Set 22

Que venha o indisciplinador colectivo que nos traga a urgente regeneração!

1

O Watergate dos pastéis já deu uns passinhos na Calçada da Ajuda. Mas ainda não se assentou nos bancos de pedra da Praça Afonso de Albuquerque. Remeto para os dois artigos que publiquei no Diário de Notícias. O de hoje, e o que saiu logo que rebentou o petardo. Prefiro ir ao fundo da questão. Para a vagalhota de vulgatas de “intelligence” mal digerida com que pretendem explicar de forma pretensamente científica os chamados mistérios do poder e que nos enredam no mais paranóico dos enredos.

2
Estes ditos omniscientes das sebentas da teoria da conspiração, afinal, apenas sucedem à era dos juridicismos que marcaram a mentirosa razão de Estado da última fase do regime derrubado em 25 de Abril de 1974, já dominada pela cultura do Estado de Segurança Nacional, onde se traduzia em calão a NATO, conforme os manuais de planejamento estratégico de Golbery do Couto e Silva, Augusto Pinochet e Kaúlza de Arriaga.

3
Os fantasmas securitários ameaçam continuar a despolitizar o Estado. Mesmo quando invocam protecções místicas de sacristia ou de loja, não têm técnica nem teoria que lhes dê a categoria de monopolistas da alta política e muito menos podem chegar ao entendimento da nebulosa do chamado interesse nacional.

4
Os mais recentes episódios de histeria aconselham prudência a estadistas e líderes políticos e académicos sobre o uso que fazem de tais pretensos ocupantes dos interstícios do poder. Porque alguns deles não passam de míseros e mesquinhos carreiristas e capangas que a inquisição e a bufaria nos deixaram. Podem servir para alimentar sensacionalismos jornalísticos ou paraganonas, com fugas aos segredos de justiça e são o mais sórdido que deixámos crescer em democracia e pluralismo. Logo, há que separar o trigo do joio, antes que apodreçamos todos.

5
Juro que continuo romântico e radical, mas que detesto a revolução e a reacção. E reconheço perfeitamente os irmãos-inimigos que assumiram o situacionismo e nos vão instrumentalizando. Logo, não deixarei de denunciar as duas faces da mesma moeda má que nos vai desvalorizando a todos.

6
Não se iludam: nem a Dra. Manela é um Salazar de saias, nem Sócrates, um qualquer Hugo Chávez. Eles não passam de meros espelhos da nação que somos. De um povão a quem obrigaram a torcer em cobardia, porque lhe adormeceram a honra da coragem, dizendo que, mesmo sem espinha, vale mais um pássaro na mão do que dois a voar.

7
O mal já vem de longe, dessa bolorenta hipocrisia com que a Inquisição nos eliminou a fibra de Quinhentos, quando ainda vivíamos como pensávamos. Das moscas do Intendente que nos deram as Viradeiras, a última das quais durou quase cinquenta anos, em pleno século XX.

8
Mais recentemente, tudo se agravou quando arranjámos colectivismos de seitas que nos deram a ilusão dos PRECs. Quando muitos confundiram os amanhãs que cantam com a varinha de condão do viracasaquismo saneador, da luta de invejas. Ou com o socialismo de consumo dos hipermercados e do betão, de vez em quando embrulhados com o folclore das campanhas eleitorais.

9
Não me deixo enrolar pelos sermões de Marcelo e de Vitorino, ou pelas frases pretensamente assassinas de Mário Soares. Quero ser um bocadinho mais exigente. Não quero ser governado por aposentados e não vejo, nos políticos profissionais alternativos, aquela altura de fins políticos que nos possam conduzir à regeneração.

10
Gostaria que as próximas eleições fossem o necessário golpe de Estado sem efusão de sangue e que a próxima encruzilhada gerasse o urgente indisciplinador colectivo que pusesse fim a esta decadência neocabralista e neofontista, onde políticos honestísismos se deixaram rodear de gente com o perfil exactamente contrário. O Estado de Direito só resiste se as respectivas raízes se revivificarem na confiança pública e, consequentemente, na simples fé do homem comum, nos homens e mulheres de sangue, suor e sonho.

