Set 09

Um quarto de hora antes dos votos, fantasmas de direita e preconceitos de esquerda

Cada um cumpriu as suas ordens de caça. O timoneiro procurou chamar à nau os dissidentes, sobretudo os que não votaram nas europeias. O abalroador pediu, ao eleitorado do PS, para abandonar a rota, porque sempre foi socialista, republicano e laico. Nenhum foi ao fundo. Mesmo sem revolta, a pirataria pode vir de outra velha nau, já cansada de viagens à volta da asfixia. Vale-nos as camas voadoras!

A segunda figura de Estado passou a ser citada. Não deve ter sido por aqueles devaneios sobre Bokassa. Insultos destes, um quarto de hora antes dos votos, são tiros nos pés, tanto para a “gaffe” como para os que querem pegar de cernelha. O seguro de vida do situacionismo não cobre situações de pandemia, mesmo que a ministra o estranhe, depois de declarar a coisa. Nem caldinhos de galinha lhes dão cautela…
Conheço bem o despotismo de todos. Conheço, de todos os dias, os césares de multidões. Sinto, todos os dias, a hipocrisia de quem os usa e deita fora. Sei o preço que os homens livres têm de pagar para os aturarem nos respectivos jogos de poder. A burricada reaccionária e a nostalgia revolucionária lá continuam a alimentar estes extremos, para que os familiares do situacionismo atinjam o princípio de Peter. E são muitos o emplastros que saem do oculto sem qualquer esoterismo. Fica o redondo do hermético e a farpa da metáfora.
O mistério eleiçoeiro está por um fio, preso a argumentos tão sábios como o velho e o novo, o macho e o feminino, o mano que queria ter ou a tia que nos mostra memórias de contas do avô tirano. Como não estou entalado entre preconceitos de esquerda e fantasmas de direita, eu, que nunca votaria no situacionismo, dos bonzos, dos endireitas e dos canhotos, ainda não sei onde votar. Mas nunca votarei o, do mal, o menos, em nome do pretenso útil que nos encavacou, à esquerda e à direita.

Set 08

O meu adversário não é Vossa Excelência! Don’t f… them!

A campanha, ainda ser ser campanha, lá vai vivendo em clausura auto-reprodutiva, onde Sócrates e Manela, entre preconceitos de esquerda e fantasmas de direita, vão metendo golos na própria baliza, porque são desajeitados e sempre em “gaffe”, sem saberem rir de si mesmos. Daí que os tipos do “agenda setting” de cada um não esteja preparados para este “ou of control”. Daí não conseguirem que os campanheiros saibam driblar a sucessão de imprevisíveis, entre o caso TVI e o “fuck them”. Todos têm um jardim nos calcanhares, um alberto no propagandismo e muitos vulgateiros, mais papistas do que o papão.

Manela passou a ser mais conservadora e democrata-cristã do que Portas e este, menos liberal do que o PS. Jerónimo, depois do discurso da festa do Avante, voltou a social-democratizar-se e, de gravata amarela e pose ministerial, como as setas e bolas do CDS, lá vai dizendo que assumirá todas as responsabilidades que o povo queira que ele assume. Portas invoca a rainha Dona Leonor, muito padre Milícias, mas sem explicar que a principal das ditas Misericórdias é um serviço estadual que assume o monopólio das lotarias e das apostas desportivas, coisas que bem poderiam ir para as associações dos deficientes das forças armadas, se houvesse justiça na memória.
Ontem foi Portas e Jerónimos, as duas vozes tribunícias mais conservadoras do que está. Foram excelentes actores, seguros na metáfora e coerentes com o combate anterior. Onde um dizia agricultura, camponeses e CNA, outro pensava lavoura e CAP, ambos contra o Silva que, para mal de Sócrates, nunca foi remodelado. Um talvez queira levar novamente o PCP ao poder do governo, mesmo que seja em regime de queijo limiano. Outro, seguro de um partido unipessoal, já foi ministro e quer voltar a sê-lo. Pouco arriscaram, não meteram a pata na poça e foram brilhantes. Estão ambos próximos dos dez por cento e Portas pode chegar ao poder se a soma do CDS e do PSD ficar 15% acima do PS, tal como Jerónimo pode reeditar a união de esquerda.
Aliás, as eleites que defendem o bloco central são as da nova casta bancoburocrática, ou os jogadores de cenários que apontam o termo para as eleições presidenciais, pensando que Cavaco não se recandidatará, enquanto Sampaio, por essa razão, já aparece na capa do “Semanário” e Jaime Gama pensa que é convicção aquilo que outros andam por ele profundamente a pescar. Alegre nada diz, joga no Costa e no Louçã. Por isso o frente a frente de Jerónimo e Portas não foi debate, porque cada um dele tinha a lição bem preparada: o meu adversário não é Vossa Excelência.
O guardião da constituição laboral e da constituição económica, viu Portas, que está em coligação com Santa e Rui Rio, elevar o BCP, o BPN e o BPP a tambores da festa e jogar com números certos às operações às cataratas. em nome de uma economia de mercado socialmente sustentada em valores éticos. Jerónimo bem tentou invocar a justiça social de São Tomás de Aquino, mas Portas já tinha inconscientemente citado Karl Marx, no de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades. Juntos, não ficam mal num próximo governo de grande coligação à portuguesa. Teria mais legitimidade democrática que o do Irão, o tal que veio dos votos, mas que, ao contrário do que acontecia com Salazar, não deixa que circulem jornais da oposição.

