Abr 15

Todos os regimes se gastam pelo uso e se prostituem pelo abuso

Todos os regimes se gastam pelo uso e se prostituem pelo abuso, isto é, degeneram, tanto pela erosão do tempo como pelo abuso do poder. As democracias, onde, dizem, mandam todos para o bem de todos, podem passar a oligarquias, isto é, onde mandam poucos, para o bem deles próprios, e onde também os poucos da minoria mandante não são os melhores, mas os mais ricos, para que, finalmente, chegue o poder de um só. Eis um dos princípios clássicos da política, já descritos por Platão e por Aristóteles há vinte e cinco séculos e que, tão ingenuamente, tem enredado o nosso regime. Porque muitos não reparam que já lá vão cerca de trinta anos, que já estamos a dez do recorde atingido pela Salazar quia, e com o dobro do tempo da I República. Se fizéssemos a comparação com o salazarismo, veríamos que trinta anos depois da subida ao poder de Salazar , tinha-se chegado ao ano de 1958, quando a oposição conseguiu driblar o Estado Novo ao candidatar o general Humberto Delgado, um antigo entusiasta do salazarismo que baralhou de tal maneira o regime que este temeu o chamado golpe de Estado constitucional e teve que acabar com o modelo de eleição do presidente da república por sufrágio universal e directo, uma das marcas que dava alguma legitimidade plebiscitária ao autoritarismo. Trinta anos de vida política dentro do mesmo estilo produziram, naturalmente, inevitáveis micro-autoritarismos em vários segmentos da gestão democrática, em autarquias, regiões autónomas, secções locais, concelhias e distritais de partidos, escolas e outras zonas ditas de gestão democrática, onde as eleições deixaram de ser justas, livres e competitivas, porque acabaram as condições de igualdade de oportunidades, dado que os que escolhem podem ser os escolhidos pelo mandador vigente, especialmente quando os colégios eleitorais são restritos a uma elite que não é a dos melhores, mas a dos seleccionados. Não falta até o recurso à inscrição multitudinária do “Lumpenproletariat” nalguns partidos de direita, em troca da oferta de uma casa camarária e com a militância destacada dos comes e bebes, com autocarros para comícios e muitas palmas “à santinha da nossa senhora drª”. Se querem efectiva limitação de mandatos, comecem por limitá-los no interior dos vossos próprios partidos, nas vossas secções que escolhem ou condicionam os deputados, os autarcas, os líderes distritais e nacionais. Porque é, de facto, caricato que sejam os “bonzos” produzidos por estas águas chocas que agora clamam pela transparência (“glasnot”) e pela reestruturação (“perestroika”). Quando os nossos máximos dirigentes políticos são os sargentos verbeteiros da nomenclatura, os jovens escolhidos pelos dinossauros para que tudo fique como dantes, sem o quartel-general em Abrantes, vale mais continuarmos a ler as pequenas notícias dos grandes jornais regionais e locais que não precisam de assinatura para a eles acedermos na Internet. A proposta de reforma em causa é, afinal, uma declaração oficial de degenerescência do regime, onde a democracia não tem gerado a necessária meritocracia, marcada que está pelo clientelismo, pelo nepotismo, pelo amiguismo e pelo “salve-se quem puder”, onde, muito pulhiticamente, mandam mais os fiéis de certos pretensos carismáticos e os muitos dependentes do actual neofeudalismo, marcado pela gestão científica da velha “cunha “.

Abr 14

Só se fala quando se tem alguma coisa para dizer

Assisti, atenta e civicamente, à entrevista de um primeiro-ministro que pretendeu assumir a imagem do chefe sóbrio de um governo sóbrio, não emitiu, de forma calculista, qualquer espécie de “soundbyte”. Disse apenas o que era previsível, comentando e glosando o que já se sabia. Isto é, não disse nada, apesar de falar muito. Proclamou que não era comentador político, mas actor político. E que “só se fala quando se tem alguma coisa para dizer e não por espalhafato ou para comentário político”. Mais acrescentou que “não é função deste Governo fazer a autópsia do passado”. Isto é, a primeira maioria absoluta do PS acabou com o regime da “picarenta falante”. Resta saber se o tal actor político já tem peça a representar, ou se quer assumir-se como autor político, para além daquela parte do guião que levou à proposta de redução para metade das férias judiciais e da anunciada extinção de 117 dinossauros autárquicos, num universo de 308 concelhos.

