Fev 19

Contra o Leviathan soberanista, pela necessidade de um Estado de Direito Universal

Uma das mais curiosas teorias da conspiração tem a ver com a literatura de certo socialismo, verbalmente anticapitalista, quando reduz o respectivo sonho ao aumento quantitativo do intervencionismo estadualista, dos Estados a que chegámos, esses que são pequenos demais para os presentes grandes problemas do mundo, mas que continuam a ser grandes demais para asfixiarem a imaginação e a criatividade das pessoas concretas e das autonomias grupais que estas podem gerar pelo princípio da simpatia, teorizado por mestre Adam Smith. Nem sequer repara que o Estado e o Mercado são filhos da mesma encruzilhada teórica, essa alavanca da chamada modernidade que foi expressa pelo “Leviathan” de Thomas Hobbes, o filósofo que preparou a conquista do poder por uma burguesia que precisava de tal ideologia para romper com a anterior sacralização do poder, pondo numa mão o báculo e na outra, a espada, mas confundindo os dois braços no cacete do proibicionismo. É evidente que, aqui e agora, mesmo em plena crise, eu continuo adepto do capitalismo e da ética demoliberal que lhe está na base, não encontrando nas palavras do cardeal D. Saraiva Martins a razão que leva o presente modelo de socialismo menos, no poder em Portugal, a assumir o essencial da herança antiliberal de Salazar , dessa economia privada de cunhas neofeudais, à espera do proteccionismo, que não quer uma real economia de mercado. Por outras palavras, continuo a subscrever Hayek e a querer denunciar a presente cedência ao caminho para a servidão, nomeadamente pelo regresso a formas de legitimidade anti-racionais-normativas, nomeadamente ao patrimonialismo dos donos do poder. Só com melhor política e mais autonomia da sociedade e dos indivíduos é que poderemos superar a presente crise. Porque não foram os socialistas que venceram os desafios da velha questão social, que lançaram os fundamentos do “New Deal”, ou do “Welfare State”. Foram os neoliberais, os neo-democristãos e os neo-socialistas desses tempos dos pós-guerras que passaram, os tais que lançaram os modelos do capitalismo democrático que nos deu mais riqueza e mais justiça. Só que não é o velho Estado soberanista de Hobbes, ou a macromonetarice de Keynes e Cavaco que poderão apontar rumos para a presente falência de justiça e de liberdade. A presente crise, se é global, exige a instauração de um político que também seja global. Por outras palavras, só a emergência de um Estado de Direito universal, daquilo que Kant chamava direito cosmopolítico e república universal, poderá evitar o regresso ao proteccionismo dos Estados lobos dos Estados, desses Estados-bolas-de-bilhar, em perpétuo movimento. Só a emergência de formas de “civitas maxima”, “civitas humana” ou de “sociedade das nações” nos poderão fazer renascer a esperança. Confesso que continuo liberal e adepto do capitalismo. Em nome da experiência e da esperança. O que tem falhado é uma Europa activa, supranacional e supra-estatal, e não esta colectânea de falhadas cimeiras que não conseguem acompanhar o desafio lançado pelo neo-isolacionismo em que podem cair as medidas proteccionistas de Obama. O que não existe é uma efectiva Organização Mundial de Comércio Justo e reais regras universais, com segmentos de intervencionismo global. Restaurar o Estado salazarista em nome do socialismo é uma tolice de pequeno Estado que quer ser Estado Secundário, numa balança da Europacomandada por restauradas potências de Talleyrand, num neofeudalismo que beneficiará os grandes, mas condenará os pequenos e médios Estados ao falhanço do inviável, ou à mão estendida. Um verdadeiro liberal tem que voltar a defender Kant, Ropke (na imagem) ou Rawls e assumir o projecto dos pais-fundadores do projecto europeu, subscrevendo o sonho de Wilson de um capitalismo universal e de um demoliberalismo com regras e segmentos de justiça, através de pequenos passos para uma efectiva República Universal que não seja utopia de amanhãs que cantam. É este o regresso ao Estado que advogamos, sem a megalomania socialista do Portugal dos pequenitos com a mania das grandezas, esse que vai acabar por ser governado pela pilotagem automática dos agentes do FMI, do Banco Mundial ou do “spread”… Por outras palavras, se a geoeconomia não puser a especulação da geofinança na ordem, não há trabalho e procura da riqueza para um mundo melhor que resistam em igualdade de oportunidades e meritocracia!

