneira, até se poderiam resolver os problemas de desemprego que afectam os jovens licenciados em direito, porque, em vez de 300 vezes três, poderíamos multiplicar por dez as novas oportunidades de excelência. Em seguida, seria talvez possível fazer uma grande operação de concentração dos três grandes e o Senhor Feliz aliar-se-ia finalmente ao Senhor Contente. E da advocacia passaríamos ao supremo estádio da gestão de interesses e, dos grupos de interesses, passaríamos à gestão da influência e, desta, ao grupo de pressão e, da pressão, ao estoiro, onde o público deixaria de ser o todo, o bem comum, o pleno, mas a parte em lugar da vontade geral, para a gargalhada nos inundasse em tráfego de barganhas. Confesso estar definitivamente ultrapassado pelas maravilhas jurídicas deste milénio, deseducado que fui por escolas jurídicas onde fui aluno e docente, nos já longínquos séculos das trevas, bem como pelo meu estágio de advocacia feito na antiquíssima Coimbra do meu querido e falecido patrono Manuel Fernandes de Oliveira, ainda marcado por outras deontologias. Por mim, preferia o regresso ao modelo das auditorias jurídicas e a entrega a funcionários públicos em regime de exclusividade das funções de “advogado do Estado”. Pelo menos, para que a mulher de César, além de séria, parecesse séria. Mas não passo de um nostálgico de certos princípios que parecem já pertencer a outras eras, embora esteja disponível para lutar pela actual constitucionalização dos mesmos, como apreendi de meus avós, campónios e analfabetos e, durante uns anos ensinei aos meus alunos de filosofia do direito na dita Clássica, antes de eu assistir a campanhas eleitorais para órgãos académicos noutras escolas, onde uma das listas até invoca o facto de ter a liderança de um advogado avençado que consegue descontos num dos escritórios dos avençados e pode pôr, de forma mais barata, as escolas concorrentes nas teias da conflitualidade jurídica dos pareceres e das consultas, com o nome de um grande, mas subscrito por um dos dessas lojas de trezentos… Ainda acredito que seja possível uma distinção entre o público e o privado e não advogo o “tertium genus” que, na economia, deu origem àqueles vícios das sociedades de economia mística, que são pela privatização quando a coisa está a dar lucro e pela publicização, quando o risco acaba por levar a prejuízos. Até rejeito que se mantenha o sistema de uma economia privada sem a concorrencialidade da economia de mercado. Aliás, exijo regras de concorrência que punam os abusos de posição dominante. E, muito liberalmente, considero que os princípios que defendo para economia devem estender-se aos próprios advogados, sociedades de advogados e multinacionais do direito.
Quem tem boca não precisa de ir a Roma, insulta os romanos
Certos narcisismos catedráticos sofrem daquela doença da rolhice ou da procura da equidistância unanimista, onde, à direita e à esquerda, há sempre candidatos ao paradigma Talleyrand, meio-bispo, meio-ministro, mas que, contudo, tanto não chegam a cardeal como não atingem a dimensão de grão-mestre. Eles são os eternos reitores por cumprir, teoricizando humanices, mas onde, na prática, a teoria é outra. Até julgam, muito negligentemente, que se podem eliminar registos da história e que a barragem de fabricação de imagem e de manipulação engenheiral da sedução nos pode apagar a verdade. Como se todos tivessemos que ser unidimensionalizados pela obediência do reverencial temor, face a essa iluminação solar do egotismo. Só que nem todos somos estúpidos e alguns até conseguem chamar pelos nomes os bois do despotismo, pelo que a impunidade pode não durar para sempre. Pobres desses pretensos divinais, só porque passeiam o pára-raios da respectiva influência predadora que continua a misturar o servilismo com o cardinalício laico. Mas não passam de homens de ódios e de vindictas que sempre aceitaram o prato de um qualquer trono gerador de lentilhas. Afinal, não passam de doutos troca-tintas que sempre aclamaram os vencedores, desde que estes os premiassem com uma condecoração de lata, ou uma prebenda, de preferência, convertível em metálico. Alguns, em nome da pose, continuam a exercer a respectiva actividade quaotidiana de venda da ideologia, sobretudo neste país de bonzos, onde quem tem boca não vai a Roma, mas vive de insultar Roma e os romanos, perante jovens embasbacados que receberam a programação dos livros únicos da chamada educação para tratarem os ditos cujos como monstros sagrados do vira o disco e toca o mesmo.
