Grão a grão, vai enchendo o papo, esta revolta da Maria da Fonte

Leio a jornalada, nestes retalhos de um quotidiano, onde os ministros dão recados ao povo através de fugas de informação dos seus assessores de imprensa, depois de receberem pressões públicas comunicacionais de grupos de interesse que passaram a fazer pressão. Valia mais que lessem “The Federalist” e adoptasse uma via confederativa para a complexidade da universidade, onde o pluralismo estatutário não deveria proibir a unidade institucional. Prefiro fugir da transcendência das estrelas e ir para o pequeno enlameado do quotidiano onde tenho de viajar com os pés. Porque, ontem passei o dia a corrigir testes escritos de alunos da bolonhesa, semestralizados, como ciência de chouriço e pastilha. Reparei como para a maioria dos alunos foi difícil responder a uma questão onde se fazia um relacionamento entre a abstracção de um conceito e elementos da realidade. Concluí que eles estão preparados para cantarolar receitas pré-fabricadas na sebenta de um livro único, como as respostas das ciências pretensamente exactas que saem nos jornais no dia seguinte a uma das provas dos exames nacionais. Não estão preparados para a criatividade, a investigação e o exercício do pensar mais do que baixinho. Se seguisse o paradigma de um velho professor meu que chumbava em regime de indeferimento liminar noventa e cinco por cento dos que não estavam treinados para o efeito, faria o mesmo que nos tempos da pré-bolonhesa. Por mim, apenas considerei que a culpa era a minha não adaptação aos tempos que passam e decidi ceder aos ditames dos novos ritmos avaliadores, para que todos deslizem para o pagamento de propinas e para o aumento da receita pública pela quantidade. Assumi a cobardia dos novos amanhãs que reformam, mas não repetirei o erro no próximo ano lectivo. Que venham outros, mesmo que sejam uns desses assessores do senhor director pagos a recibo verde, ou um dos compadres de um qualquer outro reformador que facilite a vida à teologia do mercado que vai destruir uma universidade, onde partidocratas e burocratas pintados de professores brincam à gestão dita democrática, antes da chegada dos necessários gestores profissionais, avaliáveis pela sociedade civil, que dêem aos professores a urgente liberdade académica que o presente modelo crepuscular vai asfixiando. Mas os sinais de degradação do quotidiano, especialmente na zona do micro-autoritarismo sub-estatal, continuam. Agora é a própria Igreja Católica, que, há dois mil anos sabe como fazer barganha com o poder político, a denunciar a crescente falta de liberdade prática e a chamar os bois pelos nomes.

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