Comecei por salientar a ideia de Passos Manuel sobre a necessidade de cercarmos o trono com instituições republicanos, para dizer que a vantagem dos monárquicos estava na circunstância de não serem anti-republicanos, mas antes de serem, além de republicanos, monárquicos. Porque, em primeiro lugar, colocam a pátria; em segundo, a ideia tradicional, aristotélica e tomista, da origem popular do poder político, como o demonstrámos com a eleição do rei em 1385 e 1640, e na resistência consensualista ao absolutismo, seja o da monarquia de direito divino, seja o do jacobinismo, em novo do povo absoluto. Só por conclusão somos monárquicos, defendendo a necessária invenção da instauração do poder real, como chave da abóbada do corpo político, com essa instituição de direito natural. A memória das quinas na nossa segunda bandeira de reino medieval pré-soberanista Primeiro, em nome da experiência. Porque também algumas das mais exemplares monarquias democráticas da Europa se instauraram depois de experiências republicanas, desde a britânica, contra o republicanismo pré-totalitário da república dita dos santos de Cromwell, às monarquias dos País Baixos e da nossa vizinha Espanha. Até porque não convém esquecer que foi a monarquia britânica que resistiu à republica hitleriana e que também eram repúblicas a chinesa de Mao ou a russa de Estaline, não esquecendo a do nosso Estado Novo salazarento. Porque na necessária instauração monárquica não iríamos escolher uma pessoa, pedindo-lhe a personalização do poder, mas antes uma instituição, uma espécie de continuidade simbólica da pátria em figura humana, onde o rei não tem poder, mas antes autoridade, porque reina, mas não governa e reina representativamente, como expressão do povo, dos mortos, dos vivos e dos que estão para nascer. Porque todas as personalizações do poder, incluindo as dos presidentes-reis, estão sempre dependentes de um tiro assassino, de uma constipação mal-tratada ou de uma simples queda de uma cadeira. O rei tem a vantagem de poder ser uma ideia de obra, constitucionalmente organizada que gera espontâneas manifestações de comunhão, como símbolo de uma dinastia, de uma permanecente unidade na diversidade que até pode coincidir numa família como a dos nossos duques de Bragança cujo tronco remonta ao próprio D. Afonso Henriques, sem o recurso a Borbons franceses ou a Hannover feitos Windsor. Aliás, algum propagandismo antimonárquico que continua a disparar os odientos tiros do Buiça, de 1908, não repara que o mesmo lhes saiu pela culatra, vitimizando Sidónio em 1918, e António Granjo e Machado Santos, em 1921, para não falarmos em Humberto Delgado, em 1965. Também não repara que o fundador do conceito de ética republicana e de Estado de Direito, um tal Kant, também era monárquico, tal como o teórico da representação e da separação de poderes, Montesquieu. Confessei que um dos meus maiores sonhos políticos era poder ser procurador do povo numas Cortes que instaurasse o poder real, não que restaurassem a monarquia, mas que a reinventassem pelo consenso popular. Mas também reconheci que estávamos em tempo de sementeira, para o médio e longo prazos, não aceitando os facilitismos dos golpes de Estado constitucional que, dentro das presentes regras do jogo, nomeadamente da dupla revisão constitucional, fizessem do rei uma espécie de sucessor de um presidente, quase à maneira do plebiscito de Luís Napoleão. Se assim fosse, nesse referendo, eu, como monárquico, até votaria pela república, como um dia disse o monárquico Fernando Pessoa. Aliás, a banalidade demagógica de alguns dos argumentos regicidas, mesmo os que se disfarçam sob as teses presidencialistas, obrigaria alguns a ter que reconhecer como foi falso o messianismo que precedeu o 5 de Outubro de 1910, quando, apontando para o bacalhau a pataco, nunca referendou o regime e logo tratou de reduzir o colégio eleitoral, para educar o povo dos cavadores de enxada. Hoje, basta consultarmos os relatórios do PNUD, para verificarmos que a maioria dos que estão entre os dez mais dos países do mundo, em termos de índice de desenvolvimento humano são monarquias democráticas, por acaso modelos de democracia pluralista e de sociedade aberta. Basta imaginar o que seria Portugal se em 1945 o rei D. Manuel II ainda estivesse vivo e congregasse todas as forças políticas para a restauração da monarquia, libertando Salazar para Santa Comba e a eventual chefia de um partido da democracia-cristã musculada. Só então se perceberia como seria mais feliz a existência de Portugal sob as cores azuis e brancas da liberdade, onde até a descolonização poderia significar a conciliação das independências dos actuais Palops com a pertença a uma comunidade lusófona, sob o mesmo símbolo da coroa aberta e do abraço armilar de um reino unido a que, para cumprirmos o desígnio de D. João VI, só faltaria o Brasil e a eleição de um descendente de D. Pedro IV para a tarefa.
