Out 27

As universidades, as escolas de regime e os exames de mandarinato

Comentando as causas que envolvem a vergonhosa fuga de cérebros, nada melhor do que ver a agenda de um professor catedrático numa universidade pública, onde mais de metade do tempo do que deviam ser aulas se gasta em dilatórias reuniões de conselhos, com bailados de discussões de primas-donas em torno de actas, códigos de procedimentos administrativo, relatórios de avaliações e outras apreciações com que a burocracia mental da governação daquilo a que chamam Europa está enredando os portugueses, ensarilhados pelas ervas daninhas da subsidiocracia, dependente da nomeação decretina, do favor partidário, do clientelismo e da cunha , quase nos obrigando à filosofia da mão estendida e do dobrar da espinha. As universidades públicas começam a ser ameaçadas pelo conceito de escolas de regime, onde o grau de pretensa cientificidade tende a ser directamente proporcional à proximidade com um qualquer grande chefe da partidocracia, do gabinete ministerial ou das boas graças que uma qualquer luminária mantenha com um mecenas, se possível banqueiro. Daí que possamos passar para a forma de colégios de mandarinato, onde o saber se transforma num instrumento do poder e onde a cultura pode deixar de rimar com homens livres. Porque estes, fartos de manipulações de corredor e de golpadas de salão, começam a perguntar onde fica o exílio, nem que seja o da solidão criativa, a única que ainda nos propicia um mínimo de independência crítica, sem a qual não há liberdade, identidade, autonomia e até aquele bem cada vez mais escasso a que os antigos davam o nome de independência nacional. Confesso que, sobre a matéria, padeço daquele conceito de bem educado, bebido na pequena burguesia de rurícolas origens, assente num amadurecimento feito em democracia pluralista e Estado de Direito, onde aprendi a resistir à opressão, procurando estar sempre de acordo com os meus princípios, crenças e valores, mesmo que momentaneamente tenha que enfrentar uma maioria flutuante dos que preferem a vontade de todos dos interesses, à vontade geral do todo. Neste domínio, não aceito consensos de campanha eleitoral, preferindo o consenso dos que pensam de forma racional e justa e fazem um esforço para passar da opinião ao conhecimento. Ai da universidade se não se organizar hierarquicamente em torno do bem supremo da sabedoria, que nunca coincidiu com o apetite dos rebanhos feitos pelo temor reverencial da multidão solitária que procura a protecção na encomendação feudal, face ao vazio da justiça meritocrática.

Out 27

Democracia, sondajocracia, presidenciais e fuga de cérebros. O de como a avenida da liberdade passa a ser dos aliados

Apesar de não ter causa presidencial que me mobilize, julgo que é possível semear nos interstícios desta luta do poder algumas sementes de um sonho político que possa superar o revanchismo e o facciosismo que nos vão poluindo. Porque as candidaturas presidenciais sempre foram ínvios atalhos de acesso à visibilidade dos que se acobertam à sombra dos cabeças de cartaz. Até agora, se houvesse prémios de candidatura, diríamos que o prémio da melhor palavra de comentador dos outros rivais vai para Alegre. O prémio do ventríloquo de si mesmo cabe a Soares. O de gestão dos silêncios para Cavaco. Dos outros pouco vai rezar a história. Com Soares arrependido pelos elogios que outrora fez a Louçã. Com Jerónimo em mangas de camisa a sustentar o velho quadrado de uma tribo de que desertou Saramago.

 

 

 

Foi cercado por estas reflexões intímas que participei mais uma vez como comentarista no “Forum da TSF” a convite de Manuel Acácio, onde tentei dizer que democracia não é sondajocracia, que o acto de escolha eleitoral é demasiado soberano para ficar dependente de prévias sondagens feitas antes do começo de uma campanha eleitoral e antes mesmo da apresentação dos programas dos vários candidatos. Porque, de outra maneira, as eleições presidenciais seriam mero passeio numa qualquer Avenida. Soares disse que seria na da Liberdade em Lisboa, sem nos comunicar se ele seria a subir ou a descer, se ele começaria nos Restauradores ou na estátua do déspota que a encima. Por mim, julgo que elas podem ser um passeio, mas na Avenida dos Aliados, dado que os principais candidatos são os representantes máximos do situacionismo a que chegámos, desse “status in Statu” e dessa “ditadura do statu quo” em que vivemos, como se manifesta nas várias comissões de honra dos candidatos.

 

 

 

Salientei que, face aos resultados do barómetro, está superada a velha divisão inventada por António Barreto, então do MASP, que nos dividia entre um povo de direita, freitista, e um povo de esquerda, soarista. Julgo que nunca Cavaco não quer ser o tal representante do povo de direita e que Mário Soares tentará roubar o discurso ao antigo líder do PSD.

 

 

 

Até acrescentei que está em baixo o nível de controlo do aparelhismo partidocrático, dado que, para efeito de presidenciais, Sócrates e Marques Mendes não existem. O primeiro com um governo sem estado de graça, apenas tem favorecido Alegre. O segundo incomodaria imenso Cavaco Silva se aparecesse muito a colar o PSD à campanha daquele que foi o coandidato derrotado por Jorge Sampaio. Apenas Jerónimo e Louçã tentarão medir as respectivas fidelidades partidárias, visando saber quem comanda a segunda divisão da esquerda mais próxima das margens do sistema.

 

 

 

Desta maneira, as sondagens premeiam a gestão dos silêncios feita por Cavaco, consagrando-se a história da pescada que, antes de o ser já o era. Acresce que muitas das discussões que se vão emitindo sobre a matéria quase parecem posturas de heterónimos e de ventríloquos. Primeiro, com a predominância dos porta-vozes e com a emergência dos mandatários de juventude ou de música, com Soares a vestir-se de Joana Amaral Dias, Cavaco, de Kátia Guerreiro, e Alegre a não saber se há-de escolher um fadista ou um artista de banda “rock”.

 

 

 

Julgo, contudo, que os candidatos, enquanto grandes actores da política irão introduzir algum dramatismo no processo, desde a teoria da bofetada da Marinha Grande, à espera do milagre que costuma ocorrer perto de Fátima, a estórias e estórias de um passado que já não há, falando no vôvô Soares, no tio Aníbal que fez obra ou no primo Manel que é um fazedor de letras e poemas para todos cantarmos, sem ser em dó menor.

 

 

 

Apenas me apetece dizer que todas as revoluções são pós-revolucionárias e que os vencedores chegam sempre no dia seguinte. Basta recordar o 25 de Abril de 1974 que, de acordo com a versão pluralista do Estado de Direito, triunfante em 25 de Novembro de 1975, data terá a comemoração do trigésimo aniversário daqui a um mês, acabou por consagrar como principais protagonistas tanto Soares como Cavaco.Nenhum dos candidatos até agora comentou a recente publicação de dados do Banco Mundial, segundo os quais Portugal é uma vergonha quanto à fuga de cérebros, onde estamos ao nível do Malawi e da República Dominicana, no último lugar da Europa e numa vergonhoso 21º lugar a contar do fim, dado que 20% dos nossos licenciados parte para o estrangeiro, face à evidente violação dos princípios da igualdade de oportunidades e de valorização da meritocracia, provocado pelo soarismo e pelo cavaquismo. Esperemos que os habituais educacionólogos e avaliólogos continuem a entoar a respectiva música celestial.