Set 21

A lucidez de ser ingénuo

A lucidez de ser ingénuo

Por José Adelino Maltez

Cavaco Silva não é Deus nem Nixon. Pode errar e deve levantar-se, para poder continuar a ser o guardião da Constituição. E no palácio da república em figura humana, vale a pena termos bons exemplos. Mas a procissão ainda não saiu do Pátio dos Bichos. A liberdade de imprensa é, de facto, um bem superior ao respeitinho. E a liberdade de expressão de pensamento, uma necessidade, para podermos denunciar publicamente os erros dos chefes do estadão. As minas e armadilhas fragmentaram-se todas, em sucessivas desfragmentações e importa ter cuidado com as campanhas negras: as vidraças são de todos e todas podem ser quebradas pelo efeito boomerang. Aguardemos o estádio superior de luta de uma campanha que já ultrapassou o nível do belo interregno d’os Gatos, aliás bem menos fedorentos que certas teorias da conspiração e que muitos espiões em autogestão, esses ocultistas que contribuíram para esta remacaízação serôdia da democracia. Porque importa seguir o conselho presidencial, sobre não sermos ingénuos, sobretudo, neste tempo de homens tão lúcidos, onde é imperioso termos a lucidez de continuarmos ingénuos. Julgo que deve terminar o ciclo dos familiares, moscas e bufos que querem manter o emprego de caça-fascistas, caça-comunas, caça-pedreiros e caça-jesuítas, esses resíduos sólidos de extrema-esquerda e extrema-direita que nos continuam a poluir!

 

 

Set 21

Retalhos da vida de fim de semana de um eleitor que ainda não sabe onde vai votar

1

Dizem-me que me dizem que alguém disse aquilo que não convinha, a quem queria que eu dissesse o que eles queriam que eu dissesse. Desprezo bufos. Com eles no poder já tinha ardido há muito. Digo, disse e direi, para quem quis, quer ou há-de querer ouvir. O que penso.

2
Vou seguir o conselho presidencial, sobre não ser ingénuo. Infelizmente, neste tempo de homens e presidentes tão lúcidos, eu sou dos que prefere a lucidez de continuar ingénuo, notando como a geração da imaginação ao poder caiu nas mais rascas teias da antiquíssima teoria da conspiração, com caceteiros intelectuais à mistura e espiões em autogestão…

3
Há um velho aforismo que tudo resume: Nec Proditur, Nec Proditor, Innocens Ferens (Nem o traidor nem o traído se presume inocente)…

4
Está um excelente dia de sol. Vou passear à beira do Tejo, diante do Palácio de Belém, vou caminhar em direcção à barra e olhar a Torre que está à esquerda, para, em silêncio, mandar bugiar os familiares, moscas e bufos que querem manter o emprego de caça-fascistas, caça-comunas, caça-pedreiros e caça-jesuítas, esses resíduos sólidos de extrema-esquerda e extrema-direita que nos continuam a poluir!

5
Lá volto à casinha, depois de ler o Expresso. Pouco me interessa que os altos dirigentes do Bloco subscrevam na prática o capitalismo accionista e obrigacionista. As sondagens já os elevam a quase-ministros, de acordo com a informadíssima bandeira daeurodeputada Ana Gomes que, tão garbosamente, enterra a estratégia do partido que lhe dá causa. Luís Amado que se cuide..

6
Cavaco e Sócrates podem colocar no respectivo balanço político esta via original de transformarem o Bloco de Esquerda naquilo que outrora foi o partido eanista. Sempre podem dizer que assim evitaram a via berlusconiana do pós-fascismo, ou a criação de uma qualquer frente lepenista. Lerei com atenção as análises dos persistentes intelectuais da esquerda endireitada que deram pensamento ao cavaquismo, com e sem Cavaco.

7
O que é a social-democracia deste nosso pensamento dominante? “Materialismo do caracol (flácido, vagaroso, escondido, mostrando-se apenas ao Sol e com duas antenas para evitar os ‘maus’ terrenos ou não perder o ‘contacto’)”. Francisco Lucas Pires, “Uma Constituição para Portugal”, Coimbra, 1975, p. 12.

8
Gostei imenso daquelas cenas de ontem da RTP Memória, no programa do Museu da Democracia que ontem invadiu Coimbra. Alegre em verso épico de filho pródigo. Marcelo a ler papelinho escrito. Alegre podia ter ido ao comício de Manela e Marcelo, ao de Sócrates, dizendo para todos votarmos apenas no situacionismo. Mas a coisa está felizmente preta para o mais do mesmo, com Louçã, Jerónimo e Portas a resistirem

9
O sol continua a brilhar. Assisto da varanda à liturgia belenense do render da guarda. A GNR continua garbosa, com homens e mulheres, controlando a charanga, montando os cavalos e orientando os cães. A GNR passa, outros cães ladram, outras cavalgaduras andam aos coices, estes soldados continuam alinhados e firmes. Apeteceu-me içar a bandeira azul e branca para coroar privadamente a bela cerimónia.

