Mar 10

Blogosfera

Qualquer universo fechado com a ilusão de ser aberto, como é o mundo da blogosfera, tem tendência para uma espécie de clausura autoreprodutiva, com a consequente criação de uma ditatorial “opinião comum dos doutores”, onde não falta o inevitável sindicato de citações mútuas, com aprendizes, companheiros e mestres, numa intrincada hierarquia neofeudal, onde os donos do poder estabelecem as linhas justas do bem e do mal e todos se vão glosando e comentado, muito escolasticamente, com “gurus” e “vacas sagradas”. Não faltam sequer os inevitáveis inquisidores que, sentados no trono do teclado, gerem de forma bispal o elogio e a censura e que, às vezes, nem sequer se eximem no uso da excomunhão e do cajado verbal. Ai de quem queira aqui ser irreverente. Melhor dizendo, que queira ser tão irreverente que não se conforme com os conceitos oficiosos de irreverência. Porque os assanhadores da matilha podem lançar voz de perseguição, inventando “nomes” de exclusão, usando e abusando da mentira, da injúria e do dogma da infalibidade Papal, aplicado a pretensos mestres do ofício, mesmo que o não exercitem. Por outras palavras, a blogosfera tribalizou-se em torno de meia dúzia de primitivos actuais, para quem o princípio da igualdade é parecido com os modelos que marcam a chamada “cultura portuguesa” na sua estreiteza de quintal, onde a imagem de contra-poder acaba sempre instrumentalizada pelo poder político instalado. As minhas indirectas nada têm a ver com certas discussões dos meandros politiqueiros que afectam alguns amigos meus e que seria desleal aqui invocar, até pelo privilégio de acesso a fontes directas de informação e aos próprios testemunhos pessoais, que seria indigno aqui invocar. Elas dizem apenas respeito ao processo de vulgatas ideológicas que marcam todo este espaço, onde a tendência para a marginalidade nos parece crescente. E que vale, sobretudo, para as zonas da chamada direita, onde podemos correr o risco de muitos julgarem aquilo que nunca experimentaram, especialmente numa altura em que vigora o regime da casa onde não há pão, onde todos ralham e poucos têm razão. Apenas quero observar que as ideias não se medem aos votos. Nem sequer podem estar dependentes dos armazéns de financiamento partidário, desses que vão dando guita à rapaziada utilizada como mero factor de produção. Permitam-me deixar um inútil conselho aos activistas da direita blogosférica: nunca será a esquerda blogosférica que poderá dar palpites sobre um universo que desconhece. Não é a direita que convém à esquerda que será a regeneradora da direita. A direita em Portugal é um arquipélago de muitas catacumbas. Talvez haja cerca de quinhentas capelinhas, onde cada uma diz que o respectivo quintal é que é a verdadeira direita, assim cumprindo a bela marginalidade dos individualistas. Federar esses territórios dispersos implica a humildade da formiguinha e o estabelecimento de um adequado processo de estudo genealógico, sem as ilusões da chegada de um marechal, de um professor excelso, de um partido com força eleitoral ou até de um candidato presidencial, na falta de generais. A procissão ainda não saiu do adro, nem virá com viagens de candidatura pela província. Como não sairá da blogosfera, do púlpito, da sacristia, da loja, do semanário ou de qualquer ilusão congreganista. Virá do humilde esforço da sementeira de ideias, dos vacinados contra a ilusão mediática e dos que tiverem a ousadia de sujar as mãos nos compromissos e na luta. Acontecerá, sobretudo, se se assumir a sabedoria dos derrotados e dos que sabem que ninguém tem razão a curto-prazo. Eu, pelo menos, já não tenho idade, estatuto, ou vontade para me candidatar a deputado, secretário de Estado ou ministro da esquerda vencedora. Faço parte da direita teimosa que quer continuar a servir, em vez de servir-se. Por isso, digo que convém continuar a fazer casar a honra com a inteligência. Pode ser que se fecundem… Há mais de 200 milhões de anos que as formigas revolvem, dia após dia, toneladas de terra, garantindo assim a boa saúde do solo, onde enterram 90% dos pequenos animais mortos. Sem as formigas, centenas de milhares de espécies seriam extintas; sem as cigarras, a vida perderia as sinfonias do entardecer…