Fev 18

Um pouco de metapolítica em dia de revolta, onde a poesia volta a ser mais verdadeira do que a história

Basta um pequeno sinal de caos para que, perdendo o eixo, o mundo se desordene e que, por mim dentro, se diluam as sementes de revolta. E quando, perante um qualquer pequeno nada, temos a sensação de um qualquer vazio, todo o mundo parece desabar, e, perdidos na encruzilhada, voltamos ao próprio princípio que sempre foi o verbo, a palavra, o discurso, o texto, o razoar primordial que nos deu “logos”, ética da responsabilidade e ética da convicção, da razão inteira, não apenas finalística, mas também axiológica. Essa causalidade múltipla que nos leva à procura da perfeição, em busca de quem somos, porque é por dentro das coisas que as coisas realmente são.

 

Tudo porque me pediram para ficcionar como será o mundo depois de eu já cá não estar, no ano de 2050 depois de Cristo. Sem qualquer cedência ao cientificismo, chame-se futurologia ou prospectiva, começo por imaginar que a própria medida do tempo pode já não ter como marco esse messias, justamente maioritário, aqui e agora.

 

Porque outro o pode superar em plenitude e vulgatas, com a emergência de novas aparições, ou com eventuais encontros com extraterrestres, se a escatologia e a ciência o permitirem.

 

Mas talvez ainda permaneçam homens de boa vontade que sejam homens livres, se o conceito individualista, nascido das luzes do Mediterrâneo, berço do estoicismo, do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, resistir, face aos totalitarismos grupais e aos respectivos fundamentalismos.

 

Por mim, julgo que deixará de haver esta ficção de declararmos hipocritamente a existência de uma democracia universal, apenas permanecendo algumas democracias, as que ascenderam ao universal pela diferença, assentando no “small is beautiful” da velha “polis” e dos reinos medievais, donde  veio o conceito romântico de nação, sempre em conflito com a herança absolutista da estadualidade.

 

Embora a esperança de uma paz perpétua, à Kant, com a sua ideia de Estado de Direito universal, ainda possa permanecer nalgumas instituições, desde a herdeira da Sociedade das Nações à união europeia, julgo que continuará a ser projecto a procura da realização do sonho dos homens de boa vontade, tentando juntar, contra a intolerância, os humanismos, cristãos e laicos, os que nos deram a revolução atlântica demoliberal, da revolução inglesa à revolução norte-americana.

 

Se não imagino uma utopia dos “amanhãs que cantam”, à procura de uma dessas revoluções de terror, que encontrem o totalitarismo de um qualquer aparelho de poder pretensamente iluminado, nem por isso deixo de assumir a esperança, vislumbrando as sementes de bem e de mundo melhor que a humanidade tem acolhido.

 

Em 2050, quando os meus netos forem pais e avós, julgo que eles estarão em convalescença, depois de terem sofrido novas investidas dos velhos cavaleiros do apocalipse, como novas fomes, novas pestes e novas guerras, e com os consequentes rastos de autoritarismos e totalitarismos, os tais sintomas das causas que costumam acompanhar essas degenerescências.

 

Isto é, acredito que, depois de inevitáveis quedas, os homens concretos e o homem de sempre estarão, mais uma vez, a levantar-se, com novas frases que pensam salvar a humanidade, mas ainda sem conseguirem a salvação do mundo, essa procura da perfeição que marca sempre o homem imperfeito.

