Farpas

No “agenda setting” deste fim-de-semana, de pós-papândrio, com Seguro calado, e Relvas dando a deixa, tudo aponta para alguma troca de mimos consensuais na orçamentocracia. Espera-se, a qualquer momento, nova conferência de imprensa conjunta, entre PS e PSD, com Portas a não ficar ciumento. Torço pela instauração deste bom-senso. Não gosto do quanto pior, melhor!

A grande originalidade dos portugueses actuais face à maioria dos colegas da UE é que não temos heroicidade na memória do sofrimento, pelo que não há condições para adequada libertação. Não resistimos aos soviéticos nem as nazis, não tivemos guerras civis e a última memória viva como povo em sofrimento, ou é minoritária, a dos antifascistas, ou foi passada em territórios de além-mar, caso dos soldados. O que temos de prosperidade não foi conquistado existencialmente, veio do voto útil. Reaprender a conquistar a vida vai ser doloroso para uma maioria sociológica, treinada para a cobardia.

A maioria do povo sufragou democraticamente este retrato. Na galeria do jornal que emitiu a coisa, vinha outro ainda mais preocupante, a de um grupo parlamentar de outrora, em aplauso pífio aos milhões da CEE. Apenas apetece repetir como quando o Vasco era Santana: “chapéus há muitos, seu palerma”. Entretanto, ficámos todos carecas. E sem xeque, ao rei.

Não é por eu criticar o rei que deixo de ser realista. Não é por eu criticar a democracia que passo a inimigo da democracia. Não é por eu criticar o orçamento que passo a antinação e anti-europeísta. Apenas quero ser, muito liberalmente, homem livre numa pátria livre.

Merkel diz hoje, nas suas mensagens internéticas, que o imbróglio vai levar, pelo menos, uma década a desfazer. Por outras palavras, nem eu estarei por cá para ver chegar esses amanhãs que cantam, nem ela será o símbolo da aurora redentora. Como ela não tem química para profeta, seria mais cauto admitir a possibilidade de um curto-circuito na maquineta. Espero que não seja o regresso à guerra ou ao totalitarismo.

 

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