Papa João Paulo II e o ritmo do velho tempo novo
O quinto Papa da minha existência que, durante vinte e sete anos, marcou o ritmo do mundo e de cada um dos homens concretos que cultivam a memória, João como João XXIII, Paulo, como Paulo VI, despediu-se do efémero tempo dos vivos e atingiu a dimensão da eternidade às 20 horas e 37 minutos do dia 2 de Abril de 2005, no primeiro sábado mariano do mês de Maio. Com ele, vivemos o fim da cortina de ferro e da guerra fria, acompanhando a integração dos antigos satélites da URSS na União Europeia, nomeadamente a sua Polónia natal. Com ele, entrámos no contraditório da globalização, voltando ao ritmo de velho tempo novo, marcado pelo regresso da história, da inquietude e da esperança. É o homem de sempre, o homem de futuro, pleno de passado e ávido de presente, que voltou a subscrever o universalismo pela diferença, bem expresso pelo espírito de Assis, assim estilhaçando o hegeliano confronto entre o reaccionário e o progressista, entre o tradicionalista e o modernizador. Daí que caiam na lama da vulgaridade, essas análises politicamente correctas dos que o alcunha m como “um dos Papas mais conservadores do último século” que “tomou posições fortemente controversas”, para utilizarmos as judiciosas palavras do nosso querido e inquisitorial Bloco de Esquerda, ou dos que, muito canhestramente, vêm denunciar o “conservadorismo teológico” de quem não terá assistido às charlas reaccionariamente progressistas com que o nosso antigo presidente se vê ao espelho da vaidade. João Paulo II merecia bem mais do que as estreitas e baças lentes das perguntas feitas, num inquérito de hoje, pelo jornal francês “Le Parisien, onde se revela que 53 por cento quer um Papa “mais progressista”, 27 por cento, um sucessor que “prolongue” a acção de Karol Wojtyla e cerca de 13 por cento, um Papa “mais tradicional”, ao mesmo tempo que cerca de 40 por cento afirma que o Papa era “aberto ao mundo”, enquanto 26 por cento o considera “conservador”, 20 por cento “tradicional” e nove por cento “inovador”. Tais adjectivos não conseguem capatar as divergências e convergências que a emergência deste homem comum, feito representante de um sonho de mais além, nestas encruzilhadas do nosso tempo. Ele é apenas um clássico anti-modernista, anti-reaccionário e anti-progressista que não cabe nos chavões do politicamente correcto. Ainda bem que, ao defender a democracia e ao denunciar o capitalismo sem ética, manteve o paradoxo de uma concepção do mundo e da vida que não se reduz ao binário que o tenta dizer “progressista” no plano social, mas “tradicionalista” e “conservador” no plano moral, social e pessoal. Ainda bem que o Papa da Igreja-Espectáculo foi dono de uma sabedoria humanista, capaz de fazer com que um excelso homem de pensamento passasse a coerente homem de acção. Viveu como pensou. Saúdo que tenha posto fim aos preconceitos que muitos católicos mantinham face a judeus, budistas e islâmicos. Noto o proteccionismo que gerou face ao Opus Dei e à Comunhão e Libertação. A rigidez, relativamente aos problemas do sexo ou da igualdade da mulher, dentro da Igreja. Lamento que não tenha sido possível uma mais íntima ligação entre católicos e ortodoxos, ou que não se tenha acelerado a comunhão ecuménica com os protestantes. Mas compreendo que o choque destas novidades tenha levado a desadequações face a certas igrejas nacionais, onde, muitas vezes, teve católicos, e pastores, bem menos papistas do que o próprio Papa em tolerância, especialmente nos lugares onde, em vez de judeus, há maçons. Revejo imagens das suas visitas a Portugal, ao Brasil, a Angola e a Timor. Leio os sinais que emitiu sobre Fátima, mas continuo a considerá-los como um mistério, talvez por não saber lidar com o sobrenatural. E de nada me queixo, porque, não sendo soldado desse povo de Deus, não tenho que criticar por dentro, o que vejo, de perto, mas de fora, como simples homem de boa vontade. O homem da resistência anti-nazi e anti-comunista, acabou por ser o belo Papa que se tornou inconveniente para a direita e para a esquerda, o tal tradicionalista que nunca foi bem visto pelos neo-conservadores, o tal libertador que nunca foi compreendido pelos neo-liberais. Aquele que, aliás, nunca foi captado por aqueles pretensos progressistas cristãos dos anos sessenta do século XX que bem queriam um Papa com mais hesitações luteranas do que com convicções católicas. Aquele que, contudo, conseguiu assumir por dentro as profundidades da chamada teologia da libertação, evitando que ela se diluísse numa estreita teologia da revolução, perdendo-se