10
A GNR já regressou ao quartel. Noutras gamelas da Ajuda, alguns donos do poder arreganham a dentuça. Mas ela não passa de dentadura postiça e estamos à beira de a deitar barra fora. Basta que não passemos novo cheque em branco aos situacionismos. A próxima encruzilhada pode ser estimulante se reforçarmos o pluralismo e ameaçarmos os donos do poder. Devagar, devagarinho, a música pode começar a ser outra!

PS: No canto superior direito da foto, ainda se vê a janela do quarto donde vos estou escrevendo. Não emito as fotos que tirei a membros da casa civil presidencial neste fim de semana. Um deles estava sem gravata, serenamente sentado na esplanada da esquina. Julgo que era ofender o “zen” privado de uma figura pública.

Set 18

Dez conselhos para homens livres

Há dias em que se acorda marcado pela agenda das parangonas dos jornais, entre os efeitos da bomba de ontem da pretensa compra de votos na laranjada, aos meandros das escutas presidenciais e limianas, árvores que quase ocultaram a sonoridade das sondagens. Neste país, onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram (citação, de memória, do Almada), apenas observo, hermeticamente: há quem diga que o foi, mesmo sem nunca o ter sido, para que, quando o for conveniente, dizer, então, que já o deixou de ser. Porque todos querem flutuar como rolhas, nas ondas do pensamento dominante. Pior ainda: nas fachadas institucionais que deveriam ser de homens livres, mesmo que em aulas livres, quando aquelas se enredam nos diccionários dos mestres-de-seita, sobretudo das seitas que se carimbam com o monopólio da racionalidade.

E depois disto tudo, lá tenho que escolher entre os seguintes cabeçudos de lista: Jaime Gama, Manuela Leite, Francisco Louçã, Teresa Caeiro e Jerónimo de Sousa, com muitos outros à ilharga, entre os quais o departamento de benzeduras de um colégio ligado a Josemaría Escrivá e que não é bem aqueles que passando os olhos por esta frase julgarão, porque está mais ligado ao ramo da restauração e dos pastéis. Se for votar, o que será sempre contra o situacionismo, juro que prefiro um dos que pensam como vivem e que vivem como pensam, mesmo que, aparentemente, possa situar-se no lado oposto ao que me é indicado pela bússola eleitoral. Prefiro a honra à inteligência.

E recordo:

1. A versão constitucional que nos rege não a do tempo de Eanes, nem dos três governos presidenciais que constituiu, dos quais tive a honra de ser adjunto, com mais saudades de Nobre da Costa que de Maria de Lurdes Pintasilgo, mas com muito respeito pela utopia desta grande senhora.

2. Quem eliminou esse anterior presidencialismo foi a campanha civilista de Sá Carneiro, quando isso era espinha dorsal do PPD/PSD, a que aderiu Soares e o PS.

3. Este presidente, apesar de Fernando Lima e João Espada, vai cumprir o contrato de guardião da Constituição.

4. Foi Sampaio que usou a bomba atómica da dissolução, contra um governo de maioria absoluta, o de Santana/ Portas.

5. Soares não favoreceu um governo de Constâncio (PS), Eanes (PRD) e Adriano (CDS), contra a semente de cavaquismo, durante o 1º governo do cavaquistão. Apesar de, depois, clamar contra a ditadura da maioria e apelar ao direito à indignação.

6. Pode haver um governo de maioria absolutamente relativa, mesmo que um dos partidos não obtenha maioria absoluta. Por exemplo, do PS, com acordos parlamentares de apoio, com o BE e o PCP, onde estes partidos enumerem cláusulas de salvaguarda ideológica. O PS fica confortável porque sabe que as seccções portuguesas do PPE o terão de apoiar em matérias europeias que são mais de metade dos actuais factores de poder vigentes.

7. Se for necessário, Sócrates vai fazer um interregno como presidente do PS, substituindo Almeida Santos. E a drª Manela, idem. Os partidos e lideranças que temos sabem das potencialidades da democracia e são responsáveis. E Cavaco vai cumprir os contratos. Basta notar que Jerónimo só entrou para o PCP depois do 25 de Abril de 1974. Que Sócrates e Paulo Portas começaram na JSD. Que Louçã só começou em comícios depois da mesma data e que antes andava encostado aos cristãos progressistas. Todos têm raízes. Até Manela no bisavô e na crise estudantil dos anos sessenta e não do lado salazarento.

8. A democracia recomenda-se e os partidos precisam de desafios. Por exemplo, o da luta contra a corrupção, de acordo com os critérios globais da “Transparency International”. É uma vergonha estarmos ao lado de Malta e da Islândia, como os únicos três da nossa Europa, sem institucionais representantes da luta global contra a corrupção. Ainda pensamos que a coisa tem a ver com leis, polícias, magistrados e organismos carrimbados com esse nome, quando o impulso tem de vir daquilo que ainda não existe: a sociedade civil.