Abr 14

As paródias gerontocráticas do micro-autoritarismo

Quando assisto ao hipócrita debate sobre a limitação de mandatos dos cargos políticos, onde os deputados limitam os outros, tal como vão limitando acumulações, sempre com leis que a eles não aplicam, vou concordando com os efeitos da tal erosão do tempo e da tal degenerescência das instituições, onde os sacristães vão perdendo o sentido dos gestos e apenas resiste a lei do poder pelo poder. O efeito é universal e eu até conheço as consequências da coisa em certas escolas universitárias que, pouco a pouco, ameaçam transformar-se no desprazer das repartições públicas gestoras dos comes e bebes e das fotocópias, onde vai desaparecendo a ideia de obra, onde não se cumprem as regras de processo, e onde se baniram as próprias manifestações de comunhão entre os membros do grupo. Conheço algumas onde certos ilustres gestores, da chamada gestão democrática da escolas, estão no poder há mais de um quarto de século, dado que colocaram como dependentes mais de metade dos membros do corpo docente, entre assistentes próprios e dos fiéis, especialmente quando mantiveram, em mais de oitenta por cento, o regime dos professores convidados e onde, para cúmulo, se vão parodiando actos eleitorais. E se tais escolas fossem do ensino superior privado, eles até poderiam manter-se para além dos setenta anos, com certas esperanças de chegarem aos noventa, para que, depois do galismo sem galo, chegasse o franguismo sem frango e, finalmente, o pintainhismo sem pintainho. Não tardará que a degenerescência atinja o nível da pouca vergonha. Já vimos alegados plagiadores saírem do ensino público, por isso mesmo, para, depois, atingirem o doutoramento numa privada, e, ainda há dias, me noticiaram que outro desses seres, onde eu detectei um plágio de quase uma centena de páginas, está prestes a doutorar-se num desses cursos fáceis de certas universidades dependentes do Estado espanhol. Desses que fazem parte da tal magnífica legião de “doctorales” de exportação que os espanhóis continuam a fabricar para nos colonizarem, dado que grande parte deles não conseguiria penetrar no grau mais baixo do “cursus honorum” da carreira de “nuestros hermanos”, onde vigoram os concursos nacionais. Só que o nosso provincianismo fica embasbacado e não chama os bois pelos nomes. Aliás, por cá, alguns vão também ascendendo pela troca de favores que prestaram, quando exerceram cargos políticos, nessa estúpida confusão entre o saber e o poder a que, agora, tem acrescido a desleixada política de imagem que invadiu as cabecinhas de algumas das nossas ilustres reitorices lusitanas, encantadas perante certas entidades manipuladoras dos subsídios. O que não é de estranhar porque se algumas candidaturas a presidente da república até estão dependentes do cheque financiador. Logo, por maioria de razão, acabam por poder ir na enxurrada os carimbos de certas académicas honrarias dadas pelas nossas mui republicanas comendadorices. O saber e a representação política correm o risco de virar um espaço manipulável e subsidiável, gerando-se uma degenerescência nominativa, onde se prefere a segurança da encomendação e onde os fiéis da cunha  e do temor reverencial vão corrompendo um território que deveria valorizar o mérito e a excelência. Assim, quando a universidade se pulhitiza e ameaça ficar dependente do financiamento do nosso corporativismo patronal, bem como das zonas de propaganda mediática que o mesmo controla, pode acontecer que fique doentiamente condicionada a liberdade de expressão do pensamento e a própria criatividade nacional. A pretensa classe alta que há séculos nos castifica, temendo que a meritocracia possa elevar estratos sociais de origem popular às zonas onde, até agora, funcionava a igualdade de oportunidades, como eram os mundos da escrita jornalística e da docência universitária, descobriu que podia ferir de morte esse princípio. Deste modo, utilizando o cavalinho de Tróia do mecenato, dos subsídios e da avaliação, está prestes a transformar tal zona em mais um dos seus satélites. Quando aquele que tem posses e possibilidade de longas férias flexíveis consegue inscrever-se e pagar as propinas num desses mestrados e doutoramentos obtidos em regime de quase correspondência, em universidades-empresas de certos países vizinhos, até lixo não reciclável consegue virar professor doutor. Mas a entidade que fornece a titulação, à custa de numerário, apenas o faz para o exportar e gerar a colonização cultural do parceiro. E se os resistentes pela qualidade e pelo mérito protestam, logo surge a barragem de fogo dos instalados eméritos, jubilados e reformados, que precisam desses feudalizados para que tudo seja avaliado por outros eméritos, jubilados e reformados, num jogo de salamaleques, cunhas  e júris pactados e compactados, onde quem mais ordena é a feira das vaidades.