 

Continuará por fazer a obra da “política” que, desde Péricles, sempre teve como sinónimo a “democracia”, mesmo que tivesse, ou venha a ter, um novo nome. Por isso, os meus filhos e os meus neto continuarão a ler Platão, Cristo, Buda, Confúcio, Maomé e Rousseau, bem como um desses pensadores de hoje que deconheço, mas que, de certeza, já escreveu a nova inspiração do amanhã.

 

Porque não são os teóricos do processo histórico que fazem o homem. Será o homem a fazer a história, mas sem saber que história irá fazer. Porque ela não é causa, mas consequência. Depende das acções dos homens e não das respectivas intenções e planeamentos. Por outras palavras, continuaremos a dizer que a poesia é mais verdadeira do que a história…

Fev 17

Quando predominam os bonzos, endireitas e canhotos, é inevitável que floresça a ditadura da incompetência

Há coisas que, de vez em quando, entram dentro de mim pela coincidência, pela experiência, pelo acaso. Coisas que já conhecia há muito e que fui calando, por recato, por segredo de justiça, por zelo profissional ou por simples recato. Há meses que conhecia em pormenor uma das mais recentes parangonas, mas por razões morais e patrióticas, comuniquei a quem não soube actuar devidamente antes da nuvem se transformar em tempestade. Um dos conhecidos políticos que faz primeiras páginas quase todos os dias, além de ser meu contemporâneo na faculdade, nasceu no mesmo dia e ano deste escrevente. E bem poderia determinar outras primeiras páginas se as regras do processo e do Estado de Direito não me aconselhassem ao silêncio.

 

Por outras palavras, entre a República Portuguesa e o último país onde vivi, os sinais de corrupção  são directamente proporcionais aos de Estado falhado. Bastaria ter ouvido, noutro dia, o professor Daniel Bessa anunciando a chegada de um controleiro financeiro internacional, à semelhança do do FMI que obrigou ao governo PS/ CDS, com Vítor Constâncio nas finanças. Nada de confusões: Paulo Portas ainda andava pelo PPD, Manuel Ferreira Leite ainda não se tunha inscrito no partido de que agora é líder e Sócrates andava a estudar engenharia.

 

De qualquer maneira, quando olho para esta Europa, feita confederação do egoísmo de grandes potências, onde só os pequenos e médios Estados é que estão condenados ao cumprimento das regras emitidas pelas cimeiras, que saudades eu tenho daqueles pais-fundadores que tinham uma ideia de Europa e daqueles comissários que se assumiam como Jacques Delors. Porque, nesta encruzilhada, primeiro, estão os complexos bancoburocráticas de cada um desses Estados e só depois vem a retórica europeísta, numa altura em que outros grandes espaços vão executando programas anticrise.

 

Quem se desleixou com a fuga de informação sobre as listas nominativas de espiões não deve ter reparado quanto custou ao contribuinte a formação em confidencialidade de cada uma dessas unidades directivas. São milhões de euros desmantelados pelo modelo do senhor ninguém a que chamamos burocracia e regulamentarismo, no sobe e desce do passa-culpas, sintoma de um mal maior que a de um aparelho de poder totalmente insensível à urgente cultura de defesa nacional e de sentido de Estado de Direito. É, sobretudo, um aparelho de Estado que não é marcado pela legitimidade racional, da racional-normativa à racional-axiológica, onde a ética da responsabilidade deve, todos os dias, ser corrigida pela ética da convicção.

 

Não se estranhe, portanto, que em vez da legitimidade racional predominem os sucedâneos de legitimidade carismática e de legitimidade tradicional, acabando por funcionar o patrimonialismo neofeudal da cunha, da partidocracia e do clientelismo, terrenos favoráveis ao desenvolvimento da chamada compra do poder, mais conhecida por corrupção. Quando predominam os bonzos, endireitas e canhotos, é inevitável que floresça a ditadura da incompetência.