9. O problema da democracia é esta ilusão absolutista e salazarenta do decretino. E os partidos que temos são cada vez mais estadão e, logo, mais decretinos, num momento em que também faltam empresários na economia, professores na escola e sindicatos no trabalho.

10. Não precisamos de menos Estado. Precisamos de mais república, de mais comunidade, de uma democracia que não se volte contra o povo e que as autarquias locais e regionais não sejam direcções-gerais ou governos civis. O máximo de público sempre foi o contrato das horizontalidades. O que vem de baixo para cima. E de dentro para fora. Contra a hipocrisia inquisitorial que nos transforma em mentira generalizada, com mais cobardes do que corajosos. Dos que são antes de quebrar que torcer, porque vivem como pensam.

Set 16

Contra a tirania das maiorias, laranjas ou cor de rosa!

A pior coisa de Manela são os maneleiros, entre inquisidores, pretos, brancos, cor-de-rosa, ex-ministros, candipatos e aristocretinos, todas essa ganga dos bate-palmas que estas mudanças sem radicada infra-estrutura fazem vir ao de cima na máquina da laranja, em tempo de mudança de líder. A melhor coisa de Manela é a própria Manela, que é o exacto contrário do que lhe aconselham que pareça. Como ontem se demontrou, no “esmiuçado” exame a que foi sujeita e onde brilhou, na solidão da respectiva personalidade. Parabéns, senhora dra. Mas, deixe-me acrescentar: não é por ter havido essa primavera que me esqueço de quem escolheu para transportar, ou das anteriores “gaffes” que os laranjas nos revelaram. Mas gosto de ser justo e não costumo responder como alguns dos seus piores maneleiros, que agitam por aí as cargas negativas do ódio e dos ataques pessoais, típicos dos bufos, dos caceteiros verbais, na velha tradição do manual dos inquisidores.

Mais lhe digo que saiba interpretar as sondagens que vão chegando, porque se elas conseguem captar a sociologia eleitoral em períodos que repetem estabilidades de escolhas, não atingem aquilo que só a intuição dos grandes políticos capta: as pulsões do inconsciente colectivo. Elas precisam de sociologia, mas também de enraizada cultura política e de mui científica psicologia política. Porque, ainda hoje, cada eleitor tem dentro de si um Sócrates e uma Manela, ou, melhor dizendo, os fantasmas e os preconceitos que a imagem de cada um transporta, ou daquilo que cada um diz do outro. Num pólo, a pulsão para o avançar. No outro, para a regressão.

Não! Não é a esquerda contra a direita, mas o paradoxo da procura de um certo equilíbrio na luta de contrários, aproximando-se do próprio sistema de forças do actual sistema político, onde nunca pusemos todos os ovos no mesmo cesto, permitindo que o sufrágio universal gerasse concorrência de maiorias presidenciais e de maiorias parlamentares, com sinais diversos, mais complementares do que inimigos, onde convergências e divergências geraram emergências de separação e fusão de poderes.

Eanes foi eleito depois de uma maioria da AD e mesmo após o desastre de Camarate. O primeiro cavaquistão gerou o presidente Soares. E o novo socialismo permitiu a ascensão de Cavaco a Belém. O povo sempre foi mais sábio do que os analistas, comentadores, politólogos e políticos de interregno. Até porque o povo que foi para a rua no dia 1 de Maio de 1974 era o mesmo que, semanas antes, aplaudiu Marcello Caetano, espontaneamente, no estádio do Sporting. Porque o português que ganha eleições é como Jano, com uma cara na regressão do avô tirano e outra no avançar. Só é grande político o que consegue dialogar directamente com esse inconsciente colectivo.

Há pulsões libertacionistas que já se chamaram Sá Carneiro e Soares. Pulsões autoritárias de desejo de um animal feroz que nos deram Cavaco e Sócrates. E há pressões de procura do delicadinho e do gajo porreiro que fizeram Guterres ou o Soares das bochechas e do diálogo. E todos podem ler o Joaquim Pedro de Oliveira Martins que, logo em 1878, descrevia assim o rotativismo: “o governo da liberdade ficou sendo tirania das maiorias, máquina movida por ambiciosos, o realejo que toca a mesma ária, aclamando a todos os que movem a manivela”. É a máquina da sua Madeira, Dra. Manela, é a máquina contra a qual se insurge no contenente, mas com a memória daquela máquina do Estado laranja do cavaquistão, contra a qual um presidente da república, Mário Soares, pediu direito à indignação contra a ditadura da maioria.