no maniqueísmo marxiano. Como outrora escrevi: com João Paulo II não acabou, de vez, o pragmatismo da razão de Estado vaticana, que, se não se filia directamente no maquiavelismo, nem por isso deixa de fomentar a necessidade de alguns meios justificarem certos altos fins. Se o maquiavelismo é a mistura de força com manha, o vaticanismo nunca deixou de recorrer à manha, tendo em vista a propagação da fé, embora sem poder recorrer à força. E não há dúvida que a diplomacia da Santa Sé tem muitas vezes escrito direito por linhas tortas. Se o antigo pastor da diocese dos campos de concentração, filho de uma pátria experimentada em ocupações, não teve que receber lições de resistência de teóricos de café, soube, de experiência vivida, que os caminhos da libertação, na maior parte das vezes, não passavam pelos palcos do espectáculo ou pelo exercício de sinais ostensivos de verbalismo, mesmo que executados em homílias de altar. Mas os relatos jornalísticos apenas puderam captar a parte visível do “iceberg” e nunca seriam capazes de entender o alcance das sementes de esperança que o Papa da libertação lançou nas consciências. Talvez tenhamos, entretanto, que aprender que as lutas de resistência só têm essa dimensão quando são capazes de levar as causas aparentemente perdidas até vitória, depois de muitas derrotas em inúmeras batalhas. Mas importa dar a César o que é de César e ao Papa o que é da Igreja, pelo que não pode ser o sucessor de Pedro a substituir-se aos homens no combate político. Os velhos manuais católicos de resistência que, na senda de S. Tomás, foram fundamentalmente aperfeiçoados pela escolástica peninsular dos jesuítas dos séculos XVI e XVII, ensinam que onde falta a força se deve refinar a manha, mas sem nunca perder-se a fé.
João Paulo II
Minuto a minuto, chegam mais novas de Roma, antecipando-se os últimos minutos de vida terrena de quem tão intensamente marcou o ritmo do mundo, no último quarto de século. De quem ajudou a derrubar alguns muros da vergonha que dividiam os homens. De quem semeou os encontros de Assis. De quem amou Portugal. João Paulo II, presente. Para sempre. Sempre que haja homens de boa vontade. Pena que haja certos católicos que, nestes domínios, são bem menos papistas que o próprio Papa. Desses que nos querem manter enclausurados em fantasmas e preconceitos, acirrando denunciações, inquisições e guerras santas. Desses que chamam transcendente a certos clubes fechados, com reservado privilégio de seitas, plenas de eclesiásticos censores que, exibindo o carimbo do “nihil obstat”, apenas sabem brandir o punhal vingativo da excomunhão. Como se o transcendente e a própria fé no mais além pudessem ser o falso espírito desses pobres de espírito que, confundindo os nomes com as coisas nomeadas, se diluem como rebanho nos colectivismos morais. Dos que consideram a dissidência, a heterodoxia, a autonomia e o pensamento livre como heresia a martelar pela vozearia das multidões vingativas. E há sempre as penas compradas dos escribas e intelectuários e toda essa fauna dos opíparos convidados para as jantaradas dos falsos convivas do comemorativismo dos vencedores. Mas eles não sabem, coitados, que, sem aquela humildade da sabedoria, vencer é quase sempre ser vencido, porque o vencedor, um quarto de hora antes de ser derrotado, ainda exibe a pose do vencedor, com os tiques e arrebiques dos caricaturais donos do poder. E tudo porque confunde a ilusão de ser chefe com o estado de coisas que lhe dá o monopólio da palavra. Porque, tal como acontece com os primitivos actuais, também aqui, o chefe é aquele que discursa. Melhor: aquele que controla a sonoplastia e que liga e desliga o microfone dos Papagaios que vão telejornalando e comiciando. Como se um “soundbyte” pudesse ser discurso. Como se a palavra fora da corrente do “logos”, pudesse existir, assim livre do contexto, assim desprendida do Texto. Tal como o tal discurso, ou “logos”, se tem de enraizar numa “paideia”, para poder ter sentido comunitário. Para que a palavra possa ter sentido, ela tem que nascer de novo, todos os dias, refazendo-se pela pureza primordial dessas nascentes de águas vivas a que podemos dar o nome de pátria. Onde a pátria maior tem que brotar da congregação federadora das muitas pequenas pátrias. E onde cada pátria maior não pode enclausurar-se em chauvinismos, soberanismos e outras umbiguices, antes se exigindo que procure o universal, nessa brasa feita fogueira de crenças que nos dês sentido armilar, que nos faça sinal de uma super-nação futura a que podemos dar o nome de república universal.