Mar 09

Jorge Sampaio

Jorge Sampaio é o sétimo presidente eleito por sufrágio universal e directo, depois de Sidónio Pais, Óscar Carmona, Craveiro Lopes, Américo Tomás, Ramalho Eanes e Mário Soares. O terceiro presidente eleito no presente regime democrático. O segundo civil a atingir tal dimensão. Refira-se que uma presidência da república deste género não faz parte da média geral das democracias pluralistas ocidentais, até porque nada tem a ver com o modelo norte-americano nem com o francês. Este estilo de presidência da república é uma criação muito portuguesa, nascida da nossa experiência e cumulativamente estabelecida, onde a personalização democrática do poder se transformou numa necessidade a que o povo tem dado confiança, sendo a instituição portuguesa mais prestigiada. O nosso presidente não é a rainha de Inglaterra ou a veneranda figura do corta-fitas; também não é o presidente prisioneiro de uma maioria parlamentar, como o poderia ser, se levássemos ao máximo a ideia de “uma maioria, um governo, um presidente”; é também muito mais do que a veneranda figura de um chefe de Estado, dependente de um “princeps” ou de um “cânsul”, com quem fingiria em coabitar em regime de presidencialismo bicéfalo, conforme foi teorizado pela Constituição de 1933; está também distante do chamado presidente plebiscitário, nascido do sufrágio universal. O nosso presidente conforma uma instituição que tem sido objecto de sucessivas modelações criativas, constituindo o organismo mais estável do regime. No princípio foi Ramalho Eanes, em nome da legitimidade político-militar dos vencedores do 25 de Novembro de 1975, visando o cumprimento do programa pós-revolucionário de instauração da democracia pluralista e da sociedade aberta, com o regresso dos militares aos quartéis e a devolução ao povo da plenitude da soberania, sem as tutelas dos revolucionários. E Eanes cumpriu o prometido, em plena rivalidade com dois políticos que ocupavam o mesmo espaço de moderação, como o eram Francisco Sá Carneiro e Mário Soares. Se, na primeira eleição, venceu Otelo e a esquerda revolucionária, já na segunda se assumiu mais como civil do que como militar, em disputa com o candidato de Sá Carneiro e Freitas do Amaral e com o não apoio de Mário Soares e acabou a sua função de forma intervencuionista, favorecendo a criação de mais um partido político e entrando no jogo eleitoral, onde acabou por ser derrotado. Isto é, entre o bonapartismo e o gaullismo, quando Soares ainda tinha um sonho mexicano de um partido revolucionário institucional, a ele devemos a paz sem vindictas e a própria possibilidade de termos a alternância no poder, quando a direita venceu as eleições em 1979. Como ele disse de si mesmo, foi “o presidente de todos os portugueses”. Em segundo lugar, tivemos Mário Soares, o primeiro presidente totalmente civil das democracias portuguesas que foi eleito por sufrágio directo e universal. Eleito pelo “povo de esquerda” contra a candidatura cavaquista de Diogo Freitas do Amaral, teve que viver em coabitação com um governo de direita que chegou à maioria absoluta e teve tentações de um presidencialismo de primeiro-ministro, com este a considerá-lo até como uma das forças de bloqueio. Acabou por assumir-se como a voz tribunícia dos portugueses que chegou a invocar o direito à indignação contra o governo e a denunciar a hipótese de uma ditadura da maioria, apesar de Cavaco Silva o ter que apoiar na segunda eleição. Tanto foi um integrador de memórias como se assumiu como o pai-fundador da democracia, dado que assistiu à chegada da geração pós-revolucionária, principalmente depois da morte de Sá Carneiro e da retirada de Ramalho Eanes. Sabiamente, percebeu que a democracia não podia cair no erro da Primeira República e tanto refinou o sidonismo presidencial, como evitou os conflitos entre a política e a religião, ao mesmo tempo que potenciou o esforço de integração europeia, assumindo-se como o grande caixeiro viajante da nossa democracia, prestigiando Portugal e prestigiando-se a si mesmo. Até fez as pazes com os monárquicos, nomeando, muito simbolicamente, Carlos Azeredo como chefe da casa militar. Repetiu assim um gesto de Salazar quando, na primeira grande decisão que tomou em 1932, promoveu funerais de Estado ao jovem rei D. Manuel II, assim enterrando a monarquia, dado que o último rei da quarta dinastia, se ainda estivesse vivo em 1945, poderia ser a forma discreta de restauração da democracia, com o apoio dos aliados e dos democratas portugueses, a fim de enviarem Salazar para Santa Comba Dão. Soares também percebeu que a presidência da república, em 1958, com a candidatura de Delgado, passou a ser uma instituição de esperança democrática, quando o Estado Novo, temendo o tal golpe de Estado constitucional, voltou ao modelo de eleição do presidente num colégio eleitoral. Isto é, a oposição democrática assistiu, com alívio, à burrice salazarenta , quando este abandonou a ideia plebiscitária de Sidónio e Carmona, em 1918 e 1928, homens que, mesmo sem concorrentes, obtiveram mais votos do que todos os anteriores partidos republicanos em eleições parlamentares. Finalmente, Jorge Sampaio. Em quem nunca votei. Aliás, em matéria presidencial, apenas dei o meu voto em Ramalho Eanes, sempre, e em Mário Soares, na primeira eleição. Em Sampaio, tanto não votei como sempre critiquei, porque temi que ele se transformasse em rainha de Inglaterra e porque senti que ele, a certa altura, teve medo de ser intervencionista, apostando num governo de iniciativa presidencial. Julgo que não tive razão e reconheço agora que ele apostou num modelo bem mais sábio, porque estava, com certeza, melhor informado e tinha uma perspectiva mais ampla das nossas dinâmicas. Foi-lhe difícil ser criativo depois de Soares, fugindo ao universo dos complexos e das lealdades de esquerda, mas conseguiu cumprir “ad absurdum” a religião secular do Estado de Direito e a ideia pedagógica de presidência, fintando os desafios da guerra do Iraque, da questão da Casa Pia, da partidarização das forças armadas e até da ida de Barroso para Bruxelas, onde sacrificou as crenças individuais àquilo que consideraou o interesse nacional. E ganhou a aposta no “timing” da dissolução do governo Santana/ Portas, mesmo com o sacrifício de Ferro Rodrigues. O menos intervencionistas e mais anti-populista dos três últimos presidentes resistiu à tentação da conspiração presidencial e, esticando a corda, acabou por cumprir o essencial do respectivo programa, contribuindo para o prestígio da instituição. No fundo, cumpriu a respectiva missão e foi homem de palavra relativamente ao programa pelo qual foi eleito.

Mar 08

Liberalismo. Carlos Abreu Amorim.