Set 15

Não! Não vou por aí! Continuo não-cavaquista, conforme princípios desde sempre manifestados

Ontem aprendi, com Berlusconi, que tenho de apertar dois dos três botões do casaco para parecer mais elegante, conforme a única piada que recebi do senhor engenheiro, durante a sua visita ao planeta dos Gatos/Jay Leno. Por outras palavras, repetiu-se em Portugal um estilo que é normal noutras campanhas, nomeadamente na última presidencial norte-americana, onde os candidatos são obrigados a pagar o imposto de riso. Mas Sócrates continuou a resistir na sua faceta de picareta falante, dado que continua a fingir que é verdade o discurso que ele próprio finge, como já o tinha feito na entrevista sobre a intimidade levada a bom porto pela Raquel Alexandra. Claro que nunca me consegui rir com o líder do PS e que foi patente que a metalinguagem dos Gatos poucas ou nenhumas coincidências teve com o ritual socrático, que, sabendo que o Araújo Pereira tinha sido do PCP, decidiu passar ao ataque e chamar-lhe estalinista, embora também lhe pudesse chamar benfiquista ou outra qualquer adjectivação.

Seguir-se-á a outra senhora, outra piada de mau gosto, emitida ontem pelo João Soares, porque a dita, se ouvir o mano Dias Ferreira, o do Sporting, em vez de alguns técnicos de “marketing”, poderá surpreender-nos com algumas quebras de tabus, porque, ao contrário do que vociferam alguns maneleiros que a andam a destruir, a dita senhora gosta mesmo de rir e é de uma honestidade tal que não me importava de lhe entregar a minha carteira, embora politicamente nunca me leve, dado que tem fingido dolosamente que é um Salazar de saias, quando a vida dela, desde estudante, é o exacto contrário desse fantasma. Esperemos que, nos Gatos, se liberte dessa campanha negra em que os pretensos apoiantes a enredaram e que ela, por oportunismo político, deixou correr, cultivando o mistério da gestão dos silêncios, o que, para mim, é tão criticável quanto o ser efectivamente da outra senhora.

Não acreditem que ela costuma usar carros do Estado, porque tem um culto exacerbado da separação do público e do privado e mesmo os colaboradores próximos sabem perfeitamente que tem um alto sentido moral. Aliás, segundo estou informado, não me parece que Sócrates esteja muito distante desse mesmo padrão. O mal não está neles, mas no bando de náufragos que os circulam e no tipo de mensagem que os dois estão a veicular para a obtenção do voto útil. E bem pode acontecer que os dois estejam a subir os degraus de uma guilhotina política, onde acabem por tropeçar no último degrau, para usar a anedota de mau gosto que Sócrates contou a Raquel Alexandra.

Se Sócrates permitir que o Bloco de Esquerda atinja os dois dígitos, sem ser à custa do PCP, e se Ferreira Leite fizer aproximar Paulo Portas desse patamar, ambos erraram. Claro que o PS não vai expulsar Sócrates. Muito provavelmente, Almeida Santos vai ceder o seu lugar de presidente ao actual secretário-geral e este cargo poderá ter uma espécie de solução colegial, onde António Costa e António José Seguro terão lugar certo, com o total apoio do socráticos e dos alegristas. Já o PSD pode reconhecer o erro de ter-se reduzido ao espaço de um cavaquismo sem Cavaco, porque o governo, de acordo com esses resultados eleitorais, nem terá que ser de ampla coligação interpartidária, bastando uma simples maioria de esquerda, interpretada exclusivamente pelo PS, mas com variados acordos de apoio parlamentar com o PCP e o BE, onde até nenhum destes partidos tem que abandonar as respectivas reivindicações, criando cláusulas de salvaguarda em zonas de lina ideológica básica: Até porque em matérias de integração europeia, por exemplo, o PSD e o CDS estão condenados a seguir o programa comum do PPE, nomeadamente em matéria orçamental. Não são província de Espanha, mas secções nacionais de uma multinacional partidária supranacional.

Por razões exclusivamente políticas, e não de falta simpatia pessoal, é que reconheço os permanecentes erros de campanha e de estratégia do PSD. Mas como já me enganei em duas campanhas, onde fui responsável contra Cavaco, na década de oitenta do século XX, tenho o cuidado de não dizer que esta intuição está de acordo com a realidade do povo que temos, aqui e agora. Pode ser que os cavaquistas ainda continuem a conhecê-lo melhor nas suas pulsões e nos seus ideais conjunturais. Apenas continuo a dizer que, se assim for, a nossa crise ainda será maior do que a ausência de uma maioria absoluta. Porque perdemos a fibra multissecular e nos deixámos enredar nas teorias do homem de sucesso do “Leviathan”. Não! Não vou por aí!