Fronteiras já! Com testes de gravidez e tudo!
Já não sei onde li a entrevista do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, onde este sugeria ao seu rebanho, através de uma recomendação pastoral, que iria votar “sim” no referendo sobre a Constituição europeia, ao mesmo tempo que apelava ao “não” no caso do referendo sobre a liberalização da IVG. Fiquei sem saber em que secção dos jornais veio a prancha. Na da política, talvez não, porque a Igreja não actua como os partidos, os grupos de pressão e os grupos de interesse. Na dos assuntos internacionais, também não, porque a matéria não é concordatária e a entrevista não veio no jornal do Vaticano. Talvez na da cultura, por causa das recensões ao livro de Dan Brown. Certamente na da sociedade, onde finalmente a encontrei. Meditei mais uma vez em tão isentas palavras do condutor do povo católico lusitano e fiquei cheio de dúvidas sobre a segura hermenêutica usada pelo cardeal quanto à leitura atenta da letra e do espírito do chamado tratado constitucional, que já nada tem a ver com a vaticana proposta de Schuman, Adenauer e De Gasperi. De outro modo, o patriarca teria de notar que os adversários confessos do actual modelo giscardiano de construção da Europa não coincidem com “os anti-europeístas do costume”, como demagogicamente afirmou. A não ser que continue a ter a lógica dos martelos dos heréticos e dos inquisidores que, dividindo o mundo entre o preto do diabo e o branco do divinal, tornaram tudo cinzento. Esse maniqueísmo a que nem Santo Agostinho foi fiel, porque disse que a Cidade do Diabo podia circular no interior dos que se pensam institucionalmente como Cidade de Deus, porque dentro do bem há pedaços de mal, tal como, no mal, há pedações de bem, não se coaduna com o bordão a que deve segurar-se um pastor isento. Basta rodar a coisa para a questão da interrupção voluntária da gravidez e verificarmos como uma Europa giscardianizada levará inevitavelmente a uma unidade de legislações sobre a matéria e ficará sujeita a recomendações de órgãos supranacionais que entrarão inevitavelmente nessa área anteriormente reservada às soberanias estaduais. De qualquer maneira, numa Europa sujeita, como actualmente, e ainda bem, à liberdade de circulação de pessoas, conservarmos as fronteiras para efeitos de IVG soa a ridículo. E se levássemos até às últimas consequências os actuais ordenamentos jurídicos e considerássemos como absoluto o conceito patriarcal de defesa do direito à vida, teríamos que, imediatamente, suspender os acordos de Schengen para pessoas do sexo feminino, em idade fecunda. Com efeito, para salvarmos os fetos potencialmente existente nas barrigas em causa, seria obrigatório dotar todas as nossas fronteiras aéreas, marítimas e terrestres de postos de teste de gravidez, a fim de evitarmos deslocações a clínicas de IVG sitas noutros locais da degenerada Europa, nomeadamente em Badajoz. O senhor cardeal não percebeu que, ao dizer “sim” a uma coisa e “não” a outra, está a deitar pela porta fora aquilo que tentou impedir, ao querer fechar uma janela. Basta fazermos uma leitura rápida dos mapas comparados das legislações europeias sobre a criminalização da IVG. Basta consultarmos as várias recomendações das instâncias europeias em matérias de não-discriminação. E compreendermos as razões politiqueiras que o não levaram a apoiar a postura de Rocco Buttiglione, quando este foi saneado de comissário europeu. E não estamos a ver a Conferência Episcopal Portuguesa a ter um novo ministro da defesa eurocalmo que mande fragatas evitar a atracagem de muitos barcos das “Women on Waves”… Só depois de todas estas meditações é que percebi a razão de ser desse patriarcal apelo ao “sim” a Giscard. Queria ser finalmente elogiado pelo Professor Doutor Vital Moreira que, lendo apenas a parte euro-entusiasta da peça cardinalícia, veio agora declarar que se tratou de “uma clara desautorização da utilização da religião para combater a Constitução, como tem sido insinuado por alguns círculos católicos tradicionalistas, pretextando a ausência de uma referência à ‘herança cristã’, em que o Vaticano se empenhou, sem êxito“. No fundo, trata-se daquela velha técnica da bissectriz, ou da equidistância, da clerical postura dos situacionismos, onde a esquerda da espada e a direita do báculo levam a que os rebanhos, muito à maneira da parábola de Platão, compreendam que a política se tornou complexa desde que os carneiros deixaram de ter os deuses como pastores e passaram a ser autogovernados, em leviatânica alma artificial. Amen! PS: Qualquer referência aos ovinos e caprinos, no texto supra, não passa de mera metáfora, que, antes de ser da Igreja Católica, já pertencia aos textos profanos da politologia greco-latina.
