Neste país dos mortos-vivos, os escaparates estão cheios das obras completas de Isaltino de Morais e as discotecas, prenhes dos sermões de Valentim às filigranas, enquanto se anunciam “videos” com as sessões de radicalismo mota-d’água de Marques Mendes, bem como CDRoms com os diálogos entre Soares e António José Teixeira, com oferta suplementar das homilias selectas de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI.
Isto é, enquanto o sonho de cadaverosos adiados nos continuar a putrefazer, seremos rebanho de mortos-vivos, sempre atrás dos sucessos bancários de Loureiro/BPN e de Pinto/BCP, declarando o nosso ódio politicamente corrrecto às elites dominantes, mordendo nas canelas dos zombies soarentos e cavaquistanenses e produzindo mais autonomia da sociedade civil, com ex-padres, ex-ministros e ex-pulhas fazendo discursos de moralidade sobre os direitos adquiridos da ex-corrupção, transformada em honesta fortuna por causa do usucapião.
O Professor Jorge Miranda irá ao telejornal explicar os próximos passos da futura revisão constitucional; haverá um debate entre o Professor Adriano Moreira e o Professor Freitas do Amaral sobre a reforma da ONU; António Vitorino elaborarará o próximo projecto da constituição europeia, que, aliás, é coisa parecida à circunstância de Salazar ter corrido em cuecas na primeira meia-maratona, ou de Álvaro Cunhal ter substituído Francisco Pinto Balsemão como director da revista “Caras”, antes do fadista João Braga ter sido designado mandatário da candidatura de Manuel Alegre, até porque os Professores Carrilho e Prado Coelho perderam as eleições, apesar da ajuda dada pelo maestro António Victorino de Almeida.