Abr 12

A lista dos 3 600 bufos, segredos de Estado e sigilo bancário

Os estudiosos das elites ficaram surpresos anteontem, quando o grão-mestre do GOL, o meu amigo António Arnaut, anunciou a existência de um “grande livro dactilografado em formato A4″ que contém informações detalhadas e discriminadas por distritos sobre 3.600 agentes e informadores da antiga polícia política do Estado Novo PIDE/DGS. Segundo o mesmo, “este livro é uma espécie de dinamite porque há muitos agentes e informadores da PIDE que ainda estão vivos. Se fosse divulgado, poderia pôr em risco a paz social e causar uma enorme instabilidade e mal-estar”. O livro foi encontrado nas instalações do Grémio Lusitano e lá foi deixado pelo usurpador das mesmas, o velho salazarismo, através desse seu instrumento para o jogo sujo chamado Legião Portuguesa. Mantido sob o regime de segredo maçónico, não foi, felizmente, remetido, na altura do PREC, para essa entidade estadual chamada comissão de extinção da PIDE-DGS, quando a mesma tinha algumas cumplicidades dominantes com um grupo que tinha fortes ligações de íntima solidariedade internacionalista com o KGB, por considerar Moscovo como “o sol da terra”. O Estado, esse molusco que inventou a PIDE e permitiu que parte dos arquivos da mesma fossem remetidos para a capital da URSS, não é, nestes domínios, uma pessoa de bem. Enquanto não houver um efectivo Estado de Direito, eu, pelo menos, confio mais na Maçonaria e na honradez das pessoas que a têm gerido. Não quero o modelo deste “regime de liberdade” onde ” as corporações ganham muito peso (…), depois têm tanto peso que não se submetem à lei, fazem eles próprios a lei, percebes? Portanto, é o que se passa com a Judiciária, com o Ministério Público, com os juízes, enfim, são os interesses corporativos metidos e portanto isto não decorre de acordo com a legalidade e portanto sabemos disso”, para usar das palavras de um juiz conselheiro, em conversa com uma mediática autarca, em fuga, do partido que está no actual governo. Imagino o que o dr. António Arnaut qualifica como “dinamite”. Não apenas o picante de distintos democratas e altos quadros do actual regime poderem ter o nome impresso no livreco, como também a pouca credibilidade da mesma listagem, cheia de jagunços e contínuos, feitos “olhos e ouvidos” do Senhor Estado, a troco de uma nota de vinte paus ou de uma oleada cunha  do senhor comendador ou do senhor director, onde alguns deles ainda continuam comendadores e directores, por causa da música celestial da demagogia pulhitiqueira e do modelo de governo dos espertos do princípio da legalidade, com que alguns identificam o nome “Estado de Direito”. De qualquer maneira, demonstrar-se-ia como o partido dos bufos era bem maior do que qualquer outro partido português, mantendo a horrorosa tradição inquisitorial. Aliás, considero que a bufaria constitui o pior escarro que nos foi legado pelo salazarismo, a mais requintada forma de repressão existente em Portugal, porque, mesmo depois de eliminados os aspectos exteriores da brutalidade estadual, ela permanece como subsistema de medo. Até se conhecem distintos gestores ministeriais dos bufos de antigamente que continuam no poder, hoje, assentes no mesmo método que até penetrou nalguns segmentos de gestão democrática, principalmente nas zonas corporativas onde os eleitores dependem da nomeação do director e estão profissionalmente dependentes do mesmo director, tanto para a renovação do contrato como para a progressão na carreira. E não faltam os que continuam a ser condecorados pela mesma porcaria, sempre em nome dessa abstracta entidade, chamada Estado, sempre com os mesmos contínuos e os mesmos salamaleques, onde o crime continua a compensar. As garras aduncas das maravilhas e velharias do salazarismo, pintadas de protecção feudal pelos grandes democratas que lhe sucederam em absolutismo, continuam cravadas nalguns dos nossos dorsos, graças a retóricas de mentira e a troca de favores. Porque tanto é bufo o sub-bedel da faculdade que tinha contrato com os pides, como o corrupto mental de hoje que fornece informação à besta reciclada de antigamente que, perfumada com outros títulos e guruzices, vai espalhando o veneno inquisitorial nos passos perdidos dos grandes salões de Estado, de forma cardinalícia. Se a Maçonaria tivesse aberto o livro e o utilizasse como forma de pressão, a ordem mataria com o mesmo ferro com que foi injustamente perseguida. Tenho a certeza que não o fez e a melhor prova disso está na forma publicitada como o grão-mestre denunciou a incómoda situação. Julgo que a coisa deve ser guardada a recato e não me parece que os actuais meandros da fuga ao segredo de justiça por parte das estruturas de apoio do sistema judicial tenham condições para cumprir o respectivo dever. A solução de recurso aos cofres do sistema de sigilo bancário talvez seja o menos mau. Porque o melhor teria sido a loja continuar a guardar a coisa em regime de segredo maçónico, ou até entrar num pacto de dupla vigilância com a Igreja Católica que, ao menos, conseguiu legar ao Estado os processos da Inquisição, com menos danos do que aqueles que afectaram os arquivos da PIDE/DGS. Estes dois seculares representantes de tradicionais valores da nossa sociedade civil, que ainda sabem conjugar a honra com a inteligência, bem poderiam protagonizar o necessário movimento de limpeza moral que tanto urge, dado que ambos já se arrependeram de inquisições e formigas brancas e já nacionalizaram as tendências estrangeiradas que ainda permanecem nalgumas seitas lusitanas dos dias que correm, mesmo entre os banqueiros e bancários.

