Out 22

Ir à Madeira e não falar de Jardim…

Ir à Madeira e não falar de Jardim, denunciando o défice democrático, o regionalismo e o caciquismo é a mesma coisa do que ir a Roma e não ver o Papa, ou visitar São Pedro de Sintra em dia de feira e não tomar café com o senhor duque de Bragança. Por isso, depois de ter, muito aristotelicamente, viajado em torno de ideias neo-clássicas, tão aristotélicas e tomistas quanto kantianas, e tão cristãs quanto para-judaicas e para-maçónicas, entre Maritain, Hayek e Leo Strauss, junto de muitas caras de água benta e outras tantas notas pé-de-página da doutrina vaticana, não deixei de observar aquela lusitaníssima ilha, onde quase todas as conversas vão dar a Alberto. Para mim, Jardim constitui, com o seu perfil de bobo-mor do regime, o máximo do situacionismo vigente em Portugal, não apenas por ser o político partidário com mais tempo de permanência sob os holofotes do poder, como, sobretudo, por ter sido elevado pela comunicação social capitaleira à condição de monopolizador dos discursos do contrapoder. Por outras palavras, de acordo com as regras do jogo vigentes, Jardim é aquele que ciclicamente é usado pelo reino da mediacracia para ser elevado à categoria de expoente máximo do oposicionismo, para que os sistémicos possam, muito subliminarmente, ditar que todos os discursos contra o sistema têm que ser necessariamente populistas, semi-rascas e adeptos de uma personalização do poder geradora de clientelismo, partidocracia e favoritismo. De certa maneira, aconteceu a Jardim o que está a suceder ao radicalismo esquerdista e a Louçã, dado que também estes tendem a cair na versão populista do desespero na caça ao voto, um pouco à imagem e semelhança dos pecados que marcaram outros epifenómenos como o eanismo moralista do PRD, o monteirismo soberanista ou a revolta das pretensas classes médias dos porteiros. Todos os situacionismos necessitam de sistémicas válvulas de escape, onde a verbosidade finja que é possível mudar, para que tudo continue na mesma. E até lhes são mais convenientes os radicalismos que sejam rigorosamente controlados pela mesa do orçamento, ou pelo subsídio de um banqueiro. Qualquer populista faz do faro oportunista uma alteração anormal das circunstâncias e de acordo com a velha máxima do “sic rebus, sic stantibus”, tanto faz campanha eleitoral em Leiria defendendo a construção do aeroporto da Ota, como, depois, se assume como líder das subscrições públicas contra o dito aeroporto. Por outras palavras, como dizem certos capitaleiros, se Alberto João não existisse, teria que ser inventado. Vale-me que não sou madeirense nem habito na região, porque se assim fosse, eu próprio corria o risco de o apoiar eleitoralmente, dada a respectiva eficácia sindicalista contra o Terreiro do Paço e os serviços prestados como cacique, como gestor dessas migalhas de poder estadual. Que, olhando o mar deste presépio funchalense, sinto no cais de pedra a que atraquei, a saudade de outras pausas de viagem e de outros intervalos de paz. Apenas recordo uma velha história que me foi contada por um dos fundadores do CDS que veio aqui para o Funchal, nos primeiros dias de Abril, para implantar o partido, mas depressa foi chamado pelo senhor bispo de então que o aconselhou a regressar depressa a Lisboa, a fim de não dividir o rebanho. Alberto João tornou-se assim num eficaz líder daquilo que no pós-guerra tinha o nome de democracia-cristã, num estilo de Dom Camilo laico, e que então se acolheu sob o nome sincrético de social-democracia, o carimbo conveniente para uma encruzilhada que tinha de ser simultaneamente anti-liberal e anti-comunista. O rebanho e o líder cumpririam a respectiva função, para gáudio de rechonchudos, discursos-bissectrizes e engraxamentos celestiais e com muitos benefícios para o bom povo.

Out 22

Homens livres de todo o país, indignai-vos! Pela declaração do estado de sítio educativo!

