Out 22

Arcontes, areópago e democracia, neste tempo em que os senadores passam a gerontes

O Ilustre Conselheiro, mas de Estado e de Cavaco, Marcelo Rebelo de Sousa, na véspera do Conselho Nacional do PSD, foi aos “gatos” dizer que não gosta de ringue nem de boxe. Diz preferir um conselho de gerontes a um conselho nacional. Todos reconheceram que ele sabe como poucos conquistar e manter o poder, sobretudo num tempo onde quem tem o poder concentracionariamente é quem tem o monopólio da palavra. Porque o chefe é o único que fala e ele é chefe integral se puder dizer, do vassalo, mentiras descaradas, negando-lhe o direito de audiência prévia e propalando, com má fé, registos truncados e indecorosos. E quem lhe diz que sim assume colectivamente a infâmia. Não é assim que o povo pode ser quem mais ordena.

Talvez importe recordar os tempos pré-democráticos de Atenas. Quando a aristocracia ateniense dos eupátridas substituiu a realeza e se instituiu um magistrado eleito, o arconte, de nomeação vitalícia, que tinha a anterior autoridade do rei, mas que era responsável perante os respectivos eleitores.
Aliás, durante a fase monárquica, entre os magistrados, para além do rei (basileus) que preside aos sacrifícios, há o polemarca, que dirige as operações militares, e o arconte propriamente dito, o que administra a justiça. Os três eram conhecidos como arcontes.
Passam, depois, a ser escolhidos por dez anos, sendo ajudados por seis outros magistrados, constituindo estes nove o colégio dos arcontes. Numa primeira fase são apenas sorteados, mas, apartir de 487-486 a.C. são formalmente eleitos.
Cabe a Sólon instituir o areópago para substituir o colégio dos arcontes. Com Clístenes, é instituído um segundo conselho, a boulè dos Quinhentos que, a partir de 461 a.C., retira muitas funções ao areópago, o qual fica reduzido a mera missão religiosa e de salvaguarda das instituições. Os adversários da democracia defendem de tal maneira o revigoramento da instituição que passam a ser conhecido comos os areopagitas. Voltarmos ao tempo de há vinte e cinco séculos é mau culto que se presta aos fundadores e mera antropologia ultrapassada, em torno dos chamados primitivos actuais.

Out 21

Embebedei-me de metafísica e descobri muitas semelhanças entre Saramago e a Irmã Lúcia…não é ironia, mas justeza meritocrática

Alguém pode ter vergonha de ter algum outro como compatriota. E até aceitar que, a coberto da liberdade de expressão, se emitam palavras que a mesma liberdade de expressão permite qualificar como imbecilidades e impropérios. Mas nunca um excelente eurodeputado sobre outro cidadão europeu, por acaso, um dos nossos mais excelentes escritores, que até vai ser imortalizado na Casa dos Bicos. Uma das consequências da liberdade religiosa é o direito à manifestação do ateísmo. Isto é, não deve ser proíbido, ou condicionado, o discutir Deus, tal como deve haver estímulo à procura do infinito e logo de Deus e dos deuses. O progresso é crescer para cima e para dentro. O homem é o único animal que sabe que vai morrer e que pode escolher entre Deus e o Diabo… Há uma pequena bíblia da religião secular de Portugal emitida no século XX, a “Mensagem” de Fernando Pessoa. Tal como os outros livros sagrados, há que ter altura simbólica para a interpretar. Desmistificar nunca foi de-mitificar. Até Saramago não consegue ser interpretado por ele próprio. É a outra face da moeda do segredo da irmã Lúcia. E estão os dois na mesma altura do metafísico… Diabo, do grego diabolos, isto é, aquele que separa. Etimologicamente, aquele que separa um homem face a outro homem e aquele que o separa de Deus. Não é o diabo-papão dos catecismos, mas aquela escolha que a nossa liberdade permite fazer, ao contrário do que acontece aos restantes animais. Só os homens têm Deus e o Diabo. E às vezes, quem quer ser anjo é que mais depressa se torna diabo, porque escolhe organizadamente o mal pelo mal, através de uma decisão moral. Pobre Lobo, nunca praticou genocídio e democídio…

