Anda meio mundo em bicos-de-pé e outro tanto de pé-atrás, dizendo que a culpa é sempre do outro que não nossa: do governo anterior, do regime anterior, do partido que estava, do partido que está, do chefe visível ou da oposição difusa. Que manda quem pode e obedece quem deve, como dizia António Feliciano de Castilho, mas que quase todos interpretam de forma antiliberal, confundindo o dito com um “slogan” da propaganda salazarenta . Para mim, é tudo mais simples: há falta daquilo a que metaforicamente se chama espinha. Porque o nosso colectivismo moral, de longas raízes inquisitoriais, recentemente pintadas de esquerdismo, ao variar de “ismo” conforme as modas que passam de moda, continua a cobardia de dizer que tem razão quem vence, fingindo que vale mais um pássaro na mão que dois a voar e que enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Prefere o torcer da cobardia ao risco de quebrar e, cedendo à Corte, nunca vive como diz pensar. O que é comum não é de nenhum, como era o lema das nossas aldeias comunitárias, mas que todos interpretam contra os bens públicos. O problema da democracia e das instituições actuais está na circunstância de continuar a existir uma plurissecular má relação entre o Estado e o Povo. Mantemos um Estado estrangeiro e não conseguimos fazer casar a honra com a inteligência. Ainda não decepámos as raízes do mal autoritário, ainda não esprememos, gota a gota, aquele escravo que temos dentro de nós e que está sempre disponível para saudar a chegada do usurpador totalitário. O micro-autoritarismo que um difuso subsistema de medo pós-salazarento deixou gerar nas instituições subestatais é a causa da falta de sentido que marca as larvares crises estatais que nos comandam e que levará a que, de um momento para o outro, o estado de graça se afunde nos tabus cavacais, nos pantanais ou nas fugas.