Fev 17

Quando predominam os bonzos, endireitas e canhotos, é inevitável que floresça a ditadura da incompetência

Quando olho para esta Europa, feita confederação do egoísmo de grandes potências, onde só os pequenos e médios Estados é que estão condenados ao cumprimento das regras emitidas pelas cimeiras, que saudades eu tenho daqueles pais-fundadores que tinham uma ideia de. Porque, nesta encruzilhada, primeiro, estão os complexos banco-burocráticas de cada um desses Estados e só depois vem a retórica europeísta, numa altura em que outrosgrandes espaços vão executando programas anticrise.

Fev 15

Novas directas intrapartidárias

Mais um partido acaba de transformar as directas para o líder em mero plebiscito, onde faltou apenas que as abstenções se contassem como votos a favor de uma personalização de poder. Com efeito, este excesso de democracia formal do neobonapartismo dificilmente poderá enquadrar-se no conceito onusiano de “fair and free elections” e se os observadores internacionais aqui viessem teriam de reconhecer as faltas de pluralismo, debate e igualdade de oportunidades que começam a marcar a nossa partidocracia situacionista e oposicionista. Por outras palavras, também é abuso aquilo que Montesquieu dizia do pretenso excesso de virtude. Porque este exagero de directas, ao transformar-se numa caricatura plebiscitária, pode matar a democracia real. Corremos assim o risco de entrarmos numa zona subpolítica, porque, sendo a “polis” o mesmo que “urbs”, a autarquização do centro do Estado equivale a uma degenerescência suburbana. E a “consciência tranquila” só precisa de propaganda populista para nos enredar nos malhões de Felgueiras, Gondomar ou Oeiras, bem à imagem e semelhança daquele “bailinho” da Madeira que o PS clamava como défice democrático.  Quem tem o palanque do situacionismo oficial, ou oficioso, e o controlo da “mesa do orçamento” pode correr o risco de confundir o monopólio da palavra com aquele concentracionarismo, onde “vencer”, como dizia Fernando Pessoa, pode equivaler a “ser vencido”, com os posteriores “tabus e pântanos”

Fev 13

O PS bonapartidarizado, em delírio de democracia plebiscitária

Começam hoje as directas para o PS que vive em pleno bonapartismo. Era como se os democratas norte-americanos tivesse que escolher entre Obama e a falta de adversários, através de um processo eleitoral onde, em vez de possibilidade de escolha de uma alternativa apenas se tivesse que plebiscitar o chefe que perdeu o estado de graça e é o inimigo público de todas as oposições, onde o PSD já alinha com as manifestações pinóquias da CGTP e da FENPROF. Aliás, pode ser que amanhã, os semanários de sábado tragam novas sobre o caso “Freeport”, agora enredado na investigação à própria investigação, dado que ninguém liga ao que disse Eanes e Medeiros Ferreira, depois de Edmundo Pedro e Manuel Alegre, essa gente dos golpes e contragolpes, dos exílios, das clandestinidades e dos romantismos poéticos, conforme me poderia dizer um desses prebendados, nomeado gestor de empresas de capital público e que agora vai a todos os actos de bate-palmas, depois de apagar partes pouco lícitas do “curriculum” e enganar o ministro que por ele meteu cunho.

 

Por isso declarei hoje ao jornal “Público”:  “O Presidente, mesmo que não queira, passou a ser olhado com expectativa como rosto de oposição ao Governo. Muita gente fica à espera do que vai dizer, que palavra tem a dizer, o que prejudica muito o PSD e Manuela Ferreira Leite”. Mas os sinais de crise são também dos próprios partidos, que os conduz a um défice de participação, porque “os partidos perderam capacidade de debate” e “há uma certa degenerescência, com este tipo de vitimização [da parte de Sócrates]. No passado já houve alguns casos. Cavaco Silva inventou o tabu, e apesar de nova maioria absoluta, saiu. António Guterres, nas eleições de 1999, ficou a um queijo da maioria e abandonou depois o Governo”. O absolutismo das maiorias pode levar àquilo que um dia disse Fernando Pessoa: “vencer é ser vencido”.