PS:Nos gatos norte-americanos, o MCain saiu-se bem, mas já estava tudo obamizado!

Set 14

Contra o fanatismo, a ignorância e a tirania!

O começo da campanha, esse eufemismo de não dizermos que andamos nisto há mais de seis meses, o recomeço das aulas, a chamada rotina da decadência, deste mais do mesmo, entre o Senhor Ninguém e a Dona Incompetência, apesar do choque tecnológico, dos Gagos e das Lurdes, porque a pesada herança do fanatismo, da intolerância e da tirania, oriundas, não da luta de classes, que estas ainda poderiam ser metafísicas e salvíficas, mas da simples luta de invejas, afinadas pelos irmãos-inimigos dos inquisidores e dos burocratas, sobretudo desse cúmulo lusitano do sargento verbeteiro que sabe escrever ofícios, já sem “saúde e fraternidade”, já sem “a bem da nação”, com aqueles “melhores cumprimentos” que disfarçam a mão felpuda do despotismo ministerial em que nos vamos enrodilhando, onde “novo governo, novo ministro”, mas o maquinismo kafkiano de sempre. Daqui a bocado, lá subirei a colina, de corpo dado ao ritual externo de quem se submete para ter de sobreviver, mas que continuará a lutar para viver. Levo comigo o velho lema do Professor Hernâni Cidade: “primeiro a aula, só depois o capítulo!”. E agradeço a Gago ter-me livrado de ser do capítulo à força. Graças a esta lei, tanto não me candidatei, como nem sequer votei. Prefiro continuar a olhar o sol de frente. Não há instituições vivas sem ideia de obra, sem cumprimento das regras que são réguas que nos dão a medida da perfeição, e, sobretudo, sem manifestações de comunhão entre os membros da mesma instituição. Se apenas durar o sargento verbeteiro ou a memória viva do avô tirano, algum curto-circuito deve ter apagado a Luz no Portugal de Sempre, o tal que deveria continuar a ter saudades de futuro. O velho disco do mais do mesmo está muito riscado. Nem com o verniz dos pretensos novos, comprados no retalho das lojas dos trezentos, o preto é branco e o animal feroz, um delicadinho…

Set 12

O Senhor Ninguém e a Dona Incompetência, em regime de união de facto, a que dantes se chamava concubinato, ou o acesso ao ensino superior

Os ilustres contribuintes, os senhores votantes, os dignos cidadãos e os meus queridos leitores que, depois de tantas abstracções qualitativas, não passam de pessoas concretas, de carne, sangue, sonho e osso, que vivem o instante do tempo que passa, ainda não assumiram que quem manda em nós não é o PS, nem foi o PSD com o CDS, mas um tal Senhor Ninguém que vive em união de facto com a Dona Incompetência, permitindo que a Ti Culpa acabe por morrer solteira. Ambos os parceiros da concubinagem reinante foram educados na arte de se escreverem ofícios segundo o manual dos inquisidores, a tal que se transformou no livro de estilo dos modernizadores administrativos, esse misto de teólogos arrependidos com a sacanagem dos jotas que eles elevaram a assessores. Todos acabam de vos enganar com a habitual notícia de Setembro sobre as candidaturas ao dito ensino superior da bolonhesa, coisa que resultou desta pesada herança da Manela, ministra do sector, antecedida pelo Couto dos Santos e pelo Deus Pinheiro, seus renovados candidatos da verdade, e cujo resultado acabou por ser a mais recente versão do Roberto Carneiro que é a soma de Gago com Maria de Lurdes.