Out 20

Prós e Contras

TERÇA-FEIRA, 20 DE OUTUBRO DE 2009

Prós e Contras: O Futuro de Portugal

«(A sociedade portuguesa) é obscena em produzir e exibir indecorosamente uma abundância sufocante de mercadorias, ao mesmo tempo que priva largamente as suas vítimas da satisfação de necessidades vitais; obscena em atulhar-se a si própria de bens, enquanto as latas dos seus desperdícios envenenam o mundo dos explorados; obscena nas palavras e nos sorrisos dos seus políticos; obscena nas suas orações, na sua ignorância e na sabedoria dos intelectuais que tolera». (Herbert Marcuse)

Hoje (19 de Outubro) debateu-se o futuro de Portugal. O debate moderado por Fátima Campos Ferreira contou com a presença de seis convidados: António Marinho Pinto (Bastonário da Ordem dos Advogados), António Saraiva (CIP), José Adelino Maltez (Educação), Fernando Ulrich (BPI), Júlio Pedrosa (Educação) e Fernando Nobre (AMI).

Um debate sereno e aparentemente muito consensual, sem grandes divergências de fundo: todos os participantes estavam de acordo quanto à necessidade de o próximo governo de José Sócrates poder governar durante os quatro anos de legislatura para fazer face aos desafios que a crise económica coloca, nomeadamente a resolução dos problemas do desemprego (9,1 %) e da pobreza. A crise ainda não terminou e, por isso, é necessário que o governo tenha estabilidade e saiba negociar e ceder quando necessário para não criar uma situação de ruptura com as oposições e as organizações da sociedade civil (Fernando Ulrich). A superação da crise constitui um imperativo nacional e todos os portugueses devem ser mobilizados para ajudar o governo a superá-la: os resultados eleitorais indicam que os portugueses desejam compromissos entre as forças políticas, tendo em vista a superação da crise. A crise exige que se estabeleça uma agenda de prioridades: arrumar o tecido empresarial português (António Saraiva), apoiar as empresas que souberam criar empregos e preparar-se para as exportações (Fernando Ulrich), acabar com a hipocrisia e combater a corrupção (Adelino Maltez), valorizar o trabalho e não apenas o capital (Marinho Pinto), combater a pobreza (Fernando Nobre) e a desertificação (Adelino Maltez) e, acima de tudo, ter coragem para implementar reformas da justiça (Marinho Pinto). Além do combate à pobreza e à corrupção como estratégia de desenvolvimento económico, a reforma da justiça foi a prioridade que mereceu mais atenção. Em Portugal, a justiça funciona muito mal e este disfuncionamento irracional da justiça bloqueia a próprio desenvolvimento económico, social e cultural. A existência de sindicatos nas magistraturas constitui uma anomalia (Marinho Pinto), não só porque os magistrados se comportam como divindades (Marinho Pinto) ou vacas sagradas (Adelino Maltez), mas também porque os sindicatos esquecem que as magistraturas são órgãos de soberania que devem respeitar os outros poderes do Estado – o executivo e o legislativo -, sem terem uma agenda política própria. A guerra civil que opõe os magistrados ao Estado deve ser debelada, através da implementação de novos modelos susceptíveis de submeter os magistrados a uma avaliação não-corporativista. No fundo, se os magistrados se comportam como vacas sagradas, como disse Adelino Maltez, é necessário dessacralizar o seu poder e o modo de funcionamento do sistema judicial. A cultura da responsabilidade, do rigor, da transparência e da competitividade deve ser fomentada em todas as esferas da vida nacional.