Set 07

Depoimento ao Expresso

Expresso

 

Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

 

O politólogo José Adelino Maltez analisa estas variações de ‘camisola’ sem complacência: “Há conversões como as de Saulo na estrada de Damasco. Tipo pudim instantâneo. Todos os predadores gostam de elevar traidores à categoria de homens de sucesso. Onde tem razão quem vence”, escrevia no seu blogue a 28 de Julho último. Ao Expresso, afirma mesmo estarmos a viver “um momento de decadência”, comparável aos “monárquicos que correram todos para os braços da República, aquilo a que chamaram os adesivos”, ou “aos republicanos que se entregaram a Salazar, os chamados ‘viracasacas’, para não falarmos de ministros do nosso antigo regime que viraram professores de democracia, voltando um deles a ser ministro por duas vezes. São os normais anormais dos chamados homens de sucesso que preferem torcer a quebrar”.

“Sócrates veio do PSD. Durão Barroso do MRPP. Paulo Portas também do PSD. Miguel Portas do PCP. Só para o PCP é que parecem não ir muitos. No salazaCandidato independente pelo PSD à Câmara Municipal de Santarém, partido pelo qual já tinha sido eleito em 2005, anunciou a sua indisponibilidade para votar em Manuela Ferreira Leite nas legislativas e admitiu mesmo poder votar em José Sócrates (PS) a 27 de Setembro Entregou o cartão de militante do CDS em 2007 e apoiou a candidatura de António Costa à Câmara Municipal de Lisboa nas intercalares de Julho desse ano. Sub-secretária de Estado de Pedro Santana Lopes entre 1992 e 1993, reconfirmou este Maio a sua preferência pelo candidato do PS na disputa pela capital. Apesar disso, integra as listas do PSD à Assembleia da República O escritor, histórico militante do PCP, não se deixa tolher pela disciplina partidária. Gorados os esforços, em que se envolveu directamente, para a reedição de uma ampla aliança à esquerda em Lisboa, acabou a dar o seu apoio à recandidatura de António Costa, preterindo o candidato do Partido, Ruben de Carvalho rismo, até foram buscar um antigo secretário-geral do PCP (Carlos Rates) e a República transformou em senador afonsista um antigo chefe de governo da monarquia (Ferreira do Amaral). Estes bailados até estão de acordo com a flutuação das famílias dominantes. Nalgumas há um avô ministro da monarquia, um pai, da República, e um neto, governante de Salazar (caso da família de Emídio, Ernesto e André Navarro)”, enumera o professor de Ciência Política que, cáustico, conclui: “De geração a geração, muitas castas desta sociedade de corte vão variando da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, desde que se coloquem como rolhas na verdadeira onda do poder”.

Questionado sobre se faz parte da normalidade política mudar de ideias, Adelino Maltês ainda ensaia uma pouco convicta atenuante: “Cada um é sempre o seu ‘eu’ perante as ‘circunstâncias’ e mudar é próprio de estar vivo… mas utilizar esta literatura como justificação para a falta de autenticidade tende a gastar-se pelo uso e a prostituir-se pelo abuso”. Sobre o caso concreto de Moita Flores, que, sendo candidato autárquico pelo PSD anunciou que “talvez” vote Sócrates nas legislativas, o politólogo justifica-lhe o comportamento, utilizando uma boa dose de sarcasmo: “Ele pode dizer, a nível autárquico, qualquer coisa parecida com o que disse José Luciano de Castro, o chefe dos progressistas no rotativismo: o meu Partido não é que me leva ao Poder, sou eu que levo o meu Partido ao Poder”.

