Neste país de seitas, capelinhas e facções, leio os adormecentes semanários políticos de fim-de-semana, com diplomatas aos beliscões, autarcas em julgamento, arquitectos em retirada, professores em bolonhesa, sociais-democratas em estado de graça, socialistas em crise e comunistas com esperança, continuo neste meu exílio interno, dado que temo pela minha tendência para aquela patuleia que não aplaude o regresso de Costa Cabral nem gosta de passar cheques em branco aos politiqueiros do negocismo. Tento assim procurar a minha identidade. Reconheço-me como um adepto do capitalismo e da democracia bem liberais, citando Fernando Pessoa, para quem o Estado está acima dos cidadãos, mas o homem, acima do Estado. Estaria com o Sinédrio em 24 de Agosto de 1820. Desembarcaria no Mindelo cerca de década e meia depois, mas sempre preferiria que D. Miguel se tivesse consorciado com D. Maria II ou que o Imperador do Brasil acumulasse com o título de rei de Portugal. Isto é, sou por um regime de homens livres, por uma sociedade de indivíduos. De facto, porque sou greco-romano demais, não sou católico, nem protestante, mas descendente em linha colateral daquela pré-modernidade renascentista, muito armilar e manuelina, ao estilo de Luís Vaz e Damião, quase primo dos heréticos e muito contaminado pelas ideias sincréticas dos judeus errantes. Sou assim mais anti-moderno do que pós-moderno, porque tenho nostalgia daquela modernidade que produziu as revoluções frustradas de ingleses e de norte-americanos que não precisaram de traduzir em calão a revolução francesa. Daí gostar das moderações cartistas, anti-reaccionárias e gradualistas. Prefiro o homem revoltado contra o homem novo. Sou pouco dado a estadualismos, seitas, vanguardismos e legalidades revolucionárias. Sou tão frustrado como Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque e Alexandre Herculano. Estou farto de politiquices que levem ao poder. Estaria com as incursões de Paiva Couceiro, não apoiaria Sidónio Pais e, se, para tanto tivesse idade, andaria à sacholada contra o autoritarismo salazarento, como o fizeram meus avoengos.
Daily Archives: 16 de Outubro de 2005
Da necessária repolitização do Estado
A NECESSÁRIA REPOLITIZAÇÃO DO ESTADO
POR JOSÉ ADELINO MALTEZ
Desafiado para uma meditação mensal de três mil caracteres numa nova revista vocacionada para a economia e os negócios, neste país de seitas, capelinhas e facciosismos, talvez importe começar por reconhecer que, como não é possível mudar os portugueses que temos, através das técnicas daquela engenharia totalitária, que tinha a ilusão de construir um homem novo, talvez seja melhor ultrapassarmos as questiúnculas pós-eleitorais em que se enreda a presente classe política e procurar detectar alguns elementos para a uma profunda reforma que venha da sociedade para o Estado, com mais política e menos partidocracia.
Talvez importe reconhecer que nosso problema não está em repetirmos o velho slogan do menos Estado, mais sociedade, mas antes em termos um melhor Estado, em repolitizarmos o Estado, diminuindo a gordura muscular dos respectivos aparelhos, calcificando as estruturas ósseas do mesmo e fazendo com que, nas articulações com a sociedade, seja eliminado o método da corrupção, ou compra do poder.
Por enquanto, com uma teledemocracia, onde a tríade dominante é a imagem, sondagem e sacanagem, para citar Manuel Alegre, temos uma autêntica ditadura da incompetência dos poderes fácticos e do neo-corporativismo. Assim, é natural que as estrelas politiqueiras desçam ao nível daqueles maus actores de tragicomédia que não sabem ser os autores da necessária regeneração nacional que nos liberte de séculos de colectivismo moral, entre o inquisitorialismo de má memória e o autoritarismo pidesco, ambos marcados pela mesma bufaria moral que, agora, posta ao serviço de ocultos lobbies, quer destruir a forma humana de vivermos.
Há que sairmos desta amargura de um teatro de má revista, onde se pavoneiam uma direita que convém à esquerda e uma esquerda fabricada e subsidiada pela direita dos interesses, onde os verdadeiros donos do poder continuam a estar invisíveis, gerindo, a partir dos bastidores, a teia de um centrão que até já integra a própria extrema-esquerda.
Com efeito, as piores crises políticas são aquelas onde nem sequer é possível uma consensualização quanto às próprias causas da crise, especialmente quando preferimos tomar o remédio que alivia a dor, mas mantendo o atavismo da epidemia. Também no último quartel do século XIX, o liberalismo monárquico português se enrodilhou em decadência e a crise levou décadas, infestando a própria República, que não conseguiu implantar o sonho do bacalhau a pataco, dado que, depressa entrou no regime do mais do mesmo, onde o eficaz oportunismo dos adesivos acabou por sair vencedor.
Confesso que já estou cansado de tanta operação de desmantelamento das manobras do eterno sindicato dos ressabiados e de ouvir tantos discursos celestiais sobre o sexo dos anjos, entre executantes das estúpidas teorias da conspiração e pequenos maquiavéis de cordel subministerial. Apenas posso confirmar a existência de sociais-fascistas, isto é, da eterna aliança de estalinistas e salazaristas, num caldo de cultura da patifaria, sandeu demais para a minha concepção do mundo e da vida. Por mim, continuo a ser institucionalista, a querer ideias de obra, obediência a regras e manifestações de comunhão em torno de coisas que se amam. Rejeito todos os que continuam escravos dos grandes chefes de outrora, esses ausentes-presentes que proclamam o depois de mim, o dilúvio, deixando como sucessores os inconscientes cães de fila.
As tais elites dominantes do politiquês, se proclamam mitos e cantarolam convicções, não têm a sustentá-los uma única ideia mobilizadora, tal como nem sequer conseguem exprimir um sonho. Secaram. Perderam as raízes que os deveriam ligar às correntes profundas que dão sentido a um povo. Estagnaram na verborreia que os notabilizou como actores das jogatanas políticas intestinas dos congressos e dos conciliábulos partidários. Especialistas em jogos de bastidores e na política de public relations com o chamado quarto poder, nomeadamente com os investidores do capital e com os fabricantes das agendas mediáticas, não passam de papagaios de papel colorido que apenas permanecem enquanto durar o vento que os fez ascender ao horizonte da visibilidade e não se quebrarem os cordéis dos interesses que os manipulam.