Abr 12

A lista dos 3 600 bufos, segredos de Estado e sigilo bancário

Os estudiosos das elites ficaram surpresos anteontem, quando o grão-mestre do GOL, o meu amigo António Arnaut, anunciou a existência de um “grande livro dactilografado em formato A4″ que contém informações detalhadas e discriminadas por distritos sobre 3.600 agentes e informadores da antiga polícia política do Estado Novo PIDE/DGS. Segundo o mesmo, “este livro é uma espécie de dinamite porque há muitos agentes e informadores da PIDE que ainda estão vivos. Se fosse divulgado, poderia pôr em risco a paz social e causar uma enorme instabilidade e mal-estar”. O livro foi encontrado nas instalações do Grémio Lusitano e lá foi deixado pelo usurpador das mesmas, o velho salazarismo, através desse seu instrumento para o jogo sujo chamado Legião Portuguesa. Mantido sob o regime de segredo maçónico, não foi, felizmente, remetido, na altura do PREC, para essa entidade estadual chamada comissão de extinção da PIDE-DGS, quando a mesma tinha algumas cumplicidades dominantes com um grupo que tinha fortes ligações de íntima solidariedade internacionalista com o KGB, por considerar Moscovo como “o sol da terra”. O Estado, esse molusco que inventou a PIDE e permitiu que parte dos arquivos da mesma fossem remetidos para a capital da URSS, não é, nestes domínios, uma pessoa de bem. Enquanto não houver um efectivo Estado de Direito, eu, pelo menos, confio mais na Maçonaria e na honradez das pessoas que a têm gerido. Não quero o modelo deste “regime de liberdade” onde ” as corporações ganham muito peso (…), depois têm tanto peso que não se submetem à lei, fazem eles próprios a lei, percebes? Portanto, é o que se passa com a Judiciária, com o Ministério Público, com os juízes, enfim, são os interesses corporativos metidos e portanto isto não decorre de acordo com a legalidade e portanto sabemos disso”, para usar das palavras de um juiz conselheiro, em conversa com uma mediática autarca, em fuga, do partido que está no actual governo. Imagino o que o dr. António Arnaut qualifica como “dinamite”. Não apenas o picante de distintos democratas e altos quadros do actual regime poderem ter o nome impresso no livreco, como também a pouca credibilidade da mesma listagem, cheia de jagunços e contínuos, feitos “olhos e ouvidos” do Senhor Estado, a troco de uma nota de vinte paus ou de uma oleada cunha  do senhor comendador ou do senhor director, onde alguns deles ainda continuam comendadores e directores, por causa da música celestial da demagogia pulhitiqueira e do modelo de governo dos espertos do princípio da legalidade, com que alguns identificam o nome “Estado de Direito”. De qualquer maneira, demonstrar-se-ia como o partido dos bufos era bem maior do que qualquer outro partido português, mantendo a horrorosa tradição inquisitorial. Aliás, considero que a bufaria constitui o pior escarro que nos foi legado pelo salazarismo, a mais requintada forma de repressão existente em Portugal, porque, mesmo depois de eliminados os aspectos exteriores da brutalidade estadual, ela permanece como subsistema de medo. Até se conhecem distintos gestores ministeriais dos bufos de antigamente que continuam no poder, hoje, assentes no mesmo método que até penetrou nalguns segmentos de gestão democrática, principalmente nas zonas corporativas onde os eleitores dependem da nomeação do director e estão profissionalmente dependentes do mesmo director, tanto para a renovação do contrato como para a progressão na carreira. E não faltam os que continuam a ser condecorados pela mesma porcaria, sempre em nome dessa abstracta entidade, chamada Estado, sempre com os