Set 07

Os bastiões inamovíveis do bom governo…

A Convençaõ do PS, ontem, assumiu ritmo esotérico, denunciando a heresia maneleira, porque a mesma usurparia o título divino quando diz “Eu sou a Verdade”. E, ao milenarismo, responderam com o serem avançados, naõ sei se mentais. Uns estão na Utopia (do Maio 68), outros no Milénio. Uns querem a planificação dos iluminados, outros, a tempestade que nos afastará dos pecados. Uns com nostalgia da Mãe, outros, com saudades do Pai…

Por tanta escatologia é que a líder do PSD se enreda em coisas como as que foi dizer ao “bastião inamovível” do “bom governo PSD”, a Madeira, onde não haveria asfixia democrática, dada a existência de jornais da oposição. Por outras palavras, admite a ditadura das maiorias, porque tudo mede com o voto que tudo ordena. Eu pensava que, na democracia, interessava menos a resposta ao quem manda e mais ao como se controla o poder dos que mandam. Mas compreendo, a principal líder da oposição estava a querer mandar uma de subliminar para a questão da M. M. Guedes, coisa de que discordo, porque o Jornal Nacional da TVI de sexta não era propriamente a voz da oposição…

A hipocrisia inquisitorial ainda manda que ninguém manifeste sinais exteriores das suas convicções íntimas. Porque nunca extirpámos a raiz dessa servidão voluntária, mantendo a fortaleza do Rossio mesmo depois dos decretos estaduais que extinguiram a polícia do pensamento. Porque permaneceu o sub-sistema de medo dentro de cada um, venceram os adesivos e os viracasacas…

Depois de despotismos iluminados de curta duração, sucedem-se quase sempre viradeiras de provisórios definitivos, como foi o salazarismo, onde há sempre pinas maniques e preconceitos de ordem que, através do neofeudalismo da anarquia ordenada, permitem a continuidade dos familiares, dos moscas, dos formigas e dos bufos. Infelizmente ainda somos pós-inquisitoriais, pós-autoritários e pós-totalitários. Temos medo!

Set 06

Manifesto de um jovem nascido em 1985. Por acaso é o meu filho que pensa pela própria cabeça e o emitiu, em revolta, no “Facebook”

Eu não nasci no tempo do Salazar, nem nasci na altura em que o comunismo era um risco real para a democracia. Nasci e cresci depois disso e não sei o que isso é ou foi, portanto não posso falar disso.