Os incautos, diante de uma lista de cerca de um milhar de cursilhos de pretenso acesso a uma ilusão de emprego, a que o Estado se comprometeria a dar um posto de vencimento, quando antigamente apenas saíam licenciados, isto é, com licença para continuarem a estudar por si mesmos, podem reparar que a mesma ditadura de perguntadores nos afunila para saídas políticas que nos obrigam a ter que escolher, como chefe do governo, o Sócrates ou a Manela, com os sacristães Jerónimo, Francisco e Paulo a darem bicadas na alternativa. O primeiro pretenso grande diz que é de esquerda e só leva porrada da esquerda. A outra, que é da não-esquerda, finge que segue a esquerda-menos ao ritmo da jardinada.
Não há meio de compreendermos que este caldo de cultura resulta de um erro de subsolos filosóficos, compreendendo-se como a nota de entrada num dos melhores cursos de filosofia no ensino público de Lisboa acabe por ser abaixo do velho dez. Porque foram estes donos do poder que não perceberam como deveriam educar para a mudança e nunca seguindo o catálogo de saídas profissionais inventado pela fantasia do positivismo tecnocrático dos construtivistas que já falharam todas as sucessivas grandes opções dos planos que engendraram. E porque não querem compreender o presente, vingam-se do passado e proíbem-nos o futuro.
Nunca deveríamos deixar que toda a nossa juventude ficasse dependente de um venerando reitor, de um profético ministro ou de um mais que douto conselho, desses que decretaram, com tanta mensurabilidade, o mercado de trabalho do próximo século, em total contraciclo, como se demonstra na presente crise global. Bolonha não tem culpa. O modelo até exigia uma urgente banda larga, em profundidade, na base, e qualquer país polido, civilizado e culto da Europa não caiu na nossa esparrela de pôr a oferta da empregomania a controlar o mercado das vocações. A única via que temos para curar a doença e voltar a ter luz está, como dizia Guerra Junqueiro, em incendiarmos os símbolos destes filhos de Veiga Simão e Roberto Carneiro.
As regras do jogo do ensino, incluindo do superior, estão totalmente viciadas pelos frustrados da educacionologia, da avaliologia e do planeamentismo. Os quadros publicados na madrugada de hoje são a melhor prova da nossa decadência humanista. O “big brother” dos tecnocratas falhados, que se apoderou da máquina decretina do ministerialismo, afastou-nos esquizofrenicamente da realidade do presente e do futuro emprego. Deixámos de ter os pés no chão e de olhar as estrelas do sonho, permitindo, em nome de uma manipulação da ilusão, que nos metam a pata na poça. A Dona Incompetência e o Senhor Ninguém já não tomam chá com a Ti Culpa. Já perceberam que o Sócrates e a Manela, a quem enredaram, já foram desta para os anjinhos. Eles passam, os educacionálogos, os avaliológos e os planeamanetistas ficam e mandam, para amanhã poderem despedir os mais competentes que resistem em liberdade e saudades de futuro. Não tarda que voltem os inquisidores, para continuarmos a ser jangada de pedra.

Set 11

O fim dos grandes e dos micropartidos. Ficam todos PMEs e nenhum é do boavista, jogando no olhanense

Finalmente, a medição da opinião por mais uma sondagem. Dá esperança a todos, ao centrão dos ditos grandes, que estão quase empatados, e aos pequeninos, que passam a médios. O PS sonha estancar a aquilo que pensa ser a saída para o Bloco, com o CDS a penetrar naquilo que o PSD pensava ser o bastião inamovível do cavaquistão, quando a crescida do Bloco e de Portas talvez tenha mais a ver com novos eleitores, que não estão para aturar o senhor engenheiro e a senhora directora-geral. Provavelmente, ficaremos sem grandes partidos e sem micro-partidos, serão todos PMEs, com engenharia de subsidiocracia nas multinacionais partidárias da Europa do mais além.

Os grandes tiveram gula demais. Pensaram ser a revolução institucional da solução mexicana, a europa connosco, o betão para os patos bravos, o magalhães p’ró Chavéz, o presidente connosco, etc… Mas a crise fez de todos eles uma cordilheia de PMPs, com direito a essa reserva do património cultural da humanidade que são as secções museológicas da disputa entre os ex-estalinistas e os ex-trotskistas, depois de até exportarmos para Bruxelas um m.l., da secção Cralucci.
Museológicos são também os nossos grandes educadores do proletariado intelectual, como esses ausentes-presentes que já fizeram setenta anos há década e meia, com um a dizer que Robespierre é um liberal norte-americano do centro-esquerda, num sítio onde a revolução foi sempre evitada, e outro a jogar retórica e dialéctica em distintas associações de velhos-colonos, entendidas como militância de conspiração de avós e netos, entre técnicos de reprografia, motoristas de mercedes pretos e ministeriáveis feitos do mesmo preto pau.
Felizmente, há 20% de indecisos, esse novo D. Sebastião destes tempos que se anunciam de encruzilhada e Manuel Alegre promete ir a terreno, para apoiar Seguro, Maria de Belém e Alberto Martins. Até Jorge Sampaio foi assistir a uma das palancadas de Sócrates, enquanto Alberto João Jardim se vai rebolando de gozo com a instabilidade que introduziu nos cubanos do “contenente”, porque o que ele quer é uma revisão da constituição e a lei de santos cabral, para o regresso do Léo Taxil.
Claro que a Drª Manela, quando deixou de ser directora geral, ironizando, foi sublime, malhando na Judite, subdirectora, sobre o Marcelo poder ter como rival uma nova emissora de homilias na RTP, a Moura Guedes. A líder do PSD, se estagiar mais com Pacheco, até pode tirar o colar e, fazendo o milagre contra os rosas, atirar as pérolas a mais gente que o bem merece. Solte-se e ria, até de si própria…
Sócrates sorriu para os seus botões e, se fosse como o Mitterrand e o Soares, transformava o Portas em inimigo principal, porque este é que o pode levar a vencer Manela, em termos de eventual maioria absolutamente relativa, esperando, como o Carlos Queirós, uma qualificação para o campeonato, graças às derrotas dos outros…
Porque ontem, Portas, ao correr para os 800 metros deixou a maratonista no tapete das tartes e dos 150 gramas de fiambre, nem mais, nem menos. Quis ir aos “clusters”: aposentados que trabalharam toda a vida, jovens, desempregados. E talvez neste confronto tenha chegado aos 10%. Manela, em cima da maioria absoluta na Madeira, não teve garra de ganhadora. Disse querer tirar Sócrates de PM e apenas mais votos do que ele. Não houve caldos de galinha, mas política contra tecnocracia, a qual, até em matéria financeira, ficou em defensiva.