Monthly Archives: Janeiro 2005
Da conquista do poder
Os políticos que nos dominam apenas pretendem conquistar o poder, mas esquecem-se que o verdadeiro poder tem que assentar na autoridade. Eles são meros actores que não conseguem ser autores, meras criaturas que não são criadores, onde passam a guionistas os donos dos bastidores. E, como actores que são, pretendem reduzir-nos à unidimensionalidade de auditores de uma cidadania passiva, sujeita ao rolo compressor do respectivo delirium tremens. Mas há certos episódios que revelam pormenores típicos de uma récita de amadores em qualquer festa de bairro suburbano e, com todo o respeito pelos gloriosos actores de comédia, a coisa já atinge os píncaros de uma tragicomédia bufa que copia mal as boas cenas da nossa antiga revista à portuguesa. A verdadeira conquista do poder implica que se conquiste a palavra, que se use a persuasão, em vez da força, para levar o outro a obedecer pelo consentimento. Quando a palavra perde o sentido e o político tende a deixar de ter autenticidade, o dito assume-se como alguém que está por cima, falando para baixo, a partir do pretenso lugar em que se acumula o poder, a fim de gerar uma corrente ascendente de influência. Assim se compreende que os recém-chegados à plataforma directiva de qualquer instituição tratem de legitimar-se invocando os antecessores e até os próprios fundadores da coisa, como acontece com a instrumentalização que os líderes do PSD fazem com a fotografia de Sá Carneiro e os do CDS com a de Adelino Amaro da Costa, dado que os do PS têm o fundador vivo e, ainda por cima, como um activo ausente-presente. Pior do que isso: quando os políticos não conseguem convencer o auditor pela palavra e pela invocação do fundador, logo passam à fase dois do convencimento, pelo recurso aos ideologismos ou pelo manuseamento propagandístico. Aqui, a nossa direita em desespero costuma usar aquilo que se qualificava como o “anticomunismo primário”, o exacto inverso do “antidireitismo” da própria esquerda sem argumentos. E, como dizia Brito Camacho, para argumento fraco, voz forte, que argumento forte pode apenas ciciar-se… De qualquer maneira, a conquista do consentimento pela palavra implica a necessária fidelidade ao sentido grego da política, onde a palavra “razão” (logos) é o mesmo do que “discurso”, porque o animal racional é o animal que discursa e o homem é único animal que fala e que, por isso mesmo, deve ter respeito pela palavra dada e cumprir o sentido do discurso, Ora, todos sabemos que neste tempo de teledemocracia, de videopoder e de mediocracia, se continua a ser verdade que, em política o que parece é, e que só existe politicamente aquilo que se comunica, há que atender à circunstância de não se poder comunicar aquilo que não existe e de poderem cometer o erro de fazerem propaganda de uma marca, ou de uma forma, que não corresponde ao conteúdo, com os riscos de rejeitar-se o propagandeado por falta de autenticidade. Não há dúvida que os grandes líderes políticos têm que ser bons actores. Assim o foi Ronald Reagan no auge da revolução conservadora, onde nunca houve falta de autenticidade. Assim o continua a ser João Paulo II, notável actor que também é um dos mais extraordinários autores do século XX. Assim o fez Mário Soares quando recebeu uma bofetada na Marinha Grande. Assim o tentou Marcelo Rebelo de Sousa, quando pretendeu derrotar Sampaio através de um banho nas águas frias de Tejo quase morto. Assim o praticou Cavaco Silva quando se encenou como o homem de Boliqueime, num guião da autoria de Luiza Manuel de Vilhena.