O que eu sei é que economicamente (em termos de crescimento) a década de 90 foi pior que a de 80, e a década de 2000 foi pior que a 90. E excepto para aqueles que estão filiados ou estiveram nos governos, câmaras municipais ou empresas públicas, as coisas não estão melhor, nem vão ficar melhores.
Não quero saber se o PS é melhor que o PSD (ou os seus apêndices), nem vice-versa, tal como não queria ter que escolher entre morrer afogado ou queimado. Também não quero saber de demagogos que são doutorados em economia ou que leram o Capital na juventude, mas esquecem-se de dizer que vivemos num mundo globalizado e competitivo à escala mundial, e que o capital , esse, escorre mais depressa dum país do que areia de uma mão aberta quando lhe apetece.
Não quero saber se um bando de militares conquistou a democracia em 1974 e decidiu chamar-lhe a revolução do povo, se hoje, em 2009, vivemos numa cleptocracia, onde o socialismo do estado é na teoria tirar aos ricos para dar aos pobres, mas na prática é tirar aos falsos ricos para dar uma pequena parte aos pobres, outra parte aos pouco produtivos e uma grande parte aos muito ricos.
Porque distribuir riqueza na sua maioria por outros critérios que não o mérito só faz este país mais pobre e miserável, e é usado como a desculpa perfeita para continuarmos a viver numa sociedade onde uns vivem à custa dos outros, e por detrás uns ainda enriquecem à custa de outros.
Não me acusem de ser egoísta e não querer saber dos mais pobres e desprotegidos. Por me preocupar com eles é que me revolta a farsa deste socialismo que promete que todos serão doutores mas depois só entregam um mercado de trabalho reduzido e precário, que é resultado desta economia.
Revolto-me porque sei que muitas empresas que dão emprego a muito gente, poderiam dar muito mais (empregos e rendimentos) se não tivessem que dar tanto a um estado que não dá nada de jeito em troca.
Revolto-me também com esses demagogos da esquerda que acham que os ordenados podem subir por decreto-lei, sem considerarem que, numa economia global, o papel do estado na definição da escala em que o mérito (monetário) é retribuído às pessoas é irrelevante, quando já nem o valor da nossa moeda controlamos.
Revolto-me porque esses demagogos estupidificam a discussão que não têm nada a ver com comunismo e capitalismo e proletariado. Que esquecem-se de dizer no fim que o estado social é um luxo de economias produtivas, e podem ser também o fim das mesmas.
Mas o que me revolta mais é as pessoas acharem que não existe solução, que sempre foi assim e sempre será, que o PS e o PSD vão sempre mandar nisto e quando aparecer um novo vai ser igual.
Revolto-me quando se comparam as decisões políticas (conquistas democráticas) de outros países com as nossas e o que eles fizeram de melhor é minimizado ou relativizado e desculpado com tudo (Salazar, povo português, o nosso tamanho geográfico, económico ou político), tudo menos com o carácter e decisões dos políticos que tivemos (porque elegemos). Assim, vivem eles em paz de espírito, pensando que não fazer nada é justificável, porque não há nada que se possa fazer para mudar.
Revolto-me quando se fala disto e se ouve coisas como “não há nada a fazer”, “mesmo que se faça alguma coisa vai sempre ser a mesma coisa”, “ele é corrupto mais ao menos fez mais que o anterior”. Mas quem disse isso?
Não, eu não sei qual é o caminho, nem sei qual é a solução, muito menos as melhores soluções, e ainda sei menos no curto prazo. Só sei para onde quero ir como país e cidadão e sei que esta não é a direcção nem o percurso.
Às vezes, penso, o melhor é sair deste país e nunca mais voltar. Já pensei assim, e penso na ideia muitas vezes, principalmente quando penso o quão rápido e há quanto tempo caminhamos para um abismo. Mas não quero, nasci neste país e não sou culpado de nada. Para além disso não sou nem fui escravo de ninguém. Não tenho e não quero ser escravo e servir nobres para o resto da vida, nem quero que os meus descendentes o sejam enquanto todos empobrecem e uma minoria enriquece.
Também não desejo fazer parte dessa vida fácil, dessa nobreza que só enriquece à custa dos mesmos sem mérito nem vergonha na cara. Nem me metem medo, não têm Pide nem militares armados prontos para me matarem. Protegem-se apenas com a nossa passividade e ignorância, e ainda precisam de nós para votar neles e para contribuir para o orçamento. Ter medo para quê e de quem e porquê?
E estou farto de pertencer à minoria de pessoas que já está farta disto, deste vira-o-disco-e-toca-o-mesmo e que sabe quem não tem de ser assim e não é assim em grande parte do mundo

(…)
Não entendo a maioria das pessoas que paga mais impostos e taxas e têm menos emprego, menos serviços, menos educação, menos saúde e menos segurança e mesmo assim dá maiorias absolutas à esquerda e à direita e aqueles que nos governam há 30 anos de uma maneira cada vez pior
(…)
Mas não quero partir porque tenho esperança que a caneta seja mais forte que a espada, e que o português possa perceber que decidindo juntos e justamente o nosso futuro somos mais felizes, ricos e inteligentes.
PS: O autor é o tipo de azul na fotografia que é pública. É o primeiro texto político que li dele. Assim é que é desconstruir campanhas e viver democracia. Não faço ideia onde ele vai votar, porque já votou, mesmo que não vá votar. Como escreveu Camus, no ano em que nasceu o pai deste cidadão, cujo texto somos nós, um homem revoltado é um homem que diz não. Mas se ele recusa, ele não renuncia: é, assim, um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento…

