Mar 23

Espera, esfera, esperança, ou o mundo em 2059

Fui hoje gravar um programa no Rádio Clube Português, onde me pediam para imaginar o mundo em 2059. Tentei cumprir o impossível e saí em defesa da pluralidade de divinos e, consequentemente, da própria religião, porque o transcendente situado continuará a ser procura contra a intolerância, a ignorância e o fanatismo. Até concebi a existência de uma papisa Jinga II, a partir da Muxima, a sede que sucedeu a Roma, em nome de um abraço armilar falado em português, como língua de libertação do Sul, prevendo a hipótese de aparições de uma Nossa Senhora do Namibe. Tentei, copiando as confissões de um homem religioso, reconhecer o mistério do homem de sempre, segundo o ritmo dos velhos conservadores liberais, como um céptico entusiasta.

 

Porque nos próximos cinquenta anos continuaremos as escrever muitas frases que hão-de salvar a humanidade, mas a humanidade continuará por salvar. Porque continuaremos a chamar política a certas degerescências que não concebem que o Estado está acima do cidadão, mas que o homem está sempre acima do Estado.

 

Imaginei que, nos próximos cinquenta anos, voltarão os velhos cavaleiros do Apocalipse, como a fome, a peste e a guerra, mas que o homem de sempre, depois da queda, levantar-se-á e continuará a lei Platão, Buda, Confúcio, Cristo, Maomé e Rousseau, não tanto nas letras que matam o espírito, mas nos livros de folhas brancas que foram escritos pela eternidade, por aquele conceito que nos deve fazer reconhecer que a poesia é mais verdadeira do que a história.

 

Quisemos ser anjos, em nome das utopias, mas acabámos por incrementar as bestas.Temo que as utopias nos trarão novos autoritarismos e novos totalitarismos, mas que a força do bem, a beleza de sempre e a eterna sabedoria nos continuarão a mobilizar. Mesmo em tempo de crise, haverá sempre a “spera”, a “sphera” e a “sperança”, conforme a divida da armilar que D. João II deu ao futuro D. Manuel. Tentei apenas exprimir as minhas crenças e as minhas concepções do mundo e da vida, dessa procura do universal pela diferença. Esquecemos os homens como eles são e caímos na estreita perspectiva das ideologias, dos cientismos e da utopias, porque só a partir da humildade de nos reconhecermos como imperfeitos é que poderemos caminhar para a perfeição, atendendo mais às acções dos homens do que às rescpectivas intenções, construtivistas ou planeamentistas.

Mar 23

Obrigado ao Papa, por voltar a sentir o abraço armilar

Não sou católico, mas não perdi os directos de Luanda com o Papa, na comemoração da cristianização de Angola, sinónimo da presença dos portugueses, a partir da passagem de Diogo Cão pelo Zaire e, sobretudo, quando os portugueses do Brasil fundaram uma nova São Paulo, a de Luanda, visando a criação do triângulo estratégico de um novo “mare liberum” que ainda tem amanhã, hoje. Porque foi na viagem de regresso de Paulo Dias de Novais que começou certa globalização, a que ainda falta justiça. Tentei ouvir Ratzinger sem preconceitos nem fantasmas, procurando a mensagem que ele quis deixar para o que normalmente chama homens de boa vontade. Quase tudo o que disse sobre o humanismo não me foi alheio, tocou-me por dentro e assim dialoguei por cinco séculos de luzes e de sombras e, diante daquele povo novo que emergiu dessas convergências e divergências, apeteceu a metafísica, respeitando o passado, reconhecendo o presente, sonhando o futuro. Vibrei particularmente com o cântico das batucadas e senti o meu Portugal, do abraço armilar, porque nada há de mais português nessas paragens do que ser angolano até aos limites cósmicos do universal. Porque os suíços podem construir relógios, mas os africanos inventaram o tempo. Apeteceu voltar a agradecer a Angola o facto de se ter tornado independente, de ser mais uma nação a caminho de uma super-nação futura. O Portugal da “spera, sphera, sperança”, semeado por D. João II, pode ter morrido, tentando, mas ficou a vida, aquela a que hoje damos o nome de Angola e do Brasil. Por cá, apenas temos que saber triangular, recordando um tal Sá Nogueira, o da Bandeira, a quem chamavam maluquinho, nos anos trinta do século XIX, porque, quando era ministro, apenas mostrava planos de uma cidade nova, a de Luanda, com um diploma que queria aplicar dando direito a voto aos locais do senhorio natural, para a fundação de muitas repúblicas municipais…

Mar 21

Escolham quem é capaz de pôr a justiça acima do direito, o direito acima da lei e a lei acima do regulamento, mesmo que esse seja do PS

Há pessoas, partidos e pessoas que, por um lado, se deviam dar ao respeito e que, por outro, se deveriam fazer respeitar, começando pelo respeito de si mesmas, não confundindo pretéritos, perfeitos, ou imperfeitos, com presentes, futuros e condicionais. Acontece que, neste ambiente de pantanais e algum paludismo, os partidos, os ministros, e mais seitas e serviçais que imitam os partidos e os ministros, tanto lá em cima, nos altos órgãos do Estado, como mais abaixo, nos mais pequeninos, que se pensam réplicas das lutas pelo poder, confundindo os tempos dos verbos, começaram a abusar dos chamados senadores da república que, embora não tenham de ir para o museu, talvez devessem conservar a autoridade, isto é, não serem instrumento do poder, como bolas de trapos que todos vão chutando em brincadeiras de rua, para os putos as atirarem às ventas da equipa adversária.