A amargura que invade a nossa democracia
Vivemos em amargura e desencanto face à política. Porque depois da geração revolucionária, plena de entusiasmos ideológicos e de certa qualidade da classe política pós-revolucionária chegou este banho de realidade. Um país de fracos recursos qualitativos, onde a classe política que se mobiliza reflecte a nossa pobreza humana e intelectual. Em segundo lugar, a falta de análise pluralista à nossa classe política. O reconhecimento da existência de grupos de interesse e de grupos de pressão. O não enfrentarmos questões como as da corrupção, ou compra de poder, do financiamento partidário e da “pantoufflage”. O não querermos reconhecer a política como rede, onde manda quem melhor consegue federar a dita. Onde são fundamentais os caciques, entre os quais os herdeiros dos caciques da I República, de José Jacinto Nunes a José Relvas, e do próprio Estado Novo, à semelhança de Bissaya Barreto. A que agora acrescem os tipos da futebolítica, ou os empresários do negocismo ou do investimento estrangeiro. Porque continuamos o regime do neofeudalismo nesta anarquia ordenada. Porque a política, tendo como objectivo levar o outro a obedecer, vive entre os extremos da persuasão e da violência, havendo espaço para a cenoura da recompensa e para o chicote da força, bem como a larga planura da influência. Porque as pressões podem ser abertas e ocultas. Porque há clientelismo, nepotismo e até generosidade. Logo, importa assinalar, como Mancur Olson, que o homem é um indivíduo razoável e calculista que raramente actua pelo bem comum, mas, sobertudo, de forma proporcional à recompensa que espera. Que só nos pequenos grupos, das confrarias às seitas, especialmente nos partidos entendidos como ordens religioso-militares, é que o bem comum domina. No resto é o regime dos vícios privados, virtudes públicas, onde convém, contudo que ninguém use o slogan do “roubo, mas faço”. Continua a faltar-nos uma teoria pluralista da democracia e uma falta de conhecimento da nossa própria história de quase duzentos anos de eleições, desde as listas fabricadas pelo embaixador britânico nos primeiros tempos do liberalismo monárquico às posteriores influências das Maçonarias ou das sacristias. Importa, assim, uma reforma do sistema político que não seja feita de dentro para fora, porque se eu pudesse influenciar reduzia o parlamento nacional à meia centena dos deputados de grande qualidade que costumam ser indicados pelas direcções centrais dos partidos, atirando as segundas e terceiras filas para parlamentos regionais. Até recordei como os partidos têm cumprido aquele preceito original da constituição que determinava a extinção do distrito, impulsionado logo a seguir a 1834 por Rodrigo da Fonseca, o tal raposa. Por outras palavras, como a principal recompensa da participação política é um lugar na lista, todos os grandes partidos se organizam em termos de círculos eleitorais….