A colectânea de textos de Carlos Abreu Amorim, que tenho a honra de prefaciar, comete o pecado de tanto rejeitar o politicamente correcto da esquerda cultural como de não alinhar com a direita louvaminheira que ingressou na fileira do situacionismo. Daquele situacionismo, onde o máximo denominador comum é pensarmos que um bom pai de família deste alargado Bloco Central que nos vai decadentizando tem de ser alguém com o chamado coração à esquerda, mas com a razão à direita, de maneira que possa pontificar a vontade de poder do aparelhismo partidocrático. Talvez não seja por acaso que o autor, ao levantar a bandeira liberal, a faz rimar com o Porto, num país onde quase todos esquecem que a expressão liberal, apesar das inequívocas origens doutrinárias anglo-americanas e setecentistas, teve um baptismo hispânico. Começando pelo liberal Benjamin Constant, importa recordar que o patriotismo só existe pela afeição cheia de raízes que prende o povo às localidades e constitui o exacto contrário daquela ideia dominante de Estado transformada numa abstracção, numa idiea indefinida e inconsciente geradora de um patriotismo vago e infecundo. Porque, como repetia Eça de Queiroz, importa superar essa ideia de centralização onde se destrói a vida parcial e onde se forma no centro outro pequeno Estado que é a concentração das forças, das actividades, das concorrências, onde o governo é um grupo exclusivo de homens que parecem ter a virtude oculta, o segredo, a ciência misteriosa de governar; é uma magistratura suprema enfeudada numa certa família de chefes, que a ninguém deixam as insígnias sagradas e a púrpura distintiva. Só eles são os que concebem e os que pensam, os que dão a força e a luz. Porque, conforme o mesmo Constant, a variedade é a organização, a uniformidade é o mecanismo; a variedade é a vida; a uniformidade é a morte. Aliás, foi só depois da célebre Revolução de Cádis de 1811, a principal matriz emocional dos nossos vintistas, que, em Inglaterra, começou a aparecer a designação de british liberales que, pouco a pouco, foi denominando o velho partido whig, o qual, a partir de 1840, passa a considerar-se como Liberal Party. Importa assinalar este pequeno pormenor histórico para lembrar a todos os que continuam embalados na vaga de um doutrinarismo liberalista, por vezes demasiadamente estrangeirado, que há também, entre nós, enraizadas tradições liberais. Referimo-nos não apenas ao liberalismo institucional que vigorou em Portugal de 1834 a 1926, mas também ao fundo liberal dos factores democráticos da formação de Portugal que marcavam a nossa Constituição histórica anterior ao absolutismo, bem como aos próprios rastos liberais que permaneceram no regime do Estado Novo e que o desirmanaram dos totalitarismos fascista e nazi, dado que não foi possível comprimir a plurissecular democracia da sociedade civil. Aliás, talvez caiba a Fernando Pessoa uma das mais modelares definições de liberalismo: a doutrina que mantém que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo. Julgo que quem é liberal com raízes tem que ser, quase por conclusão, em virtude da mentalidade suicida de certa esquerda deste “reino cadaveroso”, excentricamente, de direita, para poder dizer, como Montaigne, que quem tem a ilusão de nos comandar intelectualmente, pode obrigar muitos à disciplina e à obediência, mas não à estima e ao afecto, que só reconhecemos a quem o merece. Quem não gosta da servitude volontaire dos aduladores de príncipes, nem do falso consenso onde navegam muitos dos nossos cadáveres adiados que procriam epitáfios, memórias, discursos que fazem chorar as pedras da calçada e outra literatura de justificação, prefere, naturalmente, por exigência da própria procura da perfeição, os perturbadores do mundo que se angustiam com o futuro. Voltando a Montaigne, sempre direi que a confusão das ideias humanas fez que os múltiplos costumes e credos opostos aos meus, mais me instruíssem e contrariassem. Percebam, pois, os gestores do actual situacionismo que o dogmatismo não deixa de o ser só porque se pinta de antidogmático e que a Inquisição não deixa de continuar, mesmo quando passa a juntas pombalistas de reforma de estudos ou à formiga branca, essa forma de policiamento político-cultural, herdeira dos el-rei Junots que nos continuam a invadir. Percebam que, em liberdade, as esquerdas serão feitas com o que muitas direitas semearam e vice-versa. Não se fiem nesses que, mal chegaram às delícias do poder, logo puseram na gaveta as ideologias que os levaram ao tal lugar de distribuição autoritária de valores. Foi a direita liberal