 

Começo por falar das testemunhas dos banqueiros do regime. Não porque os actuais senadores não devam prestar depoimento semelhante ao que António de Oliveira Salazar e Manuel Gonçalves Cerejeira processualizaram abonatoriamente face a Diogo Pacheco de Amorim, esse ex-deputado do Centro Católico, envolvido por Alves dos Reis no seu banco das notas de quinhentinhos. Já reparei que Mário Soares, no recente congresso da UGT, quando falou de roubalheiras de banqueiros, estava apenas a dizer que falou nos norte-americanos. A malta é que interpretou mal. Como agora o continuámos a interpretar mal, quando ele teve aquela vergonhosa qualificação de Durão Barroso, não disfarçando a inveja. Porque o Zé Manel fica para sempre como a mais europeísta das figuras da nossa história.

 

Agora é o pingue-pongue em torno do sucessor de Nascimento Rodrigues. Com Sócrates, apertado, em pleno parlamento, a dizer que tinha uma figura acima de suspeita, para, dois dias depois, o ex-ministro da reforma do Estadão, vir a telejornal dizer que a bomba era Jorge Miranda, esperando certamente o comentário dominical do seu colega Marcelo, ou a intervenção de segunda-feira, do seu ex-assistente Vitorino, com o ministro Silva Pereira a sorrir, depois da instrumentalização do nome que fizeram do ex-ministro Freitas, na linha do que também fizeram com outros senadores e professores, sempre disponíveis para o jogo, quando todos atingiram o nível de cardeais sem a coragem de Nascimento Rodrigues.

 

Portugal talvez seja mais do que este país que cabe na estreiteza do PBX da Faculdade de Direito de Lisboa, onde sempre gostei muito mais do Senhor Costa e da Dona Lurdes, que esses, pelo menos, parecem continuar fiéis à militância que sempre tiveram, nunca mudando de campo conforme as ilusões do prestígio em tempos de decadência moral. Nestes tempos de escrutínio público, nenhum dos senadores está livre  que os jornais ponham a boca no trombone e nomeiem a rede de nomeações familiares e de avenças que um qualquer investigador poderá fazer, lançando na lama nomes da nossa história democrática. Era conveniente conservá-los livres deste processo analítico.

 

Por outras palavras, desta feita, considero que a Manuela Ferreira Leite precisa de continuar a ter coragem e não pode transformar o lugar de Provedor em mais uma negociata de chico esperto. Nascimento Rodrigues, que, no pretérito, foi mais funcionário público de honra e militante sindicalista, não precisou do carimbo de doutor em direito, ou de catedrático do mesmo ramo, para inspirar, na comunidade, a confiança do homem livre. Viveu como pensava e não precisou de ceder, porque quis continuar a viver assim, sem pensar como depois iria viver.

 

Tenho a minha viva opinião sobre a conduta do Professor Doutor Jorge Miranda nestes últimos anos. É exactamente igual à que tinha nos anos posteriores a 1976, quando era membro da Assembleia de Representantes da Faculdade de Direito de Lisboa. Porque, então, quando as coisas aqueciam, face às manobras do MRPP, muitos como eu preferiam que o presidente da assembleia, Jorge Miranda, tivesse que se ausentar dos trabalhos, para que essas funções fossem assumidas pelo assistente Miguel Galvão Teles, então indicado pelo PS. É que este tinha uma noção mais realista e combativa do processo de instauração do pluralismo, sem dependência das fórmulas positivistas da pretensa licitude. Punha a justiça acima do direito, o direito acima da lei e a lei acima do regulamento. Julgo que, ainda hoje, o próprio PSD era capaz de escolher um homem livre do PS para que não continuássemos a brincar aos senadores dos pretéritos perfeitos ou imperfeitos.

Mar 20

Onfray e este anarco-direitista da pátria da Ilha dos Amores, farto da hemiplegia da esquerda contra a direita, com que a França nos vem colonizando

Ontem foi tarde e noite de boião de cultura, bem à francesa, com filósofo no palco, jantar nos jardins da embaixada, muitos intelectuais enfarpelados e diplomatas q.b., segundo o conceito de elite dos senhores adidos. Já há anos que o não fazia, mas o pensador valia a pena e a amizade com os editores do Campo da Comunicação obrigaram-se ao prazer de visitar essas de reservas da cultura luso-parisiense. O pretexto chamou-se Michel Onfray, de Caen, dito seguidor de Foucault,  Bourdieu, Deleuze e Guattari, mas sem memórias estalinistas ou trotskistas, dito de uma lógica republicana de esquerda, assumidamente libertária, contra Freud e contra o anarquismo milenarista do século XIX, porque, contra os microfascismo, importam as micro-resistências.

 

Claro que não lhe fiz a pergunta que me apetecia, saudando esse último resto das invasões francesas que ainda permanece na nossa estupidificação, que é a tal hemiplegia mental em que a esquerda nos divide entre a direita e a esquerda, enchendo a primeira de preconceitos, porque assim pensa que se livra dos fantasmas. A tal esquerda que, depois, disfarça a coisa recorrendo a uma abstracção, marcada pela bipolaridade unidimensional vinda do maniqueísmo. De Caen, aprendi mais com Simone Goyard-Fabre e os cultos de Aron e Tocqueville.