Set 04

Depoimento a Semanário

José Adelino Maltez
“Ferreira Leite fica feliz quando lhe chamam Cavaquista”
“O artigo do Passos Coelho é para marcar a agenda, tanto podia pedir uma maioria absoluta ao PSD, como podia pedir que Ferreira Leite descobrisse a Índia. Ela ainda nem assegurou a maioria relativa quanto mais a maioria absoluta. Isso é um bom jogo dialético para continuarmos a falar dele. Não acho que uma maioria absoluta libertasse Ferreira Leite do peso do Cavaquismo. Em primeiro lugar, parece que a coitada da dr. Manuela Ferreira Leite tem o Cavaquismo a persegui-la, quando foi ela que inventou o cavaquismo sem Cavaco – até lhe interessa. As razões dos eventuais êxitos que Ferreira Leite possa ter é precisamente porque ela se assume com um cavaquismo sem cavaco. Há, pelo contrário, uma colagem dela à imagem de Cavaco. Cavaco tem uma indiscutível confiança popular como se manifesta em todas as sondagens muito mais do que ela, não sei se o dobro se o triplo. Tudo o que seja insinuação subliminar como está patente em todos os discursos de Ferreira Leite é bom para ela. Tudo o que seja um ataque a chamar-lhe cavaquista ela fica feliz. Quem sai prejudicado no meio disto tudo é o dr. Cavaco porque fica com um espaço (reduzido) onde pode ser atacado por ver o seu nome envolvido na discussão político partidária. O artigo do Passos Coelho é uma provocação ao sistema que não é aleatória, porque aquele artigo é aquele que não se estava à espera e é aquela que mais atrapalha. Não é um artigo de impulso é um artigo político de provocação ao sistema.”

Set 04

Quem semeia ventos lá vai colhendo as tempestades…

Dizem que o irmão do Primeiro-Ministro comanda uma rede de jornais e que, perante a campanha negra que, ao mano-chefe lançaram os oposicionistas, o mano-subchefe se pôs e vigilância, armazenando papéis de campanha negra contra os outros, para espetar a farpa na altura certa aos sucessivos adversários, também especialistas nas sombras da vida privada do comandador. A meio do campeonato, as cadeias de jornais e televisões da Igreja, directamente dependentes de um bispo delegado da Conferência Episcopal, entrou no combate, denunciando a falta de moralidade do chefe do governo, com editoriais de moralismo catolaico bem emocionante. A resposta foi bombástica: apanhou-se o laico director de jornais e televisões, o tal moralista de sacristia, num caso de tribunal que mete assédios e homossexualidade. O editorialista em causa demitiu-se. Os bispos lavaram as mãos como Pilatos, defendendo o demitido.

Esta onda ainda não chegou a Portugal, com todos os seus contornos de Sade. O português suave apenas apanhou Manuela Moura Guedes. E ontem logo o comentei para o DN de hoje: Mesmo quem não seja um fã de M. M. Guedes e da restrita companhia da tribo “independente” que Moniz elevou a grandes educadores do nosso proletariado intelectual não deve hesitar: a liberdade exige plenitude de acção a propagandistas da situação e da oposição! Quando a entidade capitalista se desculpa com ordens vindas da patroa espanhola, mais se lamentam as anteriores palavras usadas pos Sócrates sobre a “campanha negra”, não sendo possível justificar o corte de pio com casos anteriores, como a cena dos santanistas com Marcelo Rebelo de Sousa.