que historicamente eliminou a possibilidade dos genocídios das Vendeias, como foi a esquerda republicana que gerou os mitos racistas do colonialismo. Os campeões do sufrágio universal entre nós não foram os democratistas de Afonso Costa, mas as direitas monárquicas regeneradoras e o sidonismo, tal como o Welfare State foi obra do salazarismo que também institui o sufrágio feminino. Da mesma forma os precursores do ecologismo não foram os verdes comunistas, mas os fundadores do partido popular monárquico. Quem solidificou a democracia da sociedade civil em Portugal foi a carta constitucional de 1826, não foi a Carbonária. Quem aboliu a pena de morte e enraizou as liberdades foi o regime dos descendentes do senhor D. Pedro IV e não os racha-sindicalistas. Os que, no fim, voltam ao princípio, querendo apagar o que, pelo meio, praticaram, apenas continuarão a semear a incoerência dos que concluem que, na prática, a teoria é outra. Voltando a Montaigne, importa reconhecer que o mundo não é senão variedade e dissemelhança. E que somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Até porque lamento encontrar em meus compatriotas essa inconsequência que faz com que se deixem tão cegamente influenciar e iludir pela moda do momento, que são capazes de mudar de opinião tantas vezes que ela própria muda… Porque as pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar a sua interpretação e persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a verdade… Gostaria que cada qual escrevesse o que sabe e sem ultrapassar os limites de seus conhecimentos Porque nunca um homem se pode banhar duas vezes nas águas do mesmo rio. A não ser os que não sabem reconhecer que há tantas maneiras de interpretar, que é difícil, qualquer que seja o assunto, um espírito engenhoso não descobrir o que lhe convenha. Preocupante é, contudo, a circunstância de se manterem os subsistemas de Corte gerados por alguns pretensos super-senadores da República, esses grupos de pressão multiformes que se desdobram pelos bastidores da política, da cultura e da educação. Mais preocupante ainda será a hipótese de todos ou alguns desses fantasmas se federarem numa espécie de sociedade de egoístas, juntando anteriores irmãos-inimigos. Na verdade, o chamado sector intelectual da Pátria Portuguesa vive uma curioso decadentismo, onde os principais teóricos do situacionismo, isto é, os canalizadores da opinião pública instalada nos grandes meios de comunicação oficiosos, começam já a falar em crise de regime, dado que o actual situacionismo segue a máxima do empirismo organizador de Salazar , segundo o qual o essencial do poder é procurar manter-se, na senda do dito de Mussolini, para quem o dever de qualquer regime é o de durar. Por mim, prefiro seguir a velha lição liberal de Luís Mousinho de Albuquerque, para quem o princípio único de toda a Política é a Moral. Finanças, interesses materiais, formas de Governo, tudo é adventício, tudo é subordinado a esse princípio único. Tudo são entidades secundárias, tudo são acessórios do edifício da existência social. O valor fundamental é a independência portuguesa e o carácter nacional, importando servir o Estado…o Estado, a República…este dever todo moral, todo patriótico. Seguindo tal exemplo, importa ser excêntrico a todas as parcialidades, a todas as exclusões, a todas as intolerâncias, para poder ser concêntrico com a nação, para que a nação seja governada para a nação e pela nação. Quer ser governada no interesse de todos, e não no interesse de alguns; quer ser governada pela influência colectiva de todos, e não pela influência exclusiva de uma parcialidade; quer o concurso de todas as virtudes, de todos os talentos, de todas as probidades para presidir aos seus destinos, sem distinção de cores, sem exclusões partidárias.  Por isso, há que assumir uma bandeira nacional, que seja excêntrica a todas as paixões, a todos os ódios, a todas as vinganças, em nome do desejo do povo que não aspira à governança, mas sim à felicidade. Por um governo representativo, não em nome, mas em realidade. Por um regime, verdadeiro e sincero, para que a nação seja governada com justiça, com verdade e com amor; porque mal dos povos que não são governados com amor, mal das nações que são regidas sem sinceridade. Podem as nações ter a faculdade de renascer pela reacção contra a força; mas da gangrena moral ninguém ressurge, não é essa gangrena uma das fermentações tumultuosas que transformam uns produtos em outros; é a fermentação pútrida, que destrói radicalmente o ser orgânico, que desagrega, que dispersa os átomos componentes.