 

Onfray é intelectual. Como Alain Bénoist esteve para a nova-velha direita, André Glucksman e Bernerd-Henri Lévy, para os arrependidos do Mai-68 e Luc Férry para direitistas como eu. Todos muito “radical-chic”, onde a esquerda ou a direita do snob, ainda presas pelos croquetes das recepções, tentam converter-se ao “radical chic” dos arremedos de caviar e do verdadeiro “champagne”. Onfray, muito estreitado pelo “slogan” do manifesto ateísta, é bem mais do que essa adjectivação, dado que mergulha numa clássica tradição, que circula por Helvétius e Holbach e procura aproximar-se de um novo sindicalismo revolucionário, segundo os modelos de Proudhon. Mas, para “épater” um mitificado “bourgeois”, não deixa de candidatar-se à imagem de mestre-pensador, com dicionário próprio. Por outras palavras, o discípulo de Bourdieu, encanta-nos, precisamente, por causa das “règles de la méthode” do típico “homo academicus”.

 

Felizmente que não levou gravata. Eu também não. E os adidos franceses ficaram assim sem saber as causas que impedem o actual galicismo de reocupar o espaço perdido de influência, agora que estamos a ser vítimas dos exageros da “way of thinking” anglo-americanas. Por mim, que continuo francesista, disse, mais uma vez, presente. Primeiro, para reconhecer como o nome libertário foi usurpado pelos neo-liberalões dos “States”. Segundo, para me felicitar por esta indisciplina no seio de certa esquerda, até aqui enquadrada pela célula do revolucionário profissional, ou pelos núcleos seus sucedâneos, trotskistas, maoístas e polpotistas.

 

Porque coincido com o libertário na sua rejeição liberal do processo histórico e, muito à Tocqueville, detesto os controladores do processo histórico, sobretudo, do conceito de revolução. Até porque também acredito que não é a história que faz o homem, mas o homem que faz a história, embora sem saber que história vai fazendo. Etambém me apetece glosar a “velhice do padre eterno”, mas sem ser ateu e até agnóstico, mantendo-me fiel a Espinosa e à sua heresia panteísta, não para acirrar o deicídio, mas para que se regresse à pluralidade dos divinos. Logo, meto-me, sem querer, no mesmo saco que César das Neves tenta extinguir em ridículo.

 

Com a bela aula de Onfray, apenas confirmei que só é novo aquilo que se esqueceu, que só é moda aquilo que passa de moda. Reparei que o tradicionalíssimo hedonismo pode também contribuir para o reforço daquele humanismo que, desde sempre, proclamou que o homem, enquanto indiviso, pode ser, de novo, a medida de todas as coisas. Pode até servir para que a já idosa filosofia do desejo, largue o estreito conúbio entre Marx e Freud, reperegrinando Nietzsche e dando ao niilismo alguma ascese. Por mim, mais anarco-direitista, filho do “Homem Revoltado” de Camus, editado no ano em que nasci, temendo o exagero sofista do umbigo discursivo, continuo a preferir a velha disciplina das academias peripatéticas e dos quodlibéticos das universidades medievais. Não quero acabar circulando com a pipa das orgias a disfarçar-me as vergonhas e com os seus sucedâneos etéreos, à Wodstock. Esses que voltam à ilusão dos amanhãs que cantam, só porque assistem a grandes realizações hollywoodescas que exploram a nostalgia revolucionária.

 

Continuo a detestar o neodogmatismo pretensamente antidogmático da velha casta dos intelectuais que passam para a categoria dos intelectuários. Prefiro Montaigne e a filosofia alternativa da vida quotidiana e não me fecho nos manuais “against method”. Pensei nessa do “plaisir du plaisir”, como forma de transcendente, saindo da filosofia do desejo e pisando os terrenos da filosofia do prazer. Não lhe chamarei utilitarismo de esquerda, porque temo o intervencionismo do poder para definir o campo do mínimo ético.  Também detesto esse pretenso hedonismo da sociedade de consumo, o hedonismo do ter, procurando pisar a ascensão do hedonismo do ser, com uma ética existencial, resistindo às dominações. Mas não me apetece perder na desmontagem de Deus e na denúncia das três grandes religiões do Livro, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, e do seu irmão-inimigo laicista, que lhe manteve o conteúdo. Porque ainda há metafísica não redutível à física do desejo. Sou definitivamente um materialista idealista, ou um transcendentalista-idealista, nesta procura da natureza das coisas e do transcendente situado.

 

Muito menos reduzo tudo ao binário da esquerda contra a direita ou da direita contra a esquerda, posições filosoficamente inimigas da filosofia, essas tradicionais formas de hemiplegia mental, como diria Ortega y Gasset com que a França continua a colonizar Portugal. Mas aceito o contratual, mesmo no erotismo solar e recordo o que me ensinou Agostinho da Silva, quando referia que a nossa Ilha da Utopia era a Ilha dos Amores, em verso épico.

Mar 19

O Estado está acima do Cidadão, mas o Homem está acima do Estado

Anteontem, fui ao RCP, às conversas com Alexandre Honrado, comentar a actualidade. O pretexto tinha a ver com os nove meses de desentendimento do PS com o PSD, para a escolha de um novo Provedor de Justiça

, obrigando Nascimento Rodrigues a ter que esperar à força o sucessor. Porque os partidos do centrão abusam do monopólio legal da representação dos cidadãos e usam e abusam da crescente partidocratização de alguns grandes cargos para-judiciais, como também transparece na nomeação dos juízes do Tribunal Constitucional ou das campanhas e listas que degeneram o Supremo Tribunal de Justiça.