O clero, a nobreza, os fidalgotes e a falta de povo
De há uns tempos a esta parte, grande parte dos comentadores e analistas lusitanos vem observando que Portugal continua a estar dependente das corporações. E cada um, conforme as respectivas tendências freudianas, atira, para cima do respectivo fantasma dilecto, o labéu dessa feia palavra que nos evoca a Constituição de 1933 e o salazarismo, de más memórias. Aos costumes, apenas diremos que, apesar de sermos um país relativamente pluralista, uma sociedade restritivamente aberta, uma democracia deficientemente competitiva e um Estado vulneravelmente de Direito, falta-nos muita boa educação para atingirmos os níveis das comunidades de homens livres e da autonomia pessoal, enquanto indivíduos que pensam o sentimento e actuam em conformidade, sem porem os pés no sítio da cabeça. Tentemos uma explicação sócio-satírica, sem marxianos ou liberalismos, mas com alguma historicidade viva. Julgamos que a sociedade de ordens e a sociedade de Corte do “Ancien Régime” absolutista não foram suficientemente decepadas pelo individualismo regenerador do movimento liberal que, desde o início, se viu a braços com um longo conflito entre o partido da tropa e o partido dos becas, juristas ou magistrados, com o primeiro a querer conservar a função clássica da nobreza e o segundo a querer usurpar a missão inerte dos clérigos e teólogos. E, a partir de então, quase todas as nossas chamadas revoluções viveram esta tensão, desde o 28 de Maio, onde o partido da tropa indicou o venerando chefe de Estado e o partido dos becas nomeou o tal Salazar que acabou por instaurar o clericalismo de uma autêntica república dos catedráticos, transformando as faculdades de direito, isto é, a união da faculdade de cânones com a faculdade de leis, nos verdadeiros seminários do regime. Também com o 25 de Abril, o conflito entre a vigilância militar revolucionária e os chamados constituintes e constitucionalistas manteve o pano de fundo que atingiu o clímax quando o presidente-tutor, político-militar, se civilizou pelos votos e recebeu, nos costados, a agressividade dos Soares e Sá Carneiro, herdeiros dos velhos becas, fortemente apoiados pelos cultores do Texto. Isto é, por uma classe política dominada pelos novos teólogos que, entretanto, multiplicaram as escolas de becas pelo quase infinito das três dezenas, mantendo, contudo, o rigoroso controlo do restrito corpo de doutores que, durante décadas, deixou intacto o “numerus clausus” herdado do salazarismo e do caetanismo, quando apenas existiam duas escolas de leis. Terá escapado ao atavismo a brevíssima I República, dado que, ao lado de becas-politiqueiros, como Afonso Costa, surgiram inúmeros médicos, segundo o paradigma de António José de Almeida. Também com a passagem do abrilismo para o cavaquismo deu-se aa emergência dos cultores da “rainha das ciências sociais”, como mestre Aníbal, coisa que desviou muito do nosso falso messianismo para o mito da macro-economia. Acabou, contudo, por acontecer aquele desespero da erosão do poder que nos obrigou a chamar um “engenheiro”, desde o chamado “picareta falante” ao presente de Sousa, ainda sem alcunha adequada, porque ainda se não abriu o melão. Entretanto, começam a mostrar os ímpetos conquistadores outras corporações, desde a eterna casta banco-burocrática, reanimada pela engenharia financeira, à novíssima fauna dos patos bravos e da futebolítica, esse sucedâneo de povo, com muita pronúncia do Norte. Apenas acresentaremos, à maneira de Garrett, que a sociedade já não é o que foi, nem pode voltar a ser o que era. A velha nobreza militar acabou elogiando um grande comprador de todos os brinquedos para as próximas décadas. E os velhos clérigos legistas, com tantos doutores das privadas e outros mais produzidos nas Espanhas e araganças dos doutorados por correspondência ou permanência sazonal, que aqui apenas precisam de registo. E a casta banco-burocrática nem sequer parece ter força para deitar abaixo uns sobreiros, dado que o Ministério da Agricultura não autorizou o corte de sobreiros em Benavente, na golfíca Herdade da Vargem Fresca. Valha-nos o espírito que ainda é santo, não comercial, nem de Lisboa… E no meio de tanta penumbra e desemprego de jovens licenciados em ciências ocultas e engenharias de província, apenas se confirma que a Olivedesportos passou a mandar na