Júlio Pedrosa reformulou a questão do futuro de Portugal em termos de definição do tipo de sociedade em que queremos viver. Esta reformulação implicou o surgimento de divergências. Geralmente, as pessoas dizem desejar conservar o modelo social, mas, como observou Fernando Nobre, a crise que ameaçou colapsar o mundo exigecorrecções substanciais do sistema capitalista, até porque o modelo neoliberal de economia de mercado confiante nas suas próprias virtudes internas caminhava numa direcção contrária ao modelo social europeu. A sociedade portuguesa é obscena em produzir pobreza e miséria crescentes e em agravar as desigualdades sociais e a exclusão social(Fernando Nobre). Coube a Fernando Ulrich e a Júlio Pedrosa fazerem a apologia do “regime democrático” estabelecido, alegando que a sociedade portuguesa progrediu muito depois do 25 de Abril. Porém, ninguém duvida disso: o que foi lamentado é o facto da sociedade portuguesa não ter sabido resolver os seus problemas sociais. A pobreza é um facto visível. A questão do optimismo e do pessimismo não pode ser colocada em termos abstractos: Fernando Nobre confessou que era um optimista informado – muito preocupado com as mudanças climáticas – e Adelino Maltez afirmou que precisamos de factos e não de discursos hipócritas. Para resolver os problemas estruturais da sociedade portuguesa, precisamos mudar de atitude e institucionalizar o conflito(Adelino Maltez), ou melhor, mudar de paradigma (Fernando Nobre). O combate à pobreza que se instalou no Norte, talvez devido às políticas centralistas, pode ser encarado como uma estratégia de desenvolvimento nacional, na medida em que visa aumentar o mercado interno. Porém, as associações empresariais não querem aumentar o salário mínimo nacional (António Saraiva): os empresários portugueses comportam-se como patrões (Adelino Maltez) e não como criadores de empregos, comportamento este que justifica a valorização do trabalhodefendida por Marinho Pinto. A economia de mercado precisa de correcções e de regulações: eis a lição da actual crise económica que não pode ser esquecida. O governo deve mobilizar os portugueses em torno de causas nacionais, uma das quais é precisamente a mudança de paradigma social. Regulação da economia, repovoamento do território, reflorestamento, preocupação ecológica, nova cultura empresarial, nova cultura do trabalho, descentralização, regionalização, preocupação com a qualidade da educação, aproveitamento das nossas riquezas marítimas, turismo diversificado, luta contra a pobreza e a corrupção, fortalecimento da agricultura e do tecido industrial, autonomia energética, aprofundamento das nossas ligações culturais com as zonas do mundo que falam e pensam em português, enfim maiorracionalização: eis algumas propostas de mudança social que podem mobilizar os portugueses.

J Francisco Saraiva de Sousa

Out 19

Humanismo precisa-se!

Humanismo precisa-se! Já chega de gastarmos o nosso dinheiro, não em mal-educados, mas, pior que isso, em deseducação! Moçambique: FRELIMO vai obter retumbante vitória. Angola: MPLA foi esmagador. Por cá, onde Sampaio não se recandidata e donde emigram cem licenciados por mês, há 80% das contrapartidas dos fabricantes de armas que são pólvora seca, para o vivório e foguetório dos que percebem o negócio e sabem discursar. O Zé paga. Os comissionistas certamente receberam e não protestam. Por mim, voltava ao serviço militar obrigatório, numas forças armadas à maneira helvética, conforme chegou a ser a proposta do governo provisório da República. Agora já deve ficar mais barato, face às chamadas contrapartidas por cobrar. E vertebraria civicamente esta fuga à espinha dorsal da desertificação do país e de desmilitarização da tropa… Vida velha, governo novo. Espero que os jornais não saibam antes do presidente. Porque todos os ministeriáveis já devem ter recebido o convite. Apenas desejo que não se trate de uma simples remodelação.  Sarkozy propõe a castração química para certos crimes. Um milhão de pessoas nas ruas de Madrid contra uma causa fracturante. Bloco liderado por um apregoado católico apresenta sinal de lei pouco católica. Bento XVI prepara-se para visitar Fátima. A cerimónia não deve integrar-se no programa comemorativo do centenário do 5 de Outubro, mas no de sete anos depois, do 13 de Maio, se ainda houver lugar, nesse tempo de apocalipse. E um português emigrante ficou morto na poltrona da multidão solitária, durante dois anos. Cometia o erro de pagar a renda através de transferência bancária.. Deste vencer que é ser vencido se faz o quarto de hora que antecede a emergência do coveiro, quando muitos jogam às escondidas, na compra e venda do poder pelas imensas chefaturas que se ensarilham nos próprios mecanismos com que nos quiseram tramar… Saramago vem dizer o que muitos, há muito, pensam. Para quem não é ateu nem agnóstico, como este receptor das palavras do Nobel, apenas importa reconhecer que tais punhais corrosivos não deixam de ser metafísicos. Vou já reler as “Confissões de …um Homem Religioso” de Régio, porque reparei no riso de Deus, e dos deuses, que o autor de “Caim” provocou PS: Continuo sem responder às provocações dos ilustres cães e cadelitas que me acusam de “avençado” do situacionismo. Sugiro que façam essa denúncia junto da Direcção-Geral dos Impostos e verão que recebo tanto pelas intervenções públicas quanto pelas palavras que semeio neste blogue. Porque todas elas são uma extensão da actividade de professor também público. Agradecia aos donos dos ditos, que até blogues em cadeia emitem, algum cuidado com tais matilhas, pois o feitiço costuma voltar-se contra o feiticeiro e poderão ser vossas próprias canelas as próximas vítimas.