mesmos contínuos e os mesmos salamaleques, onde o crime continua a compensar. As garras aduncas das maravilhas e velharias do salazarismo, pintadas de protecção feudal pelos grandes democratas que lhe sucederam em absolutismo, continuam cravadas nalguns dos nossos dorsos, graças a retóricas de mentira e a troca de favores. Porque tanto é bufo o sub-bedel da faculdade que tinha contrato com os pides, como o corrupto mental de hoje que fornece informação à besta reciclada de antigamente que, perfumada com outros títulos e guruzices, vai espalhando o veneno inquisitorial nos passos perdidos dos grandes salões de Estado, de forma cardinalícia. Se a Maçonaria tivesse aberto o livro e o utilizasse como forma de pressão, a ordem mataria com o mesmo ferro com que foi injustamente perseguida. Tenho a certeza que não o fez e a melhor prova disso está na forma publicitada como o grão-mestre denunciou a incómoda situação. Julgo que a coisa deve ser guardada a recato e não me parece que os actuais meandros da fuga ao segredo de justiça por parte das estruturas de apoio do sistema judicial tenham condições para cumprir o respectivo dever. A solução de recurso aos cofres do sistema de sigilo bancário talvez seja o menos mau. Porque o melhor teria sido a loja continuar a guardar a coisa em regime de segredo maçónico, ou até entrar num pacto de dupla vigilância com a Igreja Católica que, ao menos, conseguiu legar ao Estado os processos da Inquisição, com menos danos do que aqueles que afectaram os arquivos da PIDE/DGS. Estes dois seculares representantes de tradicionais valores da nossa sociedade civil, que ainda sabem conjugar a honra com a inteligência, bem poderiam protagonizar o necessário movimento de limpeza moral que tanto urge, dado que ambos já se arrependeram de inquisições e formigas brancas e já nacionalizaram as tendências estrangeiradas que ainda permanecem nalgumas seitas lusitanas dos dias que correm, mesmo entre os banqueiros e bancários.

 

Abr 10

Mal vai o professor que não tenha um aluno que o ultrapasse…

Chegou-me, pela via hertziana, o formoso som de uma gravação recuperada do violoncelo de Guilhermina Suggia e passei para o eterno, descobrindo, pela música, a manhã que ia chegando, aqui dentro, além de mim. Deixei-me mobilizar pelo belo programa que ia ouvindo, numa reportagem sobre o Conservatório de Música do Porto. Até ouvi, da senhora directora, cujo nome não fixei, uma das mais belas definições de professor, que ela terá recebido de um outro professor, segundo a qual “mal vai o professor que não tenha um aluno que o ultrapasse”. Como professor que professa e com o prazer de poder dizer que, em tal missão, realiza aquilo que sempre sonhou ser, assumo a suprema ambição de continuar a ser professor, assim sem mais, como palanques, comissões de serviço, requisições ou nomeações para altos cargos da dirigência escolar, da educacionologia, da avalialogia ou do cunhocentrismo. Apenas direi que, nessas simples e humildes palavras, senti o sinal clássico do vivermos o espírito de escola, de nos sentirmos corrente profunda, desse irmos além de nós que é ensinarmos aquilo que aprendemos, até sentirmos essa plenitude de podermos aprender com os antigos alunos, com os antigos discípulos, sem a lógica suicida dos eucaliptos que não têm a suprema ambição da humildade. Não pode ser mestre quem não sabe ser discípulo, até dos próprios discípulos. Que bom seria que este espírito de serviço comunitário inundasse as escolas, os partidos, os jornais, os sítios todos onde devíamos servir pátria, sem nos servirmos! Ser mais velho é acreditar que vale a pena continuar a esperança de semear…