comunicação social e que continuamos a ser algemados, nos interstícios transicionológicos, tanto pela gerontocracia como pelo partido dos fidalgotes, isto é, não pela nobreza da função, mas antes pelos “filhos de algo”, isto é, pelos que, tendo nome de família, não precisam de pagar cem euros por mês para poderem frequentar um estágio de pós-licenciatura num desses hospitais estaduais, agora dominados por gestores profissionais que ganham mais do que o próprio Presidente da República. Quando é que o povo acede ao poder, sem ser pela via dos empreiteiros, futeboleiros e quintareiros das celebridades? Segundo consta, o pelagianismo é uma teoria alegadamente defendida pelo monge Pelágio (360-435), originário das Ilhas Britânicas, que, segundo os seus detractores, defendia que o pecado original não contaminava a natureza humana porque ela tinha sido criada por Deus e era por isso divina. Esta doutrina foi condenada como herética pelo Concílio de Cartago, em 417. Todos os cursos, patrocinados pelo Millenium BCP, são equivalentes aos mestrados portugueses, bastando, para tanto, um mero registo, de acordo com a legislação em vigor. Dan Brown não será usado como bibliografia, o eurocepticismo de Paulo Teixeira Pinto não será recordado e os participantes receberão, para além do adequado certificado anti-herético, um indulgente argumentário, com fotografias a cores, para ser usado na próxima campanha do referendo sobre a IVG. Outros anti-europeístas do costume, como um professor da Universidade Católica, um nomeado constitucionalista, não foram convidados. Cerca de metade do eleitorado europeu corre também o risco de excomunhão. Amen!
Cavaco aliviado, patriarca politiqueiro, um estalinista resistente e morgadinha feita super-polícia
Francisco Martins Rodrigues, o “xico” estalinista, criador da primeira dissidência anti-revisionista no PCP, que, ainda hoje, em “A Capital”, e bem, vem declarar que não se considera um humanista, mas antes um revolucionário. Por outras palavras, vem admitir que qualquer revolução, tendo em vista o fim superior da humanidade, pode usar os adequados meios, nomeadamente o limpar o sebo aos contra-revolucionários. Já do outro lado da barricada, o porta-voz eclesiástico, o cardeal D. José Policarpo, fazendo o voto de não confusão entre a política e a religião, começou a campanha eleitoral para os próximos referendos. Disse, ao “JN”, que votará “sim” no Tratado da Constituição Europeia e “não” no da interrupção voluntária da gravidez, a que acintosamente chamou de aborto. Não disse se dará a comunhão aos que digam “não” ao dogma de Bruxelas. Espera-se que um jornalista manhoso, ao serviço do futuro candidato socialista a Belém, faça Cavaco Silva confessar que posição pública tomará no caso da IVG, não vá o magno chanceler da Católica despedi-lo, ou requerer que se lhe abra um canónico processo de excomunhão, para a salvação da cristandade. No meio de todos estes choques noticiosos, bem apetecia voltar aos tempos em que, na minha santa terrinha, a miudagem assistia à queima do Judas, um boneco de trapos içado no Largo da Praça, onde lhe metiam no corpo muitas bombinhas de Carnaval e algumas bichas de rabiar. Por mim, no meio de todos estes choques, só sei que sei alguma coisa, porque, afinal, nada sei. Porque, querendo o que não posso e não podendo o que, na verdade, quero, fico, assim, bem preso na encruzilhada, temendo perder as forças para resistir, mas conservando o largo espaço daquela esperança que sempre foi o contrário da utopia, que sempre preferiu a revolta à revolução. Nunca fui revolucionário nem arrependido, prefiro a tradição à contra-revolução, mas nem por isso quero construir a Europa de báculo e espada. Aleluia! Prefiro a samaratina de Sicar à Maria Madalena de Dan Brown… Que, Dos amores do Redentor/ Não reza a história sagrada /Mas diz uma lenda encantada /Que o bom Jesus sofreu de amor…
Nesta pátria que vive o estreito espaço que vai de Salazar a Cunhal