 

Porque nem tudo o que é lícito é honesto, sobretudo para quem já viveu num sistema autoritário e ditatorial que era um Estado de Legalidade, só porque os direitos, liberdades e garantias constitucionais estavam também constitucionalmente em regime de suspensão, nesse provisório definitivo estabelecido desde os primeiros vagidos do regime quarentão. Ora, é a mesma gente, com  os mesmos hábitos e idêntico verniz que recobriu este estadão dito democrata, onde há flagrante desrespeito pelos conselhos do provedor. Este estadão a que chegámos onde domina a vergonha do bate primeiro e protesta depois na justiça lenta que te dará resposta quando o meu partido já não estiver no governo. Portanto, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas e o batedor pode processar-te domesticamente, tirar-te a cidadania e, pelo meio, fazer discursos e vender acções de formação a que até podem dar o nome de licenciatura e mestrado.

 

Daí que interesse desprestigiar a figura do magistrado. Inventando ainda mais provedores, dos jornais, das rádios, das televisões e agora até o do crédito à habitação, neste regime que vai processando, com trombetas da propaganda, variados bodes expiatórios, para que o processador continue a ter o monopólio da palavra e, por vezes, da própria compra do poder, vinda de cima para baixo, através da criação de uma fila de cortesãos sempre à espera da chegada de sua excelência ministerial, assim exibido no circo da sociedade de corte que nos vai enchendo de náusea.

 

O Provedor de Justiça, especialmente honrado pela coragem cívica de Nascimento Rodrigues, é a forma do Estadão ser corrigido pela régua de chumbo de que falava Aristóteles, porque as réguas de ferro da licitude não consegue fazer justiça no caso concreto, adaptando-se aos objectos que não são cubos de pedra. O provedor, especialmente nas pedras polidas da criatividade humana, tem que continuar a ser um homem livre, um cidadão exemplar, com um curriculum de defensor de causas. Não tem que ser um desses catedráticos avençados pelo governamentalismo ou uma das bailarinas da incoerência que passa da esquerda para a direita e da esquerda para a direita conforme os ventos do pensamento único das modas que passam de moda e, sobretudo, pelo sentido das torneiras dos subsídios e das avenças.

 

Nascimento Rodrigues tinha um perfil de militante partidário e sindicalista, mas como inconformista e até dissidente do seu próprio partido, foi um paradigma que iluminou a resistência dos cidadãos contra o poder e os poderes. Tal como José Magalhães Godinho e alguns outros seus antecessores, à excepção de um que, no antigo regime, dava cobertura a processos disciplinares que demitiam catedráticos. Nascimento Rodrigues, apesar de activista da construção deste regime, era o exacto contrário da partidocracia devorista e nunca cedeu à comadres e compadres do país legal, em governos do PSD e do PS. Sabia o que era a moral, a ciência dos actos do homem enquanto indivíduo e enquanto cidadão, num sonhado Estado de Direito, onde no princípio era o Homem e não o Estado, onde o Estado está acima do cidadão, mas onde o Homem está acima do Estado. Por mim, quero um Provedor que continue esta resistência chamada liberdade e desobediência às degenerescências do estadão.

Mar 18

O processo de desinstitucionalização em curso

Comentar quatro anos da primeira maioria absoluta do PS, entre o primitivo “estado de graça”e a actual crispação da pré-campanha eleitoral, em plena crise global, implica notar que quase todos chamaram esperança à mera punição das trapalhadas dos anteriores governos do PSD/CDS, quando “animal feroz” se fingia o “action man” de um falso reformismo que o parecia confirmar como o líder de uma pretensa ala direita do PS, ocupando a falta de norte do vizinho do Bloco Central.

 

Quando, a partir do Mindelo, o plebiscitado secretário-geral do PS, utiliza uma visita de Estado para “malhar” na oposição, está tudo dito quanto à confusão entre o público e o doméstico, entre o chicote do turbulento, à Santos Silva ou à José Lelo, e a cenoura com que pretende captar os disidentes, de Edmundo Pedro a Manuel Alegre. Porque, os fabricantes de “agenda setting” o aconselharam a reduzir o PSD de Manuela Ferreira Leite ao nível do “bota-abaixismo” e da “maledicência”, bem como as manifestações de rua a simples emanações das tradicionais “correias de transmissão” dos comunistas que “comem criancinhas ao pequeno almoço”.

 

Com efeito, até a eleição presidencial de Cavaco Silva reforçou a imagem da “boa moeda” que expulsara Santana Lopes e Paulo Portas, especialmente quando se atingiu quase o ritmo celestial da assinatura do Tratado do Mar da Palha. Só que, se o poder corrompe e enlouquece, o poder absoluto, ou à solta, pode corromper absolutamente e enlouquecer absolutamente, especialmente quando se ilude com o palanque da propaganda. Especialmente num país que já não sabe sorrir, perdido numa federação de endogamias e de pequenos quintais autárquicos, onde a “personalização do poder” dos micro-autoritarismos sub-estatais decreta quem pode ser o dissidente ou o opositor, criando mecanismos regulamentares que lhe comprimem a cidadania ou o sujeitam à processualização típica da velha persiganga.

 

Foi pena que a quantidade de energia que se gastou nestas falsas mudanças tivesse ficado para sempre naquela zona do desperdício da entropia a que os analistas de sistemas chamam lixo. Porque as proclamadas boas intenções do reformismo não passaram do inferno de um verniz que encobriu uma efectiva “governança sem governo” e uma espécie de pilotagem automática de uma nau do Estado, sem flexível leme nem enraizada âncora.