Out 19

E Deus, com todos os deuses, se desataram a rir!

Cavaco quebrou o silêncio e falou em “sistemas de educação e formação”. A quase extinta ministra da educação falou em “qualidade das aprendizagens”. Disse tudo o que era o respectivo programa: extinção do ministério da educação e sua substituição pelo ministério da aprendizagem. Humanismo precisa-se! Já chega de gastarmos o nosso dinheiro, não em mal-educados, mas, pior que isso, em deseducação!

Moçambique: FRELIMO vai obter retumbante vitória. Angola: MPLA foi esmagador. Por cá, onde Sampaio não se recandidata e donde emigram cem licenciados por mês, há 80% das contrapartidas dos fabricantes de armas que são pólvora seca, para o vivório e foguetório dos que percebem o negócio e sabem discursar. O Zé paga. Os comissionistas certamente receberam e não protestam.

Por mim, voltava ao serviço militar obrigatório, numas forças armadas à maneira helvética, conforme chegou a ser a proposta do governo provisório da República. Agora já deve ficar mais barato, face às chamadas contrapartidas por cobrar. E vertebraria civicamente esta fuga à espinha dorsal da desertificação do país e de desmilitarização da tropa…

Vida velha, governo novo. Espero que os jornais não saibam antes de Cavaco. Porque todos os ministeriáveis já devem ter recebido o convite. Apenas desejo que não se trate de uma simples remodelação.

O comendador Marques de Correia, um heterónimo de que todos conhecem o ortónimo, acaba de elaborar o projecto de dissertação sobre grupos de pressão da actual encruzilhada, anunciando o governo efectivo de Portugal. Revista Única do Expresso, p. 114. Ei-los, sem indicação de pasta:

BES, BCP, eduquês inteligente (onde já não há Veiga Simão), BSSantos, Mota-Engil, Lena, Visabeira, PT/BES, António Costa, Joe Berardo, EDP, António Costa, Grupo Caixa, Grupo Mello, Jaime Gama, ou o vazio de diplomatas, generais e almirantes, com José Sócrates a mandar na federação.

Sarkosy propõe a castração química para certos crimes. Um milhão de pessoas nas ruas de Madrid contra uma causa fracturante. Bloco liderado por um apregoado católico apresenta sinal de lei pouco católica. Bento XVI prepara-se para visitar Fátima. A cerimónia não deve integrar-se no programa comemorativo do centenário do 5 de Outubro, mas no de sete anos depois, do 13 de Maio, se ainda houver lugar, nesse tempo de apocalipse. E um português emigrante ficou morto na poltrona da multidão solitária, durante dois anos. Cometia o erro de pagar a renda através de transferência bancária..