Se assim quero saudar e homenagear a eficácia educativa do Opus Dei, dos jesuítas e dos maristas, também ouso rir-me de todos quantos invocam a teoria da conspiração sobre a hidra maçónica. Como simples militante da religião secular da democracia e sem ser republicano, laico ou socialista, isto é, assumindo-me, até, como tradicionalista, adepto da liberdade de ensino do transcendente e liberal, sem filiação católica, protestante, judaica, islâmica ou maçónica, pergunto se haverá hipótese de um qualquer actual ou ex-ministro educativo do actual regime vir a público manifestar vergonha pela flagrante violação do princípio constitucional da igualdade de oportunidades. A não ser que consideremos que o último ministro foi Veiga Simão e que, no actual, apenas co-optámos pelos filhos e netos do dito cujo, incluindo um que Salazar chegou a convidar para tal em 1962. Acresce que, como português, adepto da luta contra a desertificação das periferias e até do próprio regresso ao conceito medieval de povoamento, me indigno contra a circunstância de o país não litoralizado e não metropolitanizado ter a esmagadora maioria das suas escolas públicas e privadas nos últimos lugares. Como antigo aluno de escolas públicas não capitaleiras e pai de três filhos que sempre frequentaram o ensino público, isto é, vivendo como penso, sinto-me no dever de reclamar a declaração do estádio sítio do sistema público educativo. Como liberal, não reclamo a publicização do privado ou o lançamento de medidas de efeito equivalente à persiganga, mas antes que regressemos aos sãos princípios da justiça, que sempre obrigaram a que tratássemos o desigual desigualmente, establecendo efectivas condições para a prática da igualdade de oportunidades. Como dizia Aristóteles, citado por Marx, de cada um segundo as suas possibilidades, para darmos a cada um conforme as respectivas necessidades. Mas segundo a interpretação liberal que manda corrigir o processo pela meritocracia e pela excelência. Até eu, como professor catedrático do ensino público, nunca tive orçamento para colocar os meus filhos nos colégios privados de gente rica. Nem suficiente fidelidade católica para os inscrever com autenticidade em escolas onde, como tal, são devotamente educados em tal confissão religiosa. Apenas tive a ilusão de, na República Portuguesa, gerida por socialistas e sociais-democratas, quase todos republicanos e laicos, incluindo muitos que metem cunha  para os respectivos filhos irem para colégios privados religiosos, se praticarem os sagrados princípios da igualdade humanista, cristã ou maçónica. Homens livres de todo o país, se isto não é uma conspiração, uni-vos e indignai-vos!

Out 22

Democracia e restos de subsistemas de medo

Uma sociedade aberta e pluralista não pode manter os tiques escleróticos do subsistema de medo, herdados do autoritarismo, muito especialmente se os mesmos actores da persiganga salazarenta  continuarem, muito decretinamente, antiquadas condutas de “signoria”. Se este regime teve a grandeza de lhes reconhecer a qualidade, olvidando as zonas sombras do respectivo “curriculum” despótico, e sem sequer lhes pedir uma reconversão ao estilo da ploiarquia e do consensualismo, isso não significa que tenhamos de silenciar as brutalidades dos salamaleques vigentes. Os conspiradores de alcatifa que se assumem como supremos conselheiros dos sucessivos poderes que se vão sucedendo neste vazio de autoridade a que chamam regime, se podem continuar a sanear pela vindicta nihilista, não podem escapar a estas notas de pé de página, onde chamo mau cozido à portuguesa à imagem de esparguete à bolonhesa com que querem liquidar a obra fundada por el rei D. Dinis. Custa-me que o patriotismo científico e a religião secular da democracia continuem a ser contaminadas por vérmicos processos de maquiavelismo de salão, mesmo que disfarcem com o pó de arroz de afamadas aparições mediáticas em concertos de música celestial.    Afinal, continuamos a preferir o decretino nomeativo à velha justiça da igualdade de oportunidades e não parece que sejamos capaz de decepar o atavismo inquisitorial das irresponsáveis denunciações de ouvida que, ainda no século XX, se reanimaram com a versão ministerialista da bufaria pidesca. Etiquetas: autoritarismo, decretino, democracia, inquisitorialismo, maquiavelismo de salão, patriotismo científico, persiganga, subsistema de medo