Propaganda que não parece propaganda. Campanha
Campanha é slogan, altifalante, comício, palanque de comédia, onde os artistas políticos têm que ser os exagerados publicitários de uma banha cobrada que pinta de esquerda o que é da direita e que põe a direita a piratear a esquerda. Onde, aliás, todos fingem que é verdade a própria mentira em que chafurdam. Apenas desejaria que, em tempo de cegos, tivesse olho, o homem comum, e que o mesmo, através da abstracção chamada povo, se assumisse como o rei de si mesmo, não desperdiçando a plenitude da respectiva soberania na inutilidade do voto dito útil, no comodismo da abstracção, se esta for apenas desleixo, ou na ilusão de escolha pela falsa aposta num desses partidos catch all, nesses omnibus que pilham tudo, estando à direita e à esquerda, conforme os sinais de vento da moda que mexem na madeixa cataventosa dos respectivos líderes. Mas é triste verificarmos como, em plena democracia, se mantêm rituais decadentistas, típicos dos regimes que, antes de deixarem de ser, já o não são, onde emergem os cinzentões serventuários dos crepúsculos e que ainda hoje procuram fazer razias de temor reverencial junto de nova garotagem construída à respectiva imagem e semelhança, a dos mandadores-mandados de novas comitivas e de velhas comendas do mesmo tipo. Esses que nunca ousaram a rebeldia do pensamento livre, só porque também nunca tiveram luz própria, os tais baços espelhos que apenas emitem indirectamente os ténues brilhos dos patrões que os fabricaram pela encomendação. Ei-los, os meros capatazes de uma quinta que sempre foi dos outros, ei-los, os pequenos autoritários do velho autoritarismo, não percebendo que, pura e simplesmente, nunca existiram como seres autónomos. Que descansem em paz, que nos deixem em paz. Há muita coisa nova debaixo do sol. Sobretudo uma pequena semente chamada liberdade. Nem por isso deixo de notar como vai emergindo a fúria puritana que marca o princípio do fim de qualquer situacionismo. E sei reconhecer os habituais reflexos condicionados das nossas uniões de interesses fácticos, de carácter neo-corporativo, sobretudo quando se manifesta a procura de proteccionismo que marca os intelectuais e universitários subsidio-dependentes ou em gestão de carreirismo. Sempre houve desses pretensos Pilatos que, depois de deixarem matar, ou até de mandarem matar, procuram, diante da praça pública, obter a imagem do hipócrita abstencionista. Uma circunstância que, apesar de já ter sido denunciada há mais de dois mil anos, continua a ter alguma eficácia propagandística, sobretudo entre aqueles que continuam a não perceber que a verdadeira propaganda é aquela que não parece propaganda ou até se decreta como anti-propaganda. Nós conhecemos, infelizmente, de muita experiência sofrida, alguns desses nossos pedestais de tal suprema mestria ilusionista. Os tais construtivistas de uma imagem de austeridade, cujo conteúdo real é o exacto contrário daquilo que proclamam. E reconhecemos que um dos males do nosso tempo passa pelos muitos tolinhos que continuam a prestar menagem a esses ídolos com pés de lama. Porque muitos acreditam nesses seres de mentira que parecem a sabedoria, a verdade e a honestidade personificadas, só porque se envolvem no diáfano das serôdias e beatíficas rugas da austeridade. Ora, muitas dessas aparências de angústia apenas resultam dos maus fígados do violentismo e dos péssimos tratos de conduta, sobretudo nos que disfarçam a efectiva biografia em celestiais romances de cordel com que vão enganando Papalvos. Porque em cada encruzilhada e em cada esquina, sempre o respectivo faro de oportunistas videirinhos, marcado pela frieza lógica da vontade de poder, os levou à traição e a não servirem o bem comum, apesar das muitos neologismos vocabulares e dos ilógicos conceitos que gastaram pelo uso e prostituíram pelo abuso.
Nesta democratura controlada pela partidocracia…
Temo que nos transformemos num Portugal quase serventuário, dependente do despacho de um qualquer Sua Excelência, com muitos cartazes de boas festas da autarquia numa evidente manobra de propaganda pré-eleitoral, paga pelo bolso dos contribuintes que não fugiram aos impostos. Temo que acabem por triunfar os biscateiros da política e da economia, aliados dos patrões-comerciantes dos grandes grupos económicos, com os seus caixeiros viajantes feitos deputados e membros do Governo e uma fauna de parasitas e patos-bravos das muitas feiras de coiratos de pedra caiada de branco. Mais uma vez reparei que este começa a não ser o meu país. E, nostalgicamente, mas com muitas saudades de futuro, sinto pertencer a um mundo antigo que será amanhã, quando as unidades político-culturais voltarem a ser feitas de muitas diferenças, quando as pátrias tornarem a ser constituídas por muitas pequenas pátrias, as patrias chicas do castelhano que, entre nós, eram poeticamente qualificadas como santa terrinha. Reparo que, neste primeiro dia do fim do proteccionismo, torna-se cada vez mais evidente o fracasso do rolo compressor de abstractos sistemas que se escondem por trás de certas tretas, ditas inevitáveis. Em nome do europeísmo usurpado pelos eurocratas. Em nome da tal globalização, assaltada pelas sucursais chinesas das multinacionais que aqui se expandem pelas lojas que eram ditas dos trezentos. Nesta democratura controlada pela partidocracia, as ditas elites não passam de corporativismos de casta, onde a retórica e a capacidade mediática apenas ocultam a verdade de vivermos sob uma ditadura da incompetência. Continuamos presos a uma mentalidade tacanha produzida por uma sociedade efectivamente fechada, onde os reais donos do poder precisam de continuar a ocultar-se atrás dos feitores de uma politiqueirice profissional e tachenta, onde há mais actores do que autores, esses autómatos do Estado-Espectáculo que vão mudando o discurso conforme os guionistas que os investidores nesta Papalvice contrataram. Dói, sobretudo, sentir como a nossa comunicação cultural e a nossa universidade foram assaltadas por esses intelectuais tradutores em calão de vulgatas exógenas, que o nosso provincianismo mental continua a saudar como as maravilhas fatais da nossa idade. Daí que a universidade seja feita à imagem e semelhança desta classe fechada, onde a chamada autonomia foi usurpada pela federação situacionista dos amigalhaços da rede instalada.