Mar 08

Blogues

Bloggo, logo existo… mas só em campanha
A blogosfera é, principalmente, um fenómeno de Marketing para os políticos à beira das urnas. Não a usam para interagir com o eleitorado. Depois das eleições há blogues ao abandono. A maioria das páginas na web sobre política é escrita por políticos que já não estão no activo ou por apartidários. Aí há quem até lidere
‘Conseguimos” – escreveu Sócrates, no seu blogue, ao vencer as legislativas. Mas será que a blogosfera lhe prestou atenção ao partilhar este momento? Especialistas como José Pacheco Pereira defendem que “os blogues artificiais” não resultam. Mas a blogosfera já foi trampolim para muitos autores serem chamados a comentar política na imprensa. Que universo é este?
Na política há dois tipos de produtores de blogues: “Os políticos em campanha que acham fino fazerem um blogue, desde a Hillary Clinton [candidata às presidenciais dos EUA] ao Luís Filipe Menezes [líder do PSD]. São blogues ocasionais. Depois há os outros políticos e vou dar o exemplo do José Medeiros Ferreira [http://bichos-carpinteiros.blogspot.com], que era deputado [do PS], não falava, mas que fazia blogues – as análises políticas que fazia eram como blogueiro.” A descrição do professor universitário, especialista em Ciência Política, José Adelino Maltez é facilmente perceptível ao navegar-se por blogues dos principais lideres partidários ou ex-candidatos eleitorais.
José Sócrates criou o seu blogue (em http://josesocrates.blogs.sapo.pt) por altura do fórum do PS ‘Novas Fronteiras’, no final de Janeiro de 2005. Deu–lhe cunho político e agenda de campanha. Dia 23 desse mês, podia ler-se, talvez, o comentário mais pessoal do actual primeiro-ministro: “Hoje deve ser o último domingo mais ou menos descansado até ao dia das eleições. É preciso aproveitar o momento, mas também gastar algum tempo a preparar a entrevista de mais logo, ao Jornal da Noite da SIC.” Desde 22 de Fevereiro de 2005, o blogue não foi actualizado mais. A última mensagem dizia: “Conseguimos. Conseguimos.”
Nessas mesmas legislativas, o presidente do CDS-PP, Paulo Portas, criou um blogue de campanha; tal como fez Morais Sarmento, do PSD, na corrida pela distrital de Castelo Branco. Nas presidenciais, Manuel Alegre e Jerónimo de Sousa eram dois dos bloguers do momento. Mais tarde, nas eleições intercalares para a Câmara de Lisboa, Santana Lopes abriu um blogue descrevendo a alma de muitos políticos: “a blogosfera pode ser muito importante para quem não tem acesso a outros meios de comunicação. Graças a Deus, eu tenho. Hoje, penso sobretudo nos que querem comunicar com os outros e, não tendo outros meios, também não sabem, não podem, ter acesso a estas novas auto-estradas. Somos, mesmo, privilegiados” – escreveu, dia 10 de Julho de 2007, o ex-primeiro-ministro e ex-autarca da capital. Volvidos cinco dias, depois de ter ido votar, Santana desabafou: “Lisboa merece sentido de responsabilidade e sentido de grandeza. Entretanto, são 18h00 e intensificam-se os telefonemas dos jornalistas. Não me apetece atender, nem que seja o director do Sol!…”
Em Agosto de 2007, Luís Filipe Menezes corria pela liderança do PSD quando foi acusado de estar a plagiar a Wikipédia no seu blogue. Menezes desvalorizou o incidente e afirmou que era um assessor seu quem alimentava o blogue. Pouco depois foi extinto, sem que o hoje líder social-democrata tivesse escrito na primeira pessoa.
“Os blogues políticos artificiais não resultam – garante José Pacheco Pereira –, salvo em excepções como o ‘Pulo do Lobo’ [em http://pulo-do-lobo.blogspot. com] ou ‘Super Mário’ [http://mario-super.blogspot.com], que apoiavam Cavaco Silva e Mário Soares nas presidenciais. Tiveram sucesso porque eram escritos por pessoas que tinham experiência.” Para o comentador político e autor do ‘Abrupto’ (em http:// abrupto.blogspot.com) os blogues usados por políticos em campanhas eleitorais “não têm controvérsia, nem debate.” Além do mais, não estão inseridos num meio onde se deve falar de tudo sem pruridos. “O meu blogue tem entre 3000 e 5000 leitores por dia. O que é um número muito elevado” – afirma Pacheco Pereira. “As pessoas que lá vão são especiais, têm um papel importante na multiplicação da palavra e interessam-se pelo debate público.”
Para Adelino Maltez, que desde há muito tem o ‘Sobre o tempo que passa’ [http://tempoquepassa.blogspot.com], os blogues ocasionais não têm grande expressão eleitoral. “É um fenómeno de Marketing que não tem consequências na chamada blogosfera – que é um universo de dar e receber, e eles não entram neste circuito.” A popularidade também aqui se mede. Os mais conceituados bloguers são os mais citados. “O Pacheco Pereira, por exemplo, que sempre se manteve activo. Na área do PS, o Medeiros Ferreira; o Daniel Oliveira, na parte do Bloco de Esquerda; aquele grupo da revista Atlântico; aquela zona dos liberais, Carlos Abreu Amorim, etc; da ala esquerda do PS, Pedro Adão e Silva; há uma intervenção esporádica do grupo do Paulo Pedroso; mas há, sobretudo, apolíticos.”

“Foi convidado para comentar assuntos em jornais/rádios?” O investigador e professor na Universidade da Beira Interior, João Canavilhas, perguntou e 64 por cento dos bloguers de política respondeu que sim. Mais: 74,8 por cento afirmou sentir que tem intervenção cívica na sua comunidade.
Poucos dos que alimentam blogues se queixam de censura mas, segundo João Canavilhas, em 2004 parecia haver mais combates directos entre a esquerda política e a direita do que hoje. “Actualmente não é tão habitual, mas ainda acontece. Nesses dias o número de visitas e de comentários sobe em flecha.” Conclusões que reflectem o arrefecimento precoce nas discussões que a blogosfera fomenta, já que os primeiros blogues portugueses devem ter surgido no final dos anos 90.
Ainda hoje, indica o estudo ‘Bloguers e Blogosfera.pt’, do OberCom, que apenas um quinto dos portugueses sabe o que é um blogue. Este conhecimento ainda só é tido por metade dos utilizadores habituais da internet. Destes, um quarto afirma navegar na blogosfera – a maioria procura informar-se sobre temas específicos ou esclarecer a actualidade noticiosa. Nesta análise, os temas de ‘política’ correspondem à primeira escolha de 3,7 por cento dos utilizadores; já o ‘entretenimento’ atrai 40,8 por cento e 21,7 por cento dos internautas caça a vida pessoal dos VIP.
Na área mais institucional, enquanto que apenas meia dúzia dos 230 deputados à Assembleia da República está motivada para o sistema de blogues criado (em http://blogs.parlamento.pt), o eurodeputado Joel Hasse Ferreira criou o seu próprio blogue e até está no Myspace. “Claro que [me] aproximam, especialmente do eleitorado mais jovem ou com mais interesse pelas questões tecnológicas. A informação é disponibilizada, praticamente em tempo real, com intervenções colocadas após os debates no Parlamento ou noutras instituições e associações onde sou convidado a intervir”, conta o deputado do Partido Socialista Europeu.
À beira das urnas, os blogues ocasionais não trarão votos. Mas a comunidade internauta consegue encontrar nos blogues uma identidade forte que sensibilize para as questões políticas da actualidade. Entretanto, os norte-americanos já usam o ‘twitter’, que são mensagens ao estilo SMS de telemóvel enviadas para blogues. É o acompanhamento na hora dos candidatos, aliada hoje às eleições nos EUA.
COMO TER O BLOGUE POLÍTICO PERFEITO?