 

E muitos só compreenderam que navegámos à bolina quando as primeiras brisas da crise global nos atiraram para os baixios do “pantanal”, sem “tabu”. Afinal, a proclamada mudança apenas serviu os conservadores do que está e não do que deve-se, isto é, apenas foi mais uma peça de uma engrenagem da desinstitucionalização, onde o fervilhar das “forças vivas” da casta bancoburocrática e capitaleira tentou ocupar o vazio moral da luta contra as autonomias societárias. Por exemplo, uma directora-regional de educação, verticalmente dependente, foi preferível aos professores; a mania da imagem da rede tecnológica amarfanhou os magistrados; e os burocratas, dependentes do ministerialismo, desertificaram a deontologia de médicos, militares e polícias. O resultado foi a preferência de 20% dos portugueses pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP, bem como as mais participadas manifestações de rua de protesto contra o poder.

 

Ao mesmo tempo, regressavam os tradicionais compadres e comadres do país dependente da “mesa do orçamento”, com muitos anjos, antes da queda, procurando “tacho” entre os capatazes e os donos do poder. Não foi estranho que, a muitos, voltasse a apetecer o regresso ao regime das velhas medidas de segurança daquele Estado de Legalidade do bate primeiro, protesta depois. Dessa máquina trituradora de opositores, adversários e dissidentes, em nome dos superiores interesses da pretensa Razão de Estado, pouco preocupada com a mercearia dos direitos, liberdades e garantias, dado que parecem mais importantes os negócios com autocratas compradores dos “Magalhães” e os programas do número único e do “chip” dos automóveis.

 

Deste modo, voltaram a crepitar as brasas daquela ditadura da incompetência, que se encoltava oculta pela fina película das cinzas de uma hipócrita racionalidade normativa. Por outras palavras, a competência voltou a ser inferior ao patrimonialismo da compra do poder e da lealdade neofeudal, marcada pela música celestial das inaugurações e pelo ritmo da parecerística, do “outsourcing” e da subsidiocracia. A desintitucionalização em curso, em nome de doutrinarismos e abstracções, apenas permitiu que a mão longa do ministerialismo de Estado ocupasse a República, facilitando a colonização de potências desse regime de ninguém, com serviçais de vontades estranhas à nossa autonomia nacional. Se não regenerarmos a coisa pública, não tardará que as disputas entre o PS, o PSD e o CDS nos “madailizem” a todos, reduzindo-nos aos confrontos retóricos do facciosismo da futebolítica, entre águias, leões e dragões, doirados apitos e eternos julgamentos que nos levam às cabazadas dos confrontos externos, com as bandeiras de Scolari a amarelecerem nas janelas e varandas dos “egrégios avós” a pagarem remédios a prestações…

 

(Artigo publicado, ontem, em “O Diabo”)

Mar 17

Uma muçulmana na Sala do Senado, contra as Conversas do Casino

Afinal, voltou a Europa: vai haver uma cimeira, a começar no dia de São José, e, antes de carpinteirar, o PM, depois de “jogging africano, lá teve que ouvir a oposição em São Bento, quando chegam novas sobre a recandidatura de Barroso, expressamente apoiada por Gordon Brown em Londres. É evidente que, como português e como antigo colega, qualifico tal nova como uma boa notícia, embora só indirectamente se protejam os interesses nacionais. Por outras palavras, Barroso está para a política internacional, como Mourinho para o futebol e só os que padecem da mesquinha inveja o não reconhecem. Com efeito, ele que foi um sofrível chefe de governo em Portugal, bem como um líder partidário de simples nota de pé de página, como o demonstram os actuais barrosistas, tornou-se figura de justo destaque nos palcos da grande política global, com um discurso não plastificado e sempre diplomático, interferindo, com bom senso, na hierarquia das potências. Este antigo professor de teoria da decisão em política externa, profundo estudioso de ciência política, principalmente a partir do mestrado em Genebra, revela que não basta ser picareta falante para brilhar nesse universo.

 

Também ontem, a rainha da Jordânia, em plena Assembleia da República, veio dar uma imagem contrária à propalada pelos dois cardeais portugueses em conversas de Casino, para gáudio de Sampaio, o da aliança de civilizações, bem mais jogador da palavra que o antigo mestre da arte, Guterres, sem meios orçamentais adequados para o apoio aos refugiados. Ambos estão como Manuel José no Egipto e Calisto no Vietname, enquanto por cá mandam os Pinto da Costa, os Soares Franco e os Luís Filipe Vieira, assim se demonstrando que, tanto no futebol como na política, os emigrantes são mais conceituados.

 

É por isso curiosa a intervenção de um conselheiro de Estado sobre a necessidade de anúncio da recandidatura de Cavaco. No DN de hoje, ao comentar o comentário disse “que é costume fazer-se isto” (começar a pressionar o PR muito antes do fim do primeiro mandato). Porque tal “não enfraquece a função presidencial”. E tudo não passam de “manobras” para “encavacar o PS”, ou seja, para “fazer outros coelhos sair da toca” – referindo-se, aqui, especificamente, à eventualidade de Manuel Alegre voltar a candidatar-se (algo que o próprio não desmente nem confirma).