Para grande parte da intelectualidade ainda vigente, nesta pátria que vive no estreito espaço que vai de Salazar a Cunhal, o nome esquerda ainda é uma espécie de indulgência plenária que lhe parece garantir o acesso ao colectivismo moral do bem, do caminho e da verdade, com justiça, liberdade, fraternidade e amanhãs que cantam, enquanto a direita é sinónimo de besta do apocalipse, coisa de burrinhos, safados, capitalistas de faca na liga, primos de antigos dirigentes da Liga dos Antigos Graduados da Mocidade Portuguesa, sobrinhos de ministros do “Ancien Régime” e bastardos de caseiros de marqueses, onde os únicos escrevinhadores que valem a pena são os que fazem rapapé aos Papas da crítica, ou que recebem elogio de um desses grãos de mestre do sindicato dos elogios mútuos. Por mim, confesso, aprendi meia dúzia de princípios que tento continuar a praticar na minha profissão. Aprendi a rejeitar a existência, no seio da universidade, de candidatos ao inexistente cargo de reitor-primaz, com muita canónica e bispal postura, mas nomeados por decreto governamental, da mesma maneira como dantes se decretinavam para a função capitães vindos da partidocracia. Aprendi a defender a não confusão entre o ensino público e o ensino que visa o lucro, não tanto por causa das acumulações e dos conflitos de interesses, mas fundamentalmente por causa do sentido de missão. Aprendi a rejeitar a subreptícia interferência confessional no crescimento dos privilégios e das isenções do ensino concordatário, como tem sido fomentada por aqueles que lhes pedem o favor de um emprego ou de uma unção. Logo, não posso mudar de política se mudar o ministro do culto, ou se ascender a supremo ministro o ilustre oposicionista do sistema que gostava de dizer que valia a pena a coragem de estar em minoria. Detesto esse rigoroso controlo salazarento de certas senhorias que, muito estalinisticamente, registam as palavras escritas dos respectivos despachos, chapas, artigos, conferências e demais declarações, incluindo entrevistas com jornalistas avençados ou a quem se deu emprego. Reconheço as qualidades de quem tem o cauto e vérmico auto-controlo cerebralista, mas é compreensível que a erosão do tempo lhes faça saltar a tampa noutros segmentos do quotidiano, revelando-se a visceral verdade que lhes dá a tal força da vingança que, desde sempre, os moveu. Por isso, ei-los que, quando sentados no coiro dos respectivos sofás, entre os cortinados da pose e a contraluz donde fulminam sedutoramente o convidado, emitem as respectivas argumentações, feitas de restos de articulados forenses e de doces conezias, mas descendo aos recantos ardilosos da infâmia, para fulminarem os desobedientes. Há muitos que, herdeiros dos velhos métodos do capaz das quintarolas, não reparam que, apesar de se conservarem cerebralmente intactos nas requintadas volutas, podem comprometer a excelsa intelectualice quando a diluem nos meandros administrativistas do supremo equilibrismo político-mediático, político-partidocrático ou político-universitário. Sobretudo, quando se enredam na persiganga, na vindicta e no saneamento, regressando aos tempos áureos da directorice autocrática da impunidade. Pensando que mantêm a suprema ambição, perdem o sentido das proporções e o nível do voluntarismo, deixando que maus olhos e péssimos ouvidos alheios se transformem nas cordas que os ligam à realidade. Quando o veneno da intriga fomenta os resíduos inquisitoriais e não os deixa reparar que já não vivemos no tempo em que era lei o que o príncipe dizia e que o mesmo estava dispensado da própria lei que podia editar, é Portugal que padece. O modelo decretino desse hipócrita legalismo, em que tais seres vérmicos ascenderam ao olimpo da impunidade, apenas fomenta a criação de núcleos de fidelismo feudal e de muitos tumores por extirpar. Julgo escapar às tenazes desses colectivismos da citação mútua, onde o acotovelar de elogios mútuos e a reprodução das excelências pela clonização dos Papagaios doutorais, no circuito fechado de certos claustros, com concursos públicos feitos com fotografia, deviam obrigar-nos a rejeitar este modelo decadentista. Nesta sociedade da imagem e da sacanagem, o próprio doutorismo universitário já caiu no logro dos cinco minutos de fama telejornalísticos. Basta que continue este regime dos poderios, onde há pretensos universitários que têm fama por serem, ou por terem sido políticos, tal como há partidocratas que têm fama por terem usurpado títulos universitários, mesmo sem ferirem o legalismo. Quando os carimbos universitários de muitos professores da mala ruça se reduzirem aos cartões de visita e às fatiotas para uso nas procissões da vaidade, não tardará que também nestes domínios entre em vigor o regime da quinta das celebridades.