Set 10

Barroso, António Sardinha e Alfredo Pimenta, com o cabralismo em fundo e o profeta Daniel em frente

Foi delicioso o frente a frente entre Barroso e o grupo dos Verdes, liderado por Daniel Cohn-Bendit, com aquele regresso ao confronto do histórico do Mai 68 com um MRPP do “nem mais um soldado pr’ás colónias”. Porque Barroso não gostou de ser apelidado como conservador, ele que agora se diz do centro reformador, e invocou como seguro de vida o ter andado nas ruas de Lisboa a clamar contra o colonialismo…

O Zé Manel, o português que, em toda a nossa história mais voou pelas alturas das relações internacionais, suplantando Afonso Costa na SDN, lá deixou que a costela de quem levou os sofás da Faculdade de Direito para a sede do partido do grande educador do proletariado lhe marcasse o ritmo argumentativo. Apenas me recordei de dois grandes esquerdistas que foram activistas da greve académica de 1907, desencadeada pelo avô da actual líder do PSD, o maçon José Eugénio Dias Ferreira. Um deles era António Sardinha, do lado do estudantes republicanos, o tal que sete anos depois há-de ser maurrasiano e extraordinário pensador e polemista, na liderança do Integralismo Lusitano. Honra lhe seja feita, continuou fiel ao estúpido subsolo filosófico do postivismo de Comte que também marcou a secção jacobina do Partido Republicano.

O outro grevista de 1907, ainda mais esquerdista, quando ainda alinhava no anarquismo de Kropotkine, é Alfredo Pimenta que, depois de ser activista, propagandista e “boy” de um dos partidos republicanos, se passou para a exaltada e reaccionária facção monárquica, ainda mais à direita que os integralistas. Tentou ser o filósofo de serviço do Estado Novo, mas nem Cerejeira nem Salazar o consentiram e acabou pró-nazi e sempre excelente polemista e historiador. Pena que se tenha enganado quanto à valia de Fernando Pessoa, quando este deu cabo de Santos Cabral, um subproduto do pimentismo.

Por outras palavras, há uma certa lei da nossa história contemporânea que tem a ver com traumatismos juvenis: quanto mais doença infantil do comunismo, mais reaccionarismo na idade madura. Já tinha sido assim com António Bernardo da Costa Cabral no Clube dos Camilos. E basta eu recordar-me de algumas aparições fantásticas por essas bandas de um tal Manuel Dias Loureiro. Se o Saldanha Sanches e o Garcia Pereira começarem a desfilar os nomes dos camaradas, bem nos continuaremos a rir, sobretudo quando agora se justificam, salientando que faziam tal contra o “social-fascismo” do PCP e que isso de “nem NATO, nem Pacto de Varsóvia” era uma espécie de antecipação da união sagrada do Freitas do Amaral, do Louçã e do Soares contra o Bush.
Sobre a matéria, ainda não me foi dado fazer adequada consulta aos arquivos da CIA e do KGB, e das operações de estratégia indirecta ou de “operation chaos”. Ainda me caíam os restos de Gladio, P2, Aldo Moro e pacifismo do “antes vermelhos que mortos”. Sempre preferi Soljenitsine, a Carta 77 e a liga anticongreganista de que foi presidente o liberalíssimo grão-mestre, bisavô da Drª Manuel Ferreira Leite…