“O ideal seria um diário do homem que está por detrás do político – afirma o docente na Universidade da Beira Interior, João Canavilhas – como forma de torná-lo mais próximo dos eleitores, mantendo o contacto durante os mandatos e anulando assim a imagem de que os políticos só mostram interesse pelos problemas dos eleitores no decurso das campanhas.” E para tirar todo o partido do blogue deve aliar cinco características:

TEXTO escrito pelo próprio político, com links para outras páginas web e promovendo a interacção entre internautas;

FOTOGRAFIA para partilhar situações concretas e dar visibilidade a problemas que ficam fora da agenda mediática;

YOUTUBE (ou outro site de partilha de vídeos) para enviar uma mensagem ou mostrar uma determinada situação;

PODCAST terá uso semelhante aos vídeos, mas em áudio e pode ser ouvido em qualquer altura, se o ficheiro for descarregado para um reprodutor áudio;

TWITTER é uma rede social de mensagens (com 140 caracteres, semelhantes aos SMS), que permitem ao político descrever o que está a fazer naquele momento, ou denunciar uma situação. Ideal para acompanhar acções de campanha.
A VIDA DOS BLOGUES
20,1% dos portugueses sabe o que é um blogue
55,1% dos internautas sabe o que é um blogue
23,6% dos internautas navega na blogosfera
21,9% dos internautas comenta directamente nos blogues
14% mantém um ou mais blogues
40,8% procura em primeiro lugar temas de ‘entretenimento’ nos blogues
3,7% procura em primeiro lugar a ‘política’ na blogosfera
4,3% dos blogues nacionais refere-se a ‘política’ e 40,4% a ‘entretenimento’
62,5% dos produtores de blogues são homens; que é o género também de 57,8 dos visitantes
39,9% dos bloguers tem entre os 8 e os 17 anos, e 26,8% tem entre 18 e 24 anos
29,9% dos visitantes de blogues tem entre 18 e 24 anos e 26,9% tem entre 25 e 34 anos
24,8 horas é o tempo médio dispendido pelos bloguers semanalmente
33,9% dos bloguers – a maioria – actualiza o blogue uma vez por semana

Bruno Contreiras Mateus

Mar 07

Biblioteca Gulbenkian

Ao ver uma imagem de uma carrinha das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian no seu blogue, explodi em memórias e, ao correr da tecla, quero declarar que muito de quem sou culturalmente, o devo a essa lata com rodas que ia visitar a minha terra, uma pequena vila sem direito a concelho a dez quilómetros de Coimbra, onde nos anos sessenta tive o direito a formar-me, graças aos conselhos de um notável bibliotecário-motorista, cujo nome não registei, mas que pegando num miúdo de dez anos me orientou bibliograficamente até à minha entrada na Universidade. Graças a ele, formei-me em marxismo quase clandestinamente logo aos catorze anos, o que foi uma adequada vacina, e talvez uma desilusão para o formador, mas agradeço, sobretudo, a perspectiva estética que me deu, sobretudo o Arrabal e a fundura daquele magnífico boletim inspirado por António Quadros que me trouxe a filosofia portuguesa, o Leonardo Coimbra, o Álvaro Ribeiro e o Agostinho da Silva. E eis como o meu bibliotecário, misto de surrealista e marxista, produziu em mim uma complexidade formativa deslumbrante, bem como o acesso a um mundo de sociedade aberta que as janelas e as portas fechadas do salazarismo  elevavam à esquizofrenia. Bendita biblioteca que a tantos fez este bem de nos dar a liberdade de escolher. Bem gostaria de saber o nome de tal benfeitor, para o homenagear. Se alguém me souber dizer quem era esse empregado da Gulbenkian que percorria a zona rural de Coimbra nos anos sessenta, agradecia.