Delírios em sexta-feira de paixão, sobre os endireitas e quejandos…
Só quem assuma o exílio interno e estando fora do tempo, para poder ter razão antes do tempo, é que pode vislumbrar com precisão o que vai suceder quando passar a bebedeira dos que querem bater palmas ao vencedor, especialmente se apostaram no cavalo errado. Com efeito, concordo que a próxima direita e a próxima esquerda serão o que as actuais esquerdas e direitas não forem. Coisa que só poderá acontecer a quem encontrar a chave da abóbada do templo que permita ao pesquisador descobrir a agulha salvífica no presente palheiro, mas desde que o dito cujo consiga, depois, fazer passar o camelo, com as duas bossas, a da frente e a de trás, pelo buraquinho da mesma agulha certeira. Para tanto, de acordo com as melhorias teorias académicas, é preciso que ele actue de olhos fechados e que tenha a intuição do dever-ser. Com efeito, tal como para as vítimas do “tsunami”, o introspectivo medo da transparência parece estar a vencer as necessidades, face ao piramidal desastre eleitoral que a memória viva não consegue recordar, num país que nunca gostou de ali ter estrangeiros a presenciar a luta fratricida que opõe o exército estadual ao movimento pela libertação dos contribuintes. Em face dos considerandos supra-referenciados, o subscritor destes delírios de exílio interno, declara, para os devidos efeitos, que quebrou, há muito, todas as cordas que o ligavam à realidade da direita a que chegámos. Repetindo a metáfora que tem vindo a bloguear há muito, continua a considerar-se alguém do extremo-centro, coisa que não é, nem nunca foi, o rigorosamente ao centro da equidistância, o tal estado geométrico que nos permite acedermos a ministros da esquerda, mas antes um centro excêntrico que nos eleva ao concêntrico do bom-senso. Estando, como sempre esteve, na esquerda da direita, procura continuar a ter a coragem de esquerda para se afirmar de direita, porque a esquerda a que chegámos sofre do vírus que afectou a tal direita que serviu de pretexto para a passada presente vitória da esquerda. Tem, aliás, a certeza que a nova direita velha que é a direita de sempre tem a estupenda vantagem de não existir ainda, dado ter saudades de futuro e estar à espera do “tsunami”. Amen!
Ética. Transparência.
Enquanto os grandes da partidocracia tentam chegar a acordo quanto à extensão dos níveis de ocupação do aparelho de Estado, na sequência de uma vitória eleitoral, definindo a face visível do “spoil system”, mas sem nada dizerem quanto aos inevitáveis efeitos colaterais e submarinos dessa partilha de despojos, reparo que as notícias do tempo que passa são rotineiros ataques pistoleiros a agentes das forças de segurança e essa prova máxima de prazer na cidadania, chamada entrega da declaração do imposto sobre o rendimento. Porque é neste momento que milhões de homens não privilegiados pelo sistema neofeudal vigente se sentem traídos pela injustiça sistémica, percebem o que significa a União Europeia de Durão Barroso. Sinto como eles, sem me sentir anarca revoltado ou revolucionário frustrado. Não sei se, dentro de dias, não emergirá uma vigorosa campanha contra o “spoil system” e os “jobs for the boys”, mecenada por banqueiras sociedades discretas que, em nome da sociedade civil, poderão organizar um grande seminário internacional sobre a transparência e a globalização, para o qual também poderiam ser convidados Silvio Berlusconi, os filhos de François Mitterrand e Kofi Annan, bem como o presidente angolano José Eduardo dos Santos. Julgo que, caso não houvesse tantos bailados positivistas por parte dos sindicatos dos magistrados nem os intervencionismos mediáticos de alguns dees, talvez tivéssemos um ambiente propício para o lançamento de uma pequena operação “mãos limpas”. Mas desde que a mesma não fosse encabeçada pelos ressabiados magistrados vindos da extrema-esquerda, e que quase fazem da profissão uma espécie de sublimação do revolucionarismo frustrado, ou acolitada pelos ex-membros partidocráticos do conselho de controlo das magistraturas.