Não há evidentemente censura, mas liberdade do mercado, neste socialismo a retalho, que é interventor nos dias pares e licencioso nos dias ímpares, conforme os heterónimos convenientes dos donos do poder. Mas Sócrates, a partir de agora, deixa de ter debates, passa a ser o bombo da festa, a não ser que tenha a hipocrisia de mandar um porta-voz defender a liberdade de expressão da M. M. Guedes, para se assumir como bode expiatório. Julgo que alguns, mais papistas do que o papão, continuam a fazer golos na própria baliza, pensando que ter o poder é ter a palavra. Talvez acabem por comunicar ao país que a peça sobre o Freeport será emitida pelos tempos de antena do PS. De outra maneira, darão razão a todos os que acham que esse elemento é o calcanhar de Aquiles do ministerialismo. Por mim, gostava mais que não “desviassem a atenção” da política, nesta campanha eleitoral!
Em conlusão, a campanha tem imensas minas e armadilhas, onde chafurdam os habituais artistas das campanhas negras, não faltando o vício da espionite. Só que, de tanta autogestão de consultores e espiões, entrou-se naquilo que em estratégia se chama “out of control”, e talvez em “point of non return”. Até Louçã e Jerónimo aparecem como carneiros do pluralismo, fazendo parecer que Sócrates, Manela e Portas são animias ferozes. Por outras palavras, precisavam todos de mudar o guião e até os actores, limpando profundamente os bastidores.
A televisão em causa foi formatada por D. José Policarpo, com Roberto Carneiro e Zé Ribeiro e Castro, antes de passarem o testemunho a Carlos Monjardino, e antes da chegada de Moniz. Os espanhóis, que a compraram, não querem velinhas a este ou àquele partido, querem “share”, mas sem que conspirem contra a igreja estabelecida ou os donos do poder. Ouviram falar nos saneamentos que José Saramago, ao serviço do PCP, fez no velho Diário de Notícias, mas hoje não o reconhecem como tal. Sabem as técnicas que o PSD teve para com Marcelo. E até entendem os meandros negociais do cardeal com a comissão que afastou do canal o Daniel Proença de Carvalho, onde o dialógo da Santa Madre e da maçonaria não era pecado grave, embora houvesse risco de excomunhões, pelas duplas pertenças, de acordo com o cânon 2335 do Codex de 1917, aggiornato pelo 1374 de 1983.
O episódio da outra Manela, a que já foi deputada do Manel Monteiro, é apenas sintoma da decadência, não é causa de nada, porque eram interessantes os debates que nos traziam os ilustres colegas de trabalho do marido de Constança, como o presidente e os seus colaboradores num dos mais importantes institutos estatais de investigação universitária, com um a educar a direita, outro, o centro do cavaquismo, e o terceiro, com saudades do seu velho colaborador-tarefeiro, Paulo Portas, quando era um bom aprendiz de académico. Pelo menos, mostravam como pensa o capitaleirismo sobre o resto do país, que é etimologicamente província, isto é, terra a conquistar.
O Sócrates tinha que ser o “gajo” a denunciar, por não ser suficientemente “radical chic” para continuar “feitor dos ricos”. Desenhou casas muito feias, obteve a licenciatura numa privada, que acabou encerrada pelo Gago, e tem uns tios e primos de susto. Entre bons pastores e péssimos criados, a burguesia fidalgota, não perdoa, sobretudo quando não esquece as tácticas maoístas e trotskistas, segundo as quais um bom revolucionário nunca pode ser um humanista. Importam mais as técnicas de cortar na viracasaca das intrigas da sociedade de corte, com os seus adesivos.

É evidente que o feitiço volta-se sempre contra o feiticeiro. Sócrates apanhou em cheio as tempestades que desencadeou, especialmente quando pôs a pata na poça ao não assumir, com toda a clareza, a sua atribulada vida académica. Ele, como doutorado em vida política, não precisava dos pergaminhos da licenciatura ou do doutoramento e devia ter-nos declarado isso mesmo, olhos nos olhos, denunciando a luta de invejas. Como devia mostrar tudo o que sabe sobre os meandros do Freeport, sem cair na esparrela da campanha negra, especialmente quando, no congresso do PS declarou que o povo é quem mais ordena. Sofreu agora a tempestade que desencadeou.

Santos Silva e ele próprio, Sócrates, estiveram bem, ontem, no tempo e no tom da resposta. Mas a memória do malhador e das trapalhadas não limitaram suficientemente os estragos. Apenas espero que não surja a espiral da contra-resposta com outros elementos ainda ocultos, mas que os campanheiros guardam para as contra-ofensivas. Porque tudo foi desencadeado pela conversa de alguém da casa civil da presidência sobre os arcanos do relacionamento entre os principais órgãos de soberania. Não acrescentemos à tragédia, o ritmo da comédia e da ópera bufa. Ainda não estamos em ritmo de Berluscolini e de Boffo.

Set 03

Depoimento à Visão

Segundo as declarações que prestei à revista Visão, publicadas hoje,  o Chefe de Estado quer revisitar «o cavaquismo em versão presidencial, reabilitando a teoria do homem comum de sucesso e do tecnocrata com desprezo pelos políticos». Acrescentei que, com tal fórmula, Cavaco não consegue ser «suprapartidário». É, alegoriza, «um árbitro que não resiste a dar uns pontapés na bola».

Até porque que José Sócrates «foi incrivelmente ingénuo, ao pensar que o bom relacionamento com o Presidente estava para durar e não previu o tacticismo de Cavaco que, mais cedo ou mais tarde, lhe iria tirar o tapete». Com Mário Soares na chefia de Governo, «isto jamais teria acontecido». E também achei que Cavaco «corre o risco de ficar para a História como o PR que ressuscitou o conflito entre a política e a religião», embora verifique que certas decisões do Presidente têm recebido alguns surpreendentes apoios «Até o PCP já o aplaudiu».