Mar 05

O regresso dos Medici, com Borgia nos meandros

Muitos dos nossos politiqueiros e intelectuários, apostados na caça ao financiamento partidário e ao subsídio, têm dado à fauna banqueiral que nos domina suficientes pretextos para que a mesma continue a considerar que os poderes político e cultural são subordinados hierárquicos do poder económico-financeiro. Assim se gerou aquela casta banco-burocrática que leva alguns poderes fácticos a assumirem-se como os donos deste Portugal que resta, nomeadamente quando sugerem ministros e directores-gerais que a mesma nebulosa elevou anteriormente à categoria de serviçal ou de jagunço, enquanto certos discursos bem intencionados contribuem para o conceito de corrupção seja limitado aos pequenos autarcas ou aos grandes dirigentes do futebol, num evidente racismo social dos que salvaguardam as mãos limpas das cidades, atirando toda a porcaria para o lado dos parolos que ainda vivem no deserto das serras. Há, em primeiro lugar, que denunciar o ambiente de sórdida pedinchice com que muitos têm confundido o chamado financiamento partidário e que tem contribuído para que o povo deixasse de ser a efectiva fonte da soberania. Compreende-se assim que alguns não-comunistas de sempre e certos anticomunistas para sempre comecem a ter saudades de um partido comunista minimamente forte, capaz de amedrontar esta paz de cemitérios chamada concertação social, feita de hipócritas equilibrismos que não denunciam a presente podridão plutocrática, assente no domínio de um clube de velhos e novos ricos, os quais continuam a considerar os que trabalham como os causadores da falta de competitividade e de produtividade. Apenas se esquecem que quem efectivamente trabalha é que paga os impostos que sustentam os cobradores de comissões e os intermediários do esforço dos outros, esses gestores de bens alheios que controlam essa terra de silêncios e segredos, onde campeiam os privilégios e as isenções, só porque o fogo de artifício do politiqueirismo e a pouca-vergonha da demagogia nos continuam a algemar. Não apetece contribuir para a continuação de tal enriquecimento sem causa. Paradoxalmente, a casta dos donos do poder pouco se incomoda que sejamos o país mais à esquerda da Europa e até vê com bons olhos o crescimento do partido que inventou o “slogan” dos “ricos que paguem a crise”. O “discurso da tanga” até favorece os que, através das hipócritas campanhas da caridadezinha mediática, tratam de encobrir o essencial: aqui e agora, são os chamados “remediadados” da classe média baixa que continuam a ser sugados pela canalha dourada que se disfarça em benzeduras bancárias. Começo a sentir raiva perante os que, cobertos pela democracia formal, usurpam o sagrado da própria democracia, especialmente quando eles se escondem atrás desse bailado de patranhas ideológicas, cujo verniz nominal continua a ocultar a unhas aduncas dos clássicos vigaristas. É que estes conseguem sempre mobilizar uma legião de escribas jagunçais, a quem os mesmos unheiros pedem que lancem adjectivações inquisitoriais para que sejam fulminados os mal-amados pela estirpe. Eles, os donos do poder, que podem aparecer nas televisões chorando pelos mandaram morrer, até são capazes de uma qualquer generosa oferta de um caixote de cobertores a esses sem-abrigo que estão literalmente a morrer de frio neste país que a respectiva ética construiu. O discurso da enlatada tecnocracia não rima com justiça, verdade e coragem. Se esta canalha continuar a arvorar-se em controladora dos armazéns de valores da chamada direita, juro que não participarei nas procissões de candidatos presidenciais dos que se apresentarem vitoriosamente apoiados tanto pelos pretensos banqueiros de Deus como pelos supremos teólogos dos magnos conventos que os ditos subsidiarem. Não quero que o tempo possa voltar atrás sem uma pinga de espírito livre. Mesmo que os tempos de antena tragam poemas patrioteiros, sessões do “perdoa-me” ou eventuais elogios a anteriores inimigos que com eles convivem como curadores do tacho. Eliminar a doença que todos, hoje, dignosticamos na tal direita, pelo recurso à matriz que difundiu a virose, é seguirmos uma táctica imposta pela estratégia derrotista, por mais que os revanchistas digam o contrário.

Mar 04

Lágrimas de crocodilo da politiqueirice

Não tardará que os solos calcinados da nossa terra sejam humedecidos pelas lágrimas de crocodilo da politiqueirice, dado que os científicos avisos sobre os incêndios de Verão continuam a não ser suficientemente amedrontadores para aqueles que fazem da profissão a prostituição da palavra pelo fala-baratismo dos discursos que põem a chorar as pedras da calçada, enquanto o povo automobilístico vai pagando mais um pequeno imposto para se sustentarem as promessas feitas por um ministro a uma só empresa que ameaçou largar o país. Já o recém-eleito presidente do STJ, depois de denunciar os advogados, os juízes e os governos quanto às demoras na justiça, onde uns não nomeiam mais juízes, outros não ajuízam rápido e os primeiros empatam e complicam os processos, acaba por não denunciar quem deve. A culpa está acima de tudo nesta elefantíase legislativa que permite aos operadores fazerem fraudes à justiça em nome da lei, face à manta de retalhos em que se transformou o chamado ordenamento jurídico. Julgo que um qualquer José Alberto dos Reis chamado por um qualquer Manuel Rodrigues permitiria que a democracia fosse superior à Ditadura em matérias de técnica judiciária. As corporações e os sindicatos devem ser postos nos seus devidos lugares de meras sociedades imperfeitas que não podem ser especialistas nos assuntos do todo, coisa que apenas cabe à sociedade política, através daquilo a que chamamos Estado. Quando os principais representantes dos corpos especiais em que vamos despedaçando a unidade da república, mal-habituados ao mediático, continuam a cair na rasteira do falso populismo, é de temer que cresça este enrodilhar de discursos e de promessas, para que novas frustrações gerem ainda mais revoltas, que não serão cerceadas se se mantiver o mero malabarismo vocabular, ou conceitual, com que continuamos a encanar a perna à rã. Porque a crescente despolitização do Estado tanto não levou a menos Estado como também não produziu um melhor Estado, dado que fez com que as gorduras neocorporativas crescessem em adiposidades dilatórias, ao mesmo tempo que foram inchando o peito de ar os monstros da corrupção, os quais só podem ser debelados por aquela energia que dimana da confiança pública, coisa que nunca acontecerá se continuar a grassar o indiferentismo, o cansaço e o desencanto.

Mar 03

Pela teoria consensualista democrática! Vivam as crianças!