Abr 09

Os que já não metem medo e perderam os horizontes

Infelizmente, passando os olhos para outros quadrantes, reparamos como muitos outros não sabem colocar-se nos lugares a que têm direito, continuando a brincar ao poder pelo poder, ou procurando controlar a história, através da criação artificial de uma gerontocracia, onde dominam e pedincham aqueles que não sabem que, todos os anos, vão fazendo setenta anos. Desses que não reparam como todas as gerontocracias da viuveira são marcadas pelo drama de tanto não meterem medo como perderem horizontes, mas que, quando caem no vício do poder pelo poder, julgam que ainda metem medo e que ainda têm vistas não curtas. Mas qualquer antropólogo já inventariou a razão que leva as boas sociedades a respeitarem os mais velhos. Quando estes respeitam valores como os da generosidade, do compromisso pela verdade perante um conflito, da opção pela justiça contra a vindicta, da negação da bisbilhotice, do uso responsável do dinheiro, do respeito pelos limites da propriedade, etc… Quando alguém, só pelo facto de ser mais velho apenas instrumentaliza a respectiva imagem para fazer o exacto contrário do que dele esperávamos, entramos no delírio da falta de autenticidade e daquela promiscuidade que nos faz regredir. Reparo que tal parece ser a viciosa tendência para um enferrujamento que afecta a partidocracia lusitana, dependente dos tais ausentes-presentes que utilizam a imagem dos gerontes para a eficácia da vontade de poder.  Quando, na politiqueirice, aquilo que antes de o ser já o era, nessa lutável luta de gigantes entre os notáveis de província e os controladores caciqueiros das cidades, temos de concluir que não conseguimos dar resposta a certos desafios a que apetecia seguir o encanto, não resistindo e seguindo em frente, mistério dentro, sem sabermos o que nos pode suceder no dia seguinte. Especialmente, quando, fartos do torpor, apetecia sermos mobilizados pelo estreito risco de bruma que marca a linha do horizonte.

Abr 08

A Europa dos impérios frustrados

Portugal já tinha saudades dos vibrantes discursos de Pedro, honra lhe seja, dado que começamos a perder a ajuizada vontade do pensar difícil, especialmente quando reparamos que o máximo de socialismo e de catolicismo coincidem nos que também representam o máximo de financismo e de filosofismo, nessas comunicativas personalidades do que está e do que estava, discordando no acordo de serem as duas faces da mesma moeda situacionista. Por isso, poucos se dão conta de debates como o francês, bem como das reuniões cimeiras do rolo compressor da Europa do directório, dessa federação de impérios frustrados que pretendem disciplinar os pequenos e médios Estados que ameaçam escapar ao controlo. Com efeito, a questão europeia só em Portugal é que não está na agenda. Porque começa a tornar-se prepotente este pretenso europeísmo de certos centros estaduais antinacionais, conformados pelas memórias de Napoleão ou pelos II e III Reich, esse métodos carolíngios ou bismarckianos, mais ou menos apoiados pelo vaticanismo que, depois de aprenderem com os erros das derrotas que lhes foram inflingidos pelas coligações negativas das resistências anti-imperiais, trataram de usurpar as boas intenções de Schuman e de Monnet, decretando agora tal europeísmo oficioso tão estreito e falsificador como a única maneira de podermos ser europeístas. Reclamando a vitória sobre o sovietismo, conseguiram instrumentalizar, à esquerda e à direita, o grande Bloco Central do interesses, os do Partido Socialista Europeu e do Partido Popular Europeu, bem como os dos neocorporativismoss sindicais e patronais. E, por ironia do destino, parece que as liberdades nacionais estão dependentes do chauvinismo francês que, a pretexto de Frankenstein ou lá o que é… e da recusa de adesão da Turquia, pode, através do “não”, dar aos europeus aquele necessário tempo de pausa que impeça a adopção de certas tolices gnósticas, emitidas pelo grupo capitaneado pelo senhor Valéry Giscard d’Estaing. O que seria uma notícia tão excelente quanto a que permitiu, outrora, a rejeição da UEO. Com efeito, o egotismo gaulês pode, paradoxalmente, permitir que se reformulem as actuais palas do projecto europeu dominante. Porque uma Europa que passe a depender, para o “sim” ou para o “não”, de uma votação conjuntural de mais um, ou de menos um, por cento, é uma Europa que deixa de assentar no necessário vasto consenso ou de uma votação por maioria qualificada. Fazermos depender um passo estrutural dessa dimensão da vontade de uma maioria conjuntural e relativíssima significa que passamos a andar a reboque de uma simples “vontade de todos” e não da necessária “vontade geral”. Por outras palavras, todos os nossos destinos comuns passam a depender de um breve fio de linho, onde tudo varia de acordo com dois ou três sinais de oportunismo reivindicativo e de um complexo de barganhas que pode pôr em perigo o método do sufrágio universal. Ninguém pode construir pátrias, ou grandes espaços marcados pela supranacionalidade, através desses passos de uma mágica aparelhística e eleitoralista. Ganhe o “não” ou o “sim”, no próximo referendo francês, já todos perdemos. E perderemos ainda mais se, como é previsível, soarem as trombetas épicas do euro-entusiasmo ou do euro-cepticismo. Porque, na imediata curva do caminho, o que se decidir num ou noutro sentido pode des-decidir-se meses depois, conforme se satisfaçam, ou não, as reivindicações instrumentalizadoras da ida às urnas, como já aconteceu com a compra de votos, depois do primeiro não dinamarquês a Maastricht. Aliás, se se impusesse um patamar mínimo de participação para a validação dos referendos, poderíamos concluir por uma eventual maioria de indiferentistas, bem superior aos euro-entusiastas ou euro-cépticos. Por outras palavras, tendemos cada vez a sermos cada vez menos euro-calmos, assentes numa contraditória gestão de geometrias variáveis, pouco interessadas na aplicação do princípio da subsidiariedade, quando este reforça os modelos de manutenção das autonomias nacionais.