 

Se a democracia se enclausurar no discurso de Santos Silva, tanto na sua versão do malhão, à José Agostinho Macedo, ainda em mero caceteirismo intelectual, de extracção trotskista, como na professoral teoria do monopólio da inteligência, proclamando que não recebe lições de democracia antifascista de ninguém, corremos o risco de esquizofrenia. Por isso, tem sido um estílumulo para a democracia dos que recusam o obedencialismo a palavra experimentada de Eanes, que veio reavivar o sentido profundo do 25 de Abril de 1974, reavivado pelas lutas do PS, do PPD e do CDS, concretizadas em 25 de Novembro de 1975 que deram força ao acto eleitoral de 25 de Abril de 1975. Porque a democracia apenas começou a ser praticada quando acabou a ameaça de terror da chamada “torrente revolucionária”, expressão de Robespierre, que traduzimos por PREC.

 

O PS, se tem o dever de plebiscitar o líder, como sempre foi seu timbre, não pode ceder a certos desvarios da solidão do poder. Uma qualquer vitória aritmética, seja de maioria absoluta, seja de maioria relativa, pode levar ao tabu ou ao pantanal. Não exportem para o país os vossos problemas internos, o teatro cheio com camionetas vindas de Cabeceiras de Basto ainda não é o povo português. Por outras palavras, também é abuso de poder aquilo que Montesquieu dizia do pretenso excesso de virtude, como acontece com as eleições directas para as lideranças partidárias, tal como têm vindo a ocorrer no CDS e no PS, onde o excesso de democracia formal está a asfixiar o pluralismo de debate da democracia real. O exagero de democracia pode matar a democracia, quando nos esquecemos que a própria virtude tem de ter limites, isto é, o bom senso do cláasico sentido das medidas, a fim de não cair na caricatura…

 

Ainda há pouco repeti estas ideias em directo no Rádio Clube, acrescentando que corremos o risco de entrar na subpolítica, porque “polis” é o mesmo que “urbs” e subpolítica tem a ver com este ambiente de degenerescência suburbana, onde no centro do Estado podemos repetir o que se passou em Felgueiras, em Gondomar ou em Oeiras, bem à imagem e semelhança daquilo que o PS clamava como défice democrático da Madeira, onde as maiorias absolutas não conseguem ocultar a falta de igualdade de oportunidades no debate democrático, dado que quem tem o palanque do situacionismo oficial, ou oficioso, tem o monopólio da palavra e, consequentemente, o quase monopólio do poder. O João Soares não deixaria que os observadores da OSCE não detectassem, como supervisores, estas cenas bielo-chinocas…

Fev 13

O PS bonapartidarizado, em delírio de democracia plebiscitária

O exagero de democratismo pode matar a democracia, quando nos esquecemos que a própria virtude tem de ter limites, isto é, o bom senso do cláasico sentido das medidas, a fim de não cair na caricatura…Corremos o risco de entrar na subpolítica, porque “polis” é o mesmo que “urbs” e subpolítica tem a ver com este ambiente de degenerescência suburbana, onde no centro do Estado podemos repetir em auatarquias locais o défice democrático da Madeira, onde as maiorias absolutas não conseguem ocultar a falta de igualdade de oportunidades no debate democrático, dado que quem tem o palanque do situacionismo oficial, ou oficioso, tem o monopólio da palavra e, consequentemente, o quase monopólio do poder.

Fev 12

Darwin, com socialistas a reconhecerem que pode haver um César, aqui e agora, e homossexuais a admitirem que a Igreja Católica tem o monopólio de Deus

Neste dia de aniversário de Charles Darwin, importa reconhecer que o evolucionismo gerou alguns descendentes do despotismo, como um tal Mugabe, enredado noutro aniversário, com prendas milionárias pré-determinadas e muita lagosta. Porque Darwin aplicado às teorias sociais, com as ideias de selecção natural, luta pela vida e sobrevivência dos mais aptos, gerou todo um esquema causalista e determinista, desde o evolucionismo de Herbert Spencer, com a ideia de organismo social, considerando que as relações existentes entre todos os organismos vivos, sejam as de luta pela vida ou de cooperação, são as mesmas que as existentes nas relações entre os animais ou entre os homens, ao próprio marxismo que, como reconhece Lenine, foi por ele dominado.