 

Também admiti que o evoluir da crise e a eventual emergência, após as legislativas, de um cenário de instabilidade política, nomeadamente com o PS a vencer mas desta vez sem maioria absoluta, poderão obrigar Cavaco Silva a “reformular calendários”. E a forçá-lo a redesenhar o exercício das funções: “Podemos ter Cavaco obrigado a ser moderador.” Prefiro estar atento à cimeira do G20 em Londres, ao eventual regresso à hierarquia das potências, agora medidas pela capacidade dos respectivos contribuintes pagarem a factura do aumento do capital das instituições financeiras globais. Por outras palavras, acabou a ilusão dos fundos estruturais, sobretudo para os que estão exageradamente endividados…

 

PS: Em homenagem a Rania, fui à estante e continuei a ler Ibn Warraq, Why I Am Not a Muslim, 1995 (Nova Iorque, Prometheus) e Leaving Islam. Apostates Speak Out, 2003 (Nova Iorque, Prometheus), bem como Cristopher Hitchens, God is not Great, 2007 (Londres, Atlantic Books) .

Mar 16

Olhando o PCP, entre o sol da terra e a nossa terra, com Pável em memória

Jerónimo e Sócrates são activistas partidários pós-abrileiros, tal como Cavaco e Portas. Apenas Manela e Louçã deram sinais de empenhamento cívico antes do 25A, ambos como estudantes da mesma escola, em duas crises estudantis do velho Quelhas e, curiosamente, no mesmo lado antiditatorial. Jerónimo acusa Sócrates de utilizar a real imagem dos sindicatos como “correias de transmissão”, segundos os ditames do Komintern, coisa que já não há, não reparando que o nosso PCP já não depende de qualquer “sol na Terra”, sendo o mais teluricamente antigo da nossa própria terra. O PCP tem, portanto, mais de oito décadas de vivência, desencadeada pela Federação Maximalista que, começou por ser uma dissidência da central sindical lusitana da CGT, de ampla maioria anarco-sindicalista, até chegar o revisionismo celular e sovietista de Bento Gonçalves e Álvaro Cunhal.

 

Carvalho da Silva é doutor sem ser de encomenda espanhola, para cumprimento das “quotas” gagueiras, tal como Alexandre Vieira, Ferreira de Castro e Mário Domingues eram jornalistas do diário da CGT. Duzentos mil na rua contra os ministros do reino por vontade estranha são autenticidade que nenhuma entrevista de palanque consegue apagar nem cicratizar com parangonas. O primeiro-ministro de Portugal não pode descer ao nível de um qualquer Luís Filipe Vieira.

 

Manela diz que já não tem tabu quanto à escolha do cabeça de lista ao parlamento europeu. Está no seu direito, agora que se começa a habituar ao vedetismo mediático e nos entra casa dentro quase todos os dias. Espero que a política lusitana não se reduza a estes bailaricos aonde não vão os homens livres que não gostam de festas com porta estreita de saída.

 

É por isso que me dediquei a rever a biografia de Francisco de Paula Oliveira Júnior (1908-1993), dito Pável, depois de uma troca de “mails” com o respectivo filho. Esse destacado e mítico militante dos tempos heróicos do PCP. Operário no Arsenal da Marinha catequetizado por Bento Gonçalves (1929). Em Janeiro de 1932 já aparece como secretário da Federação da Juventude Comunista Portuguesa. Contudo, a partir de Abril de 1939, instala-se no México, desaparecendo da cena política portuguesa. Aí adopta o novo nome de Antonio Rodriguez, tornando-se escritor e professor universitário, de tal maneira se ligando ao Novo Mundo que até esquece a língua materna. Recebi, do respectivo filho, um informe sobre este escritor, periodista, investigador, luchador social, educador y crítico de arte.

 

En Portugal fue periodista y dirigente político y luchó contra la dictadura de Oliveira Salazar. Estudió en la Unión Soviética. Participó del lado de las fuerzas republicanas en la guerra civil española. Continuó su lucha contra el fascismo en Francia, en abril de 1939 llegó a México con el exilio español y se naturalizó mexicano en 1941. Dirigió el Departamento de Difusión Cultural del Instituto Politécnico Nacional y el Museo Tecnológico de la Comisión Federal de Electricidad. Fundó el Club de periodistas de México, del cual fue Secretario General. Fundó y dirigió la revista “IPN. Ciencia, arte: cultura.” Fue director fundador del Museo del Quijote de la Fundación Eulalio Ferrer, en la Ciudad de Guanajuato, Guanajuato. Escribió cientos de artículos y reportajes en numerosos periódicos y revistas de México, entre ellos: “El popular”, “El Nacional”, “El día”, “Excélsior”, “El diario de México”, “Impacto”, “Hoy”, “Mañana”, “Siempre” (revista en la cual colaboró desde su fundación). Escribió decenas de catálogos para exposiciones individuales y colectivas de artistas plásticos.

 

Premios y distinciones:

 

En 1947 obtuvo el primer premio, en la sección ensayo, en el certamen convocado por Talleres gráficos de la Nación con el libro “El Quijote mensaje oportuno.”En 1960 obtuvo de manos del Presidente de la República mexicana el premio “Francisco Zarco”, al trabajo periodístico de mayor trascendencia nacional, otorgado por la Asociación Mexicana de Periodistas, con los reportajes publicados en la Revista Siempre y posteriormente en forma del libro “El rescate del petróleo. Epopeya de un pueblo.” En 1968 en la Feria internacional del libro de Francfort, Alemania, la edición en alemán de su libro “El Hombre en llamas.” (“Der Mench in Flammen”) obtuvo el primer lugar como libro de arte. En 1979 obtuvo el Premio Nacional de Periodismo Cultural, que otorga el gobierno de los Estados Unidos Mexicanos.

