É triste verificarmos como, em plena democracia, se mantêm rituais decadentistas, típicos dos regimes que, antes de deixarem de ser já o não são. Basta assinalarmos como os cinzentões serventuários do crepúsculo do antigo regime, esses jovens adjuntos ministeriais dos anos setenta, e que agora são eles os próprios quase septuagenários, se enfileiram, mais uma vez, na comitiva de sempre, à espera da comenda e exigindo troca das prebendas que fingiram dar à custa do contribuinte. Ei-los já sem a peitaça de teddy boys das Avenidas Novas, com aqueles óculos fumados à Ray Ban que faziam mossa na garotas do Chiado e dos bailes do jazz band. Ei-los os ex-práfrentex só porque foram de avião aos States, a expensas do senhor director, do senhor ministro ou de outra sua excelência, e que ainda hoje tentam usar as palavras mágicas dos servilismo, fazendo razias de temor reverencial junto de nova garotagem construída à respectiva imagem e semelhança, a dos mandadores-mandados de novas comitivas e de velhas comendas do mesmo tipo. O prémio da comitiva é, com efeito, a comenda dada aos que nunca ousaram e que nunca assumiram a rebeldia do pensamento livre ou do livre pensamento, só porque também nunca tiveram luz própria. Esses baços espelhos que apenas emitem indirectamente os ténues brilhos dos patrões que os fabricaram pela encomendação. Ei-los, os meros capatazes de uma quinta que sempre foi dos outros. Ei-los, os pequenos autoritários do velho autoritarismo, não percebendo que, pura e simplesmente, nunca existiram como seres autónomos. Eles não sabem, coitados, que, voltados sobre quem foram, na sua impunidade professoral, que já não ouvem, já não lêem e já não vêem, movidos que estão pela energia de uma soberba que os faz , além de centro do mundo, a cabeça do próprio mundo. Que descansem em paz, que nos deixem em paz. Há muita coisa nova debaixo do sol. Sobretudo uma pequena semente chamada liberdade.