Deste vencer que é ser vencido se faz o quarto de hora que antecede a emergência do coveiro, quando muitos jogam às escondidas, na compra e venda do poder pelas imensas chefaturas que se ensarilham nos próprios mecanismos com que nos quiseram tramar…

Saramago vem dizer o que muitos, há muito, pensam. Para quem não é ateu nem agnóstico, como este receptor das palavras do Nobel, apenas importa reconhecer que tais punhais corrosivos não deixam de ser metafísicos. Vou já reler as “Confissões de …um Homem Religioso” de Régio, porque reparei no riso de Deus, e dos deuses, que o autor de “Caim” provocou
PS: Continuo sem responder às provocações dos ilustres cães e cadelitas que me acusam de “avençado” do situacionismo. Sugiro que façam essa denúncia junto da Direcção-Geral dos Impostos e verão que recebo tanto pelas intervenções públicas quanto pelas palavras que semeio neste blogue. Porque todas elas são uma extensão da actividade de professor também público. Agradecia aos donos dos ditos, que até blogues em cadeia emitem, algum cuidado com tais matilhas, pois o feitiço costuma voltar-se contra o feiticeiro e poderão ser vossas próprias canelas as próximas vítimas.

Out 16

A chamada casa da democracia reabriu ontem

Tudo como dantes sem ser palha de Abrantes, mas com muitas escleroses de brigadas do “yes minister”. No Portugal Contemporâneo, é o 76º parlamento, para o 126º governo, depois de cerca de 200 golpes de Estado, 5 revoluções, 8 reis e 8 presidentes eleitos pelo povo, em cima de 13 233 dias de Salazar quia. Os cinco partidões parlamentares entraram ontem em São Bento como se estivessem na fila para a inspecção militar numa direcção-geral que os funcionaliza em soldados rasos. E não repararam como a cerimónia de unidimensionalização estava quase a ser transmitida em directo… Poucos observaram que já não há esquerda nem direita no hemiciclo, mas um partido dito de esquerda que é do centro e vai governar à direita e que dominam os chamados bonzos, acicatados por endireitas e canhotos, transformados em simples satélites do centrão. O socratismo acabou, o gamismo continua. Raros notaram que as decadências em Portugal duram que se fartam. Têm o tempo do estertor do rotativismo, ou da nova república velha depois do sidonismo, ou do salazarismo depois das eleições Delgado. Porque todos os partidos pós-revolucionários são meras federações de grupos de interesse e de pressão em equilíbrio instável. Só o sentimento predador face ao poder os unidimensionaliza… Todos os grandes partidos são pilha-tudo, entre o unipessoal dos comandos e a ilusão das mobilizantes candidaturas presidenciais, perdendo a funcionalidade, onde, quanto menos maiorias absolutas, maior será a hierarquização face aos directórios partidários… Qualquer cidadão que sofra as agruras de qualquer um dos microcosmos da mesa do orçamento sabe de experiência sofrida que a crise de mobilização para bem comum nos encarquilha. Qualquer dos que ainda vivem encantados percebe que a falta de organização do trabalho nacional é provocada pela tradicional ditadura da incompetência que se apoderou dos organigramas e das chefias das ferocidades reformadoras da nossa decadência. Acontece a São Bento o que está a suceder em autarquias, direcções-gerais, escolas e quartéis. Todos vivem entre a renúncia e a greve de zelo, como antes do 25 de Abril de 1974, quando também dominava o ambiente de estado a que chegámos… Prefiro o Salgueiro Maia!