 

Mesmo os irmãos-inimigos do neo-reaccionarismo, como Charles Maurras, defenderam a selecção do mais apto, considerando que na biologia, a igualdade só existe no cemitério, porque a divisão do trabalho implica a desigualdade das funções, porque o progresso é aristocrático. Nem sequer escaparam os defensores determinismo geográfico e os do determinismo racial, como Taine. Por outras palavras, da extrema-esquerda à extrema-direita, do comunismo ao reaccionarismo, passando pelo racismo, todos inventaram criaturas ideológicas que o invocaram como criador.

 

Se é justíssima a lembrança de um dos maiores pensadores de todos os tempos, importa também notar as limitações ideológicas dos respectivos invocadores. Ficam apenas as palavras de Lenine: Darwin pôs fim à concepção segundo a qual as espécies de animais e plantas não estavam de modo nenhum ligadas entre si, sendo acidentais, ‘criadas por Deus? e imutáveis, e que foi o primeiro a dar uma base estritamente científica à biologia, estabelecendo a variabilidade e a continuidade das espécies. E recordo-as para podermos compreender como grande parte da nossa elite, a que se arrependeu do marxismo, aproveita a homenagem para, matando o pai Marx, continuar a seguir o avô, mas sem perceber que ele teve, como netos,  asquerosos racistas, limitados reaccionários e pretensos cientistas da máquina do Estado, sejam darwinistas ou não darwinistas, crentes ou agnósticos, à boa maneira daquele Trofim Lysenko que, enganando-se nas sementes, levou a União Soviética à fome.

 

Veja-se o ambiente de sociologia de luta que marcou o nosso dia parlamentar de ontem, onde pareceu que voltámos a um ambiente de macacos evoluídos, quando os insultos incendiaram aquilo que devia ser um exemplo: a casa da nossa democracia. Os guinchos do argumento fraco, superaram a serenidade persuasiva do discurso do argumento forte, como assinalava Brito Camacho, só porque as caricaturais hipérboles do imaginário de Pinóquio de uma jota irritaram quem se vitimiza como alvo de uma campanha negra. Como se quem estivesse contra o detentor do poder supremo tivesse que cair necessariamente nas perguntas insultuosas. E a histeria foi de tal maneira de  mau-gosto que até Louçã vestiu o heterónimo da moderação, enquanto o patrão da Jerónimo Martins veio a terreiro dizer que a “iniciativa privada não tem que aturar isto” e tem “muitos sítios para onde ir”.

 

Face à demagogia, os gestores das conferência de imprensa da Igreja Católica entraram no sofisma sacrista do bate e foge. Num dia, por causa dos casamentos de homossexuais, mandaram não alinhar com partidos que ofendam os respectivos valores. No outro, pondo água na fervura, e lembrando-se dos resultados do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, vieram esclarecer que mandar não votar em determinadas ideias não pode qualificar-se como apelo ao voto, o que logo levou Sócrates a congratular-se expressamente, depois de assumir a sua pobreza franciscana da classe remediada alta e talvez pensando na sugestão do ex-bastonário Pires de Lima sobre a transparência do respectivo património. Aliás, deputados e representantes do grupo de pressão LGT logo citaram Jesus Cristo, sobre o dar a Deus o que é de Deus e a César, o que é de César. Com socialistas a reconhecerem que pode haver um César, aqui e agora, e homossexuais a admitirem que a Igreja Católica tem o monopólio de Deus.

