Depoimento à Lusa

Analistas traçam quadro pouco abonatório da campanha
Dois votos contra e uma abstenção é o resultado da votação de três universitários e analistas políticos sobre a forma como está a decorrer a campanha para as eleições intercalares em Lisboa, no próximo domingo.

O “chumbo” mais veemente é atribuído pelo politólogo Adelino Maltez, para quem a campanha está “demasiado fraquita” e reveladora de que “a cabeça do reino [Lisboa] está um pouco vazia de ideias”, como disse à agência Lusa.

Para o director do Centro de Estudos do Pensamento Político do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), esta corrida eleitoral está transformada num “esgoto de ex-ministros”, numa alusão ao facto de um terço dos 12 candidatos terem pertencido a anteriores governos.

Este grupo é composto por António Costa (PS), Fernando Negrão (PSD), Telmo Correia (CDS-PP) e o independente Carmona Rodrigues – que se recandidata ao cargo que ocupou eleito pelo PSD – a quem Maltez chama “ex-ministros apagados de governos apagados”.

“A autarquia está a transformar-se não num sítio de lançamento [político], mas de refúgio, considera o analista e professor universitário.

Também Marina Costa Lobo, doutorada em Ciência Política e professora na Universidade Católica, é crítica em relação à forma como os diferentes candidatos estão a realizar a campanha, que durará só mais quatro dias.

“Não me parece que tenha sido esclarecedora nem informativa, talvez pelo elevado número de candidatos e não me parece que tenha sido mobilizadora, disse à Lusa.

E considera mesmo que a campanha “serviu mais para prejudicar alguns candidatos” e foi “menos clara e menos esclarecedora”, o que “não ajuda à mobilização do eleitorado”.

O historiador e professor no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) António Costa Pinto é o menos crítico dos três especialistas, mas considera também que a “dimensão programática conta menos do que se poderia pensar” num sufrágio deste género.

Além de reflectir a polarização esquerda/direita que existe no âmbito nacional, “a Câmara de Lisboa passou a ser, nos últimos 20 anos, uma plataforma para políticos nacionais”, considerou o também investigador no Instituto de Ciências Sociais.

Desde que foi presidida por Jorge Sampaio, a liderança da autarquia da capital “passou a ser um cargo que no quadro de carreira política é nacional e não local”.

“É a consequência de Lisboa ter uma condição macrocéfala em relação ao país”, sustenta.

Adelino Maltez vai mais longe e questiona mesmo “se não seria melhor Lisboa deixar de ser a capital para poder ser a cidade”, lamentando que se a “paisagem é um deserto”, numa alusão ao resto do país, “a capital também está despovoada”.

“Somos um país suburbano” onde os candidatos à Câmara de Lisboa “vão à procura do povo nas feiras das Galinheiras ou do Relógio”, acusa, salientando: “Ontem [domingo], um [candidato] andava sozinho no Tejo de barco, outro foi ver um castelo com quatro amigos…Se isto é campanha…”

Marina Costa Lobo apresenta outra razão para o baixo envolvimento do eleitorado na campanha que é o facto de não haver dois candidatos fortes que bipolarizassem a disputa, já que a dispersão de votos apresenta sempre o candidato socialista à frente nas sondagens, distanciado dos seguintes.

“Eventualmente, esta situação poderá reflectir-se na abstenção, que seria igualmente combatida se um dos concorrentes estivesse à beira da maioria absoluta, situação que não se coloca”, disse.

Costa Pinto retira da pré-campanha e dos escassos dias que decorreram de propaganda oficial a ideia de que António Costa (PS) protagoniza a “candidatura mais eficaz do ponto de vista político” e considera que, no resultado, “conta mais o partido que o candidato”.

Já no PSD, partido que venceu a última corrida em Lisboa, o analista diz que resta saber se o seu candidato, Fernando Negrão, vai conseguir um “resultado honroso” perante o seu adversário Carmona Rodrigues, último presidente da Câmara, eleito precisamente nas listas sociais-democratas, e que agora se candidata como independente.

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