En 1985 le pusieron el nombre de “Antonio Rodríguez” a una escuela técnica agropecuaria en Ixmiquilpan, en el Valle del Mezquital, Estado de Hidalgo, México, como reconocimiento a su novela reportaje “La nube estéril. Drama del Mezquital.” En 1990 obtuvo el grado de Comendador de la orden del Infante Don Enrique, el navegante, que otorga el Gobierno de la República de Portugal En 1994 la Casa de la Cultura del periodista le puso el nombre de “Antonio Rodríguez” a su galería de arte. En 1994 el Instituto Politécnico Nacional le puso el nombre “Antonio Rodríguez” a la galería del Centro cultural “Jaime Torres Bodet” de la Unidad Profesional “Adolfo López Mateos.” En 1993 el Museo de la Estampa de la Ciudad de México le puso el nombre de “Antonio Rodríguez” a una de sus salas de exhibición. El 15 de agosto de 1995 el gobierno del Departamento del Distrito Federal le puso el nombre de “Antonio Rodríguez” a una calle de a Colonia San Simón de la Delegación “Benito Juárez”.

Publicó los siguientes libros:

Novela reportaje:

“La nube estéril. Drama del Mezquital.”(1952).

Ensayos y grandes reportajes, publicados como libros:

“El Quijote visto por grandes escritores.” (1947).

“La Revolución francesa. Síntesis histórica.”(1947).

“El rescate del petróleo. Epopeya de un pueblo.”(1958).

“Declaración de amor a Praga.” (1959).

“Reportajes en China y en Corea.”(1959).

“El henequén, una planta calumniada.”(1967).

Coautor de los libros de crítica de arte:

“Diego Rivera, 50 años de labor artística”. (1951).

“Kunst windersrand im malerai, graphik, plastik 1922-1945. ” (1968).

“Siqueiros.” (1985).

“Diego Rivera. Hoy.” (1986).

“Capdevilla. Visión múltiple.” (1987).

Autor de los libros de crítica de las artes plásticas, arquitectura, literatura y urbanismo: “Diego Rivera, pintor del pueblo mexicano.” (1948).

“Le Corbusier, paladín y profeta de los tiempos modernos.” (1967).

“Elegancia, optimismo y buen gusto de la pintura francesa.” (1967).

“La ciudad, obra maestra del hombre.” (1968).

“A history of mexican mural painting.” (1969).

“Dr. Atl.” (1969).

“El Hombre en llamas.” (1970).

“Francisco Marín. Escultura.” (1970).

“La Anunciación en la pintura del renacimiento italiano.” (1973).

“Siqueiros.” (1974).

“La Piedad en la obra de Miguel Angel.” (1975).

“Posada. El artista que retrató a una época.” (1977).

“Jesús Reyes Ferreira”. (1978).

“Saudade”. (1979).

“Las cuevas pintadas en Baja California”. (1982).

“Guernica: grito de cólera contra la barbarie, incitación del hombre a la esperanza.” (1982).

“Crucifixión y resurrección en la pintura de Grunewald”. (1983).

“La pintura mural en la obra de Orozco.” (1983).

“Canto a la tierra. Los murales de Diego Rivera en Chapingo.” (1986).

“Diego Rivera. Los murales de la Secretaría de Educación Pública.” (1986).

“Diego Rivera. Pintura mural.” (1987).

“Siqueiros. Pintura mural.” (1992).

Cuatro de sus libros están inéditos:

“Alfredo Zalce.” (1992).

Una autobiografía, sin título (1992).

Una antología de los artículos sobre “José Luis Cuevas”, elaborada por el Museo “José Luis Cuevas” de la Ciudad de México.

Una antología sobre sus artículos de arquitectura.

posted by JAM | 3/16/2009 07:48:00 AM

Mar 14

Nunca se cospe no prato de onde se pode vir a comer

Raramente comento blogues, especialmente os amigos, porque detesto o sindicato do elogio mútuo, mesmo na blogosfera. Mas não posso calar este pequeno facto que marca o ritmo de uma “jota” dita da oposição, pensando alguns dos respectivos mandarins que vão subir aos corredores do poder só porque a comunidade se revolta contra certos tiques de igual persiganga que marcam o actual partido no poder. Força, Samuel! Gostaria que me fizessem chegar este protesto junto de quem de direito no PSD. Quem anonimamente escreve: nunca se cospe no prato de onde ainda se pode vir a comer não merece a democracia nem o partido onde se diz militante. O verbeteiro em causa não reparou que as setas não vieram de quem aparece armado na esquina…

Mar 13

Pela revolta, contra a revolução e contra os seus bastardos, da doença infantil do comunismo e dos maoístas de calções

Quem tivesse dúvidas sobre a crispação acossada do situacionismo, apenas teria que ler hoje mais uma das confissões de um hierarca do situacionismo: “Há infiltrados no PS que estão a transfigurar o partido. Não serão alguns traidores de direita que querem levar o PS para a direita? Será que há um movimento orientado, uma estratégia organizada por alguém? Pois, não sei.”