Out 16

numa folha de papel em branco, uma linha recta perfeita

Claro que nunca sou capaz de desenhar, numa folha de papel em branco, uma linha recta perfeita. Claro que, por isso, recorro a instrumentos de aperfeiçoamento, como as réguas (regras, em sentido etimológico) e os esquadros (normas). Claro que sei que tanto o Estado como o Direito são meros normativos. Especialmente quando o Estado deixou de ser Razão de Estado e passou a ser Estado-Razão e o Direito passou do Decreto do vertical absolutismo à Lei vinda do Povo. Até porque também nunca houve Povo e, conquentemente, Democracia. Não houve nem vai haver. Ontem e hoje. Aqui e em qualquer lado, onde haja o dever-ser que é e esse transcendente situado, a chamamos justiça e que não se confunde com o burocrata que diz ser ele esse serviço em figura humana. Mas o aparecimento do Estado resultou de uma operação de juridificação da política, quando deu direito a uma sociedade senhorial e civilizou uma comunidade guerreira, assumindo-se como o direito contra o poder, a paz contra a guerra. É um pouco de filosofia política, para enriquecimento cultural de sociólogos-ministros. O Estado de Direito resultou de uma dupla operação : – juridificação da política – e constitucionalização do poder. Deu direito a uma sociedade senhorial; civilizou uma comunidade guerreira citações de minha mestra Blandine, que é francesa, judia e tudo). O Estado de Direito equivale à velha expressão de Plínio, dirigindo-se a Trajano, quando aquele proclamava que inventámos um Príncipe para deixarmos de ter um dono. Para, em vez de continuarmos a obedecer a outro homem, podermos passar a obedecer a uma abstracção, utilizando as categorias de Georges Burdeau. O Estado de Direito não é o império da lei, de acordo com essa tradução em calão que muitos fazem de “rule of law”. Porque “law” não é direito, nem “rule” é império. Acima da lei está o direito. Acima do direito está a justiça. E nem sequer a lei é ordem ditada de cima para baixo. Nem por uma maioria absoluta. Descendo à terra ensopada pela necessária chuva de Novembro, vi outra coisa no plano do normativo. As declarações de Vieira da Silva sobre espionagem política são pior emenda que o soneto. Tenham calma, governantes! Ai de nós se os processos mais mediáticos em curso transformarem o Primeiro-Ministro num dilatório de apitos dourados e campanhas negras. Atingiremos o grau zero da futebolítica! Aqui não há Mafia como na Itália. Nem terrorismo como em Espanha. É tudo um problema de competência, ou de falta dela… Não foi aqui que o processo das FP teve a mesma polícia, a mesma magistratura, o mesmo governo e a mesma presidência, como instituições? O juiz mais em evidência até não era simpatizante do principal arguido? Que raio de vírus afectou os aparelhos? Depois, foi Berardo, uma visão anunciadora da nossa salvação. Segundo o comendador, petróleo não há apenas no Beato, é de Norte a Sul, mais do que no tal reino da Dinamarca, onde havia coisas pôdres. Até os ingleses, segundo tal paradigma de moral pública, já são mais inteligentes do que nós, ao arquivarem o Freeport. Consta que os sul-africanos ainda são mais inteligentes… Chegou, depois, o ministro das forças armadas. E para Santos Silva, a líder da oposição, num discurso parlamentar verdadeiramente oposicionista, fez chantagem sobre o poder judicial. Ele, como ministro da defesa nacional, ao usar o heterónimo do Largo do Rato e ao pedir a condenação de polícias e magistrados judiciais e do Ministério Público, face a um processo em curso, não fez chantagem. Tecnicamente apenas “pressionou” a partir do vértice do estadão… Depois deste exemplo de “majestas” ministerial, fui reler as belas páginas de Camilo Castelo Branco sobre “O Perfil do Marquês de Pombal”. Afinal, Sebastião José já voltou do desterro e, ao que parece, sempre foi defensor do “Estado de Direito e da democracia liberal”. Reli também o belo processo dos Távoras… O ministro da defesa nacional veio assumir a suprema missão de mero defensor de quem o nomeou. Louvou, no caso da Casa Pia, que a justiça já tivesse resolvido o problema de políticos suspeitos, mas não teve uma palavra para defender as vítimas da pedofilia. Desta, pediu que se processassem os que escutaram, nada clamou contra os corruptos. A hierarquia tornou-se evidente. Foi pena. Uns qualificam certas fugas como espionagem política, mas não se lamentam das outras, e vice-versa. É campanha contra campanha. Valeu-nos que, à noite, Queiroz deu um zero à Bósnia, homenageando a balcanização… Mas STJ e PGR parece que se entenderam. Há uma sucessão de episódios que não reforçam a nossa dignidade. O primeiro-ministro diz que não quer contribuir para isso. O líder do PS não pode dizer o mesmo. Uma questão de heterónimos que confundem propaganda e discurso de justificação com o estadão.

