Se alguém quiser fazer um ensaio sobre o atavismo e a sociedade da corte, nada melhor do que visitar Portugal e penetrar nos meandros das chamadas comissões de honra das várias candidaturas presidenciais. Aí pode detectar a efectiva lista dos anteriores beneficiários das comendas, do decretino e até do saco azul, quando os candidatos exerciam funções cimeiras, como supremos gestores do aparelho de poder da companhia Pátria, S.A.R.L., isto é, no tempo em que se podia ser anónimo e de responsabilidade limitada. Agora, cada candidato convocou a respectiva pequena corte para uma sessão televisionada de má passagem de modelos, transformando o povão em passivo auditório do discurso dessa pretensa elite, mais oligárquica do que aristocrática. Inevitavelmente, os lugares do primeiro banco da sala são quase todos ocupados pelos financiadores, com ilustres banqueiros e donos de afundações, bem acompanhados pelos ex e actuais gestores daquilo que era o sector empresarial do Estado, onde se incluem antigos ministros, nomeados pelos respectivos sucessores, e pelos dirigentes-angariadores da Liga Contra os Salários em Atraso, nos clubes de futebol. No meio da sala, semeiam-se intelectuários e avençados, bem como inúmeros propagandistas ditos “opinion makers”, não faltando os que, vivendo da consultadoria, precisam de estar bem com Deus e com o Diabo. Aqui e além, um ou outro idiota útil, sonhando integrar a procissão do vencedor, à espera de uma qualquer futura comenda ou de um lugarzito no avião presidencial, na próxima visita oficial que se fizer à Mongólia, ao Taiti ou uma qualquer republiqueta onde haja coqueiros para subir ou tartarugas para cavalgar. Os restantes apenas estão sequiosos de um qualquer minuto de fama nas recepções da diplomacia do croquete, dentro da habitual ética republicana da sociedade da corte. Com efeito, este desviacionismo de feira das vaidades, apenas confirma que o órgão monárquico mais democrático do presente regime político precisa de fingir-se aristocrático, para que se conclua esta nostalgia pelos sucessivos “anciens regimes” que nos façam retroagir pelo tempo em que os animais não falavam e os vivos não eram cadáveres adiados que procriavam discursos enlatados pelas agências de “marketing” político. Por outras palavras, as comissões de honra são a cedência dos presidenciáveis à moda do “jet set” em ritmo de “reality show” de uma qualquer quinta das celebridades, onde não faltam oficiais-generais em risco de desactivação. E porque os publicitários campanheiros são sempre uns exagerados, os presidenciáveis acreditaram que “é disto que o meu povo gosta”.
Daily Archives: 31 de Outubro de 2005
Entre déspotas e Viradeiras, na véspera do terramoto
Neste Portugalório das minúsculas com a mania das grandezas, quando o mau tempo nos vai trazendo a boa chuva e os grandes do futebol empatam todos, nada como comover-nos com a homenagem prestada por um dos nossos melhores comunicadores televisivos, antigo ministro da educação nacional de Salazar e Caetano, ao máximo unificador comum da esquerda e da direita, esse déspota pretensamente iluminado chamado Sebastião José de Carvalho e Melo que, enquanto esteve no supremo poder se encheu de comendas feitas do concreto de milhares de prédios. Quando o salazarismo e certa herança maçónica elevam o déspota a interruptor da avenida da liberdade, podemos concluir que o nosso ciclo político decadentista anda sempre entre déspotas e Viradeiras, entre o desespero da personalização do poder que, em nome do abstracto Estado, procura comprimir o pluralismo, proclamando o fim dos corporativismos e dos dos privilégios, e a frustração restauracionista do “satu quo ante” das Viradeiras. Acontece sempre uma infernal sucessão de revolucionarismo sem reforma e de reaccionarismo situacionista que procura repor o que estava, a que se dá o nome de conservadorismo, o exacto contrário daquele centro excêntrico de uma tradição capaz de sustentar a mudança. Paradoxalmente, as várias esquerdas e as várias direitas tendem a elogiar a terapia sísmica do terramoto, com o laicismo maçónico a aliar-se ao salazarismo, na inauguração da estátua desse símbolo do usurpador. Por mim, que não quero ter que escolher entre o despotismo dito esclarecido e a Viradeira dita obscurantista, apenas quero rejeitar estes falsos atavismos, cuijas variações tanto produziram o salazarismo, do despotismo reaccionário, como o revolucionarismo do despotismo vanguardista. E assim continuamos amarfanhados entre a ameaça de personalização do poder e o falso progressismo caceteiro, ambos assentes naquele colectivismo moral que tende a instrumentalizar tal dialéctica, onde não faltam congreganismos e anticongreganismos de sinal contrário, sempre adversários do pluralismo e da autonomia dos políticos, infra e supra-estatal. Nas candidaturas presidenciais que por aí se pavoneiam, muitos procuram ressuscitar, de forma subliminar esse simbólico do despótico iluminado, pelo que Sebastião José ameaça voltar a agitar o não adormecido fantasma dos nossos medos ancestrais. Podem repetir, como Martin Luther King, que “have a dream”, mas falta a muitos a necessária ideia de um Portugal plural, incompatível com merceeiros de lápis atrás da orelha e bata cinzenta, prometendo betão e folhas quadriculadas da contabilidade bancária.