 

Junte-se, a este lamento, um editorial do grande jornal onde as mesmas considerações se publicam:  conheci-o aí uns dois anos antes do 25 de Abril, tínhamos ambos 15 anos, nas reuniões do MAEESL, a associação de estudantes do ensino secundário de Lisboa, então semi-legal. Usava o cabelo pelo meio das costas (até ao dia 16 de Dezembro de 1973, em que eu, ele e mais uns 160 estudantes fomos presos por uma noite e todos os rapazes saíram com o cabelo rapado…) e fazia parte do pequeno grupo que aguentava sempre até ao fim nas reuniões mirabolantes que entravam pela noite dentro. Esses anos e os da revolução vivemo-los com uma intensidade hoje difícil de imaginar, e o tempo em que, já militantes de uma organização clandestina, fui controleiro dele, deixou-me recordações poderosas sobre essa espécie de mundo paralelo em que viviam os – literalmente – “maoístas de calções”. Estivemos depois juntos na fase final da Voz do Povo, com o João Carlos Espada, o Nuno Pacheco, o Henrique Monteiro. Já nos estávamos a afastar da UDP, uma das organizações que estiveram na base do actual Bloco de Esquerda, e o jornal sobreviveria pouco tempo…”

 

De um lado e de outro, entre um situacionista, que sinceramente prezo, e um oposicionista que nunca compreendeu o meu antibushismo em plena reunião da NATO, na altura certa, tudo aponta para a esquizofrenia. Ainda por cima, na semana em que me apercebi do regresso de mais um dos principais vermes, para citar conversa de Vitorino Magalhães Godinho, do vérmico-mor, posto, outra vez, em mais um pedestal, a nível de uma pequena instituição. Assim se confirma a razão que leva a presente ditadura da incompetência, reinante em muitos pedaços do Estado, a considerar certos pretéritos como perfeitos, porque, quando entramos em crises morais deste tipo, o velho despotismo ministerial torna-se paradigma dominante. O tal que manda chutar nos dissidentes e opositores, usando as armas mais pífias passíveis de desencadeamento lícito, mas pouco honesto.

 

Por enquanto, tanto o chicote como o internamento forçado num hospital psiquiátrico apenas não são constitucionalmente admitidos, mas vontade não falta, a alguns intendentes do macro e do micro-autoritarismo. Até me recorda um episódio de uma eleições numa cooperativa agrícola alentejana, num dos governos presidenciais de que eu era adjunto (e fui-o de todos), quando as correias de transmissão do PCP, invocando um decreto ditatorial de Carmona, assumiram como inelegíveis mais de metade dos eleitores. Só que, na altura, o Primeiro-Ministro era Mota Pinto que, alertado pela manhã, logo fez aprovar a revogação do decreto ao meio-dia, para que, ao fim da tarde, o “Diário da República” estivesse a imprimi-lo. O eanismo tinha destas honras com inteligência, quando era acompanhado pelos que estiveram do lado certo da história da luta pelo pluralismo, no 25 de Novembro.

 

Hoje, não! Há sempre catedráticos jubilados, oficiais reformados da armada e bailarinas de croquetes diplomáticos que se deixam enredar nas querelas da decadência e sufragam os assassinatos morais de dissidentes e opositores. Hoje, ameaça-se com chicote e compra-se com cenoura, dado que quase todos são macacos cegos, surdos e mudos, depois de muitos mandarins terem ocupado os interstícios do compadrio desta pequena sociedade de “córte” (com esse assento, sim, para a ligar à etimologia de chiqueiro da porcalhota). Porque tudo seria para rirmos, se a tragédia não nos estivesse a arrastar para o abismo, onde não faltam os salazarentos de sempre à procura do regafobe na manjedoura do estadão.

 

E há imensas guerrazinhas de homenzinhos que se pensam de sucesso e que se banqueteiam ideologicamente com as patetices ideológicas do socialismo-social-democrata deste darwinismo social, benzido pela água de colónia de qualquer sacristia dessas aduncas “barbies” que se vão pavoneando, secadas pela cocaína e pelas plásticas, no jet-set dos aposentados pela nossa segurança social. Quem se der ao trabalho de inventariar todos os maoístas de calções, pondo, de um lado, os que hoje são socrateiros e, do outro, os que os primeiros acusam de campanha negra, percebe a tragicomédia de sofrermos retroactivamente desta doença infantil do comunismo, com todos estes pequenos e médios burgueses de fachada socialista que usurparam o nosso espaço da política, com os seus jogos de conspiração e de contra-conspiração. Nunca fiz nem quero fazer parte deste filme, nem daquele onde entram os bailados da decadência salazarenta, com as várias “córtes” dos candidatos a delfins em choque e contrachoque, todos subsidiando esquerdistas do encomiástico, direitistas da avença e o raio que a todos devia partir. É vê-los todos comensais da mesa do orçamento e do palanque dos penduricalhos do estadão. O povo continua de fora e nem sequer o deixam emitir o belo gesto de revolta do Zé Povinho… porque este seria naturalmente processado disciplinarmente e demora anos que se lance mais um volume das “Causas que foram Casos”.

 

PS: A imagem recorda Mao e Pol Pot, dois dos principais democidas do século XX. Não consta na dita, o herdeiro de Talleyrand, o Secretário de Estado norte-americano que geria os dordelinhos e mandava que os dois matassem por procuração. Como o TPI não funciona, o dito e os seguidores do dito, especialistas no Congresso de Viena, nas respectivas teses de doutoramento, continuam sem cheiro de cadáver nas mãos imundas. Usam de uma excelente água de colónia que traficaram na sacristia de Pilatos. Quem os denuncia não passa de doidinho, neste ambiente onde tem razão quem vence.