 

Out 16

Novas cenas do processo de madailização em curso

A chamada casa da democracia reabriu ontem. Tudo como dantes sem ser palha de Abrantes, mas com muitas escleroses de brigadas do “yes minister”. No Portugal Contemporâneo, é o 76º parlamento, para o 126º governo, depois de cerca de 200 golpes de Estado, 5 revoluções, 8 reis e 8 presidentes eleitos pelo povo, em cima de 13 233 dias de salazarquia.

Os cinco partidões parlamentares entraram ontem em São Bento como se estivessem na fila para a inspecção militar numa direcção-geral que os funcionaliza em soldados rasos. E não repararam como a cerimónia de unidimensionalização estava quase a ser transmitida em directo…
Poucos observaram que já não há esquerda nem direita no hemiciclo, mas um partido dito de esquerda que é do centro e vai governar à direita e que dominam os chamados bonzos, acicatados por endireitas e canhotos, transformados em simples satélites do centrão. O socratismo acabou, o gamismo continua.
Raros notaram que as decadências em Portugal duram que se fartam. Têm o tempo do estertor do rotativismo, ou da nova república velha depois do sidonismo, ou do salazarismo depois das eleições Delgado. Porque todos os partidos pós-revolucionários são meras federações de grupos de interesse e de pressão em equilíbrio instável. Só o sentimento predador face ao poder os unidimensionaliza…
Todos os grandes partidos são pilha-tudo, entre o unipessoal dos comandos e a ilusão das mobilizantes candidaturas presidenciais, perdendo a funcionalidade, onde, quanto menos maiorias absolutas, maior será a hierarquização face aos directórios partidários…
Qualquer cidadão que sofra as agruras de qualquer um dos microcosmos da mesa do orçamento sabe de experiência sofrida que a crise de mobilização para bem comum nos encarquilha. Qualquer dos que ainda vivem encantados percebe que a falta de organização do trabalho nacional é provocada pela tradicional ditadura da incompetência que se apoderou dos organigramas e das chefias das ferocidades reformadoras da nossa decadência. Acontece a São Bento o que está a suceder em autarquias, direcções-gerais, escolas e quartéis. Todos vivem entre a renúncia e a greve de zelo, como antes do 25 de Abril de 1974, quando também dominava o ambiente de estado a que chegámos… Prefiro o Salgueiro Maia!

Out 15

A veneranda figura da nossa decadência

Crise? Qual crise? A veneranda figura foi esmagadoramente reeleita pelo colégio. O governo vai governar melhor do que quando tinha maioria absoluta. Carlos Queirós vai levar-nos ao Mundial. O mundo gira, o situacionismo roda! Temos o parlamento, o governo, os magistrados e o presidente que queremos e merecemos. Por mim, prefiro continuar contra o processo de madailização em curso.
O regime de presidencialismo de primeiro-ministro que agora se encena
Há sinais de regresso do regime ao presidencialismo de Primeiro-Ministro, face ao vazio intervencionista do actual vértice de Estado, dado que Belém parece estar condenado a poder usar a bomba atómica da dissolução, como Sampaio, ou a servir de pretexto para os cenários marceleiros das candidaturas presidenciais.
Portas deve sentir-se tentado a curtocircuitar o cavaquismo, com ou sem Cavaco, mas Sócrates apenas deve querer comprar um orçamento “zapatero”. Os prazos são curtos em demasia, porque o líder do PS, há tempos, ainda poderia leiloar o anterior lugar de Jaime Gama. Seria uma boa saída tanto para Portas como para Manuela Ferreira Leite, face ao abandono precoce de Alegre…
Lá ouvi os “dez mandamentos” do caderno de encargos de Portas. Tivemos mais uma peça de um complexo teatro de Estado, cujo guião ainda está em processamento compromissório, com proibição de palavras como coligação ou acordo parlamentar. Porque o género consenso tem muitas espécies de balança de poderes, com os inevitáveis travões e aceleradores da arte do tecelão…
Harmonia é concórdia dos cânones discordantes e até pode produzir sinfonia. Nem é necessário retomar a memória do segundo governo de Mário Soares, o do FMI, que apenas tinha ministros de Freitas do Amaral, a título individual. Hoje a música é outra, mas a vontade de poder o mesmo de justificar o nome dos meios em nome de celestiais fins.
Portas não tem autarcas nem sindicalistas. Mas tem palavra. Usou-a. E bem. Cercou o PSD ao centro, sem sobremesa “vichyssoise”. E pôs Cavaco a ter que utilizar todas as técnicas de “poker” em que foi e será mestre. A procissão ainda não saiu do adro do Pátio dos Bichos. Está em São Bento, no átrio oculto dos passos perdidos.