Abr 08

Andam por aí inúmeros seres de intolerância

Andam por aí inúmeros seres de intolerância que me vão arrepelando a alma, desde jacobinos não reciclados, militantemente anti-religião, muitos pelos complexos e frustrações qye receberam em seminários e colégios religiosos, a permanentes ratos de sacristia, pintados de beatos. Ambos assumem a espionite da viperina língua, não disfarçando os salamaleques da diplomacia do croquete dos que se entretêm a espalhar o veneno da intriga neopidesca. E lá nos vamos estreitando em pedinchice de uma barataria que nos reduz a um entupido portugalório. Há muitas capelinhas que preferem actuar pela calada dos passos perdidos. Há muitos que continuam a fabricar aquelas cumplicidades que lhes permitiram ganhar a vida como pretensos donos daquilo que formalizam como inteligência, mas que assumem a intolerância típica dos inquisidores e sargentos da censura. Há muitos que apenas toleram que sejam eles próprios os fabricantes da intolerância, da difamação e do insulto. E ai de quem ousar pisar-lhes as calosidades opinativas, rejeitando seguir-lhes os ditames que emitem sobre a partidocracia que os protege e prebenda, ou ofender-lhes os meandros apoiantes do respectivo benefício situacionista. Têm sempre disponível matilhas de raivosos canídeos, que logo ribombam num eco multitudinários do mata e esfola. Claro que, graças às barrosadas e portadas de quem fostes servidores, atentos, reverendos e obrigados, haveis ido daquela para outra melhor, bem cobertos misticamente, e melhor subsidiados bancariamente, para que se cumprissem os objectivos da criação da tal direita que convém à esquerda. Vós sois os eternos críticos e oficiosos biografadores daqueles que, em troca, vos elogiam, irmanados que estais no sindicato das citações mútuas, nesses doces enlevos que vos fizeram encartados homens de cultura. Até esperais que mais doce ainda possa ser a vossa caminhada no “cursus honorum” das barretices e borladas de capelo olímpico, que vos hão-de doirar em retratos a óleo na sala de estar e em muitos bustos com ar de brutos. Porque, como cães de fila e vozes de dono, nunca passareis de engraxadores do ditirambo, visando subir mais alto, aos etéreos vértices donde, finalmente, podereis clamar o “cheguei, vi e venci”. Pois, continuai a falar em doutrinas como justificação para o insulto e a mentira, como outros disseram pátria e humanidade, para disfarçarem crimes de assasinato físico e moral. Eu não me calarei, enquanto a voz puder ser comunicada aos outros. Apenas me apetece recordar uma bela frase de Henrique Paiva Couceiro: “vocês não imaginam o quanto trabalho me deu na vida continuar pobre”.