 

Como ontem dizia ao Meia Hora, antes da segunda intervenção da CEP, esta atitude da Igreja “é uma espécie de chicotada psicológica para levar o PS a negociações e a uma solução de meio-termo”. Com efeito, “o pior que podia acontecer agora era um conflito entre política e religião” e, como tal, “vai haver alguma pacificação”. Até porque “a Igreja não tem poder de mobilização de massas e de mobilização política e também nunca o fez”. Aliás, se tomarmos à letra a promessa de Sócrates, a discussão pública pode levar a uma espécie de armistício moral, se nos iluminarem exemplos de legislações europeias, há muito consensualizadas, que não confundiram a necessidade de protecção pública da liberdade contratual dos homossexuais, com um metacontrato ou instituição que, antes de ser do direito canónico já era do direito romano. Porque a mera analogia, de um contrato, não pode confundir-se com a essência de outra coisa, já  institucional, independentemente do sacramento, que é bem mais do que a bilateralidade, tendo a ver com o conceito de corrente de geração, e que permanece mesmo quando o contrato é anulado ou entra em divórcio, porque novas formas de família, nomeadamente as monoparentais, podem continuar e reforçar a ideia de obra que a liga aos avós e aos netos.

 

É por isso que reli The Origin of Species, trabalho publicado em Novembro de 1859, onde Darwin considera que todos os organismos têm tronco comum, que todas as espécies vivas são resultado da evolução e da selecção natural. In the survival of favoured individuals and races, during the constantly-recurring struggle for existence, we see a powerful and ever-acting form of selection.

Fev 12

A poesia é mais verdadeira do que a história

Pedem-me que ficcione como será o mundo depois de eu já cá não estar, no ano de 2050 depois de Cristo. Sem qualquer cedência ao cientificismo, chame-se futurologia ou prospectiva, começo por imaginar que a própria medida do tempo pode já não ter como marco esse messias, justamente maioritário, aqui e agora. Porque outro o pode superar em plenitude e vulgatas, com a emergência de novas aparições, ou com eventuais encontros com extraterrestres, se a escatologia e a ciência o permitirem. Mas talvez ainda permaneçam homens de boa vontade que sejam homens livres, se o conceito individualista, nascido das luzes do Mediterrâneo, berço do estoicismo, do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, resistir, face aos totalitarismos grupais e aos respectivos fundamentalismos. Por mim, julgo que deixará de haver esta ficção de declararmos hipocritamente a existência de uma democracia universal, apenas permanecendo algumas democracias, as que ascenderam ao universal pela diferença, assentando no “small is beutiful” da velha “polis” e dos reinos medievais, donde  veio o conceito romântico de nação, sempre em conflito com a herança absolutista da estadualidade. Embora a esperança de uma paz perpétua, à Kant, com a sua ideia de Estado de Direito universal, ainda possa permanecer nalgumas instituições, desde a herdeira da Sociedade das Nações à união europeia, julgo que continuará a ser projecto a procura da realização do sonho dos homens de boa vontade, tentando juntar, contra a intolerância, os humanismos, cristãos e laicos, os que nos deram a revolução atlântica demoliberal, da revolução inglesa à revolução norte-americana. Se não imagino uma utopia dos “amanhãs que cantam”, à procura de uma dessas revoluções de terror, que encontrem o totalitarismo de um qualquer aparelho de poder pretensamente iluminado, nem por isso deixo de assumir a esperança, vislumbrando as sementes de bem e de mundo melhor que a humanidade tem acolhido. Em 2050, quando os meus netos forem pais e avós, julgo que eles estarão em convalescença, depois de terem sofrido novas investidas dos velhos cavaleiros do apocalipse, como novas fomes, novas pestes e novas guerras, e com os consequentes rastos de autoritarismos e totalitarismos, os tais sintomas das causas que costumam acompanhar essas degenerescências. Isto é, acredito que, depois de inevitáveis quedas, os homens concretos e o homem de sempre estarão, mais uma vez, a levantar-se, com novas frases que pensam salvar a humanidade, mas ainda sem conseguirem a salvação do mundo, essa procura da perfeição que marca sempre o homem imperfeito. Continuará por fazer a obra da “política” que, desde Péricles, sempre teve como sinónimo a “democracia”, mesmo que tivesse, ou venha a ter, um novo nome. Por isso, os meus filhos e os meus neto continuarão a ler Platão, Cristo, Buda, Confúcio, Maomé e Rousseau, bem como um desses pensadores de hoje que deconheço, mas que, de certeza, já escreveu a nova inspiração do amanhã. Porque não são os teóricos do processo histórico que fazem o homem. Será o homem a fazer a história, mas sem saber que história irá fazer. Porque ela não é causa, mas consequência. Depende das acções dos homens e não das respectivas intenções e planeamentos. Por outras palavras, continuaremos a dizer que a poesia é mais verdadeira do que a história…