Cosmopolis
Falta ainda muita viagem por cumprir para que os homens de boa vontade possam passar as tormentas a alcançar a boa esperança de um caminho para a humanidade, quando o ser vencer o ter, quando o amor vencer a guerra. Quando tratarmos o outro como o próximo, o vizinho, o conterrâneo, o compatriota, o nosso irmão. Quando, sem negarmos as pequenas pátrias e as grandes pátrias, soubermos ascender à terra dos homens, à cosmopolis e pudermos dizer, como Pessoa, “tudo pela humanidade, nada contra a nação”, mas desde que cada nação seja entendida como caminho para “uma super-nação futura”. Quando vencermos os impérios que nos invadem, de forma visível e invisível, pelo mercado ou pela colonização cultural. Quando, de mãos livres, pudermos ter fé no homem, no seu destino ou no seu transcendente. Quando o abraço armilar nos voltar a aquecer. Não, ainda vivemos nas guerras civis ideológicas, nas guerras frias culturais, nas guerrazinhas de homenzinhos, desses que são marcados pela vontade de poder, nesta anarquia mansa que, subterraneamente, nos amarfanha pelas longas teias da cobardia, gerando as sucessivas ditaduras do situacionismo e da incompetência. Insurge-te contra este mais do mesmo, desobedece aos compadres e comadres desta sociedade de Corte, não admitas que, no espaço público, em nomes das razões de Estado, se pratique aquilo que não admites em tua casa, na tua família, na tua rua, na tua terra. Volta a ser um homem livre, não tenhas medo!
Cosmopolis
Falta ainda muita viagem por cumprir para que os homens de boa vontade possam passar as tormentas a alcançar a boa esperança de um caminho para a humanidade, quando o ser vencer o ter, quando o amor vencer a guerra. Quando tratarmos o outro como o próximo, o vizinho, o conterrâneo, o compatriota, o nosso irmão. Quando, sem negarmos as pequenas pátrias e as grandes pátrias, soubermos ascender à terra dos homens, à cosmopolis e pudermos dizer, como Pessoa, “tudo pela humanidade, nada contra a nação”, mas desde que cada nação seja entendida como caminho para “uma super-nação futura”. Quando vencermos os impérios que nos invadem, de forma visível e invisível, pelo mercado ou pela colonização cultural. Quando, de mãos livres, pudermos ter fé no homem, no seu destino ou no seu transcendente. Quando o abraço armilar nos voltar a aquecer. Não, ainda vivemos nas guerras civis ideológicas, nas guerras frias culturais, nas guerrazinhas de homenzinhos, desses que são marcados pela vontade de poder, nesta anarquia mansa que, subterraneamente, nos amarfanha pelas longas teias da cobardia, gerando as sucessivas ditaduras do situacionismo e da incompetência. Insurge-te contra este mais do mesmo, desobedece aos compadres e comadres desta sociedade de Corte, não admitas que, no espaço público, em nomes das razões de Estado, se pratique aquilo que não admites em tua casa, na tua família, na tua rua, na tua terra. Volta a ser um homem livre, não tenhas medo!