Out 14

Mostrando o 3 com a esquerda no lugar da direita

Sócrates II já não é o feroz reformador, mas um animal de diálogo que estende as mãos aos adversários. Manuela Ferreira Leite diz que vai cumprir o mandato, mas que não se vai recandidatar. Um tenta renascer das cinzas, outra, prolongar a agonia. Os dois vão começar hoje a negociar nosso futuro que é tão radioso e sorridente quanto o esmiuçar de Jaime Gama pelo Gato Fedorento, ou os sinais de esperança que nos vêm das jogadas do Belenense que até é derrotado, no seu próprio campo, pelo Nacional… da Madeira.

Como as chicotadas psicológicas não são possíveis em certos campeonatos, importa recorrer a novos treinadores, tipo Scolari, para que o Madaíl continue na crista. Sugiro que se recorra a uma tal de Maitê, proença e tudo, a que nos cuspiu em cima, com ignorância e intolerância. Segundo a lei cá da paróquia, haveria crime para esse fanatismo, mas logo descobri que o tal de video foi mera encomenda de certa força política, posta em circulação por um desses espiões desempregados. O tal de video, realizado por um dos assessores de uma certa figura do estadão, era fragmento de um dos tempos de antena de certa campanha autárquica, onde se ensinava a uma candidata como mostrar o 3 com a esquerda no lugar da direita, onde, usando de anticabalismo, o Pai deixava de ser princípio, o Verbo perdia o pensamento, e a Virgem-Mãe já não concebia.
Outras explicações esotéricas já circulam na net. Para os mais sábios: O número 3 invertido passa a ser um “E”, e é chamado de “poder do 3″. Esta letra representa um olho (de Hórus). Simboliza Marte. Representa talento. Representa guerra. Representa também a Estrela de David. Além do significado esotérico, o 3 invertido é ligado ao aliviar de stress e ansiedade. Uma técnica de oratória para controlo dos ouvintes muito usada pela Maçonaria é usar este poder do 3 invertido ou olho, dividindo a oratória em 3 tópicos, pois o cérebro de quem ouve assimila melhor do que se for em 2 ou 4. Aquela placa de 3 invertido poderá unicamente representar uma moradia Judaica, uma forma de dizê-lo ao mundo sem que a maioria das pessoas entendam.
De forma mais prosaica, há quem tenha observado: Como cá na terra não somos muito esoteoricos, ou isso, perguntei ao sr professor Eustáquio qual a sua opinião do significado da placa ao que respondeu “pelo que me parece a única resposta possivel é que foi colocada por um engenheiro (e não por um trabalhador), usando as mais afinadas técnicas e, provavelmente, um espelho, daí ter ficado ao contrário. Uma questão de óptica ao fim ao cabo.
Por outras palavras, no fim do encontro de hoje entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates, vai sair uma proposta de comunicado, a emitir por Cavaco, Jaime Gama e Cunha Rodrigues, onde os três denunciam a asfixia democrática, a campanha negra e a permanência das escutas, propondo um protesto simbólico no dia dos fiéis defuntos, onde, às três da madrugada, cada português mandará uma revoltada cuspidela para o ar, dado que, segundo todos os regulamentos municipais, é proibido cuspir para o chão e para os lagos de água parada, especialmente em tempo de H1N1. Convém, contudo, desinfectar as manápulas depois da emissão dessa fluidez. E assim todos nos inverteremos em glória. Amen!