Abr 08

A Europa dos impérios frustrados

Portugal já tinha saudades dos vibrantes discursos de Pedro, honra lhe seja, dado que começamos a perder a ajuizada vontade do pensar difícil, especialmente quando reparamos que o máximo de socialismo e de catolicismo coincidem nos que também representam o máximo de financismo e de filosofismo, nessas comunicativas personalidades do que está e do que estava, discordando no acordo de serem as duas faces da mesma moeda situacionista. Por isso, poucos se dão conta de debates como o francês, bem como das reuniões cimeiras do rolo compressor da Europa do directório, dessa federação de impérios frustrados que pretendem disciplinar os pequenos e médios Estados que ameaçam escapar ao controlo. Com efeito, a questão europeia só em Portugal é que não está na agenda. Porque começa a tornar-se prepotente este pretenso europeísmo de certos centros estaduais antinacionais, conformados pelas memórias de Napoleão ou pelos II e III Reich, esse métodos carolíngios ou bismarckianos, mais ou menos apoiados pelo vaticanismo que, depois de aprenderem com os erros das derrotas que lhes foram infligidos pelas coligações negativas das resistências anti-imperiais, trataram de usurpar as boas intenções de Schuman e de Monnet, decretando agora tal europeísmo oficioso tão estreito e falsificador como a única maneira de podermos ser europeístas. Reclamando a vitória sobre o sovietismo, conseguiram instrumentalizar, à esquerda e à direita, o grande Bloco Central do interesses, os do Partido Socialista Europeu e do Partido Popular Europeu, bem como os dos neocorporativismoss sindicais e patronais. E, por ironia do destino, parece que as liberdades nacionais estão dependentes do chauvinismo francês que, a pretexto de Frankenstein ou lá o que é… e da recusa de adesão da Turquia, pode, através do “não”, dar aos europeus aquele necessário tempo de pausa que impeça a adopção de certas tolices gnósticas, emitidas pelo grupo capitaneado pelo senhor Valéry Giscard d’Estaing. O que seria uma notícia tão excelente quanto a que permitiu, outrora, a rejeição da UEO. Com efeito, o egotismo gaulês pode, paradoxalmente, permitir que se reformulem as actuais palas do projecto europeu dominante. Porque uma Europa que passe a depender, para o “sim” ou para o “não”, de uma votação conjuntural de mais um, ou de menos um, por cento, é uma Europa que deixa de assentar no necessário vasto consenso ou de uma votação por maioria qualificada. Fazermos depender um passo estrutural dessa dimensão da vontade de uma maioria conjuntural e relativíssima significa que passamos a andar a reboque de uma simples “vontade de todos” e não da necessária “vontade geral”. Por outras palavras, todos os nossos destinos comuns passam a depender de um breve fio de linho, onde tudo varia de acordo com dois ou três sinais de oportunismo reivindicativo e de um complexo de barganhas que pode pôr em perigo o método do sufrágio universal. Ninguém pode construir pátrias, ou grandes espaços marcados pela supranacionalidade, através desses passos de uma mágica aparelhística e eleitoralista. Ganhe o “não” ou o “sim”, no próximo referendo francês, já todos perdemos. E perderemos ainda mais se, como é previsível, soarem as trombetas épicas do euro-entusiasmo ou do euro-cepticismo. Porque, na imediata curva do caminho, o que se decidir num ou noutro sentido pode des-decidir-se meses depois, conforme se satisfaçam, ou não, as reivindicações instrumentalizadoras da ida às urnas, como já aconteceu com a compra de votos, depois do primeiro não dinamarquês a Maastricht. Aliás, se se impusesse um patamar mínimo de participação para a validação dos referendos, poderíamos concluir por uma eventual maioria de indiferentistas, bem superior aos euro-entusiastas ou euro-cépticos. Por outras palavras, tendemos cada vez a sermos cada vez menos euro-calmos, assentes numa contraditória gestão de geometrias variáveis, pouco interessadas na aplicação do princípio da subsidiariedade, quando este reforça os modelos de manutenção das autonomias nacionais.