Finalmente, advogo ser desnecessária qualquer mexida no regime semipresidencialista, mesmo num cenário de governabilidade precária saído das próximas legislativas. «Se isso acontecer, os dois maiores partidos vão ter de arranjar energia para expulsarem Ferreira Leite e Sócrates das lideranças. Há uma criatividade na democracia que a partidocracia do eucalipto ainda não secou.»

Set 03

Os donos do poder

Os Donos do Poder

 

por José Adelino Maltez

 

Mesmo quem não seja um fã de M. M. Guedes e da restrita companhia da tribo “independente” que Moniz elevou a grandes educadores do nosso proletariado intelectual não deve hesitar: a liberdade exige plenitude de acção a propagandistas da situação e da oposição! Quando a entidade capitalista se desculpa com ordens vindas da patroa espanhola, mais se lamentam as anteriores palavras usadas pos Sócrates sobre a “campanha negra”, não sendo possível justificar o corte de pio com casos anteriores, como a cena dos santanistas com Marcelo Rebelo de Sousa. Não há evidentemente censura, mas liberdade do mercado, neste socialismo a retalho, que é interventor nos dias pares e licencioso nos dias ímpares, conforme os heterónimos convenientes dos donos do poder. Mas Sócrates, a partir de agora, deixa de ter debates, passa a ser o bombo da festa, a não ser que tenha a hipocrisia de mandar um porta-voz defender a liberdade de expressão da M. M. Guedes, para se assumir como bode expiatório. Julgo que alguns, mais papistas do que o papão, continuam a fazer golos na própria baliza, pensando que ter o poder é ter a palavra. Talvez acabem por comunicar ao país que a peça sobre o Freeport será emitida pelos tempos de antena do PS. De outra maneira, darão razão a todos os que acham que esse elemento é o calcanhar de Aquiles do ministerialismo. Por mim, gostava mais  que não “desviassem a atenção” da política, nesta campanha eleitoral!

Ago 31

As duas faces da mesma moeda que não é boa nem má, mas o mais do mesmo

Está tudo doido. Alguns activistas do maneleirismo vêm a blogue declarar que terei dito na televisão que vou votar PS. Irra! E insinuam que o faço, porque terei sido maltratado pelo meu reitor, que seria do PS. Irra! Já chega de mentiras e até de trocar o nome aos bois! Abaixo o quem não é por mim, é contra mim! E tudo vem acompanhado por campanhas no Twitter quanto às minhas opções eventualmente místicas, não faltando as próprias ameaças sicilianas, segundo o melhor ritmo bufeiro dos moscas, formigas e outros que tais que fizeram, da nossa dita direita e da nossa dita esquerda, as mais estúpidas do mundo!