Fev 12

Darwin, com socialistas a reconhecerem que pode haver um César, aqui e agora, e homossexuais a admitirem que a Igreja Católica tem o monopólio de Deus

Veja-se o ambiente de sociologia de luta que marcou o nosso dia parlamentar de ontem, onde pareceu que voltámos a um ambiente de macacos evoluídos, quando os insultos incendiaram aquilo que devia ser um exemplo: a casa da nossa democracia. Os guinchos do argumento fraco, superaram a serenidade persuasiva do discurso doargumento forte, como assinalava Brito Camacho, só porque as caricaturais hipérboles do imaginário de Pinóquio de uma jota irritaram quem se vitimiza como alvo de uma campanha negra. Como se quem estivesse contra o detentor do poder supremo tivesse que cair necessariamente nas perguntas insultuosas. E a histeria foi de tal maneira de  mau-gosto que até Louçã vestiu o heterónimo da moderação, enquanto o patrão da Jerónimo Martins veio a terreiro dizer que a “iniciativa privada não tem que aturar isto” e tem “muitos sítios para onde ir”. Face à demagogia, os gestores das conferência de imprensa da Igreja Católica entraram no sofisma sacrista do bate e foge. Num dia, por causa dos casamentos de homossexuais, mandaram não alinhar com partidos que ofendam os respectivos valores. No outro, pondo água na fervura, e lembrando-se dos resultados do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, vieram esclarecer que mandar não votar em determinadas ideias não pode qualificar-se como apelo ao voto. Aliás, deputados e representantes do grupo de pressão LGT logo citaram Jesus Cristo, sobre o dar a Deus o que é de Deus e a César, o que é de César. Com socialistas a reconhecerem que pode haver um César, aqui e agora, e homossexuais a admitirem que a Igreja Católica tem o monopólio de Deus.  Como ontem dizia ao Meia Hora, antes da segunda intervenção da CEP, esta atitude da Igreja “é uma espécie de chicotada psicológica para levar o PS a negociações e a uma solução de meio-termo”. Com efeito, “o pior que podia acontecer agora era um conflito entre política e religião” e, como tal, “vai haver alguma pacificação”. Até porque “a Igreja não tem poder de mobilização de massas e de mobilização política e também nunca o fez”. Aliás, se tomarmos à letra a promessa de nosso primeiro, a discussão pública pode levar a uma espécie de armistício moral, se nos iluminarem exemplos de legislações europeias, há muito consensualizadas, que não confundiram a necessidade de protecção pública da liberdade contratual dos homossexuais, com um metacontrato ou instituição que, antes de ser do direito canónico já era do direito romano. Porque a mera analogia, de um contrato, não pode confundir-se com a essência de outra coisa, já  institucional, independentemente do sacramento, que é bem mais do que a bilateralidade, tendo a ver com o conceito de corrente de geração, e que permanece mesmo quando o contrato é anulado ou entra em divórcio, porque novas formas de família, nomeadamente as monoparentais, podem continuar e reforçar a ideia de obra que a liga aos avós e aos netos. É por isso que reli The Origin of Species, trabalho publicado em Novembro de 1859, onde Darwin considera que todos os organismos têm tronco comum, que todas as espécies vivas são resultado da evolução e da selecção natural. In the survival of favoured individuals and races, during the constantly-recurring struggle for existence, we see a powerful and ever-acting form of selection.