Não vou argumentar teologicamente, invocando escritos de muitos católicos e professores de teologia católica que adoptam a minha postura. Não citarei retroactivamente as teorias de São Tomás de Aquino sobre a matéria da “hominização tardia” ou a concepção de espermatzóide que o cientificismo ainda tinha no século XIX. Tal como seria estúpido chamar a atenção para o secular caminho que levou à luta das mulheres pelo direito à igualdade, contra aqueles que as consideraram como “res impudica”. Digo apenas que seria melhor estudarmos as causas que levam os nossos serviços públicos de saúde a não aplicarem a lei vigente sobre a interrupção voluntária da gravidez, da mesma maneira como o fazem os espanhóis. Os religiosos não têm o monopólio da moral. Os moralistas não podem invocar dogmaticamente certos fragmentos científicos e difundi-los de forma terrorista. Direi que, sobre a matéria, a humanidade inteira está numa encruzilhada que não pode ser resolvida por polícias, tribunais e cadeias, mas por todos, incluindo filósofos, teólogos, cientistas, juristas, politólogos e homens e mulheres comuns. É um problema de cultura, não é um problema de biologia. Porque ser pessoa é algo que o homem acrescentou à natureza quando superou o animal que tem dentro de si e descobriu o infinito. Não sou relativista, acredito que somos um transcendente situado. E digo que a esfera pública não pode invadir o espaço da minha autonomia, desde que entenda a mesma autonomia como um implacável espaço de regras próprias. Apenas defendo que a utilização de métodos contraceptivos e a decisão moral sobre a interrupção voluntária da gravidez, no espaço de tempo que as leis das “nações polidas, cristãs e civilizadas” consensualizaram, devem pertencer à ciência dos actos do homem enquanto indivíduo e não à heteronomia estadual. Com isto, não me atirem para o campo dos abortadeiros que, algumas vezes, parecem mais interessados na defesa dos linces, aranhas e lobos do que na defesa do bicho homem, principalmente num país como o nosso que se vai suicidando por não colocar a defesa do direito à vida como a prioridade das prioridades. Mas será que reparamos na hipocrisia de não haver tanta quebra demográfica por causa da gravidez das adolescentes? Será que efectivamente defendemos a maternidade? O desastre demográfico que se avizinha devia ter outra resposta. E não vale a pena inventarmos o que já está inventado, nem descobrirmos o que já está descoberto. Copiemos imediatamente leis e sistemas de apoio, já consagrados no Canadá, na Suécia e na Noruega, visando o pagamento estadual a mães, pais, avós ou até empregados que queiram utilizar a casa de família para o apoio às crianças e não digamos que estamos a repetir o “Deus, Pátria, Família” do salazarismo, insinuando que o papel das mulheres é o “K, K, K” de má memória (crianças, cozinha e igreja). Se efectivamente fossem perseguidas e condenadas todas as mulheres que, entre nós, praticam o aborto clandestino, o que o Estado gastaria em tal internato prisional serviria para sustentar esse subsídio e muito mais. E que tal o nosso Estado apoiar os tratamentos contra a infertilidade, da mesma maneira como subsidia os antidepressivos? Não, não sou relativista. Apenas julgo que as leis, sobretudo as leis criminais, têm que optar por valores, hierarquizando-os, comunitariamente. E qualquer observador das práticas sociais pode concluir que, nestes domínios, vale mais a profilaxia do que a terapêutica, isto é, vale mais prevenir do que remediar. Ora, quando assistimos ao colossal desastre da sangria de um povo, há que ter a coragem de inverter o discurso e assumir as grandes conquistas da luta pela liberdade, consagradas depois do século XVIII e das grandes revoluções evitadas como foram as liberais. As tais grandes conquistas que deceparam teocracias e inquisições, que aboliram a escravatura, que consolidaram a soberania popular, o pluralismo, a tolerância, a liberdade religiosa e a igualdade de oportunidades, nomeadamente a da mulher e do homem. Que o século XXI possa ser o século da criança! Apenas acrescento: se a direita lusitana se restringir ao duvidoso conceito de hominização do feto que, neste momento, é adoptado pelo Vaticano e que não me vincula, porque não sou católico, que tal direita fique no seu lugar. Quem está mal, muda-se! Há muitas outras direitas e muitos outros lugares desta Europa e deste Ocidente que me deixam lá ter espaço de combate pelo meu conceito de direito à vida.

Mar 02

Sobre os mesmos cânones, há interpretações diversas

Sobre os mesmos cânones, há interpretações diversas, conforme o púlpito do eclesiástico que emite o sermão. Tal como sobre o conceito de direito à vida. Porque, no rigor da postura católica, a própria lei vigente permite “a morte de seres humanos inocentes”. Julgo que quem quer ser católico deve obedecer às regras da instituição e defender os respectivos valores e admito que, no foro especial da respectiva autonomia, sejam punidos espiritualmente os que cometem aquilo que consideram infracções. Julgo que, a nível do Estado e da lei penal, não podemos ficar dependentes de tais concepções do mundo e da vida. De outra maneira, não tardará que aqueles que pisam os terrenos da heresia possam ser relaxados para o braço secular. A Deus o que é de Deus, a César o que é César e nem aos agentes de Deus nem aos de César pode pertencer tudo! Ainda não voltámos a Bizâncio…

Mar 02

O país mais à esquerda da Europa, o nosso

O país mais à esquerda da Europa, o nosso, onde começa a tornar-se preocupante o consumo de antidepressivos e antibióticos pelos que daqui não podem escapar, para poderem ser portugueses à solta, parece ter jornais que se preocupam em estabelecer a lista dos mendistas, menezistas, portistas e monteiristas, por causa dos cavaquistas, santanistas, barrosistas, freitistas e adrianistas, bem como de outras faunas e “troupes” da nossa fragmentária e feudal decadência. Se continuarmos a feudalizar-nos em contabilidades suicidas de quem trocou os princípios pelo neo-maquiavelismo dos pretensos homens e mulheres de sucesso; se continuarmos a não reparar como as modas do pimba, depressa, passam de moda, mesmo em tempo de saldos político-mediáticos, culturais ou morais, até poderemos assistir a novos programas televisivos com uma grande mesa dos comentadores teológicos sentados à volta do memorial do convento a comentar Maria Madalena, assim se demonstrando como o serviço público da RTP não sabe encontrar em Portugal suficientes universitários isentos de eclesiasticismo que sejam especialistas no simbólico e que possam cumprir a exigência de pluralismo que é imposta pelo conceito de serviço público. Isto, na terra de Fernando Pessoa, do Padre António Vieira e da Ordem de Cristo. A Santa Inquisição fez os seus efeitos.