Para ser politicamente incorrecto e tentar fugir aos tradicionais ódios de quem sempre fui distante adversário, apetece dizer que graças ao protagonismo de Álvaro Cunhale do PCP no movimento unitário antisfascista de 1945, os aliados ocidentais, vitoriosos da guerra contra o nazi-fascismo, não favoreceram um movimento visando o afastamento de Salazar no pós-guerra. Basta recordar que nesses tempos, o próprio Mário Soares era um jovem colaborador desta forma portuguesa de servir o estalinismo. Deste modo, foi pela existência do profissionalismo revolucionário de Cunhalque o salazarismo conseguiu perpetuar-se e até receber o privilégio de fundador da OCDE, da NATO e da EFTA. Até poderemos acrescentar que a queda do Estado Novo só foi admitida depois da emergência da extrema-esquerda, a partir da cisão maoísta de Francisco Martins Rodrigues nos anos sessenta, o tal factor revolucionário imprevisto que o cunha lismo não conseguiu controlar e que constituiu, talvez, a principal alavanca que permitiu a emergência de Mário Soares e de um socialismo democrático, aliado do modelo ocidental de democracia. O tal esquerdismo, dito doença infantil do comunismo, gerando uma pluralidade de albaneses e chinocas em ritmo lusitano, da OCMLP ao MRPP, habilmente impulsionado pela CIA, desmantelou a hieraraquia do centralismo democrático, tão laboriosamente construída pelo ex-camarada Daniel. O inteligente, sedutor e cruel revolucionário profissional, para utilizarmos os justos adjectivos com que hoje foi brindado por uma sua criatura, a deputada Zita Seabra, agora ao serviço dos laranjas, não conseguiu assim lançar as bases daquilo que chegou a constitucionalizar como construção do socialismo, antes de muitos antigos cunha listas se ilusionarem com outros construtivismos, como o dos eurocratas, para que todos fôssemos meros cidadãos em construção, peças de um processo histórico, segundo o qual seria um certo caixilho ideológico dito história que construiria o homem. Felizmente, a história acaba por ser uma co-criação de homens livres, onde os indivíduos podem erguer a mesma história, ainda que não saibam que história vão fazendo. O paradoxo cunha lista está na circunstância de só poder haver colectivismos, como o pêcêpista, quando emergem voluntarismos indidividualistas, como os de Cunhal, o tal revolucionário profissional que, muito organizadamente, através de um vanguardismo hierárquico, dito centralismo democrático, obedece à rigidez do aço, com mão de ferro, tentando quebrar a força normativa dos factos. Afinal, aquilo que Guerra Junqueiro tinha profetizado em plena I República como a inevitável chegada de um D. Sebastião científico, acabou por configurar-se como a foice e o martelo da personificação de Manuel Tiago, que foi tão abstracto que, até pelo desenho, tentou criar um povo que nunca existiu, com a beleza trágica de camponeses e operários que só no delírio ideológico tiveram realidade. E não é por acaso que o passamento desse actor político ocorreu no pleno momento em que a Avenida da Liberdade lisboeta vivia a emoção das marchas ditas populares do Santo Antoninho, essa tradição inventada pelo salazarismo em 1934, no preciso ano em que também era inaugurada a estátua do marquês de Pombal, já em pleno Estado Novo, com a Maçonaria do Grande Oriente Lusitano, na véspera de ser extinta, ainda aparecer numa cerimónia oficial, ao lado de Duarte Pacheco e Linhares de Lima, os últimos representantes da ala republicana do 28 de Maio que Salazar tão habilmente manipulou.