Ainda recentemente sofri no lombo a existência de um pseudo-blogue com o meu nome, para uso de lutas internas pelo poder na universidade. Julgo que o respectivo autor conseguiu finalmente ser promovido. Outro, que também anda pelas alturas, até o filho usava como testa de ferro em comentários de blogues que, apesar de adversários nas concepções do mundo e da vida, me respeitavam em diálogo de bela polémica de ideias. Não me consta que qualquer deles seja socrático, bem pelo contrário. E o pretenso socrático que o João Gonçalves, a posteriori, depois do meu comentário, tenta transformar em fantasma deve ser o mesmo que alinhou numa insultuosa campanha contra um paradigmático ministro socrático, servindo de ponta de lança a uma salada de estalinistas, fascistas não disfarçados e laranjadas. Agradeço a socráticos que, correndo risco de persiganga, defenderam comigo a liberdade. Mas nada disto tem relevância. E até gosto mais do João Gonçalves, porque quem bate tem direito naturalmente de levar, e não tem sequer de responder com outra figura do Walt Disney, porque preferiria a versão brasileira do Zé Carioca!
Será que um português não pode, hoje, misturar a mundivisão, que Sócrates diz subscrever, com a denúncia do dirigismo estatal, que Manela diz ser monopólio dela? Será crime gostar do poema satírico de Natália Correia sobre uma “gaffe” de um deputado …de Lamego, quando ela não era parlamentar do PS? Será que todos os do PS são contra o casamento e a família? Será que Manela não é mulher e divorciada? Será que o PPD/PSD não é de Francisco Sá Carneiro, aquele que, por causa de Snu, teve arcebispo de Braga e secretário-geral do PS, em plena televisão, a invocarem a imoralidade…
Não teve o PPD/PSD líderes como Rodrigues dos Santos e Emídio Guerreiro? Será que o PS não recolheu como secretário-geral um António Guterres? Será que a Constituição não admite a defesa política do catolicismo, do agnosticismo, do ateísmo ou do simples panteísmo? Será que a clivagem direita/esquerda passa por essas concepções do mundo e da vida? Irra! Não podemos ser liberais em Portugal? Mesmo sem partido?
Manuela Ferreira tem todo o direito de assumir as legítimas bandeiras axiológicas da doutrina social da Igreja Católica e até a linguagem de propaganda da fé do papa Bento XVI. Assim se explica a razão pela qual a Igreja nunca se quis comprometer com um partido democrata-cristão que tivesse dentro dele uma ala liberal. Sempre preferiu que os seus dilectos se juntassem a socialistas e sociais-democratas para melhor poder influenciar o poder. Lembro-me da história de um fundacional secretário-geral do CDS, quando foi à Madeira, nos primeiros dias de Abril, tentar implantar o partido. Segundo ele me contou, o senhor bispo aconselhou-o a regressar ao contenente, para não dividir o rebanho. O bispo tinha razão eleitoral em preferir Alberto João, como se pode concluir. Pena que este não se actualize em termos de Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, nome que, em 1965, recebeu a Congregação do Santo Ofício, designação dada à mais velha e permanente “Congregatio Sanctae Inquisitionis”.
Aliás, Sócrates ainda ontem se propagandeou, inaugurando a subsidiada Obra do Padre Miguel, para dizer que a IVG e as uniões de facto não são directamente proporcionais às IPSS. Por outras palavras, se considero que Manuela Ferreira Leite pode ser efectivamente democrata-cristã, sem ter que ficar condicionada pelos dogmas laicistas, talvez deva distanciar-se dos congregados de muita comunhão e proclamada libertação que andam por aí diabolizando quem não alinha nessas causas e voltam ao armazém dos martelos contra os heréticos, numa espécie de tentativa de estadualização da luta contra os os ortodoxos e os dissidentes. Apenas recordo que, se o autoritarismo diz que quem não é contra mim é a favor de mim, passa a totalitário quando proclama que quem não é por mim é contra mim.
Considero, contudo, um erro crasso acirrar a falta de compreensão histórica entre homens de boa vontade, sejam do humanismo cristão, sejam do humanismo laico, especialmente quando Roma já não usa a excomunhão para os que fazem dupla filiação. Só considera pecado grave para os que o praticam. E deixa totalmente livres de censuras tipos liberais como eu que não fazem parte do rebanho. Os do humanismo que dizem laico são mais permissivos, dado que deixam isso à consciência de cada um.
Se este estúpido ambiente de decadência agravar a demência, não há capacidade de análise politológica para as esquizofrenias. Bastam as análises de costumes sobre os anjos decaídos. É que, para o homem comum, onde a tolerância é o ar que se respira, não estamos divididos entre o atavismo inquisitorial da velha reacção congreganista e o delírio dos pretensos semeadores dos amanhãs que cantam.
O progresso dos declinadores do pretérito perfeito são os computadores, o ensino do inglês, as escolas profissionais, a paridade, o divórcio não litigioso, a IVG, as uniões de facto e as contas-poupança, enquanto os conjugadores do pretérito imperfeito preferem as PME, a baixa de impostos, a suspensão da avaliação dos professores, porque eu sou mulher e divorciada, vou suspender este TGV, apoio Cavaco, porque vetou as uniões de facto, e quero o regresso aos certificados de aforro, suspender o PEC, remunerar os juízes pela produtividade e baixar a taxa social única. Aliás, já o meu vice-presidente esclareceu que não deixo de querer a alta velocidade, a terceira auto-estrada troço a troço. Uso o futuro no condicional e não faço o catálogo panglóssico do presente governo. Não não vou por aí, não subscrevo os bonzos do rotativismo e, muito menos, os endireitas e canhotos que querem coligações à direita e à esquerda do que está, para que tudo fique na mesma, desde que eles sejam ministros.
P.S. Juro que tudo quanto aqui escrevo não tem mesmo nada a ver com o ex-reformador João Gonçalves. Ontem gargalhámos quanto baste ao telefone. Com todas as naturais divergências sobre o maneleirismo e o presidencialismo. Fui ler a seguir as teorias de Jung e os manuais de análise simbólica sobre os contos de fadas e os desenhos animados…